O OUTONO DE NOSSO PATRIARCA, de NELSON MOTTA

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O GLOBO DE 14/8/2015

Um fabuloso personagem sem paralelo na ficção brasileira, que mais se aproxima dos fantásticos patriarcas de Gabriel García Márquez



São milhares de mulheres agricultoras, que dão duro no campo e ajudam a alimentar os brasileiros, são pessoas simples, sofridas e honradas, que mereciam mais respeito de Lula na Marcha das Margaridas, quando ele zombou da inteligência delas — e do resto do Brasil — dizendo que Dilma não pode ser julgada por seis meses de governo, embora esteja há 55 no poder. Que a crise atual foi provocada pelos Estados Unidos e a Europa, e não pelo desastroso primeiro mandato.

A marcha leva faixas e grita “Fora Cunha” em frente ao Congresso, exigindo a cassação e a prisão de um dos deputados mais votados do país e que legitimamente preside a Câmara, seja ele um canalha ou não. Mas quem gritar “Fora Dilma!” é golpista, coxinha, direitista ou rico. Embora 93% dos brasileiros a desaprovem. Vai entender.

A cada novo lance, vai ficando mais inverossímil a história desse fabuloso personagem que não encontra paralelo na ficção brasileira e mais se aproxima dos fantásticos patriarcas de Gabriel García Márquez, em que o talento, a inteligência e a ambição levam à ascensão e queda de um sindicalista carismático, inteligente e pitoresco, vítima de suas próprias bravatas, malandragens e frouxidão moral, devorado pelas velhas elites políticas e econômicas de sempre, com quem se aliou, achando que as enganaria.

Um dos seus piores legados é os salários de empregos públicos e suas aposentadorias se tornarem muito melhores que os da iniciativa privada, com o dinheiro do contribuinte. Quanto maior o Estado, maior a corrupção. Nos milhares de cargos de indicação politica é que acontecem os grandes prejuízos, por corrupção ou incompetência, ou os dois. Na empresa privada o que vale é mérito e eficiência: roubos são raríssimos.


Dizendo que não pode ir nem a um restaurante de São Bernardo por medo de ser vaiado, Lula tenta articular uma impossível reação, que depende mais de Dilma do que dele, mas com 93% contra, quem acredita em uma virada? Como terminará a história sensacional desse fabuloso personagem que foi um rei do Brasil no século XXI? Drama, tragédia ou farsa? Um seriado melhor que “House of Cards”.

ARQUITETURA MODERNA NO BRASIL: ASCENSÃO E QUEDA, de Helio Brasil



Encerrada a Feira Internacional de 1889, em Paris, restou sua peça mais significativa à qual os franceses, a princípio, torceram o nariz. Seja pela permanência seja por suas reais virtudes plásticas, a torre projetada por Eiffel (1832-1923), sobreviveu à Exposição e carimbou a nova tecnologia, antecipando a famosa máxima atribuída ao americano Sullivan: “A forma segue a função”.  Basta que nos aproximemos da torre e apreciemos seu esqueleto metálico para entender a mensagem.

Exageros críticos à parte, dentre as muitas lições deixadas pelo notável engenheiro francês, foram definitivas a audácia e a possibilidade tecnológica trazida pelo aço. Do alto dos 300 metros da torre, literalmente, o homem ampliou seus horizontes e neles divisou mais do que uma única tecnologia. Corrobora esta imagem o fato de que não foram apenas as construções metálicas que, em definitivo, marcaram o movimento moderno. Com sua alma de plasticidade artesanal, ‘fôrma’ e forma dialogando sob as mãos dos herdeiros do modesto jardineiro Monnier, a docilidade do concreto armado permitiu “cubar” os volumes, recém-libertados pela audácia pictórica de impressionistas e cubistas. É fácil a associação visual entre as experiências de Braque (após Cézanne) e a enxutês de Adolf Loos. O austríaco amaldiçoou as nódoas que as artificiais pétalas dos ornatos deixavam sobre os planos. O século XX, ainda sob as luzes do século XVIII, renunciava ao século XIX e emprestava novos marcos à humanidade.

Na França, um bom europeu, Le Corbusier, sempre de costas para o Novo Mundo, e Frank Lloyd Wright, um típico americano, ignorando o Velho Continente – ambos cultos – traçaram seus projetos forçando a falsa dicotomia racionalismo versus organicismo. Difícil para os estudiosos, ao analisar toda a obra, de um e de outro, é encontrar a rigorosa permanência de princípios...

Nos EUA, W. Jenney, Sullivan e seus seguidores, ajudados por Ottis, já haviam se apropriado das novas tecnologias, arranhando os céus da América e fazendo com que a arquitetura yankee tivesse avós e pais reconhecidos.  

Na Europa, o desapontamento com a tecnologia ariana da suástica levou a Bauhaus de Groppius a doutrinar em sentido oposto. Coisa não assumida por Albert Speer, que ao cumprir os pedidos esboçados por seu führer, terminou condenado ao olvido, de certo modo, injusto. O mesmo aconteceu com as experiências mussolinescas, na arquitetura dos jovens Sant’Elia e Terragni. Arquitetos e respectivas obras foram associadas a seus criminosos patronos, obstruindo juízos apolíticos das mesmas, se isto for humanamente possível. Ligadas ao período infausto da vida europeia, suspeitas de conteúdo ideológico, tais obras dificilmente receberiam crítica isenta. Muito menos, divulgação.

Cabe perguntar: se, por um azar da humanidade, o Eixo tivesse triunfado, como seria escrita a história da arquitetura moderna? Groppius e Mies migraram para os EEUU, levando mais a forma do que o conteúdo de suas propostas. E se o mestre fosse Speer?

Mas a história não vive de hipóteses...

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Ao descermos o Atlântico e cruzando o equador, nos anos 30 e 40 do século XX, vamos encontrar um Brasil tão grande quanto pobre, ainda vivendo o ufanismo vazio de nação adolescente.

No cenário setentrional o grande conflito de 1914-18 deixou uma alquebrada Europa em aparente convalescença, e o continente norte-americano em ascensão, ensaiando a maioridade dos EEUU.

Passados 21 anos, o duvidoso entendimento entre as nações foi sucedido por novo conflito mundial. Esperado, talvez; fomentado, ou quem sabe a simples continuação do primeiro? A “Liga das Nações” (madrasta da ONU) de 1918 a 1938 fracassara tanto quanto sua sucessora, em nossos dias.

Fotografando a nação brasileira nos meados da década de 1930, vemos um país que há pouco mais de meio século renegara a escravidão e a monarquia. Diríamos que a república, ou melhor, a autêntica representação popular ainda não assentara, aqui, bases sólidas.

