CENTENÁRIO DE ADONIAS FILHO, por CYRO DE MATTOS


Comemora-se neste ano o Centenário de Adonias Filho, escritor baiano aclamado pela crítica nacional, nascido em Itajuípe, antigo Pirangi, distrito de Ilhéus, em 27 de novembro de 1915. Deixou em sua obra de contista e romancista cinco livros que têm como cenário o Sul da Bahia na época da conquista da terra: Os Servos da morte (1946), Memórias de Lázaro (1952), Corpo vivo (1962), Léguas da promissão (1968), e As velhas (1975).

Adonias Filho é um autor de livros de ficção que engrandece a região cacaueira baiana no corpo das letras brasileiras. Legítimo homem da civilização cacaueira baiana sustentou pela vida afora um amor de perdição por suas raízes e histórias de sua gente. Nos últimos anos de vida, mudou-se do Rio de Janeiro e foi morar com a esposa na sua fazenda Aliança, em Inema. Depois de muito caminhar pela cidade grande, por entre edifícios e gente vinda de todos os lados, retornava aquele homem de voz mansa, cordial, ao chão de seus ancestrais.


É sabido que a obra literária motivada por certa região enfoca o peculiar de determinada cultura, tendo por fundo um cenário típico, cujas condições são refletidas no conteúdo da narrativa, conferindo-lhe nota especial. Os estudiosos dizem que o que faz uma obra regional é o fato de mostrar-se presa, em sua matéria narrativa, a um contexto cultural específico, que se propõe a retratar e de onde vai haurir a sua substância. Mas isso não a impede de adquirir sentido universal, em função de seu significado portador de humanidades, mensagem profunda da existência, fazendo com que ultrapasse as fronteiras da região retratada.

É o caso do consagrado narrador Adonias Filho. Um criador de histórias que tem como cenário a região cacaueira baiana na época da infância quando a selva era impenetrável e hostil. Percebe-se nesse artesão da linguagem uma moderna forma de ser contada a história, harmonizada com a representação das essencialidades da criatura, as quais são retiradas do ambiente onde habitam.

Ressalte-se que atrás do homem de determinada região, com sua típica problemática existencial do indivíduo, seus falares e maneiras próprias de relacionar-se com o mundo, há o que é próprio de qualquer ser humano onde quer que esteja. Razão e emoção, pensamento e sentimento. O pensamento e o sentimento dos personagens de Adonias Filho obedecem às forças cegas do destino, que resultam de solidões e desesperos impostos pelo ambiente de natureza bárbara. Como seres embrutecidos, primitivos, possuem os sentimentos reprimidos. São índios, negros, tropeiros, caçadores, pequenos agricultores arruinados.

Esse narrador de estilo sincopado e poético é uma das vozes fundamentais da melhor literatura de todos os tempos. Influenciado pelos dramaturgos gregos, Shakespeare, o cinema, do fundo trágico de seus romances, novelas e contos emanam personagens marcantes, em cujos passos e travessias ressoam os sortilégios da morte através de entonações bíblicas.

Homem culto, simples, ocupou cargos públicos importantes. Foi diretor da Biblioteca Nacional, Editora A Noite, Serviço Nacional de Teatro e pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Conquistou o Prêmio Nacional da Fundação Educacional do Paraná, Instituto Nacional do Livro, Jabuti, Pen Club do Brasil e Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto da obra. Seus romances foram publicados nos Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Venezuela e Bratislava. É tão importante o seu trajeto de vida para o Sul da Bahia que foi instalado em Itajuípe o Memorial Adonias Filho para preservar sua obra e acervo. O Centro Cultural de Itabuna, da Fundação Cultural da Bahia, leva o seu nome. Ele é o patrono da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

Depois que a esposa Rosita morreu em 1990, Adonias Filho caiu em grande tristeza. Ficava deprimido, em seus vagares pela casa-sede da fazenda. Dizem os conterrâneos que morreu de amor, em 2 de agosto daquele mesmo ano, na casa-sede de sua fazenda, em Inema. O homem criador de romances pujantes e densos não conseguiu suportar a solidão com a perda da mulher amada e companheira

Agora, no reencontro do legítimo homem do cacau com a sua paisagem, no seu regresso às origens, o bem vence o mal. Ultrapassa a morte pelas mãos do amor vivido entre Adonias e Rosita.

