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MILAGRE, de RUBEM ALVES


Não tenho problemas com Deus. mas tenho muitos problemas com aquilo que os homens pensam sobre Deus.

— Tudo bem? — assim saudei a moça que me atendeu na papelaria.
— Tudo bem, graças a Deus —, ela me respondeu sorridente. Aí eu, chato, querendo testar a sua argúcia teológica, fiz uma outra pergunta:
— E se você não estivesse bem seria graças a quem? 
Ela ficou atrapalhada. Essa possibilidade nunca lhe havia passado pela cabeça. Eu nunca ouvi ninguém dizer: “Vou mal, graças a Deus! Pois deveria, para ser coerente.

A brasileira que se salvou da catástrofe do World Trade Center teologou diante da televisão:
— Foi Deus que me salvou...
Aí fiquei pensando: Para Deus, não faz diferença salvar um ao salvar cem mil. Para Deus nada é difícil. Tudo é fácil. Salvar uma mulher ou salvar o mundo inteiro requer o mesmo esforço. Se aquela mulher está certa, se foi Deus quem a salvou, porque não salvou os outros?

Dostoiévski: “O que os homens desejam não é Deus, mas o milagre“. Os deuses são invocados, não por serem amados, mas por serem poderosos. Santo que demora a fazer milagre é abandonado... A afirmação de que 99% dos brasileiros acreditam em Deus pode assim ser traduzida: 99% dos brasileiros acreditam ser possível manipular Deus, a fim de realizar os seus desejos. Cada religião é um livro de receitas sobre “como manipular Deus“.

Do livro Quarto de badulaques.

REFLEXÕES EM TORNO DE UMA TRAGÉDIA de ALEXEI BUENO

Alexei Bueno (direita) no lançamento de seu livro de poesia Anamnese, com o editor deste blog 

TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O GLOBO DE 30/11/2016 E REPRODUZIDO AQUI COM AUTORIZAÇÃO DO AUTOR

As grandes tragédias, e ainda mais as coletivas e completamente inesperadas, como foi o caso da que se abateu sobre o Chapecoense - titulares e reservas, comissão técnica e auxiliares, na companhia natural de jornalistas e tripulantes – aguçam em todos nós a percepção amarga daquilo que muitos chamam o “escândalo da morte”, esse fenômeno natural que para o homem nada tem de natural, já que foi contra a natureza, por oposição a ela, rompendo a sua conformação perfeita ao momento e ao espaço, que como homens nos firmamos. A humanidade é contra natura em sua essência, e se alguém sintetizou num verso tudo o que venho dizendo, foi o poeta português Jorge de Sena, ao abrir o maior de seus poemas, “A morte, o espaço, a eternidade”, com este alexandrino do qual lamento não ser o autor: “De morte natural nunca ninguém morreu”.

Na tragédia desta madrugada, contribuíram ainda para essa sensação a necessária juventude dos atletas, a estranheza da cessação do fenômeno vital em indivíduos que, por sua própria atividade, se notabilizavam exatamente pela excelência de sua constituição física e pela agudeza de seus reflexos, tudo isso unido a uma característica específica de nossos tempos, a pletora visual na qual vivemos, quando, entre celulares e smartphones, todos filmam tudo, permitindo, portanto, acompanhar os mortos, em suas falas e gestos, até a sua escala na Bolívia, pouquíssimo antes do acidente.

Essa falsa proximidade com os mortos que nos traz a preservação do registro visual e sonoro perdeu muito de sua eficácia com a total banalização de tal possibilidade. Nossos olhos, saturados desde a primeira infância pela imagem em movimento, prejudicam gravemente nosso entendimento do que significou tal revelação para aqueles que estiveram presentes à primeira sessão de cinema, a 28 de dezembro de 1895, no Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris. Nos jornais que logo em seguida divulgaram tal evento histórico é que podemos avaliar o impacto do primeiro encontro do olhar humano com o movimento eternizado – ainda sem o som concomitante - especialmente nesta resenha que ficaria célebre:

É a própria vida, é o movimento vivo que se vê no cinematógrafo. A fotografia deixou de fixar a imobilidade. Ela agora perpetua a imagem do movimento. Quando esses aparelhos estiverem ao alcance do público, quando todos puderem fotografar aqueles que lhes são caros não mais numa forma imóvel, mas em pleno movimento, em plena ação e nos seus gestos familiares, a morte deixará de ser absoluta.”

E é assim, com um pouco desse falso consolo que para nós já não o é, que revemos os atletas desaparecidos na sua explosão de júbilo com a classificação para a final da Sul-Americana, dando entrevistas ainda em Guarulhos, brincando a bordo da aeronave, até a fatal decolagem em direção a Medellín, cidade que nada teve a ver com as causas do desastre desta madrugada, mas que já ficara tristemente célebre, há 81 anos, com o estúpido desastre que matou Carlos Gardel.

A condição humana é trágica, gostem disso ou não os otimistas, e, fora de alguma hipótese de transcendência, só resta ao ser humano duas posturas radicalmente opostas, ou o incompleto raciocínio, ou seja, a recusa em olhar até o fundo o abismo de nossa fragilidade e nossa finitude, ou o desespero, e entre as duas a primeira posição é maciçamente a preferida.

Em certa época, ainda recente, esteve em plena moda – não sei se ainda está - os pais filmarem o parto dos próprios filhos, ato fisiológico cuja eternização sempre me pareceu do mais absoluto mau gosto, motivo pelo qual eu jamais assistiria, caso existisse, a um registro da minha incontornavelmente nojenta entrada no mundo. Certa vez perguntei a um grande amigo, que acabara de fazer tal registro, se ele não percebia que estava filmando – monstruosidade das monstruosidades - o nascimento de um morto, pois aquele rebento inaugural, mais ou menos sujo de sangue e de placenta, já nascera condenado à morte, e nada impossibilitava que tal filme sobrevivesse à sua própria desaparição. Só recebi em resposta o silêncio.

Para os nossos heróis do Chapecoense, felizmente, sobrou o registro visual e sonoro de seu apogeu vital e de sua alegria, aquele que realmente pode dar a suas famílias, seus amigos e seus descendentes diretos – ao menos duas das vítimas deixaram esposas grávidas – a sensação da presença, da persistência da memória e de que a morte deixou de ser absoluta.

29-11-2016

Nota do editor. O editor deste blog acredita que, além das duas posturas arroladas por Alexei em relação à morte  negação e desespero  existe uma terceira: indiferença (estoicismo). Afinal, antes de nascermos, já fomos mortos, de modo que voltaremos a um estado que já conhecemos e que em nada nos fez sofrer. E já que falamos na indesejada das gentes convido o leitor a ler minhas postagens de poemas & textos mórbidos. Procure no menu da barra vertical direita.

QUANDO E POR QUE A MACONHA FOI PROIBIDA NO BRASIL?

PESQUISA E ARTIGO DE IVO KORYTOWSKI
Revista da Semana, 14/12/1935

O Artigo 2o do Decreto-Lei No 891 de 25 de novembro de 1938 proibiu “o plantio, a cultura, a colheita e a exploração” no território nacional das “plantas de que se possam extrair as substâncias entorpecentes”, entre elas o “cânhamo ‘Cannibis sativa’ e sua variedade ‘indica’ (Moraceae) (Cânhamo da Índia, Maconha, Meconha, Diamba, Liamba e outras denominações vulgares)”.

Quer dizer que antes de 1938 a maconha estava totalmente liberada? Não exatamente. Vejamos o histórico da proibição gradual das drogas no Brasil.

Até a virada do século XIX para o XX drogas como ópio, cocaína e maconha não eram proibidas no Brasil ou no mundo. Dois personagens famosos, um real e o outro fictício, fizeram uso da cocaína: Sigmund Freud (durante um período de sua vida, com fins experimentais) e Sherlock Holmes! Em A alma encantadora das ruas, Paulo Barreto (vulgo João do Rio) descreve uma visita a uma casa de ópio frequentada pelos “chins” (chineses) no Beco dos Ferreiros, bairro da Misericórdia, centro do Rio.

“A população desse beco mora em magotes em cada quarto e pendura a roupa lavada em bambus nas janelas, de modo que a gente tem a perene impressão de chitas festivas a flamular no alto. Há portas de hospedarias sempre fechadas, linhas de fachadas tombando, e a miséria besunta de sujo e de gordura as antigas pinturas. Um cheiro nauseabundo paira nessa ruela desconhecida.”
“O no 19 do Beco dos Ferreiros é a visão oriental das lôbregas bodegas de Xangai.”
“A custo, os nossos olhos acostumam-se à escuridão, acompanham a candelária de luzes até ao fim, até uma alta parede encardida, e descobrem em cada mesa um cachimbo grande e um corpo amarelo, nu da cintura para cima, corpo que se levanta assustado, contorcionando os braços moles. Há chins magros, chins gordos, de cabelo branco, de caras despeladas, chins trigueiros, com a pele cor de manga, chins cor de oca, chins com a amarelidão da cera nos círios.”

Assim era o submundo do ópio no Rio de Janeiro antes da proibição. Também o escritor Benjamim Costallat, em Mistérios do Rio, dedica um capítulo, “Os Fumantes da Morte”, a essa droga.

Se o ópio era a droga do submundo chinês, a cocaína era droga glamourosa, sofisticada. Escreve Costallat no capítulo “No Bairro da Cocaína” dessa mesma obra: Nos clubs, nas alcovas da horizontais [meretrizes], nos cafés noturnos, nas pensões chics, toda a Lapa e toda a Glória tomam cocaína em suas noites lúbricas e inquietas.” Finalmente a maconha, conhecida então como diamba, era a droga dos índios, negros e sertanejos, ou seja, dos excluídos. Em O Paiz de 27 de abril de 1929 lemos:

[...] no Brasil se encontram, por exemplo, as [espécies] conhecidas por “diamba” e “maconha”, usadas outrora pelos índios autóctones e pelos negros importados [escravos], os quais, todos, se prevaleciam dos efeitos aparentemente maravilhosos dessas plantas para consolidar o prestígio das “pajelanças” e “mandingas”Em diversos pontos do sertão brasileiro vingou o hábito de tais narcóticos, assimilado definitivamente pelas populações mestiças, que muita vez lhes sacrificam a geral predileção pelas bebias à base de álcool. E não será difícil a quem penetre o nosso interior verificar em homens rudes, mas desfibrados, caquéticos, semi-idiotas, com qualquer coisa de espectral, a inconfundível sintomatologia dos toxicômanos. Mas até há bem pouco esse veículo de um dos maiores flagelos modernos ainda não tinha invadido os meios urbanos [...]
A Cruzada do século XX contra as drogas tem sua origem na Convenção Internacional sobre o Ópio, organizada pela Liga das Nações, em Haia, no ano de 1912. A Convenção fez menção também à morfina e cocaína. Na revisão da Convenção, em 1925, da qual participou o Brasil, a resina do cânhamo e os preparados que têm essa resina como base, como o haxixe e diamba (maconha), foram incluídos.

A primeira lei brasileira visando o controle de entorpecentes é o Decreto 4294 de 6 de julho de 1921, que “estabelece penalidades para os contraventores na venda de cocaína, ópio, morfina e seus derivados; cria um estabelecimento especial para internação dos intoxicados pelo álcool ou substancias venenosas; estabelece as formas de processo e julgamento e manda abrir os créditos necessários.” Se por um lado o decreto procura restringir o abuso do álcool, não faz qualquer referência à maconha. O Art. 1o  proíbe vender ou ministrar substâncias venenosas, entre elas entorpecentes como o ópio e derivados e cocaína e derivados, “sem legítima autorização e sem as formalidades prescritas nos regulamentos sanitários”. Ou seja, o usuário não é criminalizado e a proibição não é absoluta.

Em 1928 chegou a ser enviado ao Congresso um projeto de lei de iniciativa de Clementino Fraga endurecendo o controle aos entorpecentes, mas encalhou no Senado, em discussões intermináveis, e acabou não sendo promulgado, como podemos ler em edições antigas de jornais da época.

O passo seguinte na proibição das “drogas” é o Decreto 20.930 de 11 de janeiro de 1932 que “fiscaliza o emprego e o comércio das substâncias tóxicas entorpecentes, regula a sua entrada no país de acordo com a solicitação do Comitê Central Permanente do Ópio da Liga das Nações, e estabelece penas”. Esse decreto passa a incluir a "canabis indica" (planta da maconha) na lista de substâncias tóxicas e proíbe “fabricar, importar, exportar, reexportar, vender, trocar, ceder, expor ou ter para um desses fins” substâncias tóxicas entorpecentes sem “licença especial da autoridade sanitária competente, em conformidade com os dispositivos deste decreto” (pena: 1 a 5 anos de prisão). De novo, o usuário não é criminalizado e a proibição não é absoluta.

O terceiro passo na proibição é o Decreto-Lei 891 de 25 de novembro de 1938, “Lei de Fiscalização de Entorpecentes”, que proíbe o “plantio, a cultura, a colheita e a exploração” em território nacional da "Cannibis sativa" e sua variedade "indica", exceto "para fins terapêuticos", "desde que haja parecer favorável da Comissão Nacional de Fiscalização do Entorpecentes". A proibição ainda não é absoluta e o usuário continua não sendo criminalizado, mas a proibição do plantio é um divisor de águas na legislação antimaconha.

Em 1940 o novo Código Penal, em vigor até hoje, criminaliza o tráfico de drogas no artigo 281, famoso pela citação em canção de Bezerra da Silva. Em 4 de novembro de 1964, quando o regime militar ainda engatilhava, o artigo passa a criminalizar também a posse: “Plantar, importar ou exportar, vender ou expor à venda, fornecer, ainda que a título gratuito, transportar, trazer consigo, ter em depósito, guardar, ministrar ou, de qualquer maneira, entregar a consumo, substância entorpecente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa de dois a dez mil cruzeiros.

Com o elevado preço social da guerra contra o tráfico, sem vitória à vista, e o incrível poder financeiro do tráfico que chega a dominar territórios, neles impondo sua “ditadura”, talvez esteja na hora de superarmos velhos preconceitos e seguirmos o exemplo da Holanda, Uruguai e alguns estados norte-americanos, liberando a maconha, com restrições e controles, como ocorre com o tabaco. O poder de fogo do tráfico certamente se reduziria.



Matéria em O Globo de 23 de agosto de 1930 sobre a chegada ao mercado carioca de uma erva de origem africana, chamada diamba, vendida nos herbanários e que chegou aos presídios, que leva ao sonho, à loucura e à morte (hoje chama-se "maconha"). Enquanto seu consumo se restringiu às classes menos favorecidas a maconha foi ignorada pela legislação de controle das drogas, derrubando a "teoria conspiratória" de alguns acadêmicos de que a proibição da maconha foi um ato "racista". 


Matéria publicada em O Globo de 7 de dezembro de 1956

MASSADA, UMA CANUDOS PARA OS JUDEUS, de EDMÍLSON CAMINHA


A camioneta cruza o deserto da Judeia a pequena distância do Mar Morto, aproxima-se do oásis de Ein Gedi e, 18 quilômetros à frente, chega a um enorme platô com 400 metros de altitude, onde se ergueu, antes de Cristo, a célebre fortificação militar de Massada (nome que significa exatamente fortaleza, em hebraico). Nela, Herodes, o Grande, que reinou no começo da era cristã, mandou construir um palácio, para o que reforçou e ampliou o forte. Em 66 d.C., um comando judeu assaltou e conquistou a cidadela, início de uma das páginas que engrandecem a história desse povo. Para que se guarde sempre o que houve ali, a Unesco declarou Massada, em 2001, patrimônio cultural da humanidade.

Atualmente, sobe-se ao topo de funicular, o que faço com a lembrança do que sobre o episódio conta Érico Veríssimo no seu Israel em abril. No ano 70, retomada Jerusalém pelos romanos, o governador Flavius Silva ordena que se dê combate aos 967 judeus – homens, mulheres e crianças – reunidos em Massada sob o comando de Eliezer Ben Jair. Com estoques de água e comida para uma longa sobrevivência na solidão das alturas, os judeus resistem por dois anos ao cerco de dez mil soldados, até que têm de escolher entre a derrota e a dignidade, a rendição e a honra, como narra o escritor gaúcho e também se pode ver em Massada, filme de Boris Sagal, com Peter O’Toole no papel do general romano. Conscientes de que já não há o que fazer, decidem os judeus não dar aos inimigos o gosto da vitória, e cumprem o pacto que lhes propõe o comandante, como diz Érico: “Cada um deles liquidou com as próprias mãos sua mulher e seus filhos. Depois amontoaram as coisas que possuíam e atearam-lhes fogo. Dez deles foram sorteados para executar os demais companheiros. Cada homem deitou-se ao lado do cadáver da esposa e dos filhos, abraçou-se com eles e ofereceu a garganta aos executores. Os dez sobreviventes então liquidaram-se entre si: o nono matou o décimo, o oitavo matou o nono e assim por diante, até que restou um único homem no topo de Massada. E essa personagem de tragédia grega se pôs a vaguear por entre os corpos, para verificar se em algum deles restava ainda algum vestígio de vida, caso em que ela lhe daria o golpe de misericórdia. Terminada a horrenda missão, o sobrevivente incendiou o palácio da fortaleza e por fim suicidou-se, tombando ao lado dos membros de sua família.” 

