CRER EM DEUS, HOJE de ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Publicado originalmente na Veja de 2 de abril de 1997

Nosso tempo é materialista e secular como nenhum outro, mas a quase unanimidade dos brasileiros continua acreditando



Na Semana Santa o sol ainda é generoso, no Hemisfério Sul, e a temperatura é agradável, menos ardente e desgastante do que no verão que ficou para trás. Não há dias como os de março e abril. E, como um prêmio, maravilhoso como fonte que brota da pedra, pródigo como o maná que cai do céu, vem a Semana Santa a oferecer quatro dias sem trabalho, ou de folga na escola. Abençoada seja, entre todas as outras semanas, a chamada de Santa, tão digna desse nome. E as estradas se enchem, e os grandes centros urbanos se esvaziam, e os espíritos ficam leves. Na Semana Santa, a ordem é: todos à praia!

Ao observar o movimento nas estradas, rodoviárias e aeroportos, ao considerar o espaço nos meios de comunicação a informações e conselhos de viagem e ao atentar para a ansiedade com que se acompanha a previsão meteorológica, tem-se uma ilustração do tempo irreligioso em que vivemos. Semana Santa é sobretudo feriado — ou “feriadão”, como se passou a dizer no Brasil, com alegre bonomia, assim como se chama o amigo de “Paulão” ou “Marcão”, e se vai assistir ao futebol no “Mineirão”. Aparentemente, jaz perdida na poeira do tempo, ou lá nos fundões da consciência, a lembrança de que o feriado existe por força de uma celebração religiosa — por sinal, o magno evento do cristianismo, que por sinal é a religião da maioria dos brasileiros.

E no entanto somos um povo que acredita em Deus. Um povo que maciçamente, solidamente, cerra fileiras nas hostes de Deus. Uma pesquisa encomendada por VEJA ao instituto Vox Populi resultou em que, à pergunta “Você acredita em Deus?”, 99% responderam sim. Raros povos dariam uma vitória tão consagradora a Deus, e castigariam os ateístas com derrota tão acachapante. A pesquisa foi realizada com base em 1.998 entrevistas entre a população adulta de todas as regiões brasileiras, nos dias 22 e 23 de março. À pergunta seguinte, “Qual é a sua religião?”, os católicos ganharam de longe — 72% — e 9% declararam-se “sem religião”, quase empolgando o segundo lugar dos evangélicos (11%). Ou seja: pode-se não ter religião, mas acredita-se em Deus. E à pergunta “No último fim de semana você foi a alguma igreja, templo ou centro de sua religião?”, 43% responderam sim e 57% responderam não. Não se vai à igreja, mas continua-se a acreditar em Deus.

Que é acreditar em Deus? Responde o professor de filosofia Roberto Romano, da Universidade de Campinas: “É viver a experiência do inefável, do doloroso e — essa é a palavra-chave — do sublime”. O sublime, que para Romano substitui e soma num só os clássicos conceitos filosóficos de verdade, bem e belo, é o sentimento da pequenez do homem diante do Everest, a experiência que a um tempo eleva e impõe admiração, invoca o respeito e o pavor. Responde o rabino Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista: “É sentir-se humilde perante uma força maior. Essa força se chama Deus”. Caso se fosse exigente, haveria razões para duvidar da resposta da maioria dos brasileiros. Certamente lhes falta a experiência do “sublime” de Romano, e nem todos se adequariam ao modelo de humildade profunda de Sobel. Mas não é justo ser exigente. Não se pode desejar um povo de místicos. Pode-se acreditar em Deus inclusive pelo motivo muito pragmático de querer ir para o céu. Augusto Matraga, o personagem de Guimarães Rosa, queria ser bom, depois de muitos anos de malvadeza, para tirar a alma da “boca do demônio”. “P'ra o céu eu vou, nem que seja a porrete”, dizia.

Não há nada de mais no fato de a pesquisa indicar que mais gente acredita em Deus do que tem religião ou vai à igreja. Pode-se acreditar em Deus sem ir à igreja ou ter religião. O que surpreende é tantos se declararem crentes em Deus num tempo laico e secular como o nosso. Muitos fatores contribuem para tornar este século distante de Deus. A ciência, ao explicar desde os fenômenos da natureza até a evolução das espécies, além de formular hipóteses plausíveis para a origem do universo, invadiu espaços que, sendo de mistério, milenarmente pertenciam à jurisdição das religiões. Ao enumerar os pensadores de maior influência neste século, deparamos com uma coligação anti-Deus: Karl Marx, para quem a religião era o ópio do povo; Sigmund Freud, que considerava a fé uma manifestação de infantilismo; Charles Darwin, que, em lugar da prodigiosa moldagem de Adão a partir do barro e de um sopro nas narinas, nos ofereceu como ancestral a miséria de um macaco; Friedrich Nietzsche, que teve a ousadia de decretar a morte de Deus. O racionalismo que, a partir das matrizes europeias, se impôs ao mundo empurrou-nos a uma lógica de pragmatismo e a uma civilização de resultados. A tecnologia, aliada ao culto do sucesso e dos bens materiais, criou uma indústria da urgência cujos ícones são o avião a jato, o fax, o dinheiro eletrônico e o telefone celular. Onde o tempo e a disponibilidade para a meditação e a contemplação? A religião está acuada. “Nosso secularismo atual é uma experiência totalmente nova, sem precedentes na História humana”, escreve a professora inglesa Karen Armstrong, especialista em religiões e autora do livro Uma História de Deus, traduzido no Brasil (Companhia das Letras). Armstrong escreve, ainda: “Um dos motivos pelos quais a religião parece irrelevante hoje é que muitos de nós não têm mais o senso de que estão cercados pelo invisível”. Nossa cultura científica, segundo a autora, educa-nos para concentrar a atenção no mundo físico e material, o que nos distanciaria do “espiritual”. Imagine-se, indo um pouco além do raciocínio de Armstrong, o que era o mundo sem luz elétrica. A noite era noite de verdade, ainda mais que a maior parte das pessoas vivia no campo. Quando não a dominava a treva absoluta, a noite fazia-se o reinado das pesadas sombras ou das chamas bruxuleantes, a partir de rudimentares instrumentos de iluminação. A escuridão convidava ao medo e ao mistério, que são a antessala do sentimento religioso. A luz elétrica veio a operar contra Deus.