Cyro de Mattos é contista, romancista, poeta e cronista. Tem livros pessoais publicados em Portugal, França, Itália e Alemanha. Organizou e prefaciou a coletânea Histórias Dispersas de Adonias Filho. 

DOS DEFUNTOS, de Hélio Brasil


Não gosto de enterros, mesmo quando os defuntos não me são simpáticos. Ao meu enterro irei por absoluta impossibilidade de faltar, e para não ser descortês com os amigos. Além do que, enterro é envolvido e antecedido por expressões lúgubres e palavras exdrúxulas (em todos os sentidos): nosocômio, coma, CTI, laparatomia, entubação, necropsia, seguidos, em geral, por passamento, expiração, falecimento e velório, logo acompanhados por féretro, ataúde, essa, catafalco, cenotáfio e, mais, sepulcro, jazigo, tumba, exumação.

Este rebarbativo, sonoro e sombrio elenco poderia desqualificar a morte, não fossem a lágrima – amiga da tristeza, mas bela palavra – e, logo depois, a saudade, segundo alguns, vocábulo ímpar da derradeira flor do Lácio, sem equivalente, dizem, nas outras línguas. O regret do inglês e o revenir do francês, não expressam o sentimento, não “traduzem” aquela dorzinha aguda, o desconforto da ausência. Apenas quebram o galho... 


Mas o caso não é vocabular. Sob o título geral de Deslumbramento & Amargura, minhas crônicas não poderiam desprezar o enterro, este ato da comédia humana e, de como, na qualidade (por ora) de assistente, a ele cheguei.

Logo que me aprumei como gente, participando da vida familiar, ouvindo sem ser ouvido, mais escutando do que ouvindo e sempre falando para as paredes, acompanhei minha mãe nos enterros, já com eles familiarizado. Em outras crônicas falei das madrugadas tétricas com as mortes de um dos meus tios e de meu avô, esta última por mim testemunhada. Experiência amarga e repetida, anos mais tarde, ao ver o último suspiro de minha prima Élida, ainda um bebê.

Ao recebermos a comunicação da morte de alguém próximo, parente ou conhecido, mais das vezes cabia à minha mãe representar a família. Ir ao velório – na época, realizado em casa, pois raros morriam nos hospitais – e, a seguir, acompanhar o féretro. Ali, a família era o espetáculo, o defunto um personagem secundário. Viúvas inconsoláveis ou conformadas, filhos pranteando pais, mostrando, porém, o alívio ao se desfazer dos encargos criados por irremediáveis velhos, doentes de irremediáveis doenças.


O morto era entronizado, em geral, na sala de visitas da casa (os apartamentos é que acabaram com os velórios). Coberto de flores, vestido como se fosse a uma festa onde não faltavam  a gravata, as meias e os sapatos de verniz. Lá ficava o falecido, o rosto talhado em marfim, olhos vítreos, entreabertos, o queixo amarrado por um lenço ou por uma gaze, para que não lhe sobrasse um último ar de espanto. Jamais lhes surpreendi um esgar de sorriso. A maioria das vezes, a falsa serenidade deixava transparecer a perplexidade de ter deixado uma vida jamais desejada.

Em nossas terras, usava-se o indispensável cafezinho para distrair os presentes. Aqui e ali, um biscoitinho. Mais requintados, um bolinho. Ou pastéis. Música, nem pensar. Só na missa do sétimo dia, os Gounot, Schubert entravam em cena.

As cenas no fechamento do caixão, para as despedidas tradicionais, implicavam em gritos, choro convulso e um grupo tentando arrancar o sofredor vivo curvado sobre o irremediável morto. O transporte até o carro paramentado com ornatos negros sobre fundo dourado, o roxo da seda do caixão compunham a cine-xilogravura tétrica.


