HOMENAGEM A HELGA FLATAUER, SOBRENOME DE SOLTEIRA PADERSTEIN

Der deutshe Text des Vortrags von Helga Flatauer über ihr Leben können Sie hier lesen. 

Em 16 de fevereiro de 1921 comemoramos o centenário de nascimento de Helga Flatauer (sobrenome de solteira Paderstein), que infelizmente não está mais conosco, já que faleceu em 2011 aos noventa anos de idade. Helga foi a introdutora no Brasil do programa “Alcançar a Recuperação”, no Hospital Albert Einstein, de apoio a mulheres mastectomizadas, baseado no “Reach to Recovery” da American Cancer Society, através de voluntárias que também passaram pela mastectomia. A seguir uma palestra de Helga proferida em alemão em Vockenhausen em 4 de abril de 2008, traduzida por seu sobrinho, o editor deste blog. O texto original alemão da palestra pode ser lido aqui

Antiga árvore genealógica da família doada por Helga Flatauer ao Museu Judaico de Frankfurt

 A PALESTRA

Hoje estou diante de vocês, moradores de Eppstein e Vockenhausen. Não me será difícil falar com vocês sobre minhas lembranças. Lembranças de uma longa vida.

Eu retiro essas lembranças de antigos diários e centenas de cartas que meu pai e minha mãe escreveram durante a emigração.

Vamos começar pela primeira parte de minha história. Muito tempo antes de eu ter nascido. Histórias que minha mãe contava. A segunda parte conta sobre a época sob o regime nazista e nossa emigração para o Brasil.

Sobre meu retorno à Alemanha talvez possa falar também.

No ano de 1919, a volta do meu pai da guerra. Condecorado com a Cruz de Ferro 1a Classe. Retornou com a consciência orgulhosa de ter servido sua pátria. 96 mil soldados judeus participaram da guerra. Dos 550 mil judeus que viviam então na Alemanha, 80 mil lutaram no front. E 12 mil soldados judeus tombaram na guerra.

Lembro-me de fotografias do front em um papel um tanto avermelhado e desbotado. Os soldados pareciam bem contentes. Perder a guerra, nisto não se pensava.

 

Wilhelm Paderstein durante a guerra


A família do meu pai vivia em Paderborn, Vestfália. Meu avô, Emil Paderstein, um brilhante homem de negócios. Foi o fundador da cervejaria Dortmunder Union e como banqueiro fundou o Deutsche Bank em Paderborn. Era um homem bem abastado. 

Casou-se com Frederike Grünebaum. Um linda e jovem mulher. Vinte anos mais jovem que seu marido. Tiveram cinco filhos.

 

Wilhelm Paderstein e seus pais

Wilhelm (Guilherme), o filho mais novo dentre cinco crianças, queria se tornar fazendeiro. Como foi parar em Hof Häusel não sei dizer. Seu pai financiou a compra. Em uma carta dirigida ao pai Wilhelm expressou seu agradecimento ao pai com a promessa de cultivar a fazenda e administrar o dinheiro da forma mais conscienciosa.

Sua noiva, Grete Gerson, uma moça alegre e divertida de Berlim, nascida em Dortmund, viajou para Eppstein, à margem do Taunus, a fim de visitar seu noivo. O casamento em Berlim estava planejado.

Durante sua visita Gretchen foi surpreendida pela ocupação das tropas francesas. Uma viagem de volta a Berlim não era possível. Mas um telegrama dos pais, preocupados com a integridade moral da filha, chegou em Hof Häusel com as seguintes palavras:

“Onde dorme Gretchen?”

“Na cama”, foi a resposta, curta e concisa para aquela época.

 

Margarethe (Margarida) Gerson (direita - mais tarde, Paderstein) com colegas de escola


O casamento foi selado em 19 de novembro de 1919 em Niederjosbach, ou Oberjosbach, no cartório. E o casal foi morar na antiga casa, uma antiga queijaria, como consta dos documentos. 

Grandes castanheiras atrás da casa davam no verão sua sombra e mais tarde seguraram os balanços das duas menininhas em seus braços. 


Hof Häusel, aquarela de Charlton Smith de junho de 1966


Uma nova casa residencial foi planejada. Grande e espaçosa. O Dr. Voggenberger [Fritz Voggenberger, 1884-1924], um arquiteto de Frankfurt, fez a planta. Até hoje o telhado repousa acima das copas das árvores. O Dr. Voggenberger morreu muito jovem. Lembro-me ainda do obituário e de sua fotografia num jornal. Era uma casa fora do comum. Com certeza bem moderna para aquela época.

Em 16 de fevereiro de 1921 nasceu Helgali [diminutivo de Helga] em Frankfurt no hospital Marienkrankenhaus. Era pleno inverno. Um carro foi chamado de Frankfurt e levou horas até enfim chegar. Minha mãe precisou descer a rua íngreme na neve e gelo. E rezava ao bom Deus que a poupasse de dores no caminho para baixo.

Uma menininha nasceu. Era para ter sido um menino para portar o orgulhoso sobrenome Paderstein. A decepção do meu pai foi grande. Como consolo a criança foi chamada de Helga. Um nome alemão. Loura de olhos azuis. Eu cumpri minha promessa.

Em agosto de 1921 chegou em Hof Häusel um homem jovem para ajudar na colheita. Seu nome era Ewald Just. E com entusiasmo e paixão juvenil apaixonou-se pela menininha. Na despedida escreveu um poema pedindo que fosse entregue para Helga no seu 14o aniversário, em 1935. Também seu poema me acompanhou de volta para cá.[1] E vou lê-lo no final para vocês, como um documento, ao final de minha narração.

O poema mostra para mim, e talvez também para vocês, que não se pode alterar seu destino. Ao contrário, que o ser humano, apesar de todos os bons desejos e expectativas, deve seguir seu rumo na vida prescrito. Raramente pensamos nisto!

E lentamente transcorreram os anos.

 


Em 25 de janeiro de 1926 nasceu minha irmãzinha [Anita, mãe do editor deste blog]. Nunca esquecerei esse dia. De manhã cedo, ao que me pareceu, dormindo na cama da minha mãe, acordei. Era a voz da Senhorita Änne, a babá. Helgali, disse para mim, você ganhou uma irmãzinha. Não consegui imaginar como seria. Com um pequeno buquê de violetas na mão, viajamos à tarde de trem para Frankfurt. Em um pijama cor de salmão forrado de penas de cisne brancas, minha mãe estava deitada numa grande cama. O berço com minha irmãzinha ao seu lado. Minha mãe me parecia então uma mulher linda.

Então veio o primeiro dia de escola em Vockenhausen. Valentes marchavam as perninhas por gelo e neve. A lancheira cheia de delícias ficou pendurada muitos anos, como consolo, sobre a porta do meu quarto de criança.

Mas aí chegou o inverno e um destino ruim me surpreendeu. Estava com sete anos. No galinheiro e seu laguinho que ainda não havia congelado por completo, os pezinhos afundaram na água gélida. A camada de gelo se rompeu em mil fragmentos e as galinhas e gansos ficaram observando. O medo de uma bronca foi grande, e os pezinhos ficaram frios e molhados. O que eu devia contar em casa?

