MACHADO DE ASSIS: CEM ANOS DEPOIS




Na madrugada de 29 de setembro de 1908, morria Machado de Assis. Morreu em casa, como se morria na época (hoje se morre sedado e entubado no hospital), recebendo as últimas visitas. No dia anterior, visitou-o um moço desconhecido, que sem dizer uma palavra, ajoelhando-se ao lado de seu leito, tomou-lhe reverentemente a mão esquálida e beijou-a, retirando-se em seguida, sem dizer quem era. (Muitos anos mais tarde, soube-se que o rapaz anônimo se chamava Astrogildo Pereira, futuro comentador da obra de Machado.)

Filho de pais humildes - costureira branca nascida nos Açores e operário pintor de casas e dourador mulato forro (não-escravo), Machado de Assis nasceu no Morro do Livramento, Centro do Rio, na época local da chácara da viúva de Bento Barroso Pereira (daí a Ladeira do Barroso).

Autodidata, nunca cursou a universidade, o que não o impediu de tornar-se exímio tradutor, teatrólogo, crítico literário, jornalista, contista, folhetinista, romancista, poeta, dedicado funcionário de carreira do Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas e, na maturidade, fundador e presidente da Academia Brasileira de Letras. Vida metódica e visão do mundo cética (lia Schopenhauer), raramente viajou para fora do Rio de Janeiro, cenário de sua obra.
Sobre Machado, escreve Antonio Carlos Villaça: "A vida de Machado foi a passagem, a trajetória de Machadinho a Machado. Uma ascensão contínua. Moleque de morro, baleiro, pobre, mulato, gago, epiléptico, sem nenhuma escolaridade. E lia francês, inglês, alemão, latim, italiano. Quando morreu, aos 69 anos, aprendia grego. Que aplicação. Que seriedade. Que empenho. Que desejo de subir." (Trecho do meu livro A arte da escrita, que acaba de ser lançado pela Editora Ciência Moderna.)





Ao longo da minha formação, Machado de Assis foi-me inculcando a marca de um pensamento que, além de preservar preciosas concepções estéticas, reforçava-me a brasilidade. Sua vida, escassamente faustosa, destituída de lances arrojados, como aqueles que eu atribuía a Simbad, o marujo, inspirou-me, desde cedo, a coragem de lhe conferir uma dimensão simbólica, de ampliar sua presença na minha cidadania, de associá-lo as noções que eu podia ter de pátria. Daquela espécie de pátria que, modelada ao acaso, à mercê das emoções aleatórias, pode ser também tudo que se espera dela. Desde a mangueira do quintal dos avós, a paisagem da pequena aldeia, até o retrato de Machado de Assis dependurado nas paredes do Brasil. Palavras a esmo que, no entanto, me levam a considerar este brasileiro como a minha pátria. A pátria que tenho no coração, a representação que elegi à guisa de bandeira. A pátria do país que almejo ter. E não se estranhe semelhante convicção, se Machado de Assis, para tantos de nós, encarna um ideal que corresponde à medida de nosso humanismo. E por que não acreditar na pátria de Machado de Assis, na pátria de Homero, na pátria de Dante, na pátria de Camões, na pátria de Cervantes, na pátria de Shakespeare? (Trecho do discurso "O Brasileiro Machado de Assis" proferido por Nélida Piñon na abertura da exposição sobre Machado na ABL. Para ler o discurso completo clique aqui.)