E depois ainda há o Estado moderno — laico e liberal. Não faz muito, éramos, os países cristãos, governados de forma não muito diferente da que o Irã é hoje. Religião não era uma opção. Era uma imposição. Lugar de herege era na fogueira. E, quando não era produto da pura força bruta, a religião era resultado da inércia das tradições familiares, grupais ou nacionais. Hoje se tem a liberdade de decidir, e essa é uma inestimável conquista de nossos tempos. “As pessoas hoje assumem a fé por decisão, e não mais por tradição. É um amadurecimento da sociedade”, disse a VEJA o padre João Batista Libânio, professor de teologia do Centro de Estudo Superior da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte. Se as pessoas têm a liberdade de escolher, e escolhem Deus, mais ainda causa espanto o fato de apenas 1% dos brasileiros declararem que não acreditam nele.

Se a pergunta fosse outra, “Você já teve a experiência de Deus?”, o resultado possivelmente seria diferente. Não é fácil, e não é para qualquer um, experimentar Deus. No bonito prefácio a seu livro, Karen Armstrong escreve: “Quando criança, eu tive várias crenças religiosas fortes, mas pouca fé em Deus”. É sutil, mas convida a uma instrutiva reflexão, a diferença entre “crença religiosa” e “fé em Deus”. Católica, Armstrong entrou numa ordem religiosa e foi freira durante sete anos. Nesse tempo, conta, mergulhou na história da vida monástica e em minuciosas discussões sobre a Regra de sua ordem. “Muito estranhamente”, prossegue, “Deus entrava muito pouco em cada uma dessas coisas. As atenções pareciam concentrar-se em detalhes secundários e nos aspectos mais periféricos da religião. Lutei comigo mesma na oração, tentando obrigar minha mente a encontrar Deus, mas ele continuou sendo um severo capataz, observando cada infração minha da Regra, ou então tantalicamente ausente.”

Karen Armstrong diz que teria sido poupada de muita ansiedade se os mestres de alguma das três grandes religiões monoteístas — o cristianismo, o judaísmo e o islamismo — lhe ensinassem que, em vez de esperar que Deus desça das alturas, deveria ela própria criar um sentido para ele. Em vez de deixá-la supor que Deus fosse uma realidade “lá fora”, deveriam tê-la ensinado que Deus é “produto da imaginação criadora, como a poesia e a música”. E então vem esta afirmação perturbadora, afiada com a lâmina do paradoxo para melhor ferir a inteligência: “Uns poucos monoteístas extremamente respeitados teriam me dito discreta e firmemente que Deus não existe — e no entanto que ele era a mais importante realidade do mundo”.

A experiência de Deus não é necessariamente pacífica, ou apaziguadora. “A fé não é a ausência da dúvida”, diz o rabino Sobel. “Eu como rabino tenho muitos problemas com Deus, como Deus deve também ter problemas comigo. Mas nem por isso desisto. Faço da minha dúvida a vontade de conhecer melhor.” Sobel diz que, quando perdeu a mãe, questionou a justiça de Deus: “Por quê?” Depois, entendeu que a pergunta não era “por quê?”, mas “para quê?”.  “Aprendi que a dor deve servir a uma finalidade maior. Existe uma missão na vida, e essa missão é enriquecida pela dor.” O mesmo raciocínio o rabino emprega com relação ao holocausto do povo judeu sob o nazismo. “Seis milhões de judeus foram massacrados, e o sol continuou a brilhar e a grama a crescer. A fé leviana se esvazia nesses momentos como um balão de ar espetado pela agulha da realidade. Mas a fé levou o povo judeu a se reerguer das cinzas. A fé é a coragem de continuar. Crer significa viver com Deus, contra Deus, mas jamais sem Deus”.

A injustiça e a barbárie são outros elementos que em nosso século empurram no sentido do afastamento de Deus. Não que outras épocas fossem mais justas e gentis. A singularidade está em primeiro lugar na escala, nos milhões de mortos em duas guerras mundiais, na estupidez sem nome do holocausto e na carnificina calculada de Hiroshima; em segundo lugar nos meios de comunicação, que levam o conhecimento das brutalidades a toda parte; e em terceiro na injustiça consciente e consentida em países como o Brasil. Este não é um tempo de inocência. Sabe-se o que leva ao desequilíbrio social, ao desamparo e à miséria, e no entanto se continua a aceitá-los como se fossem forças invencíveis como uma tempestade ou um terremoto.


A adversidade pode conduzir ao reforço da fé, em casos como o de Sobel, mas em outros produzirá resultado oposto. Para ficar no holocausto, o escritor judeu Elie Wiesel, prêmio Nobel da Paz em 1986, conta que viu esvair-se sua fé em Deus junto com a fumaça que observou subir do crematório de Auschwitz na primeira noite que passou lá. Sua mãe e a irmã morreriam naquele local. Um dia, uma criança foi enforcada ea cena: m frente de todos. Um prisioneiro, atrás de Wiesel, perguntou ao olhar “Onde está Deus?” Onde está Deus que não vem praticar sua justiça?, ele queria dizer. Onde está Deus que não impede essa atrocidade? Wiesel nesse momento ouviu uma voz dentro de si que respondia: “Deus está ali, pendurado naquele patíbulo”. Deus morria, para ele.

A pergunta “Você acredita em Deus?”, por seu convite à introspecção e a um olhar sobre as questões extremas da vida e da morte, é a mais tremenda das perguntas. Entre as respostas, há duas clássicas, uma no âmbito mundial, outra brasileira. A mundial é a resposta do psicólogo Carl Gustav Jung num programa de televisão americano: “Eu não acredito. Eu sei!” Jung cumpriu uma trajetória em que, a partir dos cacos a que a psicanálise freudiana reduzira o sentimento religioso, pretendeu reconstruir um misticismo possível para o século XX. A resposta clássica no âmbito nacional é a do hoje presidente [artigo escrito em 1977] Fernando Henrique Cardoso, quando candidato a prefeito de São Paulo, em 1985, num debate na televisão. “Essa pergunta o senhor disse que não faria”, começou por reclamar o então senador ao jornalista que a formulou, Boris Casoy. E continuou:

— É uma pergunta típica de quem quer levar uma questão que é íntima para o público, uma pergunta típica de alguém que quer simplesmente usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique, que não está em jogo. Devo dizer ao deputado Boris Casoy que este nosso povo é religioso. Eu respeito a religião do povo e, na medida em que respeito a religião do povo, as várias religiões do povo, automaticamente estou abrindo uma chance para a crença em Deus.

Nessas poucas linhas há material para várias considerações. O embaraço de Fernando Henrique é tal que chega a chamar o jornalista de “deputado”. Sua resposta, na parte mais substantiva, se é que há alguma substância nela, é estapafúrdia. “Respeitar” a religião de alguém não parece trazer como consequência “automática” admitir a crença em Deus. Não fica claro, além disso, a quem se está “abrindo uma chance” para acreditar em Deus — se ao povo ou ao próprio entrevistado. Se for ao povo, ele, Fernando Henrique, não tem autoridade para abrir ou fechar chances numa questão dessas. Se for a ele próprio, resta saber o que seja “abrir uma chance” para acreditar em Deus.