Em outra versão conta-se que, transpostos os muros, encontraram os romanos duas mulheres e cinco crianças, como, em 1897, os cinco sobreviventes de Canudos, “na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”, cena grandiosa com que Euclides arremata a epopeia de Os sertões. Para Érico Veríssimo, a nova geração de judeus, já nascida em território israelense, vê Massada como exemplo a seguir: “Os jovens sabras, que desde o estabelecimento do Estado de Israel se têm revelado tão bons soldados, aprendendo a usar o fuzil, a metralhadora e o canhão para se defenderem de seus inimigos, não compreendem que os judeus da Europa se tenham deixado humilhar, torturar e matar nos campos de concentração de Hitler, sem o menor gesto de revolta, numa passividade de cordeiros. Os sobreviventes desses massacres tentam explicar que qualquer resistência teria sido não só impossível como também inútil. Replicam os sabras: ‘Morrer por morrer, é sempre melhor morrer lutando e matando do que chorando e rezando.’ Estas palavras até certo ponto caracterizam o espírito do judeu novo de Israel.”

Como Canudos, Massada não se rendeu, com o que Eliezer Ben Jair deu ao exército invasor a mais amarga das lições, a mais decepcionante das vitórias. Assim também Antônio Conselheiro, pertencentes, os dois, à grande espécie de homens para quem é a morte, muitas vezes, o mais digno, o mais elevado, o mais belo e o mais glorioso triunfo.

Capítulo do excelente livro de crônicas de viagem Com a mala na cabeça. Para mais informações clique aqui.

ENCONTRO COM O TODO-PODEROSO, de IVO KORYTOWSKI


Deus escreve certo por linhas tortas.


Após demoradas tratativas, envolvendo profetas, santos e sábios, enfim consegui marcar a entrevista com o Todo-poderoso — de que maneira, não posso revelar. Combinamos no Monte Sinai, no mesmo local onde Ele entregou as tábuas da lei a Moisés. Direito a sarça ardente, coluna de nuvens, coluna de fogo e outros sinais divinos: nada extraordinários comparados aos efeitos especiais dos filmes de hoje.

Selecionar as perguntas, um desafio mesmo para jornalista experiente como eu, acostumado a entrevistar celebridades como Fidel Castro e o papa João Paulo II. A entrevista não poderia se prolongar excessivamente: a agenda divina está lotadíssima. Minha cabeça fervilhava de questões: desde o problema metafísico fundamental “por que o ser, e não simplesmente o nada?”, passando pela questão da teodicéia (a razão das doenças e catástrofes naturais), até temas melindrosos, como o porquê de Deus ministrar os milagres tão homeopaticamente (à semelhança dos bons Ministros da Fazenda, igualmente avaros em liberar os recursos). Sem falar na curiosidade natural de se o Brasil vai se classificar pra Copa do Japão — Deus não é onisciente?

Antes de mais nada, tinha de resolver o problema protocolar: como me dirigir ao Criador? O dicionário recomendava a segunda pessoa do plural, tratamento dispensado a um santo, ou à própria divindade (vide Aurélio). Mas — fique entre nós — temi enrolar-me na conjugação dos verbos (vós gostaríeis, vós amáveis...), de sorte que acabei optando pelo tratamento concedido aos Papas — por sinal, é só lembrar a entrevista com o papa João Paulo II).

Para quebrar o gelo, comecei abordando um tema light:

— Sabia que na Terra contam piadas de Vossa Santidade? Por acaso isso contraria o mandamento de não tomar vosso santo nome em vão?

— Se os fundamentalistas tivessem um pouquinho mais de senso de humor, ou se os humoristas não teimassem em ser ateus, Eu estaria bem melhor representado na Terra — filosofou Deus. — Conte uma dessas piadas!

Se Deus é onisciente, já deve conhecer todas elas, mesmo as que nunca foram contadas, pensei. Cacete, Deus deve ter lido meu pensamento, pensei logo em seguida. Rapidinho, pus-me a contar a piada do português que fez longa viagem ao ultramar. Ao retornar, um ano depois, deparou com Maria grávida. Estranhou, mas Maria, matreira, forjou uma desculpa: a gravidez resultara das cartas apaixonadas que ele remetera do ultramar. Manel acreditou na lorota. Mas no fundo d'alma, subsistiu pitada de dúvida. Passaram-se os anos. Um belo dia, Manel morreu e viu-se frente a frente com o Criador. Aí resolver aclarar aquela velha dúvida. Contou pra Deus a história da gravidez de Maria, e perguntou:

— Você que é Deus e sabe tudo: é possível engravidar assim à distância?

Deus sorriu e disse:

— Pois comigo aconteceu ainda pior. Sem que eu arredasse pé aqui do Céu, fui arrumar um filho lá na Terra. E, ainda por cima, a mãe era virgem!!!

O Sinai chegou a tremer com o estrondo da gargalhada divina. Aproveitei o bom humor do Criador pra entrar de sola nas perguntas mais delicadas:

Vossa Santidade criou realmente o universo? Quem tem razão: os cientistas ou a Bíblia?

— Os dois. O universo físico é obra de Meu planejamento.

— Então (com todo o respeito) os vírus, o cocô, as baratas também são obra de Vosso planejamento?

— Quando você acorda de manhã cedo, planeja cada passo, cada segundo do dia? Não, planeja as linhas gerais, mas dá chance ao acaso. Assim procedi com o universo. Deixei isto claro na Bíblia, ou será que não me fiz entender?

— Como assim?

— No sétimo dia, descansei: retirei-me do universo, deixando-o entregue às leis e ao acaso.

A explicação divina tinha lá sua lógica, embora eu estranhasse que nunca ocorresse a ninguém esta interpretação. Aproveitei a solicitude divina para fazer outra pergunta controversa:

— Por que Vossa Santidade não interfere mais na História humana, não se manifesta mais às pessoas, como nos tempos bíblicos. Decepcionou-se com a humanidade?

— Pelo contrário...

— Mesmo depois de tantas chacinas, Babi Yar, Hiroshima, Serra Leoa, Vigário Geral...?

Em recente viagem à Ucrânia para cobrir o desmantelamento das ogivas nucleares, alguém me levou a Babi Yar, nos arredores de Kiev. “Lá não há lápides, uma escarpa íngreme serve de rude sepultura”, diz um poema de Yevtushenko. Lá, em um só dia, os nazistas fuzilaram cem mil civis judeus — um Maracanã. Por mais de uma semana, aquele massacre não me saiu da cabeça. “Como Deus permitiu aquilo?”, pensava.

— Se você tem uma coleção de moedas — respondeu Deus — com uma ou outra bela moeda de ouro e prata, raríssimas, em meio a várias moedas mais comuns, de níquel, cobre, alumínio, mas igualmente belas, e algumas moedas danificadas também, deixará de se orgulhar da coleção como um todo? Enquanto a humanidade produzir um Mozart, uma Madre Teresa, um Einstein, me orgulharei de minha “coleção de moedas”, apesar das moedas danificadas.

Preferiria coleção só de moedas de ouro e prata, mas... Peguei do bolso da camisa um papelzinho dobrado onde anotara a próxima pergunta.

— Por que Vossa Santidade envia sinais ambíguos à humanidade? Elege os judeus Seu povo escolhido para, depois, mediante o sacrifício de Cristo, estender a aliança a toda a humanidade, abandonando os judeus à própria sorte (e como sofreram!)? E quando a humanidade enfim se convenceu de que o Cristianismo era, por assim dizer, a religião verdadeira, vem Maomé e muda tudo de novo. Cá entre nós: os hospícios estão cheios de loucos que se dizem Seu enviado. Por que Vossa Santidade não aparece de uma vez por todas pra toda a humanidade e proclama, alto e bom som, as regras do jogo? Eu sou Deus, uno (ou trino, ou múltiplo...) criador dos céus e da terra, a religião correta é a ou b ou c, e ai dos ímpios ateus... arderão todos nas chamas do inferno!

— Regras do jogo: você está querendo que a humanidade vire um bando de formiguinhas, que há milhões de anos repetem diariamente as mesmas coisas, segundo regras praticamente imutáveis?

Deus sempre dá um jeito de escapar pela tangente, pensei lá com meus botões. Mas como diz o ditado: Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Resolvi encerrar a entrevista com chave de ouro, abordando tema que há milênios intriga o ser humano.

— Afinal, a alma é ou não imortal? Segundo os espíritas, que sentido faria Vossa Santidade criar um ser tão complexo e aprimorado (capaz de compor sonetos e desvendar a estrutura da matéria) para, decorridas algumas décadas, ele se desfazer em nada? Mas pode-se ver a coisa de outro ângulo: por que dar imortalidade a um ser tão violento, tão frágil, tão cruel (capaz de cometer o massacre de Babi Yar) como o ser humano? O que acontece conosco depois que morremos?

— Quer descobrir? — perguntou Deus, sorridente.

— Quero — respondi automaticamente, sem medir as conseqüências de minhas palavras.

Deus tem mesmo senso de humor — humor negro! Nunca mais retornei do Sinai, e meu corpo jamais foi encontrado. Pena que a humanidade não tomará conhecimento desta minha entrevista.

(Do meu livro de contos e crônicas Édipo.)


GRAND TOUR: VIAGEM A ROMA, FLORENÇA, VENEZA, VERONA, MUNIQUE, PARIS, LONDRES E LISBOA

“Ser autor é trazer-nos inédito o que ainda pertence ao conhecimento geral.”
Frase de Almada Negreiros num painel da estação de metrô Saldanha em Lisboa

Nota: Todos os links aqui são seguros, foram inseridos pelo editor e estão associados ao conteúdo do texto, alguns remetem a páginas da Web, outros a fotografias, não são de propaganda.

 PARTE I: ITÁLIA



Vídeo amador com cenas da viagem a Roma, Vaticano, Florença, Veneza, Verona. Você verá um pouco de tudo: os chafarizes de Roma, uma serenata de gondoleiros em Veneza, uma cena tipo Cantando na Chuva em Florença, e muito mais.


11/9 Rio-Lisboa
Cumprimos a primeira etapa da viagem: chegar ao aeroporto. Pode parecer trivial, mas uma longa caminhada começa sempre pelo primeiro passo.
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Embarcamos, decolamos, jantamos, com isso três horas transcorreram. Faltam mais seis (voamos para Lisboa). Depois de percorrermos a aeronave para mexer com o corpo, eis-nos de volta à poltrona. O espaço da poltrona neste avião da TAP é o mais exíguo possível de projetar. Sentar ou levantar exige a arte de um contorcionista. Você se sente quase preso numa armadura medieval, sem movimentos. Para piorar a poltrona da frente parece que reclina mais que a minha, imprensando-me, e no meu lado esquerdo uma mulher um tanto quanto obesa insiste em transbordar de seu assento. Mas não posso me queixar. A passagem minha e de Mi custou 4218,74 reais. A R$ 3,30 o dólar, são 1278 dólares – alguns anos atrás eu pagava isso por uma passagem individual. O serviço de bordo está anos-luz atrás da KLM. Também pudera: a KLM é a única companhia aérea que preserva até os dias de hoje o mesmo serviço farto – na classe turística – que oferecia décadas atrás. Lembro uma piadinha do meu pai. “Sabe o que quer dizer TAP?” perguntava, e logo a seguir respondia: Take Another Plane. Mas pelo preço que cobraram não posso reclamar.

12/9 Lisboa-Roma


Roma

Achamos que a conexão em Lisboa para Roma seria tranquila. Qual o quê! No controle de passaportes, onde deveria existir uma fila organizada, um bolo de pessoas, feito baratas tontas. Parecia que todos os voos do dia chegaram ao mesmo tempo despejando suas hordas. Quando os funcionários enfim organizaram a boiada, o tamanho desmesurado da fila fez com que Mi e eu temêssemos perder nossa conexão. Mas quando eu interpelava um funcionário, ele assegurava que daria tempo. Nessa tensão, de interpelação em interpelação, uma funcionária enfim deu uma colher de chá, permitindo que furássemos a fila. Aviões, aeroportos são sempre tensos. A partir de amanhã, nos deslocaremos por terra, até quase o fim da viagem.
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Chegando em Roma procuramos a parada no 5 de onde parte uma espécie de frescão (Terravision) que reservei pela Internet antes de partir, com horário e tudo (13:45), por ser bem mais em conta que a ligação ferroviária. Um caos. A fila é uma bagunça, o ônibus demora para chegar, quando chega as pessoas se acotovelam, nervosas, para entrar, a garota que deveria organizar tudo não organiza nada. Mais uma tensão de início de viagem que poderia ter sido evitada pagando o preço do trem: Fica a dica: entre o trem, caro, e o ônibus, mais em conta, vá de trem. Bem dizia meu finado pai: a economia é a base da porcaria.

Reservamos quarto num dos muitos hotéis econômicos próximos à estação ferroviária Roma Termini, uma localização estratégica, perto do metrô, de um supermercado etc. Hotel Continentale. Hospedagem decente por 70 euros a noite. Engraçado que vários hotéis compartilham um mesmo prédio, enorme, antigo. Cada hotel ocupa determinadas alas ou andares.

Todos os nossos passeios aqui em Roma foram planejados com base sobretudo em um pequeno guia Berlitz que eu traduzi para a Siciliano uns dez anos atrás e que nem existe mais à venda (a não ser na Estante Virtual). Para cada dia tracei um roteiro, inclusive marcando os lugares num mapa do Google Maps. O mapa vocês podem acessar clicando aqui. Para o primeiro dia programei um pequeno “esquenta” (no mapa, em cor roxa). Eis o roteiro:

PRIMEIRO DIA
►Saltar na estação de metrô Barberini
PIAZZA BARBERINI
Dois chafarizes de Barberini: do tritão e das abelhas (p. 37)
TRINITA' DEI MONTI
Com dois campanários e graciosa fachada barroca, é um dos marcos de Roma. (p. 34)
FONTANA DELLA BARCACCIA
Chafariz de mármore em forma de um barco velho (p. 34).
PIAZZA DEL POPOLO
Teatro ao ar livre projetado em 1818. O obelisco, do Egito no séc. XIII a.C, foi trazido por Augusto.
SANTA MARIA DEL POPOLO
Igreja construída no local do túmulo de Nero para exorcizar seu fantasma. Interior barroco famoso pelas obras de arte. (p. 32)
PINCIO
Jardins do Pincio oferecem um mágico panorama da cidade, sobretudo ao pôr-do-sol.
►Pegar metrô na estação Flaminio
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Sobre o aspecto “espiritual” da viagem: eis que a rotina, a camisa-de-força dos pequenos hábitos diuturnos que dominava seus dias, dissipou-se. As horas sentado ao computador na labuta diária faziam parte de uma “encarnação” anterior, que você mal recorda. O fuso horário é novo, os sons são novos, o idioma é outro (o italiano que pratiquei por seis meses no Duolingo dá para arranhar umas frases; o Google Tradutor também ajuda). A paisagem urbana mudou. A gente não deveria ter tanto medo assim de morrer. Afinal você se desliga dos hábitos que julgava arraigados e imprescindíveis, mas que uma viagem como têm de ser as viagens (sem e-mail, sem Facebook, mergulhando fundo) mostra que não eram tão imprescindíveis assim, e se alça a uma realidade diferente (ainda que esse diferente seja o nada). O que nos traz à pergunta fundamental da metafísica: por que o ser e não simplesmente o nada?

13/9 Roma


"passeggiata pelas ruas de Roma"

Primeiro dia completo em Roma programei – com base na leitura de meu guia de Roma do Berlitz – um passeio a pé pelo centro histórico da Cidade Eterna. Acreditavam os antigos que, no dia que Roma fosse destruída, seria o fim do mundo. Bom para todos nós que Roma ainda existe. Antes de prosseguir o diário propriamente vai abaixo o roteiro, cujos passos você, eventual leitor do diário, pode seguir no mapa do Google Maps (os locais estão marcados com balões vermelhos). As páginas no roteiro referem-se ao guia do Berlitz.

