DIÁRIO DE VIAGEM: ARGENTINA E URUGUAI (2018)



Segunda-feira (lunes), 24 de setembro de 2018: SAMPA-BUENOS AIRES

Mi Buenos Aires querido
cuando yo te vuelva a ver
no habrá más penas ni olvido

Nos balcões de despacho de bagagens da Aerolíneas Argentinas no Aeroporto de Guarulhos, o funcionário da fila de idosos atrasa uns minutos e a fila dos “normais” começa a andar primeiro. Dois “idosos” põem-se a reclamar que no Brasil é tudo uma bagunça, que aqui nada funciona. Já na Noruega... Lembro a eles que a ultraeficiência pode ser uma faca de dois gumes. Só num país com a eficiência alemã conseguiram montar uma logística complexa para exterminar, com métodos industriais, seis milhões de judeus e, de quebra, mais uns milhares de ciganos, homossexuais, comunistas, doentes mentais (entre eles um tio-avô do meu pai), e construir um muro intransponível em Berlim, atirando para matar quem tentasse transpô-lo, como vimos no memorial das vítimas do muro em Berlim (como narrei aqui - ver Berlim, 18 de junho). 

Se você está lendo com atenção o diário deve estar se perguntando: o Ivo não mora no Rio, por que cargas d'água embarcou em Guarulhos? Sabe aquele pessoal que mora no interior, em Varginha, digamos, e para viajar ao exterior tem que primeiro ir até uma metrópole? Pois é, tivemos que encarar um dia na Dutra e um hotel que sequer tinha água quente, na Liberdade, para embarcar no dia seguinte em Guarulhos. Isto porque, quando comprei as passagens meses atrás, com antecedência para pegar um ótimo desconto (as passagens São Paulo-Buenos Aires para nós dois, ida e volta, custaram duas prestações de 1073,83 reais), calculávamos que, a esta altura do jogo, nossa obra em Sampa estaria concluída e já estaríamos morando lá. Pois é, após seis décadas e meia de Rio estou de mudança para São Paulo e vocês nem sabiam!

A viagem foi planejada nos mínimos detalhes para aproveitarmos ao máximo cada minuto. Passagens de barco e ônibus, na Argentina e Uruguai, compradas pela Internet (aqui e aqui). Estudei os itinerários (“recorridos”) dos ônibus (“colectivos” na Argentina – aqui, “ómnibus” no Uruguai – aqui) para usar predominantemente transporte público e assim ter um contato mais próximo com as pessoas e os locais, além de reduzir os custos. Planejei roteiros de visitas turísticas dia a dia. A Michela pesquisou restaurantes & bares. Descobri que em Buenos Aires você troca o real por pesos mais vantajosamente do que aqui no Brasil (numa casa de câmbio em Copacabana consegui 6,7 pesos por real; o Banco de la Nacion Argentina, quando cheguei em Buenos Aires, pagou 8,5 pesos por real; o câmbio paralelo, na Calle Florida, rende um pouquinho mais: 9 pesos por real).

Nas viagens ao exterior sigo algumas regras. Nada de checar e-mail e Facebook (e por causa disto só depois de retornar fiquei sabendo da morte, durante minha viagem, de um grande amigo meu de adolescência, Márcio Steinbruch, ao qual faço uma homenagem aqui). Tento esquecer os problemas do cotidiano e mergulhar de cabeça na nova realidade.

A última vez que visitei Buenos Aires foi nos estertores do regime militar, com Alfonsín já eleito e na iminência de assumir (1983). Buenos Aires se orgulhava de ter mais livrarias que o Brasil inteiro. Acho que depois, com o advento das livrarias nos shoppings brasileiros, essa diferença caiu, e nos últimos anos muitas livrarias de Buenos Aires fecharam as portas, ao que ouvi falar. Os portenhos se trajavam impecavelmente e se vangloriavam de que, ao contrário do Rio, você podia andar em qualquer lugar da cidade, a qualquer hora do dia ou noite, sem risco de ser assaltado. Tendo nos últimos sete dias trocado O Globo pelo Clarín, descobri que as coisas mudaram, como mostram estas manchetes: Ganó un juicio por mala praxis a su hija y ahora le robaron más de $ 10 millones; Entran a un country por un boquete [sobre o “boquete” falo mais adiante] en el alambrado y asaltan una casa; Salidera bancaria en Palermo: 4 motochorros robaron una mochila con 40 mil dólares.

Também nos últimos meses estudei os rudimentos do castelhano no Duolingo. Quem acha que espanhol é igual ao português está redondamente enganada. “Presunto” em espanhol pronuncia-se “pressunto” e significa presumido, suposto. “Boquete” é um furo na cerca por onde pode entrar um ladrão, como vimos na notícia acima. “Oficina” é escritório. Já “escritorio” é escrivaninha. “Desocupado” não é um vagabundo, e sim desempregado: Subió el desempleo al 9,6%: ya hay 1.850.000 desocupados. “Gremio” é sindicato. Eu achava que saidinha de banco só tinha por aqui, mas tem lá também: “salidera bancaria”. Assaltante motociclista é “motochorro”. “Propina” é gorjeta, e o que nós denominamos propina em espanhol é “coima”. O escândalo do momento são os “cuadernos de las coimas”, cadernos achados numa caixa com nomes de beneficiários de propinas. “Apellido” é sobrenome, e “fechado” é datado (de “fecha”, data, o ch pronunciando-se como rr).

Dias atrás, um cidadão foi apunhalado às dez horas da noite no Obelisco, pleno centro da cidade. A polícia, chamada, nem deu as caras. A ambulância levou mais de meia hora. Os bons tempos em que não tinha assalto ficaram perdidos nas brumas do passado.
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Chegamos. Antes de partirmos para o hotel, eu tinha duas missões a cumprir: comprar pesos no Banco de La Nación Argentina e dois cartões SUBE para utilizar o transporte público. Tendo trazido um pouquinho de pesos, poderia deixar o câmbio para o dia seguinte, não fosse o “paro general” (foto acima), a greve geral marcada para amanhã, quando os bancos não funcionarão. Azar, primeiro dia de Buenos Aires, já ir pegando uma greve geral, direis. Azar seria se a greve fosse hoje, aí nosso voo seria cancelado, e remarcado não sei para que dia. Você pergunta para um guarda, um funcionário do aeroporto, adonde puedo comprar lá tarjeta Sube, ele indica um kiosko, uma lojinha de conveniências, você vai lá, não tem e indica um outro kiosko, e assim fiquei para lá e para cá zanzando pelo aeroporto até achar o kiosko que realmente vendia o cartão. Pedi dois cartões, cada um com carga de 50 pesos, o cara me cobrou 220 pesos, explicando em bom castellano que além do valor carregado você tem que pagar mais 60 pesos por cada cartão adquirido, mas até eu entender já havia atrás de mim uns dois ou três fregueses impacientes. Devido à greve geral amanhã, formou-se uma baita fila diante da agência do banco, e como uma falha do sistema está causando a interrupção do atendimento  durante o processo de fechamento bancário (segundo informa um cartaz), até o banco reabrir e a fila andar e sermos atendidos, já eram umas oito e pouco da noite, de modo que em vez de irmos ao hotel de ônibus (linha 37) cujo itinerário estudei com tanto afinco no Google Maps, percorrendo até certos trechos no Street View, acabamos pegando um táxi mesmo, com um taxista boa praça, de meia-idade, que reclamou da corrupção generalizada dos políticos, e quando retruquei que ainda assim a democracia era superior à ditadura, contra-argumentou que a democracia é boa mas aqui na América Latina não funciona (mais ou menos isto, não recordo as palavras exatas). Tanto na Argentina como no Brasil, tem gente com saudades da ditadura militar!