Fernando Henrique não quis responder objetivamente sabe-se por quê. Se dissesse sim, seria chamado de cínico por todos os que sabem que em seu passado e sua formação intelectual não há vestígios de religião. Se dissesse não, temia afastar um eleitorado que se supõe não esteja preparado — não para votar, como diria Pelé, mas para separar a fé em Deus da moralidade. Para o comum das pessoas, não acreditar em Deus equivaleria a ser mau. Mesmo sem conhecê-la, muitos brasileiros concordariam com a frase famosa de Ivan Karamasov, personagem de Dostoievski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

Fernando Henrique, em sua famosa resposta, por mais tortuosa e titubeante, tem razão em três pontos. Primeiro, que a pergunta era uma armadilha. Foi formulada para embaraçá-lo. Segundo, que a questão não estava em jogo. Não é por acreditar ou não em Deus que alguém será melhor ou pior prefeito. Por último, e mais importante, a questão é íntima. É de uma intimidade brutal, tanto quanto uma pergunta sobre os hábitos sexuais de alguém.

É a mais tremenda das perguntas, mas não é a mais velha. Não faria sentido formulá-la aos personagens que, na Bíblia, protagonizam as histórias da aurora da humanidade, segundo nota o americano Richard Elliott Friedman, professor de hebraico e teologia e autor de outro livro traduzido no Brasil, O Desaparecimento de Deus (Editora Imago). Adão ouve os passos de Deus, no Jardim do Éden, Abraão dialoga com ele. Como perguntar-lhes se acreditavam em Deus? Eles simplesmente “sabiam”, como Jung. Na travessia do deserto, conduzida por Moisés, o povo de Israel tem diante de si uma nuvem a apontar-lhe o caminho, alimenta-se de maná, um milagroso alimento que cai do céu, e bebe água que jorra das pedras. São milagres sobre milagres, a atestar a presença permanente de Jeová. Não teria cabimento perguntar se aquele povo acreditava em Deus. E, no entanto, dá-se um fenômeno espantoso, ressaltado por Friedman: a geração do deserto está sempre a reclamar, ou a trair Jeová adorando falsos deuses.


Hoje é mais difícil acreditar em Deus. Ele não nos visita com tanta frequência, e as proezas milagrosas migraram para os sacerdotes da ciência, capazes de tornar possíveis viagens pelo espaço e clones de seres vivos. Acreditar em Deus implica uma opção muito mais consciente, meditada e deliberada. “Uma das coisas mais bonitas que Deus criou foi o livre-arbítrio”, disse a VEJA o pastor Valdir Raul Steuernagel, diretor do Centro de Formação Teológica da Igreja Luterana. “Abraçar a fé é ato consciente do ser humano. Exige sua participação ativa e racional.” Outro entrevistado, o professor Mário Sérgio Cortella, do departamento de teologia e ciência da religião da PUC de São Paulo, afirma: “Há cinquenta anos, quem nascia numa religião morria nela. Agora, a pessoa pode escolher várias alternativas. Isso reforça seu caráter de busca individual”.

Mas acreditar ou não em Deus liga-se também a algo muito antigo. Apesar de todos os progressos da ciência, e de toda a liberdade para conjeturar, não há resposta humana ainda às perguntas cruciais a respeito de onde viemos, para onde vamos e o que fazemos aqui. Diante da perplexidade que elas provocam, somos frágeis como um pastor de ovelhas do tempo em que o mundo e as sociedades estavam se fazendo, tal como relatado na Bíblia.


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O PT E A AVESTRUZ, de DENIS LERRER ROSENFIELD

Publicado originalmente em O Globo de 6/4/15. Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul


O PT está se comportando como a avestruz. Pensa que, escondendo a cabeça, ninguém mais verá o resto do corpo. Os escândalos se sucedem, o mensalão passa para o petrolão, e o partido insiste em frisar a sua virgindade ética, como se tudo fosse uma grande artimanha das oposições. Ainda assim, deveria ser explicado a que oposição os seus líderes se referem, pois, se há, ela tem sido incapaz de conduzir qualquer coisa. Segue a reboque das ruas que, nestas últimas semanas, se tornaram a grande protagonista do país.

Vamos convir que a posição de vítima assumida pelo partido não tem nenhuma chance de vingar. O PT está no quarto mandato presidencial e é, portanto, responsável por tudo o que nele aconteceu e acontece. De nada adianta continuar culpando o ex-presidente Fernando Henrique por todo o mal que nos aflige, pois, se esse argumento for levado a sério, ele terminará sendo responsável por qualquer unha encravada. O que, sim, tem faltado para o atual governo e seu partido principal é o humilde reconhecimento dos seus erros, algo que parece se situar para além da soberba reinante.

Se o país vive, do ponto de vista governamental e partidário, uma espécie de desmoronamento ético, isto se deve ao aparelhamento da máquina estatal, tornada um mero instrumento de consecução de fins partidários. O discurso oficial é contra a corrupção, quando a prática partidária consiste em acobertá-la. O PT nem consegue punir os seus envolvidos tanto no mensalão quanto no petrolão. Uns são considerados “guerreiros do povo brasileiro”, outros não o são ainda por não terem sido condenados.

O atual tesoureiro continua protegido e a Petrobras, por sua vez, segue blindada na verdadeira apuração de suas responsabilidades. Tudo é um grande jogo de cena. Ocorre, porém, que esta cena não está mais “colando”, não gerando nenhuma adesão dos cidadãos. O PT caiu na lama e não consegue sequer se levantar.

Por outro lado, o país vive um despertar ético, demonstrando uma real preocupação com as suas instituições. As manifestações do dia 15 de março último foram uma efetiva tomada de consciência, com as ruas plenas de indignação, independentemente de faixa etária, classe social e gênero. O governo e o seu partido não mais conseguem tapar o sol com a peneira. Não há marketing que resolva essa situação. Os mágicos ficaram sem mágica!

Não tem o menor cabimento o PT reclamar de uma grande orquestração da mídia, como se fosse ela a responsável pelas grandes manifestações de rua, pelos escândalos da Petrobras, pela inflação e pelo o PIB zero. Jornais, revistas e meios de comunicação em geral, em sua diversidade e pluralidade, retratam o que está acontecendo.

O que pretendem os dirigentes partidários? Que as ruas repletas de gente não sejam filmadas, retratadas e descritas? Que o PIB zero não seja comentado? Que a inflação que acomete os cidadãos seja desconsiderada, quando ela é, mesmo, sentida diariamente nos supermercados? Que a corrupção da Petrobras não seja noticiada? Que o trabalho da Justiça e do Ministério Público seja denegrido?