PASSEIO PRINCIPAL
► Saltar na estação de metrô Barberini
1-PIAZZA BARBERINI
Chafariz rococó do séc. XVIII (p. 35).
3 PIAZZA COLONNA
A coluna de Marco Aurélio, decorada com relevos das campanhas do imperador, ergue-se diante do escritório do primeiro- ministro italiano no Palácio Chigi. A estátua do imperador no alto da coluna foi substituída, em 1589, por outra de São Paulo. (p. 30)
4 PIAZZA DI MONTE CITORIO
Nesta piazza, dominada por um obelisco egípcio do séc. VI a.C., está a Câmara dos Deputados, projetada  por Bernini como um palácio para a família Ludovisi.
4 PANTEÃO
Templo de todos os deuses, reconstruído por Adriano por volta de 125. (p. 38)
5 PIAZZA NAVONA
Ao centro, a Fontana dei Fiumi, chafariz dos rios (p. 37).
6 CAMPO DE' FIORI
Mercado de frutas, verduras e flores. (p. 39)
7 PALAZZO FARNESE
Mais refinado palácio renascentista de Roma (1589 - p.39-40).
8 PALAZZO SPADA
Palácio renascentista abrigando um museu.
►Cruza a Via Arenula, pega a Via dei Falegnami
9 PIAZZA MATTEI
Fontana delle Tarturughe (séc. XVI - p. 41)
10 VIA DEL PORTICO D'OTTAVIA (GUETO JUDAICO)
Gueto judaico.
11 PORTICO D'OTTAVIA
Com mais de 2 mil anos, dedicado à irmã de Augusto.
Construído por Augusto, modelo do Coliseu
11 PONTE FABRICIO
Mais antiga de Roma, de 62 a.C. (p. 41)
12 ILHA TIBERINA
Consagrada a Esculápio.
►ao final da ponte, descer a primeira rua da direita até a igreja
13 SANTA CECILIA IN TRASTEVERE
Igreja da santa padroeira da música, com fachada barroca e torre românica (p. 43).
14 PONTE PALATINO
Do parapeito vê-se a saída da Cloaca Maxima (p. 42).
15 TEMPIO DI PORTUNO (em frente à Ponte Palatino)
Deus dos portos (p. 42).
16 TEMPIO DI ERCOLE VINCITORE (à direita da Ponte Palatino)
Templo dedicado a Hércules.
17 SANTA MARIA IN COSMEDIN
Fachada românica. Boca da verdade.
► subir Via della Greca e Via del Circo Massimo até a estação de metrô Circo Massimo
[sobrando tempo: BASÍLICA DE SANTA SABINA. Uma das primeiras igrejas cristãs. (p. 41)]

Fontana dei Fiumi na Piazza Navona. Atrás a igreja Sant'Agnese in Agone. Projeto de 1652 em estilo barroco. Concluída em 1672.
Primeira impressão que se tem ao sair em passeggiata pelas ruas de Roma é que você entrou dentro de um filme italiano. Roma, para nós que estamos distantes, está associada a filmes: Dolce Vita de Fellini, Roman Holiday (no Brasil chamou-se A princesa e o plebeu) com Audrey Hepburn e, mais recentemente, Para Roma com amor de Woody Allen. Sou adepto da arte de flanar, de sentir a encantadora alma das ruas da cidade caminhando (recorrendo, vez ou outra, ao metrô para otimizar o roteiro). Roma é incrível para se andar. Mas durante o dia é quente. Traga roupa leve, carregue garrafinhas de água mineral (que pode ser reposta em certos locais por água das fontes). Roma é incrível, dizia. Notáveis seus chafarizes barrocos, o mais famoso, a Fontana di Trevi, mas existem vários outros: os de Barberini na praça que traz seu nome, Fontana della Barcaccia, Fontana dei Fiumi, Fontana delle Tarturughe. Os prédios romanos ostentam cores amareladas, alaranjadas, ocre, terracota como em nenhuma outra cidade do mundo. São prédios antigos, desde o mais antigo de todos (dentre os prédios preservados e em utilização, ou seja, tirante as ruínas), o Panteão – impressionante estrutura circular com enorme cúpula aberta no alto, transformado em uma igreja cristã, graças ao que foi salvo de virar ruína como outros templos antigos – passando pelos palácios renascentistas e barrocos, igrejas renascentistas, barrocas e neoclássicas, até os prédios de três, quatro andares com cara de serem do início do século XX. O traçado das ruas é bem antigo, em algumas partes você descobre becos, ruelas e pátios que se acessam por arcos nos prédios, às vezes usados como estacionamento ou guardando sinais de um passado mais nobre, com fontes barrocas. Modernidade não tem lugar aqui, talvez na periferia. Mas existem as avenidas largas abertas por Mussolini, cheias de carros, alguns Fiats compactos sucessores do Romi Isetta, motos, lambretas, ônibus etc. Em meio a essa festa da arquitetura e urbanismo, as ruínas da Antiguidade Clássica. Mas esse é o tema do passeio de amanhã.

14/9 Roma antiga


"O Coliseu é o que o nome diz: colossal."

Ontem foi dia de um tour geral pela Roma multissecular: clássica, renascentista, barroca. Hoje nossa programação focou as Antiguidades Romanas. Mas primeiro aproveitamos para ver o Moisés de Michelangelo, perto do Coliseu. Do programa previamente preparado antes da viagem, só não deu para ver a Basílica de São Clemente. Eis o programa:

ANTIGUIDADES ROMANAS:
► Saltar na estação de metrô Colosseo; antes de ver o Coliseu propriamente, subir até
BASILICA DI SAN PIETRO IN VINCOLI (MOISÉS)
Abriga o Moisés de Michelangelo (p. 70)
COLISEU
p. 51
Celebra a vitória de Constantino sobre Maxêncio (p. 51-2).
FORO ROMANO (entrada pela Via dei Fori Imperiali
p. 44 ss
MONTE PALATINO
Local da criação de Roma (p.48)
BASÍLICA DE SÃO CLEMENTE
Séc. XII, com templo pagão no subterrâneo (9-12:30/15-18 p. 69)

O Coliseu é o que o nome diz: colossal. Por cinco séculos abrigou espetáculos cruéis, de péssimo gosto, mas populares. Lotava então, e lota hoje, mas de turistas. Lá dentro caberia uma oração pelas almas de tantas vítimas da cultura da violência – mas em sua insensibilidade as pessoas não pensam nisso. Engraçado que o que financiou a construção dessa arena (precursora dos atuais estádios de futebol) foram as riquezas que Tito saqueou de nós, judeus, sempre protagonistas na história universal. O Foro Romano ocupa uma enorme área com restos – templos, arcos do triunfo, etc. – de Roma antiga, alguns em melhor estado, de outros restando apenas fragmentos. Ao entrar depara-se com o execrável Arco de Tito comemorando a vitória sobre nós, judeus, iniciando a trágica diáspora. O sol inclemente quase nos torrou, até que nos refrescamos num desses bebedouros que pululam por Roma, molhando rosto, ombros, braços, até a roupa. Ao final subimos o Monte Palatino, onde Roma começou.

Arco de Constantino visto do Coliseu

Uma dica: façam como nós, comprem os ingressos para o Coliseu e Foro na Internet antes de viajar para evitar longas filas.

Se os romanos antigos conquistaram o mundo militarmente, os italianos modernos o conquistam gastronomicamente. Após um pit stop no hotel, saímos para jantar num restaurante recomendado no TripAdvisor (é bom uma pesquisa prévia na Internet para evitar armadilhas para turistas). Estava lotado, só com reserva. Tive a presença de espírito de pedir que indicassem um outro bom restaurante próximo. Resultado: um magnífico jantar com a melhor massa da face da Terra, fresquíssima, num ambiente tradicional, casa lotada, garçons de filme italiano: o Ristorante Da Michele.

15/9 Vaticano


"a Basílica de dimensões descomunais"

Enfim chegou a chuva, mitigando o calor. Aviso ao pessoal do “só no Brasil”: aqui também trens eventualmente atrasam, metrô enguiça, escada de metrô cheira a mijo, pessoas jogam lixo em vasos de plantas, lixo boia à margem do rio Tibre. O que em nada desdoura a Cidade Eterna.

Dia de visita ao Vaticano. Se não tivéssemos comprado previamente no site os ingressos para os museus do Vaticano amargaríamos sei lá quanto tempo na fila gigantesca.

Assim como toda grande corte europeia, o Vaticano, através dos séculos, acumulou coleções artísticas de valor imensurável. São salões após salões (formando um enorme corredor) ostentando tapeçarias, mapas, esculturas, sucedidos pelos suntuosos salões de Rafael, culminando com a sublime Capela Sistina, ponto alto da arte renascentista, e terminando com a Pinacoteca. Este é o percurso básico, marcado por setas vermelhas.

"São salões após salões (formando um enorme corredor) ostentando tapeçarias, mapas, esculturas..."

Depois caminhamos ao longo de uma velha muralha até o castelo de Sant’Angelo, fortaleza inexpugnável onde o Papa se escondia durante invasões, que se avista melhor da Ponte de Sant'Angelo sobre o Tibre. Voltamos pela larga avenida (Via della Conciliazione) até a ampla Piazza de San Pietro com suas monumentais colunas dóricas, e adentramos a Basílica de dimensões descomunais, a maior do mundo na área ocupada pela edificação (a segunda maior é a de Aparecida), guarnecida de obras de arte do solo ao teto. O que numa igreja comum é uma imagem comum aqui é uma escultura de mármore superdimensionada, feita por um grande artista.

Ao final da tarde, encontramo-nos com meu amigo Daniele Petruccioli, tradutor literário do português para o italiano, que conheci num congresso de tradutores no Rio de Janeiro e que nos contou alguma coisa sobre seu amor a Roma e também sobre os problemas italianos (porque nós, como turistas, tendemos a ver apenas o lado ensolarado). A Itália já foi um país pobre, exportador de populações (também para o nosso Brasil), conheceu a euforia do crescimento econômico aparentemente ilimitado, chegando a ser a quinta maior economia do mundo, até que a bolha explodiu — como explodiu a nossa, sob o PT. Mas é um país com boa qualidade de vida.

Como todas as pessoas que passaram dos quarenta, meu amigo sente nostalgia dos “velhos tempos” quando Roma era mais provinciana, menos turística, quando as crianças podiam brincar na rua e dava para passear no Foro Romano como se passeia num parque – hoje, além de pagar para entrar, você tem que enfrentar a fila de turistas.

Uma nota final sobre a ameaça de terrorismo: terroristas islâmicos no Afeganistão e Síria mostraram que não têm o menor respeito pelo patrimônio histórico. Assim, atrações como Coliseu, Foro Romano, Vaticano — alvos potenciais de atentados — adotaram medidas de segurança comparáveis às dos aeroportos, com revista manual, passagem de bolsas por detectores, proibição de entrar com garrafas cheias d'água. E lembrar que, em 1984, você ingressava nesses lugares naturalmente, em alguns sem sequer pagar ingresso! 

16/9 Roma a Florença


"Piazzale Michelangelo, no alto de uma colina, com um panorama da mágica cidade"

Madrugamos para pegar o trem até Florença. O trem vai a 250 km/hora. O tempo que para na plataforma (binario em italiano) mal dá para embarcar, e imaginamos que o tempo que parará em Florença mal dará para desembarcar. É preciso agilidade, e bagagens práticas, de fácil transporte.

Em Florença, hotel um pouco menos “budget” que em Roma, perto da estação ferroviária e do centro histórico, com café da manhã: O San Giorgio. Chegamos cedo demais, antes do checkout, ainda não havia quarto vago. Deixamos lá as malas e fomos ao nosso supermercado de estimação aqui na Itália, o Conad, comprar o desjejum para comer depois no hotel: deliciosa ciabatta multicereal di farina di grano tenero (ah! os pães italianos) e antepasto de melanzane, berinjela – delícia, tudo aqui com pouco sal, pouco açúcar (quando se trata de doce), um azeite delicado, a dieta mediterrânea: com toda a profusão de pasta, você não vê obesidade.

Após uma siesta para pormos em dia o sono, nosso primeiro passeio. Nosso objetivo: Piazzale Michelangelo, no alto de uma colina, com um panorama da mágica cidade, onde agora estou, sentado, ao final da tarde, num banco molhado da chuva que acabou de cair, escrevendo estas mal traçadas linhas. À esquerda o sol ressurge dentre as nuvens, em frente, o mirante, cheio de turistas, tirando fotos, selfies, à direita um casal de brasileiros, os brasileiros invadiram a Itália, no céu nuvens em diferentes tons de cinza, e uma nesga de céu. A cidade aos pés que jazia na sombra agora vai se iluminando, ouvem-se risos de casais felizes... ah, a paz, quão preciosa!

 "turistas, tirando fotos, selfies"

Em uma ladeira quase deserta onde nos enfiamos fugindo das legiões de turistas fomos surpreendidos por uma chuvarada sob a qual nos refrescamos e fizemos uma pequena filmagem amadora no espírito do Cantando na chuva (cena esta que faz parte do filminho amador do início da postagem, que recomendo assistir em alta definição e full screen).

Nota gastronômica: após dois dias de massas, hoje nos dedicamos à pasticceria, saboreando o cannolo siciliano no Caffe Neri do mestre confeiteiro Simone (aqui é nome masculino).

Umas duas horas depois (nas férias perco a noção das horas), anoitece. Sentados na escadaria com tantos outros turistas que aqui subiram para ver o anoitecer, refrescados pela aragem, contemplamos a Ponte Vecchio, o Duomo e o Palácio Vecchio lá embaixo. No crepúsculo, vão se acendendo as luzes da cidade, algumas se refletindo no Rio Arno. A única lembrança visual que restou da última vez que estive aqui, em 1966, foi o David de Michelangelo. Escrevi então no diário (em 22/1/66): “Hoje visitamos Florença, Capital das Artes, banhada pelo Rio Arno.”

17/9 Florença: 1o dia


Visitantes mesmerizados diante da tela O Nascimento de Vênus de Botticelli

Como é possível que na terra da pizza e das massas as pessoas não sejam predominantemente obesas? É porque aqui as pessoas comem comedidamente. Você cá não se empanturra de massa até a barriga quase explodir. A massa constitui o primo piatto, o primeiro prato, e vem em quantidade moderada, sucedida pelo secondo piatto, uma carne ou peixe com verdura, tudo muito mediterrâneo, muito saudável. Acompanha a refeição o vinho da casa, de sabor leve, sem a acidez dos Cabernet que estamos acostumados a consumir no Brasil. Como turista, o ideal é evitar os restaurantes turísticos e comer onde come a população local. A Mi é exímia em pesquisar restaurantes na Internet e descobriu uma joia, a Trattoria da Rocco, uma “cantina” meio rústica, com mesas grandes para seis pessoas onde você se senta com desconhecidos. Na verdade é um estande numa espécie de mercadão de Sampa, só que menor. Sobre a mesa, uma garrafa de vinho da qual você se serve. A garçonete sequer anota o que você pede e na hora da conta pergunta o que você consumiu. Ah, as massas italianas, os molhos, os antipastos de berinjela, alcachofra, pimentões coloridos! A trattoria localiza-se na Piaza L. Ghiberti, pouco fora do centrão histórico-turístico de Florença, mas aqui dá pra ir a pé a todo lugar.

De manhã estava programado (comprei na Internet antes de partir) a Galeria degli Uffizi (galeria dos ofícios), abrigando magnífica coleção de pinturas italianas, predominantemente toscanas, do renascimento inicial (segunda metade do quatrocentismo) e tardio (primeira metade do quinhentismo). Para mim a pintura renascentista é o apogeu (nunca mais igualado) da arte pictórica, como o teatro de Shakespeare é o apogeu (idem) da arte dramatúrgica e a música dita “clássica” é o apogeu da arte musical. A reprodução quase fotográfica dos mínimos detalhes (por exemplo, na "Adoração dos Magos" de Cosimo Rosselli) é admirável. A luminosidade e o colorido na fase inicial (em especial na obra de Botticelli) antes da “descoberta” dos jogos de luz e sombra, idem. (Há uma fase em que a pintura europeia se torna sombria, escura.) O museu também abriga uma coleção de arte de outros países, mas esta saltamos – não dá para ver tudo.

"passeio noturno"

Após uma siesta de duas horas no hotel, o passeio noturno. Vale a pena passear de noite em Florença, a cidade lota de turistas e (sobretudo hoje que é sábado) moradores locais, estes estilosamente vestidos. À noite sob a iluminação amarelada a arquitetura ganha nova coloração. Sentados na Piazza del Duomo observamos a vida dura dos imigrantes provavelmente ilegais esforçando-se por vender bugigangas que pouca gente quer comprar, uns paus de selfie que todo mundo já tem, uns “pirocópteros”. Alguns vendem rosas mas poucos românticos compram. São os excluídos em meio à alegria geral dos turistas e cidadãos. Mas devem estar melhor que em seus países de origem, suponho.

18/9 Florença: 2o dia


Palácio Pitti (detalhe do pátio interno)

Dia reservado à visita ao Palácio Pitti, imponente palácio renascentista, e o Giardino Boboli anexo, um bosque que se estende por uma colina acima, com esculturas, grutas, chafarizes (que estavam secos) e, no alto, o museu de porcelanas e vistas da cidade e do campo toscano. Vale a pena percorrê-lo com calma e plena atenção aos cantos dos variados pássaros e à Babel de línguas dos visitantes. O ingresso (biglietto) ao jardim dá direito a visitar a Galleria del Costume que ocupa alguns salões do palácio, uma exposição permanente de estilistas de alta costura italiana na primeira metade do século XX. O ingresso aos aposentos reais e galeria palatina tem que ser pago à parte (são mais 13) mas vale a pena. A suntuosidade desses aposentos  cada um decorado com temática própria, os lustres enormes, tapetes, tecidos de parede, elaborados afrescos e trabalhos de estuque nos tetos, espelhos, profusão de quadros (Rafaéis em quantidade, Botticellis, etc.), esculturas, entalhes em madeira... — faz com que este esteja talvez entre os palácios mais luxuosos do mundo.

"A suntuosidade desses aposentos..."

Ao final da tarde, por módicos cinco euros, o sanduíche mais bem servido da face da terra, vale por um jantar, no Al Antico Vinaio: uma ciabatta magnífica abarrotada de (no caso do sanduíche que escolhi) mortadela, gorgonzola e antepastos, mas há muitos outros sabores. Um copo de vinho (3) cai bem de acompanhamento. Depois dessa comilança, paradinha no hotel para visita à toalete e o passeio noturno pelas piazzas e vias, repletas de gente, desta cidade das artes.


Queijos no supermercado. Para mais fotos de Florença clique aqui.

