SONHO DE UMA NOITE DE CARNAVAL

Poema de OLIVEIRA E SILVA ilustrado por ALBERTO LIMA publicado na REVISTA DA SEMANA de 5 de fevereiro de 1921



SONHO DE UMA NOITE DE CARNAVAL

Lembro: o ruído que ferve e desvaira... o deleite...
A turba imensa... tu passaste e nós sorrimos,
Deslumbrado, confuso e comovido, amei-te
Num minuto supremo, e nunca mais nos vimos!

Nunca mais! Desse amor no delírio das ruas
Ficou-me um travo leve, uma doçura atroz:
Não tive as minhas mãos palpitando nas tuas!
Não escutei, sequer, o som de tua voz!

Todo o ano, a recordar-te o brilho, desfaleço,
Em meio à multidão álacre, no tumulto,
De repente, estou só e, pálido, estremeço,
Pressentindo que vai aparecer teu vulto.

Sonho de Carnaval, maravilhoso e triste!
Ah! Mundos de prazer, que em vão imaginamos!
Nunca mais eu te vi! Nunca mais tu me viste!
Porque tardas? A vida é breve... nós passamos... 

A VIDA DEVERIA SER AO CONTRÁRIO

A ideia de que a vida deveria ser vivida ao contrário (ou seja, de que a gente deveria nascer velho e ir rejuvenescendo) foi expressa pela primeira vez por Mark Twain na frase "A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18." Na década de 1920 a ideia inspira dois contos de escritores de países diferentes que a devem ter tido de forma independente, sem que um copiasse o outro. 

O primeiro é O Curioso Caso de Benjamin Button de F. Scott Fitzgerald, publicado na revista Colliers em 27 de maio de 1922, e que inspirou um filme de mesmo nome de 2008. O segundo é A Lição do escritor húngaro Frigyes Karinthy, publicado em Budapeste em 1923 no livro Decameron do Riso, antologia de cem crônicas, as melhores dentre as centenas que escreveu na imprensa húngara. O texto foi incluído na Antologia do Conto Húngaro de Paulo Rónai e é reproduzido a seguir.

Existe ainda a reflexão de Sean Morey (que costuma ser erroneamente atribuída a Chaplin ou mesmo a Woody Allen): "A coisa mais injusta da vida é a maneira como ela termina. Viver é muito difícil. Toma muito do seu tempo. E o que você tem no final? Uma morte. O que é isso, uma recompensa? Acho que o ciclo da vida está todo de trás pra frente. Você devia morrer primeiro, se livrar logo disso. Então você vive num asilo de velhinhos. É expulso de lá por estar jovem demais, ganha um relógio de outro, vai trabalhar. Você trabalha quarenta anos até ficar jovem o suficiente pra aproveitar a aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra faculdade. Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, você brinca, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando... E termina tudo com um ótimo orgasmo!!! " 

A LIÇÃO de Frigyes Karinthy

I
Na idade de setenta e cinco anos descobri que, havia cinquenta e quatro, minha esposa me enganava com um rapaz. Corri à Ponte Margarida e dei um lindo mergulho de ponta-cabeça no Danúbio, o que me valeu o título de campeão do Clube Ginástico de Budapeste. Ao mesmo tempo, bati o recorde de permanência subaquática, tendo ficado dois dias e meio debaixo da água, ao passo que o vencedor da última competição, Kankovsky, só aguentara essa posição por dois minutos e vinte segundos.

II
S. Pedro, sentado diante do projetor, estava enrolando no carretel o filme da minha vida, quando entrei no salão. Tinha chegado precisamente à cena em que me atiro da ponte. A assistência, composta de santos e anjos, ria a mais não poder ao ver-me espernear. Furioso, dei um empurrão no braço do velho. A fita partiu-se no meio.
— Seu idiota! — bradou o santo. — Como poderei retirar agora a fita do carretel? Terei que desenrolá-la todinha às avessas! Será uma beleza! Volte para o lugar de onde veio, seu burro!
E entrou a desenrolar o filme da minha vida de rabo a cabo.

III
Um minuto depois lá saía eu do Danúbio, de pernas para o ar, e de um pulo estava na ponte. O rosto voltado para Buda, voltei à Pest [Buda fica na margem direita do Danúbio, Pest na margem esquerda], subi às arrecuas [=andando para trás] ao terceiro andar, fechei a porta, que se abriu, atravessei o hall ao arrepio, e tornei a sentar-me no divã.

IV
Ausentei-me um instante do quarto, depois voltei, em marcha a ré, e pus-me a digerir o almoço, que ficou pronto logo depois. O criado, andando de costas, trouxe os pratos sujos, nos quais fui recolocando, com o garfo e a faca, o macarrão gostoso. Juntei os pedacinhos da carne, bem saborosa, retirei da boca a sopa às colheradas, levantei-me e olhei para o relógio. Era meio-dia e meia. Tinha de estar na repartição ao meio-dia em ponto, por isso saí correndo ao revés. Nesse ínterim, a ponta do cigarro que eu pusera na boca crescia cada vez mais, até que o acendi e o botei no bolso.

V
Dez anos depois, meus cabelos começaram a tornar-se pretos e os dentes a voltar-me à boca. Cancelada a minha aposentadoria, tive de trabalhar outra vez. Eis-me de novo na repartição a escrevinhar processos um antes do outro, até chegar ao primeiro. Os chefes demonstravam boa vontade comigo, mas estavam-me conhecendo cada vez menos, e, ao cabo de vinte e cinco anos de trabalho assíduo, fui admitido com salário de estreante. Lá me achava eu na miséria, de costas para a frente, sem emprego de espécie alguma, com minha esposa cada vez mais bonita e cada vez mais apaixonada por mim.

VI
Nessa altura já estava com vinte e cinco anos. Raptei minha esposa de volta à casa de seu progenitor, e apaixonei-me loucamente por ela. Numa noite de paixão febril ela se me entregou pela terceira, pela segunda e pela primeira vez. Nisto, fiquei cada vez mais tímido: procurei segurar-lhe a mão, que ela retirou, até que terminamos conhecendo-nos, depois do quê lhe fui apresentado, para nunca mais a ver.