A política petista de feroz crítica aos meios de comunicação consiste em uma tentativa de matar o mensageiro para que a mensagem não seja transmitida. Em vez de o partido enfrentar os seus reais problemas, termina ele apelando ao seu arsenal ideológico de ideias antiquadas e ultrapassadas, desta feita a do “controle social dos meios de comunicação” ou de “democratização dos meios de comunicação”.

Para falar claro: trata-se da tentativa de estabelecer a censura no país, nos moldes do que já é feito na Venezuela, Bolívia, Argentina e no Equador, nesta via comunista, soviética, agora denominada de “socialismo do século XXI”, como se assim a proposta autoritária se tornasse mais palatável! A moralidade é estropiada em nome de uma “superioridade moral do socialismo”.

O PT não consegue nem se entender no que diz respeito ao seu apoio ao governo Dilma. A austeridade fiscal que está sendo introduzida não é a responsável pela inflação, pelo PIB zero, pela desvalorização do real e pelos altos juros. Esses são nada mais do que consequências das políticas econômicas conduzidas pelo governo Dilma e pelo segundo mandato do governo Lula. São, reitero, meras consequências. O novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, nada mais está fazendo do que tentar corrigir o descalabro reinante, que é um produto do que foi feito até aqui.

Agora, que o partido se insurja contra o ministro e, indiretamente, contra a presidente, em nome das políticas desastradas que nos levaram até essa situação, é um manifesto contrassenso. Caberia, isto sim, apoiar a mudança de rumo, em nome da governabilidade e, sobretudo, do país, que é maior do que qualquer partido e da soma de todos. Como pode a presidente exigir o apoio incondicional do PMDB quando o seu próprio partido é o maior opositor de sua política atual?

A proposta de alguns setores partidários de radicalização do processo político, por intermédio de uma nova aliança com os movimentos ditos sociais, é de uma grande irresponsabilidade. Movimentos como o MST são expressões de um projeto político de tipo marxista para instalar no país um regime totalitário de tipo socialista.

Trata-se, no caso, de uma organização de tipo leninista, que possui vários braços, como os Sem-Teto, as Mulheres Campesinas, os Atingidos pelas Barragens, os Pequenos Agricultores e a Via Campesina. Todos obedecem a uma mesma estratégia e comando, tendo na Venezuela e em Cuba seus maiores exemplos. A faceta social é uma mera roupagem.

Insistir nesta via significaria lançar o país na ingovernabilidade e numa eventual crise institucional. Quando Lula chamou o “exército” de Stédile às ruas, ele conclamou essa milícia a se preparar. Permaneceram ele e os seus apoiadores cegos e surdos aos clamores populares. No dia 15 de março [ver vídeo abaixo], um dos seus dizeres era: “A rua brasileira jamais será vermelha!”. Como bem expressaram os manifestantes em suas roupas: “ela é e sempre será verde-amarela!”.


CENTENÁRIO DE ADONIAS FILHO, por CYRO DE MATTOS


Comemora-se neste ano o Centenário de Adonias Filho, escritor baiano aclamado pela crítica nacional, nascido em Itajuípe, antigo Pirangi, distrito de Ilhéus, em 27 de novembro de 1915. Deixou em sua obra de contista e romancista cinco livros que têm como cenário o Sul da Bahia na época da conquista da terra: Os Servos da morte (1946), Memórias de Lázaro (1952), Corpo vivo (1962), Léguas da promissão (1968), e As velhas (1975).

Adonias Filho é um autor de livros de ficção que engrandece a região cacaueira baiana no corpo das letras brasileiras. Legítimo homem da civilização cacaueira baiana sustentou pela vida afora um amor de perdição por suas raízes e histórias de sua gente. Nos últimos anos de vida, mudou-se do Rio de Janeiro e foi morar com a esposa na sua fazenda Aliança, em Inema. Depois de muito caminhar pela cidade grande, por entre edifícios e gente vinda de todos os lados, retornava aquele homem de voz mansa, cordial, ao chão de seus ancestrais.


É sabido que a obra literária motivada por certa região enfoca o peculiar de determinada cultura, tendo por fundo um cenário típico, cujas condições são refletidas no conteúdo da narrativa, conferindo-lhe nota especial. Os estudiosos dizem que o que faz uma obra regional é o fato de mostrar-se presa, em sua matéria narrativa, a um contexto cultural específico, que se propõe a retratar e de onde vai haurir a sua substância. Mas isso não a impede de adquirir sentido universal, em função de seu significado portador de humanidades, mensagem profunda da existência, fazendo com que ultrapasse as fronteiras da região retratada.

É o caso do consagrado narrador Adonias Filho. Um criador de histórias que tem como cenário a região cacaueira baiana na época da infância quando a selva era impenetrável e hostil. Percebe-se nesse artesão da linguagem uma moderna forma de ser contada a história, harmonizada com a representação das essencialidades da criatura, as quais são retiradas do ambiente onde habitam.

Ressalte-se que atrás do homem de determinada região, com sua típica problemática existencial do indivíduo, seus falares e maneiras próprias de relacionar-se com o mundo, há o que é próprio de qualquer ser humano onde quer que esteja. Razão e emoção, pensamento e sentimento. O pensamento e o sentimento dos personagens de Adonias Filho obedecem às forças cegas do destino, que resultam de solidões e desesperos impostos pelo ambiente de natureza bárbara. Como seres embrutecidos, primitivos, possuem os sentimentos reprimidos. São índios, negros, tropeiros, caçadores, pequenos agricultores arruinados.

Esse narrador de estilo sincopado e poético é uma das vozes fundamentais da melhor literatura de todos os tempos. Influenciado pelos dramaturgos gregos, Shakespeare, o cinema, do fundo trágico de seus romances, novelas e contos emanam personagens marcantes, em cujos passos e travessias ressoam os sortilégios da morte através de entonações bíblicas.

Homem culto, simples, ocupou cargos públicos importantes. Foi diretor da Biblioteca Nacional, Editora A Noite, Serviço Nacional de Teatro e pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Conquistou o Prêmio Nacional da Fundação Educacional do Paraná, Instituto Nacional do Livro, Jabuti, Pen Club do Brasil e Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto da obra. Seus romances foram publicados nos Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Venezuela e Bratislava. É tão importante o seu trajeto de vida para o Sul da Bahia que foi instalado em Itajuípe o Memorial Adonias Filho para preservar sua obra e acervo. O Centro Cultural de Itabuna, da Fundação Cultural da Bahia, leva o seu nome. Ele é o patrono da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

Depois que a esposa Rosita morreu em 1990, Adonias Filho caiu em grande tristeza. Ficava deprimido, em seus vagares pela casa-sede da fazenda. Dizem os conterrâneos que morreu de amor, em 2 de agosto daquele mesmo ano, na casa-sede de sua fazenda, em Inema. O homem criador de romances pujantes e densos não conseguiu suportar a solidão com a perda da mulher amada e companheira

Agora, no reencontro do legítimo homem do cacau com a sua paisagem, no seu regresso às origens, o bem vence o mal. Ultrapassa a morte pelas mãos do amor vivido entre Adonias e Rosita.

Cyro de Mattos é contista, romancista, poeta e cronista. Tem livros pessoais publicados em Portugal, França, Itália e Alemanha. Organizou e prefaciou a coletânea Histórias Dispersas de Adonias Filho. 

DOS DEFUNTOS, de Hélio Brasil


Não gosto de enterros, mesmo quando os defuntos não me são simpáticos. Ao meu enterro irei por absoluta impossibilidade de faltar, e para não ser descortês com os amigos. Além do que, enterro é envolvido e antecedido por expressões lúgubres e palavras exdrúxulas (em todos os sentidos): nosocômio, coma, CTI, laparatomia, entubação, necropsia, seguidos, em geral, por passamento, expiração, falecimento e velório, logo acompanhados por féretro, ataúde, essa, catafalco, cenotáfio e, mais, sepulcro, jazigo, tumba, exumação.

Este rebarbativo, sonoro e sombrio elenco poderia desqualificar a morte, não fossem a lágrima – amiga da tristeza, mas bela palavra – e, logo depois, a saudade, segundo alguns, vocábulo ímpar da derradeira flor do Lácio, sem equivalente, dizem, nas outras línguas. O regret do inglês e o revenir do francês, não expressam o sentimento, não “traduzem” aquela dorzinha aguda, o desconforto da ausência. Apenas quebram o galho... 


Mas o caso não é vocabular. Sob o título geral de Deslumbramento & Amargura, minhas crônicas não poderiam desprezar o enterro, este ato da comédia humana e, de como, na qualidade (por ora) de assistente, a ele cheguei.

Logo que me aprumei como gente, participando da vida familiar, ouvindo sem ser ouvido, mais escutando do que ouvindo e sempre falando para as paredes, acompanhei minha mãe nos enterros, já com eles familiarizado. Em outras crônicas falei das madrugadas tétricas com as mortes de um dos meus tios e de meu avô, esta última por mim testemunhada. Experiência amarga e repetida, anos mais tarde, ao ver o último suspiro de minha prima Élida, ainda um bebê.

Ao recebermos a comunicação da morte de alguém próximo, parente ou conhecido, mais das vezes cabia à minha mãe representar a família. Ir ao velório – na época, realizado em casa, pois raros morriam nos hospitais – e, a seguir, acompanhar o féretro. Ali, a família era o espetáculo, o defunto um personagem secundário. Viúvas inconsoláveis ou conformadas, filhos pranteando pais, mostrando, porém, o alívio ao se desfazer dos encargos criados por irremediáveis velhos, doentes de irremediáveis doenças.


O morto era entronizado, em geral, na sala de visitas da casa (os apartamentos é que acabaram com os velórios). Coberto de flores, vestido como se fosse a uma festa onde não faltavam  a gravata, as meias e os sapatos de verniz. Lá ficava o falecido, o rosto talhado em marfim, olhos vítreos, entreabertos, o queixo amarrado por um lenço ou por uma gaze, para que não lhe sobrasse um último ar de espanto. Jamais lhes surpreendi um esgar de sorriso. A maioria das vezes, a falsa serenidade deixava transparecer a perplexidade de ter deixado uma vida jamais desejada.

Em nossas terras, usava-se o indispensável cafezinho para distrair os presentes. Aqui e ali, um biscoitinho. Mais requintados, um bolinho. Ou pastéis. Música, nem pensar. Só na missa do sétimo dia, os Gounot, Schubert entravam em cena.

As cenas no fechamento do caixão, para as despedidas tradicionais, implicavam em gritos, choro convulso e um grupo tentando arrancar o sofredor vivo curvado sobre o irremediável morto. O transporte até o carro paramentado com ornatos negros sobre fundo dourado, o roxo da seda do caixão compunham a cine-xilogravura tétrica.


Olhai este retrato lindo / Vereis quem aqui está dormindo

E lá se ia o cortejo, carros e mais carros perseguindo o morto, levando, por vezes, em suas capotas as tétricas coroas, penduradas as faixas: Saudade eterna (como se o amigão fosse eterno), Jamais o esqueceremos (mal voltados do cemitério, já esqueciam quem se fora...). E o defunto perseguido, vigiado na sua última viagem para o campo santo. Lá chegando, uma carreta o esperava. Os mesmos abnegados que o levaram da essa ao carro, o depositavam na carreta. Mas esta nem sempre fora componente do ato e, mãos fortes, de novo, empunhavam as alças do caixão. Seguia-se o trajeto entre as campas e jazigos, seguindo o grupo dos carregadores, mais das vezes as pessoas da família, revezando-se os homens na tarefa, ora pela distância em que se encontrava o sepulcro, ora pelo avantajado peso do defunto. À beira da cova, nova cerimônia. Nada de aplausos, como hoje vem se fazendo. Podia parecer um desrespeito ao morto. Como sonoplastia adicional, o soluçar dos mais chegados, o fungar de um ou outro e, mais raro, uma voz em despedida.  Apenas as orações murmuradas antes que o caixão baixasse, o choro abafado, a pá de cal passada de mão em mão, e a fila aflita para que o derradeiro a lançar o pó branco não fosse um jovem, alimentada a crença de que o último a jogar a cal seria o próximo a morrer, davam som e cor ao lúgubre espetáculo. O arremate cabia aos coveiros que aguardavam com ar entre compungidos e impacientes, chapéus na mão, sua entrada em cena. A terra acumulada ao lado, como se fazia nas covas rasas, era puxada pelas enxadas para encobrir o ataúde, como de praxe, a sete palmos do chão. A operação fazia ressoar o tenebroso ruído dos torrões quebrando-se sobre tampa do esquife, até cessar, sendo substituído pelo som da terra preenchendo toda a sepultura.


Nos jazigos perpétuos, onde os restos mortais seriam sobrepostos – os mais antigos já exumados, os ossos acomodados em uma caixa –, uma laje de concreto cobria o novo hóspede. Jamais acompanhei um morto que fosse guardado nos grandes jazigos, semelhantes a capelas, com gavetões laterais. Meus mortos eram menos importantes.

E assim, família, amigos e conhecidos desfaziam-se do falecido que ganharia visitas esparsas, nos aniversários, no dia dos Finados ou em datas marcantes. Depois, a exumação que se tornava espetáculo macabro, dependendo do solo e das condições físicas do defunto. Mais das vezes, lá estavam os trajes em farrapos e ossos mais ou menos em estranho quebra-cabeças...


Um derradeiro ato da tragi-comédia humana.



Este texto, um dos capítulos de Cadernos (quase) esquecidos de Hélio Brasil, foi gentilmente cedido pelo autor para publicação neste blog cultural.  Fotos do Cemitério São João Batista (Rio de Janeiro) do editor do blog.


JUSCELINO KUBITSCHEK



"LANÇO OS OLHOS MAIS UMA VEZ SOBRE O AMANHÃ DE MEU PAÍS" de Stella Leonardos

Pelo Planalto sem fim
         lá vais indo, Juscelino:
num monomotor tão mínimo
         pra teu sonho tão grandioso.

Tão pronto o aviãozinho pousa
         te sentas, naquele toco,
de árvore junto de um corgo.

E leio no Livro de Ouro
         o que escreves pra teu povo:

           “Deste Planalto Central
desta solidão que em breve se
transformará em cérebro das
mais altas decisões nacionais,
lanço os olhos mais uma vez
sobre o amanhã de meu país e
antevejo esta alvorada, com uma
fé inquebrantável e uma
confiança sem limites no seu
grande destino.”

Não sei se é manhã, se é tarde.
  Do que eternas, Juscelino,
da esperança  que te inscreve,
         raia uma eterna alvorada. 

(Do livro SAGA DO PLANALTO)



JUSCELINO SEGUNDO PEDRO NAVA:

Nossa turma era muito unida e até hoje os doutorandos de 1927 mantemos contato uns com os outros e anualmente nos reunimos para um jantar de confraternização no aniversário de formatura [...] Fomos clínicos, cirurgiões, especialistas, médicos do interior, médicos de cidade e professores. Seria motivo para outro gênero de livro estudar as personalidades de um a um e mostrar o que a todos ficou devendo a Medicina do Brasil. Um nome, entretanto, está nesta lista sobre o qual não se passa sem palavra de reverência: o de Nonô Kubitschek. Ele projetou-se mais que os outros como personalidade brasileira e mundial. Fora sua simpatia radiosa, seu espírito sempre alerta, sua alegria sadia, seu zelo pelos estudos, seu prodigioso coração — outros predicados não distinguiam aquele menino vindo da casinha de porta e três janelas da rua do São Francisco, na Diamantina — dos outros meninos de sua turma.


Era um moço de talento entre tantos outros bem dotados daquele grupo de doutores de 1927. Ainda não se tinham produzido as circunstâncias sociais e políticas que iriam transformar esse homem num gênio nacional, que figura em nossa história no rol em que estão o nosso descobridor, os desbravadores, os bandeirantes, os integradores da pátria, os fautores da unidade nacional, os libertários da Inconfidência, do Dezessete e Vinte-e-quatro, os pró-homens da Independência, Abolição, da Proclamação da República, os grandes Chefes de Estado. Dos últimos, foi o maior e sua glória excede às de D. João, dos Pedros, de Isabel, de Prudente e dos Conselheiros porque nenhum desses governos foi tão cheio de consequências como o seu. A construção de Brasília e a Conquista do Oeste desviaram completamente o curso de nossa história e deram-lhe perspectivas até hoje não completamente avaliadas. E o admirável em Juscelino é que ele se conservou na ascensão, na glória, na queda e na adversidade dentro das mesmas qualidades de endurância, brandura, tolerância, alegria e bondade que tinham habitado o menino cuja infância foi magistralmente traçada por Francisco de Assis Barbosa e cujas qualidades — sobretudo a do perdão — foram exaltadas por David Nasser em O Testamento, artigo que vale um livro. Eu que fui seu companheiro de bancos escolares, que acompanhei toda a trajetória de sua vida, que o quis como amigo, que compreendi sua pessoa e admirei suas qualidades — fico bestificado! de ver o ódio que não desarma duma minoria contra a figura deste Pai da Pátria... Não há o que discutir nisso. É responder com a nossa canção, adaptando-a à circunstância.

Tim-Tim, Tim-Tim
Tim-Tim, ô-lá-lá,
Quem não gosta dele?
Do que gostará?


(Do quarto livro de memórias de Pedro Nava, Beira-mar.)





JUSCELINO SEGUNDO ANTONIO CARLOS VILLAÇA:


Juscelino compareceu (...) a uma noite de autógrafos de que participei, na Livraria Cobra Norato, em Ipanema, com Raul Bopp, que lançava Samurai, e Aurélio Buarque de Holanda, que autografava O chapéu de meu pai.


Não me lembrava direito como se escrevia o sobrenome dele. Escrevi apenas — "A Juscelino, glória do Brasil." Ele respondeu, gentilíssimo, envolvente — "Você é que é glória do Brasil." Parecia um bailarino.

Jantamos juntos em casa de Altair de Souza, no Flamengo. Juscelino quase não comia. Tinha pavor de engordar. Sentou-se no chão. Parecia um estudante, um rapaz. Tão lépido. Tão inquieto. Tão buliçoso. De repente, Maria José de Queiróz, a mineira, se pôs a cantar. Juscelino se entusiasmou. Parecia um enamorado.

Um sábado, almoçamos no sítio do advogado Emer Vasconcelos, em Jacarepaguá. Aurélio Buarque de Holanda estava lá. Juscelino comeu como um passarinho. Meia banana. Um camarão. Quase não comia. Esfuziante, sim. Mas talvez nostálgico. Seus olhos de cigano buscavam algo, muito além. Era um ser insatisfeito...

(Do livro Os saltimbancos de Porciúncula, editado pela Record.)


Mais informações sobre Juscelino Kubitschek no Portal Brasil.

RABINO HENRY I. SOBEL: Deus

Artigo (brilhante) publicado originalmente na revista Shalom de julho de 1983. 

Mas antes a história de como este artigo veio parar em minhas mãos. Em 14 de outubro de 1995, após ouvir o sermão do rabino na véspera de Yom Kipur, minha falecida tia, Helga Flatauer, escreveu-lhe uma carta (em inglês, aqui traduzido) dizendo (entre outras coisas): "Vi-o de pé falando sobre Deus. [...] A questão é: Quem é DEUS? Um homem de barba branca como nos contam quando somos crianças e a quem rezamos antes dormir? Uma força cósmica? DEUS é 'amor'?" Em resposta o rabino enviou-lhe este artigo que acabou parando no meu arquivo junto com as cartas. A seguir, o artigo e as cartas. 