19/9 Florença a Veneza

Segunda-feira, eu deveria estar sentado ao computador traduzindo, que é minha rotina desde meados de 1991, quando abandonei o emprego e me tornei autônomo, freelance, mas, como a formiguinha da fábula, trabalhei, trabalhei, juntei o dinheiro da viagem e agora desfruto as merecidas férias. Sentados na sala aconchegante do hotel (o checkout foi às onze) aguardamos a hora de irmos à estação aqui perto pegar o trem até Veneza. Aproveito para pôr em dia o diário. Pegar um trem é bem menos tenso que avião, mas envolve uma pequena logística: localizar a plataforma, prestar atenção se o trem que chega é mesmo o seu (pode ser um trem anterior que chega atrasado) e saber em que ponto da plataforma parará o seu vagão, já que a parada do trem costuma ser rápida e você precisa ser ágil ao embarcar. E não adianta chegar com antecedência para fazer tudo com toda a calma, porque às vezes a informação da plataforma (binario) de embarque só aparece na última hora. As pessoas ficam ansiosas diante do quadro de partenza esperando aparecer. E na cidade de destino pode haver mais de uma estação, a central e outra periférica. É preciso estar atento.
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"uma cidade peculiar"

Ao sair da estação de trem você já percebe que Veneza é uma cidade peculiar, formada de ilhas e ilhotas entre as quais se estendem os canais e rios (canais mais estreitos). O transporte é todo aquático, das românticas gôndolas (80 euros o passeio) aos barcos-táxis e vaporettos, que são barcos-ônibus. Reservei (pela Internet antes da viagem) quarto num hotel, perto da estação ferroviária, recomendado pelo Trip Advisor, com excelente relação custo-benefício: Santa Lucia. A primeira coisa que você deve fazer para captar o espírito da cidade é pegar um vaporetto até a Praça de São Marcos. Gostoso é sentar-se na pequena parte aberta na popa da barca, sentindo o vento e o ondular das águas, e observando o trânsito intenso de embarcações pequenas e grandes (em certo trecho passamos rente a um transatlântico) e as paradas do vaporetto nas várias estações intermediárias, e o casario veneziano com suas fachadas maltratadas pela umidade.

A Piazza San Marco reúne os cartões postais de Veneza: Basílica de San Marco, Palazzo Ducale (Palácio dos Doges). Um formigueiro humano. Mas é só se enfiar por uma viela adentro – Veneza tem algumas vielas tão estreitas que lembram até (guardadas as devidas proporções) as favelas cariocas – que você desfruta do sossego de cidade do interior, e se tiver sorte irá parar em algum canal que seja rota de gondoleiros, e se tiver mais sorte ainda seus olhos e ouvidos deleitar-se-ão com uma serenata em uma gôndola – tivemos toda essa sorte.

"você vai brincando de se perder pelo labirinto"

E assim você vai brincando de se perder pelo labirinto de canais, fondamentas (calçadas), calles (vielas), pontes, rio teràs (antigos canais que foram aterrados), campos (praças), “becos sem saída” – algumas dessas ruelas são cheias de lojas e turistas, outras são residenciais, semidesertas. Você vai se embrenhando por esse emaranhado e, quando se sentir completamente perdido, pega o mapa (não dá para andar em Veneza sem o mapa) e descobre onde está, e se surpreende – poxa, andei até aqui. Quando estávamos nas entranhas de Veneza começou a anoitecer. Precisávamos encontrar o caminho até o hotel. Com um mapa na mão sou um verdadeiro GPS humano, mas as vias de Veneza não têm a simetria das ruas de uma metrópole moderna, assemelhando-se mais ao caos de uma favela. Perdidos em Veneza! Mais fácil que decifrar o mapa foi seguir os fluxos humanos que escoavam em direção noroeste, que era a direção da Piazza de Roma, a praça principal, onde ficam os pontos de ônibus (Veneza tem ônibus, que vão para as periferias), ao lado da estação de trem, perto do hotel!

20/9 Veneza


"conhecer curiosidades"

Antes da viagem eu havia feito as reservas para um passeio guiado em inglês, gratuito (mas você é convidado a dar uma gorjeta), recomendado pelo Trip Advisor, o Free Venice Walking Tour. Uma ótima forma de rodar pela cidade e conhecer curiosidades como que existem lá 438 pontes e 450 gôndolas, que a população da cidade decresce de ano a ano, mas 27 milhões de turistas a visitam anualmente, que o corpo de São Marcos, padroeiro da cidade, foi roubado do Egito e trazido para cá (fato esse retratado num dos afrescos da fachada da Basílica de San Marco), que Napoleão destruiu vários monumentos da cidade e os austríacos, durante sua ocupação, proibiram o Carnaval. E que o tráfego de barcos obedece a regras, como se fossem carros: Lei Seca, idade mínima, velocidade máxima, etc. Andar de gôndola é um programa romântico, mas para quem não pode arcar com os 80 euros (ou 100 de noite) sentar-se no ancoradouro na entrada do canal da Ponte dos Suspiros e vê-las circularem ao cair da tarde, sentindo a brisa e o cheiro de beira-mar, já é um programa bem relaxante. Você vai se sentir dentro de um quadro de Canaletto.

Após o walking tour voltamos andando pela orla ao hotel, passando até por um trecho das docas bem sem graça. No supermercado perto da estação de trem compramos pães, frios e salada e no hotel comemos um café da manhã tardio e descansamos até quatro e meia — era para ter sido até três e meia mas o despertador falhou. Fizemos um percurso a pé até a Praça de São Marcos passando pelo velho gueto judaico e a ponte Rialto, a primeira de Veneza, do tempo em que as ilhas eram comunidades independentes, pouco interagindo.

Anoitecer na Praça de São Marcos

No jantar resolvemos nos permitir uma extravagância gastronômica. A guia do walking tour recomendou as trattorias do lado norte da ponte Rialto, especificamente na Ruga Vecchia S. Giovanni. No Trip Advisor havíamos encontrado um restaurante na Calle della Madonna, a Trattoria Alla Madonna. Frutos do mar são o forte de Veneza, de modo que pedimos antipasto, risoto e secondo piatto de frutos do mar. Tudo regado a meio litro de um vinho branco, suave. O preço estourou o que eu trazia em euros na carteira, e aqui no exterior a gente sempre tem um medinho de que o cartão de débito falhe (como aconteceu sei lá por que cargas d'água ao final de nossa viagem anterior e como viria a acontecer ainda nesta viagem em Paris), mas ao fim e ao cabo tudo deu certo e ainda curtimos a viagem noturna no vaporetto de volta ao hotel. No restaurante, um casal de londrinos vivendo na Austrália, aparentando estar na casa dos setenta anos, puxou conversa. Ao saberem que somos brasileiros, o marido contou que, décadas atrás, viajou ao Mato Grosso, no Brasil, atrás de uma essência para um cosmético que sua empresa produzia, e observou: “Descobri que é impossível fazer negócios honestos no Brasil.”

21/9 Veneza a Verona


"Verona é uma graça"

O trem saiu exatamente no horário, mas chegou alguns minutos atrasado. No percurso você vê áreas urbanas se alternando com instalações fabris e plantações, o tempo todo – nenhuma floresta nem os espaços descampados que a gente vê no Brasil quando viaja nas estradas. É o norte da Itália, industrializado – o São Paulo italiano. Na chegada do trem, um africano que estava sentado ao meu lado gentilmente, e com a maior facilidade, desceu do bagageiro a nossa mala que eu estava tendo um pouco de dificuldade de pegar. Como eu notara que ele falava inglês ao celular, observei que you are a little bit stronger than me. Perguntei de onde era: Nigéria. Contei que tenho um irmão morando em Angola. Uma observação: não que nossa bagagem seja pouco prática de carregar, ao contrário: levamos uma mochila que carrego nas costas e uma mala maior de rodinhas, fácil de puxar – é que sou meio desajeitado mesmo.

Verona é uma graça. Cidade antiga, tem ruínas e construções do tempo do Império Romano. Igrejas românicas (ou seja, pré-góticas) e góticas. Mas as igrejas góticas na Itália (excetuando a de Milão e outras que eu porventura não conheça) não são góticas puras, o desenho básico é gótico, mas depois passaram por “modernizações” e incorporaram elementos renascentistas. Uma foto que você pode ver aqui mostra bem essa mescla. A Arena de Verona, um minicoliseu, foi transformada em teatro de ópera – mas hoje acolheu um concerto de rock, dava para ouvir do lado de fora. Em termos de comércio sofisticado, lojas elegantes, restaurantes e confeitarias refinadas, trajes das pessoas, Verona lembra mais a afluência da Europa central de língua alemã do que a informalidade da Itália mais ao sul, Roma por exemplo.

Na Piazza Erbe um pequeno incidente que já me acontecera nos anos 1980 em língua inglesa mas que hoje se repetiu em francês. Às vezes me aproximo de algum guia que esteja explicando alguma coisa a um grupo, só para tirar uma casquinha. Ao fazer isso com um guia de língua francesa, alguém no grupo teve o topete de reclamar que eu não fazia parte do grupo e por isso não poderia estar ali. Ao que repliquei em meu belo francês: Ici est un lieu public et j’ai le droit de rester ici! (Aqui é um lugar público e tenho o direito de ficar aqui!) Não se metam comigo que dou o troco!

Para fatias de pizza de massa crocante divinas, ou umas pizzas redondinhas de massa mais grossa, tradicionais – aquelas que imagino alimentavam os trabalhadores italianos dos velhos tempos  vai a dica: Pizza Doge.

À noite no ônibus conhecemos um jovem marroquino simpático e bem apessoado que aprendeu espanhol com uma ex-namorada, misturando ao italiano numa espécie de “italianol”. Estuda aqui em Verona e agora namora uma garota do distante Sri Lanka. Se não nos avisasse onde saltar iríamos parar não sei onde. No Rio sempre procuro orientar os turistas e agora chegou a minha vez ser orientado.

O hotel, Hotel Piccolo, fica estrategicamente situado perto da estação ferroviária e a uns trinta minutos a pé do Centro Histórico. Em cidades sem metrô gosto de ficar em hotéis perto da estação, porque é muito incômodo carregar bagagem em ônibus. Mas apesar da proximidade da ferroviária, se eu não tivesse estudado o trajeto de lá até o hotel pelo Street View do Google teria me perdido, porque a certa altura três larguíssimas avenidas se entrecruzam num emaranhado deixando qualquer um desorientado.

"Romeu" e Julieta:  "se não quiser pagar o ingresso para a casa propriamente (6), pode ao menos tirar uma foto junto à estátua da heroína, no pátio defronte à casa, não esquecendo de tocar em seu seio para dar sorte"

Verona é conhecida como a cidade onde se passou a história de amor de Romeu e Julieta, e uma das atrações da cidade é a Casa di Giulietta, antigo casarão que teria supostamente pertencido à família Capuletto, como informa a placa na fachada, com objetos (como a cama de Julieta no filme de Zefirelli), gravuras, fotografias e até uma escrivaninha onde você pode escrever uma carta para Julieta. Você pode tirar uma foto no balcão onde Romeu teria subido furtivamente para se encontrar com a amada e, se não quiser pagar o ingresso para a casa propriamente (6), pode ao menos tirar uma foto junto à estátua da heroína, no pátio defronte à casa, não esquecendo de tocar em seu seio para dar sorte. E nas paredes do pátio casais enamorados (como eu e Mi) deixam seus nomes escritos nos raros espaços que ainda consigam localizar.

Ponte sobre o Rio Ádige. Para mais fotos de Verona clique aqui.
Assim termina a jornada italiana de nosso périplo pelo Velho Mundo. Uma última observação para quem vem para cá: aqui se diz bom giorno (bom dia) até quase o fim da tarde, quando se passa a dizer buona sera (boa tarde/boa noite). Buona notte só na hora de ir dormir, como o good night inglês.

PARTE II: OKTOBERFEST EM MUNIQUE


Vídeo amador com cenas de Munique e arredores, Paris, Londres e Lisboa. Você verá um pouco de tudo: a viagem de trem pelos Alpes, a animação da Oktoberfest, a Torre Eiffel cintilando à noite, a agitação de Londres, o eléctrico lisboeta.

22/9 Verona-Munique (Ciao Italia)

Após o checkout e antes de rumarmos para a estação ferroviária a fim de pegar o trem às 13:04, caminhamos até o supermercado mais próximo do hotel (que nem era tão perto assim), em frente ao estádio de futebol, num bairro residencial veronense bem diferente do Centro Histórico: ruas amplas, automóveis reluzentes das mais variadas marcas (a Fiat deve lutar com terrível concorrência). Uma senhora de origem búlgara (ela nos contou), vendo que estávamos meio desorientados, ofereceu ajuda, e ao saber que éramos brasileiros, referiu-se a nossa “brava donna presidente”, ao que tive de explicar em meu italiano macarrônico que Dilma não foi tão “brava” (boa) assim e que sofreu impeachment devido aos escândalos de corrupção envolvendo o Partido dos Trabalhadores. A diferença entre as filas de supermercado aqui e no Brasil é emblemática da diferença entre uma sociedade eficiente (logo, abastada) e uma ineficaz onde os problemas vão sendo empurrados com a barriga. Aqui a fila, por maior que seja, anda, e quando você menos espera, chegou ao caixa. As compras dos dois, três fregueses na frente da fila já vão sendo colocadas na bancada, separadas por um bastonete, e enquanto o caixa as registra, o comprador já as vai ensacando. No Brasil, os compradores ficam numa pasmaceira, olhando para o ar, esperando que o cliente da frente termine sua compra, esperando que o caixa ensaque as compras.
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O balanço do trem sempre dá uma sonolência. Estamos passando pelo vale de uma região montanhosa, ao longo de um rio cristalino, com vinhedos nas margens da ferrovia e, vez ou outra, núcleos urbanos com casinhas que parecem de brinquedo e um ou outro castelo nas encostas das montanhas. O alto-falante avisa que a composição fará sua primeira parada, em Rovereto. Aqui já vemos galpões industriais e/ou comerciais. E continuam os vinhedos. Cidade pequena, alguns prédios. Sem Internet, não dá para ver no mapa onde estamos. Toda viagem sinto falta de um mapa (de papel) mas nunca lembro de trazer (poderia também ter criado um mapa offline da região no Google Maps).

"a monotonia da bela paisagem"

A viagem pelos Alpes é bonita, mas a monotonia da bela paisagem e a falta de café e alimentação inadequada (só sanduíche) deixam você meio esgotado. As conquistas do Acordo de Schengen, a livre circulação entre os países da Comunidade Europeia a que já nos havíamos acostumado, com a recente invasão de refugiados foram revogadas. Agora, na fronteira Itália-Áustria e depois Áustria-Alemanha, policiais percorrem o trem pedindo passaportes. Da algaravia para mim quase incompreensível de um grupo de italianos que conversavam consegui captar duas coisas: que Roma é la città più bella del mondo e que a Itália é um país maravilhoso, mas o povo não sabe dar valor. O que vale também para o nosso Brasil.

Outra coisa que acabou foi a pontualidade europeia: até agora, não vi um trem sair e chegar na hora.

Chegada em Munique. Depois de uma temporada em meio ao calor humano italiano, a seriedade alemã. Na Itália você entra na tabacaria e compra os bilhetes de transporte público, e o sistema de bilhetes é simples: unitário (bit), 24 horas, 48 horas, 72 horas, semanal. Na Alemanha a única maneira de comprar os bilhetes é numa máquina automática. Existe um sem-número de variedades de bilhetes e um sistema de zoneamento que deixam você maluco. Você pede informação (em alemão) às pessoas que estão no ponto e ninguém sabe dar – parece que nunca pegaram transporte público em Munique. Todo mundo vê que você está igual um desesperado tentando decifrar as perguntas da máquina e ninguém oferece ajuda. Saudades da Itália!

23/9 Munique


"Bem-vindos à terra das salsichas" 

Adeus comida mediterrânea tão saudável. Bem-vindos à terra das salsichas com repolho azedo (Sauerkraut, conhecido no Brasil como “chucrute”) e uma erva tão forte (Meerrettich, raiz forte, Kren no dialeto local) que se você inspirar enquanto come sentirá um fogo percorrendo as vias nasais.

Enfim decifrei o mistério da Fahrkarte (bilhete) do transporte público: ideal é comprar a Tageskarte, que permite o transporte ilimitado por todo o dia.

Aqui em Munique se respira afluência. A economia regional é sólida (a nacional também), o comércio, sofisticado, você só vê carrão último modelo (do naipe do Mercedes), raríssimos sinais de pobreza destoando da prosperidade geral. A Beate Kirschner, minha amiga jornalista muniquense que escreveu um guia de locais insólitos no Rio de Janeiro (ver aqui), diz que existem bairros de população de baixa renda e até nos apontou um sem-teto que vendia uma revista que, ela contou, foi criada por um estilista para ajudar a sustentar quem não tem moradia.

"é Oktoberfest"

München está fervendo de turistas: é Oktoberfest que, apesar do nome (festa de outubro), começa em setembro. Beate levou-nos lá. Loucura! Tem a parte de atrações de parque de diversões, mas a alma da festa são as Zelten, literalmente tendas, mas que são construções com fachadas e estrutura de madeira, cobertas por uma espécie de toldo reforçado, com tablados onde bandas tocam umas marchas tradicionais bávaras (no caso da “tenda” onde fomos nesse dia) e carreiras e mais carreiras de mesas enormes onde os visitantes, muitos em trajes típicos da Baviera, consomem uma cerveja de sabor fresco, mas alto teor alcoólico, segundo a Beate, em canecões de um litro — você fica pasmado quando vê o garçom ou garçonete carregar oito deles  acompanhada de pratos como “frango de padaria” e carne cozida com salada de batatas. Em algumas tendas a algazarra é enorme, vimos até torcidas de times se vaiando mutuamente, outras são mais sossegadas. Segundo a Beate tem gente que bebe tanto que depois se perde no caminho de volta para casa ou para o hotel. (Para ter uma ideia da ferveção veja o vídeo acima, de preferência em alta resolução e tela cheia.)

"com carinhas de alemães e falando alemão"

No bonde retornando para casa, observando adolescentes alemães com carinhas de alemães e falando alemão, fiquei imaginando que meu pai e minha mãe foram assim como eles (embora em outra época) até que a insânia nazista os desenraizasse de seu país e os trouxesse às terras brasileiras. Embora eu admire a cultura alemã, em especial a música clássica, em nada me identifico com os alemães. Sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor. Aliás mais brasileiro do que a média dos brasileiros que não sabem dar valor ao nosso país.