Olhai este retrato lindo / Vereis quem aqui está dormindo

E lá se ia o cortejo, carros e mais carros perseguindo o morto, levando, por vezes, em suas capotas as tétricas coroas, penduradas as faixas: Saudade eterna (como se o amigão fosse eterno), Jamais o esqueceremos (mal voltados do cemitério, já esqueciam quem se fora...). E o defunto perseguido, vigiado na sua última viagem para o campo santo. Lá chegando, uma carreta o esperava. Os mesmos abnegados que o levaram da essa ao carro, o depositavam na carreta. Mas esta nem sempre fora componente do ato e, mãos fortes, de novo, empunhavam as alças do caixão. Seguia-se o trajeto entre as campas e jazigos, seguindo o grupo dos carregadores, mais das vezes as pessoas da família, revezando-se os homens na tarefa, ora pela distância em que se encontrava o sepulcro, ora pelo avantajado peso do defunto. À beira da cova, nova cerimônia. Nada de aplausos, como hoje vem se fazendo. Podia parecer um desrespeito ao morto. Como sonoplastia adicional, o soluçar dos mais chegados, o fungar de um ou outro e, mais raro, uma voz em despedida.  Apenas as orações murmuradas antes que o caixão baixasse, o choro abafado, a pá de cal passada de mão em mão, e a fila aflita para que o derradeiro a lançar o pó branco não fosse um jovem, alimentada a crença de que o último a jogar a cal seria o próximo a morrer, davam som e cor ao lúgubre espetáculo. O arremate cabia aos coveiros que aguardavam com ar entre compungidos e impacientes, chapéus na mão, sua entrada em cena. A terra acumulada ao lado, como se fazia nas covas rasas, era puxada pelas enxadas para encobrir o ataúde, como de praxe, a sete palmos do chão. A operação fazia ressoar o tenebroso ruído dos torrões quebrando-se sobre tampa do esquife, até cessar, sendo substituído pelo som da terra preenchendo toda a sepultura.


Nos jazigos perpétuos, onde os restos mortais seriam sobrepostos – os mais antigos já exumados, os ossos acomodados em uma caixa –, uma laje de concreto cobria o novo hóspede. Jamais acompanhei um morto que fosse guardado nos grandes jazigos, semelhantes a capelas, com gavetões laterais. Meus mortos eram menos importantes.

E assim, família, amigos e conhecidos desfaziam-se do falecido que ganharia visitas esparsas, nos aniversários, no dia dos Finados ou em datas marcantes. Depois, a exumação que se tornava espetáculo macabro, dependendo do solo e das condições físicas do defunto. Mais das vezes, lá estavam os trajes em farrapos e ossos mais ou menos em estranho quebra-cabeças...


Um derradeiro ato da tragi-comédia humana.



Este texto, um dos capítulos de Cadernos (quase) esquecidos de Hélio Brasil, foi gentilmente cedido pelo autor para publicação neste blog cultural.  Fotos do Cemitério São João Batista (Rio de Janeiro) do editor do blog.


JUSCELINO KUBITSCHEK



"LANÇO OS OLHOS MAIS UMA VEZ SOBRE O AMANHÃ DE MEU PAÍS" de Stella Leonardos

Pelo Planalto sem fim
         lá vais indo, Juscelino:
num monomotor tão mínimo
         pra teu sonho tão grandioso.

Tão pronto o aviãozinho pousa
         te sentas, naquele toco,
de árvore junto de um corgo.

E leio no Livro de Ouro
         o que escreves pra teu povo:

           “Deste Planalto Central
desta solidão que em breve se
transformará em cérebro das
mais altas decisões nacionais,
lanço os olhos mais uma vez
sobre o amanhã de meu país e
antevejo esta alvorada, com uma
fé inquebrantável e uma
confiança sem limites no seu
grande destino.”

Não sei se é manhã, se é tarde.
  Do que eternas, Juscelino,
da esperança  que te inscreve,
         raia uma eterna alvorada. 

