ARQUITETURA NEOCOLONIAL NO RIO DE JANEIRO

A arquitetura neocolonial foi um estilo ligado ao movimento nacionalista dos anos 20 que reinterpretou o estilo colonial brasileiro à luz da modernidade, numa reação à arquitetura importada da Europa. Segundo Carlos Kessel, em "Estilo, Discurso, Poder: Arquitetura Neocolonial no Brasil", "caracteriza-se por uma estilização do velho estilo colonial. Nascido da reação contra o ecletismo dominante nos primeiros anos deste século, o neocolonial encontrou sua justificativa na ânsia de buscar, nas formas construtivas tradicionais do Brasil, uma arquitetura que pudesse ser definida como genuinamente autóctone." 

As principais características nas fachadas neocoloniais são o uso de azulejos (letra A na foto abaixo, da capela do Hospital Gaffrée e Guinle, na Tijuca), pináculos ou coruchéus (B), beirais e frontões ondulados (C), telhas como elementos da ornamentação (na foto abaixo, no coroamento da torre sineira, letra D), volutas ocasionais (E), sacadas (por exemplo, na foto 2) e pátios internos.


Foto 1: Capela de N. S. da Conceição do Hospital Gaffrée e Guinle, na Tijuca ilustrando as características do estilo neocolonial

O Museu Histórico Nacional, embora preserve partes da antiga Casa do Trem e Arsenal de Guerra coloniais, possui acréscimos neocoloniais (foto 2). Outros prédios neocoloniais notáveis são o Instituto de Educação , a mais importante obra do neocolonial carioca, com projeto escolhido por um concurso, cujo edital especificava essa opção estilística, como informa o Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro (Rua Mariz e Barros, 273, Tijuca - aqui), o Hospital Gaffrée e Guinle (foto 3) e a sede do clube futebolístico Vasco da Gama (foto 4). 



Foto 2: Pátio de Santiago, Museu Histórico Nacional. O conjunto composto da Casa do Trem (1762) e Arsenal de Guerra (1764) foi reformado e "aformoseado" para abrigar o Palácio das Indústrias na Exposição de 1922, dando depois origem ao Museu Histórico Nacional.


Foto 3: Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, à Rua Mariz e Barros, 775 (Tijuca). A fachada dos fundos do hospital pode ser vista aqui


Foto 4: Fachada do Estádio Vasco da Gama (mas conhecido como Estádio São Januário). "Fundado no dia 21 de abril de 1927, o Estádio Vasco da Gama acabou ficando mais famoso como São Januário, que é o nome de umas das principais ruas que levam ao estádio. O estádio é a principal sede do Vasco. Construída numa área de 56 mil metros quadrados e situada à Rua General Almério de Moura, 131, no bairro Vasco da Gama, o complexo conta com estádio, ginásio, parque aquático e setor administrativo." Mais informações aqui

Além do já citado instituto que agora se chama Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro, várias escolas municipais adotaram o estilo: Escola Uruguai, na Rua Ana Néri, 192 (Benfica, 1930 - aqui), Escola Estados Unidos, na Rua Itapiru, 453 (Catumbi, 1930), Escola Sarmiento, na Rua 24 de Maio, 931 (Engenho Novo, 1929 - foto 5), Escola Henrique Dodsworth, na Av, Epitácio Pessoa, esquina com Rua Redentor (Ipanema, 1943), Escola Soares Ferreira (Av. Maracanã, 450 (Tijuca, 1927 - aqui). Também o antigo Colégio Arte e Instrução, em Cascadura, que encerrou suas atividades no final de 2013 e foi uma das escolas mais importantes na formação de inúmeras gerações na região, adotou esse estilo (foto 6).


Foto 5: Escola Municipal Sarmiento em estilo neocolonial, construído em 1929. Observe a sacada com gradil e o mapa do Brasil em painel de azulejos à direita.


Foto 6: Antigo Colégio Arte e Instrução em estilo neocolonial (Cascadura). Segundo Washington Fajardo, "o edifício é um belo exemplar da arquitetura neocolonial. Na época do Estado Novo, as escolas precisavam, por meio da arquitetura, passar uma mensagem nacionalista forte. O edifício do Colégio Arte e Instrução é um exemplo disso. O imóvel é uma referência no bairro de Cascadura e na região de Madureira". Tombado em 2015 (ver aqui). 

No Largo do Boticário (Cosme Velho - foto 7) temos um conjunto de casas que, nos anos 1920-40, foram construídas ou reformadas dentro de uma estética neocolonial então em voga, empregando materiais de casas demolidas no Centro, inclusive para a abertura da Avenida Presidente Vargas. O conjunto hoje está degradado, aguardando uma solução, para que seja restaurado. Mais informações sobre o largo e sua história você encontra aqui.


Foto 7: Largo do Boticário. "O Largo do Boticário é lindo, mas... é recente. Foi construído por ideia e mando de D. Sylvinha de Bittencourt, mulher do então dono do Correio da Manhã, Paulo Bittencourt, na década de 40, usando material de demolição das casas centenárias postas abaixo pelo prefeito Henrique Dodsworth. O Largo original, onde o atual foi construído, era um lugar pobre que ganhou o nome por causa de um farmacêutico de então, que lá viveu. Dele, sobrevivem as belas árvores da entrada. Hoje se encontra abandonado e decadente, com ocupações de sem-teto recorrentes. Sua proprietária, herdeira de D. Sylvinha, não o vende, nem aluga, nem preserva. O Estado é impotente diante de tal situação." Francisco Daudt

Outras casas residenciais, além daquelas do famoso largo, adotaram o neocolonial, algumas delas na Urca, bairro cuja ocupação, possibilitada por um aterro, deu-se na década de 1920, em plena vigência do neocolonial. Por exemplo, os casarões das fotos 8 e 9. 