24/9 Munique-Schliersee-Munique


"Nos arredores de Munique existem lindos lagos"

Nos arredores de Munique existem lindos lagos e montanhas e cidadezinhas com casas de telhados de madeira de duas águas e vasos de flores pendendo das janelas, acessíveis por trem, aonde os bávaros vão caminhar, andar de bicicleta, espairecer, tomar banho de lago, levar as crianças para o contato com a natureza, e onde você mal vê turistas – Beate levou-nos em passeio por uma dessa cidadezinhas, com uma grande lagoa (do tamanho da Rodrigo de Freitas talvez), que jamais descobriríamos por conta própria: Schliersee. Na viagem de trem até lá um grupo de moças comemorava uma despedida de solteira tomando copos sobre copos de uma espécie de gemada, mas alcoólica, e fazendo uma algazarra enorme. Aliás, com a Oktoberfest, a algazarra predomina em Munique: por toda parte você vê grupos ou casais “fantasiados” nos trajes tradicionais bávaros a caminho da festa ou de volta, a alegria geral lembra a época de carnaval no Rio. Uma nota: no bonde a caminho do Centro, onde fomos encontrar a Beate, deparamos com um grupo de jovens brasileiros de diferentes estados – ou seja, diferentes sotaques – que estudavam engenharia em Lyon. 

Em Schliersee, subimos uma estrada em direção a Schlierbergalm com casas de campo de ricaços (tipo Itaipava) até um restaurante, Almgasthaus Stögeralm, com vista para o lago, onde saboreamos uma comida mais campestre que as salsichas com chucrute de Munique: cogumelos da região (Pfefferlinge). Depois descemos e demos a volta ao lago com seus lindos panoramas: a aldeia com o pináculo da igreja, as montanhas com pinheiros (O Tannenbaum, wie grün sind deine Blätter), barquinhos, um ou outro corajoso (inclusive um grupo de ingleses) tomando banho de lagoa, a passagem de nível onde o trem surgiu de repente dando um baita susto, etc. Comemos Apfelstrudeln (tortas de maçã) maravilhosas não só no restaurante da montanha como num bistrô chamado Glückselig, literalmente “com a alma feliz”. Na volta de trem, que partiu e chegou com atraso, uma criancinha fofinha qual anjinho barroco perguntou para Mi e mim “Wie heißt du?” (“Qual o seu nome?”), e depois “Wo wohnst du?”(“Onde você mora?”), ao que respondi: “In Südamerika, sehr weit weg” (“Na América do Sul, bem distante”.

"O Tannenbaum, wie grün sind deine Blätter" Para mais fotos de Schliersee clique aqui.

Na volta de bonde para a casa da Tita conhecemos um brasileiro lutador de MMA que está morando aqui em Munique. Reclamou de um amigo, que ele abandonou na Oktoberfest porque estava provocando briga com as pessoas, ao que observei: “Briga só é bom profissionalmente, para ganhar dinheiro.”

25/9 Munique

Fomos até a Alte Pinakothek, a pinacoteca de arte antiga, com a intenção de ver as salas de pintores alemães (Dürer, Cranach, Holbein) mas não conseguimos encontrá-las, até que tomei coragem de perguntar a uma funcionária (aqui os funcionários vigiam mesmo os visitantes e chamam a atenção quando se aproximam demais de um quadro; na Itália ficavam manuseando seus smartphones e não estavam nem aí) e fiquei sabendo que o museu está passando por uma reforma que começou em 2014 e se estenderá até 2018 e muitas salas ficam fechadas. Praticamente só estavam abertas as exposições de renascentistas italianos (que já havíamos visto à saciedade em Florença) e flamengos & holandeses, e pude me deleitar com os enormes painéis de Rubens com cenas escatológicas do Juízo Final e uma dantesca Queda dos Anjos Rebeldes.

"Ein Prosit, ein Prosit"

Depois Oktoberfest, a maior festa do mundo, ao menos em número de visitantes — na primeira semana da festa foram 2,9 milhões, e os jornais ainda comentaram que o número vem caindo de ano em ano. Existe certo temor de atentados terroristas, este ano proibiram a entrada de mochilas e bolsas grandes, e as pequenas são revistadas. A Oktoberfest é um misto de parque de diversões, praça de alimentação e festa etílico-carnavalesca, onde as pessoas, muitas em trajes tradicionais bávaros, sentadas em longas mesas coletivas dispostas em enormes galpões (as Zelten, tendas), ao som de uma bandinha bebem, algumas até caírem e serem carregados numa maca pelo serviço paramédico, sobem nas cadeiras para dançar, conversam, namoram, num verdadeiro espírito carnavalesco. A banda toca músicas variadas: dAquarela do Brasil a Viva la España, o tema de 007, marchas marciais, canções pop alemãs, e a cada não sei quantos minutos a indefectível “Ein Prosit, ein Prosit der Gemütlichkeit”, convidando os “foliões” a erguerem um brinde. Durante um tempo ficamos num gramado em aclive nos fundos das tendas onde as pessoas que beberam demais vão “desmaiar”. Vê-se de tudo: vômito, casais em posição quase sexual, jovens beijando na boca, policiais removendo foliões que mal conseguem se manter de pé. Ao que li no jornal sensacionalista de cá (pela Internet), ocorrem casos mais sérios também: celulares furtados de bêbados (“celular de bêbado não tem dono”), brigas com golpes de copo de cerveja, que é um copázio de um litro, agressões gratuitas e, às onze da noite, ocorreu até um assalto à mão armada com arma branca.

26/9 Munique


"voltamos à Oktoberfest"

Segunda-feira seria dia de voltar a trabalhar. Sonhei que tinha arranjado emprego e estava inseguro no meu cargo novo. Pesadelo!

Tita chegou ontem à noite de Israel, e hoje de manhã já tinha hora marcada no dentista. Tomamos o desjejum juntos num restaurante e depois ela nos deixou no centro da cidade. De tanto visitarmos Munique, tornou-se uma cidade familiar. Já não desperta a emoção e curiosidade de uma cidade que você visita pela primeira vez ou não visita há muito tempo ou que ama de coração, como Paris e Londres. Munique deu o que tinha de dar, provavelmente não voltaremos mais. Por falta do que fazer, voltamos à Oktoberfest, e hoje entramos no olho do furacão, ou seja, sentamo-nos numa das mesas e ficamos observando, fotografando, filmando, embalados por um litro dessa cerveja muniquense de sabor tão fresco e puro, de lúpulo, sem misturas estranhas.

À noite jantar de família no restaurante kosher diante da moderna sinagoga, considerado o melhor restaurante judaico da Alemanha. Comida israelense, que se assemelha à árabe e grega, que é a comida mediterrânea que você também pode comer no restaurante kosher do CIB em Copacabana.

Uma última observação: a Alemanha é uma sociedade afluente em todos os aspectos, é um modelo de como qualquer país deveria ser. São raros os sinais de pobreza. Um deles: pedintes estrategicamente colocados no trajeto para a Oktoberfest. O grande assunto aqui é a integração dos refugiados, o país recebeu mais de 1 milhão, uma onda humana, embora você não os veja como seria de esperar, porque foram distribuídos por várias cidades. Devido a esse problema a popularidade da Merkel cai, e Tita e Martha (a ex-esposa de meu irmão) temem a ascensão de uma coalizão de sociais-democratas, esquerdistas e verdes.

PARTE III: AS GRANDES METRÓPOLES: PARIS E LONDRES

27/9 Munique a Paris

Por mais bonita que seja a paisagem europeia, a viagem de trem acaba se tornando enjoativa. Você põe em dia o diário, manda um ou dois e-mails, lê um livro no Kindle — em viagens costumo ler as Mil e uma noites. Não havia trem direto de Munique a Paris. Teríamos que baldear em Stuttgart. O tempo de baldeação da passagem "integrada" é rápido demais, cinco, seis minutos: se o primeiro trem atrasar (o que tem se tornado comum aqui: o nosso atrasou três minutos) resta um tempo exíguo para você descobrir qual a plataforma do trem seguinte, depois localizar essa plataforma — geralmente é fácil, mas em algumas estações existem certas plataformas escondidas tipo Harry Potter  e enfim embarcar. Você fica nervoso, pode ter até um ataque de nervos — uma vez tive quando não estava conseguindo achar o ticket. Por isso preferi desdobrar a passagem em duas independentes, uma de Munique a Stuttgart, outra de Stuttgart a Paris, com uma hora de intervalo. Sentado no Starbucks da estação de Stuttgart aguardando o próximo trem, escrevo estas linhas.

Sobre as sensações espirituais: no início da viagem é como se você tivesse desencarnado e reencarnado num novo ser, um ser ambulante, errante. Mas mudanças de país, de idioma e contatos com família podem gerar microcrises, momentos de insegurança, momentos até em que você sente nostalgia da pasmaceira do dia-a-dia – fugazes, felizmente. Sentado aqui em Stuttgart aguardando o trem vem-me a lembrança do meu tempo em que perambulei pela Europa feito hippie, quando meu pai sequer sabia por onde eu andava e ligava para o tio Mani e Tita para saber se tinham alguma notícia minha. Meu sobrinho aqui na Alemanha resolveu estudar Filosofia, mesma disciplina pela qual optei, sob forte oposição da família & amigos, que preferiam que eu me tornasse engenheiro ou advogado ou outra profissão careta. Meu recado para o sobrinho é que a vida é longa e sempre há tempo para correções de rota & mudanças de planos.
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Chegada em Paris. A cidade é enorme, o trem leva uns quinze minutos transpondo a periferia: galpões, grafites, da Torre Eiffel nem sinal. A estação, Gare de l'Est, por coincidência (não foi planejamento) fica relativamente perto de nosso hotel, um Ibis Budget na Avenue Jean Jaurès cujo quarto tem layout igualzinho ao daquele em que ficamos em Sampa: padronização global. Ensaiei o percurso da gare ao hotel no Street View várias vezes antes de partir. A primeira impressão dessa região perto da ferroviária é de uma São Paulo: muita gente, de diferentes raças, muito movimento. O tempo desde que chegamos à Europa tem se mantido ensolarado, temperaturas (nos períodos de sol alto) em torno dos vinte graus, as roupas de frio que trouxemos jazem nas malas, bem diferente da friaca que peguei em Rothenburg em setembro de 1996. Aquecimento global?

28/9 Um dia em Paris


"deixa-me ser infeliz com um milhão de dólares em Paris..."

Dizia meu amigo S.T.: se o dinheiro não traz a felicidade, deixa-me ser infeliz com um milhão de dólares em Paris. Em plena Cidade Luz, cheia de lugares bonitos para visitarmos, estamos parados faz uns quinze minutos numa estação de metrô aguardando a liberação do tráfego, sem previsão. Acabamos desistindo de esperar, saltando, caminhando até outra estação e pegando outra linha. Lei de Murphy: na rua, andando até a outra estação, vimos nossa composição enfim passar! Os transportes públicos agora são assim em toda parte: em Munique nosso bonde ficou também parado meia hora aguardando não sei o quê.

O problema dos idiomas: invejo quem tem o dom natural de aprender idiomas. Os que sei aprendi a duras penas. Quando terminei os cinco anos básicos da Cultura Inglesa e passei no Lower, achei que sabia inglês. Em Londres (isso foi em 1972) fui assistir a uma peça de teatro crente de que entenderia. Fiquei feito pastel, como se falassem grego no palco, sem compreender bulhufas. Agora em Paris faço lá minhas perguntas em meu francês ensaiadinho: Jusqu’à quel heure vous êtes ouvertes? Até que horas vocês ficam abertos? perguntei no supermercado. Aí a caixa disparou umas frases em francês que me deixaram com cara de pastel novamente. Sorri, fingindo entender. Inveja de quem tem facilidade de aprender idiomas.

Aviso a quem vem à Europa se fiando nos cartões bancários. No final de nossa viagem anterior, nossos cartões de crédito e débito do Itaú começaram a entrar em pane, o que nos valeu grandes constrangimentos. Desta vez precavi-me: trouxe mais papel moeda e adquiri um cartão de crédito extra do Citibank. Pois ontem, no início da terceira semana de viagem, ao tentar pagar o hotel em Paris com o cartão de débito, a maquininha reconheceu que a senha estava correta mas não completou a transação. Usei o cartão de crédito. No Skype tentei contatar o atendimento ao cliente do Itaú mas devido a alguma imposição sindical (greve bancária?) não foi possível falar com um atendente. Mandei um e-mail ao gerente de minha agência. Vejamos se responde. (Nota a posteriori: não respondeu.) Em plena viagem você pode ficar na mão com seus cartões.

"Paris é charmosa"

Paris é charmosa, mas tem um lado caótico. Ambulantes, sujeira, pedintes, alguns com cães, carros desrespeitando faixas de pedestres, uma moto na contramão pela calçada. Tem as amplas avenidas e jardins abertos pelo Barão Hausmann. Tem a elegância das fachadas dos prédios em tons claros, com gradis de ferro forjado nas sacadas e as janelas das mansardas nos telhados de ardósia. Tem as mesinhas nas calçadas na frente das confeitarias e bistrôs, onde as pessoas ficam calmamente sentadas, algumas sozinhas, outras em casais ou em três, tomando seu café, comendo sua pâtisserie, vendo as pessoas passarem.

Repetimos, Mi e eu, a caminhada que havíamos feito no primeiro dia de nossa primeira vinda aqui a Paris, que atravessa todo o centro histórico. Saltamos do metrô na estação Bastille (depois de umas vicissitudes num metrô enguiçado a que me referi no início), subimos a Rue de St Antoine com um rápido desvio até a Place de Vosges, depois a Rue de Rivoli, detendo-nos no Hotel Hotel de Ville, a Prefeitura da cidade, com seu estilo rebuscado, Renascentista, dos prédios clássicos de Paris, como o Louvre. Na fachada da Fondation Abbé Pierre, que ajuda sem-tetos ou pessoas que vivem em moradias precárias — em acampamentos, prédios velhos sem calefação, prédios invadidos , exposição fotográfica mostrando que o Primeiro Mundo também tem seus pobres e excluídos. Desvio à Ille de la Cité para vermos a Catedral de Notre-Dame, onde você sente o goticismo em sua essência. Estão lá todos os elementos góticos: a rosácea, o arcobotante, o arco ogival, as gárgulas, a coluna gótica, a abóbada de arestas, os vitrais. A penumbra, a oração, as velas, a vida de Cristo em trabalho de talha, o mistério da religião em um mundo materialista onde a ciência tudo pretende explicar, mas no fundo, no fundo... o mistério persiste.

Depois Museu do Louvre (por fora), o Jardim das Tulherias com seus repuxos no centro de laguinhos redondos em torno dos quais pessoas sentadas em banquinhos namoram ou fruem o momento, a Place de la Concorde. Na altura do Grand e Petit Palais atravessamos o Sena na elegante Pont Alexandre III do início do século passado, percorremos um trecho da margem do rio e retornamos para a rive droite (margem direita) pela Pont de L’Alma. Na Avenue George V observamos o comércio sofisticadíssimo em lojas de rua, algumas com seguranças na porta, geralmente uns “negões” fortões. Numa joalheria vi um cliente lá dentro abrir a carteira recheada de grana. No Brasil seria seguido por um sequestrador relâmpago. Na loja Ermenegildo Zegna um terno (veste) custa 1975, uma calça (pantalon), 550, uma camisa (chemise), 255 e os sapatos (chaussures) custam 620. Converta em reais. Agora, sentado em um banco na Avenue des Champs-Élysées, ouvindo uma conversa atrás de mim em árabe entre dois homens, observando os passantes de fim de tarde, alguns de terno voltando do trabalho, descanso para depois ir jantar no Pizza Pino e enfim, após o jantar, ver a Tour Eiffel com sua iluminação noturna, coisa que nas viagens anteriores não tivemos oportunidade de ver, porque foram no verão quando só escurece depois das dez e meia da noite.
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Que viajar à Europa sai bem mais barato que pelo Brasil, como às vezes ouço falar, é mito: aqui você vai a uma confeitaria e gasta trinta euros, vai à pizzaria e gasta cinquenta euros. Converta em reais.

Fiz descoberta científica interessante: após dois copos de vinho Paris fica ainda mais bonita!
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"a Tour Eiffel (de noite, iluminada)"

Após o jantar, já de noite, subimos a Champs-Élysées até o Arco do Triunfo. Lá pegamos o metrô até Trocadéro, onde vimos a Tour Eiffel (de noite, iluminada) do alto e ouvimos o último tango em Paris: um grupo dançando tango. Descemos a escadaria, atravessamos a ponte e nos embasbacamos com a torre iluminada, a certa altura cintilante. E voltamos cansados para “casa” que amanhã tem nova etapa da viagem.

29/9 Paris-Londres

O Starbucks tem um sistema em que, quando você pede sua bebida ou muffin, perguntam seu nome, para avisá-lo quando o seu pedido fica pronto. Você pode medir a eficiência de um país pela rapidez que levam para preparar seu pedido. Na Alemanha o atendimento é quase instantâneo. Mas não era isso que eu queria dizer. É que em cada país meu nome é entendido de forma diferente: em Munique virou Evo, em Paris, Yvan.

Para embarcar no Eurostar de Paris para Londres, convém chegar à Gare du Nord uma hora antes da partida do trem para os procedimentos de check-in. Você passa por uma verdadeira fronteira virtual, com controle de passaporte de “saída” da França, seguido de controle de “entrada” na Grã-Bretanha, com o interrogatório de praxe: o que você vem fazer na Grã-Bretanha? Tem até formulário para preencher e entregar na “migração”.