Um resfriado transformou-se em infecção dos pulmões. E ela quase me custou minha pequena vida. A IG Farben Hoechst havia naquela época descoberto um medicamento novo. Sulfa era seu nome. Testaram em mim. E salvou-me a vida. Aos poucos fui sarando.

A criança precisava se restabelecer. Na primavera viajamos até Lugano, ficando em um hotel à beira-mar. Papai comprou uma vara de pescar. Algum peixe morderia a isca? Não sei. Escondi a vara nuns arbustos no parque. No dia seguinte, havia desaparecido.

Depois que voltei para casa, não deveria mais ir à escola em Vockenhausen. Professoras particulares vieram dar aula em nossa casa. Deveriam substituir nossa escola. Na minha cabecinha de criança, a escola era uma praga. Em vão eu pelejava com a tabuada de multiplicação, francês e ortografia.

Lá fora os cavalos aguardavam. O estábulo com o adorável cheiro. O feno nas pastagens precisava ser virado. Os gatos esperavam por seu leite. As galinhas cacarejavam e punham um ovo. O pavão balançava sua cauda de penas coloridas. Sua fêmea, em seu vestido de penas marrons sem graça, postava-se admirada ao lado. Medo eu tinha dos gansos que, como nossos inimigos, reconheciam nossas pernas de criança. Tudo isto e ainda muito mais era minha vida no sítio.

Porcos eram abatidos. O triste guinchar ante a morte certa. Saíamos correndo, o mais rápido possível. E do porco guinchante surgiam presunto e salsichas. Schlachtplatte.[2] Um prato suculento. O pão era assado. Sobre duas cadeiras na cozinha repousava a gamela. Levedura, farinha, sal e água eram misturados com a mão. E a fragrância de pão recém-assado invadia a casa.

As prímulas amarelas, tantas. As mãos infantis eram pequenas demais para conterem o buquê. Primavera, verão, outono e inverno. Cada estação do ano tinha sua história. Cerejas grossas no alto das árvores. Suco de maçã em garrafas com etiquetas coloridas. Grandes barris e sidra, nossa bebida diária.

Andar de trenó na neve. O boneco de neve e a descida de trenó pela montanha. Coque preto para calefação. O aquecedor menor para dias frescos no outono. O aquecedor maior no inverno. Uma vez por semana tomávamos banho. Era uma algazarra, um divertimento. Todos na mesma água. Fomos educadas de forma frugal.

E aí chegava o Natal. A expectativa era tamanha. Nenhum buraco de fechadura era pequeno demais para impedir que espiássemos, com um olho, a iminente felicidade. Mas no dia 9 de dezembro Papai Noel já surgia à nossa frente.[3] Com sua barba branca e voz profunda. Ele sabia todas as nossas mentirinhas, travessuras, e seu saco era tão grande. Prometíamos nos comportarmos pelo resto da vida. E aí ele pegava o saco e sacudia. Os presentes, nossos desejos silenciosos, jaziam no chão.

Depois se assava. Kringel [tipo de pretzel], biscoitos, bolo de mel. Ao final do dia, quando já estava escuro, vinha o anjo do Natal com sua veste branca. Os biscoitos no peitoril da janela da cozinha ele deveria provar. Bem atrás no jardim em um pinheiro ardia uma vela. Iluminava seu caminho.

E finalmente, em 24 de dezembro, véspera de Natal. Mal conseguíamos aguardar! Aqui no saguão, onde estou hoje, uma grande mesa coberta com todos os presentes. No salão o piano e a árvore de Natal. Ouço a voz de vovó Lieschen. Uma bela voz, noite feliz, noite de amor. Oh Tannenbaum, oh Tannenbaum, wie grün sind deine Blätter.[4] Todos cantávamos juntos. Os presentes eram abertos. A casa estava toda perfumada. Todos nós estávamos contentes. Frieda, a cozinheira, Hanna, a copeira, que mais tarde se casou na igreja católica em Eppstein e acompanhou seu marido aos Estados Unidos. Mina, a arrumadeira, com suas pernas um tanto tortas. Ehlert, o administrador, com seus filhinhos. E claro que os cachorros. Ninguém era esquecido. Estávamos despreocupados e satisfeitos. A vida para nós era bela, e nada pressentíamos de nosso destino.

O pacote de frutas do sul da Vovó Lieschen para o Natal não faltava. Laranjas, bananas. Maçãs da Califórnia com bochechas vermelhas. Papai via as frutas de forma crítica e comentava: comam suas pêras e maçãs alemãs!

Bons modos, tão importantes na vida, nos eram ensinados. Não comer com a boca cheia, não apoiar os cotovelos na mesa. Não deixar comida no prato. Tínhamos um papai rigoroso e uma mamãe afetuosa.

Cavalgar e o grupo de equitação em Wiesbaden com Tio Heini na ponta. Quantas horas, as mais felizes de minha vida, pertenciam a esses momentos. Petrella, meu cavalo de nosso estábulo com a estrela branca na testa. Meu grande amor. Lágrimas do primeiro amor derramei ao seu pescoço. Será que entendia minhas preocupações? Tanta coisa eu poderia ainda lhes contar daquela época.

Em pensamentos estou sentada no meu quarto. Junto à minha escrivaninha envernizada de branco. As paredes revestidas com papel de parede azul-claro. Em uma prateleira cactos de todos os tamanhos e formas. Quando todos dormiam, na calada da noite eu cortava um botão de rosa no jardim. O orvalho jazia sobre suas folhas. E à luz de vela meu diário era preenchido página após página. Com sonhos infantis e dores. A vida era tão importante naquele tempo.

Mas aos poucos, bem ao longe, nuvens escuras se formavam. Hof Häusel continuava à luz do sol. O portão de ferro forjado, a entrada para a casa, trazia a data 1934 e as iniciais W P, Wilhelm Paderstein. E nossa vida transcorria tranquila.

 

Haras Hof Häusel

 

Cavalgar no grupo de equitação em Wiesbaden era “funz”. A palavra para fabuloso na nossa linguagem de então. O ponto alto era o corso no outono em Wiesbaden na Wilhelmstraße sob o júbilo das massas e sob as janelas ornadas com as bandeiras da suástica vermelhas. Eu era autorizada a cavalgar na ponta sobre um vistoso cavalo branco. Acompanhada à direita e à esquerda por dois companheiros. As pessoas lançavam buquês de flores sobre nós. Na cabeça uma grinalda com ásteres lilases e amarelos. A cor de nosso clube de equitação. Um dia bem feliz na minha vida. Mas só por um breve tempo.

Num ensolarado dia de outono, tocou a campainha da casa. Tio Heini, meu grande amor, queria falar conosco. Havia sido pressionado. Uma judia não tinha mais lugar na garupa de seus cavalos. O que significou para mim o fim do mundo.

E aí vieram as leis. Arianos não podiam mais trabalhar para judeus. Palavras como Rassenschande[5]  passaram a fazer parte do idioma alemão.

Começamos a nos ocupar com uma imigração. Israel, Ragusa, Suíça, Côte d'Azur. Nenhum destes lugares se concretizou. Permanecemos em Hof Häusel. Íamos pescar trutas no riacho. Trutas, que abocanhavam, gulosas, as minhocas no anzol. De noite iam parar na caçarola. Uma refeição deliciosa.