No horizonte auri-verde, raiavam as reinações nacionalistas esboçadas por Monteiro Lobato e ouviam-se as buzinadas do Claxon tupiniquim da Semana de Arte Moderna de 1922. Controvertido, mas com a arrogância dos triunfadores, o Modernismo inoculava em nossos intelectuais um exagerado asco a tudo que se fazia até então, contaminando a elite pensante, desde o antilusitanismo da República (com a óbvia criação de anedotário histórico), ao indianismo romantizado, passando pelas penitências que purgassem o preconceito racial, face práticas iníquas aplicadas aos negros escravizados. Em suma, até ali teríamos feito tudo errado porque imitávamos os maus… Quebraríamos os espelhos e seríamos nós mesmos, e melhores.

Se este quadro (simplificado e talvez exagerado) é indicativo de que oferecíamos terreno virgem às novidades que aqui viessem plantar, somos obrigados a ressalvar as autênticas trincheiras intelectuais. Seria assim, injusto, omitir os papéis de Mário de Andrade e de Rodrigo de Mello Franco (sintetizando a lista) na “descoberta” de nossas jóias barrocas e a revelação de um sólido patrimônio cultural, até então, ignorado. Talvez seja este o episódio de maior substância para a cultura nacional, onde o sectarismo desaparece para dar lugar ao pluralismo que não execra a cultura “popular” em benefício da “erudita”, e tenta fazer as duas caminharem em passo igual.

No que concerne à arquitetura, contudo, há outras considerações ao avaliarmos as transfigurações trazidas pela Semana Modernista

Vamos lembrar que à robustez da literatura e das artes plásticas, não corresponde no movimento de 1920 uma eficaz manifestação de nossa arquitetura.  Arquimedes Memória e Ramos de Azevedo, no quase consolidado eixo cultural Rio-São Paulo, ainda exibiam obra tão extensa quanto duradoura, sem adotar a cartilha modernista, para eles um espartilho formal, disfarçado de libelo pela liberdade de criar o “novo”. Mesmo assim, contrariando a crítica de então que os considerava acadêmicos incuráveis e, pior, cristalizados em suas experiências fantasiosas, Memória, principalmente, exibe arrojo na marquise do Jockey Club e vitalidade na igreja de Santa Teresinha, em Botafogo. Os anúncios de que a “modernidade” não lhes era estranha, podem até hoje ser vistos por quem se der o trabalho de examinar as citadas obras. Cuidava-se muito mais das preferências políticas de Arquimedes Memória e seu alinhamento com facções direitistas. O julgamento do maduro arquiteto foi (e tem sido) parcial e arrogante, simplesmente desprovido de isenta análise crítica, e, pior, ausente de qualquer fundamento cultural. Uma réplica, talvez, à infeliz “carta-denúncia” que o mesmo Arquimedes Memória faz ao advertir o governo getulista sobre os perigos da ameaça “esquerdista” que marchava sobre o país com a arte dita moderna (ver Le Corbusier no Brasil). Mais adiante voltaremos ao fato.

Igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus em estilo art déco, com influência gótica. Projeto de Archimedes Memória & Francisque Cuchet de 1935.

Irrelevantes picuinhas pessoais, vaidades feridas e egos em conflito ajudam pouco nas avaliações históricas. Torna-se questão vital: até onde o “engajamento” da arte a faz maior ou menor? Brecht é um bom teatrólogo ou é um equivocado defensor de idéias marxistas? Seu delicioso personagem, o senhor Puntilla é apenas uma caricatura ou autêntico arquétipo? As colunatas barrocas e as vias processionais romanas apenas exaltam o poder dos Papas e dos césares ou criam definitivas referências da polis romana? A White House devia ostentar proporção mais modesta, já que o poder não deveria (ou poderia) emanar dali? O Palácio da Alvorada, em Brasília, expressa um momento democrático do Brasil ou exibe o poder de uma burguesia, por fim, consolidada e levada ao trono? 

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Sem respostas às questões levantadas – se legítimas –, vamos examinar o papel da arquitetura moderna entre nós, voltando à primeira metade do século anterior. Tentemos um paralelo entre a modernidade gerada no Velho Continente, para aqui transplantada e seus desdobramentos lá e cá.

Se a Europa, a partir de 1939 era um cenário de destruição e desespero, seus centros de produção cultural comprometidos, perguntava-se: para que mãos passaria o cetro, a chama olímpica da cultura ocidental? Os EEUU, vitoriosos, já empunhavam a tocha libertária na baía de Hudson e contemplavam seu mercado consumidor esvair-se nas trincheiras, aguardando o momento oportuno para, com o Plano Marshall, estender ao Velho Continente a bolsa salvadora... e senhorial.

Improvável e impossível para aquela Europa dos anos 30 e 40 dar atenção às ousadias de Le Corbusier, Groppius, Mies e outros. Pintar, esculpir, seriam passatempos ociosos (senão irônicos) diante dos esfomeados e dos cadáveres nos fronts minados e nos campos de concentração. Construir, então, seria atitude suicida diante dos escombros revirados pelos constantes ataques aéreos. Como perder tempo com propostas utópicas (e caras?) de “máquinas de morar”, “cidades radiosas” e racionais “funções urbanas”? A Carta de Atenas era menos que um documento. Apenas  mais uma proposta nefelibata, condenada a amarelar dentro das gavetas burocráticas. Após o último disparo de canhão, ao derradeiro cessar-fogo, à Europa só caberia contar os mortos e alimentar os vivos.

Enquanto o Velho Mundo vivia o inferno da guerra, o Brasil dela participava com os contingentes da FEB e outros sacrifícios. Dentro de suas fronteiras: limitações impostas pelos cartões de racionamento e uma vaga sensação de que, afinal, éramos notados. Disney descobrira o Zé Carioca e Hollywood, Carmen Miranda.

Um campo virgem para experiências estava disponível. Os cabos estavam ligados. Faltava o gerador. A exemplo do que ocorre na eletricidade, a diferença de potencial faz com que se desloque, em queda, do maior para o menor, a corrente que iluminará o ponto distante.

A Europa, um caldeirão de idéias contraditórias, dúbias e ameaçadoras, entre o capitalismo salvador e o socialismo empobrecedor, lambia, ainda, as feridas da guerra. No Brasil, o fermento local era favorável à proliferação de novas idéias, não importa a maneira com que seriam interpretadas, absorvidas ou implantadas. Quase uma folha em branco.

O próprio ecletismo não mais dava as cartas em Pindorama e o século XIX, seus barões, suas encasacadas figuras eram objeto de charges e até desprezo. Os rebeldes não tinham outra causa, a não ser a modernidade.