(Do livro SAGA DO PLANALTO)



JUSCELINO SEGUNDO PEDRO NAVA:

Nossa turma era muito unida e até hoje os doutorandos de 1927 mantemos contato uns com os outros e anualmente nos reunimos para um jantar de confraternização no aniversário de formatura [...] Fomos clínicos, cirurgiões, especialistas, médicos do interior, médicos de cidade e professores. Seria motivo para outro gênero de livro estudar as personalidades de um a um e mostrar o que a todos ficou devendo a Medicina do Brasil. Um nome, entretanto, está nesta lista sobre o qual não se passa sem palavra de reverência: o de Nonô Kubitschek. Ele projetou-se mais que os outros como personalidade brasileira e mundial. Fora sua simpatia radiosa, seu espírito sempre alerta, sua alegria sadia, seu zelo pelos estudos, seu prodigioso coração — outros predicados não distinguiam aquele menino vindo da casinha de porta e três janelas da rua do São Francisco, na Diamantina — dos outros meninos de sua turma.


Era um moço de talento entre tantos outros bem dotados daquele grupo de doutores de 1927. Ainda não se tinham produzido as circunstâncias sociais e políticas que iriam transformar esse homem num gênio nacional, que figura em nossa história no rol em que estão o nosso descobridor, os desbravadores, os bandeirantes, os integradores da pátria, os fautores da unidade nacional, os libertários da Inconfidência, do Dezessete e Vinte-e-quatro, os pró-homens da Independência, Abolição, da Proclamação da República, os grandes Chefes de Estado. Dos últimos, foi o maior e sua glória excede às de D. João, dos Pedros, de Isabel, de Prudente e dos Conselheiros porque nenhum desses governos foi tão cheio de consequências como o seu. A construção de Brasília e a Conquista do Oeste desviaram completamente o curso de nossa história e deram-lhe perspectivas até hoje não completamente avaliadas. E o admirável em Juscelino é que ele se conservou na ascensão, na glória, na queda e na adversidade dentro das mesmas qualidades de endurância, brandura, tolerância, alegria e bondade que tinham habitado o menino cuja infância foi magistralmente traçada por Francisco de Assis Barbosa e cujas qualidades — sobretudo a do perdão — foram exaltadas por David Nasser em O Testamento, artigo que vale um livro. Eu que fui seu companheiro de bancos escolares, que acompanhei toda a trajetória de sua vida, que o quis como amigo, que compreendi sua pessoa e admirei suas qualidades — fico bestificado! de ver o ódio que não desarma duma minoria contra a figura deste Pai da Pátria... Não há o que discutir nisso. É responder com a nossa canção, adaptando-a à circunstância.

Tim-Tim, Tim-Tim
Tim-Tim, ô-lá-lá,
Quem não gosta dele?
Do que gostará?


(Do quarto livro de memórias de Pedro Nava, Beira-mar.)





JUSCELINO SEGUNDO ANTONIO CARLOS VILLAÇA:


Juscelino compareceu (...) a uma noite de autógrafos de que participei, na Livraria Cobra Norato, em Ipanema, com Raul Bopp, que lançava Samurai, e Aurélio Buarque de Holanda, que autografava O chapéu de meu pai.


Não me lembrava direito como se escrevia o sobrenome dele. Escrevi apenas — "A Juscelino, glória do Brasil." Ele respondeu, gentilíssimo, envolvente — "Você é que é glória do Brasil." Parecia um bailarino.

Jantamos juntos em casa de Altair de Souza, no Flamengo. Juscelino quase não comia. Tinha pavor de engordar. Sentou-se no chão. Parecia um estudante, um rapaz. Tão lépido. Tão inquieto. Tão buliçoso. De repente, Maria José de Queiróz, a mineira, se pôs a cantar. Juscelino se entusiasmou. Parecia um enamorado.

Um sábado, almoçamos no sítio do advogado Emer Vasconcelos, em Jacarepaguá. Aurélio Buarque de Holanda estava lá. Juscelino comeu como um passarinho. Meia banana. Um camarão. Quase não comia. Esfuziante, sim. Mas talvez nostálgico. Seus olhos de cigano buscavam algo, muito além. Era um ser insatisfeito...

(Do livro Os saltimbancos de Porciúncula, editado pela Record.)


Mais informações sobre Juscelino Kubitschek no Portal Brasil.

RABINO HENRY I. SOBEL: Deus

Artigo (brilhante) publicado originalmente na revista Shalom de julho de 1983. 