Amigos vinham nos visitar. Passava-se manteiga no pão, consumido com cidra num canto tranquilo. Hoje vejo a fuga da verdade que ali existia. “Não queríamos acreditar em nada daquilo!” Emigrar? Mas para onde?

Kurt Meyer, um grande amigo meu, que gostava muito de mim, cujo pai era proprietário da cervejaria Sonnenbrauerei em Mainz, deixou a Alemanha na calada da noite. E salvou sua vida indo para a Suécia. Seu pai mais tarde se matou. Ernst Philipstal emigrou para a África. Fazíamos planos. Queríamos casar. Não deu em nada. Meu amor não era grande o suficiente e eu ainda era nova demais. O Sr. e Sra. Kass, nossos amigos de longa data de Frankfurt, emigraram para a Inglaterra. Também Morels. Werner Mankiewitz, um primo do meu pai. Nós o encontramos mais tarde em Buenos Aires. Mary e Änne, as amigas de minha mãe. Tiveram sorte e conseguiram um visto para os Estados Unidos.

À nossa volta estava ficando vazio e quieto. Ehlert, nosso administrador com seus filhinhos e sua mulher, deixaram-nos e choraram. Mina a arrumadeira, Hannah a cozinheira, também elas nos deixaram. Só o Dr. Fernkorn, nosso preceptor, pôde ficar. Para nossa sorte tinha uma mãe judia. Seu cargo de professor havia perdido. Sua nova missão era preparar a nós, crianças, para a vida.

 

Estados Unidos (1929)

Outra vez veio uma nova lei. Cavalos judeus não podiam mais correr nos hipódromos alemães. Não eram suficientemente arianos. Em uma viagem a Berlim em visita à Vovó Lieschen, não achamos nenhum restaurante e nenhum hotel, ainda que fosse para tomar um copo d'água. Em todas as entradas e portas um aviso: judeus não são bem-vindos.

Sim, a necessidade de uma emigração se tornava premente. Tio Walter e Tia Eu de Königstein preparavam seus papéis para o Brasil. Ali trabalhava seu filho numa grande indústria química. Dava para comprar terras lá. Candidatar-se a ir para a selva plantar café em Rolândia. A selva aguardava os ingênuos emigrantes. Após muitos anos de dificuldades inacreditáveis na vida diária, Rolândia havia se tornado um Eldorado.

O Brasil tornou-se nossa meta. Quase todas as fronteiras em 1938 estavam fechadas. Brasil, país cuja língua desconhecíamos. Começamos a ter aulas de português. Mal se sabia naquela época onde ficava a América do Sul!

As tarefas domésticas sem empregada nem ajuda na enorme casa tornaram-se parte de minha vida diária. Aprendi a fazer as camas. Aprendi a cozinhar, passar a ferro e costurar. Hof Häusel foi até o fim o refúgio de muitas pessoas. Todas com o mesmo objetivo: escapar do inferno de nossa terra natal.

Os cavalos foram vendidos. Menos um problema. Reichsfluchtsteuer [imposto sobre saída de capitais], todo tipo de taxações sobre judeus. Centenas de milhares de marcos fluíram para o caixa de nosso perseguidor. E enfim a casa também foi vendida. Em 8 de setembro, aniversário de minha mãe, o cônsul brasileiro entregou-nos o visto para o Brasil. Era um visto para a família “católica” Paderstein. E hoje aqui sou grata ao pastor de Brehmtal, que sem hesitar com seu carimbo nos documentos salvou nossas vidas.

Era outono. E na manhãzinha de 30 de setembro de 1938 os caminhões de mudanças estavam diante da porta. Com um grande buquê de flores de outono do jardim nos braços de minha mãe, meus pais deixaram a segurança de uma vida. Vovó Lieschen havia vindo de Berlim. Como pôde aguentar tudo aquilo? O Dr. Fernkorn, junto comigo, Helga, seu grande amor, virou a chave da porta da casa pela última vez na fechadura. Deixamos a casa e descemos o caminho pelo bosque até Eppstein. Ali, onde uma curva no caminho estreito ia dar no bosque, ficaram parados uma última vez. Heiner, como chamávamos carinhosamente o Dr. Fernkorn, arrancou um galho de pinheiro e deu para mim com a promessa de sua eterna lealdade. As agulhas do pinheiro numa caixinha com um Ex Libris “Emita Luz, Helga Paderstein” entalhado por ele voltaram comigo para a Alemanha e mantêm desperta a lembrança.

Depois o trem nos levou até Frankfurt. De tarde, nunca esquecerei esse dia, Vovó Lieschen pegou o trem expresso de volta a Berlim. Estava na janela de seu compartimento. O trem partiu com atraso. Saberia ela que nunca mais veria sua filha e seus netos? Em 1943 ela se suicidou. O Brasil havia fechado as fronteiras. Getúlio Vargas, um ditador, era germanófilo e um fascista. Imigrantes judeus não conseguiam mais vistos. Na mesma noite um avião nos trouxe à segurança da Holanda. Não antes que, devido ao controle de transferência de divisas, nos tivessem depenado. Minha mãe chorava.

A emigração começou. Após alguns dias em Paris, onde moramos num pequeno hotel. Após nossa partida da Alemanha, quanto coisa aconteceu.

Num navio francês viajamos rumo à nossa nova terra natal. O Cruzeiro do Sul nos acompanhava no céu ao nos aproximarmos do Brasil. A foice da lua parecia diferente no céu. O calor, o sol, o mar azul fizeram com que logo esquecêssemos que éramos emigrantes.

 

O símbolo carioca, Cristo Redentor, braços abertos abençoando a cidade

E aí chegou o dia em que nos aproximamos do Brasil. A maravilhosa praia branca acompanhou-nos durante o dia todo. Malas foram feitas. A expectativa era grande. No final da tarde o navio chegou no Rio de Janeiro. O símbolo carioca, Cristo Redentor, braços abertos abençoando a cidade, erguia-se num pedestal de nuvens. Jamais esquecerei tal dia. O dia em que o Brasil se tornou nossa nova terra natal.

Tudo era estranho. A língua. Pessoas negras. Cabelos crespos. O calor do início do verão. A excitação. A Europa e todos os seus perigos ficavam definitivamente para atrás. O Cristo Redentor continha-nos em seus braços protetores. Havíamos alcançado nosso destino.

No porto nos aguardava um senhor que não conhecíamos. Emigrantes não paravam de chegar, e era preciso ajudá-los. Tudo tão estranho. Num táxi lotado, já no escuro, percorremos a Avenida Rio Branco, a rua principal do Rio. Passava no meio da cidade. Admirados víamos as muitas luzes. Admirados víamos a praia branca. Admirados víamos a confusão de gente de todas as cores. E cansados chegamos em Copacabana em uma pensão barata.

Desfazer as malas. A primeira noite. O calor do verão brasileiro. O primeiro passeio na manhã seguinte ao longo da praia. Novos conhecidos. Gente, emigrantes como nós que chegaram antes de nós e já tinham alguma experiência da adaptação à nova vida.