O Eurostar e longuíssimo, com uma enormidade de vagões. Viaja lotado a quase trezentos quilômetros por hora. O recorde até hoje são 334,7 km/h. Em Calais penetra no Chunnel (apelido do Channel Tunnel) de 50,45 km para só voltar à luz do sol vinte minutos depois, do outro lado do Canal da Mancha, o English Channel. Em seu ponto mais fundo o túnel mergulha 75 metros sob a superfície do mar.

Lá em Calais fica a Jungle, um acampamento de imigrantes ilegais que tentam “pegar carona” como clandestinos em caminhões para a Inglaterra. Li na imprensa na Alemanha que Hollande semana passada esteve lá e prometeu acabar com essa “favela”. Será que do trem vai dar para ver? Sobre o Brasil não sai nada na imprensa de cá, só quando ocorre alguma “merda”, por exemplo, um impeachment. Assim descanso a cabeça dos nossos problemas e me distraio com o problema dos outros. Pimenta nos olhos dos outros...

Segundo a Mi, a sensação de viajar é análoga à de uma noite de Réveillon, de recomeço, renovação. Assino embaixo.

Nota posterior: Do trem não deu para ver a Jungle, mas naquele trecho a via férrea está protegida por cerca eletrificada.

A fim de entrar no clima londrino, troquei as Mil e uma noites pelas Aventuras de Sherlock Holmes. “É um erro capital teorizar antes de dispor de dados”, diz a “mais perfeita máquina de raciocinar e observar que o mundo já viu”.

30/9 Londres
When a man is tired of London, he is tired of life.”
Samuel Johnson

Sherlock Holmes & Dr. Watson

Sentados no Regent’s Park, sob um céu encoberto e fustigados por um vento gélido. Dez minutos atrás, quando decidimos entrar aqui para matar o tempo entre uma visita à “casa” de Sherlock Holmes e um passeio guiado do London Walks às 14:00, o sol brilhava – por isso resolvemos entrar no parque. Assim é o tempo em Londres, variável ao extremo. Você tem que administrar várias camadas de agasalhos: colete, pulôver, jaqueta. Você sai do hotel de manhã cedo vestindo tudo isso. Quando entra na casa de Sherlock Holmes (mais sobre ela adiante) começa a sentir calor e tira o pulôver e guarda na Kipling e tira a jaqueta e amarra ao redor da cintura... mas quando sai lá fora de novo. Caramba, começou a chover, fininho. Em Londres, convém consultar a previsão do tempo antes de sair para não ser pego de surpresa.

Algumas linhas sobre a visita ao Sherlock Holmes Museum, no endereço exato onde, segundo Conan Doyle, teria morado o detetive com superpoderes de dedução: Baker Street 221B (salte na estação Baker Street; a entrada custa 15 libras) É uma reconstituição, com base nos textos de Doyle, do que teria sido a casa de Holmes e, durante um período, de Watson também. Você vê toda a mobília, os objetos (cachimbos, violino), livros, baixela etc. da dupla, o quarto de Holmes, de Watson, da criada. Personagens de histórias de Sherlock Holmes são representados por bonecos tipo museu de cera. Textos abordam curiosidades sobre a “vida” de Holmes, como o fato de tocar violino, fumar cachimbo, consumir cocaína.
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"uma série de parques contíguos que cobrem uma boa área do centro"

Uma e quarenta e cinco, na saída da Embankment Station aguardamos o início de In the Footsteps of Sherlock Holmes, o passeio guiado da London Walks que segue os passos de Sherlock Holmes. O sol voltou, pulôver e capa retornaram à Kipling, para a qualquer momento saírem de novo. Mas como diz um velho ditado escandinavo, não existe tempo ruim, existem roupas inadequadas.

Sobre a proverbial pontualidade britânica: Lembro que, em outras eras, os London Walks partiam exatamente no horário, mas desta vez a guia aguardou uns minutos pelos latecomers, retardatários, e partimos com seis minutos de atraso. Questionei a guia se a British punctuality foi abolida, ela respondeu que é coisa do passado, e deu o troco dizendo que o que vigora agora é a pontualidade brasileira. O passeio guiado pela coração do West End mostra não apenas locais (teatros, restaurante, a estação de Charing Cross, um hospital) citados em romances e contos sobre Sherlock Holmes, mas também alguns ligados a episódios da vida de Conan Doyle, o pai do grande detetive.

A primeira informação que a guia fornece é que Holmes não existiu de verdade, para logo depois esclarecer que tem gente que acredita ter sido uma figura real. Doyle não nasceu em Londres, e sim em Edinburgh (pronuncia-se “Edimbra”, Edimburgo em português), por isso vê a capital inglesa com olhos de um outsider, e chega a cometer erros factuais como referir-se à compra de um ganso em Covent Garden quando lá ficava o mercado de hortifrutis. Conquanto se formasse em medicina, desde jovem revelou-se a vocação para escritor. Começou escrevendo romances, até descobrir o filão das short stories para a revista Strand, que escreveu durante quarenta anos. Doyle foi um escritor prolífico que dominou vários gêneros, como romance histórico, ficção científica, poesia e teatro, e às vezes se frustrava por seu popular detetive ofuscar suas demais produções literárias. Mais na velhice passou a se interessar pelo espiritismo, o que na época tinha certa lógica diante das absurdas e numerosas perdas de vidas jovens no curto intervalo da Grande Guerra, segundo a guia.

No início do passeio esta indagou sobre os países de origem dos participantes, a maioria de países de língua inglesa, e quando declarei que éramos, Mi e eu, representantes do Brasil, as recentes Olimpíadas vieram à baila. A guia contou que antes das Olimpíadas londrinas todos foram contra, achando que seria um desperdício de dinheiro, etc., mas quando os jogos começaram para valer, a população se empolgou, no que seria um comportamento “tipicamente britânico”, segunda a guia. Mas parece que o comportamento é universal, porque entre nós, brasileiros, aconteceu exatamente o mesmo.

Sobre o centro histórico de Londres: embora na era vitoriana dois terços dos imóveis da cidade fossem derrubados e substituídos, inclusive as lindas mansões à margem do Thames (diz-se Tams, com o a meio que puxando para o, Tâmisa em português), que por sua vez foi retificado, a cidade não teve um barão Haussman ou um Mussolini  que abrisse largas avenidas e amplas praças, conservando basicamente o traçado pós-Grande Incêndio. Se o acesso de carros ao centro da cidade não fosse fortemente taxado, reinaria o caos. O número enorme de gente que se comprime num espaço relativamente estreito faz da cidade um formigueiro humano. Em compensação esta possui uma série de parques contíguos que cobrem uma boa área do centro.

1/10 Londres-Cambridge-Londres


Cambridge (pronuncia-se Queimbridge)

Vou escrever o diário hoje de trás pra frente, começando pelo jantar. O fish and chips (peixe com fritas) é um prato quintessencialmente britânico, consistindo de bacalhau fresco do Mar do Norte (no Brasil só temos o bacalhau salgado) envolto por uma crosta tipo milanesa, batatas fritas crocantes, ervilhas frescas (não as de lata) e molho tártaro. Ideal é comer na dining room de um pub frequentado pelos locais, ou seja, onde você não veja nenhum chinês — os chineses "invadiram" a Europa. Para isso procuramos um bairro “normal”, que não consta dos roteiros turísticos, Pimlico, mas a poucos quarteirões do nosso hotel, que fica nas imediações de Victoria Station. Descobrimos The Queen's Arms, que num letreiro na entrada promete o “tradicional fish & chips”. Enquanto o mundo bebe a pilsen, a loura de baixa fermentação que representa um aperfeiçoamento na técnica da produção da cerveja — como, digamos, o piano foi um aperfeiçoamento do cravo  os britânicos persistem na velha ale, de alta fermentação, bebida em temperatura ambiente (ou seja, não estupidamente gelada). Por aqui existem muitas ales locais que não são produzidas pelas grandes cervejarias. A garçonete recomendou a ale da Camden Town Brewery, com odor frutado e gosto de erva, talvez mastruz. Assim foi nosso jantar.

Estivemos em Cambridge (pronuncia-se Queimbridge, os ingleses têm uma forma estranha de pronunciar certas palavras, por exemplo, Warwick pronunciam como Uóric, Glocester, como Glóster, Leicester como Lester) levados por Sue e Ilan, casal londrino na casa dos setenta anos ao qual mostrei o Rio uns anos atrás e que agora, quando viemos a Londres, nos levam a passear a algum lugar. Encontramo-nos defronte à estação Preston Road, a mais próxima da casa deles. Como chegamos meia hora antes, entramos num café para tomar um espresso. Enfim começou a temporada de frio cortante, com surtos de chuva, exigindo todo um aparato de agasalhos: jaqueta sobre pulôver de lã com gola rolê poderoso sobre camisa polo sobre colete sobre o peito sensível que recobre um pulmão delicado. Os ingleses se agasalham direitinho, não tanto quanto nós, é claro, mas um ou outro “maluco” encara a friagem com umas roupinhas, tipo camisa regata, short, camiseta, chinelos, que seriam mais adequadas para a praia de Copacabana. No bar dois aparentes representantes da working class conversavam com a garçonete em uma língua que parecia o português falado de trás para diante. Na televisão um jogo de futebol como se estivéssemos num típico botequim carioca – aliás, as comidas expostas, umas frituras, também pareciam comida de pé-sujo. Aí percebemos que as palavras que apareciam escritas nas propagandas tinham algo de familiar: aquela era uma língua latina, como a nossa. Enfim matamos a charada: era romeno!

Indaguei nossos amigos londrinos sobre as consequências do Brexit, a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Disseram que a Bolsa subiu e a libra se desvalorizou, mas ainda é cedo para avaliar as consequências.

Nossos amigos haviam feito uma reserva num walking tour por alguns colleges de Cambridge. A cidade tem dois mil anos de história e foi invadida por romanos, anglo-saxões e normandos. Constitui-se de 31 colleges, que embora dotados de certo grau de autonomia, pertencem à Universidade de Cambridge. A anuidade é cara, em torno de £9 mil. É possível obter um empréstimo educativo, mas aí você acaba se formando com uma dívida de 30 mil libras. Um mal começo de carreira. Só pelo Cavendish Laboratory passaram 29 futuros prêmios Nobel — o Brasil nunca ganhou nenhum. O ponto alto do passeio foi a capela do King's College, de meados do século XV, com seu fan-vaulted roof (telhado com abóbada de leque), uma forma de telhado de limestone (calcário) finamente trabalhado a 24 metros do solo, e vitrais retratando episódios do Antigo e Novo Testamento. No altar uma adoração do Menino Jesus de Rubens originalmente pintada para um mosteiro italiano e arrematada por um ricaço em leilão da Sotheby e doado ao King’s College. A chuva forte fez com que o guia se detivesse longamente na capela, permitindo que absorvêssemos bem essa relíquia medieval cujos vitrais foram meticulosamente desmontadas na guerra e depois recolocados, salvando-se assim dos bombardeios.

Aprendemos com nossos amigos que um chá autenticamente inglês deve ser preparado com folhas, e não saquinhos, e o leite deve ser colocado na xícara antes do chá.

2/10 Londres


Um londrino

No Victoria & Albert Childhood Museum (estação Bethnal Green) a gente tem a oportunidade de ver brinquedos, jogos, bonecas, ursinhos, lanternas mágicas, moda infantil, casas de bonecas, teatrinhos de fantoches, bonecos autômatos – inclusive um leão engolindo uma criança mal comportada – de todas as épocas, até mesmo os autoramas, Legos e trens de brinquedo do tempo em que NÓS fomos crianças. Você vê muitos pais e mães com filhos, que ficam correndo para lá e para cá (afinal, são pirralhos) com os pais tentando controlá-las, de modo que quem melhor aproveita o museu são os adultos sem crianças. Uma boa oportunidade de você, turista, observar as famílias inglesas com seus fedelhos fazendo suas traquinagens como em qualquer país, mas com a diferença de falarem um belo inglês.

Ocorre-me uma reminiscência: quando eu era novinho e estudei na extinta Nelson’s School, ficava pasmo com a desenvoltura com que os filhos e filhas de ingleses e americanos falavam o inglês, achando-os bem mais “brilhantes” que eu...

Depois rumamos para o Ragged School Museum, a uma estação de metrô de distância do Childhood (estação Mile End da Central Line), descoberta da Mi em suas perambulações pela Internet. Fica no East End, um subúrbio menos afluente (mais sujo, etc.) e etnicamente mais diversificado, como são também as nossas Madureiras, com a diferença de que a renda per capita inglesa é 2,6 vezes a nossa (confira aqui). Saindo da estação você pega a esquerda e anda uns duzentos metros até um parque, Mile End Park, que você tem que atravessar longitudinalmente para chegar no museu – o site explica. No parque você vê os resíduos dos frequentadores de sábado, mostrando que emporcalhar espaços públicos não é exclusividade de países menos desenvolvidos. Assim como tivemos a sorte de estar em Munique durante a Oktoberfest, tivemos a de estarmos em Londres no primeiro domingo do mês, quando o museu promove a Sunday Open House, com encenação de uma aula em uma escola para crianças pobres do East End na Era Vitoriana, precisamente em 2 de outubro de 1886. Máquina do tempo. Naquela época mais de 1 milhão de pessoas se apinhavam naquela que era uma das áreas mais densamente povoados do mundo, enfrentando a fome, frio, pobreza, trabalho infantil, doenças e mortes prematuras. O museu resgata a memória dessa parte de Londres e do trabalho filantrópico do pastor Thomas John Barnardo, que se dedicou a construir e manter escolas para educar, alimentar e cuidar das crianças pobres de lá. Na sala de aula, com o retrato da Rainha Victoria na frente e todo o aparato de uma escola da época – lousas (slates), estiletes (stylus) para escrever na lousa, quadro-negro, carteiras como aquelas que ainda cheguei a pegar na infância, o dunce hat (chapéu de burro), finger stocks para prender os dedos de crianças que tiravam meleca do nariz – uma atriz usando uma crinolina sob a saia, dando a impressão de uma bunda arrebitada, simula uma típica professora do tempo de Dr. Barnardo, extremamente rigorosa, a ponto de uma ou outra criança menor ficar realmente com medo, mas a maioria leva a coisa na brincadeira. A aula começa com uma oração. Na chamada subsequente um a um os “alunos” se levantam e recitam o nome (os assíduos no fim do ano ganharão um medalhão que poderão ostentar pelo resto da vida e ajudará até a conseguir emprego). Em seguida ela examina as unhas de cada um para ver se estão sujas. Todos têm que recitar o alfabeto, escrito no quadro-negro em bela caligrafia maiúscula, em coro de A a Z e de Z a A, e quando alguns alunos trocam uma letra, a professora fica braba. Os alunos são chamados de young man (jovem homem) e young lady (jovem dama) e quando a professora faz uma pergunta, quem sabe a resposta levanta a mão. A caligrafia na época pré-máquina de escrever e computador era importante, e a “professora” manda os alunos escreverem uma frase com letras tão bonitas como aquelas do quadro-negro. Divertidíssimo.

Na cantina do Childhood Museum um chá Oriental Sensha agradou à Mi, de modo que perguntamos a um casal, cuja esposa é brasileira e com quem já havíamos conversado, onde se podem comprar tais chás em Londres, e nos indicaram o Spitafield Market. Para lá nos dirigimos após a aula e deparamos com a London Tea Exchange, uma loja de chás, que na entrada oferecia degustações de chás como se fossem vinhos finos. Os produtos a granel ficam em grandes potes, dezenas deles, e você os cheira para escolher aqueles do seu agrado. Engraçado que essa bebida, tão associada aos britânicos, originou-se da China. Trazido de lá em meados do século XVIII, constituía uma bebida fina, consumida pelas classes mais abonadas. Era guardado em caixinhas trancadas a chave para os criados não pegarem. Doctor Johnson, inveterado consumidor dessa infusão a ponto de seu bule mal ter tempo de esfriar, disse que “com o chá torna divertida a tarde, conforta-se à meia-noite e acolhe a manhã”.

No fim da tarde, início da noite percorremos a margem sul do Rio Tâmisa e constatamos que sofreu um upgrade como aquele de nosso próprio Porto Maravilha, provavelmente para as Olimpíadas de quatro anos atrás. Nada lá nos era familiar. Aliás, por toda a skyline londrina você vê guindastes de obras e novos arranha-céus pós-modernos. Enquanto Paris preserva seu centro histórico e empurra os prédios altos para a periferia, Londres faz como nós, cariocas, que derrubamos os lindos prédios de inspiração francesa da Av. Rio Branco para substituí-los por predões.

Depois de tanta caminhada, um cheeseburger home made no nosso agora pub de estimação em Pimlico, o Queen's Arms.

3/10 Londres


"a ala mais antiga (e assustadora, suponho) do cemitério"

Visita guiada ao Highgate Cemetery West, a ala mais antiga (e assustadora, suponho) do cemitério, colina acima. Para as visitas de segunda a sexta você precisa fazer reserva, e pagar antecipadamente pelo site. No East Cemetery repousam figurões como Karl Marx. O cemitério fica no borough de Islington, no norte da cidade. Para chegar ao cemitério você salta na estação Archway, sobe a Highgate Hill Road até o Waterlow Park e atravessa esse parque. Não há setas indicativas; você tem que se basear no mapa do site para não se perder. No caminho, um cartaz da polícia de Islington alertava para ladrões de celulares operando na área. Sete mil aparelhos são roubados em Londres a cada mês.