VII
Consegui diplomar-me, o que marcou o início da alegre vida de estudante. Era jovem e feliz, e, como gostava de estudar, sabia cada vez menos. Graças aos excessos de toda espécie, peculiares à mocidade, dentro em breve me encontrava na plenitude das minhas forças. Acabei o curso secundário com dezoito anos. Meu bigode foi desaparecendo, meu tamanho diminuía, permitindo-me retomar os ternos dos anos anteriores. Aos quatorze anos, safei-me do cólera, que por um triz não me matou; felizmente veio logo a infecção e eu fiquei fora de perigo. Daí para trás, minha vida correu tranquila: comecei a balbuciar, depois esqueci-me totalmente de falar, e, quando já era bastante pequenino, voltei de gatinhas ao berço para abastecer de leite a minha ama. Ignoro o que sucedeu depois: lembro-me apenas de um local escuro para onde alguém me empurrou com violência.

VIII
Quando pela segunda vez cheguei a presença de S. Pedro, ele estava acabando de enrolar a fita. Ao ver-me, levantou as mãos sagradas com bondoso sorriso.
— Ó tu — disse-me para ministrar um sábio ensinamento aos santos e anjos reunidos em tomo dele — ó tu a quem foi dado viver duas vezes, conhecer às avessas todas as coisas e penetrar até o âmago da existência, dize-nos agora a lição que aprendeste no caminho que aos mortais só de uma feita cabe palmilhar, mas que tu, pela graça infinita do Senhor, pudeste percorrer duas vezes.
Pondo o indicador na ponta do nariz, depois de breve meditação respondi assim a S. Pedro:
— Santo Padre, a lição que me foi possível aprender na minha jornada resume-se numa única observação.
— Qual é, meu filho?
— Que as poesias do Sr. Kassák Lajos [poeta moderno, chefe da escola futurista], lidas de trás para a frente, têm tão pouco sentido como quando lidas da frente para trás.

ARSÈNE LUPIN, O LADRÃO DE CASACA


Desde que aprendi a ler e escrever tornei-me um leitor serial (como vocês podem conferir em minha crônica O Melhor Amigo do Homem). Meu primeiro livro foi Fábulas, de Monteiro Lobato, que minha mãe “deixou” sobre a minha cama. Na pré-adolescência e adolescência li e reli toda a obra infanto-juvenil do escritor genial de Taubaté que, se tivesse escrito em inglês ou alemão ou francês seria hoje mundialmente conhecido, com seus livros transformados em desenhos da Disney ou Dreamworks, imagino). 

Nos anos 1967 a 69 eu e meu amigo Ricardo Weiss fomos acometidos por uma paixão pelas histórias rocambolescas de Arsène Lupin de autoria do francês Maurice Leblanc. A obra havia sido publicada aqui no Brasil pela Editora Vecchi nos anos cinquenta com capas sugestivas e gritantes do desenhista dinamarquês Nils (algumas das quais você pode ver nesta postagem), de modo que naquela época já não estava mais nas livrarias, mas podia ser encontrada nas estantes das bibliotecas públicas. Viramos sócios das bibliotecas da Zona Sul — Copacabana, Gávea, Botafogo — onde garimpávamos a obra de Leblanc. Nos anos oitenta alguns dos livros da coleção foram retraduzidos e editados pela Nova Fronteira.

Alguns anos atrás descobri a leitura digital. Com ela você maximiza suas possibilidades de leitura, aproveitando momentos normalmente ociosos como uma fila que não anda, uma viagem torturante de avião, ou um percurso de metrô ou ônibus, etc. para curtir o maior prazer da vida, que não é sexo nem comida, e sim a leitura. Pois tive a sorte de deparar com a obra completa do Maurice Leblanc sobre Arsène Lupin em ebook no original francês (foto superior) a um preço de banana, e enveredei pelo projeto de relê-la (agora no idioma original, que eu não dominava tão bem nos anos sessenta), como que me transpondo à adolescência e tentando reviver as velhas emoções.

Mas quem "foi" Arsène Lupin? O primeiro livro da coleção o define como "gentlemen-cambrioleur", um gatuno cavalheiro, ou "ladrão de casaca", tradução que se consagrou. Mas é um gatuno "com princípios": só rouba dos miliardários e não comete assassinatos (ao menos não voluntariamente). Mas é mais do que isto: aventureiro, descobridor de tesouros fabulosos, decifrador de enigmas cabulosos, detetive (que desmascara o criminoso mas se apropria do produto do roubo), mente privilegiada que deixa Sherlock Holmes no chinelo (como você verá em Arsène Lupin contra Herlock Sholmes). 

A seguir a lista das obras em ordem cronológica de publicação em francês e em seguida seus resumos, os mais sucintos traduzidos do verbete Chronologie de la vie d'Arsène Lupin  da Wikipedia francesa, os mais detalhados resultantes de minhas releituras recentes das obras.

1. Arsène Lupin gentleman cambrioleur (Arsène Lupin, Ladrão de Casaca - 1907)

2. Arsène Lupin contre Herlock Sholmès (Arsène Lupin contra Herlock Sholmes - 1908)

3. L'Aiguille creuse (A Agulha Oca - 1909)

4. 813 (publicado pela Vecchi em dois volumes, 813 e Os Três Crimes de Arsène Lupin; reeditado pela Nova Fronteira como 813 - 1910)

5. Le Bouchon de cristal (A Rolha de Cristal - 1912)

6. Les Confidences d'Arsène Lupin (As Confidências de Arsène Lupin - 1913)

7. L'Éclat d'obus (O Estilhaço de Obus na edição Vecchi; O Estilhaço de Granada na edição Nova Fronteira - 1915)

8. Le Triangle d'or (publicado pela Vecchi em dois volumes: O Triângulo de Ouro e A Câmara da Morte - 1917)


9. L'Île aux trente cercueils (publicado pela Vecchi em dois volumes: A Ilha dos Trinta Ataúdes e O Flagelo de Deus - 1919)