Assim, sem esquecer o pioneirismo da (insípida) casa do arquiteto Gregory Varchawsky, em São Paulo (1920), no Rio de Janeiro, um dream-team de expressivos valores aguardava apenas a descarga elétrica que os faria eclodir.

Na década de 1930, já tínhamos (e sobreviveram) exemplares interessantes de uma arquitetura que reconhecia a “mudança de escala” – ou a verticalização imposta como prova de avanço – denominada proto-moderna (ou pré-moderna), de influência americana, por certo, em alguns edifícios interessantes: o edifício de “A Noite”, o Hospital do IPASE, a Central do Brasil, e alguns silos e instalações na área próxima à Praça Mauá, dentre outros. Hibridismos nacionalistas e modernistas acomodam-se no figurino Art-Dèco. São obras que poderiam integrar as páginas de Pevsner, Zevi e outros ilustres historiadores. Na época eram vistas como uma arquitetura “pesada”, isto é, não estavam nos cadernos dos nossos fiscais do modernismo... Uma idéia levantada pelo professor e historiador Nireu Cavalcanti lança luz curiosa sobre aquela arquitetura: seria a solução “eclética” para a verticalização. Um avanço, portanto.

Central do Brasil, marco (assim como a estátua do Cristo no Corcovado) do art déco carioca

Se o Estado Novo (1935-1945) de Vargas, viesse a eleger seu “estilo oficial”, haveria de se empolgar com a arquitetura dos já lembrados Speer e  Terragni, darlings de Hitler e de Mussolini, jamais com as simplificações formais de Corbusier, de Groppius, de Mies ou as alucinações futuristas de Sant’Elia. Lúcio Costa, cultor da nossa tradição barroca (para ele, algo definitivo) fora banido da “nova” Escola de Belas Artes. Briga política ou estético-conceitual? Lúcio decretou que fosse amaldiçoada toda a produção após o neoclássico. Faríamos tabula rasa a partir do colonial, ele próprio rompendo em público o breve noivado com o ingênuo e simpático neocolonial de José Mariano da Fonseca.

A cordialidade brasileira, afirmada por Sérgio Buarque de Holanda, pregou uma peça à ideologia da Ditadura. Ironicamente, a quem caberia divulgar a mensagem estado-novista, um Ministro de Ditadura – calcado no comportado binômio educação-saúde –, sobrou o papel de inoculador de germens renovadores, logo taxados de esquerdistas. Um mero (e curioso) desvio ideológico no episódio mais ilustrativo do que definitivo: o Concurso para o projeto do Edifício do Ministério da Educação e Saúde. As marchas e contramarchas da disputa são do conhecimento de todos, ainda que as explicações mantenham reticências. O projeto triunfante no certame, de Arquimedes Memória, foi rejeitado e o arquiteto reembolsado na forma do regulamento. Para os que militam na profissão e pensam arquitetura além do (legítimo) campo profissional-comercial, não foi solução simpática. O grande patrono do concurso foi o próprio Ministro getulista de então, o mineiro Gustavo Capanema (hoje, nome do prédio), assessorado por vozes ilustres, onde não faltavam os versos brancos de Drumond e as reflexões nativistas de Lúcio Costa, agora convertido ao modernismo. Os chamados, então, foram os modernistas, sobre eles pesando as mais graves acusações políticas.

O prédio por fim erguido (entre 1937 e 1943, com base em projeto de 1936) e que antes dominava todo o espaço da quadra, em plena esplanada do Castelo, cercado inicialmente por um justo não-me-toques, foi o belo Palácio Capanema, síntese não apenas dos princípios doutrinários de Le Corbusier (voltando ao Brasil para a inicial consultoria) como também da extraordinária capacidade brasileira de improvisar equipes. O dream-team então reunido (união cuja perenidade teve vida curta), faria inveja aos enciclopedistas do século XVIII. Lúcio Costa, Jorge Moreira, Afonso Eduardo Reidy (curiosamente todos brasileiros... nascidos na França), Hernani Vasconcelos, Athos Bulcão, Carlos Leão, Burle Marx, Portinari e, por fim, mas de singular e definitiva importância, o jovem Oscar Niemeyer.


Palácio Gustavo Capanema, ícone da arquitetura modernista.

A brilhante equipe teve direta responsabilidade sobre a jóia de arquitetura erguida e de pronto transformada, com justiça, no grande ícone-síntese da arte moderna brasileira. Sua imagem dominou nossos corações e mentes durante mais de 30 anos. A brutal explosão urbana do Rio de Janeiro e o descaso pelos monumentos significativos da cultura carioca e brasileira reduziram o entorno, quase anulando os antes privilegiados pontos de observação. As quadras adjacentes ganharam prédios, também modernos (alguns de qualidade) reduzindo a excepcionalidade inicial do Ministério.

O estado de conservação do Palácio, ainda que protegido por tombamento, não é dos mais animadores.  Mesmo assim, é obra definitiva, marco inconteste de beleza e elegância. Os apressados moradores da cidade, dentre eles alguns raros cariocas, perdem a oportunidade de observar melhor a obra de arte. Mais por falta de cultura do que por falta de ângulo de visão. Nele foram incorporados todos os princípios propostos por Le Corbusier. O mestre franco-suíço fez de tudo para obter a integral paternidade do projeto, pois talvez não tivesse imaginado que suas doutrinações pudessem chegar a compor tão elegante obra. O Palácio Capanema quase não guardou sotaque.

Contudo, o encantador edifício, ao consolidar os ideais do modernismo arquitetônico, produziu efeitos colaterais, talvez inevitáveis, e que não podem (ou não devem) ser imputados aos extraordinários mestres que o ergueram. São eles:

– A injusta (embora explicável) desqualificação das belas obras do ecletismo carioca, legando-as ao esquecimento e, em casos gravíssimos, à sua destruição absurda. Pior: com o beneplácito expresso de importantes vozes do movimento moderno. O barroco jesuítico era bom, legítimo, nacional, até. Talvez houvesse quem lhe negasse o peso lusitano. O romantismo que ordenou a Avenida Central, de Pereira Passos e seus companheiros, era intitulado de “decadência”. Por volta dos anos 60 os cariocas viram sua memória atirada ao chão sob denúncia de não ter “interesse arquitetônico”. Este anátema fez com que o Palácio Monroe fosse arrasado nos anos 70 do século XX, e as confusas notícias acusaram as obras do Metrô que se concretizara, afinal, depois de gestado – não por avançados modernistas – mas pelos “atrasados” homens do século XIX,

Palácio Monroe, sede do Senado do antigo Distrito Federal, foto sem indicação do autor obtida na Biblioteca Nacional Digital

– O olvido do grande mestre, preterido no Concurso: Arquimedes Memória (para não citar outros importantes nomes, atirados ao porão).