La Americana

À noite, depois que nos acomodamos no Hotel (Ibis Congreso), topamos por acaso com uma simpática e tradicional casa de empanadas, La Americana (Av. Callao, 83), onde fizemos nossa refeição noturna leve, já que no voo já fomos muito bem alimentados. Aliás à Aerolíneas Argentinas só temos elogios a fazer.


Empanadas em La Americana

Terça-feira (martes), 25 de setembro de 2018: BUENOS AIRES - 1o dia

A vos, ciudad.
Hoy aquí te canto ahora
y quiero en vos crecer
y echar raíces.
PEPE CIBRIÁN

CEMITÉRIO DA RECOLETA



No Brasil uma certa cultura hedonista faz com que o tema da morte seja tabu. Achamos que entrar em cemitério “dá azar” e, afora o Dia de Finados, nossos campos-santos ficam às moscas. Para piorar, no Rio os cemitérios ficam junto de favelas, e os ornamentos e placas dos túmulos são sistematicamente pilhados. Em Buenos Aires, o Cemitério da Recoleta está impecavelmente preservado, constituindo atração turística obrigatória para o visitante da cidade. A estatuária, vitrais dos jazigos (aqui), alto e baixo-relevos (aqui), placas de bronze homenageando os finados (aqui) fazem desse cemitério um museu a céu aberto da arte funerária. A necrópole inteira é uma obra de arte.








Nossa intenção era pegarmos a visita guiada, em espanhol, às onze da manhã, mas com a greve geral não foi oferecida. Porém você pode perfeitamente percorrer os meandros do cemitério de forma aleatória, como se percorre um labirinto, que nunca se perderá, porque a área do cemitério não é extensa. Só não garanto que vá achar o túmulo da Evita Perón. Eu não achei nem fiz questão de achar, porque de peronistas, populistas e petistas quero distância, mesmo depois de mortos.


"a área do cemitério não é extensa"

Em Recoleta os corpos não são enterrados em cova rasa ou funda. São chumbados (pareceu-me ao examinar um caixão que estava rompido) dentro dos caixões, os quais ficam expostos dentro dos mausoléus. Imagino que os corpos, sem contato com o ar, vermes e micro-organismos, estejam todos intactos, como que embalsamados, aguardando inteirinhos o Juízo Final! 


Caixões expostos dentro dos mausoléus

O contato com a mortalidade – memento mori – nos faz refletir sobre a transitoriedade da vida. O que cada um de nós tem de tão especial a ponto de querer eternizar sua existência? Por que não podemos nos conformar em cumprir o nosso mandato (determinado por Deus?) e deixar que os outros bilhões de nossos semelhantes preencham o vazio deixado por nosso perecimento?

IGREJA DE NOSSA SENHORA DO PILAR



Ao lado do cemitério, não deixe de visitar a setecentista Basílica Nuestra Señora del Pilar (1732), segundo templo mais antigo da cidade, com fachada projetada por um jesuíta. Seus seis altares laterais primitivos, em estilo rococó lusitano, são atribuídos ao entalhador português Pedro Carmona, que trabalhou no Rio de Janeiro, especificamente na Igreja de Santa Rita, antes de se mudar para a Argentina em 1771. Um retábulo destoante é o do Sagrado Coração, do início do século XX. O retábulo dourado barroco com colunas compósitas ornamentadas do altar-mor é obra de três entalhadores, Domingo Mendizábal, Ignacio de Arregui e Miguel Careaga, segundo o livro Patrimônio colonial latino-americano de Percival Tirapeli. Informa Percival que, com a criação do vice-reino de la Plata, em 1776, com sede em Buenos Aires, a nova capital estreitou laços com a Colônia do Sacramento e o Brasil.

Retábulo dourado barroco com colunas compósitas ornamentadas do altar-mor

Retábulo do Senhor da Paciência e Humildade, um dos altares laterais primitivos em estilo rococó lusitano

Retábulo do Sagrado Coração, com colunas torsas, o mais moderno da igreja, do início do século XX

BAIRRO DA RECOLETA


Paris da América Latina

À direita (leste) do cemitério a Avenida Alvear e outras elegantes ruas da Petit Paris, fazendo com que a capital portenha faça jus ao epíteto de Paris da América do Sul. A arquitetura, as árvores, os balcões com gradis, o comércio sofisticado constituem o que mais se aproxima de Paris fora da França, e em tempos de euro caro, a capital dos nossos hermanos ao sul consegue saciar nossa sede de “civilização”. As largas avenidas, as enormes praças com seus bustos e monumentos impressionantes, os palácios de dimensões europeias, como o Congresso (aqui) e o Palácio San Martin (aqui), os chafarizes (que, ao contrário dos cariocas, jorram água), os amplos espaços verdes, não construídos, evitando que os prédios formem aquela massa compacta como em São Paulo, os gramados onde você pode se sentar e pegar sol ou saborear sua merienda sem ser importunado, os postes dourados em áreas mais nobres, as ciclovias, em suma, a grandiosidade, o esplendor mostram que a Argentina já foi um país rico, que Buenos Aires teve sua versão do Barão Haussman, mas a quantidade de moradores de rua demonstra como um século de populismo consegue, não digo destruir uma nação  porque a Argentina ainda supera o Brasil em IDH (0,825 versus 0,759) e renda per capita (12,4 mil versus 8,6 mil)  mas afundá-la bem.








À esquerda do cemitério (oeste), La Isla, um setor de Recoleta em terreno ligeiramente elevado, com alguns acessos por escadinhas, prédios residenciais elegantes, ruas com nomes de sábios (Newton, Galileo, Copernico), a Biblioteca Nacional e Embaixada do Reino Unido, oásis de tranquilidade (como mostram as fotos abaixo - para ver no Google Maps clique aqui).






ETC.
O Museu de Belas Artes, por causa da greve, estava fechado. Uma senhora baiana elegantemente trajada que vive há cinquenta anos aqui e adora a cidade, embora ache os habitantes de alguns bairros xenofóbicos, indicou-nos excelente sorveteria e disse um desses dois lugares comuns que a gente sempre ouve falar sobre os brasileiros: que são um povo maravilhoso, que não há povo igual. O outro é que o Brasil é uma bagunça, onde nada funciona. Na verdade funciona, somos uma das grandes economias do mundo, embora anos de governo esquerdista tenham deixado sua marca nefasta. Na sorveteria, puxando papo com um rapaz, quando elogiei Buenos Aires e disse que sua arquitetura, seus amplos espaços verdes, largas avenidas parecem Paris, perguntou: e os moradores de rua parecem o quê? A gente como turista procura ver o lado positivo, mas o morador vê a crise. No fim do dia, empanturramo-nos no El Club de la Milanesa (Av. Callao, 1077): carne à milanesa com papas fritas de dimensões monumentais (a porção para um daria para dois).





Quarta-feira (miércoles), 26 de setembro de 2018: BUENOS AIRES - 2o dia

Num país estrangeiro, você tem que aprender as coisas todas de novo como se tivesse renascido. Por exemplo, no supermercado, você vê uma cesta cheia de suculentas medialunas, meias-luas, que é o nome que dão aqui ao croissant, mas não vê nenhum saquinho por perto e fica sem saber como fazer para pegá-las e levá-las, e tem que perguntar para alguém. E esse alguém aponta para uma cestinha e um pegador que você nem tinha percebido... e quando você chega no caixa com suas bananas fica sabendo que deveria ter mandado pesar. Tudo diferente.