10. Les Dents du tigre (publicado pela Vecchi em dois volumes: Os Dentes do Tigre e O Segredo de Florence - 1920)


11. Les Huit Coups de l'horloge (As Oito Pancadas do Relógio - 1923)


12. La Comtesse de Cagliostro (A Condessa de Cagliostro - 1924)


13. La Demoiselle aux yeux verts (A Moça dos Olhos Verdes - 1927)


14. L'Homme à la peau de bique (1927)


15. L'Agence Barnett et Cie (A Agência Barnett & Cia. - 1928)


16. La Demeure mystérieuse (A mansão misteriosa - 1928)


17. La Barre-y-va (O Mistério do Rio do Ouro - 1930)


18. Le Cabochon d'émeraude (1930)


19. La Femme aux deux sourires (A Mulher de Dois Sorrisos - 1932)


20. Victor, de la Brigade mondaine (Arsène Lupin, na Pele da Polícia - 1934)


21. La Cagliostro se venge (A Vingança da Cagliostro - 1935)


22. Les Milliards d'Arsène Lupin (1939)


23. Le Dernier Amour d'Arsène Lupin (2012)


1. Arsène Lupin gentleman cambrioleur (Arsène Lupin, Ladrão de Casaca - 1907), coletânea de 9 contos


A coletânea agrupa as seguintes histórias:

  • A prisão de Arsène Lupin, publicação original em Je sais tout, n° 6, 15 de julho de 1905. Ao desembarcar nos EUA de uma viagem no transatlântico Provence, o “ladrão de casaca” Arsène Lupin — “o incansável ladrão cujas proezas enchiam as páginas dos jornais havia meses [...] o caprichoso gentil-homem que só operava nos castelos e nos salões [...] o homem dos mil disfarces” — é preso por seu arqui-inimigo, o inspetor Ganimard. Mas graças ao seu poder de sedução, consegue se desvencilhar, antes, das “provas do crime”, dinheiro e joias furtados durante a travessia marítima.
  • Arsène Lupin na prisão, publicação original em Je sais tout, n° 11, 15 de dezembro de 1905, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin en prison. Mesmo trancafiado atrás das grades, Arsène Lupin, através de um estratagema, consegue surrupiar obras de arte valiosas (dois Rubens, um Watteau etc.) do castelo "inexpugnável" do Barão Cahorn.
  • A evasão de Arsène Lupin, publicação original em Je sais tout, n° 12, 15 de janeiro de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin: L'Évasion d'Arsène Lupin. Arsène Lupin cria uma expectativa de que fugirá da prisão e, fazendo-se passar por outra pessoa (o pobre-coitado Baudru Désiré), acaba conseguindo sair de lá.
  • O viajante misterioso, publicação original em Je sais tout, n° 13, 15 de fevereiro de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin : Le Mystérieux Voyageur. Em viagem de Paris a Rouen, Arsène Lupin (sob o pseudônimo Guillaume Berlat) sofre uma agressão e assalto, mas depois ajuda a polícia (embora a rigor ele próprio seja procurado pela polícia!) a prender o ladrão: o assassino Pierre Onfrey.
  • O colar da rainha, publicação original em Je sais tout, n° 15, 15 de abril de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin : Le Collier de la reine. Numa noite após uma recepção, o lendário “colar da rainha” (que pertenceu a Maria Antonieta) desaparece misteriosamente da mansão do conde e condessa de Dreux-Soubise. Anos depois, em almoço em casa do casal, um tal de cavalheiro Floriani, que o conde conhecera na Sicília (mas que na verdade é Arsène Lupin sob um de seus muitos disfarces) elucida o mistério. [O ladrão foi ele próprio, aos seis anos, para ajudar a mãe Henriette, parente do casal e que trabalhava de camareira da condessa.]
  • O cofre-forte da Sra. Imbert, publicação original em Je sais tout, n° 16, 15 de maio de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin : Le Coffre-fort de madame Imbert. Primeiro golpe da "carreira" de Arsène Lupin, verdadeiro "batismo de fogo", e a primeira vez que ele usa este nome. De olho na suposta fortuna do casal Imbert, Lupin trama um ataque noturno contra o Sr. Ludovic e finge salvá-lo. Este, agradecido, contrata Lupin como seu secretário particular, que se aproveita da situação para assaltar o cofre-forte. Só que os títulos lá guardados eram falsos! "Foi a única vez, durante toda a minha vida, que fui logrado. Mas, com todos os demônios, essa vez valeu por muitas e boas!"
  • Herlock Sholmes chega tarde, publicação original em Je sais tout, n° 17, 15 de junho de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin : Sherlock Holmes arrive trop tard. Observe-se que, entre a publicação no periódico e a publicação na coletânea, Sherlock Holmes tornou-se Herlock Sholmès, em virtude de um protesto de Conan Doyle, «pai do verdadeiro Sherlock Holmes». Primeiro encontro entre o "ladrão nacional" francês Arsène Lupin e o "grande policial inglês [...] Herlock Sholmes, o mais extraordinário decifrador de enigmas", girando em torno de uma passagem secreta, cujo segredo se perdeu com o tempo, que dá acesso ao castelo de Thibermesnil, cujos tesouros são cobiçados por Lupin (aqui sob o pseudônimo de Horace Velmont).
  • A pérola negra, publicação original em Je sais tout, n° 18, 15 de julho de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin : La Perle noire. Arsène Lupin penetra no apartamento da viúva Zalti, condessa de Andillot, com o intuito de roubar a pérola negra, presente de um imperador. Depara com seu corpo, assassinada, e constata que a pérola desapareceu. Tempos depois Lupin extorque a pérola do ladrão e assassino, que havia sido absolvido pela Justiça, por falta de provas, provas essas que o próprio Lupin, maquiavelicamente, havia removido.
  • O sete de copas, publicação original em Je sais tout, n° 28, 15 de maio de 1907, sob o título Comment j'ai connu Arsène Lupin : Le Sept de cœur. Fatos estranhos e inexplicáveis ocorrem na casa do narrador (Maurice Leblanc), a qual, à sua revelia, servia de esconderijo dos planos roubados do submarino Sete de Copas. As investigações o levam a descobrir que seu amigo Jean Daspry na verdade é Arsène Lupin, de quem se torna biógrafo. "E eis como conheci Arsène Lupin. [...] Eis como estabeleci laços de amizade muito agradáveis com o nosso grande homem e como, pouco a pouco, graças à confiança com que ele se digna honrar-me, me tornei seu mui humilde, mui fiel e mui reconhecido historiógrafo."