Mas antes a história de como este artigo veio parar em minhas mãos. Em 14 de outubro de 1995, após ouvir o sermão do rabino na véspera de Yom Kipur, minha falecida tia, Helga Flatauer, escreveu-lhe uma carta (em inglês, aqui traduzido) dizendo (entre outras coisas): "Vi-o de pé falando sobre Deus. [...] A questão é: Quem é DEUS? Um homem de barba branca como nos contam quando somos crianças e a quem rezamos antes dormir? Uma força cósmica? DEUS é 'amor'?" Em resposta o rabino enviou-lhe este artigo que acabou parando no meu arquivo junto com as cartas. A seguir, o artigo e as cartas. 

Se achar que as letras do artigo estão pequenas, aumente o zoom da página (Ctrl + botão de rolagem do mouse).





O SILÊNCIO E AS MAJESTADES DAS SEXTAS-FEIRAS SANTAS, de Carlos Heitor Cony


Nas Sextas-Feiras Santas do passado, os trens da Central do Brasil não apitavam nem mesmo quando entravam ou saíam dos túneis espalhados pelo trecho que ia de Belém, atual Japeri, até Mendes, subindo a serra do Mar com o esforço de suas caldeiras alimentadas com o bom, o sólido, o inigualável carvão inglês.

Com a guerra, em 1939, o carvão importado foi substituído por lenha nacional, que muito devastou florestas, fazendo da carne de nossas árvores o alimento daquelas fornalhas escuras que produziam uma fumaça esbranquiçada. Muitos trens não conseguiam subir a serra e precisavam do reforço de uma locomotiva extra, que ia e vinha engatada nos últimos vagões, como um Cirineu ajudando a composição a levar a cruz ao alto de um calvário ferroviário.

Mas os trens não apitavam nas Sextas-Feiras Santas. Passavam silenciosamente pelas estações menores, fazendo estremecer as casas mais próximas e participando, com a sua mudez, da mudez geral, pois os rádios também não tocavam, nem os sinos das igrejas: era uma pausa no ruído do progresso e do mundo. Não chegava a ser triste, mas era diferente, doía em algum lugar, por menos que se pensasse na paixão e na morte de um Deus crucificado.

Joaquim Pinto Montenegro, que viveria toda a sua vida em torno dos trens da Central, tinha nas Sextas-Feiras Santas o seu grande dia. Era com orgulho que fiscalizava cada trem que passava por Rodeio, estaçãozinha perdida entre os dois maiores túneis do Brasil naquela época, o 11 e o 12. Não chegava a ser um homem religioso; na verdade, pouco ligava para o drama antigo do qual tinha uma noção vaga e descomprometida.

Achava que, como funcionário do Departamento de Dormentes e Trilhos, cumpria-lhe tomar conta da tradição que já encontrara quando, aos 20 anos, entrara como sinaleiro do entroncamento que desviava as locomotivas no pátio de manobras, pouco antes de os trens serem devorados pela bocarra escura do túnel 12, o maior do continente na sua opinião e na de seus iguais do quadro efetivo dos servidores da Central do Brasil.

Por isso, principalmente, a Sexta-Feira Santa era um dia especial, diferente de todos os outros, pois os trens não apitavam, e isso lhe exigia um esforço suplementar, embora nem trabalhasse nesse dia. As locomotivas ficavam apagadas e imóveis como bichos que dormiam um sono de ferro. O tráfego era menor em todo o percurso da serra do Mar.

Ele desfrutava o feriado tomando conta dos trens que inesperadamente surgiam do túnel 11, sem apitar, sem avisar que estavam chegando  e Joaquim Pinto Montenegro olhava com emoção a comprida Mallet, made in England, que parecia uma viúva enorme e sem grito, vencendo penosamente a garganta que a separava do comprido, do sinistro túnel 12.

Joaquim Pinto Montenegro não precisava dos apitos para saber quem chegava ou saía dos dois túneis, que formavam, na sua opinião e na de seus iguais, as jóias mais preciosas da coroa de glórias da engenharia ferrocarril nacional. Ele as pressentia milimetricamente. Pelo silêncio de cada locomotiva, sabia o nome do maquinista, do foguista, do chefe do trem que, naquele instante, deveria estar percorrendo vagões, avisando aos passageiros que a próxima estação era Rodeio.