O West Cemetery é a ala mais antiga e selvagem desse cemitério criado na era vitoriana, na década de 1830, quando as igrejas e adros de igrejas e pequenos cemitérios de igrejas não deram mais conta do número de corpos (mesma história dos cemitérios do Rio). O administrador do cemitério que nos recebeu tinha um olhar um tanto cadavérico e uma voz cavernosa de assombração. Daria um ótimo guia de cemitério, mas infelizmente quem nos conduziu pelos meandros do campo santo foi um voluntário que de início pensamos ser gago, tão abafada era sua voz e incompreensível sua dicção para quem não tem o inglês como língua materna. O West Cemetery é realmente selvagem: sobe o Highgate Hill em meio a uma mata que não é podada nem desbastada, de modo que as tumbas disputam espaço com árvores, arbustos, por vezes sendo abraçadas por trepadeiras. Aquele é o bosque da propriedade que existia no alto do morro antes da abertura do cemitério. Na era vitoriana, quando as pessoas estavam mais familiarizadas com a morte — a mortalidade infantil era alta, mulheres morriam de parto e epidemias dizimavam as populações , cemitérios não eram vistos como mórbidos, mas como áreas verdes, de lazer, entendi o guia dizer (mas dada sua dicção não posso garantir que foi isso mesmo que ele disse). Em meio à vegetação luxuriante vimos túmulos protestantes despojados, sem cruz (na época vitoriana a cruz era considerada um símbolo católico), com apenas uma espécie de “leito” do sono eterno e lápide, bem como mausoléus de famílias e catacumbas. No túmulo de um famoso boxeador vitoriano a estátua de seu cão (foto acima), que teria sido mais fiel que sua esposa. Um ricaço, ao perder sua filha de sete anos, mandou construir um mausoléu suntuoso em estilo italiano, com mármore e tudo, onde você não pode entrar devido ao risco de pedras desmoronarem, mas que pode ser visto no site do cemitério. Um poeta, ao perder sua esposa, fez com que fosse enterrada jazendo sobre o original de um livro de poemas que escrevera para ela, mas alguns anos depois, querendo publicar os poemas, teve que exumá-la para recuperar o livro, meio carcomido por vermes, mas ainda legível, contou o guia. O East Cemetery já se parece mais com um cemitério comum (ou seja, não é um cemitério-floresta) e lá está enterrado o vilão Karl Marx. Um enterro em Highgate custa entre 20 e 50 mil dólares, e bem na entrada do East Cemetery um banqueiro está construindo um megamausoléu de 1,5 milhão de libras. Mesmo assim, os enterros cobrem apenas metade das despesas de manutenção, já que muitos dos mausoléus vitorianos são de famílias extintas, sem descendentes, e a manutenção fica por conta do cemitério. A outra metade vem de doações, dotações e visitas turísticas. Embora eu seja bisneto de banqueiros alemães (acreditem se quiserem), em minha humildade budista prefiro ser cremado e desaparecer no nirvana.

No próprio bairro do cemitério comemos um delicioso kebab, que é carne com verduras num pão árabe, na lojinha de um simpático iraniano que contou ter uma prima em Curitiba.

You either see it or you don’t é o lema da Dennis Severs’ House (18 Folgate Street, estação Liverpool Street), casa de uma família de tecelões de seda huguenotes que você não vê, porque, quando você adentra um aposento, ela já não está mais lá, mas seus sinais estão: a lista de tarefas, o bordado inacabado, as conchas das ostras comidas, o vinho derramado na toalha, o livro de orações aberto, as aves recém-caçadas dependuradas acima da espingarda recostada no móvel.

A casa, que você visita já na penumbra do início da noite, é iluminada somente por velas e lamparinas, e aí você se dá conta de quão viciados estamos na luz elétrica, e sente uma nostalgia de uma época em que vez ou outra faltava luz e você acendia velas. A visita se dá em silêncio – você é proibido de falar. Fotos também são vetadas. Claro que a família de tecelões que habita a casa não existiu no mundo real, só na imaginação do criador dessa fantástica casa e na de você, visitante. Não se trata de um museu, mas de uma espécie de instalação artística que, qual máquina do tempo, transporta você a uma casa que foi habitada de meados do século XVIII até o fim da era vitoriana. Você é instado a imaginar o que não vê, daí o lema supracitado.

Jantar num restaurante – The Daily Poppies – famoso, bem cotado no Trip Advisor e até premiado por seu fish & chips. O bacalhau havia terminado, de modo que tivemos de nos contentar com hadoque. Um peixe nobre, talvez, saboroso com temperos e molhos sutis, imagino, mas frito à milanesa com batatas fritas decepciona ao paladar.

4/10 Londres


"Imagine um museu..."

De manhã a caminho do metrô, grupos de escolares, alguns só de meninos, outros mistos, em seus uniformezinhos tão britanicamente formais, para que desde cedo aprendam a compostura: meninas de saiotes escoceses, meninos de bermudas (um deles, de calça comprida), paletozinhos com a insígnia do colégio, gravatinhas, e boinas com a mesma insígnia.

Imagine um museu que mostra a evolução das salas de convivência familiar das casas (os parlours ou drawing rooms, que hoje seriam a sala de estar, mas em outras épocas reuniam as funções de sala de estar + jantar + visitas) no decorrer dos séculos. Existe em Londres, chama-se The Geffrye Museum of the House. Fica próximo da estação Hoxton da Overground Line, que é um trem que percorre uma via elevada, com os passageiros quietinhos fazendo palavras cruzadas ou lendo ou (a maioria) manuseando seus dispositivos móveis – parece que guardam a conversa para os pubs, estes sim sempre ruidosos. O museu é gratuito, mas eles pedem que você (voluntariamente) doe três libras (pedem por escrito, sem pressão). O objetivo do museu é mostrar “como essas salas mudaram com o tempo, como a vida doméstica evoluiu e como as opções de mobiliário e decoração aumentaram com novos materiais, cores e padrões”. Sentado na cafeteria do museu, com vista para o jardim, bebo meu espresso (após a comilança de ontem estou em jejum espiritual até o jantar) e escrevo estas linhas. Ao lado, numa mesa redonda, um grupo de velhinhos que parecem egressos do filme Um estranho no ninho, com as cuidadoras que os trouxeram para passear no museu. What about the museum? pergunta uma cuidadora aos velhinhos, did you enjoy it? Chegam os pratos com fartos sanduíches e saladas e os velhinhos mal tocam. Nos fundos do museu, a evolução dos jardins através do tempo, por exemplo, late Elizabethan, mid-late Georgian, Edwardian e mid-late-Victorian. Os monarcas definem os períodos estéticos. O casarão no passado funcionou como asilo. É outono mas como choveu muito as folhas estão demorando a começar a cair. De dois dias para cá tem feito sol em Londres, o que não impede que em certas ruas você seja fustigado por correntes de vento frio.

East End

A Brick Lane, no East End, merece uma visita de quem quer sair da Londres turística, quadradinha. Divide-se em duas seções: uma indiana (com placas de ruas em letras ocidentais e indianas) e outra alternativa, porra-louca, esta última com certo ar decadente. Em certas paredes, caos de pichações, cartazes, colagens, grafites. Entramos numa ruela de um tipo que se fosse no Rio jamais adentraríamos, para ver uns grafites. No vão de uma porta, dois negros encolhidos, como que se ocultando. Num outro vão, colchão de morador de rua. Nas calçadas sacos de lixo aguardando a coleta pelo lixeiro como eu achava que só existia nos subúrbios cariocas. Uma mulher de ar tresloucado que se desloca agilmente com um andador pede cigarros e dinheiro aos transeuntes. Um jovem de muletas com um copo de papel na mão também esmola. Em certo ponto o aviso: Any person found either possessing, using or distributing any type of drug will be banned from these premises and reported to the police (Qualquer pessoa flagrada portando, usando ou distribuindo qualquer tipo de droga será expulsa destes recintos e denunciada à polícia). A parte indiana é mais asseada. Restaurantes de culinária indiana e de Bangladesh se sucedem e nas portas garçons tentam atrair os passantes para dentro. Uma antiga capela protestante que também já foi uma sinagoga agora funciona como mesquita, com um minarete pós-moderno. Alguns velhos indianos de longas barbas brancas trajam-se como se estivessem na Índia (veja aqui e aqui).

"ônibus de dois andares"

Em pleno rush, pegamos um ônibus de dois andares até Tottenham, em vez do metrô. A rede de metrô é tão abrangente que você se pergunta se os ônibus são realmente necessários. Enquanto o metrô anda lotado, os ônibus trafegam relativamente vazios. Gostamos de nos sentar na primeira fila do andar de cima para observar o movimento. Atentamos para as bicicletas que “costuram” seu caminho em meio aos ônibus e carros. Li em algum desses livros que traduzi que, após os atentados terroristas ao metrô londrino, muita gente, amedrontada, passou a optar pelo transporte de duas rodas, achando-o mais seguro. Só que o efeito foi o inverso do esperado, pois a bicicleta é um transporte mais perigoso, estatisticamente falando, que o metrô. Mesmo com a limitação do número de carros circulando no Centro, mediante a cobrança de uma taxa, como as ruas aqui são estreitas e não existem largas avenidas, o trânsito no rush é bem paulistano. Para nós, turistas, tudo é festa, mas para os moradores é mais lógico escolher o metrô.

Qual o segredo da ale inglesa? Não é refrescante, quase não tem colarinho, não é gelada, não é borbulhante, e algumas têm gosto de certas ervas medicinais vendidas nas feiras livres. Mas na Inglaterra, como os ingleses. À noite, no jantar, provo uma pint de cerveja. Ontem optei por uma stout (a cerveja preta e forte com sabor de café torrado de que a Guiness é a epítome). Francamente, não tinha muita diferença de nossa Caracu. Aliás, se nos transportes públicos os ingleses são silenciosos e circunspetos, no pub, sob os eflúvios alcoólicos, se tornam ruidosos, tagarelas.

5/10 Londres
Todo dia antes de sair à rua consultamos a previsão do tempo para levar os trajes corretos. Nos últimos dias o sol tem brilhado, poupando-nos de carregar o guarda-chuva, mas umas rajadas intermitentes de um vento leste cortante, siberiano, obriga um ser tropical como eu a se proteger com camadas de agasalhos. Afinal foi nos frios escoceses que contraí, em 1986, uma doença pulmonar que me deixou quase um mês febril (em viagem que descrevo aqui).
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Quando você come demais se sente saciado, não consegue mais comer, sente até asco da comida. Hoje, faltando cinco dias para voltar ao Brasil, acordei com uma espécie de saciedade em relação às novidades e uma nostalgia do aconchego do lar. Agora, sentado num Costa Coffee, bebericando uma xícara enorme de café Americano (cansei das porções homeopáticas do espresso), esperando a Mi fazer compras na Primark, começo a me curar desse neuroticismo da alma. Preciso curtir a valer os derradeiros dias dessa rara experiência de desligamento da rotina. Carpe diem, que o amanhã é um mistério.
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"aristocrático bairro de Kensington"

Visitamos The Sambourne Family Home (18 Stafford Terrace; estação de metrô High Street Kensington). Comprei os ingressos no site, antes de partir. A casa, com cinco andares, no hoje aristocrático bairro de Kensington  que no despontar do século XIX ainda era zona rural mas na segunda metade do século foi loteado e passou a ser ocupado por membros da classe média alta (profissionais liberais, artistas)  serviu de residência, de 1875 a 1980, a três gerações de membros da família Sambourne, e se encontra tão bem preservada, com os móveis, quadros (fotogravuras), tapetes, papéis de parede originais que, se o casal Linley e Marion ressuscitasse, se sentiria “em casa” lá. Linley foi um importante cartunista da revista Punch e também adepto da arte fotográfica. Muitos de seus desenhos para a revista foram precedidos de estudos fotográficos.

Perto da casa da família Sambourne fica o Leighton  House Museum, que é a antiga casa e ateliê do artista (pintor e escultor) vitoriano Lord Leighton. Orientalista, tendo viajado várias vezes ao Oriente Médio, colecionador de azulejos islâmicos, Leighton recriou, em todo um aposento da casa, a atmosfera árabe, mas nos outros aposentos as diversas soluções arquitetônicas e decorativas, ricos tapetes, porcelanas, quadros etc. também enchem os olhos (embora eu, neste dia, estivesse saciado de beleza).

Depois atravessamos o Kensington Park sob ventos cortantes & sol aconchegante. Vimos a estátua de Peter Pan. Jantamos no bufê chinês Kowloon em Chinatown, onde por dez libras você se empanturra – um dos poucos lugares onde podemos comer um arroz nessas terras europeias onde predomina a batata.

No ônibus de volta ao hotel uma melancolia de fim de festa. Os ciclos semanais (cinco dias de labuta para dois dias de descanso, com uns feriados eventuais) e anuais — Ano Novo, Carnaval, Semana Santa, aniversário, São João, Yom Kipur, Trem do Samba, Natal  parece que se repetirão ad aeternum, como os ciclos cósmicos hinduístas. Já uma viagem tem começo e fim. Assim como a vida.

6/10 Good bye, London
                                      
                                      “This City now doth, like a garment, wear
                                      The beauty of the morning; silent, bare,
                                      Ships, towers, domes, theatres, and temples lie
                                      Open unto the fields, and to the sky”
                                      William Wordsworth

"and to the sky"

Os museus ingleses distinguem-se por acervos imensuráveis, completíssimos, e textos explicativos exaustivos como se você estivesse lendo as páginas de um livro. Depois que você visita o Victoria & Albert vai se decepcionar com qualquer outro museu de artes decorativas em outras cidades europeias. O Childhood Museum possui um acervo de brinquedos que você jamais imaginaria que fosse possível colecionar, e que possivelmente ninguém mais no mundo colecionou. Hoje revisitamos o Museum of London, que já havíamos visitado em viagem anterior, o mais completo museu dedicado à história de uma cidade que já vimos em nossas andanças. A história da cidade é longa: começa na antiga Londinium da província romana Britannia, prossegue na Idade Média anglo-saxã, depois a cidade perde metade da população na Peste Negra e sofre o Grande Incêndio de 1666 que destrói 13 mil moradias. Mesmo assim, no século XVIII ultrapassa Paris como a maior cidade da Europa e, na era vitoriana, torna-se a capital de um vasto império. A primeira linha de metrô do mundo foi inaugurada em Londres em 1863, a iluminação elétrica das ruas, em 1878, as icônicas cabines telefônicas surgiram em 1926 e os ônibus de dois andares, em 1956.

Na Grande Guerra muitos londrinos jovens perderam a vida, e na Segunda Guerra Mundial a cidade sofreu intensos bombardeios. Após o conflito sua população havia decrescido. Depois vieram os loucos anos sessenta com os Beatles, Rolling Stones e a contracultura, o movimento punk, e hoje a cidade se debruça sobre questões como se deve legalizar a maconha ou que destino dar, na era da telefonia móvel, às suas cabines telefônicas vermelhas tão características, mas que agora andam às moscas, algumas sendo usadas para urinar. O museu exibe uma abundância de objetos: artefatos da era romana escavados por arqueólogos ou achados por acaso em obras; armas e cotas de malha medievais; reconstituição de lojas (tabacaria, papelaria, farmácia etc.) vitorianas; uma antiga prisão com inscrições de prisioneiros nas paredes, discos dos Beatles. Aliás, ao ver A Hard Day’s Night exposto, ocorreu-me oferecer ao museu uma camisa psicodélica que minha tia me trouxe de Carnaby Street em torno de 1968 e que raras vezes tive a audácia de trajar, mas que guardo até hoje como recordação de velhos tempos.

Depois fizemos o Crime and Punishment London Walk (quintas-feiras, ponto de encontro: saída 2 da estação St.Paul’s), que abordou a história dos crimes, leis, ordálios, torturas, julgamentos e punições na Inglaterra. O guia, um sessentão carequinha e com uma barbicha, cuja fisionomia lembrava o cartunista Jaguar, com uma espécie de humor negro e sorrisos escarninhos, abordou temas escabrosos da história de Londres como técnicas de execução sádicas, penas desumanas, ordálios por fogo e água em que a inocência ou culpa do réu dependia de sinais divinos. Em certo período, o clero tinha direito a julgamentos mais lenientes por cortes eclesiásticas, com penas mais brandas. Para provar que pertencia ao clero você tinha de ler o Salmo 51 em latim. Bandidos decoravam esse salmo para se valerem do benefício, mas eram desmascarados quando, mesmo recebendo o texto de cabeça para baixo, punham-se a “lê-lo”.

Quando as faculdades de medicina passaram a praticar a dissecação, faltaram cadáveres. Pessoas inescrupulosas começaram a violar sepulturas de recém-enterrados e retirar os corpos, deixando apenas roupas e joias, para não caracterizar o furto, já que a mera remoção do corpo não estava prevista no código penal. Foram apelidados de Ressurectioners, Ressuscitadores, porque quando se ia exumar o corpo e só se encontravam os objetos do morto, parecia que tinha dado uma de Jesus e ressuscitado.

 "trevas noturnas"

Em seguida rodamos pela área da Torre de Londres, relíquia medieval encravada na cidade moderna. Sob um frio glacial e trevas noturnas ainda deu para ver a Abadia de Westminster, e jantamos o melhor hambúrguer do mundo no nosso pub preferido do centro londrino: o Sussex.