NOTA: Títulos em português e citações do texto da tradução de João Távora para a Editora Vecchi nos anos 50. As histórias estão aqui em ordem cronológica da publicação original. No livro (de 1907) após as cinco primeiras histórias a ordem é: "O sete de copas", "O cofre-forte da Sra. Imbert", "A pérola negra" e "Herlock Sholmes chega tarde", fechando o volume e preparando o leitor para o livro seguinte, Arsène Lupin contra Herlock Sholmes (1908).

2. Arsène Lupin contre Herlock Sholmès (Arsène Lupin contra Herlock Sholmes - 1908), coletânea compreendendo dois episódios: "A Dama Loura" e "A Lâmpada Judaica"



Arsène Lupin contra Herlock Sholmes é uma coletânea de duas histórias escritas por Maurice Leblanc, sobre as aventuras opondo Arsène Lupin a Herlock Sholmes.

A coletânea contém duas narrativas:

1) La Dame blonde (A Dama Loura), publicada em Je sais tout de 15 de novembro de 1906 até 15 de abril de 1907. Divide-se em seis capítulos. Dois acontecimentos envolvendo uma dama loura e desaparecimentos misteriosos — o bilhete premiado do Sr. Gerbois e o diamante azul da condessa de Crozon — fazem com que chamem o célebre detetive inglês Herlock Sholmes, único capaz de enfrentar Lupin. Num brilhante trabalho investigativo, Sholmes descobre o segredo das quinze casas projetadas pelo arquiteto Destangue e "retocadas", com "tubos acústicos, passagens secretas, tábuas de assoalho que deslizam, escadas escondidas", por Lupin para lhe servirem de esconderijo e outros fins criminosos. Só que, nesse meio-tempo, Lupin lhe prega uma série de peças.


2) La Lampe juive (A Lâmpada Judaica), publicada em Je sais tout de 15 de julho a 15 de agosto de 1907. Divide-se em dois capítulos. O Barão Imblevalle, a quem roubaram uma lâmpada contendo uma joia preciosa, chama Herlock Sholmes para encontrá-la. Lupin envia uma carta ao detetive pedindo que não intervenha. Sholmes a ignora e vai para Paris com Wilson. Finalmente consegue encontrar a lâmpada judaica, mas descobre que sua investigação teve o efeito oposto ao pretendido. Na verdade perturbou os planos de Lupin que pretendia ajudar a família do Barão. Primeira menção na obra sobre Lupin do lado "bom" do "ladrão de casaca". "— Então, você faz o bem também? [pergunta Sholmes] — Quando tenho tempo. Isso me diverte. Acho graça que, na aventura que nos ocupou, eu tenha sido o gênio bom que socorre e salva, e você o mau que traz o desespero e as lágrimas. [responde Lupin]"

3. L'Aiguille creuse (A Agulha Oca - 1909), romance


Como os dois volumes anteriores das histórias de Arsène Lupin, foi inicialmente publicado em forma de folhetim na revista Je sais tout, de 15 de novembro de 1908 a 15 de maio de 1909.

O volume foi lançado em junho de 1909 com algumas modificações.

Arsène Lupin opõe-se dessa vez a Isidore Beautrelet, jovem estudante de retórica e detetive amador, que lhe dará muito trabalho. A Agulha Oca é o segundo segredo da rainha Maria Antonieta e Cagliostro, transmitido pelos reis de França e agora conhecido por Arsène Lupin. A famosa agulha contém os mais fabulosos tesouros jamais imaginados, reunindo os dotes das rainhas ("Todas as pedras preciosas cintilavam, todas as cores resplandeciam, o azul das safiras, o fogo dos rubis, o verde das esmeraldas, o sol dos topázios"), além das peças roubadas pelo próprio Lupin, entre elas a Mona Lisa original.

Quando Isidore Beautrelet descobre o Castelo da Agulha no departamento de Creuse, julga ter descoberto a solução do enigma ("creuze" em francês significa "oco"). Mas ele ignorava que o rei Luís XIV mandara construir o castelo para desviar os curiosos da verdadeira agulha oca, na Normandia, perto da cidade de Le Havre, onde Arsène Lupin se escondera. 

Depois de muito refletir, Beautrelet percebe que todos os eventos em torno da Agulha Oca ocorreram na Normandia, no triângulo de Caux, limitado por Rouen, Dieppe e Le Havre. Parte para lá a fim de averiguar e enfim descobre a Agulha de Etretat, oca. Decifra o código enigmático que contém o segredo do acesso à Agulha Oca e pede ajuda a Ganimard para prenderem Lupin e se apoderarem do esconderijo e tesouro. A certa altura, Ganimard guarda a saída enquanto Beautrelet avança até o núcleo da Agulha. Lá, para seu espanto, aguardam-no para uma refeição Lupin e sra. Lupin mostra todos os tesouros acumulados na Agulha Oca — entre eles, “a Gioconda de Leonardo da Vinci, a verdadeira” — que lega à França com a condição de que sejam instalados no Museu do Louvre na Sala Arsène Lupin. 

Lupin foge num submarino (cujo projeto foi tema da história "O Rei de Copas" de Arsène Lupin, Ladrão de Casacacom Mlle Raymonde, com quem se casou, para o Porto Lupin, local protegido onde pretende abandonar a vida de ladrão de casaca e viver com sua esposa como um “lavrador de casaca”. Mas o arqui-inimigo Herlock Sholmes o espera e, no entrevero, mata a mulher de Lupin.

4. 813 (1910) — romance editado pela Vecchi nos anos 50 em dois volumes: 813 e Os Três Crimes de Arsène Lupin, reeditado em 1976 pela Nova Fronteira como 813



Uma das histórias mais dramáticas de Arsène Lupin, cheia de reviravoltas e revelações (uma delas envolvendo a infiltração de Lupin nas forças policiais), com um assassino cruel à solta, cuja identidade, como numa história de Agatha Christie, é imprevisível. Vítima de terríveis golpes do destino, o normalmente afável e charmoso Lupin se vê culpado por três mortes. A história gira em torno de um antigo grão-ducado cuja restauração desperta a ambição de Lupin (que o negocia com o Kaiser alemão em troca de documentos secretos), bem como a de seu inimigo misterioso e sanguinário. Ao final Lupin, movido pelo sentimento de culpa, simula sua morte e vai parar na Legião Estrangeira, no Marrocos.

5. Le Bouchon de cristal (A Rolha de Cristal - 1912), romance



Lupin enfrenta Daubrecq, parlamentar francês e chantagista inescrupuloso que quer utilizar uma lista de 27 personalidades implicadas num escândalo financeiro para semear a ruína e caos no país. O documento comprometedor está dissimulado numa rolha de cristal.

6. Les Confidences d'Arsène Lupin (As Confidências de Arsène Lupin - 1913), coletânea de 9 contos




  • O Jogo dos Raios de Sol, publicação original em Je sais tout n° 75, 15 de abril de 1911. Uma mensagem em código projetada por raios de sol na fachada de uma casa (cujos erros ortográficos compõem a palavra ETNA) leva Lupin a decifrar o mistério do desaparecimento da esposa do barão Repstein, que fugiu levando toda sua fortuna. Lupin acaba encontrando o corpo da baronesa no cofre-forte do barão.
  • A Aliança de Casamento, publicação original em Je sais tout n° 76, 15 de maio de 1911. Um anel onde Yvonne d’Origny gravou o nome de um antigo admirador poderá servir de ensejo ao seu marido para obter o divórcio e a guarda do filho. Este antigo admirador na verdade foi Lupin, sob o pseudônimo de Horace Velmont, que agora se faz passar pelo joalheiro para salvá-la do vexame.
  • O Signo da Sombra, publicação original em Je sais tout n° 77, 15 de junho de 1911. Ao seguir uma mulher (Louise d'Ernemont) que por coincidência possui um quadro idêntico ao de seu biógrafo (o narrador deste episódio), Lupin (sob o pseudônimo de capitão Janniot) acaba descobrindo valiosos diamantes escondidos por uma vítima do Terror.
  • A Armadilha Infernal, publicação original em Je sais tout n° 78, 15 de julho de 1911. A viúva Dugrival, cujo marido se matou após ter uma fortuna roubada por Lupin no hipódromo, jura vingança. Ela atrai o ladrão de casaca a uma armadilha infernal, inescapável. Mas o "poder de sedução" de Lupin o salva.
  • A Echarpe de Seda Vermelha, publicação original em Je sais tout n° 79, 15 de agosto de 1911. Ganimard cai numa armadilha armada por Lupin e, valendo-se de informações por este repassadas, desvenda um assassinato, mas a joia que o assassino tentava roubar vai parar nas mãos de Lupin.
  • A Morte Que Espreita, publicação original em Je sais tout n° 80, 15 de setembro de 1911. A partir de uma carta que Jeanne Darcieux escreveu mas depois rasgou e jogou fora, Lupin (sob o pseudônimo de Paul Daubreuil) descobre que alguém procura assassiná-la e desmascara o criminoso (que parecia acima de qualquer suspeita), salvando-a.
  • O Casamento de Arsène Lupin, publicação original em Je sais tout n° 94, 15 de novembro de 1912. Fazendo-se passar pelo sobrinho do Duque de Sarzeau-Vendôme, que mantém aprisionado num barco, Lupin consegue desposar sua romântica filha, Angélique, detentora de uma fortuna.
  • O Canudinho de Palha, publicação original em Je sais tout n° 96, 15 de janeiro de 1913. Lupin descobre o ladrão que se escondeu na fazenda do Patrão Goussot (disfarçado de espantalho) após roubar seu dinheiro, mas embolsa o produto do roubo.
  • Edith, Pescoço de Cisne, publicação original em Je sais tout n° 97, 15 de fevereiro de 1913. Partindo do pressuposto de que "com Lupin não há mortes", Ganimard desvenda o roubo misterioso da coleção de tapeçarias do supostamente brasileiro Coronel Sparmiento. Afinal, "não devemos, quando se trata [de Arsène Lupin], esperar exatamente o que é inverossímil e estupeficador?"


7. L'Éclat d'obus (O Estilhaço de Obus na edição Vecchi; O Estilhaço de Granada na edição Nova Fronteira - 1915), romance



Lupin intervém discretamente para ajudar Paul Delroze a frustrar um complô alemão.

8. Le Triangle d'or (publicado pela Vecchi em dois volumes: O Triângulo de Ouro e A Câmara da Morte - 1918), romance


Divide-se em duas partes: "La Pluie d'Étincelles" ("A Chuva de Faíscas"), publicada em 1953 pela Vecchi como um volume independente intitulado O Triângulo de Ouro e "La Victoire d'Arsène Lupin" ("A Vitória de Arsène Lupin"), lançado igualmente como um volume independente sob o título A Câmara da Morte. O personagem principal de Maurice Leblanc só faz sua aparição na segunda parte como um Deus ex machina, salvando Patrício e Corália da morte e desvendando o mistério do triângulo de ouro.
Cronologicamente, a ação se situa entre o aparente "suicídio" de Lupin (lançando-se do alto dos penhascos de Capri) e a subsequente partida para a Legião Estrangeira, ao final do sombrio romance 813, e sua reaparição pública em Os Dentes do Tigre.


Primeira Parte: O Triângulo de Ouro - Um mutilado de guerra, o capitão Patrício Belval, frustra uma tentativa de sequestro de uma enfermeira conhecida como Mamãe Corália. Apaixonado por ela, descobre que é casada. Seu marido, o banqueiro Essarès Bey, ligado a um complô para remeter ilegalmente ao exterior as reservas de ouro da França, aparentemente morre assassinado. Parte desse ouro, que a eclosão da Primeira Guerra Mundial impediu de ser expedido, jaz oculto na propriedade de Essarès, sem que ninguém o encontre. Além disso, um álbum de fotografias encontrado com Essarés, uma ametista quebrada e outros sinais entrelaçam os destinos de Patrício e Corália. Seus pais viúvos, que se amavam, morreram assassinados juntos, no mesmo dia. Durante todos esses acontecimentos, um inimigo oculto está sempre atacando. Ya-Bon, braço-direito de Patrício, sugere que chamem Lupin para desvendar o mistério. Mas ele não havia morrido ao saltar de um penhasco em Capri? Ao final Patrício e Corália caem na mesma armadilha que tirou a vida de seus pais.


Segunda Parte: A Câmara da Morte - Arsène Lupin, enviado à França em missão secreta para recuperar os trezentos milhões em ouro e assim influenciar os rumos da Primeira Guerra Mundial, salva Patrício e Corália da armadilha mortal, põe-se no encalço do inimigo implacável, descobre o paradeiro do ouro (aplicando o princípio do conto A Carta Roubada de Poe), revela o verdadeiro destino do pai de Patrício e desmascara o perseguidor do casal, que se valerá de uma troca de identidades para agir com mais desenvoltura (a troca foi entre Essarès e seu secretário Simeão Diodokis).

9. L'Île aux trente cercueils (publicado pela Vecchi em dois volumes: A Ilha dos Trinta Ataúdes e O Flagelo de Deus - 1919), romance



Véronique casa-se com o cavalheiro polonês de má reputação Alexis Vorski, contra a vontade do pai. No ano seguinte, este rapta a criança nascida do casal, mas avô e neto morrem no naufrágio de um iate. Véronique recolhe-se a um convento carmelita e, mais tarde, torna-se uma humilde modista em Besançon. O polonês Alexis Vorski, acusado de espionagem durante a guerra, é detido, foge e morre assassinado na floresta de Fontainebleau, sendo lá enterrado. Uma profecia de família rezava que Vorski, filho de rei, morreria da mão de um amigo e sua esposa seria crucificada (e de fato Vorski é filho bastardo do rei Luís da Baviera com uma ocultista). Ao assistir a um filme, Verónique vê a cena de uma cabana abandonada onde aparece, nas tábuas da velha porta, suas iniciais de solteira: V.d’H. Ela contrata a Agência Dutreillis para aclarar o enigma e esta a orienta a ir até a cabana, onde depara com um cadáver e uma folha de papel com um desenho de quatro mulheres crucificadas em quatro troncos de árvore, sendo uma delas a própria Véronique. Seguindo certas pistas, Véronique vai dar em uma praia. Lá encontra Honorine, que revela que seu pai e filho estão vivos na Ilha de Sarek, também conhecida como Ilha dos 30 Ataúdes

Segundo uma velha profecia, no espaço de doze meses os trinta recifes principal que cercam a ilha, chamados de trinta ataúdes, terão suas trinta vítimas, mortas de morte violenta, entre elas quatro mulheres mortas na cruz. 1917 seria o ano fatídico. Véronique reencontra seu ex-marido Vorski, o "flagelo de Deus", que na verdade simulara sua morte, viera se refugiar na ilha e acabara se convencendo, com base numa antiga profecia de um monge beneditino do século XV, ser ele uma espécie de “ungido” destinado a resgatar a Pedra de Deus, que dá a vida e a morte, e se tornar todo-poderoso. Vorski revela seu amor por Véronique e promete que, se esta se submeter, reinará como uma imperatriz, elevando-se acima das outras mulheres. Do contrário, morrerá na cruz. Ela prefere a morte. A intervenção de um velho druida, ou melhor, Don Luis Perennna, ou ainda melhor, Arsene Lupin, salva Véronique da morte. Lupin (em seu estilo fanfarrão e justiceiro) faz Vorski de gato e sapato e revela toda a história da laje dos reis da Boêmia (um dos quatro fabulosos segredos de Cagliostro), que em tempos antigos veio parar na ilha, numa segunda fase foi associada a cultos druidas e acabou sendo ocultada pela Igreja, dando origem a lendas, superstições e profecias. Os poderes terapêuticos, e destruidores, da Pedra de Deus deviam-se à sua natureza radioativa.

10. Les Dents du tigre (publicado pela Vecchi em dois volumes: Os Dentes do Tigre e O Segredo de Florence - 1920), romance


Ainda sob o nome de Don Luis Perenna, Lupin retorna a Paris para receber a herança do Cosmo Mornington, um rico bilionário americano com quem havia simpatizado cinco anos antes. Lupin desmascara seu assassino, que, como assinatura, deixava marcas de dentes em uma maçã. Em troca do perdão do Presidente do Conselho, Valenglay, Arsene Lupin doa à França seu reino da Mauritânia.

11. Les Huit Coups de l'horloge (As Oito Pancadas do Relógio - 1923), coletânea de 8 contos



Sob o nome de Príncipe Sernine ou ainda Príncipe Rénine, Lupin decifra enigmas policiais em nome de Hortense Daniel, que procura seduzir.

12. La Comtesse de Cagliostro (A Condessa de Cagliostro - 1924), romance


Lupin salva a vida de Joséphine Balsamo, a condessa de Cagliostro, e toma conhecimento de quatro fabulosos segredos da rainha Maria Antonieta e Cagliostro.

13. La Demoiselle aux yeux verts (A Moça dos Olhos Verdes - 1927), romance


Lupin encontra-se envolvido na busca de uma suposta Fonte da Juventude, oculta sob um lago em Auvergne. Conhece a dama dos olhos verdes e a dama dos olhos azuis.

14. L'Homme à la peau de bique (1927), conto isolado


Lupin se ocupa do enigma do homem da pele de cabra.

15. L'Agence Barnett et Cie (A Agência Barnett & Cia. - 1928), coletânea de 8 contos



Sob a identidade do detetive Jim Barnett, Lupin decifra ao menos nove enigmas com a ajuda, nem sempre dada de boa vontade, do jovem inspetor Théodore Béchoux.

16. La Demeure mystérieuse (A mansão misteriosa - 1928), romance


Sob o nome de Jean d'Enneris, Arsène Lupin investiga o duplo sequestro de Régine Aubry e Arlette Mazolle e soluciona o mistério da mansão Mélamare.

17. La Barre-y-va (O Mistério do Rio do Ouro - 1930), romance


Lupin, sob o pseudônnimo de Raoul d'Avenac, encontra-se na Normandia para solucionar o enigma da morte do senhor Guercin.

18. Le Cabochon d'émeraude (1930), conto isolado


Sob o nome de barão d'Enneris, Lupin localiza uma famosa esmeralda.

19. La Femme aux deux sourires (A Mulher de Dois Sorrisos - 1932), romance


Lupin adquire, sob a identidade de don Luis Perenna, o castelo de Volnic, perto de Vichy, e soluciona a morte de Elisabeth Hornann, derrotando o inspetor Gorgeret.

20. Victor, de la Brigade mondaine (Arsène Lupin, na Pele da Polícia - 1934), romance


Um ladrão age em nome de Arsene Lupin. O verdadeiro Lupin, sob o nome de Victor Hautin, inspetor da Brigada Mundana, desmascara o usurpador, um certo Antoine Bressacq.

21. La Cagliostro se venge (A Vingança da Cagliostro - 1935), romance


Lupin, sob o pseudônimo de Raoul d'Averny, cai numa cilada armada pela condessa de Cagliostro antes de morrer, reencontra seu filho Jean e o ajuda a se defender de uma acusação falsa de homicídio.

22. Les Milliards d'Arsène Lupin (1939), romance póstumo com a colaboração de sua filha Marie-Louise


Lupin encontra-se nos Estados Unidos para vigiar as maquinações de uma organização criminosa que quer lhe roubar a fortuna.

23. Le Dernier Amour d'Arsène Lupin (2012), romance póstumo datilografado, permaneceu em estado de rascunho, editado em 2012 pela Balland


Lupin apaixona-se por Cora de Lerne e a desposa.

RESUMO DE LIVRO: BALÃO CATIVO de PEDRO NAVA


Balão Cativo é o segundo volume das memórias do médico e escritor mineiro Pedro Nava, “dedicado à recuperação da infância do autor [...] e sua transição do ambiente doméstico para o mais público dos colégios” (André Botelho, "Balão cativo: o aprendizado da memória". Recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte e o prêmio Machado de Assis.

Resumo

A obra, publicada pela Editora José Olympio em 1973 (foto acima; atualmente a obra memorialística de Nava é publicada pela Companhia das Letras), narra os acontecimentos após a morte do pai, em 1911, quando a família (Pedro, seus irmãos mais novos e a mãe, Diva Mariana Jaguaribe Nava) retorna a Juiz de Fora, onde moram os avós maternos do autor. “São anos difíceis os passados no sobrado nada acolhedor da avó materna, Inhá Luísa.” Lá retorna ao Colégio Andrès (onde permaneceu pouco tempo porque a mãe atrasou o pagamento das mensalidades) e depois vai para no Colégio Lucindo Filho, do Professor Machado Sobrinho, onde se ministrava “instrução ‘principalmente moral’, ‘sobretudo cívica’”. Com a morte da avó materna, em 1913, a família muda-se a 25 de dezembro para Belo Horizonte, indo morar no bairro Floresta. Lá Nava cursa o terceiro e quarto primário, em 1914-15, no Ginásio Anglo-Mineiro, que segue o modelo educacional inglês e criado para dotar a capital mineira de uma instituição moderna, “que fosse, em Minas, o seu Eton e o anti-Caraça”.

Em 29 de fevereiro de 1916 Nava viaja de trem, sozinho, para o Rio de Janeiro onde morará com os tios Antônio Salles e Alice (irmã de seu pai) na Pensão Moss, na Rua Haddock Lobo, 252, no Engenho Velho e fará vestibular para o internato do Colégio Pedro II, onde ingressará em 4 de abril de 1916 no primeiro ano ginasial. O tio, homem dedicado às letras, com ideias progressistas e liberais que transmite ao sobrinho, o levará à Livraria Garnier, reduto de intelectuais, e a passeios pelo Centro carioca (“Devo a meu tio e a estes passeios o amor que nutro pelas casa velhas do Rio antigo”). A narração dos anos no internato do Colégio Pedro II, que ocupa o último capítulo do livro, “Morro do Barro Vermelho”, prosseguirá no volume seguinte, Chão de Ferro.

O título, “Balão Cativo”, refere-se a um balão preso por cordas e que por isso não consegue ganhar altura. O termo é mencionado duas vezes na obra. A primeira, no Capítulo II, quando contrasta os céus mineiros com aqueles do litoral:

Só paisagens de Minas. De suas estradas, de suas montanhas, de seus horizontes perdidos — cheios daqueles cúmulos-nimbos e alticúmulos como só se veem das serras alcandoradas das nossas Gerais — não como os balões cativos de paina dos litorais, mas como a sucessão de degraus invertidos que se afastam nas perspectivas infinitas.

A segunda menção ocorre no Capítulo III quando fala de um velho livro de contos de Andersen, que o faz viajar pela imaginação, mas “apenas num balão cativo [...] de que a roldana vai puxar o cabo e fazê-lo voltar inexoravelmente ao chão!”. No primeiro volume das memórias (Baú de Ossos), Nava também faz menção à "ascensão de balão cativo no parque de Juiz de Fora".

A obra abrange o período de formação do autor, rememorando em detalhes sua vivência e aprendizado nos colégios Anglo-Mineiro e Dom Pedro II e no convívio com o tio Salles. Como tal, compara-se a O Ateneu, clássico brasileiro de Raul Pompeia sobre a vida escolar, do qual um trecho é citado em Balão Cativo.


CAPÍTULOS
A obra divide-se em 4 capítulos, cujos nomes são todos topônimos:

Capítulo I: MORRO DO IMPERADOR

O Morro do Imperador é o “mais alto dos que circulam a cidade” de Juiz de Fora. O capítulo narra o período em que Pedro, a mãe e irmãos ficam morando no sobrado da avó materna em Juiz de Fora. Desfila aqui toda uma galeria de familiares, negrinhas e mulatas crias da casa, moradores da cidade: prima Maria Luísa Paleta, tias Rolinha e Berta, bisavó Clodes, tio Dominguinhos etc. O único ausente é o Major, marido de Inhá Luísa, que "fugiu" da fúria da esposa para outras plagas. O capítulo conta também uma viagem ao Rio de Janeiro no final de 1911 para a visita ao cemitério no Dia de Finados. Aqui Nava esboça uma história dos cemitérios do Rio de Janeiro.

O menino Pedro já descobre uma vocação que o acompanhará vida afora: flanar pela cidade. Para isso, dava um jeito de "fugir" do colégio.

“O colégio era de uma caceteação mortal. Quando estava demais, eu disfarçava, pedia para ir lá fora, volteava a casa, saía pelo portãozinho de cima e ia banzar para o jardim da Matriz: ia escorregar nos gramados em rampa da igreja de São Sebastião; ia deslizar monte abaixo, sentado numa tábua, nos desbarrancamentos do plano inclinado que o Saint-Clair estava construindo no morro do Imperador; ia correr sozinho entre as árvores, as araras e os irerês do Parque Halfeld. Ninguém no colégio dava por minha falta e aos poucos fui aperfeiçoando minhas fugas, descobrindo a técnica das gazetas. Explorava a cidade.”