Joaquim Pinto Montenegro não era religioso, mas respeitava a Sexta-Feira Santa como respeitava o código de sinais que sabia fazer com as duas bandeirinhas, uma verde, outra vermelha, orientando as pesadas locomotivas que obedeciam rigorosamente a seus movimentos, parando quando a bandeira era vermelha, indo à frente quando era verde. Nem a mão formidável de Deus, regulando o movimento dos astros no espaço infinito, era mais solene e poderosa do que a de Joaquim Pinto Montenegro.

O último trem passava em direção ao túnel 12. Era já noite fechada na serra do Mar, o barulho ritmado dos vagões iluminados acentuava o silêncio geral. Era hora de Joaquim Pinto Montenegro fazer uma coisa extraordinária na sua vida de guia e de protetor dos trens da Central do Brasil.

Como todo mundo naquela época, Joaquim não comia carne naquele dia santificado pelo silêncio das locomotivas que cheiravam a carvão civilizado. Como todo mundo, Joaquim  comera peixe no almoço. E, como todo mundo, sentia-se um pouco enfraquecido ao final do dia. Era necessário suplementar suas energias com um prato de canjica que todos tomavam nesse dia, como um sacramento, um alimento sagrado e permitido. Joaquim tomava sua canjica com solenidade, com a mesma autoridade com que manobrava suas bandeirinhas no pátio de manobras.

Tudo estava consumado, todas as leis e os costumes do mundo tinham sido cumpridos mais uma vez. E Joaquim Pinto Montenegro poderia dormir em paz, na paz do silêncio enorme que tombava sobre Rodeio, no silêncio e na majestade das Sextas-Feiras Santas do passado. 

(Publicado originalmente na Folha de São Paulo em 13/4/2001. Fotografia de Dana Merril obtida na Biblioteca Nacional Digital.)

ODEIO STALIN



Os crimes do nacional-socialista Hitler são constantemente lembrados e exorcisados em filmes, museus do holocausto, memoriais, aniversários da libertação de Auschwitz. Mas e os crimes igualmente bárbaros do camarada Stalin?

Não só não são lembrados como em meios esquerdistas (os mesmos meios que demonizam Israel e fazem vista grossa para o festival de crimes no resto do mundo) o "Guia Genial dos Povos" tem seus simpatizantes. Afinal, não foi Stalin quem industrializou a Rússia e fez dela uma "potência"? Os "fins" justificam os "meios", dirão.

Acabo de ler (em inglês, ainda não foi traduzida para o vernáculo) a biografia de Stalin do historiador russo Edvard Radzinsky, que teve acesso aos arquivos “secretos” da finada União Soviética, e fiquei horrorizado, indignado. Assim como supostamente existiria um "Deus" que premia os virtuosos, parece que existe um "diabo" que premia os perversos e faz com que todos seus empreendimentos deem certo.

Stalin é culpado da:

· morte de milhões de camponeses russos na coletivização forçada da agricultura

· morte de milhares e milhares de desafetos — primeiros a oposição menchevique e social-revolucionária, depois os próprios revolucionários bolcheviques, o generalato russo e finalmente qualquer um com quem ele "cismasse" (podia ser eu ou você)

· trabalho escravo nas grandes obras de construção de barragens, hidrelétricas, etc.

· o Gulag, descomunal campo de concentração, imortalizado pela obra de Soljenitzin

· a morte de desafetos no exílio (o assassinato de Trótski no México foi apenas a ponta do iceberg)

· a deportação forçada para regiões remotas de etnias inteiras (e se não fosse a sua morte os judeus seriam os próximos)

· o “abandono” de Varsóvia às tropas alemãs já no finalzinho da guerra, quando o Exército Vermelho poderia ter intervindo e poupado milhares de vidas, só para desmoralizar o governo polonês no exílio e viabilizar o “golpe” comunista no pós-guerra

· uso da população como “bucha de canhão” para “cansar” os invasores nazistas antes de mobilizar as tropas realmente de elite

· pacto com Hitler e invasão de metade da Polônia, dos países bálticos, além da tentativa (malograda) de abocanhar a Finlândia

No prefácio à sua sucinta biografia do ditador russo, escreve o historiador Paul Johnson: “Stalin foi um monstro, um dos maiores monstros que a civilização já produziu.”