Se achar que as letras do artigo estão pequenas, aumente o zoom da página (Ctrl + botão de rolagem do mouse).





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O SILÊNCIO E AS MAJESTADES DAS SEXTAS-FEIRAS SANTAS, de Carlos Heitor Cony


Nas Sextas-Feiras Santas do passado, os trens da Central do Brasil não apitavam nem mesmo quando entravam ou saíam dos túneis espalhados pelo trecho que ia de Belém, atual Japeri, até Mendes, subindo a serra do Mar com o esforço de suas caldeiras alimentadas com o bom, o sólido, o inigualável carvão inglês.

Com a guerra, em 1939, o carvão importado foi substituído por lenha nacional, que muito devastou florestas, fazendo da carne de nossas árvores o alimento daquelas fornalhas escuras que produziam uma fumaça esbranquiçada. Muitos trens não conseguiam subir a serra e precisavam do reforço de uma locomotiva extra, que ia e vinha engatada nos últimos vagões, como um Cirineu ajudando a composição a levar a cruz ao alto de um calvário ferroviário.

Mas os trens não apitavam nas Sextas-Feiras Santas. Passavam silenciosamente pelas estações menores, fazendo estremecer as casas mais próximas e participando, com a sua mudez, da mudez geral, pois os rádios também não tocavam, nem os sinos das igrejas: era uma pausa no ruído do progresso e do mundo. Não chegava a ser triste, mas era diferente, doía em algum lugar, por menos que se pensasse na paixão e na morte de um Deus crucificado.

Joaquim Pinto Montenegro, que viveria toda a sua vida em torno dos trens da Central, tinha nas Sextas-Feiras Santas o seu grande dia. Era com orgulho que fiscalizava cada trem que passava por Rodeio, estaçãozinha perdida entre os dois maiores túneis do Brasil naquela época, o 11 e o 12. Não chegava a ser um homem religioso; na verdade, pouco ligava para o drama antigo do qual tinha uma noção vaga e descomprometida.

Achava que, como funcionário do Departamento de Dormentes e Trilhos, cumpria-lhe tomar conta da tradição que já encontrara quando, aos 20 anos, entrara como sinaleiro do entroncamento que desviava as locomotivas no pátio de manobras, pouco antes de os trens serem devorados pela bocarra escura do túnel 12, o maior do continente na sua opinião e na de seus iguais do quadro efetivo dos servidores da Central do Brasil.

Por isso, principalmente, a Sexta-Feira Santa era um dia especial, diferente de todos os outros, pois os trens não apitavam, e isso lhe exigia um esforço suplementar, embora nem trabalhasse nesse dia. As locomotivas ficavam apagadas e imóveis como bichos que dormiam um sono de ferro. O tráfego era menor em todo o percurso da serra do Mar.

Ele desfrutava o feriado tomando conta dos trens que inesperadamente surgiam do túnel 11, sem apitar, sem avisar que estavam chegando  e Joaquim Pinto Montenegro olhava com emoção a comprida Mallet, made in England, que parecia uma viúva enorme e sem grito, vencendo penosamente a garganta que a separava do comprido, do sinistro túnel 12.

Joaquim Pinto Montenegro não precisava dos apitos para saber quem chegava ou saía dos dois túneis, que formavam, na sua opinião e na de seus iguais, as jóias mais preciosas da coroa de glórias da engenharia ferrocarril nacional. Ele as pressentia milimetricamente. Pelo silêncio de cada locomotiva, sabia o nome do maquinista, do foguista, do chefe do trem que, naquele instante, deveria estar percorrendo vagões, avisando aos passageiros que a próxima estação era Rodeio.

Joaquim Pinto Montenegro não era religioso, mas respeitava a Sexta-Feira Santa como respeitava o código de sinais que sabia fazer com as duas bandeirinhas, uma verde, outra vermelha, orientando as pesadas locomotivas que obedeciam rigorosamente a seus movimentos, parando quando a bandeira era vermelha, indo à frente quando era verde. Nem a mão formidável de Deus, regulando o movimento dos astros no espaço infinito, era mais solene e poderosa do que a de Joaquim Pinto Montenegro.

O último trem passava em direção ao túnel 12. Era já noite fechada na serra do Mar, o barulho ritmado dos vagões iluminados acentuava o silêncio geral. Era hora de Joaquim Pinto Montenegro fazer uma coisa extraordinária na sua vida de guia e de protetor dos trens da Central do Brasil.

Como todo mundo naquela época, Joaquim não comia carne naquele dia santificado pelo silêncio das locomotivas que cheiravam a carvão civilizado. Como todo mundo, Joaquim  comera peixe no almoço. E, como todo mundo, sentia-se um pouco enfraquecido ao final do dia. Era necessário suplementar suas energias com um prato de canjica que todos tomavam nesse dia, como um sacramento, um alimento sagrado e permitido. Joaquim tomava sua canjica com solenidade, com a mesma autoridade com que manobrava suas bandeirinhas no pátio de manobras.

Tudo estava consumado, todas as leis e os costumes do mundo tinham sido cumpridos mais uma vez. E Joaquim Pinto Montenegro poderia dormir em paz, na paz do silêncio enorme que tombava sobre Rodeio, no silêncio e na majestade das Sextas-Feiras Santas do passado. 

(Publicado originalmente na Folha de São Paulo em 13/4/2001. Fotografia de Dana Merril obtida na Biblioteca Nacional Digital.)

ODEIO STALIN



Os crimes do nacional-socialista Hitler são constantemente lembrados e exorcisados em filmes, museus do holocausto, memoriais, aniversários da libertação de Auschwitz. Mas e os crimes igualmente bárbaros do camarada Stalin?

Não só não são lembrados como em meios esquerdistas (os mesmos meios que demonizam Israel e fazem vista grossa para o festival de crimes no resto do mundo) o "Guia Genial dos Povos" tem seus simpatizantes. Afinal, não foi Stalin quem industrializou a Rússia e fez dela uma "potência"? Os "fins" justificam os "meios", dirão.

Acabo de ler (em inglês, ainda não foi traduzida para o vernáculo) a biografia de Stalin do historiador russo Edvard Radzinsky, que teve acesso aos arquivos “secretos” da finada União Soviética, e fiquei horrorizado, indignado. Assim como supostamente existiria um "Deus" que premia os virtuosos, parece que existe um "diabo" que premia os perversos e faz com que todos seus empreendimentos deem certo.