JARDINS DE PALERMO: JARDIM BOTÂNICO, ROSEDAL, JARDIM JAPONÊS



Hoje foi o dia da programação do complexo de jardins no sofisticado bairro de Palermo (mapa acima). Saltamos na estação de metrô Scalabrini Ortiz (para um mapa do metrô, clique aqui), passamos cerca de uma hora agradável no pequeno mas primoroso Jardim Botânico Carlos Thays, rico em esculturas, subimos a República de la India e seguimos à esquerda até El Rosedal de Palermo, nesta época ainda com pouquíssimas rosas, depois retomamos a Avenida del Libertador até o encantador Jardim Japonês (Av. Casares, 2966), que comemora a amizade entre os povos argentino e japonês.

Carlos Thays (1849-1934), criador do Jardim Botânico

Escolares no Jardim Botânico

Canto de la Cosechadora (Canto da Ceifeira). Reprodução em mármore de uma obra atribuída ao italiano Antonio Canova

Mulher com cães

Jardim Japonês

MUSEU NACIONAL DE ARTES DECORATIVAS
Depois continuamos seguindo a avenida até o Museu de Artes Decorativas (Av. del Libertador, 1902). O imponente casarão neoclássico, construído entre 1911 e 1917, é um desses tantos resquícios da época de ouro em que a Argentina era um país rico, celeiro do mundo. O acervo em si já é impressionante – cristais da Boêmia, estatuetas de terracota helenísticas, mobília francesa do Primeiro Império, porcelanas de Sèvres, pinturas de valor inestimável (como esta), salão renascentista com tapetes flamengos (aqui) – mas tivemos a sorte de pegar a visita guiada (num espanhol compreensível) que nos contou a história da família Alvear de terratenientes (proprietários de terras) que, tendo vivido uma década em Paris, reuniu as coleções que decoram o palacete. Com a crise dos anos 1930, endividada, vendeu a propriedade ao governo argentino, que fez dela um museu.





ETC.
De lá continuamos pela Avenida del Libertador até o fim, onde pegamos o metrô (subte) na estação Faculdad de Derecho, pernas bambas de tanto andar! O metrô é o mais velho da América do Sul, a primeira linha tendo sido inaugurada em 1913, outro sinal do antigo esplendor portenho, mas não tem a mesma racionalidade de um metrô londrino ou parisiense. Existem duas estações diferentes com mesmo nome, Callao, nas composições mais antigas não se anunciam os nomes das estações por alto-falante, e numa estação onde tentamos baldear de uma linha para outra (baldeação é combinación) penamos para encontrar a tal outra linha. A sinalização visual não era suficientemente clara, ou foi o cansaço que nos deixou meio aturdidos? Porque nos dias seguintes nunca mais tivemos dificuldades no metrô.

Quinta-feira (jueves), 27 de setembro de 2018: BUENOS AIRES-COLONIA

De manhã, no táxi que nos levou a estação do Buquebus, a companhia de barcas ligando Argentina ao Uruguai, perguntei ao chofer se Buenos Aires se assemelhava mais a Paris ou a Madrid. Ele respondeu: meio a meio. A Recoleta é parisiense, como observamos anteontem, mas a Calle Florida, onde ainda não fomos, é madrilenha (a conferir). Indaguei sobre a crise econômica, ele respondeu que foi criada pelo governo esquerdista anterior (os Kirschner) mas que agora jogam a culpa no governo direitista recém-empossado. A esquerda, disse ele, “no trabaja, mas mobiliza”. Qualquer semelhança com o Brasil...


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Para embarcar rumo a Colônia do Sacramento (Colonia del Sacramento em espanhol, mas chamam de Colonia pura e simplesmente), do outro lado do Rio de La Plata (que é o estuário dos rios Paraná e Uruguai), você passa pela migração, como no aeroporto. A barca é enorme, forma-se uma longa fila para embarcar, chega a hora e ela não sai, em vez de 11:45 sai às 12:25. Se fosse no Brasil já estaria um monte de gente reclamando, isso é um absurdo, aqui nada funciona, como aconteceu na fila do embarque em Guarulhos.


Embarcamos, os assentos são espaçosos, bem diferentes de um avião (como você pode ver aqui). Na partida, o alto-falante explica os procedimentos de segurança como se fôssemos fazer uma perigosa travessia transatlântica. A foz do rio é larga, a travessia leva uma hora. A bordo, casa de câmbio (mas na barca da volta já não tinha), free shop (não mais barato que o do Rio), e ao balanço suave do buque (barca), ouvindo, em meio ao espanhol generalizado, um casal atrás de nós conversar em português, fazemos a travessia entre os nossos dois vizinhos platinos, um deles já tendo feito parte de nosso país (Província Cisplatina).

Posada de La Flor: pátio central e nosso quarto (inferior esquerdo)

Em Colônia do Sacramento ficamos numa pousada simpática, Posada de La Flor, quartos com nomes de flores (o nosso, Jasmim) em torno de um pátio central com uma fonte, como num claustro colonial, bem cotada no TripAdvisor, a um passo do encantador centro histórico, que além do desayuno serve, a partir das dezessete, uma merienda, um lanche: medialunas, pudim de pão com doce de leite, chá, café com leite. Aqui faz mais frio que em Buenos Aires e venta, e chuviscou também.


Posada de La Flor: merienda

Por que será que a gente gosta tanto desses lugares antigos, desses pisos de pedras irregulares, românticos lampiões, vento soprando do Rio de la Plata, céu nublado, uma única motocicleta de lanterna acesa constituindo todo o trânsito, as mesas e cadeiras de um restaurante espalhadas pela rua esperando os fregueses do jantar (que não vieram, porque à noite o centro histórico estava vazio), casas de pedra, painéis de azulejos (herança lusa), uma ou outra laranjeira, vendedores de artesanato, um cão rolando na terra, canto das gaivotas, o farol, o mar... o sossego.


Piso de pedras irregulares


Romântico lampião


As mesas e cadeiras de um restaurante espalhadas pela rua (esquerda) esperando os fregueses do jantar


Casa de tijolos e pedras


Painel de azulejos


Ruínas do Convento de São Francisco (1740-1760) e farol (1890-1910)

Assim é o centro histórico da antiga Nova Colônia da Senhora do Sacramento, fundada pelo português, governador da capitania do Rio de Janeiro, Manoel Lobo, na tentativa lusitana de criar um posto avançado do lado de cá do Rio de la Plata: Província Cisplatina, aquém do Rio da Prata. Do lado de lá, estabelecera-se em 1776 o Vice-Reinado da Prata, capital Buenos Aires. Durante um século Colônia e o que viria a ser o Uruguai (a chamada Banda Oriental) foram disputados entre as Américas portuguesa e espanhola (Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves/Império do Brasil versus Vice-Reinado da Prata/Províncias Unidas do Rio da Prata), até enfim ser criada, sob a pressão e depois com a mediação britânica, pelo Tratado do Rio de Janeiro, a República Oriental do Uruguai em 1925. (Mais informações no verbete Província Cisplatina da Wikipedia.) Após a merienda o passeio na noite chuvosa pelo centro histórico agora vazio. Nunca viaje sem guarda-chuva.

Noite chuvosa em Colonia

Basílica do Santíssimo Sacramento

Também a parte não histórica da cidade é primorosa: ruas calçadas de paralelepípedos, pouco trânsito, carros respeitando a travessia de pedestres, o mesmo tipo de árvore regularmente ornando todas as ruas, nenhum sinal de pobreza. Tenho a impressão de que, ao contrário dos vizinhos do norte e sul, o Uruguai mantém as finanças públicas equilibradas (de fato, está na Wikipedia: “os indicadores financeiros do Uruguai se mantiveram mais estáveis do que em seus vizinhos, um reflexo de sua sólida reputação entre os investidores e do seu grau de investimento soberano, um dos dois únicos na América do Sul). A renda per capita uruguaia (15,2 mil) supera as do Chile (13,8 mil), Argentina (12,4 mil) e Brasil (8,6 mil). O real aqui é menos bem cotado que na Argentina.

Informação útil: pancho é cachorro quente. Perguntei ao rapaz de um quiosque ¿qué es pancho? e ele respondeu em bom português: cachorro-quente. Não devo ter sido o primeiro a perguntar.

Também a parte não histórica da cidade é primorosa

Sexta-feira (viernes), 28 de setembro de 2018: COLONIA-MONTEVIDEO

Estamos agora sentados na rodoviária esperando a hora do embarque para Montevidéu.


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Da janela do ônibus você vê uma paisagem plana, os pampas, com leves ondulações, árvores isoladas ou conjuntos de árvores esparsos, algumas casas, aqui e ali cabeças de gado. Nenhuma montanha.


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Para quem vem de Buenos Aires, Montevidéu não é uma cidade que impressione à primeira vista, ao contrário, meio sem glamour, pessoal meio mal vestido (tipo brasileiro mediano), mas a cidade tem lá seus encantos, e em pouco tempo acaba cativando o visitante. O uruguaio é prestativo, gentil. Quando saltamos do ônibus, no Terminal Tres Cruces, eu pensando, agora vai começar a mesma novela do aeroporto de Buenos Aires para conseguir o cartão (tarjeta) do transporte público, ao me dirigir a um quiosque e perguntar se tinham o cartão, o rapaz gentilmente (que diferença de Buenos Aires!) orientou que nos dirigíssemos ao Abitab, indicou claramente o local, e lá no Abitab o atendente, com toda a gentileza, não só nos vendeu e carregou nossos cartões, mas explicou como proceder no coletivo: que pedíssemos “un boleto de una hora”, que é a passagem mínima dando direito a viajar por diferentes ônibus por uma hora. Depois descobri que você pode pagar em efectivo (dinheiro) ao trocador, mas aí perde as integrações, que a certa altura nos foram úteis. Eu já havia pesquisado no site dos ônibus (que aqui chamam de “ómnibus”, enquanto em Buenos Aires são “colectivos”) que deveríamos pegar a linha 300, Cementerio Central, até o ponto final, e tinha até estudado no Street View onde exatamente pegá-lo. E assim nos metemos, mochilas às costas, num ómnibus meio que lotado rumo ao Barrio Sur para o nosso Ibis, na rambla, que é a larga avenida com calçadão à beira do Rio de la Plata (mapa abaixo).


Para este primeiro dia eu havia planejado caminhamos à beira-rio (rio tão largo que parece mar) rumo ao Centro, lá caminharmos até o Mercado del Puerto e procurarmos o que comer, já que há dois dias não comíamos comida quente. O tempo aqui um pouco mais frio que em Buenos Aires, e venta. Os uruguaios são gentis, e vários falam português, pelo menos um pouco. Uns rapazes no calçadão, vendo que consultávamos o mapa, perguntaram aonde estávamos indo, e quando respondemos que estávamos passeando, sem destino, recomendaram que subíssemos em direção à Plaza Independencia, que é o point central, hoje cheia de barraquinhas tipo feira hippie, devido a uma manifestação, como descobrimos depois. Na praça, o Palacio Salvo, que já foi o prédio mais alto da América do Sul, impressiona pela dimensão e originalidade da fachada. A caixa de um mercado, que falava português perfeito, contou que já morou em Porto das Galinhas. O centro montevideano, ao primeiro contato, em dia e horário comerciais, lembra um pouco Sampa pelo comércio popular, pessoas não muito bem vestidas, que na maioria tampouco são bonitas. Mas no início da noite esse mesmo centro foi invadido por hordas de jovens vindos para a marcha de la diversidad, contra a discriminação (sexual) e pelos direitos dos transsexuais, pelo que li no dia seguinte no jornal El País. Estes sim, bonitos como são os jovens... pena que tantos vão perdendo os encantos à medida que enfrentam as agruras da vida. A Ciudad Vieja (Centro Histórico) já tem um ar mais turístico, casas velhas, lojas de artesanatos, ateliês, coffee shops tipo Amsterdam. Lá comemos a melhor picanha (grossa) e chorizo (linguiça) de nossas vidas, com vinho da casa, arroz, batatas fritas (1496 pesos pagos pelo Visa).

Palacio Salvo e manifestantes

Marcha de la Diversidad

Sábado, 29 de setembro de 2018: MONTEVIDEO - 1o dia

O dia amanheceu fortemente encoberto, chuva torrencial, trovoadas e ventania que vejo e ouço da janela do hotel. Saiu em El Pais: “Alerta por vientos muy fuertes y lluvias muy intensas para hoy” ou “tempo arisco”, segundo a Mi.
Dia reservado para visitar as casas históricas no centro da cidade.


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O jornal não havia exagerado. Para chegarmos ao centro olha que tivemos de enfrentar uma tremenda intempérie. Num McCafé onde paramos para comer os pãezinhos do couvert do jantar de ontem + queso sandwich e leonesa comprados num supermercado + um submarino (barrinha de chocolate mergulhado num leite quente) tive de envolver os pés com papéis de secar mãos porque as meias encharcaram.


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MUSEU HISTÓRICO NACIONAL
O Museo Histórico Nacional administra e conserva várias casas do século XIX então pertencentes a figuras ilustres (ver aqui). No Centro Histórico, próximos entre si e abertos de quarta a domingo das 12 às 18 (ao menos segundo o site, mas a Casa de Rivera nesse sábado tempestuoso estava fechada), ficam:

Casa de Rivera, o Museo Histórico propriamente dito (Rincón 431), aberto de quarta a domingo de 12 a 18 h. Los inicios de su construcción datan de la primera década de 1800, siendo residencia del comerciante y cabildante, Cristóbal Salvañach. Fue vivienda del General Fructuoso Rivera a partir de 1834 hasta 1849 y es Monumento Histórico Nacional desde 1975.

Casa de Antonio Montero, conhecida como Museu Romântico, pertinho da Casa de Rivera (25 de Mayo 434). Construida en 1831 por José Toribio, para el acaudalado comerciante Antonio Montero, la vivienda presenta una fachada neoclásica y se estructura en dos niveles en torno a un gran patio abierto, al cual se vuelcan las habitaciones.

Casa de Lavalleja (pronuncia-se Lavarredja), pertinho do Museu Romântico (Zabala 1469). Casa colonial, construida en torno a 1783 y antigua residencia de la familia Lavalleja. (informações em espanhol extraídas do site do Museo Histórico).

MUSEU ROMÂNTICO
O Museu Romântico conserva ambientes decorados no estilo romântico do século XIX: prataria, louças, porcelanas (aqui), mobílias (aqui), quadros (aqui), esculturas (aqui), bustos (aqui), lustres, leques, vestuário, vasos, uma sala de música com instrumentos musicais. No centro da casa de dois pavimentos, um pátio. O funcionário nos chamou de valentes por termos enfrentado a borrasca, mas à tarde o tempo amainou e os demais turistas, os menos valentes do que nós, acorreram ao Centro.

Casa de Antonio Montero (Museu Romântico)


Museu Romântico: grande pátio aberto para o qual estão voltados os quartos

Museu Romântico: uma das salas decoradas

CASA DE LAVALLEJA
A Casa de Lavalleja (Juan Antonio Lavalleja y de la Torre, militar e político uruguaio) exibe duas exposições. A primeira, Bien Criollo, com a coleção de Roberto J. Bouton, de mais de trezentos objetos – ferramentas usadas na criação de gado e equitação, prataria nativa, diferentes tipos de armas, utensílios de cozinha e domésticos, instrumentos médicos e curiosidades zoológicas – reunidos por esse médico, aficionado da vida rural “gaúcha” nos Pampas uruguaios, vida esta que tem muito em comum com a dos nossos gaúchos rio-grandenses, tchê! O hábito do chimarrão aqui em Montevidéu é bem disseminado. Ao final da vida, quando já residia em Montevidéu, Bouton registrou a memória das tradições orais em apontamentos que chamou de “Bien criollo”, criollo no sentido de nativo (portanto, patrimônio nativo), diferente da cultura dos colonizadores.

Casa de Lavalleja: "Gaucho y sus armas", litografia de Carlos Morel - Gregorio Ibarra, 1841

Objetos da vida gauchesca colecionados por Roberto Bouton

"Corrida de sortijas" ("Corrida de argolas" - detalhe), Horacio Espondaburu, óleo sobre tela

A segunda exposição na Casa de Lavalleja foi sobre o inventor, escritor, desenhista, calígrafo, litógrafo, aquarelista, retratista Juan Manuel Besnes e Irigoyen, que documentou vários fatos relevantes da história conturbada desse país disputado.

ETC.
A casa de Rivera, embora pelo site devesse estar aberta de 12 às 18, estava “cerrada”, de modo que ficou para outra visita futura à capital uruguaia, junto com o Museu de Artes Decorativas, que descobri aqui, não estava no programa, mas parece merecer uma visita. 

Nessas andanças pelo centro de Montevidéu, além das casas-museus visitadas, observamos & fotografamos a arquitetura, praças, grafites, comércio, gente. Por ser um sábado o centro estava bem sossegado, propício às artes de flanar & fotografar, mormente depois que a chuva torrencial da manhã abrandou. Apreciem as fotografias abaixo e se quiserem mais visitem meu álbum MONTEVIDÉU no Google Fotos (clicando aqui).

No jantar repetimos a picanha de ontem no Mercado del Puerto.


 Catedral Basílica de Montevidéu

 Chafariz na Plaza Constitución

 Art nouveau em Montevidéu (Bartolomé Mitre, 1402)

 Casa de 1859, Ciudadela esquina com Mercedes

 Quiosque

 Legalização da maconha

 Bandoneón

 Velhas portas

 Cabildo de Montevidéu

 Plaza Independencia e Mausoleo de José Gervacio Artigas | Prócer de los Orientales. Se além destas quiser ver mais fotos de Montevidéu clique aqui.

Domingo, 30 de setembro de 2018: MONTEVIDEO - 2o dia
Amanheceu ensolarado, mas eu disse para Mi: vamos levar o guarda-chuva (“paraguas” em espanhol) que o tempo aqui pode ser imprevisível. Foi a salvação. Aliás, hoje exageramos, e nem tudo que planejei meticulosamente transcorreu conforme o roteiro. Perdemo-nos, expusemo-nos à intempérie que voltou com força total ao fim do dia – não fosse o fato de estarmos em “estado de fluxo”, imersos no “aqui e agora” tão distinto do ramerrão cotidiano, sensibilidade aguçada e sistema imunológico reforçado, poderíamos ter contraído uma gripe ou nos estafarmos. Nada disto! Apenas uma certa rebeldia intestinal, resultante da irregularidade dos horários de refeições e do teor das próprias refeições – nada que um Activia não corrija. Mas vamos aos acontecimentos do dia.

MUSEO JUAN MANUEL BLANES
Primeiro fomos visitar o Museo Juan Manuel Blanes (Av. Millán, 4015, aberto de terça a domingo de 12-18 - ómnibus 582 Punta Carretas-Peñarol), uma vila palladiana em centro de terreno, projetada em 1870, que pertenceu ao Dr. Juan Bautista Raffo, em 1975 transformada em monumento histórico nacional, com exposição permanente das obras dos pintores Juan Manuel Blanes e Pedro Figari e exposições temporárias diversas. O ponto alto são as pinturas acadêmicas de Blanes: retratos de personalidades, cenas históricas, algumas em tamanho monumental, tipo pinturas de Pedro Américo (aqui), uma tela menorzinha mostrando o assassinato do General Venâncio Flores, cenas gauchescas (aqui), marinhas etc. Também dignas de nota as pinturas gauchescas de Figari e a estufa ao fundo com laguinho, esculturas e arcadas.


Museo Juan Manuel Blanes: uma vila palladiana em centro de terreno

Pedro Figari, El Pericon (dança folclórica - 1918-20)

Exposição permanente

Estufa com laguinho

Ao fundo, o aprazível Jardim Japonês Hei Sei En, inaugurado em 2001 para comemorar o 80o aniversário das relações diplomáticas Uruguai-Japão, com alamedas, flores, laguinho com carpas, canto dos pássaros, a pontezinha em arco que a gente associa aos quadros de Monet. Na entrada a guarda pergunta se é a primeira vez que você vem, e se for, manda você ler um rol de regras – proibido fumar, tomar mate, comer, permanecer sentado, dar de comer aos peixes, adentrar a casa de chá... – ou, se preferir, as recita para você.


Crianças no Jardim Japonês

A pontezinha em arco que a gente associa aos quadros de Monet

Em mais de um local, havia visto lixo revolvido em torno das caçambas, e aqui vimos pessoas catando coisas dentro de caçambas, confirmando um artigo lido anteontem em El País afirmando que as políticas sociais do esquerdista Mujica falharam, dado o número de pobres morando nas ruas (e aqui o frio é intenso) e catando sua alimentação no lixo.

A caminhada até a Avenida Agraciada para pegarmos o ônibus até o Cerro nos deu a oportunidade de conhecermos um bairro de classe rica estilo subúrbio americano, casas com muros baixos exibindo os gramados e jardins fronteiros, sem as muralhas que ocultam as moradias das classes altas brasileiras temerosas de bandidos protegidos por uma legislação leniente.

Castelinho na Av. Millán

Ao passarmos por um casarão gótico (aqui) perguntei a um simpático casal de uruguaios (todo mundo é simpático aqui) de quem era, e ele explicou ser a residência presidencial, mas que só era utilizada para reuniões, já que o presidente tem moradia própria por perto.

FORTALEZA GENERAL ARTIGAS
Pelos itinerários (recorridos) dos ônibus para o Cerro (125 Aduana-Cerro / 370 Portones-Cerro / 76 Punta Carretas-Cerro ) mostrados no site, o ponto final seria na Playa del Cerro e de lá poderíamos caminhar até o acesso à Fortaleza General Artigas, no ponto mais alto da cidade (uns 150 metros, Uruguai é um país plano) e desfrutar uma bela vista da Baía de Montevidéu e além. Mas o fato é que o forte, uma das dez maiores atrações da cidade (aqui), é lugar para se ir num tour ou de táxi, não pelo transporte coletivo. O problema é que o ônibus foi parar no Terminal del Cerro (aqui), num local que nada tinha a ver com aquele que estava no mapinha que imprimi, lejos (longe) da fortaleza como nos informaram, e tivemos de pegar um segundo transporte, e não fosse a gentileza dos uruguaios, que nos deram as orientações, nos perderíamos nesse “fim de mundo” meio que periférico. A vista do morro, que subimos a pé, passando por umas favelinhas – na cabeça a história do casal de brasileiros assaltado a mão armada naquele bairro do Cerro, contada por um amável passageiro do ônibus que queria nos alertar – mais que recompensou o percalço. O forte em si, que neste dia e horário deveria estar aberto, não estava. Vejam as fotos que falam mais do que as minhas mal traçadas linhas.


Garotas de Montevidéu e Baía de Montevidéu ao fundo

Fortaleza General Artigas

Detalhe da fortaleza, que abriga o Museu Militar

Canhão e panorama


ETC.
À noite ouviam-se os ventos uivantes do quarto do hotel. O minuano dos velhos pampas sopra por aqui também. Todo mundo anda encapotado, porque de um momento ao outro a temperatura despenca.

Segunda-feira (lunes), 1o de outubro de 2018: MONTEVIDEO-BUENOS AIRES
Viagem pelo Buquebus (ônibus + barca) Montevidéu-Buenos Aires. A chegada na capital portenha impressiona, já na Zona Portuária uma plêiade de prédios pós-modernos, o que será nosso Porto Maravilha daqui a vinte anos. Contraste com a pacata, provinciana Montevidéu, de poucos prédios, pouco trânsito, gente tranquila. Do sexto andar do nosso Ibis Obelisco, na Avenida Corrientes, área de teatros, Broadway portenha, bem no coração do centro, ouve-se o burburinho urbano a noite inteira, trazendo à lembrança o tango imortalizado por Edmundo Rivero (que você pode ouvir aqui): “Con veinte abriles me vine para el centro; / Mi debut fue en Corrientes y Maipú.” 


Modernidade em Buenos Aires

Pós-modernidade em Buenos Aires

Modernidade e pós-modernidade em Buenos Aires

Vista da janela do hotel: Avenida Corrientes, a Broadway portenha

A cidade pulsa, a cidade vibra: quando chegamos no tradicional Restaurante Chiquilín, que existe desde 1927 – Declarado de Interés Turístico por el Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires, por ser heredero del estilo y la tradición del Bodegón porteño. Expresión inimitable de la gastronomía de Buenos Aires e lugar de encuentro de personalidades de la cultura y la bohemía de nuestra ciudad – em torno das oito horas da noite nem estava cheio, mas depois foi lotando. O imperdível bife de chorizo com papas fritas e meio litro de um Malbec confirmam o que todos sabem: a carne argentina é a melhor do mundo. E o vinho argentino não fica atrás dos chilenos ou mesmo europeus. Em plena primavera, a temperatura caiu para 13 graus. Depois dizem que a Europa é fria! Os cubiertos (couverts) pedimos que o garçom embrulhasse para comermos no café da manhã do dia seguinte. Atendimento primoroso.

A melhor carne do mundo

Terça-feira (martes), 2 de outubro de 2018: BUENOS AIRES - 3o dia
Você já deve ter visto fotografias da antiga Avenida Central, depois Rio Branco, com seus lindos prédios Beaux Arts, de inspiração francesa, quase todos derrubados e substituídos por arranha-céus. Pois aqui em Buenos Aires os velhos e elegantes prédios das primeiras décadas do século passado estão de pé até hoje e, em conjunto com as amplas avenidas, monumentos colossais, lindas praças e fontes que, ao contrário das cariocas, jorram água, dão à cidade um ar de uma capital europeia como Madri ou Paris – aliás, Buenos Aires tem algo das duas.

Primeiro programa do dia foi fazer o câmbio. Meu filho, que esteve aqui em 2016, contou que é feito na Calle Florida por pessoas que te abordam na rua, apregoando: “Cambio! Cambio!” Escolhi um velhinho de aspecto respeitável, com a estrela-de-davi ao peito, que, a uma pergunta minha, contou que o Yom Kipur e Rosh Hashaná aqui foram muito bonitos. Levou-nos para uma lojinha no subsolo, exatamente como meu filho havia descrito, sem nenhuma placa caracterizando-a como casa de câmbio, onde troquei cinquenta euros que na Europa gastaria num piscar de olhos por 2200 pesos que aqui dão para fazer a festa. Pelo real oferecia 9 pesos, não muito mais do que me ofereceu o Banco de la Nación Argentina quando aqui cheguei semana passada.

CALLE CAMINITO (LA BOCA)
Ya llegan los inmigrantes caen estrellas del cielo
Dos arlequines saludan y un bandoneon toca un viejo
Juega un nene a la pelota se baila un tango orillero
Esto es parte de La Boca el barrio que yo mas quiero
Jose Palmiotti - Lalo Sussi

Caminito que todas las tardes
Feliz recorría cantando mi amor
No le digas si vuelve a pasar
Que mi llanto tu suelo regó
Trecho do tango Caminito, de Juan de Dios Filiberto, que você pode ouvir na voz do imortal Carlos Gardel clicando aqui

Nosso primeiro passeio foi para a Calle Caminito e entorno, no bairro La Boca (sede do time de futebol Boca Juniors), ocupada originalmente por imigrantes italianos que, usando as tintas que sobravam da pintura dos barcos (pelo que entendi da explicação de uma professora conduzindo um grupo escolar), nem sempre da mesma cor, deram às casas o aspecto multicolorido característico desse pitoresco “point”, que se tornou uma espécie de Lapa portenha, com seus bares, restaurantes, os “conventillos” (antigos cortiços hoje transformados em complexos de lojinhas turísticas), e a arte de rua, já que os italianos são um povo eminentemente artístico. Do centro vai-se para lá no ônibus 64. Ao subir, antes de encostar a tarjeta (cartão) na máquina, você deve dizer ao motorista aonde vai para que ele calcule a tarifa exata.

Parilla La Garibaldi

Conventillo colorido em La Boca

Gauchito Antonio Gil, figura religiosa, objeto de devoção popular na Argentina

La Canción, de Julio C. Vergottini

Conventillo Historico de 1881 Centro Cultural de los Artistas

Clavel del Aire (literalmente "cravo do ar", nome popular da planta aérea Tillandsia), de Luis Perlotti. "Como el clavel del aire, / así era ella, / igual que la flor / prendida en mi corazón."

Artista

Tango

Na volta de La Boca saltamos na Plaza de Mayo e caminhamos até a Plaza General San Martin. Lá pretendíamos fazer a visita guiada ao Palácio San Martin (aqui), sede do Ministério das Relações Exteriores, oferecida às terças e quintas (martes e viernes) às 14:00 em espanhol e 15:00 em inglês, mas a de hoje havia sido cancelada, de modo que, vendo um casal comendo uma salada num banco da enorme praça em frente, perguntamos onde compraram, fomos até o restaurante indicado, o Dandy, com a ventana (janela) onde vendem saladas, e acabamos fazendo um piquenique no gramado em aclive, onde outras pessoas também se sentavam e algumas também comiam ao sol, que no Uruguai se mostrara tão arredio.

Casa Rosada na Plaza de Mayo. Aos sábados e domingos oferece visita guiada, mas nesses dias estávamos no Uruguai.

Monumento del Libertador José de San Martín

De lá voltamos a um cantinho sossegado do Centro, entre Retiro e Recoleta, percorrendo as ruas Esmeralda e Arroyo (aqui), trecho menos conhecido pelos turistas, onde já estivéramos semana passada, local do memorial às vítimas do atentado contra a Embaixada de Israel (esquina da Arroyo com Suipacha) e do mais belo edifício portenho, Estrugamou, e voltamos a percorrer a parisiense Recoleta, em busca do Palais de Glace que nos escapara semana passada, mas que infelizmente está fechado, em restauração. E na área ajardinada no entorno da Faculdade de Direito onde fomos pegar o metrô conseguimos divisar, ao longo da via férrea, o que nos pareceu uma área favelizada (Villa 31), algo que ainda não havíamos visto na capital desse nosso vizinho que já foi do primeiro mundo.


Prédio neorrenascentista francês à esquerda do Palácio San Martin

Palacio San Martin (detalhe)

Outro prédio neorrenascentista francês

Fonte jorrando água (algo que as fontes cariocas não fazem mais)

Palacete neorrenascentista francês na Recoleta

O mais belo edifício portenho, Estrugamou

Villa 31, favelinha portenha


PALÁCIO BAROLO
Nossa terceira missão do dia foi visitar o impressionante Palácio Barolo, prédio projetado pelo mesmo arquiteto (Mario Palanti, fascista amigo do Mussolini) do Palácio Salvo de Montevidéu, com estilo originalíssimo. Informa o site do Barolo:

A linguagem arquitetônica do edifício é difícil de enquadrar em um estilo ou escola precisa. A partir de uma atitude impressionista, sua arquitetura representa uma importante tentativa de combinar diferentes traços da tradição arquitetônica europeia, presentes no neogótico e neorromânico, com modernas técnicas construtivas à maneira americana e características de caráter rio-platense, sem esquecer que a cúpula inspira-se no templo Rajarani Bhubaneshvar (Índia, século XII), para representar o amor tântrico entre Dante e Beatriz.

É possível fazer a visita guiada tanto no Barolo como no Salvo, mas por serem prédios velhos, com escadas estreitas, elevadores antigos e torres altas, ficamos com medo de sentir alguma fobia. Ao sol de final de tarde o prédio estava bem fotogênico, e entramos também na ampla galeria que o atravessa de lado a lado, com adornos mais próprios de um palácio do que de um edifício, e vimos os velhos elevadores desses cuja porta gradeada você tem que abrir e fechar manualmente.

Após um descansinho no hotel voltamos a comer a melhor carne do mundo no mesmo restaurante de ontem.

Palacio Barolo


"adornos mais próprios de um palácio do que de um edifício"

"velhos elevadores desses cuja porta gradeada você tem que abrir e fechar manualmente"

Quarta-feira (miércoles), 3 de outubro de 2018: BUENOS AIRES - 4o dia

MUSEU DE BELAS ARTES

Nossa grande coleção de artes plásticas europeias – do MASP – é tardia, reunida por Assis Chateaubriand, aproveitando a crise do pós-Segunda Guerra Mundial na Europa. Na Argentina, que na virada para o século XX era o celeiro mundial, um dos países mais prósperos do globo, ricaços já começaram a colecionar arte europeia durante o século XIX. Essa é a origem do Museo Nacional de Bellas Artes portenho (Av. del Libertador, 1473, pertinho do Cemitério da Recoleta e da estação de metrô Facultad de Derecho), com impressionante acervo de quadros, da pintura medieval, renascentista e barroca à impressionista e acadêmica do final do século XIX e início do XX, a maioria doada. Salas inteiras são dedicadas aos doadores de seus acervos, por exemplo, a coleção Guerrico. Museu de nível europeu (e eu que pensava que o MASP fosse o único desses museus no hemisfério sul do planeta), nele você se surpreenderá com obras-primas de pintores menos badalados, mas também com pintores do primeiro time (clique no nome para ver a obra): Rembrandt, Rubens, Goya, Cranach, El Greco, Renoir, Monet, Manet... Um quadro que contrasta vida & morte é A Vaidade da Vida, de pintor anônimo italiano do século XVII, que você pode ver aqui


Obras renascentistas

Numericamente predominam os mestres flamengos, holandeses e espanhóis, estes últimos compreensivelmente, dada a colonização espanhola por estas bandas. Também estão representados os grandes pintores argentinos, que eu desconhecia (quase não temos intercâmbio cultural com nossos vizinhos), destacando-se Prilidiano Pueyrredón, com seus retratos (aqui) e cenas da vida gauchesca (aqui e aqui) e Carlos Morel (aqui). Uma obra representativa da cultura nativa é o Idilio Criollo (aqui), de Jean Leon Pallière, que, conquanto nascido no Rio de Janeiro, foi registrado no consulado da França, recebendo cidadania francesa, e se radicou em Buenos Aires em 1855.


Museo Nacional de Bellas Artes: contemplação da arte

Museo Nacional de Bellas Artes: escultura do Rodin

Museo Nacional de Bellas Artes: Colección Guerrico

Idilio Criollo (detalhe)


CEMITÉRIO DA CHACARITA
Nossa segunda visita foi ao Cementerio de la Chacarita (em frente à estação de metrô Federico Lacroze), com impressionantes mausoléus, alguns com dimensões de pequenas igrejas, e, à semelhança do Recoleta, caixões guardados em nichos nos mausoléus, não enterrados (“os argentinos têm algo de egípcios, qualquer um que tenha algumas posses é embalsamado, e os caixões ficam expostos, visíveis pelas portas das capelas”, diz Alexei Bueno). Aqui repousa Gardel, como ficamos sabendo na terceira visita do dia, ao Museu Casa Carlos Gardel. Nos fundos do cemitério percebemos que, como nos cemitérios brasileiros, as placas de metal vêm sendo pilhadas (ver aqui e aqui), um atentado à memória de quem ali jaz em eterno repouso.

Mausoléus

Panteon da Polícia Federal

MUSEU CASA CARLOS GARDEL

Na Casa de Gardel (Jean Jaures 735, metrô Carlos Gardel ou Pueyrredon) tivemos a sorte de chegar bem no comecinho da visita guiada (16 horas) (que na verdade é uma longa palestra, proferida num só aposento, ou seja, o guia não percorre o museu) que, no esforço por entendermos o espanhol e na frustração de não conseguirmos captar cem por cento dos interessantes episódios, acaba cansando a nossa mente – mas pela riqueza das informações vale a pena. Ficamos sabendo: como Gardel veio nenenzinho com a mãe (mas sem o pai!) para Buenos Aires; como se tornou um desertor do exército francês por não se apresentar como voluntário para defender o país na guerra de 1914; como, impossibilitado de obter a cidadania argentina por não ter prestado o serviço militar obrigatório, tornou-se cidadão uruguaio como uma ponte para, aí sim, obter o passaporte argentino; como o tango originou-se na zona de prostituição em torno da Avenida Corrientes com letras originalmente de conteúdo sexual, à semelhança do funk carioca contemporâneo, tanto é que o tango portenho mais popular, El Choclo, faz menção ao órgão viril masculino; a diferença entre o tango canción, cantado, que é para ser ouvido, jamais dançado, e o tango orquestrado, este sim dançado; que o tango é uma dança machista, onde o homem sempre conduz os passos, e que o fato de que, nos primórdios, por falta de mulheres, homens ocasionalmente dançavam com parceiros do mesmo sexo não significava que fossem gays; como Gardel, em viagem a Nova York, conheceu o estreante Frank Sinatra, que décadas depois, no auge da fama, vindo dar um show em Buenos Aires, fez questão de prestar seu tributo ao mestre do tango (como você pode ler aqui); como Gardel, em viagem de navio, conheceu o grande Caruso, que lhe disse que, se tivesse tido as mesmas chances que ele, teria alcançado o registro de voz barítono, o que levou Gardel a treinar a voz e obter uma amplitude superior à de Sinatra, do tenor ao barítono; como Gardel, também em Nova York, deu o pontapé inicial na carreira do então jovem (pibe) Astor Piazzolla, o pai do tango-jazz, etc. Uma aula.

Museu Casa Gardel


Mi Noche Triste, primeiro tango canção

Casas coloridas perto do museu

Gardel

PIZZARIA GÜERRIN

À noite, pizza na famosa Güerrin, ao lado do hotel (à noite às vezes o cheiro do forno a lenha chega ao nosso quarto), que no TripAdvisor está com nota 4,5 e se vangloria de oferecer a melhor pizza do mundo. São três pavimentos, no primeiro uma fila de quem compra fatias (porciones) para comer de pé, no terceiro, imenso salão com dezenas de mesas. Os preços são camaradas, mas a pizza nos decepcionou: pouca massa, parco recheio que se perde no excesso de queijo meio salgado, como se estivéssemos comendo um enorme queijo frito. As fatias de pizza que havíamos comido em local bem menos pretensioso na mesma Avenida Corrientes nos agradaram bem mais, com sua massa grossa, recheio que não se perdia no queijo, e um suculento molho de tomate (a do Güerrin nem molho tem). Pior, a Güerrin não aceita cartão de crédito, por sorte eu dispunha de efectivo para pagar a conta mas... imagina se não dispusesse, o mico que seria!

Quinta-feira (jueves), 4 de outubro de 2018: BUENOS AIRES - 5o e último dia

PALÁCIO PAZ

Às 11 horas, visita guiada ao suntuoso Palácio Paz (Av. Santa Fe, 750 - aqui), um dos vários palácios das famílias de ricaços que, com a crise econômica de 1929, perderam suas economias, contraíram dívidas e tiveram de vender seus ricos imóveis, alguns virando embaixadas, outros, hotéis de alto luxo, ou ainda repartições governamentais. O Palácio Paz, que pertenceu ao magnata da imprensa Dr. Paz, proprietário do jornal La Prensa, construído em 1902-14 segundo planta comprada em Paris de um arquiteto francês que jamais pôs os pés em solo argentino, ocupando uma área de 12 mil metros quadrados e possuindo 140 ambientes (salões, salas, banheiros, etc.), foi comprado pelo Círculo Militar, que aluga os salões, decorados em diferentes estilos, utilizando materiais – madeiras, vitrais, mármores, bronze – trazidos da França. Entre os aposentos temos duas salas de refeições (comedores) renascentistas (aqui), salão de baile inspirado na galeria dos espelhos de Versalhes (aqui), uma sala de música rococó (Luís XV - aqui), galeria como de um claustro (aqui) e o coração do edifício: enorme salão de recepções (Gran Hall de Honor) circular coroado por uma cúpula e com acesso ao jardim (aqui).

Depois pretendíamos fazer a visita ao Palácio San Martin, o Itamarati argentino, que já havíamos tentado visitar na terça-feira, mas de novo os salões estavam sendo utilizadas por atividades da chancelaria (acho que ligadas aos Jogos Olímpicos da Juventude que começarão dentro de alguns dias) e as visitas foram canceladas.

Palácio Paz, atual Círculo Militar

Palácio Paz: salão de baile inspirado na galeria dos espelhos de Versalhes

Palácio Paz: madeira entalhada

Palácio Paz: piso de marcheteria e decoração rococó

Palácio Paz: sala de música rococó

Palácio Paz: Gran Hall de Honor (cúpula)

Palácio Paz: visão do jardim interno

SAN TELMO

Realizamos o plano B: passeio ao bairro de San Telmo, onde pudemos contemplar uma arquitetura pré-afrancesamento, que lembra as ruelas madrilenas. Na turística Plaza Dorrego, numa área de antiquários, onde aos domingos se realiza a famosa feira, com suas mesinhas ao ar livre onde você pode saborear uma bebida (mas nos sentamos num banco de praça mesmo), encantamo-nos com os dançarinos de tango – essa dança tão sedutora, onde o dançarino, trajado a rigor, conduz virilmente a dama sensualmente trajada, denunciando as origens bordeleiras – que se exibem em plena praça aos turistas embasbacados em troca de uns cobres, como aqueles sambistas tocando para os fregueses dos restaurantes e quiosques de Copacabana.

Parroquia San Ignacio de Loyola (Bolívar 225, perto da Plaza de Mayo), igreja mais antiga de Buenos Aires, inaugurada em 1722, que visitamos a caminho de San Telmo. Vale a pena entrar e contemplar os altares (aqui, aqui, aqui, aqui)

Passeio ao bairro de San Telmo, onde pudemos contemplar uma arquitetura pré-afrancesamento, que lembra as ruelas madrilenas

Tango



CAFÉ TORTONI

Às seis horas da tarde encontramo-nos na porta do Café Tortoni (Av. de Mayo, 825), uma espécie de Confeitaria Colombo portenha, com minha amiga e leitora de meus livros Mirtha Graciela, professora de português no exército argentino, com quem conversamos sobre favelas argentinas (villas), fanatismo kirschnerista (o correspondente argentino ao nosso lulismo), peculiaridades do castelhano platino (uso da segunda pessoa do plural, vos), os meninos argentinos enviados ao sacrifício na Guerra das Malvinas por um general bêbado, Galtieri), as nossas boas impressões sobre Buenos Aires e o amor imensurável de Mirtha pelo Rio de Janeiro, cidade de seu coração (“Mais do que conhecer a Itália ou qualquer outro país, quero voltar ao Rio de Janeiro”).
Quando, durante a Guerra das Malvinas, um soldado se queixou na TV de que não estava recebendo cartas, montes de argentinos passaram a enviar correspondência para ele, entre eles a Mirtha. O soldado, num gesto solidário, repassou as cartas para outros colegas, um dos quais veio a ser o marido da Mirtha. Uma história bonita que poderia ser ficção mas foi realidade.


Mirtha e eu no Café Tortoni

ETC.
De noite voltamos ao nosso restaurante de estimação, a mesma carne divina de sempre regada a bom Malbec, hoje com direito a sobremesa, um volcán de chocolate com sorvete, que descobrimos nada mais ser que o nosso petit gateau. O garçom hoje mereceu gorjeta especial, que aqui é “propina”, mencionamos a diferença do sentido desta palavra no português e espanhol, e acabamos comentando os escândalos de corrupção que formam um denominador comum entre ambos os nossos países e questionando para que uma pessoa precisa acumular tanta plata se todos ao fim e ao termo vamos parar na mesma cova?

Sexta-feira (viernes), 5 de outubro de 2018: BUENOS AIRES-SÃO PAULO-RIO DE JANEIRO

Inferno aeroportuário. Ao madrugarmos no aeroporto, o caos: ameaça de paralisação, filas descomunais, voos domésticos cancelados. Nosso voo foi protelado de 10:50 para 12:10. Na confusão das filas não vimos a plaquinha de “voos internacionais” em meio à multidão e perdemos um tempão na fila errada. O encanto da viagem se desfez nesse choque de realidade do transporte aéreo na era do turismo em massa. Deixamos o hotel às 7:15 da manhã e adentramos nosso Lar Doce Lar às 8:30 da noite.

It's hard not to fall in love with this city's wide boulevards, alluring architecture and Parisian-style cafes.
U.S. News

Buenos Aires superou as expectativas. No Brasil, temos mais afinidade cultural com as nações desenvolvidas do hemisfério norte do que com nossos vizinhos ao sul. Os argentinos que lidam com turistas, garçons, funcionários de museus, ainda se esforçam por dominar o português, mas nós, brasileiros, não fazemos o mínimo esforço para aprender o idioma de Borges. Mais fácil um jovem brasileiro ir fazer um intercâmbio na Austrália ou Nova Zelândia, do outro lado do mundo, do que no país com o qual temos 1261 quilômetros de fronteira.


Busto de Borges em Palermo

Não obstante toda a nossa pujança – uma das dez maiores economias do mundo, maior rebanho bovino do mundo, maior produtor de café e soja do mundo, exportação de aviões de médio porte concorrendo pau a pau com o Canadá, MPB, caipirinha e novelas apreciadas mundo afora, Ambev potência mundial cervejeira, empresas de engenharia pesada com atuação internacional, domínio da tecnologia da exploração de petróleo em águas profundas – os nossos irmãos argentinos, com sua economia mais modesta, ainda desfrutam uma renda per capita e IDH maiores.

Em cinco dias de visita à Paris da América do Sul, um dos melhores destinos turísticos do continente sul-americano, não deu para ver tudo. Ficam para nossa próxima vinda: visita guiada à Casa Rosada (finais de semana), visita guiada ao Teatro Colón, a visita guiada que tentamos em vão duas vezes ao palácio San Martin, passeio à cidade vizinha de Tigre, a visita guiada ao cemitério da Recoleta que no dia em que fomos lá, por causa da greve, foi cancelada, ida a uma milonga para vermos os portenhos dançando o tango. Buenos Aires, vuelveremos! E vou aprofundar meu espanhol no Duolingo. E vez ou outra, quando me cansar da mesmice de O Globo, vou ler El Clarín!