O MELHOR AMIGO DO HOMEM, de Ivo Korytowski

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"Se a escola é um templo, a biblioteca é seu santuário. Numa sala de aula, ensina-se, aprende-se, discute-se; numa biblioteca, você está em calma. Você lê, sozinho; você escuta, sozinho. E de repente você descobre que não está sozinho, que está na presença dos mestres e dos discípulos dos séculos passados..."
Elie Wiesel, Sinais do Êxodo

Qual o melhor amigo do homem?

Antes de tentar responder à pergunta, uma digressão: amiga virtual contou que, passando certo feriadão em Búzios, terminou livro da Lya Luft antes do planejado e, querendo comprar outro livro da autora pra preencher os dias que ainda ficaria lá (chovia, imagino), teve a surpresa de descobrir que Búzios não possui livraria. Tem bistrô, tem borracharia, tem loja de artesanato... mas nenhuma livraria (contou a amiga).

Voltando à pergunta inicial. Quanto ao maior inimigo do homem, ninguém pode negar: é o próprio homem. Homo lupus homini. Já o maior amigo é objeto de controvérsia. Dizem que o cachorro é o maior amigo do homem. Mas o cachorro exige quase tanta atenção quanto uma criança, faz cocô onde não deve, precisa ser levado pra passear e quando no cio... sai de baixo! Alguns, boca aberta e língua pendente, exalam um hálito pestilento que só o dono não sente...

O bom livro é o melhor amigo”, lia-se nos marcadores de página de antigamente (hoje os marcadores trazem alguma propaganda). Ao contrário do cachorro, é o livro que nos leva pra passear, transpondo as fronteiras do espaço — do centro da Terra (Viagem ao centro da Terra) aos astros distantes (Viagem ao céu) — e do tempo (o livro é a máquina do tempo).

As pessoas costumam julgar as outras pelas posses: ano do carro, cartões de crédito recheando a carteira (a alegria dos assaltantes), grife da roupa, da bolsa, da caneta — as pessoas realmente reparam nesses detalhes. Já eu, julgo as pessoas pela biblioteca. Neste ponto, discordo em número, gênero e grau do poema do Pessoa que dizia que “livros são papéis pintados com tinta”.

Quando vou da primeira vez à casa de alguém, o que logo observo: se existem livros. Não me impressiona uma casa repleta de engenhocas — televisores de porrilhões de polegadas, aparelho de som com potência pra infernizar a vida de todo o quarteirão — se lá não habitam os escritores. Pra mim, casa sem livros, está faltando algo essencial — como se faltasse o reboco das paredes, o piso no banheiro. Confesso que daria muito mais valor a um humilde favelado em cujo barraco encontrasse estante com um ou outro livro de Machado, Lima Barreto, Paulo Coelho, do que a um ricaço em cuja mansão sobejassem pratarias e baixelas e móveis da época mas.. não se visse nenhum sinal de livro.

Dizem que o sexo é a melhor coisa da vida: sei lá, passar a noite devorando (o termo é este) um livro não fica muito atrás...

Última observação: assalta-se de tudo — da joalheria ao botequim. Até quem está rezando na igreja pode ter a bolsa furtada. Mas dos livros emana aura de sacralidade: alguém já ouviu falar de assalto a livraria?

Fui contar esta história pro gerente de vendas da minha Editora e ele foi logo derrubando o mito: “Nossa livraria lá da Tijuca já foi arrombada mais de uma vez. Donde você acha que vêm esses livros vendidos nas ruas?”



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