Logo procuramos uma moradia. Mas não antes de um grande susto. O cônsul brasileiro em Frankfurt, nosso amigo, havia chegado no Cap Arcona, um navio alemão que ligava então Europa e Brasil. Queria falar conosco e nos encontrou num pequeno hotel. Nós não falávamos sua língua, o português. O visto católico era a razão de sua vinda. Ele ameaçou nos expulsar devido aos documentos falsos. O que podíamos fazer? Tivemos que pagar tudo que ele exigiu. E nosso já parco dinheiro minguou ainda mais.

Alugamos um apartamento mobiliado. Ficava pertinho da praia. De manhã cedo, devido ao calor insuportável, eu lavava nossas roupas, cozinhava e arrumava a casa. Depois íamos à praia. A areia branca bonita, o mar, os morros e a queimadura de sol!

Íamos à feira. Laranjas, bananas, abacaxis. Legumes de todas as cores e com nomes exóticos. Assávamos bolo de banana. Não havia maçãs nem pêras. A tudo nos adaptávamos. Aos domingos íamos ao hipódromo. Com nossas apostas procurávamos ganhar algum dinheiro. Raramente nossos cavalos chegavam na frente.

 

Aos domingos íamos ao hipódromo

 

A gente se reunia em um bar alemão e bebia cerveja brasileira. E conversava sobre as últimas notícias da Europa, que chegavam escassamente. Uma carta levava então ao menos quatro semanas. Avião não existia ainda. A correspondência viajava de vapor para lá e para cá.

Enfim chegou nossa mudança após três meses no Brasil. Havíamos enquanto isso alugado um apartamento. Vazio, sobre uma padaria. De madrugada, às três horas, as máquinas começavam a misturar a massa de pão e não dava mais para dormir. O apartamento era pequeno. Os móveis, grandes demais. Uma grande parte tivemos de vender. Mas enfim tudo ficou no seu lugar. Um ambiente simpático e aconchegante. Cada um tinha seu quarto.

As preocupações eram grandes. A pergunta tão ameaçadora: como prosseguirão as coisas? De que vamos viver? Meu pai não havia aprendido uma profissão! Mas mesmo que tivesse, o que poderia fazer com ela? Começar tudo de novo? Uma vida nova?

Procurei um trabalho. Minha irmã foi mandada para o colégio e rápido aprendeu a língua portuguesa. Meu primeiro emprego foi como babá. As crianças berrando eram uma praga.

Aí meu pai recebeu uma oferta. Criar cavalos no interior do país. Entregamos o apartamento. De novo, tudo foi empacotado. E meus pais deixaram o Rio de Janeiro. Bem longe de toda civilização.

Com grande coragem enfrentaram a nova vida inusitada. Em geral tudo transcorreu bem. Até o Brasil ser pressionado, em 1943, a declarar guerra à Alemanha. Um navio com soldados brasileiros foi enviado à Itália. Um grande cemitério sobre uma colina conta a história. Falar alemão foi proibido. Papel preto era colado nas vidraças. Os alemães tornaram-se inimigos dos brasileiros. Meus pais naturalmente também. Às pressas deixaram a fazenda na calada da noite. Com um pequeno negócio filatélico que meu pai dirigia e minha mãe, que também começou a trabalhar, ganhavam sua vida modesta.

Em 1945 deixei o Rio de Janeiro para tentar a sorte em São Paulo. Em 1946 casei-me com Heinz Flatauer de Marienburg. Pelo resto de minha vida meu grande amor.

Minha irmã [Anita] casou-se em 1948 com Joaquim Korytowski

Em 1946 casei-me com Heinz Flatauer de Marienburg

 

Minha irmã casou-se em 1948 com Joaquim Korytowski, de Plauen. Tiveram três filhos. Mas após uns poucos anos incomumente felizes o destino inevitável nos alcançou. Após seu terceiro filho, Sylvio era seu nome, minha irmã contraiu câncer no seio. Tentou-se salvá-la com todos os meios disponíveis naquela época. Em vão. Aos 33 anos ela nos deixou, seus três filhinhos e seu marido, para sempre.

Meus pais mudaram-se para São Paulo a fim de viverem perto de nós. Suportaram sua dor com uma dignidade incrível. E a vida continuava.

Hof Häusel lhes foi devolvido e depois vendido. Com esse dinheiro a vida deles se tornou enfim mais fácil.

Meu pai faleceu em 2 de julho de 1977, aos 83 anos, após uma breve doença.

Minha mãe seguiu-o em 1990 aos 93 anos. Fiquei sozinha. Em 1987 meu marido havia me deixado para sempre.

 

Meus pais”: Margarida e Guilherme

 

Meus pensamentos voltam com frequência ao Brasil. Em pensamento visito os túmulos. Em pensamento converso com meus amigos. Aqueço-me ao sol brasileiro. Penso com carinho nas pessoas ali. Pessoas com um espírito aberto e amistoso.

Mas também aqui sou grata às pessoas pelo tanto de amor e amizade que me concedem. Pelo tanto de amizade com que me acolhem. Faço muitas palestras, que me enriquecem. Hof Häusel será para sempre parte de minha vida. E talvez, quando penso a respeito, também no Brasil senti falta do farfalhar dos bosques de pinheiros.

Em sonhos percorro os campos, meus pensamentos voltados ao passado.

Saúdo todos vocês e encerro meu relato. Gostaria de responder às perguntas de vocês. Uma espécie de debate.

 

Na torrente da vida vamos em frente:

O passado fica para trás, novas perspectivas se abrem.

Muita coisa boa passa por nós, alguns penhascos temos de contornar.

E disto consiste a nossa vida.

 

Muito obrigada,

Vockenhausen, 4 de abril de 2008.



[1] Após viver décadas no Brasil, Helga retornou, após a morte do marido e da mãe, à Alemanha, onde veio a falecer em 2011.

[2] Prato à base de chouriço, salsicha de fígado e barriga de porco cozidas.

[3] Dia de São Nicolau, em 6 de dezembro, e não no dia 9.

[4]  Canção de Natal alemã: Pinheirinho, pinheirinho, quão verdes são suas folhas.

[5] “Vergonha da raça”, ou seja, relações sexuais entre arianos e judeus.

DAVID COPPERFIELD, de CHARLES DICKENS – UMA RESENHA

 

Charles Dickens em óleo sobre tela de Daniel Maclise de 1839

Por contar a vida e as peripécias de um personagem jovem, David Copperfield é uma obra que agrada em cheio aos jovens. Então por que só vim a ler agora aos 69 anos? Foi uma falha na minha programação de leituras. Talvez faltou alguém lá na frente, um parente ou amigo, que dissesse “você tem que ler o David Copperfield”. Mas o mesmo não vai acontecer com você, porque estou dizendo: Você tem que ler o David Copperfield.

Aliás, David Copperfield agrada em cheio também aos românticos, devido aos vários amores impossíveis & possíveis, frustrados & bem-sucedidos, vividos pelo protagonista, se bem que Dickens não se enquadre entre os autores da escola romântica. Agrada aos leitores preocupados com os problemas sociais, porque Dickens fazia questão de aproveitar sua imensa popularidade e vasto público para denunciar as mazelas da sociedade vitoriana. O que chamamos hoje um artista engajado. E por dissecar a alma humana e criar toda uma gama de personagens, desde os absolutamente bons até os mais repelentes vilões, preenchendo também todo o espectro intermediário, David Copperfield agrada ao leitor interessado na realidade psicológica. Em suma, David Copperfield tem tudo para agradar, neste início do século XXI, a todos os tipos de leitores, assim como, na época em que foi escrito, este e outros romances de Dickens agradavam a todos os níveis da sociedade vitoriana. Dickens era uma espécie de pop star da época. 


O vilão Uriah Heep, que também virou nome de banda de rock

Foi o primeiro romance de Dickens narrado em primeira pessoa e, dentre todos seus livros, era o seu favorito, como revelou no prefácio de sua edição de 1867. Além disso, as iniciais de David Copperfield, DC, são as iniciais invertidas de Charles Dickens (CD, coincidência essa que na verdade não teria sido proposital e teria surpreendido o próprio autor). Por estes e outros fatos os leitores da época acharam que David Copperfield fosse uma autobiografia disfarçada, um romance autobiográfico. Ora, se Dickens colocou muito de sua experiência de vida neste livro, existem também muitas divergências entre as vidas de Dickens e David. O livro é um romance em parte inspirado na vida do autor, mas também com muitos personagens e situações criados por sua imaginação. É a biografia, sim, do personagem fictício David Copperfield, não da pessoa real Charles Dickens.

Querem ver? Enquanto Dickens nasce em Portsmouth, na costa sul da Inglaterra, David nasce em Blundestone, na costa leste do país. David é filho único, já que seu irmão morre pouco depois de nascer. Já Dickens foi o segundo de oito filhos. Quando David nasce, seu pai já havia morrido. Já Dickens conheceu bem o pai. Tão bem que seu personagem Micawber é inspirado nele: tanto o pai de Dickens como Micawber vão parar na prisão por causa de dívidas.

Micawber

Enquanto o pai cumpria sua pena, Dickens, então com doze anos, foi mandado para trabalhar numa fábrica, colando rótulos em frascos de graxa de sapatos. O trabalho infantil na Inglaterra da época era comum, como era comum ter escravos aqui no Brasil. Também David Copperfield, depois que fica órfão, é mandado pelo padrasto malvado para trabalhar numa fábrica de vinhos. Quando o pai de Dickens recebeu uma herança e se livrou da prisão, o filho foi mandado para uma escola cujo diretor cruel gostava de espancar os meninos. Também David sofre nas mãos do Sr. Creakle, da Salem House, a escola onde começa seus estudos. Pelo menos na sua segunda escola, do Dr. Strong, David obtém uma boa educação, chance esta que Dickens não teve em sua vida. Dickens trabalhou como auxiliar num escritório de advocacia e, insatisfeito com o direito, aprendeu taquigrafia para poder obter um emprego transcrevendo os debates do Parlamento para um jornal. David Copperfield seguiu exatamente o mesmo caminho. 

Aos dezessete anos, Dickens se apaixona por Maria Beadnell, filha de um banqueiro, que a envia ao estrangeiro para afastá-la do pretendente. Também Copperfield apaixona-se perdidamente pela filha de seu patrão, só que no livro o desfecho desse amor é bem diferente da vida real do autor. Talvez, ao casar David com Dora, Dickens estivesse especulando sobre como teria sido sua vida se tivesse desposado Maria. Tanto Dickens quanto Copperfield passam uma temporada na Suíça, e ambos acabam bem-sucedidos na carreira literária. Ou seja, muita coisa no livro coincide com a vida de Dickens, mas muita coisa também é inventada.

Maria Beadnell

David Copperfield é um microcosmo da sociedade humana, onde você vê um pouco de tudo: temos um mini-O Ateneu nos capítulos que descrevem a vida escolar do personagem. Temos uma cabeleireira anã que parece saída de um circo. Temos a menina pobre que se deixa seduzir pelo moço rico. Temos o tio desesperado que se torna andarilho e percorre meia Europa em busca da sobrinha que se perdeu neste vasto mundo. Temos fraude financeira. Temos uma tempestade memorável que sela o destino de dois personagens importantes. Temos o menino ainda inocente enfrentando as maldades do mundo quando foge de Londres e percorre a pé o trajeto até Dover em busca de sua única parente viva, a tia Betsey, amalucada mas gente fina. Temos uma mulher de má fama, espécie de Maria Madalena, mas de bom coração (Martha). Temos uma paixão aparentemente impossível mas que, por um golpe do destino, acaba se viabilizando (mas não dá certo) e temos outra paixão bem mais viável & lógica mas que o protagonista, devido à imaturidade, quase joga na lata do lixo. Temos a emigração de alguns personagens para a então e ainda hoje remota Austrália, na época colônia britânica. Temos até uma cena onde David, ao visitar uma prisão dirigida pelo antigo diretor de sua escola, observa que os presidiários se alimentam bem melhor do que a maioria da comunidade honesta e trabalhadora, observação esta bem afinada com uma percepção contemporânea de que a lei protege o bandido em detrimento das pessoas de bem. 


Podemos dizer que esta e outras obras do Dickens são o que mais se aproxima de uma novela de TV do século XX. O livro foi lançado originalmente em 19 fascículos mensais de 32 páginas, normalmente três capítulos por fascículo, mas às vezes mais, de maio de 1849 a novembro de 1850. Imagine a angústia das pessoas tendo que aguardar meses e meses para saber o destino dos personagens e o desfecho da história. Como nas novelas, temos núcleos ricos e pobres, personagens fixos que sempre acabam reaparecendo, às vezes via coincidências meio forçadas etc. Como nas novelas, temos os mocinhos e os vilões. Assim como o musical veio da ópera e o cinema veio do teatro, a novela de rádio e TV do século XX veio do folhetim do século XIX. Afinal, numa época em que não havia rádio, TV ou cinema, a literatura fazia o papel do rádio, TV e cinema. E hoje a literatura dá suporte ao rádio, TV ou cinema. Afinal, um roteiro de uma novela ou série ou filme também é uma obra literária. O escritor de novela também é um grande escritor, e historiadores do século XXII, querendo reconstituir como era a vida no século XX, com certeza recorrerão às séries e novelas.

ÉDIPO, de IVO KORYTOWSKI


Uma revelação da literatura brasileira deste início de século, Ivo Korytowski transita do machadiano ao pós-moderno, com passagens pelo fescenino, kitsch, mitologia, ficção-científica, cultura popular, psicanálise, humor & sátira e pelas histórias de amor, modernamente via internet. Um livro para se ler e reler, e guardar pelo resto da vida! Vale lembrar ainda que Édipo tem um belo projeto gráfico e prefácio do Prof. Ivan Cavalcanti Proença, a quem o autor faz esta citação dentro do conto Alma Gêmeas: "a literatura desrealiza o real pra realizar o fenômeno literário". Ivo Korytowski aprendeu a lição.

Sobre o livro, diz Antonio Carlos Villaça: “Édipo nos revela um grande contista. Um dos melhores contistas do Brasil de hoje. O livro nos mostra a perfeição de um estilo, argúcia da observação, análise implacável, minuciosa, leve. É um contista fluente, ágil, malicioso. Tão humano! O irmão de Marques Rebelo.”

Do Prefácio de Ivan Cavalcanti Proença: “Conquanto a dissimulação do humor iterativo ao longo dos textos – humor mesmo, nosso, carioquês, irreverente, nada daquele humor refinado – e conquanto visão crítica, por vezes impiedosa, da sociedade urbana, conquanto os cortes abruptos quando o texto caminha para impacto sentimental, o que se intui é mesmo aquela ironia, categoria do sentido trágico da existência, espécie de defesa diante de um mundo não raro hostil e adverso. (...) Mas o que prevalece – insisto, dissimuladamente – é uma intensa carga lírica, afetiva, conjugada, por vezes, àquela (quase) ira magoada.”

Édipo: o ponto de partida
Lucilene Machado

O percurso do escritor Ivo Korytowski para apresentar seu processo criativo tem início em Édipo – uma coletânea de trinta e cinco contos publicada pela editora Ciência Moderna que também está inaugurando sua linha de ficção. Do primeiro ao último conto, Korytowski permanece fiel a um estilo marcado pela pós-modernidade, valendo-se dos estrangeirismos, gírias, linguagem internáutica e até trava-línguas para condensar sua visão de mundo num inquérito, aparentemente, filosófico, mas que inclui teologia, história, política, culinária e romance. Muito romance. Almas Gêmeas, título de um dos textos, é também tema recorrente em grande parte da obra que situa o homem como um ser carnal seduzido pelas aparências e que vive as relações efêmeras da contemporaneidade.

Ivo Korytowski é autor inquieto, que ousa penetrar o cerne de qualquer tema. Nenhum assunto é grande ou pequeno demais que não mereça ser explorado. Ele movimenta-se sobre uma complexa rede de inferências que inclui desde assuntos de ordem mitológicas até reflexões de uma barba ou uma apologia à punheta – neste último se aproxima da escrita de João Gilberto Noll, usando para a abordagem um tom erótico fescenino.

Mas, se o leitor desavisado pensa encontrar uma linguagem simplista ou vulgarizada, engana-se. A viagem é permeada por referências, reordenação de textos, digressões, intertextualidades, enfim uma linguagem singularizada, e, como versa Alfredo Bosi, nem por isso isolada. O autor sabe como, por quê e para quê se cria. Sabe que ninguém poderá dizer mais sobre um texto que o próprio texto literário, e para isso usa o recurso da metalinguagem demonstrando preocupação com a construção e rigor dos contos, ora dirigindo-se ao leitor, ora dialogando com o narratário que chega a aparecer na figura de uma platéia ou como leitor específico. Um exercício que lembra o processo de escrita machadiano.

E-mail do escritor Eliezer Moreira em que comenta o livro:

Terminei de ler seus livros. Comecei pelo “Sopa no mel”, e aprendi bastante com o que você chama de “abobrinhas” – sobre cavalos, sobre mitologia, religião, transliteração, expressões populares, curiosidades e otras cositas más. Um livrinho precioso.

Meu caro, você é um filósofo do bom humor! – com intenção ou sem ela, pode levar o leitor a rir de uma hora pra outra. Tem humor no primeiro livro, mas principalmente no segundo. Ri em vários momentos enquanto lia o “Édipo”

Li os 35 contos, um após outro, como se estivesse lendo um romance. Pela recorrência das histórias de casal, de seduções, de casamentos que dão certo e outro nem tanto, pode mesmo ser visto como romance sobre o eterno tema do amor – e do amor no Rio, pois só uma vez você situa seus personagens no interior de Minas, e outra vez no meio rural, em lugar não identificado. Fiquei, enquanto lia, pensando na cara de um leitor que não te conhecesse – imaginando-o espantado com a mistura de leveza, humor, situações corriqueiras que podem chegar ao insólito (ou já começar pelo insólito, como o personagem que se descobre morto na escada de Santa Tereza, o terno que é personagem narrador, a barba narradora etc.), e no meio disso podendo encontrar frequentemente as mais diversas referências a filosofia, religião, mitologia e a tantos outros campos do saber. 

Um livro bastante equilibrado, com uma qualidade que se sustenta até o fim, o que não é pouco, pelo número de contos reunidos.

Agora quero ler o romance!

O ANEL DO NIBELUNGO. PARTE III: SIEGFRIED

Vimos nos dois vídeos anteriores como o anão Nibelungo Alberich se apossou do ouro do Reno e com ele forjou um anel que concede poderes especiais e um elmo que permite mudar de forma ou ficar invisível. O deus Wotan, auxiliado pelo semideus Loge, mediante um estratagema arrebatam o anel e o resto do tesouro do anão. Mas precisa entregá-lo aos gigantes Fafner e Fasolt como pagamento pela construção da morada dos deuses, o Walhalla. O Nibelungo lança uma maldição sobre o anel. Fafner mata Fasolt e transforma-se em dragão [Fafner na forma de um dragão] para melhor guardar o tesouro.

Com a deusa Erda, Wotan gerou as Valquírias, que conduzem os heróis mortos em batalha para o Valhalla. E com uma mulher mortal teve dois gêmeos, Siegmund e Sieglinde. Os irmãos se apaixonam e, como castigo, Sigmund morre em duelo e Sieglinde foge, grávida do irmão, para uma floresta, acobertada pela Valquíria Brünhilde. Leva consigo os destroços de uma espada mágica que Wotan havia enterrado num tronco e Siegmund conseguira arrancar. A Valquíria, castigada por Wotan, perde a imortalidade e permanecerá adormecida até que um herói a desperte.

Valquíria Brünhilde

Na terceira ópera do ciclo, Siegfried, ficamos sabendo que, na floresta, a fugitiva Sieglinde deparou com Mime, o anão Nibelungo irmão do Alberich que havia surrupiado o ouro do Reno. Mime recolheu aquela mulher desamparada em sua caverna, onde ela deu à luz um bebê, Siegfried, e logo depois faleceu. Ela entregou ao anão os destroços da espada de Siegmund, pai de Siegfried. Mime cria aquela criança com todo o carinho, mas com uma segunda intenção: usá-la para obter um dia o tesouro e anel mágico guardados pelo dragão. 

Mime e Siegfried

Siegfried não morre de amores por Mime, e só não abandona a caverna de Mime devido à curiosidade de descobrir quem foram seus verdadeiros pais. Porque viu sua imagem refletida na água e percebeu que é diferente demais do anão Mime para que este tivesse sido seu pai. Quando Siegfried enfim consegue extrair de Mime a informação sobre seus falecidos pais, quer que Mime restaure a espada destroçada para então, protegido por ela, sair mundo afora e não mais voltar. Esta foi a primeira cena do primeiro ato. 

Siegfried vê sua imagem refletida na água

Na segunda cena, o deus Wotan, disfarçado de andarilho, se oferece para responder às perguntas de Mime, apostando sua cabeça. Mime faz então três perguntas:

 1) Qual raça reúne-se nas profundezas da terra (welches Geschlecht tagt in der Erde Tiefe)? Resposta: Os Nibelungos, habitantes de Nibelheim.

2) Qual raça mora sobre as costas da terra (welches Geschlecht wohnt auf der Erde Rücken)? Resposta: Os gigantes, que moram em Riesenheim.

3) Qual é a raça que habita as alturas nubladas (welches Geschlecht wohnt auf wolkigen Höh’n)? Resposta: Os deuses, que habitam o Valhalla.

Agora a situação se inverte: Wotan faz três perguntas a Mime, que perderá sua cabeça se não conseguir responder.

A primeira pergunta é: Contra qual raça Wotan agiu mal mas, mesmo assim, é a mais querida por ele (Welches ist das Geschlecht, dem Wotan schlimm sich zeigte, und das doch das Liebste ihm lebt)? Resposta: Os Volsungos, raça de Siegmund e Siegfried.

Segunda pergunta: Qual espada Siegfried deve usar para matar o dragão Fafner e assim se apoderar do anel (Welches Schwert muß Siegfried nun schwingen, taug’ es zu Fafners Tod)? Resposta: A espada que Wotan encravou num tronco e que agora, em fragmentos, está sob a guarda de Mime.

Terceira pergunta: Quem Mime acha que forjará a espada a partir daqueles fragmentos (wer wird aus den starken Stücken Nothung das Schwert, wohl schweißen)? Mime confessa não saber a resposta, pois se julga incapaz de forjá-la. Wotan o repreende por ter feito perguntas inúteis quando poderia ter aproveitado para esclarecer esse ponto, e faz uma revelação: “Somente aquele que nunca conheceu o medo forjará a espada novamente” (Nur wer das Fürchten nie erfuhr, schmiedet Nothung neu.).” E embora ganhasse a aposta, Wotan poupa a cabeça de Mime, deixando-a para esta mesma pessoa que nunca aprendeu a ter medo (verfallen lass’ ich es dem, der das Fürchten nicht gelernt!). Que é o próprio Siegfried. Esta foi a segunda cena do primeiro ato.

No início da terceira cena, Siegfried vem cobrar de Mime a restauração da espada que está em fragmentos. Mime lembra as palavras do Andarilho de que perderá a cabeça para quem nunca conheceu o medo. A única saída é incutir o medo em Siegfried e para isto o levará até o dragão Fafner, em Neidhöhle. Mas Siegfried quer levar consigo a espada deixada pelo pai e, mesmo sem experiência na arte de trabalhar com metais, por não conhecer o medo consegue recuperá-la. Mime prevê que seu pupilo conseguirá arrebatar o anel e tesouro do dragão e conspira para se apoderar deles. Prepara uma poção venenosa que ministrará a Siegfried quando este estiver cansado, após a luta com o monstro. 

A espada recuperada

O segundo ato começa nas profundezas da floresta, na entrada da caverna do dragão. O anão Nibelungo Alberich monta guarda, na esperança de recuperar o anel e assim atacar o Valhalla com ajuda das hostes de Hella, deusa da morte. Na segunda cena Mime e Siegfried se aproximam da caverna do dragão. Mime tenta pôr medo em Siegfried descrevendo a fúria do dragão, mas este não se intimida, e pede que seu tutor o deixe a sós. Siegfried ouve um passarinho e gostaria de entender o que ele diz. 

O dragão

Ao tentar imitar a ave com sua trompa, acorda o dragão, enfrenta-o e, ao cravar a espada no seu coração, mata-o. Ao agonizar, o dragão o alerta para ter cuidado com Mime, que pretende matá-lo. Ao levar à boca os dedos sujos do sangue do dragão, Siegfried passa a entender a linguagem dos pássaros. O pássaro avisa sobre o tesouro guardado pelo dragão, incluindo o anel, que fará dele Walter der Welt, o senhor do mundo.

Siegfried mata o dragão

Na terceira cena, Alberich e Mime se encontram. Ambos desejam se apoderar do anel e do elmo, que estão na posse de Siegfried. O pássaro informa a Siegfried que, por ter provado o sangue do dragão, agora conseguirá ouvir o que se passa no íntimo de Mime e, assim, não será enganado por ele. Graças a esse poder Siegfried fica sabendo das intenções secretas de Mime (numa das cenas mais cômicas da ópera, em que Mime tenta mentir mas sempre se trai) e acaba matando-o. Siegfried lamenta a solidão e pede ao pássaro que lhe arranje alguma companhia. O pássaro dá uma de casamenteiro e diz que conhece a mulher ideal para ele: é a Valquíria Brünhilde que na ópera anterior, castigada por Wotan, foi adormecida no alto de um rochedo cercada de chamas. Só quem nunca conheceu o medo conseguirá transpor as chamas e despertar Brünhilde. O pássaro mostrará o caminho até ela. Siegfried parte eufórico em busca da Valquíria adormecida.

Siegfried e a valquíria adormecida

No início do terceiro ato, o Andarilho Wotan acorda a deusa da sabedoria, Erda, de um sono profundo para pedir conselhos. Diz Erda em bonita voz de contralto: Mein Schlaf ist Träumen, mein Träumen Sinnen, mein Sinnen Walten des Wissen, Meu sono é sonhar, meu sonho é refletir, minha reflexão é o domínio do saber. Wotan teme o ocaso dos deuses e quer que Erda o tranquilize. Infelizmente ela não pode fazer nada. Wotan acaba se conformando com o futuro fim dos deuses, pois deixa um herdeiro do qual se orgulha: o Volsungo Siegfried. Herdeiro este que, por não conhecer o medo, não é afetado pela maldição de Alberich.

Na segunda cena do último ato, Wotan depara com Siegfried, que seguiu o pássaro até o local onde dorme a Valquíria. Siegfried o trata com desdém, chegando a ameaçá-lo. Wotan tenta impedir Siegfried de ir ao encontro da Valquíria. Quem a despertar e conquistar privará Wotan do seu poder (wer sie erweckte, wer sie gewänne, / machtlos macht er mich ewig!). Mas Siegfried desafia o deus e o ataca espada em riste, quebrando-lhe a lança, a mesma que quebrara a espada nas mãos de Siegmund. Ele sobe o rochedo, enfrenta o fogo e depara com a Valquíria adormecida De início, pensa que é um soldado, mas ao retirar o elmo vê que é uma mulher, a primeira mulher que vê na vida. No início ela reluta em desposar o herói, pois como Valquíria não poderia amar um mortal, mas depois se recorda de que foi castigada e perdeu a imortalidade e se entrega ao amor humano, a ópera se encerrando com um final feliz


O ANEL DO NIBELUNGO. PARTE II: A VALQUÍRIA

 


A Valquíria é a segunda das quatro óperas do ciclo O Anel do Nibelungo. Baseia-se na Saga dos Volsungos islandesa e na Edda Poética nórdica. O papel central é desempenhado por uma Valquíria, Brünnhilde. Quem são as Valquírias?


São seres da mitologia nórdica que conduzem os heróis mortos em batalha para protegerem a morada dos deuses, o Valhalla. Por que é necessário proteger a morada dos deuses? Por causa do perigo do anel. No primeiro vídeo (que corresponde à primeira ópera), vimos como o Nibelungo surrupiou o ouro do Reno e com ele forjou o anel mágico que concede maaßlose Macht, poder ilimitado, sob a condição de renunciar ao amor. Vimos que esse anel foi parar nas mãos do gigante Fafner, que se transformou em dragão para melhor guardar seu tesouro. Mas o Nibelungo não se conforma com a perda e sonha em recuperar o anel para então atacar o Valhalla e destronar os deuses. Wotan aguarda o surgimento de um herói que se apoderará do anel do gigante, o que acontecerá na terceira ópera, Siegfried. O deus enterrou uma espada na pedra, como na história do Rei Artur, que ninguém mais a não ser esse herói conseguirá arrancar. Uma ameaça paira no ar. A deusa Erda profetizou que "wenn der Liebe finstrer Feind zürnend zeugt einen Sohn, der Sel’gen Ende säumt dann nicht", que em português simples significa: “Quando o inimigo do amor gerar um filho, o fim dos deuses não tardará.” Ora, o Nibelungo Alberich engravidou uma mulher. Os deuses correm sério perigo. 

Assim como Júpiter da mitologia greco-romana, o deus Wotan não hesita em se meter em aventuras amorosas, traindo a esposa, a deusa Fricka. Assim é que com a deusa Erda, a mãe primordial, gerou as Valquírias, e com uma mulher da raça dos Volsungos teve os irmãos gêmeos Siegmund e Sieglinde. No início da ópera, Siegmund, perseguido por inimigos, por acaso vem parar, exausto, exatamente na casa de Sieglinde. Um dia, quando criança, ao voltar de uma caçada com o pai, encontraram a casa queimada pelos inimigos, a mãe assassinada, e a menina desaparecera. Desde então nunca mais a viu e sequer sabia se estava viva. Sieglinde mora com o marido Hunding (Hund em alemão significa cão) com quem teve de se casar contra a vontade e que a faz sofrer. Tanto é que, no inicio da ópera, quando Siegmund faz menção de ir embora para não contaminá-la com seu azar, ela responde: “Nicht bringst du Unheil dahin, wo Unheil im Hause wohnt!”, ou seja, “Você não vai trazer azar a uma casa onde o azar já mora.” Sieglinde cuida das feridas de Siegmund, mas quando Hunding retorna e Siegmund conta a ele sua fuga, Hunding reconhece ter sido um dos perseguidores de Siegmund e diz que naquela noite este poderá se abrigar em sua casa, mas na manhã seguinte os dois se enfrentarão em duelo. À noite Sieglinde ministra um narcótico ao marido e na longa conversa que tem com Siegmund, os dois irmãos acabam se apaixonando. E, como já notara Hunding, eles percebem a sua semelhança e descobrem que são os irmãos gêmeos separados na infância. Na noite do casamento forçado de Sieglinde com Hunding, Wotan apareceu, disfarçado de um velho andarilho, e lá deixou a espada mágica encravada num tronco, que desde então ninguém havia conseguido arrancar, e que Sieglinde reconhece que foi destinada a Siegmund. Ela chega a perceber a semelhança entre os olhos daquele velho e os do irmão que veio parar em sua casa, e este de fato arranca espada.


Após esta cena, os irmãos assumem seu amor incestuoso, no final do primeiro ato. Até aqui nosso herói se chamou Wolfling (lobinho) quando criança e Wehwalt, “dominado pela dor”, depois de adulto. Agora que está protegido pela força da espada, recebe de Sieglinde o nome Siegmund, “destinado à vitória”. Sieg em alemão é vitória. Sieglide é formado por Sieg + linde, gentil. No início do segundo ato, Wotan está instruindo a Valquíria Brünnhilde a proteger Siegmund em seu duelo com Hunding. Eis que se aproxima Fricka, deusa do matrimônio, furiosa com o fato do marido aceitar tranquilamente o amor incestuoso dos filhos bastardos. Ela enche a paciência de Wotan até convencê-lo a ficar do lado dela. Depois desta cena, Wotan se abre para a Valquíria, revela que é o mais triste dos seres e muda suas instruções: a vontade de Fricka deve prevalecer e Siegmund deve morrer no duelo. 


A própria Sieglinde, em fuga com Siegfried, tem maus pressentimentos. Siegmund e Sieglinde se beijam numa cena cinematográfica, com uma música cinematográfica, realçando mais um fato sobre Wagner: ele é um precursor da música de cinema do século XX. Mas quando a Valquíria vai avisar Siegmund de que este morrerá e a acompanhará até o Valhalla, onde desfrutará a companhia de uma Wünschmädchen (moça do desejo), umas periguetes filhas de Wotan que devem ser aparentadas com as huris do paraíso muçulmano, ele diz: “So grüße mir Walhall, grüße mir Wotan, [...] grüß' auch die holden Wunschesmädchen: zu ihnen folg' ich dir nicht!” (Manda lembranças para o Valhalla, para Wotan e para as moças do desejo, pois eu não vou segui-la até eles). A Valquíria acaba resolvendo desafiar a ordem do deus e proteger o pobre apaixonado. Só que na hora do duelo Wotan aparece, destroça a espada de Siegmund, permitindo que Hunding o trespasse com a lança, matando-o. Brünnhilde foge com Sieglinde levando os fragmentos da espada de Siegmund. 

E assim termina o segundo ato. O terceiro ato na ópera começa no cume de uma montanha rochosa, onde vivem as Valquírias. Aqui você vai ouvir uma das músicas mais famosas do Wagner, que é o tema, o leitmotiv das valquírias. No primeiro vídeo expliquei o que é um leitmotiv. Esse tema se popularizou com o filme Apocalipse Now. Geralmente as Valquírias carregam heróis para conduzirem ao Valhalla. Por isso, quando Brünnhilde aparece com uma mulher, Sieglinde, causa espanto. Sieglinde quer morrer, mas quando Brünnhilde informa que está grávida de Siegmund, muda de ideia e deseja se salvar. Wotan se aproxima furioso. Sieglinde foge para o leste em direção à floresta onde o dragão guarda o anel. Brünnhilde fica e enfrenta a fúria do pai. Este lhe impõe um castigo: ela será adormecida e terá que se casar com o primeiro homem que a encontrar e acordar. Brünnhilde dialoga com o pai e explica que, se por um lado desobedeceu à sua ordem, por outro lado cumpriu seu desejo mais profundo, já que Wotan está dividido e, ao se dobrar à vontade de Fricka, voltou-se contra si mesmo. Brünnhilde pede que o castigo seja ao menos atenuado. Assim, ela perde os poderes de Valquíria e será adormecida, mas protegida por um fogo para que apenas um herói valoroso consiga se aproximar e acordá-la. Esse tema da bela adormecida já vimos num conto de fadas de Grimm. 


Antes de terminar, uma digressão. Qual o papel de uma ópera no mundo contemporâneo? Existe ainda público para obras de tão longa duração? As quatro óperas do Anel ultrapassam as quinze horas, numa média de quase quatro horas por ópera. E por que um cantor de ópera não pode cantar com uma voz normal, sem impostação, como num musical? Lembremos que na época em que as óperas foram compostas as pessoas não dispunham de aparelhos elétricos ou eletrônicos em que pudessem passar o dia ouvindo músico. No máximo, quem tinha dinheiro, tinha um piano em casa. Então quando a pessoa ia à sala de concertos estava ávida por música, queria tirar o atraso, ouvir horas a fio. E não época anterior à invenção do microfone, sem a impostação da voz, como projetá-la para se tornar audível a todo o público de uma imensa sala de concertos? No século XX, a ópera evoluiu no musical, assim como o teatro evoluiu no cinema e a pintura evoluiu na fotografia, mas as formas novas não extinguem as formas antigas, e sim coexistem com elas.