AMSTERDAM




Amsterdam, nove anos depois! Tudo no mesmo lugar. Pernoito no Hotel Ibis, próximo do aeroporto, pois prossigo amanhã cedo para Frankfurt. A planura sem fim, a Holanda não tem relevo. Tomo um trem para a Estação Central de Amsterdam. A velha Centraal Station, no centro de Amsterdam velho de guerra, por onde vaguei e me perdi em meus tempos de hippie nos anos 70. Hippies estão extintos como os dinossauros, mas Amsterdam continua uma cidade jovem. Em meus primeiros passos pela área defronte à estação, eu, agora já na meia-idade, senti-me um tanto um estranho no ninho no sobretudo dos anos 50 que pertenceu ao meu pai. Rodei pelos mesmos lugares por onde já rodara tantas vezes antes. Sentei-me no Dam em meio aos novos jovens: um deles, observei, enrolava um “baseado” de maconha — já pensou alguém enrolar um baseado em plena Cinelândia? Um crioulão discretamente me abordou, perguntando se desejava “make business”; educadamente recusei. Cartões postais fazendo a apologia bem-humorada do grass indicam que a subcultura das drogas perdura na Holanda; recente matéria na Time explicou que a política do país consiste em liberalizar drogas leves para deter a proliferação das pesadas. Quando o risco de consumir drogas leves ou pesadas é o mesmo, o consumidor prefere as últimas. Revi o Leidseplein, o prédio do Rijksmuseum, detive-me em alguns bancos à margem dos canais: passaram alguns barcos exóticos, num deles, multicolorido, um corneteiro tocava, noutro, um grupo jovial degustava vinho. Ainda sobrou tempo para o tradicional passeio no barco de teto transparente pelos canais, às oito e pouco da noite, começando a escurecer, e ouvir mais uma vez, para depois esquecer, curiosidades como que Amsterdam tem cem canais com mais de mil pontes perfazendo mais de cem quilômetros. Esta não mais esqueço! (Diário de Viagem, 31 de agosto de 1996)




Empolgado com a viagem iminente (na eminente companhia de Sulamita), eu, o maníaco-obsessivo-compulsivo prototípico (não é à toa que me chamo Ivo), vasculhei tudo que é site na Internet (além de consultar o Almanaque Abril) em busca de informações sobre a Holanda. Descobri coisas do arco-da-velha como (cultura inútil?):

· cultivam-se mais de mil variedades de tulipas na Holanda;
· originalmente os moinhos de vento serviam para a moagem de grãos e a drenagem; com a Revolução Industrial, foram sendo paulatinamente desativados, e os que hoje restam foram tombados;
· em Amsterdam há uma bicicleta para cada dois habitantes.
· Amsterdam tem restaurante argelino, americano, argentino, britânico, caribenho, chinês, francês, grego, indiano, indonésio, italiano, japonês, coreano, libanês e brasileiro (uma Babel gastronômica).
· Amsterdam é cortada por cem canais, perfazendo mais de cem quilômetros, com mais de mil pontes.

E pra atenuar o rombo no fluxo de caixa — freelance não pode se dar ao luxo de tirar férias — descolei um contrato com uma revista geográfica para escrever, durante a viagem, matéria especial sobre a Holanda. “Holanda: Estação Liberdade” chamar-se-ia. (Trecho do meu livro ainda inédito Sulamita.)





Naquela primeira noite de lua-de-mel em Amsterdam (seria a lua-de-mel dos meus sonhos, não fosse a intensa ansiedade em virtude do encontro, dia seguinte, com o filho desgarrado de Sulamita), seguindo a recomendação do chefe da recepção do hotel, jantamos em grande estilo: rijsttafel no restaurante indonésio Hu-Nam. Como descrever o rijsttafel, prato típico dessa ex-colônia da Companhia Holandesa das Índias Orientais, e maior arquipélago do mundo? Digamos que é uma espécie de sistema solar gastronômico: uma cumbuca grande de arroz, que é o Sol, acompanhada de uma série de cumbuquinhas, com os mais variados acompanhamentos (os planetas). Existem rijsttaffels para todos os bolsos: quanto mais caro, maior o número de acompanhamentos.

O nosso veio com: batatas fritas, queijo de soja agridoce, broto de feijão com pasta de amendoim, amendoins, coco ralado, ovos com molho de soja, pele de porco frita, repolho em conserva azeda, fatias de cenoura maceradas em ervas, almôndegas de carne de soja, carne ensopada tipo goulash húngaro, pedaços de carne ao curry... Doce, azedo, salgado, apimentado: ignoro como os indonésios combinam iguarias tão díspares; como bons experimentadores, tentamos variadas misturas e todas nos apeteceram. Até o coco ralado, que à primeira vista parecia não combinar com nada, acabou se revelando delicioso salpicado sobre o arroz.

Na volta (voltamos a pé até o hotel), descortinamos um pouco a liberalidade de Amsterdam: loja de sementes de maconha (inclusive do Brasil), revistas pornográficas barra-pesada, vitrines de putas, cassinos, nightclubs anunciando shows de sexo explícito... E eu que acreditava morar na capital da permissividade! (Trecho do meu livro ainda inédito Sulamita - editoras interessadas, manifestem-se!)










2 comentários:

Carlos Alberto Moro disse...

Olá Ivo
Sou fã de seu dicionário no Babylon !! Sempre que preciso saber o que REALMENTE significa algo de tradução automática, mas de óbvia necessidade de entendimento contextual é à você que recorro. Muito obrigado !!
Acho muito gostoso o jeito que você escreve, e curti bastante seus relatos do seu passeio "socrático" (hehehe) em Amsterdam... Me pareceu o próprio, caminhando, vendo "o que há" e, serena e condescendentemente, dizendo "não, obrigado" para a maioria das ofertas.
Deu vontade de passear pelas 1000 pontes, dos 100 canais pegando uma das bicicletas emprestadas (no meu caso, 4 - uma com cestinho para bebê). Obrigado pela viagem.

Carlos Alberto Moro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.