O QUE É FELICIDADE? crônica de MANOEL CARLOS

Transcrito da Veja-Rio de 10/2/2010


Andei pensando nisso ultimamente. Quem me diz? Quem me explica? Quem me define com precisão qual a identidade verdadeira dessa misteriosa e maravilhosa sensação que sentimos, que nos leva a afirmar: sou feliz? Ou, pelo menos: estou feliz? No dicionário está muito claro: felicidade é satisfação. A qualidade de estar e/ou ser feliz.
Os poetas falam muito nesse estado, mais para dizer que o desejam, que o procuram e que não o encontram. Vicente de Carvalho garante que a felicidade...
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
E há também os que a encontram, mas não sabem. Ou que só ficam sabendo quando já é tarde, quando a perderam, quando a deixaram passar. Na mesma hora me vem à memória o verso de Miraí, um lindo samba de Ataulfo Alves, que, ao lembrar-se dos tempos de criança, exclama, emocionado: "Eu era feliz e não sabia!".
Lembro-me também da frase de Dorian Gray no romance de Oscar Wilde, mais ou menos assim: "Não procuro a felicidade, procuro o prazer". Mas sentir prazer não é sentir-se feliz. E estar feliz não é estar repleto de prazer? Mas também sabemos que a satisfação de Dorian Gray era extraída da dor de viver. E, principalmente, da dor que nos causa o tempo, o passar dos anos, o envelhecimento. Por isso, para ele, felicidade era ser eternamente jovem e belo.
Para os poetas e para a poesia, ser infeliz é mais inspirador do que ser feliz. Queixar-se da vida é mais comum do que louvá-la. Até nas novelas. Se o personagem vive sorrindo, logo alguém diz que ele é chato, cansativo, artificial.
Meu amigo Reynaldo é radical:
– Ninguém gosta de pessoa muito feliz. Dessas que exalam euforia e contentamento. Parece um acinte, uma afronta. Como se pode viver sem conflitos? Ser infeliz é que é o normal, porque é mais duradouro.
E Vinicius de Moraes concorda, ao afirmar:
Tristeza não tem fim
Felicidade sim.
Ah, os poetas! Alguns, como o nosso Manuel Bandeira, louvam a morte num poema precisamente com o nome "Felicidade":
Oh, ter vontade de se matar,
bem sei é coisa que não se diz.
Que mais a vida me pode dar?
Sou tão feliz!
Mas por que estou eu a gastar tinta, como se dizia antigamente, no tempo em que se escrevia a mão, com essa palavra tão usada e ao mesmo tempo tão obscura, que todo mundo conhece, mas que ninguém define com precisão, e que os dicionários registram, sem ênfase, em duas ou três linhas? Conto a vocês. É que lendo Um Ensaio Autobiográfico, de Jorge Luis Borges, livro que nasceu de alguns encontros que o admirável escritor argentino manteve com o americano Norman Thomas di Giovanni, seu amigo e principal interlocutor, deparei com esta declaração que Borges faz no fechamento do livro e que, pedindo licença à editora e aos tradutores Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz, reproduzo aqui, de presente aos meus queridos leitores:
"Suponho que já escrevi meus melhores livros. Isso me dá uma espécie de tranquila satisfação e serenidade. No entanto, não acho que tenha escrito tudo. De algum modo, sinto a juventude mais próxima de mim hoje do que quando era um homem jovem. Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la. Quanto ao fracasso e à fama, parecem-me totalmente irrelevantes e não me preocupam. Agora o que eu procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado".
Jorge Luis Borges nasceu em 1899 e morreu em 1986, aos 87 anos. O ensaio foi escrito em 1970, quando ele tinha 71 anos.

Um comentário:

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