Machado de Assis era inquietante. Conheci-o pessoalmente, eu era rapazola. Laranjeiras... O rio da Carioca a descoberto. Era particularmente pitoresco nas proximidades da casa do mestre. Uma casa que era um amor de simpatia. Porque era do mestre. A prova é que havia mais duas ou três iguais a ela e não eram a mesma cousa. Eu passava por lá sempre com um bruto respeito. O Brás Cubas fora escrito ali? Em todo caso o Dom Casmurro. A casa de Capitu. À tardinha havia sempre uma janela aberta na sala de visitas, a primeira janela à esquerda, e eu já sabia que havia um vulto de senhora, bonita cabeça de cabelos todos brancos, com um livro aberto nas mãos. Era Carolina, a esposa do mestre, que o esperava de volta do Ministério da Viação. Todas as noites quando eu ganhava a rua depois do jantar via passar um casal agarradinho: o mestre com Carolina. Machado de Assis dava a impressão de um homem muito tímido, muito discreto, incapaz da menor maldade. Seria bom? Era bom no sentido de não fazer a menor maldade a ninguém. Mas eu lhe tinha lido a obra inteira. E embora fosse um fedelho, não sei, Machado de Assis me inquietava. Aquela história do enfermeiro... O soneto “Suave mari magno”... Nos versos como no conto o gosto doentio de espiar o sofrimento alheio. E a psicologia dura, derrotista, insultante de quase toda a obra. Sempre o móvel egoísta, e ainda que limpo, inconfessável. Machado de Assis dava o sentimento desconfortante que aos olhos dele não adiantava ser bom, que era impossível fazê-lo reconhecer a generosidade de um nosso gesto de bondade, de dignidade ou de modéstia. (Trecho da crônica de Manuel Bandeira "Antonieta Rudge", de 1930, incluída no livro Crônicas inéditas I).




Era essencialmente bom e puro, de uma delicadeza e sensibilidade que não podia, por mais que o quisesse, acomodar-se à rudeza das cousas e dos homens. Essa mesma delicadeza e sensibilidade o fez tímido e aparentemente fraco, a ele que foi um forte. Contradição da natureza, que tão bem se exprimiu no genial humor de toda a sua obra.
[...]
Tinha o espírito forrado de uma filosofia forte, que lhe dera a própria vida e a cultura. Sabia que o que é, é porque tem de ser. Compreendia a maldade e a bondade, admirava o idealismo da regeneração humana, entendendo a sua inutilidade e ineficácia; não tinha nenhuma forma de religião e admitia e respeitava todas as religiões. Tudo era expressão humana, e não lhe cabia senão olhar e comentar os homens. [...] Era um puro, nobre e grande artista, superior às modalidades de escolas. Com o decorrer do tempo, agora que vai acabar a presença corpórea do escritor, crescerá a admiração da sua obra e ficará para sempre. (Mário de Alencar, filho de José de Alencar e segundo ocupante da Cadeira 21 da ABL, "Machado de Assis, páginas de saudades". As linhas acima foram escritas em 28 de setembro de 1908, dia anterior ao da morte de Machado. Para ler o texto completo clique aqui.)




A exemplo da irmã, seria plausível que Machado morresse ainda criança, das tantas pestes que vitimavam a população do Rio de Janeiro. Tão pobre, surpreende que tenha aprendido a ler e acumulado tanta cultura e conhecimento. Numa sociedade racista, com uma elite reacionária e ociosa, e ainda mais sofrendo de tantas enfermidades, seria ainda mais natural que jamais tivesse sido alguém, quanto mais o escritor e a celebridade que conhecemos hoje. Mas estaria em seus padecimentos o segredo de sua grandeza; ou em sua capacidade de superá-los? Só que aí temos de voltar à pessoa, ao ser humano, ao gênio — e este parece ser o elemento que mais desafia nossa compreensão... Machado de Assis foi um gênio, e nessa explicação que não elucida mas que conclui a questão talvez devesse se encerrar qualquer pergunta sobre o que originou sua obra.

Então, cada vez que você pegar um livro de Machado de Assis, deve se lembrar que tem nas mãos um milagre, algo que contrariou a adversidade, a lógica, a compreensão, as possibilidades. Mas, ali está. E você pode ler Machado de Assis, esse escritor, por diversas razões, miraculoso. (Luiz Antonio Aguiar, Almanaque Machado de Assis, pp. 58-9).


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