Sou do bem. Não gosto de black block, nem de racismo, nem de antissemitismo, nem de homofobia, nem de quem abate elefantes para vender o marfim, menos ainda do fanatismo islamista. E odeio Hitler, Mao e Stalin.

LIVROS QUE TODO MUNDO ELOGIA MAS NINGUÉM LÊ ou ODEIO PROUST

de Ivo Korytowski


Existem livros que todos louvam mas ninguém (exceto uns poucos especialistas e estudiosos) lê. Refiro-me ao Ulisses do Joyce e ao Grande Sertão, Veredas do Rosa. Se você lê o primeiro parágrafo já desiste. Ei-lo:

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.

Meu pai, que tinha uma biblioteca umas três vezes maior que a minha (e olha que a minha já é grandinha) e que até no hospital onde veio a falecer estava lendo um livro (um tijolão, uma história de Berlim, em inglês), disse que tentou ler o Ulisses várias vezes — no original, em sua língua natal, o alemão, na tradução brasileira do Houaiss — mas nunca conseguiu. Se ele não conseguiu, quem sou eu para sequer tentar?

Outro autor "difícil" é o Proust. Ou bem você adora, ou bem você odeia. O Nava adorava. Eu adoro o Nava. Portanto, por uma lógica aristotélica, eu deveria adorar. Nos meus vinte anos, quando eu devorava toda sorte de literatura (o Eça, o Machado) um professor de economia da Fundação Getúlio Vargas que conheci (depois foi parar em Londres) disse que para ler Proust você tinha que ter trinta anos. Assim, esperei. Cheguei aos trinta, quarenta, cinquenta, sessenta.

Em viagem recente a Paris, saboreei umas madalenas. No Parc de Bagatelle minha mulher observou que Swann (no filme) ia lá. Foi o suficiente para que eu decidisse que chegou a hora de ler Proust.

Escolhi a clássica tradução do Quintana (a do Py será melhor?) O primeiro volume ainda consegui traçar. Criei até um verbete correspondente na Wikipedia, traduzido do verbete francês. Você pode ir lá ver.

Do segundo volume, sobre as “raparigas em flor” (que o Py moderniza para "moças"), consegui transpor três quartos. Pico Ayer compara a leitura de Proust a uma "revelação" budista. Flerto com o budismo desde os anos noventa do século passado mas não consegui ver o que tem o cu (o Proust) a ver com as calças (a revelação).

Fala sério, depois de esbarrar com uma passagem como a que se segue dá para continuar lendo o livro?

Sem dúvida, naqueles anos ainda tão pouco afastados, não era à visão do grupo, como na véspera em seu primeiro aparecimento ante mim, mas ao próprio grupo que faltava nitidez. Então, aquelas crianças demasiado pequenas estavam nesse grau elementar de formação em que a personalidade ainda não apôs o seu selo em cada rosto. Como esses organismos primitivos em que o indivíduo praticamente não existe por si mesmo e é antes constituído pelo polipeiro que pelos pólipos que o compõem, permaneciam elas comprimidas umas contra as outras. Às vezes, uma derrubava a sua vizinha, e então um riso louco, que parecia a única manifestação de sua vida pessoal, as agitava a todas ao mesmo tempo, apagando, confundindo aqueles rostos indecisos e careteantes na gelatina de um único cacho cintilante e trêmulo. Numa fotografia antiga que deviam dar-me um dia, e que conservei, o seu bando infantil já oferece o mesmo grupo de figurantes que mais tarde o seu cortejo feminino; sente-se ali que já deviam produzir na praia certa mancha singular que obrigava a olhar para elas; mas ali não se pode reconhecê-las individualmente senão por intermédio do raciocínio, deixando o campo livre a todas as transformação possíveis durante a juventude até o limite em que essas formas reconstituídas fossem dar numa outra individualidade que é preciso também identificar e cujo belo rosto, devido à concomitância de uma estrutura elevada e cabelos crespos, tem possibilidade de haver sido outrora essa redução de careta mirrada que o retrato apresenta. [...]