Palácio Tiradentes, projetado por Archimedes Memória e Francisco Couchet e inaugurado em 6 de maio de 1926. Destaca-se na edificação a escadaria monumental, as rampas, os grupos escultóricos, as colunas e a grande cúpula revestida em escamas de vidro na cobertura, além do luxuoso interior.

– Roubar a primazia do edifício da ABI (1935), projeto dos irmãos Milton e Marcelo Roberto, na verdade o primeiro grande e importante edifício modernista do Centro do Rio de Janeiro. Ressalve-se que sua implantação lhe é desfavorável. Ocupando um canto da quadra (esquina da rua Araújo Porto Alegre com rua México), não possui a mesma visibilidade que tem o Palácio Capanema, pela já ressaltada dominância na quadra.

ABI, prédio "sem janelas" pioneiro da arquitetura moderna no Rio de Janeiro.

– Ofuscar, em certa medida e posteriormente, a obra importante de Jorge Moreira (o mais fiel seguidor de Le Corbusier) e a presença de Ernani Vasconcelos no Rio de Janeiro. No mínimo, uma ironia, se também foram “pais” do Palácio Capanema.

Os fatos aqui relacionados não podem (ou não devem) ser imputados aos extraordinários mestres que ergueram o MES.

Não pretendemos, com as observações feitas, assumir posições iconoclastas. Nós construímos e rotulamos os ídolos. Os arquitetos citados, autores de outras obras significativas, fizeram a sua parte, arregaçaram as mangas e nos legaram um importante acervo cultural que a nós compete preservar. Para citar: o MAM e a Cidade Universitária. O apreço e o cuidado com tais monumentos seria assunto para outras crônicas...

É importante, porém, reconhecer os princípios de um movimento para que possamos identificar seus caminhos, descaminhos e, acima de tudo, seus desdobramentos. 

No Brasil, a triunfante arquitetura moderna, nas décadas de 40 e de 50 foi moldada e consolidada pelos já citados arquitetos e muitos outros. Listagem sumária e com graves omissões, por certo, ainda incluiria: Sérgio Bernardes, Vilanova Artigas, Rino Levy, Carlos Bratke, Henrique  Mindlin, Alcides Rocha Miranda e muitos mais.

Saltando dos anos de apogeu ou de aceitação formal do modernismo na arquitetura (década de 50), para os anos 60 e 70, teríamos outra extensa lista. Lastimando os prematuros desaparecimentos de Artur Lício Pontual e Eolo Maia, e sempre admitindo lacunas, temos: Ruy Othake, Paulo Mendes da Rocha, J. Gandolfi, José Sanchotene, Severiano Porto, Marcos Konder, João Filgueiras Lima – o Lelé, Acácio Gil Borsoi e Luiz Paulo Conde.

Diante de tal elenco caberia falar em decadência ou declínio do modernismo? Os citados são arquitetos presentes com suas obras em muitas cidades brasileiras. O rol seria mais justo e completo se acrescentássemos os nomes dos que ainda exercem suas atividades nos demais estados brasileiros, cujas obras são eclipsadas (ou ignoradas) pelo insistente peso do eixo Rio-São Paulo. A omissão da Curitiba de Lerner nos anos 70 seria pecado mortal.

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Mas devemos voltar à década de 50 do século XX para que nossa argumentação ganhe continuidade, constatando o impasse do modernismo, não necessariamente sua “queda”.

A estrada até então solidamente pavimentada e retilínea, entre 1935 e 1960 chega ao grande parque da nossa modernidade arquitetônica: Brasília, a nova capital, o reino absoluto, criado por gesto demiúrgico destinado a eliminar o contraste. Respeitadas as importantes obras e nomes de peso que lá atuaram, presenciamos um grande jardim de infância que abriu espaços para infantilidades de nosso modernismo arquitetônico. A fragilidade tecnológica de então (falamos dos anos 1960), a quase ausência de visão madura do movimento, produziu as “belas ruínas” de que nos falava Artigas.  

A arquitetura que pressupunha aplainar diferenças sociais e superar seus conflitos (uma espécie de “solução final”) veio defrontar-se com o esgotamento. A Carta de Atenas, por fim transposta do papel para a realidade, faz com que euforia e desgosto cruzem nossas mentes. Ainda assim, restava-nos o orgulho de realizar o que nem os europeus nem os americanos lograram: erguer toda uma cidade a partir de rígidos mas singelos princípios normativos e validados por uma estética quase impositiva. A posterior ruptura só engrandece o feito, deixa lição que o resto do mundo aproveitaria, não estivesse ele, em nossos dias – apesar da TV e da Internet –, tão fragmentado. Um gesto que tangencia a ousadia (ou a loucura). Se habitantes do Rio e de São Paulo dividem-se entre o amor e o ódio às suas cidades, os habitantes de Brasília não a abominam e muitos nos trazem depoimentos de plena identificação com seus espaços, suas vias cartesianas e seus “caixotes” antes execrados. A nova capital, não tanto pelo status, tornou-se um ente urbano com cabeça, tronco e membros.

De qualquer modo, os desenganos estiveram presentes. O rigor ascético e a uniformidade dos belos palácios não incentivaram a democracia política, nem seus espaços moldaram o aperfeiçoamento dos costumes. A realidade social jamais se viu refletida no molde democrático anunciado na criação da nova capital.  Além disto, o contraste entre a inesgotável criatividade e a limitada capacidade técnica das edificações (pelo menos na época de sua construção) colocou em cheque o orgulho com que contemplávamos o porvir.

Brasília: slide (com fortes marcas do tempo) tirado pelo autor do blog nos idos de julho de 1968 (quando Brasília ainda era uma novidade e ainda não estava associada à corrupção)

Diante, porém, da segunda lista apresentada alguns parágrafos atrás, caberia falar em decadência ou declínio do modernismo? Os arquitetos citados estão ainda presentes com suas obras em muitas outras cidades brasileiras. O rol seria mais justo e completo se acrescentássemos os nomes dos que exercem suas atividades nos demais estados brasileiros, cujas obras são eclipsadas (ou ignoradas), vale repetir, pelo insistente peso do eixo Rio-São Paulo. Vamos lembrar que apenas duas excelentes revistas divulgam, testemunham e registram nossa produção de arquitetura: AU (Arquitetura e Urbanismo, da PINI) e PROJETO-DESIGN (da Editora Projeto). Poucas se somam a estas e, mesmo assim, com circulação e objetivos mais restritos. Cabe perguntar: onde estão os órgãos de classe?

Por outro lado, não devemos nos eximir da autocrítica.

Enquanto no planalto goiano, no final do dos anos 50 do século XX, erguíamos edifícios obedientes ao almanaque modernista, a Europa – um Frankenstein remendado pelo Plano Marshall do pós-guerra e exaurida pelo ocaso ou desaparecimento de seus principais líderes – reordenava-se. A guerra fria não teve temperatura tão baixa que congelasse os propósitos de soerguimento das nações européias. Movidos ou não pelos antagonismos com os países da cortina de ferro, os EEUU mostravam desvelo com os novos aliados e com as estratégias relativas ao oriente médio. Pouco a pouco, o quase cadáver europeu fugiu à decomposição, reordenou-se e passou a negociar sua participação nos destinos da humanidade. Ao fazê-lo recorreu ao espaço construído. Varsóvia, por exemplo, foi reconstituída em apropriada resposta ao nazismo e, ao mesmo tempo, um reconhecimento da contribuição que o ecletismo tinha produzido de melhor nas capitais européias. A febre destruidora cedeu à conservação e à preservação dos monumentos. Praga e outras tradicionais tornam-se visitas obrigatórias para os que admiram a boa arquitetura. As transformações radicais são aceitas com reservas. A pluralidade é festejada e o “novo” convive com o “tradicional”, bem como com os projetos de “ponta”. Beaubourg e La Dèfense conseguem partilhar o espaço com o Louvre e a Notre Dame sem que Paris deixe de ser (sempre) uma festa.

A bela arquitetura de Praga

As mega empresas erguem mega-estruturas, exibindo uma arquitetura não mais feita para o homem (promessa do modernismo), mas para as anônimas multidões de consumidores. As torres que chegam às nuvens, reafirmam o seu destemor, mesmo depois de ameaçadas pelo insano terror imposto, em 2002, às torres gêmeas do WTC.

O Brasil vê perplexo, seu extenso território alcançado pela TV e pela Internet, mas quase inatingível por estradas péssimas e desservido por entidades educacionais e de bem estar social irrisórias. O Palácio Capanema torna-se um cristalizado símbolo de boas intenções plásticas, generosos propósitos, transformado, porém, em desprezada peça de museu. Em contraste, as nações europeias, inevitavelmente grudadas umas às outras e com territórios adversos, mas com apreciável compromisso com a cultura, unem-se em torno do Euro, olhos aterrorizados no oriente, que se arma para uma possível investida final.

O movimento moderno teria, então, fracassado? Foi substituído a tempo por novas propostas, de caráter holístico, pluralista ou inclusivista? Ou disfarçamos, constrangidos, assistir a um novo ecletismo?

Talvez, em épocas anteriores, jamais tivéssemos mudança tão profunda na relação espaço-tempo. Cabe meditar sobre a contemplação do espaço construído a partir do complexo sistema de apreensão do binômio forma-conteúdo, quando as informações e as análises daquela entidade nos chegam através da veloz informática e a fruição daquele espaço construído é quase atomizada pelos meios de transporte. Apreciar um aglomerado urbano através da estreita janela de um jato ou divisá-lo da confortável poltrona de um trem-bala, não nos permite assimilá-lo. As nuances não mais fazem sentido. Torres eretas ortogonais ou contorcidas, tal ventre de bailarinas exóticas, campos esportivos e restaurantes entre as nuvens nos trazem outras correlações entre o viver urbano e o destino do habitat desses seres. As ruas e avenidas que Jane Jacobs implora serem resgatadas não oferecem condições para apreciar a arquitetura da orgia fálica que inunda as grandes cidades.

Jenks, ao analisar os movimentos arquitetônicos a partir do romantismo, nos mostra a impossibilidade de definir inícios precisos, a exata fonte de uma corrente e seu ponto de extinção. Na verdade, transcorre sutil processo de mutação, por vezes acelerado, por vezes retardado, sempre nutrido, porém, por antagonismos. Hoje, mais e mais sente-se tal aceleração e até as gardênias são longevas diante dos movimentos que se sucedem. O modernismo que aqui comentamos, se dele pudermos demarcar datas, poderá passar para a grande história sob dois diferentes rótulos: fim de um ato ou retumbante overture de novos tempos.

Por ora, sem perspectiva que nos autorize a criar novos títulos, voltamos aos feitos que o século XX, principalmente, testemunhou.

Triunfante sobre a aparente exaustão dos movimentos anteriores, face às aceleradas mudanças que envolviam o mundo, o modernismo teve a generosa pretensão de devolver o espaço urbano ao homem comum, mesmo pecando na rígida forma cartesiana. Contudo, jamais recuou diante dos desafios provocados pelas populações crescentes em progressão geométrica, os intrincados sistemas de relações e o aparato tecnológico oferecidos àquelas populações. O 1900 concretizou programas arquitetônicos de inesperada complexidade e novidades capazes de alterar fundamente relações nos grupamentos humanos. Com audácia, os arquitetos da modernidade os enfrentaram, exaurindo-se no mister.  E de modo quase casual, do modernismo mais puro (singelamente dialogando entre racionalistas e organicistas) surgiram as obras brutalistas e metabólicas, para não citar outras subjacentes.  Em vão Tom Wolffe tentou ridicularizar o caos produzido a partir da Bauhaus. Por falta de críticas não nos perderíamos.

Uma vez posto em cheque por autoridades como Portoghesi, Peter Blake, Venturi, Rogers, Eisenmann, Ghery e outros, o passado sofrerá paródias, metáforas e se submeterá à contorções que o desconstruam. Matar o pai será o eterno papel de Édipo.

Se o pós-modernismo traz respostas precisas aos anseios do homem atual, apoiado em aparato tecnológico de maior eficiência, cumpre o que dele espera a história mas, nem por isto, demonstra a falência cabal dos movimentos que o antecederam; não os desmascara, pela simples razão por que o modernismo, em sua aparência arrogante, manteve-se presente através de seus mestres principais. Deles, resta entre nós Niemeyer [artigo escrito em março de 2008] que, dispensável dizer, não baixa a guarda nem recusa os desafios. Oscar, porém, transcende ao Brasil sem deixar seus compromissos nacionalistas. É um arquiteto do mundo, ironicamente nascido aqui, no Rio de Janeiro, ao contrário de alguns de seus pares, como frisamos no começo deste artigo, por acaso nascidos em outras plagas.


Pós-modernismo: Cidade das Artes

A queda da arquitetura moderna assemelha-se à queda atribuída por Bruno Zevi às correntes que a antecederam. Há o cansaço, há a moda e a inevitável transformação (ou contaminação?) entre movimentos, efêmeros ou não. Tentamos explicá-los, mesmo quando não os entendemos. Mestre Lúcio Costa não gostava da expressão “moderna” para título da arquitetura que fazíamos. Preferia chamá-la contemporânea. De quem? Para Sisto V, a arte barroca era uma perfeita e definitiva manifestação contemporânea. Quem sabe os historiadores do novo século encontrarão nomenclatura mais precisa? Será mais fácil do que descobrir-lhe a verdadeira ascensão e a possível queda.

Curiosamente, o termo MODERNO, usado na historiografia para definir o período que parte do Renascimento até, pelo menos, o final do século XVIII, voltou a ser usado nos compêndios das Histórias da Arte e da Arquitetura para rotular os movimentos surgidos após a Revolução Industrial.  Usando as novas concepções ou visões do espaço, falam do Modernismo autoridades como Bazin, Shenney, Giedeon, Zevi, Pevsner e muitos outros.

No latim tardio, Modernus  significa o que é novo (moderno, então) mas também e, em nossa visão, muito curioso:  MODERADO. Loos, Le Corbu pedem a moderação da forma, sua enxutês, sob o título de racionalismo, purismo, etc  Hoje, os pós-modernos, portanto, não pedem moderação. Desconstroem as formas, retorcem os espaços e tentam, entronizando a tecnologia de ponta, construir seus próprios pedestais.

Os homens e seus feitos têm seu tempo e dele não escapam...

CINCO DIAS EM SÃO PAULO: IMPRESSÕES, ATRAÇÕES, DICAS & PASSEIOS

"Quando não se tem dinheiro pra ir a NY, cabe uma visita a SP." 
Jacques B. Gros


A São Paulo já fui dezenas, senão mais de uma centena de vezes quando criança, adolescente e depois adulto para visitar vovó e titia, a serviço pela RFFSA (foi lá a implantação pioneira do SIAPES), para fazer a "corte" à minha atual esposa, ao casamento do meu irmão que se tornou paulistano. Mas desta vez quis ir diferente. Quis ir a Sampa como se vai a Paris ou Londres, como turista, ficando em hotel, cumprindo uma programação de visitas a pontos turísticos. Como faço quando viajo à Europa, pesquisamos as atrações na Internet: endereços, horários. Procurei metrôs mais próximos (a fama dos engarrafamentos paulistanos me levou a evitar deslocamentos por terra) e, quando não tão próximos assim, estudei no Google Maps (usando por vezes o Street View) rotas a pé, pois é caminhando que se conhece e aprecia realmente uma cidade. Do rio a Sampa a clássica viagem de ônibus dos velhos tempos. Como faço na Europa nos últimos anos, hotel budget da Rede Accor perto de uma estação de metrô: Ibis Budget, Rua da Consolação, 2303 ("Excelente relação custo/benefício, hotel magnificamente situado na região da Consolação/Paulista e ainda por cima perto do metrô, o que numa cidade famosa pelos engarrafamentos como Sampa é fundamental!", escrevi no Trip Advisor). Seis noites a 1054 reais = 176 reais/dia = 51 euros/dia, igual na Europa. 


RESUMO DA PROGRAMAÇÃO

Terça-feira, 7 de julho: VIAGEM

Quarta-feira, 8 de julho
·    Museu da Imigração - Rua Visconde de Parnaíba, 1316 - pertinho metrô Brás - 9 às 17 - 6 reais
·    Museu da Casa Guilherme de Almeida - R. Macapá, 187 - Perdizes - 1,2 km do metrô Hospital das Clínicas  10 às 18 - ver também Santuário na Av. Dr. Arnaldo, 1832

Quinta-feira, 9 de julho
·    Teatro Municipal (metrô República) - 11h, 15h e 17h (inscrições às 10 horas)
·  Edifício Banespa - Rua João Brícola, 24 - 10h às 15h (estava fechado para manutenções)
·     Terraço Itália - Avenida Ipiranga, 344 - visita grátis 15h às 16h
·  Museu Histórico da Imigração Japonesa - Rua São Joaquim, 381 - Liberdade (metrô São Joaquim) - 13:30h - 17:30h

Sexta-feira, 10 de julho
·     Cemitério da Consolação - 9.30 - Estação Paulista (visita previamente agendada pela Internet)
·       MASP
·       Casa das Rosas - Av. Paulista, 37 - 10-22h

Sábado
·      Beco do Batman - Rua Gonçalo Afonso e Rua Medeiros de Albuquerque – Vila Madalena - metrô Vila Madalena - (andar 1,5 km: Rua João Moura - Rua Abegoaria - Rua Gerard David - Rua Medeiros de Albuquerque - ver Google Maps); dali ir a pé à
·       Feira Benedito Calixto (sábado de 9 às 19h)

Domingo
·     Fundação Ema Klabin - Rua Portugal, 43 - Jardim Europa - tel. 3062 5245 (ligar para saber se está aberto; quando fomos, não estava) - 3,2 km do metrô Trianon Masp - descer Alameda Casa Branca, pegar Rua Bolívia à direita, atravessar Praça América, prosseguir pela Rua Peru, pegar a Rua Colômbia à esquerda até a Rua Portugal (pertinho fica o Museu da Imagem e do Som e na Rua Colômbia passa o ônibus 179 para o Anhangabaú e outros locais) - 14 às 17
·      Igreja N.S. do Brasil - Praça de mesmo nome, pertinho da Fundação.

Segunda-feira - VOLTA

DIÁRIO DA VIAGEM
Quarta-feira, 8 de julho

Teatro Municipal
O Teatro Municipal é mais ou menos da mesma época do carioca (1911 versus 1909 e, como este e tantos outros mundo afora, inspira-se na ópera Garnier, embora o fausto da casa de ópera parisiense seja inigualável. Enquanto o Municipal carioca foi construído como parte da modernização da Capital Federal, o paulistano foi bancado pelos barões do café e em termos de luxo e esplendor não fica muito atrás. Destaque para o salão nobre, os elementos art nouveau inexistentes na versão carioca e o estofamento vermelho na plateia e balcão nobre que lhe dá um aspecto semelhante ao de Paris.


Estofamento vermelho

Banespa

O Edifício Banespa está com as visitas ao terraço temporariamente suspensa devido à manutenção, mas valeu a pena a ida pelas fotos embaixo sob a garoa paulista (que chove mas não molha, em momento algum sentimos precisão de abrir o guarda-chuva) e por uma grata descoberta: a tradicional doçaria portuguesa Casa Mathilde que apregoa existir desde 1850, mas que na verdade surgiu em terras portuguesas e não sei como nem quando veio parar em Sampa (chegando em casa procurarei na Internet).




Gosto de dizer que Sampa é uma cidade pujante. Um formigueiro humano. Da banca de jornais, passando pelo sanduíche de mortadela do Mercado Municipal às estações de metrô, tudo é descomunal. Além disso, os balconistas não ficam de papo nem atendem com ar de preguiça (como sói acontecer no Rio), os ônibus andam na sua pista e não ficam ziguezagueando. Os carros param na faixa para os pedestres atravessarem, o espírito é realmente de trabalho e ganhar dinheiro e comprar seu carro (a demagogia e populismo petistas aqui não têm vez).


Em todas as metrópoles o visitante procura a visão do alto: do Corcovado, da Torre Eiffel, da Saint Paul. Com o Banespão fechado, resta o Terraço Itália. Restaurante caro e sofisticado, mas das 15 às 16 o terraço e aberto para visitas gratuitas dos menos abonados. Lá fomos nós. Impressionante o mar de prédios que se descortina do alto (42o andar). Prédios por todos os lados. Uma única área verde maior. A vida urbana levada ao paroxismo.



O Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, com três andares de exposição no 7o, 8o e 9o andares de um prédio, dá uma ideia (para quem estiver interessado) da imigração japonesa para nossas terras desde seus primórdios, no final do século XIX, que tantas contribuições trouxe a agricultura, fruticultura, floricultura e outras culturas (bem como gastronomia) de nosso país. Afinal São Paulo abriga a segunda maior colônia japonesa fora do Japão, superada apenas por San Francisco (ouvi dizer certa vez, se estou errado me corrijam). Fim de tarde, jantar chinês no bairro japonês da Liberdade, o clássico frango xadrez com amendoins e legumes.

Clássico da culinária chinesa

Quinta-feira, 9 de julho

Feriado municipal, dia da Revolução Constitucionalista de 1932. Primeira parada: Estação Brás, rumo ao Museu da Imigração. Pega-se a saída do metrô que dá para a via férrea (Rua Domingos Paiva - ver Google Maps), pega-se a direita e anda-se uns cem metros, atravessa-se uma velha passarela de ferro sobre a linha do trem e do lado de lá surge o Museu, instalado na antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás, construída de 1886 a 1888, onde os recém-chegados eram recebidos e acolhidos antes de prosseguirem rumo aos seus novos locais de trabalho (geralmente vinham com uma carta de chamada de um parente já aqui radicado ou com um contrato de trabalho na lavoura, cafeeira muitas vezes. (NOTA: Aos sábados, domingos e em alguns feriados, de hora em hora entre 11 e 16, pode-se fazer por 15 ou 20 reais o passeio no Trem Cultural dos Imigrantes, pertinho do Museu, mas que nada tem a ver com ele.) 


Museu da Imigração

O Museu, ao contrário do da Imigração Japonesa, tradicional, segue um conceito interativo, multimídia, com projeções, instalações, depoimentos, vídeos (como o da língua portuguesa, que visitamos em viagem anterior). A imigração para o Brasil, conquanto não atingisse as dimensões daquela para os EUA (3,4 milhões versus 35 milhões no período 1820-1914), foi importante para o país, contribuindo para nossa formação cultural, culinária, paisagem humana, sem falar na criação de bairros étnicos inteiros, ou mesmo cidades e regiões.

 Exposição "Cartas de Chamada de Atenção" com depoimentos de imigrantes africanos recentes

Após um café da manhã no Starbucks — ao sair de manhã a gente come uma barrinha de cereais e só toma o café da manhã na hora do almoço, come uma guloseima no meio da tarde e de noite vai jantar  nossa próxima parada foi a estação de metrô Hospital das Clínicas, de onde caminhamos pouco mais de um km até o Museu Casa Guilherme de Almeida (Rua Macapá, 187, Perdizes: siga pela Av. Dr. Arnaldo em frente ao cemitério, dobre à direita na Rua Cardoso de Almeida, depois pegue a Macapá - ver Google Maps). Feliz coincidência visitar, no dia da Revolução Constitucionalista, a casa de um personagem que aderiu com tanto entusiasmo a esse movimento paulista pela volta à normalidade constitucional. 


Museu Casa Guilherme de Almeida

De Guilherme eu já sabia que traduziu uma seleção das Flores do Mal (livro que possuo) e o Max und Moritz de Wilhelm Busch, mas na visita guiada à sua casa nos surpreendemos com sua profusa atuação como jornalista, intelectual e ativista pro-Sampa (é dele uma tradução do clássico If de Kipling). Com a morte de Guilherme a viúva, Baby, vendeu a casa, moderna, de 1956, ao Estado, o que proporcionou a nós, a plebe ignara, a rara oportunidade de conhecer uma bela residência de um bairro nobre paulistano, pois nas outras casas de mesmo naipe ninguém nos convidará a entrar. (Sobre sua casa o autor escreveu a deliciosa crônica "A Casa da Colina" que você pode ler neste blog clicando aqui.)

De lá descemos a Rua Almirante Pereira Guimarães e Avenida Arnolfo Azevedo (ver Google Maps) até o Pacaembu, quase sem ver vivalma nas ruas pois paulistano só anda de carro, e em frente ao velho estádio - serendipity - aficionados expunham carros vintage, entre eles muitos Fuscas. 


Dodge Charger R/T em frente ao Pacaembu

No estádio fica o Museu do Futebol, que não visitamos, mas entrei um pouquinho dentro do estádio. Depois subimos uma das ruas colina acima rumo à Angélica, caminho que eu fazia amiúde na adolescência quando visitava a vovó, que morava na Angélica, e ia passear no Pacaembu.

Pacaembu

Descanso no hotel e sanduíche imenso na Bella Paulista (peça só um, é enorme, dá para dois) e um rolê pela vida noturna da Augusta e Paulista.

Sexta-feira, 10 de julho

As nove e meia eu havia agendado uma visita guiada ao Cemitério da Consolação, mas ao chegarmos na Administração a funcionária fez cara de espanto e depois saiu-se com a história de que a pessoa que nos mostraria o cemitério teve um "problema de família muito sério" e não veio trabalhar, embora o fato de que ontem foi feriado e hoje é sexta me fez desconfiar de que o motivo não foi bem esse. Mas encontramos o grupo do Sesc que estava ontem na casa do Guilherme de Almeida e pegamos carona no final da visita guiada deles. Grandes personagens da política e intelectualidade paulistas repousam lá, e a administração fornece um guia de visitação, algo que o São João Batista até hoje não providenciou. Ademais, a arte funerária transforma os cemitérios dos ricos e afamados em museus a céu aberto. E a lembrança de que pulvis es et in pulverem reverteris nos torna mais humildes e nos dá uma dimensão mais real da vida (que deve, portanto, ser bem aproveitada).



Arte funerária

À tarde o MASP. Vir a São Paulo e não ir ao MASP e como ir ao Rio e não ver a praia. Três anos atrás eu escrevera sobre esse museu: "inacreditável, nível de museu europeu, não existe nada que se lhe assemelhe ao sul do Equador." Desta vez estavam expostas obras evocativas de Paris, impressionistas na maioria, e um panorama da pintura italiana, com clássicos do acervo do MASP como a Ressurreição de Rafael e a Madona de Bellini.


A virgem com o Menino de pé abraçando a mãe de Giovanni Bellini (1480-90)

No fim de tarde a Casa das Rosas, uma das poucas casas que restaram na avenida paulista, tombada e transformada em Centro Cultural. Fica aberta até as 22, mas hoje excepcionalmente fechou as seis pois abrigaria um evento, de modo que vimos correndo e não deu para fazer uma visita guiada.

Casa Das Rosas ao anoitecer
Sábado, 11 de julho

Dia de chuva (que com o passar do dia foi amainando). Pegamos o metrô até Vila Madalena e depois fomos descendo (Rua João Moura - Rua Abegoaria - Rua Gerard David - Rua Medeiros de Albuquerque - ver Google Maps) até o Beco do Batman, uma ruela com muros e casas grafitados em alto estilo. 


Beco do Bataman

De lá descemos (tudo a pé) até o Cemitério São Paulo, o contornamos à esquerda e fomos até a Feira da Praça Benedito Calixto, uma mescla de feira de artesanatos, brechó e feira de antiguidades tipo a da Praça XV carioca, com discos, câmeras fotográficas antigas, canetas, bibelôs e bugigangas em geral, além de uma praça de alimentação. De lá caminhamos pela Cardeal Arcoverde até a Estação Clínicas, mas em vez de pegar o metrô seguimos a Dr. Arnaldo à esquerda até o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, onde a monumentalidade do templo, um noviço tomando os votos de franciscano secular e o hino a Nossa Senhora regaram nossa um tanto mirrada sementinha da fé  embora, como racionalista, eu tenha fortes prevenções à religião constituída, com seu histórico de fanatismo e perseguições, por outro lado não comungo da visão materialista dos cientistas hodiernos e creio na existência do mistério sob o véu.


Igreja do Calvário, em frente à Praça Benedito Calixto

Paróquia Nossa Senhora de Fátima

Tentamos a visita guiada na Casa das Rosas, mas só agendando antes (telefone 11-3285 6986; educativo@casadasrosas.org.br), de modo que Mi (paulistana) me levou para conhecer o "lado B" de Sampa, num percurso de ônibus: o velho Brás, com que eu já havia travado conhecimento na visita ao Museu da Imigração, o bairro (pouco arborizado, meio sujo, maltratado) com tradição de receber os imigrantes, em cujo coração a Igreja Universal plantou um colosso (valorizando e revitalizando uma área de velhas fábricas falidas, abandonadas): o Templo de Salomão, construção descomunal, com altíssimas colunas, que pretende reproduzir o antigo templo dos judeus, destruído pelos babilônios, e que até do embaixador de Israel extraiu palavras de admiração (como consta na Wikipedia).


Templo de Salomão, um colosso no Brás

Depois, ainda no Brás, percorremos todo um "bairro" boliviano que, com sua comida de rua preparada em grandes tachos cheio de óleo escuro, lembrou minhas aventuras pelo Altiplano nos anos 80. A atividade dos bolivianos aqui gira em torno de pequenas confecções caseiras que suprem os mercados populares, presumo. Depois percorremos um trecho da avenida onde imigrantes africanos (sobre os quais vimos uma mostra no Museu da imigração) mascateiam todo tipo de roupas. Interessante (e isto já observáramos em Paris) como os nossos negros, após séculos de miscigenação, já não se parecem com os negros africanos. Reabastecemos nossos organismos num restaurante de massas chinesas que parece relativamente novo, recomendadíssimo pelas seções de restaurantes das revistas, que produz suas próprias massas numa cozinha visível atrás de um enorme vidro e que serve porções generosíssimas e deliciosas. De bater palmas de pé. (Trata-se do Rong He, Rua da Glória, 622, Liberdade.)


Yakisoba (vem com uma tesoura para você cortar os macarrões)

Domingo, 12 de julho

Longa caminhada (uns 4 km) de nosso hotel até a Fundação Ema Klabin, no Jardim América. Gostamos muito da casa da irmã, Eva Klabin, aqui no Rio, na Lagoa, com seus quadros, estatuetas, artes decorativas, jardim e achamos que a casa de sua irmã paulistana deveria ser ainda mais suntuosa (e vista de fora é maior mesmo trajeto: Avenida Paulista, após o Parque Trianon pegar à direita a Alameda Casa Branca, depois a Rua Bolívia à direita, atravessar a Praça América, prosseguir pela Rua Peru, pegar a Rua Colômbia à esquerda até a Rua Portugal - veja no Google Maps). 


São Paulo guarda a porta da Igreja de N.S. do Brasil, com fachada barroca 
Quase chegando lá, vale a pena dar uma entrada na Igreja de Nossa Senhora do Brasil, talvez a mais bonita da cidade, construída na década de 1940, com fachada copiando as igrejas barrocas mineiras, com a peculiaridade das balaustradas das torres lembrando minaretes, capelas e altares profusamente decoradas com azulejos azul cobalto como nos templos portugueses, e afrescos no teto da nave copiando os da Capela Sistina, além do afresco do céu estrelado sobre o altar-mor. 



Teto imitando a Capela Sistina

Em frente à casa de Ema aos domingos ocorre uma feira de antiguidades (de verdade, não bugigangas) e tapetes persas. Quanto à casa propriamente dita, estava fechada por alguns dias para conservação, devendo reabrir logo. Fica para a próxima. Tarde livre, perambulando pela Paulista (com leitura de revistas na enorme Livraria Cultura no Conjunto Nacional), a "orla" paulistana, com seus (aos domingos) ciclistas, skatistas, artistas de rua, hippies vendendo artesanato, jovens de rostos lisos ainda não marcados pelos vincos da vida, casais de namorados (alguns do mesmo sexo), gente descolada, gente comum etc.

À noite, repetição do yakisoba na mesma casa de massas chinesas de ontem.

E para não dizerem que só falei de flores: há um excesso de pedintes e moradores de rua por toda Sampa, os faróis de travessia de pedestres levam uma eternidade para abrir (alguns requerem que se aperte um botão que poucos lembram de apertar), a estação Paulista fica na Consolação e a estação Consolação, na Paulista, e  supremo pecado de São Paulo  a praia mais próxima está a sessenta quilômetros de distância.


Antiga mansão de 1905 do barão do café Joaquim Franco de Mello, uma das poucas remanescentes na Avenida Paulista. Para mais informações sobre as velhas mansões da Paulista clique aqui.

NOTA: Mais fotos da viagem a Sampa você encontra aqui. Para outras postagens sobre São Paulo clique no label abaixo.