Foto 8: Casarão neocolonial na Rua Ramon Franco, 87 (Urca), com frontão ondulado, treliças nas sacadas e num trecho do muro,  azulejos, pináculos, telhas compondo a ornamentação, ou seja, os elementos definidores do estilo. 


Foto 9: Casarão neocolonial na Av. Portugal, 716 (Urca), com portada neobarroca com uma estilização dos oratórios coloniais no frontão e emprego abundante de telhas. 

Um elemento da arquitetura colonial retomado em umas poucas construções do neocolonial é o muxarabi ou rótula. de origem mourisca, trazido de Portugal pelos colonizadores, foi proibido por motivos estéticos em 1808 pelo Intendente-Geral da Polícia Paulo Fernandes, já que "além de serem incômodas, prejudiciais à saúde publica, interceptando a livre circulação do ar, estão mostrando a falta de civilização dos seus moradores" (Padre Perereca). No Largo do Boticário temos talvez o único exemplar autêntico, colonial, de muxarabi sobrevivente, que você pode ver aqui. As alas neocoloniais do Museu Histórico Nacional (pois existe a parte autenticamente colonial também) utilizam muxarabis estilizados (aqui).  Mas a reprodução moderna mais perfeita de um muxarabi encontrei na bonita casa neocolonial da Rua Domício da Gama (Tijuca) mostrada na foto 10.


Foto 10: Bonita casa neocolonial com muxarabis estilizados sob os dois frontões e elegante pórtico, na Rua Domício da Gama (Tijuca). Mais detalhes sobre esta maravilha no blog do meu amigo Fabio Carvalho clicando aqui. 

 Na arquitetura religiosa temos:

  • Igreja de Santa Maria Margarida (Rua Frei Solano, 23, Lagoa - foto 11 e aqui).
  • Igreja de Nossa Senhora do Brasil (Av. Portugal, 772, Urca - foto 12).
  • Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa (Av. Passos, 15, Centro - foto 13).
  • Capela de Santa Teresinha no jardim do Palácio Guanabara (Laranjeiras - foto 14).


Foto 11: Igreja Matriz Santa Margarida Maria (Lagoa). A Igreja foi construída em 1939, por uma congregação holandesa do Sagrado Coração de Jesus. Tem estilo neocolonial tardio, com as paredes internas pintadas em azul e rosa, e adornadas por oito colunas altíssimas ao longo da nave. 


Foto 12: Igreja de Nossa Senhora do Brasil na Urca, interpretação original, que não segue estritamente o "modelo", do estilo neocolonial. A ondulação, normalmente no frontão ou beiral, aqui se encontra na parte inferior do prédio, onde estão as escadas de duplo acesso e o pátio diante da portada elevada. Projeto de Frederico Faro Filho de 1932, construída em 1934. "A colocação do salão paroquial no térreo eleva a pequena igreja em relação à rua e oferece boa solução de distribuição para o terreno exíguo. No interior há nave única com ornamentação copiada do vocabulário barroco ibero-americano. A construção desta igreja dedicada a uma invocação marcadamente nacionalista da Virgem Maria corresponde ao momento inicial de ocupação da Urca e ao apogeu do neocolonial." (Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro) 


Foto 13: Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa. A construção setecentista foi demolida em 1929 par dar lugar a uma igreja em estilo neocolonial, com influência da arquitetura mexicana. 

Foto 14: Capela Santa Teresinha, do Palácio Guanabara,  em estilo neocolonial, construída em 1946 a pedido de Carmela Dutra, a esposa do então Presidente. 

Estas e outras fotos representativas do neocolonial você pode ver no álbum ESTILO NEOCOLONIAL


Além do estilo neocolonial luso-brasileiro a que nos referimos (e quando a gente fala "neocolonial" puramente, subentende-se o luso-brasileiro), esteve também em voga nos anos 20 e 30 um estilo neocolonial hispano-americano, conhecido como estilo Missões ou Mexicano, cujo principal exemplar no Rio é a sede do clube Botafogo (foto 15). 

Foto 15: Sede do Botafogo (1928). Projetado pelos arquitetos Archimedes Memória e Francisque Cuchet em estilo Missões (neocolonial hispano-americano). Tombado pelo Município. "Na sede do Botafogo, os arquitetos adotam o estilo missões, inspirado na arquitetura colonial da América espanhola tal como fora interpretada nos Estados Unidos, com pequenas referências à arquitetura colonial portuguesa." (Enciclopédia Itaú Cultural) 

O estilo Missões também foi muito empregado em casas e prédios em diferentes bairros do Rio. São características do estilo Missões:


torre circular com telhado de beiral
parede com superfície irregular, texturizada
alpendre com entrada em arco
muro coberto de telha
frontão arqueado coberto de telhas e ornado com um pequeno painel de azulejos, geralmente de temática religiosa
colunas torsas ou salomônicas (espiraladas)
Dificilmente uma casa reunirá todos esses elementos, por exemplo, se tiver uma torre circular, não terá o frontão arqueado, e vice-versa, como você pode ver nas fotos 10.16-17 abaixo, mas a parede texturizada é um elemento universal, obrigatório no estilo Missões (conquanto mais tarde a casa possa ter sido descaracterizada e recebido uma nova pintura sem esse traço), e o frontão arqueado é a característica mais comum, sobretudo nas casinhas de subúrbio. Tudo isso você pode conferir no álbum ESTILO MISSÕES.


Foto 10.16: Casinha no Grajaú em estilo Missões.

Foto 10.17: Casa em Ipanema em estilo Missões.

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