Nessa época, Pedro recebe dos colegas, no recreio, uma “sólida introdução à pornografia e à sacanagem”, e aprende a pesquisar palavrões no dicionário. Toma conhecimento também, através de um mico enforcado e depois mal sepultado, do fenômeno da decomposição do corpo após a morte, espécie de obsessão que o acompanhará vida afora. “Pobres, pobres, pobres mortos! Vocês estouram como nas Danças macabras e no afresco horrendo do Triunfo da morte, do Campo-Santo de Pisa. Ficam verdes, amarelos, roxos, furta-cor, engordam e murcham, crescem e minguam, emitem gases e o artifício dos fogos-fátuos!” Com a morte da avó, a família decide mudar para Belo Horizonte.

Capítulo II: SERRA DO CURRAL

A Serra do Curral está ligada às origens de Belo Horizonte. O capítulo começa com a chegada da família em Belo Horizonte, onde se hospeda por quinze dias em casa de tio Júlio e tia Joaninha, de regime espartano, onde se acordava às quatro e meia da madrugada, tomava-se café às cinco (“torrada escorrendo manteiga, café com leite, pratarradas de mingau de fubá com açúcar e queijo picado, broa de milho, mãe-benta”), às cinco e meia todos os “marmanjos” já haviam saído, “trabalhando ou trocando perna na rua”, e às dez horas em ponto estavam todos de volta para o almoço (“Tudo nadava em banha de porco”). Depois a família se instala numa casa na Rua Januária, 327, no bairro de Floresta.

Em Belo Horizonte Pedro trava conhecimento com a solidão, sua companheira vitalícia (Solitude, ma camarade). Também ali faz seus passeios exploratórios — “os périplos indizíveis que me entregariam Belo Horizonte” — e traça um paralelo entre Paris e a capital mineira. Em 1914-15 cursa o Ginásio Anglo-Mineiro, tentativa de trazer um ensino “moderno” para uma sociedade conservadora, de curta duração: manteve-se em atividade apenas esses dois anos. Na biblioteca do colégio Pedro deleita-se com “os livros — nossos escravos da lâmpada, amigos de sempre, senhores despóticos de nosso tempo”. Através deles, “o mundo foi se abrindo para meus onze anos e multidões passaram a desfilar diante de meus olhos”.

Capítulo III: ENGENHO VELHO

Engenho Velho é o bairro onde moram os tios de Nava, Antônio Salles e Alice, na Pensão Moss, uma “casa de hospedar” de um gênero que não existe mais. “No princípio do século elas enxameavam [...] Serviam de residência a altos funcionários, a militares entre major e general, a comerciantes na altura da gerência [...]” No escritório do tio, “as seis estantes chegando quase ao teto, suas tábuas vergando aos peso daquele mundo de livros” alimentam o gosto pela leitura do autor. “Depois da biblioteca do Anglo que eu esgotara, eu tinha ali rumas de literatura nacional, portuguesa, inglesa, francesa.” “O que ele [o tio] mandava é que eu lesse. O que fosse. Livro. Revista. Jornal. Até catálogo de telefone. Tudo era sagrado porque tudo era letra impressa.”

Com o tio, passeia no Centro e conhece a Livraria Garnier (“Lembro até hoje a primeira vez que entrei na livraria ilustre”), frequentada por João do Rio (“gorducho, cifótico, bedonante e daquela polidez exemplar”), pela poetisa Gilka Machado, por Coelho Neto (“guardei bem sua figura de olhos esbugalhados, seus óculos de míope, seu cabelo en brosse, sua testa curta, sua mofina estatura”), Lima Barreto (“estava que nem gambá, todo ardido e suado de vir rolando dos seus subúrbios”), Alberto de Oliveira (“o deus de bigodes encerados”).

Ao narrar os passeios pelo Rio antigo com o tio, Nava discorre sobre sua destruição recente — “Uma cidade americana está sendo erigida sobre os escombros da cidade francesa que Passos construíra, derrubando a primitiva portuguesa” — e faz uma declaração de amor à cidade:

“O lugar onde eu moro é a Muito Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. É a cidade de Estácio e Salvador de Sá. [...] A de Machado de Assis e João do Rio. [...] A de Vinicius. [...] Esta é a minha cidade, saudade! a cidade que escolhi para vida, paixão e morte do mineiro despencado do seu Caminho Novo. A cidade onde todos se abraçam no mesmo bloco e seguem sob o mesmo estandarte rutilante.”

O capítulo se encerra com uma espécie de biografia do tio Salles, que em fevereiro de 1918 embarca de volta ao Ceará.

Capítulo IV: MORRO DO BARRO VERMELHO

Trata-se de um morro em São Cristóvão ao pé do qual se situa o colégio Pedro II. Nava começa o capítulo narrando a história desse tradicional colégio, onde ingressa a 4 de abril de 1916 (“Eu era o náufrago Pedro da Silva Nava, aluno 129, primeiro ano efetivo, quarta divisão do internato do Colégio Pedro II”) . Conta os trotes humilhantes a que são submetidos os calouros, levando-o, pela primeira vez na vida, a pensar em se matar, descreve o aprendizado sexual (“Com treze anos incompletos vim para o Pedro II e, ao fim de quinze dias dessa universidade intensiva, conquistei o diploma do terceiro grau de minha educação pornográfica”), os livrinhos pornográficos, a zona do meretrício (“Havia velhas hediondas e meninas de uma beleza radiante e apodrecida”), a “autogratificação” (masturbação). A narrativa de seus anos no Pedro II prosseguirá no terceiro volume de memórias, Chão de Ferro.

NOTA: Publiquei este resumo também na Wikipedia. Mas um conflito com um revisor prepotente (e imbecil) que mais parece um censor da ditadura militar, um tal de Yanguá (ou algo parecido) levou-me a cessar minha colaboração, que se estendia por anos, com essa tão útil enciclopédia e trazer meus resumos de livros aqui para o blog.