ACORDO ORTOGRÁFICO


Venho detectando uma espécie de "moda", travestida de desobediência civil, de meter o malho no acordo ortográfico. Ora, ser contra o acordo ortográfico é ser a priori do contra, sem realmente entender a questão. "Se há governo, sou contra" (como se a ausência de governo fosse uma panaceia). 

O acordo ortográfico (sobre o qual escrevi um livrinho esclarecedor  que convido todos a lerem) possui um
objetivo simples: aproximar as grafias do Brasil e Portugal (e Angola e Moçambique), fazendo com que um texto, um livro editado lá não pareça esdrúxulo cá, e vice-versa. Por que, ao contrário das outras línguas - francês, espanhol, inglês... - o português haveria de ter duas ortografias oficiais? Não se trata de padronizar as palavras: estas continuarão variando não só de um país para o outro, mas também de uma região para a outra dentro do mesmo país (macaxeira, aipim, mandioca). 

Aqui no Brasil, o acordo basicamente elimina o trema (se não fazia falta em Portugal, tampouco fará aqui no Brasil), muda (ligeiramente) a lógica de alguns acentos e muda (não tão ligeiramente) a lógica do hífen. Absurdos haverá sob a nova ortografia, como havia sob a velha (forma com o aberto e o fechado) - um idioma não é uma linguagem matemática. Em Portugal o acordo elimina os p's e c's mudos (Egipto, facto) que tornavam o texto lusitano tão estranho (ou exótico, se preferirem) para o leitor brasileiro.

O acordo é fruto de um trabalho dedicado e longo do saudoso Houaiss. Ser contra o acordo é como ser contra... a vacina contra a febre amarela no tempo do Osvaldo Cruz. É isso aí!!!

Lançado em meados de dezembro, meu
Acordo ortográfico: o que muda e o que continua igual na Língua Portuguesa pode ser adquirido mais barato do que você imagina no site da
Editora Ciência Moderna (clique no nome da editora).

11 comentários:

silvana disse...

A resistencia à mudança é comportamento que traduz a incapacidade de ser plástico.Não combina com quem faz das palavras sua ferramenta de criação.Sem falar de outros benefícios que estão por trás deste acordo.

Erik disse...

Ah, dei uma olhadinha e para variar descobri que tens razão, fizestes-me mudar de idéia (ou ideia?). A tal reforma não é tão radical quanto eu pensava de início...

As coisas (ou cousas?) são bem mais singelas do que eu pensava antes.

Creio que o mais provocou revolta em caras(ou gajos?) como eu foi a falta de esclarecimento por parte das “otoridades” ora no poder. (enviado por e-mail)

Marisa disse...

Penso que as pessoas estão fazendo tempestade em copo d'água. Na realidade poucos são os que dominam ( se é que este cavalo xucro tem alguém que o domine) este nosso idioma. Passamos uma vida estudando e tudo sempre nos parece complicado.

Penso que estas alterações não mudam muita coisa. As línguas jamais irão se unificar, pelo simples fato de sofrem influências de outras línguas de países vizinhos e também haver a questão da criatividade do povo que, com o passar do tempo, modifica seu idioma e os doutores nas academias terem que acatar suas mudanças.

As línguas irão se distanciando queiram ou não queiram os puristas, pois estão expostas a influências variadas. Não é só a questão ortográfica que faria qualquer diferença, até a forma de nos expressarmos muda. É só ler Saramago que já percebemos. Existe, através da forma como se escreve, toda uma questão cultural expressa através da língua. Acho tudo isto desnecessário, os intelectuais deveriam estar lutando pelo direito do acesso à escola, por melhores condições de ensino... Escolas sucateadas, falta de livros nas escolas e outras coisas não interessam à academia e é por isto que eu não ligo nem um pouco para estas mudanças, que não afetarão em nada a vida de meus alunos que necessitam de muito mais do que estas mudanças, que para mim são insignificantes. (enviado por e-mail)

Ivo Korytowski disse...

Marisa, as línguas vão se enriquecendo vocabularmente à medida que se intercomunicam e que novas realidades e novas tecnologias e novas tribos etc. vão surgindo. Esse é o nível semântico da língua. A reforma ortográfica diz respeito à sintaxe, à maneira de escrever tão-somente. Algumas pessoas ainda não enxergaram isso.

Anônimo disse...

No seu livro "Acordo Ortográfico", você diz (p. 14), que a palavra "arcebispo" volta ser grafada com hífen. Mas não explica a razão.
No mesmo texto (p. 7), "corrói" é dado como forma do verbo "correr", quando é do "corroer".

Ivo Korytowski disse...

Anônimo, obrigado por ler meu livro e apontar o erro. O arce-bispo com hífen consta, no texto do acordo, como um dos exemplos do emprego do hífen nas palavras compostas por justaposição, junto com ano-luz, arco-íris, etc., mas eu coloco em dúvida se esse hífen vai "pegar". Corrói como forma do verbo correr é um erro gravíssimo, desses que a gente acha que é incapaz de cometer, mas por alguma espécie de "distúrbio mental" comete (ação do diabo?). Tem outro erro grave que descobri: o vôo com acento no finalzinho do glossário. Esses erros a gente vai corrigindo nas novas tiragens do livro. A todos que estão prestigiando meu livro sou grato.

Eduardo Tornaghi disse...

Meu caro
Considero o acordo uma estupidez. Não precisamos de regras comuns mas de convívio. Estimule-se a conversa entre os grupos e uma norma comum surgirá. Foram os poetas e não os gramáticos que fixaram as formas das diversas linguas. As regras nascem do uso e não o contrário.
O esforço deve ser colocar os falantes em contato, e depois deduzir a lingua que nasce daí. O contrário me parece artificial e portanto inútil. O inglês que você cita é por circunstância histórica uma lingua extremamente livre que permite forma como " U2" por ex. e o mundo inteiro entende.
Não são as formas que fazem a comunicação, e é pra isso que serve a lingua, né não?
Bacana teu trabalho e tua batalha.
abç
ET

Ivo Korytowski disse...

Quem sabe o acordo venha a estimular o convívio através de um intercâmbio maior de livros e outros materiais impressos entre as nações lusófonas?

Anônimo disse...

Caro Ivo,

Sou tradutora, uso e abuso de seu glossário inglês/português (ótimo!), gosto muito do seu blog, mas... discordo de sua defesa do acordo ortográfico. Eu ia dizer por que, mas o Eduardo Tornaghi já o fez por mim.

Guillermo Sánchez disse...

Estimado colega Korytowski:
Sou um tradutor venezuelano e concordo com você. Como falante nativo de espanhol (alem de não ser nem português nem brasileiro), para mim é inconcevíbel que uma língua possua duas gramáticas. As línguas são simplesmente um méio para a comunicação e o Acordo Ortográfico ajuda aos falantes. Também não acredito que esse Acordo seja considerado como uma Bíblia, ja que a língua sempre muda a pele. :D
Apessar disso, é imperativo que exista una unidade de critérios ortográficos e gramaticais. Deste modo, todos vamos a ganhar.
Muito obrigado pelo seu dicionário.

ZÉ ANTONIO disse...

Trabalho com palavras, pois sou tradutor, mas acho este acordo uma enorme perda de tempo e energia para defender os interesses de alguns editores.

A quantidade de árvores que serão abatidas para se publicar estes ridículos ajustes não justifica, pelo contrário, empresta a esta iniciativa um caráter muito negativo.