PARTE IV: QUEM NÃO VIU LISBOA NÃO VIU COISA BOA

7/10 Londres-Lisboa


"Voltarei ao Castelo de São Jorge, no alto de uma colina"

Às vezes tenho um pesadelo de que estou perdido em alguma periferia do Rio ou São Paulo e não consigo achar nenhuma condução ou o caminho que me leve para casa, ou outros sonhos com situações kafkianas análogas. Eu pressupunha que o voo para Lisboa partiria de Heathrow, o aeroporto principal de Londres, mas ontem à noite constatei que partiria de Gatewich. Eu havia carregado os nossos Oysters, o cartão de transporte urbano, para a viagem de metrô até Heathrow (£10) e fui liquidando as poucas libras de que ainda dispunha. Acontece que o Gatewich Express, o trem para esse aeroporto, custa £20, e tivemos que top up (completar o valor de) nossos cartões. Precisei usar o Visa. Nada demais nisso. Só que nosso cartão de débito já havia encrencado em Paris e, no final da viagem anterior, nossos cartões de crédito também começaram a ser recusados. Se o VISA falhasse eu me veria em situação semelhante à dos meus piores pesadelos, preso em Londres, sem conseguir pegar meu avião. Mas nada disso aconteceu.

Se eu tivesse desencarnado viraria alma penada porque, após quase um mês distante, não consegui superar o apego às pequenas rotinas e objetos do dia-a-dia carioca: ler na rede, comer aipim, pegar um sol na orla. Morto de sono e envolvo num exagero de agasalhos – de manhãzinha, ao sair do hotel, temi me gripar no frio londrino que ontem atingiu seu mínimo desde que chegamos e que, se caísse mais um grau, desafiaria o poder de proteção de meus muitos casacos – escrevo essas mal traçadas linhas onde procuro registrar o que é uma experiência de viagem longa, num continente distante, aos 65 anos de idade.

A Lisboa faço agora uma viagem sentimental. Estive lá pela primeira vez em 1966 na excursão que ganhei de presente de barmitzva e em que fui acompanhado pelo irmão Roberto. Naquela época também escrevi um diário, muito factual, sem abrir a alma, como neste. Nos dias 22 e 23 de fevereiro de 1966, escrevi:

Passamos dois dias em Lisboa, cidade bonita, limpa e bem tratada. Vimos o Monastério de São Jerônimo [sic], a Torre de Belém, o monumento ao Infante Dom Henrique e aos descobridores [que nesta viagem de 2016 estava em restauração, envolto em andaimes], o museu de Coches, uma vista panorâmica da cidade e a Estufa Fria.
Fomos, também, às praias de Cascais, onde vimos a boca do Inferno, cavidade na rocha onde entra a água do mar fazendo grande barulho e pulando a grande altura, e Estoril, cujo famoso cassino vimos.
Portugal estava comemorando o Carnaval e no rádio só se ouvia música brasileira.
Vimos também os Palácios em Sintra e Queluz.
NB Ellis Regina estava cantando em Estoril. [Aos 14 anos até que eu escrevia direitinho, por que nenhum adulto da família percebeu que eu tinha vocação para jornalismo ou letras e me orientou nesse sentido, assim como eu sempre orientei meu filho? Por que me deixaram tão desorientado?]

Quem não viu Lisboa não viu coisa boa

Quem não viu Lisboa não viu coisa boa: lembro ter visto esta frase no cais do porto em 1966. Em 1972, minha viagem de hippie à Europa começou por Lisboa. Desde então, nunca mais retornei à capital lusitana. Voltarei ao Castelo de São Jorge, no alto de uma colina que subi a pé, depois de ouvir de uma velha num bar onde bebi um refrigerante (“fresco ou ao natural?”, perguntou-me) o conselho de que tomasse cuidado com os “gatunos, aqui há muita gatunagem”. Lá um grupo de garotas lisboetas em uniforme escolar ficou me dando ponto mas eu era tímido demais para abordá-las. Voltarei ao Rossio, à Torre de Belém, ao Mosteiro dos Jerónimos. Voltarei a achar “engraçado” que em Portugal ônibus é autocarro, bonde é eléctrico, trem é comboio e o ponto final dos ônibus é a zona. Desta vez, se alguma garota de língua inglesa me perguntar no Rossio (como aconteceu então) como se vai a um lugar x, não mais mandarei “take the metropolitan”, porque agora sei que metrô – que em 1972 sequer existia no Brasil, a ponto de Juca Chaves, em sua canção Paris Tropical, zoar o Jorge Ben dizendo que “eu vou de metrô, você vai de trem” – em inglês americano é subway e em inglês britânico é underground (subway na Grã-Bretanha é uma passagem subterrânea para pedestres).

O meu “neuroticismo” do dia 5 talvez tenha sido quimicamente induzido por um Naldecon (antigripal) que tomei por engano pensando ser vitamina C, acabo de constatar.

A primeira impressão ao desembarcar em Lisboa, que fiz questão de exprimir ao policial da migração que examinou meu passaporte: enfim, depois de uma sucessão de italiano, alemão, francês, inglês voltamos a ouvir o nosso português. Já não preciso mais falar o italiano tatibitate aprendido mal e porcamente no Duolingo; meu francês de frases previamente ensaiadas na cabeça mas correndo o risco de não entender a resposta do interlocutor; o alemão que me custou décadas de estudo mas, mesmo assim, consciente de estar errando uma ou outra declinação, porque só quem tem o alemão como língua materna consegue dominar sua mecânica. O inglês até que falo direitinho, mas sei que com um sotaque que ofende ao apreciador de um inglês shakesperiano. De volta ao português.

O aeroporto é servido por uma linha de metrô bem novinha. O hotel, Ibis Lisboa Liberdade, fica pertinho da estação Rato e, como todo o hotel Ibis, é confortavelzinho, sem cama rangendo ou com cheiro de mofo como no bread and breakfast londrino. No metrô vimos uma mulher toda de preto, com um pano preto cobrindo a cabeça, como que saída de uma obra de Alexandre Herculano, mas no geral o centro de Lisboa tem o aspecto de uma cidade europeia, de primeiro mundo, com amplas praças e avenidas, bom comércio, movimento de turistas. As malditas pedras portuguesas que no Rio vivem se soltando e fazem com que nossas calçadas sejam todas zoneadas aqui também são onipresentes, em tamanhos variáveis (no Rio são todas do mesmo tamanho), em alguns trechos pedras maiores, em outros, menores, mas também se soltam e têm falhas, exceto nas grandes praças e avenidas do Centro onde são impecavelmente conservadas. Fachadas de azulejos são comuns e constituem uma atração.

Na Pastelaria e Salão de Chá Suíço no Rossio (turístico demais, não recomendo) um garçom brasileiro contou que estuda enologia cá em Portugal e pretende abrir um negócio de restaurante futuramente no Brasil. Belo projeto de vida.

Amanhã vamos visitar a parte antiga da cidade, Bairro Alto, Alfama.

8/10 Lisboa
“Digo: 
«Lisboa» 
Quando atravesso — vinda do sul — o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas —
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade — Digo para ver

Sophia de Mello Breyner Andresen, poema Lisboa

"Em seu corpo amontoado de colinas"

Existe a Lisboa europeia, “moderna” das grandes avenidas e praças, Avenida da Liberdade, Rossio, Praça da Figueira, Praça do Comércio, as avenidas à margem do Tejo, a ponte sobre o Tejo, e existe a Lisboa antiga, as ruas, becos, vielas, escadinhas e profusão de sacadas e azulejos de Alfama, Mouraria, Cidade Alta. Você vê uma escadinha e lembra do Morro da Conceição no Rio de Janeiro. Vê uma vista de vegetação e telhados e lembra de Santa Teresa. Vê uma ruela estreita com calçamento de pedra e lembra do Outeiro da Glória. Vê um prédio velho com paredes descascadas e lembra da Rua Cândido Mendes. Portugal é o país europeu onde você, brasileiro, se sente mais em casa. Aqui estão as nossas raízes. As porções generosas nos restaurantes, roupas penduradas em varais nas janelas, as calçadas de pedras portuguesas, algumas soltas, criando buracos, o pão de Deus que é nosso pão doce, a simpatia com o estrangeiro, as sacadas com grades de ferro forjado, os azulejos, os pastéis de bacalhau que são nossos bolinhos de bacalhau, o quindim, brigadeiro (que aqui é doce de confeitaria enquanto no Brasil é doce de festa de aniversário), um carro estacionado na calçada na cidade velha, a espera longa no ponto pela condução, tudo isso aqui em Lisboa lembra o nosso Brasil! Afinal, Portugal, na designação de David Nasser, é nosso avozinho.

Castelo de São Jorge, remanescente da antiga cidadela medieval

Começamos nosso passeio lisboeta subindo as ruelas que levam ao Castelo de São Jorge, remanescente da antiga cidadela medieval, no alto de uma colina, com vista panorâmica da cidade. Os gatunos para os quais uma velha me alertou na viagem de 72 deram lugar a bandos de turistas que agora invadem a capital portuguesa. Nas partes mais altas das muralhas ventos sinistros fizeram com que fôssemos acometidos de um surto de vertigem que nos fez entender o pleno sentido do filme Vertigo de Hitchcock. Depois percorremos as ruelas, escadarias e ladeiras de Alfama e Mouraria, bairros antigos da cidade a que já me referi ao citar as semelhanças com nosso Rio Antigo. Em seguida, o eléctrico (bonde) 15, linha Praça Figueira-Algés, nos levou ao bairro de Belém, onde ficam a Torre de Belém, o Marco dos Descobrimentos – no local de onde partiram as ousadas expedições lusitanas, cantadas por Camões (“As armas e os barões assinalados, / Que da ocidental praia Lusitana, / Por mares nunca de antes navegados, / Passaram ainda além da Taprobana, / Em perigos e guerras esforçados, / Mais do que prometia a força humana, / E entre gente remota edificaram / Novo Reino, que tanto sublimaram”), que desbravaram os oceanos do mundo – e o Mosteiro dos Jerónimos, imponente construção em estilo manuelino, que é o gótico português, representado no Rio de Janeiro pelo Real Gabinete Português de Leitura.


"o eléctrico (bonde) 15, linha Praça Figueira-Algés, nos levou ao bairro de Belém, onde ficam a Torre de Belém..."


“Partimo-nos assim do santo templo
Que nas praias do mar está assentado,
Que o nome tem da terra, para exemplo,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.”
(Camões, Os Lusíadas, Canto 4 – 87)

Em Belém (o “santo templo”) fica a fábrica de pastéis de Belém, com fila na porta, que desde 1837 detém o segredo do preparo desse doce criado pelos monges do mosteiro dos Jerónimos, cuja receita foi comprada por um empresário e cujo nome é patenteado, como você pode ler na Wikipedia. Imitações chamam-se “pastéis de nata”. Os “pastéis”, que saem quentinhos do forno, têm uma massa crocante e mingauzinho de recheio e comem-se polvilhados de canela e açúcar.

À noite deliciamo-nos com lauto jantar, eu, a maior posta de bacalhau de minha vida, que no Rio me custaria os olhos da cara, e Mi, a maior porção de polvo de sua vida, a impressão era de um polvo inteiro. Alguns restaurantes exibem na vitrine aquários com lagostas imensas, monstruosas e os preços do quilo em euros, na casa dos 130, 150, 180 (dependendo do tipo). Comida para nababos.

"bonde é eléctrico"

Sobre a diferença entre o português do Brasil e de Portugal escrevi certa vez uma crônica que você pode ler no meu livro Português sem mistério. Já contei neste querido diário a graça que achei, em 1972, das denominações lusitanas tão diferentes para coisas como ônibus, bonde, trem (respectivamente, autocarro, eléctrico e comboio). Em viagem à Alemanha em 1999, ao observar uma família portuguesa num trem, aprendi outra diferença: camisola em terras lusas é camiseta. Desta vez aumentei meu repertório. A quem interessar, aqui vai (senão salte ao próximo parágrafo): peão é pedestre, pastelaria é confeitaria, código secreto é senha (tem sua lógica), carteirista é batedor de carteiras, multibanco é cartão bancário, escada mecânica é escada rolante, pão de Deus é pão doce, zona pedonal é área de pedestres, pequeno almoço é café da manhã (influência do petit déjeuner francês?), e o metrô aqui é metro, sem o circunflexo, porque é paroxítono, com “e” aberto (diz-se métro).

9/10 Lisboa-tentativa de voltar ao Rio

Com 6 euros você carrega seu bilhete recarregável dos Transportes da Região de Lisboa para usar o metro, autocarros e eléctrico por 24 horas. Prático e otimiza os deslocamentos — você não anda a pé desnecessariamente para economizar transporte. Ao pegarmos o metrô para a região central, protagonizamos duas trapalhadas, inaugurando a era da piada de brasileiro. Primeiro, diante de duas plataformas, uma marcada Odivelas e outra Cais Terminal, procuramos feito loucos no mapinha do metrô onde ficava esse tal Cais Terminal (existe o Cais do Sodré). Acabamos descobrindo que "cais terminal" é a plataforma de desembarque da estação terminal. Ora pois, pois. Depois, chegada a composição, tivemos de correr feito maratonistas para pegá-la porque se tratava de um “comboio de três carruagens”, ou seja, uma composição mais curta, com apenas três vagões, e estávamos exatamente na parte errada da plataforma.

"A simpatia dos lisboetas encanta"

Subimos para o Bairro Alto, numa das várias colinas que compõem o relevo ondulante da cidade, dando-lhe seu charme peculiar. A simpatia dos lisboetas encanta, no supermercado, no restaurante, na fábrica de pastéis de Belém. Na Sacolinha, uma pastelaria e padaria no Largo do Chiado, onde fica a estátua em tamanho natural de Fernando Pessoa, paramos para tomar um “café de galão”. Ao aparecer na TV uma notícia de que o governo pretendia limitar o salário mínimo a 550 euros, quando um dos garçons comentou que era muito pouco e eu retruquei que no Brasil é ainda menor, eis que ele perguntou para logo dar a resposta: “Sabe por que Portugal está melhor do que o Brasil? Porque nós corremos com os comunistas. Salazar correu com os comunistas.”

No meio de nosso passeio, de repente estávamos no lugar certo, na hora certa: no ponto do bondinho, que lembra o de Santa Teresa (a cor amarela é a mesma), no momento que este passou, milagrosamente meio vazio, porque com a onda de turistas aqui em Lisboa os bondinhos vivem lotados. Desde o dia anterior tentávamos andar na linha 12 do eléctrico que percorre o Bairro Alto e Alfama, mas estava sempre cheio, às vezes nem parava no ponto. Mas aquele não estava, parou no ponto direitinho e partimos contentes em nosso passeio.

Depois, após breve percurso de metrô, percorremos a orla, que parece recentemente reurbanizada, do Cais do Sodré à imponente Praça do Comércio, praça amplíssima, sem árvores, estátua ao centro, bela arquitetura circundante. Lá um traficante nos abordou em inglês: coke, hashish, marijuana. Chegou com 44 anos de atraso: tivesse me abordado na viagem de 72 eu aceitaria de bom grado. Mas agora mudei de hábitos.

Ao andarmos calmamente de volta ao hotel para pegarmos nossas malas, guardadas na portaria, porque já havíamos feito checkout, deparamos com uma preciosidade: num “boteco” que serve a ginjinha, um licor vermelho cor de cereja de uma fruta semelhante a uma azeitona chamada ginja, que pode ser bebido puro ou com duas ou três frutinhas, deparamos com magníficos azulejos de oitenta anos atrás (segundo o dono do bar) naquela linda cor azul cobalto própria dos azulejos coloniais portugueses como aqueles que vemos na Igreja da Glória no Rio de Janeiro – essa preciosidade num simples bar! Contou-nos o dono do bar que naquela época ainda se usava pigmento de lápis-lazúli, hoje em desuso já que essa rocha custa mas caro que diamante.


"deparamos com magníficos azulejos de oitenta anos atrás"

Apanhamos as bagagens, uma mochila, uma mala de rodinhas e duas Kiplings, pegamos a linha amarela do metrô e em Saldanha, onde baldeamos para a linha vermelha, ainda tive tempo de copiar a frase de Almada Negreiros sobre o mister do escritor que serve de epígrafe na abertura deste diário. Chegamos ao aeroporto com toda a antecedência do mundo, como manda o figurino, fomos consultar o quadro de voos para saber onde seria o check-in. Depois de despachadas as malas nós nos sentaríamos com toda a calma e eu acabaria de escrever este diário que acabei só acabando de escrever no dia seguinte, morto de sono, no avião. Para nossa surpresa e horror, o voo estava CANCELADO.

Voo cancelado. A gente lê ou ouve falar que acontece ocasionalmente, mas só com os outros. Jamais ocorreria comigo e eu não tinha a menor ideia de como proceder. Pânico. Sabe aquele samba “acabou a comida, acabou a bebida, acabou a canja”? Pois todos os meus euros haviam praticamente acabado e meus cartões de crédito só estavam ativados para uso no exterior até o dia seguinte. Sem um tostão em Lisboa.

A tragédia que temi não se consumou, a companhia aérea pagou-nos estadia noturna num luxuoso Marriot. Uma vez na vida tivemos a chance de nos hospedarmos num hotel cinco estrelas mas estávamos cansados demais para curtir. Os colegas do voo cancelado, quase todos brasileiros, vociferavam, ameaçavam processar a companhia, agrediam verbalmente os funcionários da TAP, baixaria generalizada.


"Ao andarmos calmamente de volta ao hotel"

10/10 Lisboa-Rio
Partimos na manhã seguinte, 10 de outubro de 2016, de volta ao lar, doce lar, após quase um mês sem nenhuma notícia de nosso país tropical. Neste dia ocorreu em Copacabana violento confronto entre traficantes de uma favela supostamente pacificada e a polícia. Estas notícias não chegam ao exterior. 

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