DE AMOR E TREVAS, de AMÓS OZ (RESUMO e TRECHOS DO LIVRO)


Obra máxima da literatura israelense contemporânea em primorosa tradução para o português de Milton Lando. Livro de memórias que você lê como se fosse um romance, de tão agradável leitura. Abrange 1) a história das famílias materna e paterna do autor, oriundas do leste europeu, que felizmente conseguiram emigrar a tempo para a então Palestina britânica, escapando do terrível morticínio provocado pelos nazistas; 2) a história da vida e formação intelectual e artística do autor, alternando passagens trágicas, líricas e divertidas; e (3 - um aspecto interessantíssimo da obra) a história da formação do moderno estado judaico vista não por um historiador frio, mas pelas testemunhas dos acontecimentos. (Esta foi minha avaliação que deixei registrada na página do livro no site da Amazon.)

TRECHOS DO LIVRO:

Lá, no mundo, os muros estavam todos cobertos de frases hostis: “Judeu, vá para a Palestina”. Muito bem, viemos para a Palestina, e agora o mundo inteiro grita: “Judeu, saia da Palestina”.

A única coisa que tínhamos em abundância eram livros.

Quando eu tinha uns seis anos de idade, chegou o grande dia para mim: papai esvaziou um cantinho da uma de suas estantes e permitiu que eu transferisse meus livros para lá.

O cheiro da imensa biblioteca de meu tio me acompanhará vida afora: o odor empoeirado e sedutor dos sete saberes ocultos, o perfume de uma vida silenciosa e retirada, dedicada à erudição, a vida quieta de um ermitão, o silêncio espectral que se elevava das profundezas do conhecimento e da doutrina, os sussurros vindos dos lábios de sábios mortos, o murmúrio dos pensamentos secretos de escritores que já então habitavam o pó, o gélido afago de autoridade das gerações passadas. 

O amor é uma mistura estranha de uma coisa com o seu contrário, a mistura do egoísmo mais egoísta com a mais completa devoção. Paradoxo! 

As famílias judias sempre foram assim: acreditam que o estudo é a garantia do futuro, a única coisa que ninguém, nunca, vai poder tirar dos seus filhos, mesmo que sobrevenha, D’us não permita, outra guerra, outra revolução, outra emigração de país para país, mais leis discriminatórias — o diploma sempre se pode dobrar e esconder rápido nas costuras das roupas e fugir para onde for permitido aos judeus viverem.

O diploma — essa é a religião dos judeus. Nem riqueza, nem ouro.

Minha mãe tinha trinta e oito anos quando morreu. 

Durante grande parte da minha infância fui um menino solitário, sem irmão ou irmã e quase sem amigos. 

Escrever um romance, eu disse uma vez, é mais ou menos como montar toda a cordilheira dos montes Edom com pecinhas de Lego. Ou como construir uma Paris inteira, edifícios, praças, avenidas, torres, subúrbios, até o último banco de jardim, usando apenas palitos e meios palitos de fósforo colados. Para escrever um romance de oitenta mil palavras é preciso tomar no decurso do processo algo como um quarto de milhão de decisões.

Meu pai também não gostava de religião: os sacerdotes de todos os credos sempre lhe pareceram um tanto suspeitos, homens ignorantes que fomentavam antigos ódios, semeavam medo, difundiam falsas doutrinas, derramavam lágrimas de crocodilo, eram mercadores de objetos sagrados, de falsas relíquias e de todo tipo de crenças vãs e preconceitos.

Minha mãe me disse que embora os livros possam mudar ao longo dos anos, assim como as pessoas, a diferença está em que, enquanto as pessoas sempre nos abandonam quando percebem que não podem mais obter nenhuma vantagem, prazer, interesse ou pelo menos um bom momento de nós, um livro nunca vai nos abandonar

Os ingleses estavam a tal ponto furiosos conosco por causa das afrontas estúpidas dos nossos dirigentes sionistas fanáticos que Londres simplesmente tinha resolvido deixar que os árabes nos trucidassem de uma vez por todas.

Havia os que acreditavam que a consciência do mundo civilizado, ou a opinião pública progressista, ou a classe operária internacional, ou o amplamente difundido sentimento de culpa pelo terrível destino dos judeus na Europa, tudo isso junto neutralizaria o “Complô Anglo-Árabe para Nossa Extinção”.

Surpreendentemente, a União Soviética de Stalin se juntou aos Estados Unidos para apoiar a criação de um Estado judeu ao lado de um Estado árabe na Palestina. É possível que Stalin tivesse antevisto que a aprovação da partilha conduziria a um longo e sangrento conflito na região, e que na confusão ele teria como abrir uma brecha para os soviéticos numa área até então dominada pelos britânicos no Oriente Médio, próxima às jazidas petrolíferas e ao canal de Suez.

Não foi um grito de alegria, nem um pouco parecido com os urros dos estádios, nem com nenhuma manifestação de multidões arrebatadas de alegria, talvez como um berro de terror, de choque, um berro de assombro, de catástrofe, um grito de mover pedras, de congelar o sangue, como se todos os mortos e todos aqueles que ainda haveriam de morrer houvessem naquele mesmo instante juntado suas vozes ao rugido da multidão, que cessou de repente, e depois de mais um momento de assombro foi trocado por gritos de felicidade, e berros de Am Israel Hai, o Povo de Israel Vive [reação da população judaica ao ouvir pelo rádio que a ONU aprovara a partilha da Palestina entre árabes e judeus] 

Meu filho, veja isto, abra bem os olhos e observe muito bem tudo isto, porque esta noite, meu filho, você nunca vai esquecer, até seu último dia de vida, e sobre esta noite você ainda vai contar aos seus filhos, aos seus netos e bisnetos, ainda por muitos anos, depois que não estivermos mais neste mundo. 

Nunca em minha vida, nem antes daquela noite nem depois, nem mesmo quando minha mãe morreu, eu tinha visto meu pai chorar.

Os israelenses estavam extremamente orgulhosos por sua vitória, com a absoluta certeza de estar com a razão e tomados por sentimentos de supremacia moral. Naqueles tempos não havia quem se preocupasse com o destino de centenas de milhares de refugiados palestinos, dos quais muitos tinham fugido, e muitos outros simplesmente tinham sido expulsos das cidades e aldeias conquistadas pelo Exército de Israel. 

Do ponto de vista deles [dos palestinos], somos [os judeus] estrangeiros vindos de outro planeta, que aterrissaram e invadiram as suas terras. 

Muito jovem ainda, na aldeiazinha de Plonsk, na Polônia Oriental, Ben Gurion tinha já duas idéias básicas: que o povo judeu devia voltar a ter sua pátria em Eretz-Israel, e que ele era a pessoa indicada para liderar esse povo.

“Isto é, eu diria isso se acreditasse em presságios, e se acreditasse que o céu se interessa por nós. Mas o céu é indiferente. Com exceção do Homo sapiens, todo o universo é indiferente. E para falar a verdade, a maior parte das pessoas também é indiferente. Considero a indiferença a grande característica de todo o universo.” 

É verdade, todos os seres humanos nasceram iguais — esse é o fundamento da vida no kibutz, mas o campo do amor pertence às forças da natureza, e não à assembleia-geral. E o campo do amor, como se sabe, está destinado apenas aos mais altos cedros, e não aos tufos de capim. 

Noite após noite, nos reuníamos [no kibutz] para fazer juntos algo bem barulhento, quase selvagem, até a meia-noite. Até depois da meia-noite. Para a escuridão não se infiltrar nos quartos nem nos ossos e não apagar a alma. Precisávamos cantar, gritar e nos empanturrar de comida, discutir, brigar, fofocar, contar piadas, tudo para afastar a escuridão, o silêncio e os uivos dos chacais. Naqueles tempos não havia televisão, nem videocassete, nem estéreo, nem internet, nem jogos de computador. 

Aos quinze, dezesseis anos, eu admirava a alegria transbordante de Nili [que viria a se tornar esposa do autor] como quem admira a Lua cheia: distante, inatingível, mas emocionante e arrebatadora.