Stalin é culpado da:

· morte de milhões de camponeses russos na coletivização forçada da agricultura

· morte de milhares e milhares de desafetos — primeiros a oposição menchevique e social-revolucionária, depois os próprios revolucionários bolcheviques, o generalato russo e finalmente qualquer um com quem ele "cismasse" (podia ser eu ou você)

· trabalho escravo nas grandes obras de construção de barragens, hidrelétricas, etc.

· o Gulag, descomunal campo de concentração, imortalizado pela obra de Soljenitzin

· a morte de desafetos no exílio (o assassinato de Trótski no México foi apenas a ponta do iceberg)

· a deportação forçada para regiões remotas de etnias inteiras (e se não fosse a sua morte os judeus seriam os próximos)

· o “abandono” de Varsóvia às tropas alemãs já no finalzinho da guerra, quando o Exército Vermelho poderia ter intervindo e poupado milhares de vidas, só para desmoralizar o governo polonês no exílio e viabilizar o “golpe” comunista no pós-guerra

· uso da população como “bucha de canhão” para “cansar” os invasores nazistas antes de mobilizar as tropas realmente de elite

· pacto com Hitler e invasão de metade da Polônia, dos países bálticos, além da tentativa (malograda) de abocanhar a Finlândia

No prefácio à sua sucinta biografia do ditador russo, escreve o historiador Paul Johnson: “Stalin foi um monstro, um dos maiores monstros que a civilização já produziu.”

Sou do bem. Não gosto de black block, nem de racismo, nem de antissemitismo, nem de homofobia, nem de quem abate elefantes para vender o marfim, menos ainda do fanatismo islamista. E odeio Hitler, Mao e Stalin.

LIVROS QUE TODO MUNDO ELOGIA MAS NINGUÉM LÊ ou ODEIO PROUST

de Ivo Korytowski


Existem livros que todos louvam mas ninguém (exceto uns poucos especialistas e estudiosos) lê. Refiro-me ao Ulisses do Joyce e ao Grande Sertão, Veredas do Rosa. Se você lê o primeiro parágrafo já desiste. Ei-lo:

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.

Meu pai, que tinha uma biblioteca umas três vezes maior que a minha (e olha que a minha já é grandinha) e que até no hospital onde veio a falecer estava lendo um livro (um tijolão, uma história de Berlim, em inglês), disse que tentou ler o Ulisses várias vezes — no original, em sua língua natal, o alemão, na tradução brasileira do Houaiss — mas nunca conseguiu. Se ele não conseguiu, quem sou eu para sequer tentar?

Outro autor "difícil" é o Proust. Ou bem você adora, ou bem você odeia. O Nava adorava. Eu adoro o Nava. Portanto, por uma lógica aristotélica, eu deveria adorar. Nos meus vinte anos, quando eu devorava toda sorte de literatura (o Eça, o Machado) um professor de economia da Fundação Getúlio Vargas que conheci (depois foi parar em Londres) disse que para ler Proust você tinha que ter trinta anos. Assim, esperei. Cheguei aos trinta, quarenta, cinquenta, sessenta.

Em viagem recente a Paris, saboreei umas madalenas. No Parc de Bagatelle minha mulher observou que Swann (no filme) ia lá. Foi o suficiente para que eu decidisse que chegou a hora de ler Proust.

Escolhi a clássica tradução do Quintana (a do Py será melhor?) O primeiro volume ainda consegui traçar. Criei até um verbete correspondente na Wikipedia, traduzido do verbete francês. Você pode ir lá ver.

Do segundo volume, sobre as “raparigas em flor” (que o Py moderniza para "moças"), consegui transpor três quartos. Pico Ayer compara a leitura de Proust a uma "revelação" budista. Flerto com o budismo desde os anos noventa do século passado mas não consegui ver o que tem o cu (o Proust) a ver com as calças (a revelação).

Fala sério, depois de esbarrar com uma passagem como a que se segue dá para continuar lendo o livro?

Sem dúvida, naqueles anos ainda tão pouco afastados, não era à visão do grupo, como na véspera em seu primeiro aparecimento ante mim, mas ao próprio grupo que faltava nitidez. Então, aquelas crianças demasiado pequenas estavam nesse grau elementar de formação em que a personalidade ainda não apôs o seu selo em cada rosto. Como esses organismos primitivos em que o indivíduo praticamente não existe por si mesmo e é antes constituído pelo polipeiro que pelos pólipos que o compõem, permaneciam elas comprimidas umas contra as outras. Às vezes, uma derrubava a sua vizinha, e então um riso louco, que parecia a única manifestação de sua vida pessoal, as agitava a todas ao mesmo tempo, apagando, confundindo aqueles rostos indecisos e careteantes na gelatina de um único cacho cintilante e trêmulo. Numa fotografia antiga que deviam dar-me um dia, e que conservei, o seu bando infantil já oferece o mesmo grupo de figurantes que mais tarde o seu cortejo feminino; sente-se ali que já deviam produzir na praia certa mancha singular que obrigava a olhar para elas; mas ali não se pode reconhecê-las individualmente senão por intermédio do raciocínio, deixando o campo livre a todas as transformação possíveis durante a juventude até o limite em que essas formas reconstituídas fossem dar numa outra individualidade que é preciso também identificar e cujo belo rosto, devido à concomitância de uma estrutura elevada e cabelos crespos, tem possibilidade de haver sido outrora essa redução de careta mirrada que o retrato apresenta. [...]

EU DESISTI.

Proust é louvado por uma suposta sacação que praticamente virou uma “teoria psicológica”, a teoria da memória involuntária: especificamente, um belo dia ele come uma madalena e aí todo um trecho de sua infância que jazia soterrado na inconsciência volta à tona. Mas, vamos e venhamos, fora o Proust alguma outra pessoa alguma vez conseguiu se recordar de uma infância inteira só porque comeu uma coisinha, ou sentiu um cheirinho? Uma teoria tem que ser universal, aplicável a todos.

O que há de "errado" no texto de Proust? A sintaxe arcaizante (conquanto seja um escritor inaugurador da modernidade literária francesa, suponho), com suas frases tipo "alemão" que quando terminam você já esqueceu o começo? Não necessariamente. O Saramago tem uma sintaxe estranha e é genial. O problema é a overdose de “prosa poética”, a, digamos, “masturbação mental”, a divagação (o fluxo de consciência para usar o termo técnico) levada aos píncaros. Haja paciência! Ninguém merece!

Tem trechos inteiros que você lê, lê, e depois se pergunta “o que foi que acabei de ler?” e não sabe. Você leu uma “sopa de palavras”.

Estou exagerando? Então tente. Depois me conte.


Adoro Dickens. Adoro Machado. Adoro Balzac. Adoro Mann. Adoro Eça. Mas quer saber? ODEIO PROUST.