TERRA SEM MALES, de Ivo Korytowski


A Campanha da Fraternidade daquele ano preconizou a demarcação das terras indígenas, e os políticos brasileiros — ano eleitoral — daquela vez, contrariando a tradição, fizeram o dever de casa direitinho.

Tupã viu que, enfim, fizera-se justiça para com seu povo. Reuniu o conselho dos deuses que regem os destinos do Brasil, ele próprio, Olorum, Nossa Senhora da Aparecida etc. a fim de instaurar a terra sem males — abundância de caça e pesca, bom clima e paz — dos milenares sonhos indígenas.

Dia seguinte, estourou o escândalo no Canadá: contabilidade da Bombardier manipulada, dívida da empresa tecnicamente impagável, falência decretada. Por outro lado, sucessão de acidentes envolvendo aeronaves Airbus e Boeing fizeram com que passassem a ser vistas com desconfiança por viajantes do mundo inteiro. Da noite para o dia, a Embraer acordou como o mais requisitado fabricante de aviões do mundo, torrentes de divisas para o Brasil.

Os temidos chefes do tráfico (iluminados pelo Espírito Santo?) passaram a se comportar como criminosos de romances de Dostoiévski (mostrando que, às vezes, a vida pode imitar a arte). Acometidos de crises de consciência e profundos remorsos, depuseram os fuzis, granadas e bazucas, entregaram-se às autoridades policiais, alguns se converteram à religião evangélica, contritos. Graças a Deus!

Na outra ponta, convencido enfim dos terríveis malefícios do cigarro, o Congresso proibiu sua fabricação e venda em todo o território nacional. Mas para evitar o fechamento da Souza Cruz e os terríveis problemas sociais que daí decorreriam, a fábrica foi autorizada a produzir e distribuir cigarros de diamba (tradicional erva indígena com efeitos tranqüilizantes — e às vezes alucinógenos). A paz e o amor reinaram sobre o país, bicho!

Os carnavais baiano e carioca tornaram-se permanentes: todo fim de semana trios elétricos e desfiles de escolas de samba traziam alegria ao povo. Por que parar, parar por quê?

Psiquiatras, médicos e psicanalistas enfim estabeleceram cientificamente que "cerveja refresca até pensamento", o que valeu ao Brasil o primeiro prêmio Nobel (de Medicina), e o néctar dos deuses — devidamente acompanhado de praias e "gatas" de biquíni — passou a ser indicado no mundo inteiro para pacientes depressivos e ansiosos.

Intelectuais franceses decretaram a morte do Modernismo e a volta do Romantismo. A televisão brasileira aproveitou-se da onda estética pra transformar a novela brasileira — a legítima sucessora do folhetim do século XIX — no segundo maior produto de exportação do país. De repente, norte-americanos, franceses, chineses, o mundo todo emocionava-se com as peripécias rocambolescas de nossos personagens e papagueava nossas falas e macaqueava nossos hábitos e costumes. (Em Londres, por pressão da opinião pública, as vetustas cabines telefônicas foram substituídas por alegres orelhões à carioca. Yes, sir!)

Intelectuais estrangeiros, pra melhor compreender o fenômeno, passaram a estudar o idioma de Camões. A moda pegou e, em pouco tempo, cursos de Português pululavam abrindo enorme mercado de trabalho pra brasileiros aventureiros dispostos a correr o mundo.

A terra sem males, onde negros, índios e brancos de todos os matizes conviviam harmoniosamente, atraiu a atenção de cientistas sociais e de políticos do mundo inteiro: consultores brasileiros passaram a ser contratados a peso de ouro pra desatar os “nós górdios” das outras partes do mundo (consta que patrício nosso enfim solucionou a cizânia israelense-palestinense, transformando as colinas e bazares de Jerusalém num imenso Carnaval).

Os sem-terra ganharam terras, os sem-teto ganharam teto, os deserdados da sorte ganharam polpudos prêmios do Show do Milhão, Totobola, Raspadinha, e os escritores sem-livro enfim viram suas obras publicadas... e lidas!

Só quem não gostou daquela alegria toda foram os profetas do apocalipse — sisudos, auto-exilados nas torres de marfim, as sempiternas previsões pessimistas definitivamente contrariadas pelos fatos. Razão tinha o carnavalesco (e sábio)
Joãozinho Trinta, ao diagnosticar: "O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual". (escrito em março de 2002)

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei!
Soñadora