EU DESISTI.

Proust é louvado por uma suposta sacação que praticamente virou uma “teoria psicológica”, a teoria da memória involuntária: especificamente, um belo dia ele come uma madalena e aí todo um trecho de sua infância que jazia soterrado na inconsciência volta à tona. Mas, vamos e venhamos, fora o Proust alguma outra pessoa alguma vez conseguiu se recordar de uma infância inteira só porque comeu uma coisinha, ou sentiu um cheirinho? Uma teoria tem que ser universal, aplicável a todos.

O que há de "errado" no texto de Proust? A sintaxe arcaizante (conquanto seja um escritor inaugurador da modernidade literária francesa, suponho), com suas frases tipo "alemão" que quando terminam você já esqueceu o começo? Não necessariamente. O Saramago tem uma sintaxe estranha e é genial. O problema é a overdose de “prosa poética”, a, digamos, “masturbação mental”, a divagação (o fluxo de consciência para usar o termo técnico) levada aos píncaros. Haja paciência! Ninguém merece!

Tem trechos inteiros que você lê, lê, e depois se pergunta “o que foi que acabei de ler?” e não sabe. Você leu uma “sopa de palavras”.

Estou exagerando? Então tente. Depois me conte.


Adoro Dickens. Adoro Machado. Adoro Balzac. Adoro Mann. Adoro Eça. Mas quer saber? ODEIO PROUST.

O DINHEIRO DOMINA AS LEIS, A POLÍTICA E OS COSTUMES


Os avarentos não acreditam numa vida futura, o presente é tudo para eles. Esta reflexão joga uma horrível clareza sobre a época atual em que, mais que em qualquer outro tempo, o dinheiro domina as leis, a política e os costumes. Instituições, livros, homens e doutrinas, tudo conspira para solapar a crença numa vida futura, sobre a qual o edifício social se apoia há mil e oitocentos anos. Atualmente, a sepultura é uma transição pouco temida. O amanhã que nos esperava além do Requiem foi transportado para o presente. Chegar per fas et nefas [por todos os meios] ao paraíso terrestre do luxo e das vaidosas alegrias, petrificar o coração e macerar o corpo em busca de bens passageiros como outrora se suportava o martírio em busca dos bens eternos, eis o pensamento geral. Pensamento que, aliás, está escrito em toda parte, até nas leis, que perguntam ao legislador: "Que pagas?" em vez de indagar: "Que pensas?" Quando essa doutrina tiver passado da burguesia ao povo, que será do país?

Escrito em 1833 em Paris por Balzac (em Eugênia Grandet; tradução de Gomes da Silveira para a edição da Comédia Humana organizada por Paulo Rónai; imagem obtida no site dos relógios Breguet) 

O LOBO E O CORDEIRO


Estava o cordeiro a beber num córrego, quando apareceu um lobo esfaimado, de horrendo aspecto.

– Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber? — disse o monstro arreganhando os dentes. Espere, que vou castigar tamanha má-criação!…

O cordeirinho, trêmulo de medo,respondeu com inocência:

– Como posso turvar a água que o senhor vai beber se ela corre do senhor para mim?

Era verdade aquilo e o lobo atrapalhou-se com a resposta.  Mas não deu  o rabo a torcer.

– Além disso — inventou ele — sei que você andou falando mal de mim o ano passado.

– Como poderia falar mal do senhor o ano passado, se nasci este ano?

Novamente confundido pela voz da inocência, o lobo insistiu:

– Se não foi você, foi seu irmão mais velho, o que dá no mesmo.

– Como poderia ser meu irmão mais velho, se sou filho único?

O lobo furioso, vendo que com razões claras não vencia o pobrezinho, veio com uma razão de lobo faminto:

– Pois se não foi seu irmão, foi seu pai ou seu avô!

E — nhoc! — sangrou-o no pescoço.


MORAL DA HISTÓRIA: Contra o PT, digo a força não há argumentos.


Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição.