ISRAEL E OS ÁRABES: VIAGEM DO VICE-PRESIDENTE CAFÉ FILHO A ISRAEL, LÍBANO & SÍRIA EM 1951


No Capítulo 6, "Do Círculo Ártico ao Mar da Galileia", de seu livro de memórias Do Sindicato ao Catete, Café Filho conta sua visita, em 1951, como vice-presidente de Getúlio, a vários países, entre eles o Israel, Líbano e Síria. Israel, então engatinhando com seus três aninhos de idade, dava uma lição de socialismo ao mundo com seu kibutz. Infelizmente a beligerância das nações circundantes com o tempo acabou obrigando o Estado Judeu (que também abriga cristãos e muçulmanos) a se transformar em  uma espécie de Esparta moderna, uma fortaleza inexpugnável. Na leitura você observará que, enquanto os judeus esforçavam-se por construir sua nova nação, contra todos os obstáculos, as nações árabes em volta já eram turbulentas, com atentados e distúrbios. A seguir, a narrativa extraída da obra de Café Filho:

ISRAEL E OS ÁRABES

Istambul, na Turquia, e Nicósia, na Ilha de Chipre, foram as etapas seguintes do meu itinerário, através de rápidas visitas.
Detive-me, depois, quatro dias em Israel, podendo, assim, avaliar de perto a obra de construção da Pátria dos judeus, que tivera a sua independência proclamada três anos antes.
O esforço que presenciara na Iugoslávia só tinha paralelo com o do Estado de Israel. Também nessa nova nação se praticava um socialismo avançado. As enormes fazendas coletivas que lá se organizaram impressionaram-me pelo senso de cooperação dos seus membros. Abrigavam, às vezes, mais de sete mil pessoas, que não recebiam salário nem tinham participação nos lucros.
A fazenda provia-lhes as necessidades, e todos se esforçavam ao máximo.
Se o kibutz progrida, melhor para eles. Se não, todos tinham consciência de que seriam prejudicados.
Encontrei em Israel um espírito coletivo dificilmente alcançável. Mas não ficava nisso a obra que realizavam.
Os trabalhos científicos de recuperação do deserto, a conquista da água do subsolo como um dos principais fatores de desenvolvimento, a solução dos problemas culturais, religiosos, sociais e econômicos vinham sendo alcançados em meio de um drama político e militar resultante da crise internacional em que se debatia Israel, com as suas fronteiras transformadas em frentes de batalha, onde os períodos de guerra e trégua se alternavam no exaustivo e trágico revezamento.
Comoveu-me o heroísmo das comunidades judaicas, sua energia e perseverança, animadas pela devoção a um ideal, o da manutenção para sempre do Estado de Israel.
Vi, nesse país que nascia, impressionante exemplo de solidariedade, provocada, naturalmente, pelo desafio das circunstâncias e confortada pela consciência histórica, em substituição aos estímulos comuns da livre competição e do lucro individual.
Não senti, porém, que aqueles homens e mulheres de extraordinária capacidade — técnicos e trabalhadores admiráveis em sua abnegação — fossem pessoalmente felizes.
Revelavam espíritos de equipe só comparável ao espírito de renúncia, sob a compreensão sombria de sagrados interesses nacionais.
Construíam-se, quando lá estive, blocos de mil edifícios de apartamentos, para abrigar a legião contínua dos judeus que procuravam a nova pátria. Chegavam e iam trabalhar nas suas futuras residências, alojando-se, enquanto trabalhavam, em gigantescos acampamentos.
Telavive já contava, em 1951, com mais de trezentos e cinquenta mil habitantes, e se ouviam na capital todos os idiomas da terra.
Fui alvo de carinhosas demonstrações de hospitalidade, inclusive um banquete oferecido pela Câmara dos Deputados, com a presença de quase todo o Ministério.
O Presidente Chaim Weizmann recebeu-me em sua residência em Telavive, já bastante alquebrado pela enfermidade de que em breve sucumbiria.
Ao ser recebido pelo Primeiro Ministro Ben Gurion, surpreendeu-me vê-lo sem gravata. Quando nos separamos, manifestei certa estranheza, mas fui informado de que aquilo era nele um costume e um traço característico, já tendo dado margem a incidentes em reuniões e conferências internacionais.

A construção do Estado de Israel  conforme a surpreendi de passagem, e, por conseguinte, em flagrantes de itinerário, do modo como a senti em contato com o seu povo, e, por outra forma, em emoções vividas de mais longa permanência, ou à distância, através de impressões de leitura e depoimentos humanos — há de inspirar, sempre, todos os homens, alentando-lhes a confiança no esforço bem organizado para a consecução de um objetivo que tenha num ideal o seu ponto de partida.
Poetas, escritores, sociólogos, cientistas, historiadores, artistas plásticos e dramáticos celebrarão, sempre, com sucesso, a grandeza dessa epopeia moderna dos judeus.
Todos os povos da terra hão de vibrar diante dela com profunda admiração.
Uma coisa, no entanto, é incontestável: a obra do Estado de Israel apresentar-se-ia impossível em condições diferentes.
Ela é magnífica, porém irreproduzível. Seu arrojado exemplo não se aplica, e não se poderá, portanto, aproveitar em outra qualquer parte.
O Estado de Israel não foi construído e não vive apenas do trabalho dos seus habitantes e da produção do seu solo, ainda que este, como se sabe, tenha sido estimulado pela técnica mais prodigiosa na criação de condições de fertilidade permanente.
Chegam-lhe recursos de todas as partes do mundo e das nações mais ricas. Israel é, na realidade, uma nação infinitamente maior que o seu limitadíssimo território.
Perguntei ao Ministro da Fazenda israelense sobre o orçamento nacional.
— Temos um déficit orçamentário de 90%... — respondeu-me ele.
Isto quer dizer: a receita do Estado cobria apenas 10% das suas despesas, em 1951.
O Ministro da Fazenda de Israel era uma pessoa bem humorada, a despeito do espantoso desequilíbrio que lhe cumpria administrar.
Ante a revelação do Ministro, comentei com ele: 
— O formidável espetáculo do Estado de Israel, pelas suas condições muito peculiares, jamais se poderia verificar no Brasil.
Ponderou-me, com um sorriso, o gestor das finanças israelenses:
Por quê? O Ministro da Fazenda do Brasil também é judeu...
Referia-se ao Ministro Horácio Lafer

Em meu encontro com o Ministro das Relações Exteriores, Moshe Sharret, pediu-me ele que transmitisse ao Governo brasileiro o desejo de que fosse logo nomeado nosso representante em Telavive.
O Ministro de Israel junto ao Governo do Brasil, já designado, foi-me apresentado na ocasião.
Ao voltar ao Rio, levei o pedido ao Presidente Vargas, que me respondeu:
— Já convidei o Samuel Weiner. Ele será o nosso ministro em Israel.
Fiquei surpreso com a notícia, não tanto por ser novidade, pois já haviam circulado rumores a respeito, mas porque se tratava de uma Legação que só poderia ser ocupada por diplomata de carreira, não sendo viável, ainda, a sua transformação em Embaixada.
Não existia, assim, no momento em que estive no Estado de Israel, nenhuma autoridade diplomática brasileira acreditada junto ao governo. E as fronteiras de Israel com os Estados árabes vizinhos, conforme mencionei, estavam fechadas e guarnecidas de tropas.
Só me foi possível ir à Transjordânia através de negociações processadas pela Legação dos Estados Unidos em Telavive, recebendo-me, depois, na fronteira, o Cônsul-Geral da Espanha, Duque Terra Nova, e um sacerdote católico da mesma nacionalidade. 
Penetrei, pois, sob a proteção da bandeira espanhola na Jerusalém árabe, transpondo o vale de Josafá.
Dirigi-me ao interior da cidade percorrendo parte da Via-Crúcis, visitando o Templo e o Palácio de Pilatos, a pedra da Mesquita de Omar, local de onde, segundo a lenda, Maomé subiu aos céus, e uma outra mesquita em que, oito ou dez dias antes, fora assassinado o rei Abdullah, e que, por isso, ainda tinha cerrada a porta onde se dera o fato.
Avistei-me com representantes das religiões maometana, copta, greco-ortodoxa e católica romana.
Tanto na parte judaica como na parte árabe de Jerusalém e ainda no percurso que fiz de automóvel ao deixar Israel na direção do Líbano, andei por terras da Bíblia: Judá, Tiberíades, Cafarnaum, Nazaré, Calvário, Monte das Oliveiras, Monte Tibor, Mar da Galileia, berços e sepulcros de santos venerados, sítios de milagres e sacrifícios, relicários e altares que, perpetuando a fé criadora de uma civilização, evocam passagens da sua história feita de tradições.

A geografia política não é mais a mesma da Palestina no tempo do Novo Testamento. O tempo, no entanto, não parece haver transcorrido sobre algumas descrições encontradas na Bíblia, que ainda correspondem à atualidade, dando-nos a impressão de estar vivendo dois mil anos antes da era cristã que conhecemos.
É a impressão do peregrino que se detém para contemplar e visitar Judá.
A Jerusalém dos nossos dias está longe, porém, de apresentar-se como a aldeia da entrada triunfal de Jesus, que Ele contemplou ao chegar com os discípulos a Betfagé. Não é a cidade da predição de Ezequiel, no Velho Testamento, que seria posta contra um cerco, edificada contra uma fortificação, levantada contra uma tranqueira, pondo-lhe arraiais e vaivéns redor.
É agora uma cidade de pedra, rasgada por grandes avenidas, com modernos hotéis e densa população, restituída, no entanto, à legenda do passado pelo mistério da noite que a encobre de sombras antigas, mas, principalmente, com um toque sobrenatural, pela luz do amanhecer, uma claridade que a distingue na profusão de cores que se entreabrem aos notívagos e aos madrugadores através do sol que se acerca deles iluminando-lhes a insônia e a contemplação de Jerusalém.
A Nazaré cheguei na hora da missa cristã ortodoxa. O ambiente do templo era de absoluta concentração. De reverência e silêncio. Ninguém levantava a cabeça para olhar ninguém. Nenhum gesto, nenhuma voz. Total absorção dos fiéis no ofício religioso que se celebrava, atitude que não ocorre, geralmente, nas igrejas aos domingos em países, como o Brasil, de maioria católica, muitos, porém, católicos por hábito, costume ou tradição.
Em Nazaré, a severa impregnação que imobilizava a quantos acompanhavam a missa, se devia ao meio ambiente onde se situava.
No Calvário, estão erguidos três altares e ali três diferentes cultos velam, alternadamente, o lugar da crucificação do Cristo, não correspondendo, entretanto, à Igreja Católica Romana, mas à religião Greco-Ortodoxa, que lhe conserva o patrimônio, o local da Cruz.
O Calvário como o Monte das Oliveiras, vistos de perto, perdem as proporções que nos ficaram na imaginação pela leitura dos textos sagrados. São pequenas elevações do terreno, comparadas com a ideia que tínhamos de sua grandeza e volume.
Há uma grande emoção em visitar-se os locais celebrados no Novo Testamento, diluindo-se, porém, um pouco a mística ao penetrar neles e melhor fora que continuassem imaginados e intocados.
No túmulo de Cristo, chocam-se as impressões vivas do presente com a ideia de que ali esteve sepultado Aquele que uniu espiritualmente, entre tantas outras do Ocidente, a Nação Brasileira, mantendo até hoje uma filosofia que inspira e disciplina a vida de muitos povos.
Um pouco do que observara na Iugoslávia, em relação ao governo, observei nos lugares santos em relação à Igreja Católica Romana e outras relações.
O padre da Igreja de Judá, construída no local onde nasceu São João Batista, entregou a mesma expressão do pároco da Dalmácia, ao referir-se à coexistência religiosa em Jerusalém:
— É um horror! — exclamou para mim, em espanhol.
Visitei os templos de todas as religiões, inclusive dois e mais templos da mesma crença religiosa.
Registrou-se na Mesquita de Omar a curiosidade de um sacerdote em conhecer o valor da esmola que me havia observado dar a um dos seus companheiros.
Não seria a importância do óbolo em si, mas, possivelmente, acredito, em função da contabilidade de sua casa de orações.

Regressando a Telavive, fui notificado do sucesso das negociações com a Síria, por intermédio do Secretário da Legação dos Estados Unidos, no sentido de me ser permitida a entrada pela fronteira Israel—Líbano.
Fui recebido na fronteira pelo Encarregado de Negócios do Brasil e pelo Secretário de nossa Legação em Beirute e, em nome do Governo do Líbano, pelo Chefe do Protocolo da Chancelaria Libanesa.
Antes de chegar à Capital, examinei o terminal dos oleodutos do Iraque, recentemente construído, numa extensão de mil e duzentos quilômetros, percorrendo os depósitos de armazenamento e as câmaras de descarga, além do porto de embarque em fase de construção.
Visitei no dia seguinte o Presidente da República Cheikn Bechara El-Kouri, no seu palácio de verão, próximo à cidade de Aley, nas montanhas.
À noite, o Governo do Líbano ofereceu-me um jantar ao ar livre no restaurante de um dos principais hotéis da Capital, escolhido, ainda, para a homenagem, por se encontrar situado na Avenida Brasil.
Fui informado que um grupo de brasileiros desejava avistar-se comigo. Marquei o encontro imediatamente no mesmo hotel, indo reunir-me a eles depois do jantar.
Constituía sempre para mim um prazer conversar no estrangeiro com compatriotas.
O diálogo, como não podia deixar de ocorrer, girou em torno de temas brasileiros, mostrando os visitantes um grande conhecimento pessoal da situação paulista.
Foi-me fácil, assim, identificar o local de suas atividades.
Eram homens altos, fortes e morenos, descendentes, por certo, de imigrantes, o que denotavam nos traços da fisionomia.
— São todos vocês de São Paulo? — perguntei-lhes curioso de saber se, entre aqueles brasileiros, existiria alguém nascido no Nordeste, como eu, ou natural do Rio Grande, de Minas Gerais, do Paraná ou de Goiás. Em que estado nasceram?
— Nascemos aqui no Líbano — responderam-me.
— Todos?
— Todos. Mas somos brasileiros, o senhor não está vendo?
— Viemos ao Líbano a passeio...

Durante a permanência no Líbano, visitei a Síria no dia 4 de setembro. Cheguei cedo a Damasco e ali deveria pernoitar, o que não aconteceu — tornando à noite a Beirute com os companheiros de excursão.
Depois de cumprimentar o Presidente Achen Atassi, percorri as partes interessantes da Capital síria.
No centro da Mesquita de Ommayade, monumento suntuoso construído pelos maometanos, impressionou-me o túmulo, que me pareceu de ouro, onde está guardada a cabeça de São João Batista.
Na estrada de Damasco, detive-me no ponto em que São Pedro se refugiou dos seus perseguidores, onde foi aprisionado e de onde fugiu miraculosamente, tendo visitado, também, a casa de Ananias, a cujo subterrâneo São Paulo se recolheu após a sua conversão.
Há nesses sítios um sentido de mistério que revela uma antiguidade maior do que se possa ajuizar, perdurando, em consequência, a dúvida quanto à autenticidade das suas reminiscências, não se podendo saber, ao certo, se datam de alguma época ou foram criados pela imaginação.
Estive no “Grande Bazar”, de comércio promíscuo e bem sortido de brocados, móveis, tapetes e utensílios marchetados, criações artísticas e artesanais de um país de lendas e tradições.
Tenho a impressão que visitamos Damasco em um dia pouco conveniente.
Houvera, pela manhã, assassínios à porta da Mesquita de Omayade e, em consequência, o povo se encontrava agitado. Em um grande mercado, próximo ao templo, notamos a polícia embalada.
No hotel, onde almoçamos, sucediam-se as conferências políticas.
Estávamos informados quanto às mortes e ao sentimento das ruas. Mas, por falta de outros esclarecimentos, um dos companheiros de excursão cometeu a imprudência de tentar tirar fotografias no interior do santuário maometano
Só então, e de maneira áspera, fomos advertidos de que incorremos em heresia, praticando ato desrespeitoso e expressamente proibido.
A despeito das explicações dadas, não se desfez o mal-estar criado. O motorista sírio, que nos conduzia, confidenciou-me em espanhol, um tanto preocupado com a situação, a existência de um estado de revolta contra a nossa atitude desprevenida.
A esse tempo, penetraram na mesquita os esquifes dos assassinados, carregados nos braços erguidos dos carpidores, para o ritual da encomendação dos corpos.
A dor e a cólera pareciam misturar-se, extremadas e inseparáveis, no grupo espectral do séquito fúnebre.
Os gritos das lamentações confundiam soluços e imprecações, dir-se-ia que recordando os mortos e amaldiçoando a sorte, repercutindo, assim, assustadoramente, os sons da ululação, ora plangentes, ora frenéticos.
Aumentava nossa inquieta sensação de perigo, no local que involuntariamente já profanáramos.
Aconselhou-nos o motorista a nos retirar da mesquita pela porta dos fundos. No mercado, havia, agora, maior número de policiais armados.
Entramos, para acalmar os nervos, em um café, onde nos foi servido um pequeno lanche.
Mais calmos, sofreadas as emoções, pedi a conta.
— Não lhe custou nada. Não há despesa a pagar, respondeu-me, em português, o dono do bar.
Insisti em pagar a conta.
— Tivemos muita honra em servi-lo. Não é Vossa Excelência o Vice-Presidente do Brasil? — perguntou-me.

Vira um retrato meu em jornal de Beirute, com a notícia de minha visita à Síria.

SIGNIFICADO DOS NOMES

Ao dar nome a um recém-nascido, a gente não se preocupa com o “significado” do nome: ninguém chama o filho de Márcio porque quer que ele se torne guerreiro ou a filha de Stella para que se torne uma estrela. A gente dá nome por motivo religioso (nomes de santos, patriarcas etc.), porque alguém da família tem esse nome, porque o nome soa bonito ou simplesmente porque o nome está na moda — cada época tem uma verdadeira “safra” de nomes predominantes.

Mas depois que viramos adultos, aí sim, ficamos curiosos por saber a origem de nosso nome. Segue-se uma lista dos significados de alguns nomes mais comuns.


Abraão (origem hebraica) – pai de uma multidão de povos (“e não mais levarás o nome de ‘Abrão’, mas chamar-te-ás ‘Abraão’, pois constituir-te-ei pai de uma multidão de povos”)

Alexandre (do nome grego Alexandros) – defensor da espécie humana.

Alfredo (origem anglo-saxônica)– duende conselheiro.

Amália (do germânico amal) – trabalhadora.

Amélia – variação de Amália ou Emília.

Ana (do hebraico Hannah) – cheia de graça.

Ana Beatriz – ver Ana e Beatriz.

André (do grego andreios) – viril, corajoso.

Andrea – André em italiano e Andréia em espanhol.

Andreia – feminino de André.

Anita – diminutivo espanhol de Ana.

Antônio - em latim, Antonius, nome de uma família romana cujo membro mais ilustre foi Marcus Antonius (Marco Antônio). Origem etrusca desconhecida.

Aparecida – cidade de São Paulo onde apareceu a imagem da padroeira do Brasil.

Arthur – Artur em inglês.

Artur – nome inglês cujo significado exato se desconhece.

Beatriz (do latim Beatrix) aquela que faz os outros felizes.

Bernardo – derivado do elemento germânico bern (urso) combinado com o inglês hard (forte, corajoso). Forte, corajoso como um urso.

Caíque (do francês caïque) – tipo de barco.

Clara (do latim clarus) - clara, brilhante, ilustre.

Clarissa (do nome latino Claritia, derivado de clarus) - clara, brilhante, ilustre.

Cláudio (origem latina) – coxo, que manca, daí as palavras claudicar, claudicante.

Cristina (feminino de Christian) – cristã.

Daniel (origem hebraica) – Deus é meu juiz.

Daniela – feminino de Daniel.

Dara (origem hebraica)– sabedoria ou compaixão. O nome também pode ter origem irlandesa, e nesse caso significa carvalho.

Davi (origem hebraica) – amado.

Débora (origem hebraica) – abelha.

Eduardo (origem inglesa) – próspero guardião.

Elizabeth (do nome hebraico Elisheva) – consagrada a Deus.

Emília – feminino de Emílio.

Emílio (do nome de família romano Aemilius, derivado de aemulus, daí a palavra êmulo) – rival.

Enzo – nome italiano de origem incerta.

Fátima (origem árabe) – a que deixou de mamar (Fátima foi uma das filhas do profeta Maomé e é o nome de uma cidade portuguesa onde Nossa Senhora apareceu a três pastores).

Flávio (do nome de família romano Flavius, derivado de flavus) – de cabelo dourado ou amarelo.

Gabriel (origem hebraica) – homem forte de Deus; um dos sete arcanjos da tradição judaica.

Giovanni – João em italiano.

Henrique (origem germânica) – governante do lar.

Hugo (do germânico hug) - coração, mente ou espírito.

Ibrahim – Abraão em árabe.

Isabel - forma medieval espanhola de Elizabeth.

Isabella – forma latina de Isabel.

Isadora – variante de Isidora, que é o feminino de Isidoro.

Isidoro (do nome grego Isidoros) – dom de Ísis (deusa egípcia).

Ivan – João em russo, tcheco e croata.

Ivo – forma germânica de Yves, teixo.

Jacó (origem hebraica) – o que segura o calcanhar (Depois saiu o seu irmão, agarrada sua mão ao calcanhar de Esaú; pelo que foi chamado Jacó.)

James – Tiago em inglês.

Jasmim (do persa Yasmin) – a planta jasmim.

João (do nome hebraico Yochanan) – Deus é bondoso.

Jorge – (do nome grego Georgios, derivado da palavra grega georgos) – que trabalha a terra, fazendeiro.

Joaquim (origem hebraica) – o elevado de Deus.

José (origem hebraica) – Ele acrescentará (Chamou-o José, dizendo: “Acrescente Javé outro filho a este!)

Juan - João em espanhol.

Júlia - feminino de Júlio.

Júlio – em latim, Julius, nome de uma família romana cujo membro mais ilustre foi Gaius Julius Caesar. Provavelmente derivado do grego ioulos, barba felpuda.

Kelly – nome inglês e irlandês de origem incerta. Também usado como sobrenome (Grace Kelly).

Lívea – feminino de Lívio.

Lívio – em latim, Livius, nome de uma família romana cujo membro mais ilustre foi Titus Livius (Tito Lívio). Pode derivar de liveo (invejar) ou lividus (invejoso).

Lucas (do nome grego Loukas) – da Lucânia (antiga região da Itália).

Lucienne – feminino do nome francês Lucien, que em latim é Lucianus, nome de uma família romana. Deriva de lux, luz.

Luís (do nome germânico Hludwig) – guerreiro ilustre.

Maicon – aparente “aportuguesamento” de Michael, que é Miguel em inglês, possivelmente por influência do artista Michael Jackson.

Maiquel - “aportuguesamento” de Michael, que é Miguel em inglês.

Manoel (do nome hebraico Emmanuel) – Deus está conosco.

Marcela – feminino de Marcelo.

Marcelo – em latim, Marcellus, nome de uma família romana, derivado do prenome Marcus (Marco), que por sua vez deriva do nome Marte, deus romano da guerra.

Márcio (do latim martiu) - guerreiro (Marte era o deus da guerra).

Marco – derivado do nome Marte, deus romano da guerra.

Maria - forma latina do nome hebraico Míriam, cujo significado exato não se conhece.

Mariana – feminino de Marianus, nome de uma família romana, derivado do prenome Marius (Mário).

Marina (origem latina) – proveniente do mar.

Mário – em latim, Marius, nome de uma família romana. Provavelmente derivado do nome do deus romano Marte.

Mateus (do nome hebraico Mattithyahu) – dom de Deus.

Maurício – em latim, Mauricius, nome de uma família romana, derivado de Maurus (Mauro).

Mauro (origem romana) – mouro, de pele escura.

Michael – Miguel em inglês.

Michel – Miguel em francês.

Michelle – feminino de Michel.

Miguel (do nome hebraico Miyka'el) – quem é como Deus? Um dos sete arcanjos da tradição judaica.

Moisés (origem hebraica) – salvo das águas (“...pondo-lhe o nome de Moisés: ‘Porque — alegou — eu o tirei da água.’”)

Mônica - origem fenícia desconhecida (Santa Mônica foi mãe de Santo Agostinho).

Natália (do nome latino Natalia, derivado de natale domini) – Dia de Natal.

Nívea (origem latina) – feminino de Níveo, branco como a neve.

Patrícia –feminino de Patrício.

Patrício (do nome romano Patricius) – nobre.

Paulo (do sobrenome romano Paulus) – pequeno, humilde.

Pedro (do grego pétros) - pedra.

Pierre – Pedro em francês.

Raquel (origem hebraica) – ovelha.

Ricardo (origem germânica) – poder destemido.

Rita – forma reduzida de Margarita e outros nomes terminados em ita.

Roberto (origem germânica) – fama brilhante.

Ronaldo (do nome germânico Reginold) – nome composto dos elementos ragin (conselho) e wald (governo).

Samara (do hebraico Shemariah) - guardada por Deus. Protegida por Deus.

Samira (origem árabe) – feminino de Samir, que significa companheiro de conversa noturna.

Sandro – forma reduzida de Alessandro, que é Alexandre em italiano.

Sara (origem hebraica) – princesa.

Sérgio – em latim, Sergius, nome de família romana de origem etrusca desconhecida.

Sofia (do grego sophía) – sabedoria.

Stella (do latim stella) - estrela.

Teresa – significado incerto; talvez derive do grego theros (verão), de therizein (colher) ou da ilha de Thera, na Grécia.

Tiago – mesma origem do nome Jacó. São Tiago (Santiago) é o santo padroeiro da Espanha.

Vicente – deriva do nome romano Vincentius, que vem do latim vincere (vencer). Significa, portanto, vencedor.

William - Guilherme em inglês.

Extraído do meu livro Sopa no Mel.

NÃO TEVE GOLPE! VENCEU A DEMOCRACIA!



A tentativa de golpe do PT de se eternizar no poder lançando mão de recursos espúrios — compra de votos de parlamentares (Mensalão), financiamento de campanhas eleitorais com dinheiro surrupiado (Petrolão), tentativa de controlar o Judiciário, compra de votos da população (desvirtuando a finalidade original dos programas sociais criados pelo PSDB, como bolsa família), tentativa de intimidação da sociedade através de suas milícias (black blocs, sem terras, sem tetos), repetição goebbeliana de mentiras até serem tomadas por verdades e, no afã de “fazer o diabo” para vencer as eleições a qualquer preço, as prestidigitações contábeis e fiscais tão graves a ponto de lançar a nação em forte recessão que priva a população trabalhadora de empregos e renda (e ainda assim, os petistas não têm a humildade de reconhecer o erro e repetem feito disco arranhado que “não houve crime”) e finalmente aquela patuscada da última segunda-feira urdida pelo governo agonizante e protagonizada pelo deputado-palhaço Maranhão... — a tentativa de golpe do PT, dizia eu, enfim parece que saiu pela culatra. NÃO TEVE GOLPE...DO PT! Venceu a DEMOCRACIA!

ANÚNCIOS DE COMPRA, VENDA E ALUGUEL DE ESCRAVOS

Anúncios de compra, venda & aluguel de escravos no Jornal do Commercio de 28 de novembro de 1840. Na época era considerado normal. A pergunta é: o que fazemos hoje de "normal" que daqui a cento e cinquenta anos será considerado absurdo? O triste é que a escravidão ainda não foi cem por cento erradicada do mundo.


SONHO DE UMA NOITE DE CARNAVAL

Poema de OLIVEIRA E SILVA ilustrado por ALBERTO LIMA publicado na REVISTA DA SEMANA de 5 de fevereiro de 1921



SONHO DE UMA NOITE DE CARNAVAL

Lembro: o ruído que ferve e desvaira... o deleite...
A turba imensa... tu passaste e nós sorrimos,
Deslumbrado, confuso e comovido, amei-te
Num minuto supremo, e nunca mais nos vimos!

Nunca mais! Desse amor no delírio das ruas
Ficou-me um travo leve, uma doçura atroz:
Não tive as minhas mãos palpitando nas tuas!
Não escutei, sequer, o som de tua voz!

Todo o ano, a recordar-te o brilho, desfaleço,
Em meio à multidão álacre, no tumulto,
De repente, estou só e, pálido, estremeço,
Pressentindo que vai aparecer teu vulto.

Sonho de Carnaval, maravilhoso e triste!
Ah! Mundos de prazer, que em vão imaginamos!
Nunca mais eu te vi! Nunca mais tu me viste!
Porque tardas? A vida é breve... nós passamos... 



Palhaço, original pintado com a boca e o pé por Gonçalo Borges

A VIDA DEVERIA SER AO CONTRÁRIO

A ideia de que a vida deveria ser vivida ao contrário (ou seja, de que a gente deveria nascer velho e ir rejuvenescendo) foi expressa pela primeira vez por Mark Twain na frase "A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18." Na década de 1920 a ideia inspira dois contos de escritores de países diferentes que a devem ter tido de forma independente, sem que um copiasse o outro. 

O primeiro é O Curioso Caso de Benjamin Button de F. Scott Fitzgerald, publicado na revista Colliers em 27 de maio de 1922, e que inspirou um filme de mesmo nome de 2008. O segundo é A Lição do escritor húngaro Frigyes Karinthy, publicado em Budapeste em 1923 no livro Decameron do Riso, antologia de cem crônicas, as melhores dentre as centenas que escreveu na imprensa húngara. O texto foi incluído na Antologia do Conto Húngaro de Paulo Rónai e é reproduzido a seguir.

Existe ainda a reflexão de Sean Morey (que costuma ser erroneamente atribuída a Chaplin ou mesmo a Woody Allen): "A coisa mais injusta da vida é a maneira como ela termina. Viver é muito difícil. Toma muito do seu tempo. E o que você tem no final? Uma morte. O que é isso, uma recompensa? Acho que o ciclo da vida está todo de trás pra frente. Você devia morrer primeiro, se livrar logo disso. Então você vive num asilo de velhinhos. É expulso de lá por estar jovem demais, ganha um relógio de outro, vai trabalhar. Você trabalha quarenta anos até ficar jovem o suficiente pra aproveitar a aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra faculdade. Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, você brinca, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando... E termina tudo com um ótimo orgasmo!!! " 

A LIÇÃO de Frigyes Karinthy

I
Na idade de setenta e cinco anos descobri que, havia cinquenta e quatro, minha esposa me enganava com um rapaz. Corri à Ponte Margarida e dei um lindo mergulho de ponta-cabeça no Danúbio, o que me valeu o título de campeão do Clube Ginástico de Budapeste. Ao mesmo tempo, bati o recorde de permanência subaquática, tendo ficado dois dias e meio debaixo da água, ao passo que o vencedor da última competição, Kankovsky, só aguentara essa posição por dois minutos e vinte segundos.

II
S. Pedro, sentado diante do projetor, estava enrolando no carretel o filme da minha vida, quando entrei no salão. Tinha chegado precisamente à cena em que me atiro da ponte. A assistência, composta de santos e anjos, ria a mais não poder ao ver-me espernear. Furioso, dei um empurrão no braço do velho. A fita partiu-se no meio.
— Seu idiota! — bradou o santo. — Como poderei retirar agora a fita do carretel? Terei que desenrolá-la todinha às avessas! Será uma beleza! Volte para o lugar de onde veio, seu burro!
E entrou a desenrolar o filme da minha vida de rabo a cabo.

III
Um minuto depois lá saía eu do Danúbio, de pernas para o ar, e de um pulo estava na ponte. O rosto voltado para Buda, voltei à Pest [Buda fica na margem direita do Danúbio, Pest na margem esquerda], subi às arrecuas [=andando para trás] ao terceiro andar, fechei a porta, que se abriu, atravessei o hall ao arrepio, e tornei a sentar-me no divã.

IV
Ausentei-me um instante do quarto, depois voltei, em marcha a ré, e pus-me a digerir o almoço, que ficou pronto logo depois. O criado, andando de costas, trouxe os pratos sujos, nos quais fui recolocando, com o garfo e a faca, o macarrão gostoso. Juntei os pedacinhos da carne, bem saborosa, retirei da boca a sopa às colheradas, levantei-me e olhei para o relógio. Era meio-dia e meia. Tinha de estar na repartição ao meio-dia em ponto, por isso saí correndo ao revés. Nesse ínterim, a ponta do cigarro que eu pusera na boca crescia cada vez mais, até que o acendi e o botei no bolso.

V
Dez anos depois, meus cabelos começaram a tornar-se pretos e os dentes a voltar-me à boca. Cancelada a minha aposentadoria, tive de trabalhar outra vez. Eis-me de novo na repartição a escrevinhar processos um antes do outro, até chegar ao primeiro. Os chefes demonstravam boa vontade comigo, mas estavam-me conhecendo cada vez menos, e, ao cabo de vinte e cinco anos de trabalho assíduo, fui admitido com salário de estreante. Lá me achava eu na miséria, de costas para a frente, sem emprego de espécie alguma, com minha esposa cada vez mais bonita e cada vez mais apaixonada por mim.

VI
Nessa altura já estava com vinte e cinco anos. Raptei minha esposa de volta à casa de seu progenitor, e apaixonei-me loucamente por ela. Numa noite de paixão febril ela se me entregou pela terceira, pela segunda e pela primeira vez. Nisto, fiquei cada vez mais tímido: procurei segurar-lhe a mão, que ela retirou, até que terminamos conhecendo-nos, depois do quê lhe fui apresentado, para nunca mais a ver.

VII
Consegui diplomar-me, o que marcou o início da alegre vida de estudante. Era jovem e feliz, e, como gostava de estudar, sabia cada vez menos. Graças aos excessos de toda espécie, peculiares à mocidade, dentro em breve me encontrava na plenitude das minhas forças. Acabei o curso secundário com dezoito anos. Meu bigode foi desaparecendo, meu tamanho diminuía, permitindo-me retomar os ternos dos anos anteriores. Aos quatorze anos, safei-me do cólera, que por um triz não me matou; felizmente veio logo a infecção e eu fiquei fora de perigo. Daí para trás, minha vida correu tranquila: comecei a balbuciar, depois esqueci-me totalmente de falar, e, quando já era bastante pequenino, voltei de gatinhas ao berço para abastecer de leite a minha ama. Ignoro o que sucedeu depois: lembro-me apenas de um local escuro para onde alguém me empurrou com violência.

VIII
Quando pela segunda vez cheguei a presença de S. Pedro, ele estava acabando de enrolar a fita. Ao ver-me, levantou as mãos sagradas com bondoso sorriso.
— Ó tu — disse-me para ministrar um sábio ensinamento aos santos e anjos reunidos em tomo dele — ó tu a quem foi dado viver duas vezes, conhecer às avessas todas as coisas e penetrar até o âmago da existência, dize-nos agora a lição que aprendeste no caminho que aos mortais só de uma feita cabe palmilhar, mas que tu, pela graça infinita do Senhor, pudeste percorrer duas vezes.
Pondo o indicador na ponta do nariz, depois de breve meditação respondi assim a S. Pedro:
— Santo Padre, a lição que me foi possível aprender na minha jornada resume-se numa única observação.
— Qual é, meu filho?
— Que as poesias do Sr. Kassák Lajos [poeta moderno, chefe da escola futurista], lidas de trás para a frente, têm tão pouco sentido como quando lidas da frente para trás.

ARSÈNE LUPIN, O LADRÃO DE CASACA


Desde que aprendi a ler e escrever tornei-me um leitor serial (como vocês podem conferir em minha crônica O Melhor Amigo do Homem). Meu primeiro livro foi Fábulas, de Monteiro Lobato, que minha mãe “deixou” sobre a minha cama. Na pré-adolescência e adolescência li e reli toda a obra infanto-juvenil do escritor genial de Taubaté que, se tivesse escrito em inglês ou alemão ou francês seria hoje mundialmente conhecido, com seus livros transformados em desenhos da Disney ou Dreamworks, imagino). 

Nos anos 1967 a 69 eu e meu amigo Ricardo Weiss fomos acometidos por uma paixão pelas histórias rocambolescas de Arsène Lupin de autoria do francês Maurice Leblanc. A obra havia sido publicada aqui no Brasil pela Editora Vecchi nos anos cinquenta com capas sugestivas e gritantes do desenhista dinamarquês Nils (algumas das quais você pode ver nesta postagem), de modo que naquela época já não estava mais nas livrarias, mas podia ser encontrada nas estantes das bibliotecas públicas. Viramos sócios das bibliotecas da Zona Sul — Copacabana, Gávea, Botafogo — onde garimpávamos a obra de Leblanc. Nos anos oitenta alguns dos livros da coleção foram retraduzidos e editados pela Nova Fronteira.

Alguns anos atrás descobri a leitura digital. Com ela você maximiza suas possibilidades de leitura, aproveitando momentos normalmente ociosos como uma fila que não anda, uma viagem torturante de avião, ou um percurso de metrô ou ônibus, etc. para curtir o maior prazer da vida, que não é sexo nem comida, e sim a leitura. Pois tive a sorte de deparar com a obra completa do Maurice Leblanc sobre Arsène Lupin em ebook no original francês (foto superior) a um preço de banana, e enveredei pelo projeto de relê-la (agora no idioma original, que eu não dominava tão bem nos anos sessenta), como que me transpondo à adolescência e tentando reviver as velhas emoções.

Mas quem "foi" Arsène Lupin? O primeiro livro da coleção o define como "gentlemen-cambrioleur", um gatuno cavalheiro, ou "ladrão de casaca", tradução que se consagrou. Mas é um gatuno "com princípios": só rouba dos miliardários e não comete assassinatos (ao menos não voluntariamente). Mas é mais do que isto: aventureiro, descobridor de tesouros fabulosos, decifrador de enigmas cabulosos, imperador de um reino que conquistou no norte africano e oferece à França, detetive (que desmascara o criminoso mas se apropria do produto do roubo), mente privilegiada que deixa Sherlock Holmes no chinelo (como você verá em Arsène Lupin contra Herlock Sholmes). 

A seguir a lista das obras em ordem cronológica de publicação em francês e em seguida seus resumos, os mais sucintos traduzidos do verbete Chronologie de la vie d'Arsène Lupin da Wikipedia francesa, os mais detalhados resultantes de minhas releituras recentes das obras.

Se você também foi ou é fã de Lupin, deixe uma mensagem na seção de comentários ao final da postagem ou escreva para ivokory@gmail.com.

1. Arsène Lupin gentleman cambrioleur (Arsène Lupin, Ladrão de Casaca - 1907)

2. Arsène Lupin contre Herlock Sholmès (Arsène Lupin contra Herlock Sholmes - 1908)

3. L'Aiguille creuse (A Agulha Oca - 1909)

4. 813 (publicado pela Vecchi em dois volumes, 813 e Os Três Crimes de Arsène Lupin; reeditado pela Nova Fronteira como 813 - 1910)

5. Le Bouchon de cristal (A Rolha de Cristal - 1912)

6. Les Confidences d'Arsène Lupin (As Confidências de Arsène Lupin - 1913)

7. L'Éclat d'obus (O Estilhaço de Obus na edição Vecchi; O Estilhaço de Granada na edição Nova Fronteira - 1915)

8. Le Triangle d'or (publicado pela Vecchi em dois volumes: O Triângulo de Ouro e A Câmara da Morte - 1917)


9. L'Île aux trente cercueils (publicado pela Vecchi em dois volumes: A Ilha dos Trinta Ataúdes e O Flagelo de Deus - 1919)


10. Les Dents du tigre (publicado pela Vecchi em dois volumes: Os Dentes do Tigre e O Segredo de Florence - 1920)


11. Les Huit Coups de l'horloge (As Oito Pancadas do Relógio - 1923)


12. La Comtesse de Cagliostro (A Condessa de Cagliostro - 1924)


13. La Demoiselle aux yeux verts (A Moça dos Olhos Verdes - 1927)


14. L'Homme à la peau de bique (1927)


15. L'Agence Barnett et Cie (A Agência Barnett & Cia. - 1928)


16. La Demeure mystérieuse (A mansão misteriosa - 1928)


17. La Barre-y-va (O Mistério do Rio do Ouro - 1930)


18. Le Cabochon d'émeraude (1930)


19. La Femme aux deux sourires (A Mulher de Dois Sorrisos - 1932)


20. Victor, de la Brigade mondaine (Arsène Lupin, na Pele da Polícia - 1934)


21. La Cagliostro se venge (A Vingança da Cagliostro - 1935)


22. Les Milliards d'Arsène Lupin (1939)


23. Le Dernier Amour d'Arsène Lupin (2012)


1. Arsène Lupin gentleman cambrioleur (Arsène Lupin, Ladrão de Casaca - 1907), coletânea de 9 contos


A coletânea agrupa as seguintes histórias:

  • A prisão de Arsène Lupin, publicação original em Je sais tout, n° 6, 15 de julho de 1905. Ao desembarcar nos EUA de uma viagem no transatlântico Provence, o “ladrão de casaca” Arsène Lupin — “o incansável ladrão cujas proezas enchiam as páginas dos jornais havia meses [...] o caprichoso gentil-homem que só operava nos castelos e nos salões [...] o homem dos mil disfarces” — é preso por seu arqui-inimigo, o inspetor Ganimard. Mas graças ao seu poder de sedução, consegue se desvencilhar, antes, das “provas do crime”, dinheiro e joias furtados durante a travessia marítima.
  • Arsène Lupin na prisão, publicação original em Je sais tout, n° 11, 15 de dezembro de 1905, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin en prison. Mesmo trancafiado atrás das grades, Arsène Lupin, através de um estratagema, consegue surrupiar obras de arte valiosas (dois Rubens, um Watteau etc.) do castelo "inexpugnável" do Barão Cahorn.
  • A evasão de Arsène Lupin, publicação original em Je sais tout, n° 12, 15 de janeiro de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin: L'Évasion d'Arsène Lupin. Arsène Lupin cria uma expectativa de que fugirá da prisão e, fazendo-se passar por outra pessoa (o pobre-coitado Baudru Désiré), acaba conseguindo sair de lá.
  • O viajante misterioso, publicação original em Je sais tout, n° 13, 15 de fevereiro de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin : Le Mystérieux Voyageur. Em viagem de Paris a Rouen, Arsène Lupin (sob o pseudônimo Guillaume Berlat) sofre uma agressão e assalto, mas depois ajuda a polícia (embora a rigor ele próprio seja procurado pela polícia!) a prender o ladrão: o assassino Pierre Onfrey.
  • O colar da rainha, publicação original em Je sais tout, n° 15, 15 de abril de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin : Le Collier de la reine. Numa noite após uma recepção, o lendário “colar da rainha” (que pertenceu a Maria Antonieta) desaparece misteriosamente da mansão do conde e condessa de Dreux-Soubise. Anos depois, em almoço em casa do casal, um tal de cavalheiro Floriani, que o conde conhecera na Sicília (mas que na verdade é Arsène Lupin sob um de seus muitos disfarces) elucida o mistério. [O ladrão foi ele próprio, aos seis anos, para ajudar a mãe Henriette, parente do casal e que trabalhava de camareira da condessa.]
  • O cofre-forte da Sra. Imbert, publicação original em Je sais tout, n° 16, 15 de maio de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin : Le Coffre-fort de madame Imbert. Primeiro golpe da "carreira" de Arsène Lupin, verdadeiro "batismo de fogo", e a primeira vez que ele usa este nome. De olho na suposta fortuna do casal Imbert, Lupin trama um ataque noturno contra o Sr. Ludovic e finge salvá-lo. Este, agradecido, contrata Lupin como seu secretário particular, que se aproveita da situação para assaltar o cofre-forte. Só que os títulos lá guardados eram falsos! "Foi a única vez, durante toda a minha vida, que fui logrado. Mas, com todos os demônios, essa vez valeu por muitas e boas!"
  • Herlock Sholmes chega tarde, publicação original em Je sais tout, n° 17, 15 de junho de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin : Sherlock Holmes arrive trop tard. Observe-se que, entre a publicação no periódico e a publicação na coletânea, Sherlock Holmes tornou-se Herlock Sholmès, em virtude de um protesto de Conan Doyle, «pai do verdadeiro Sherlock Holmes». Primeiro encontro entre o "ladrão nacional" francês Arsène Lupin e o "grande policial inglês [...] Herlock Sholmes, o mais extraordinário decifrador de enigmas", girando em torno de uma passagem secreta, cujo segredo se perdeu com o tempo, que dá acesso ao castelo de Thibermesnil, cujos tesouros são cobiçados por Lupin (aqui sob o pseudônimo de Horace Velmont).
  • A pérola negra, publicação original em Je sais tout, n° 18, 15 de julho de 1906, sob o título La Vie extraordinaire d'Arsène Lupin : La Perle noire. Arsène Lupin penetra no apartamento da viúva Zalti, condessa de Andillot, com o intuito de roubar a pérola negra, presente de um imperador. Depara com seu corpo, assassinada, e constata que a pérola desapareceu. Tempos depois Lupin extorque a pérola do ladrão e assassino, que havia sido absolvido pela Justiça, por falta de provas, provas essas que o próprio Lupin, maquiavelicamente, havia removido.
  • O sete de copas, publicação original em Je sais tout, n° 28, 15 de maio de 1907, sob o título Comment j'ai connu Arsène Lupin : Le Sept de cœur. Fatos estranhos e inexplicáveis ocorrem na casa do narrador (Maurice Leblanc), a qual, à sua revelia, servia de esconderijo dos planos roubados do submarino Sete de Copas. As investigações o levam a descobrir que seu amigo Jean Daspry na verdade é Arsène Lupin, de quem se torna biógrafo. "E eis como conheci Arsène Lupin. [...] Eis como estabeleci laços de amizade muito agradáveis com o nosso grande homem e como, pouco a pouco, graças à confiança com que ele se digna honrar-me, me tornei seu mui humilde, mui fiel e mui reconhecido historiógrafo."


NOTA: Títulos em português e citações do texto da tradução de João Távora para a Editora Vecchi nos anos 50. As histórias estão aqui em ordem cronológica da publicação original. No livro (de 1907) após as cinco primeiras histórias a ordem é: "O sete de copas", "O cofre-forte da Sra. Imbert", "A pérola negra" e "Herlock Sholmes chega tarde", fechando o volume e preparando o leitor para o livro seguinte, Arsène Lupin contra Herlock Sholmes (1908).

2. Arsène Lupin contre Herlock Sholmès (Arsène Lupin contra Herlock Sholmes - 1908), coletânea compreendendo dois episódios: "A Dama Loura" e "A Lâmpada Judaica"



Arsène Lupin contra Herlock Sholmes é uma coletânea de duas histórias escritas por Maurice Leblanc, sobre as aventuras opondo Arsène Lupin a Herlock Sholmes.

A coletânea contém duas narrativas:

1) La Dame blonde (A Dama Loura), publicada em Je sais tout de 15 de novembro de 1906 até 15 de abril de 1907. Divide-se em seis capítulos. Dois acontecimentos envolvendo uma dama loura e desaparecimentos misteriosos — o bilhete premiado do Sr. Gerbois e o diamante azul da condessa de Crozon — fazem com que chamem o célebre detetive inglês Herlock Sholmes, único capaz de enfrentar Lupin. Num brilhante trabalho investigativo, Sholmes descobre o segredo das quinze casas projetadas pelo arquiteto Destangue e "retocadas", com "tubos acústicos, passagens secretas, tábuas de assoalho que deslizam, escadas escondidas", por Lupin para lhe servirem de esconderijo e outros fins criminosos. Só que, nesse meio-tempo, Lupin lhe prega uma série de peças.


2) La Lampe juive (A Lâmpada Judaica), publicada em Je sais tout de 15 de julho a 15 de agosto de 1907. Divide-se em dois capítulos. O Barão Imblevalle, a quem roubaram uma lâmpada contendo uma joia preciosa, chama Herlock Sholmes para encontrá-la. Lupin envia uma carta ao detetive pedindo que não intervenha. Sholmes a ignora e vai para Paris com Wilson. Finalmente consegue encontrar a lâmpada judaica, mas descobre que sua investigação teve o efeito oposto ao pretendido. Na verdade perturbou os planos de Lupin que pretendia ajudar a família do Barão. Primeira menção na obra sobre Lupin do lado "bom" do "ladrão de casaca". "— Então, você faz o bem também? [pergunta Sholmes] — Quando tenho tempo. Isso me diverte. Acho graça que, na aventura que nos ocupou, eu tenha sido o gênio bom que socorre e salva, e você o mau que traz o desespero e as lágrimas. [responde Lupin]"

3. L'Aiguille creuse (A Agulha Oca - 1909), romance


Como os dois volumes anteriores das histórias de Arsène Lupin, foi inicialmente publicado em forma de folhetim na revista Je sais tout, de 15 de novembro de 1908 a 15 de maio de 1909.

O volume foi lançado em junho de 1909 com algumas modificações.

Arsène Lupin opõe-se dessa vez a Isidore Beautrelet, jovem estudante de retórica e detetive amador, que lhe dará muito trabalho. A Agulha Oca é o segundo segredo da rainha Maria Antonieta e Cagliostro, transmitido pelos reis de França e agora conhecido por Arsène Lupin. A famosa agulha contém os mais fabulosos tesouros jamais imaginados, reunindo os dotes das rainhas ("Todas as pedras preciosas cintilavam, todas as cores resplandeciam, o azul das safiras, o fogo dos rubis, o verde das esmeraldas, o sol dos topázios"), além das peças roubadas pelo próprio Lupin, entre elas a Mona Lisa original.

Quando Isidore Beautrelet descobre o Castelo da Agulha no departamento de Creuse, julga ter descoberto a solução do enigma ("creuze" em francês significa "oco"). Mas ele ignorava que o rei Luís XIV mandara construir o castelo para desviar os curiosos da verdadeira agulha oca, na Normandia, perto da cidade de Le Havre, onde Arsène Lupin se escondera. 

Depois de muito refletir, Beautrelet percebe que todos os eventos em torno da Agulha Oca ocorreram na Normandia, no triângulo de Caux, limitado por Rouen, Dieppe e Le Havre. Parte para lá a fim de averiguar e enfim descobre a Agulha de Etretat, oca. Decifra o código enigmático que contém o segredo do acesso à Agulha Oca e pede ajuda a Ganimard para prenderem Lupin e se apoderarem do esconderijo e tesouro. A certa altura, Ganimard guarda a saída enquanto Beautrelet avança até o núcleo da Agulha. Lá, para seu espanto, aguardam-no para uma refeição Lupin e sra. Lupin mostra todos os tesouros acumulados na Agulha Oca — entre eles, “a Gioconda de Leonardo da Vinci, a verdadeira” — que lega à França com a condição de que sejam instalados no Museu do Louvre na Sala Arsène Lupin. 

Lupin foge num submarino (cujo projeto foi tema da história "O Rei de Copas" de Arsène Lupin, Ladrão de Casacacom Mlle Raymonde, com quem se casou, para o Porto Lupin, local protegido onde pretende abandonar a vida de ladrão de casaca e viver com sua esposa como um “lavrador de casaca”. Mas o arqui-inimigo Herlock Sholmes o espera e, no entrevero, mata a mulher de Lupin.

4. 813 (1910) — romance editado pela Vecchi nos anos 50 em dois volumes: 813 e Os Três Crimes de Arsène Lupin, reeditado em 1976 pela Nova Fronteira como 813



Uma das histórias mais dramáticas de Arsène Lupin, cheia de reviravoltas e revelações (uma delas envolvendo a infiltração de Lupin nas forças policiais), com um assassino cruel à solta, cuja identidade, como numa história de Agatha Christie, é imprevisível. Vítima de terríveis golpes do destino, o normalmente afável e charmoso Lupin se vê culpado por três mortes. A história gira em torno de um antigo grão-ducado cuja restauração desperta a ambição de Lupin (que o negocia com o Kaiser alemão em troca de documentos secretos), bem como a de seu inimigo misterioso e sanguinário. Ao final Lupin, movido pelo sentimento de culpa, simula sua morte e vai parar na Legião Estrangeira, no Marrocos.

5. Le Bouchon de cristal (A Rolha de Cristal - 1912), romance



Lupin enfrenta Daubrecq, parlamentar francês e chantagista inescrupuloso que quer utilizar uma lista de 27 personalidades implicadas num escândalo financeiro para semear a ruína e caos no país. O documento comprometedor está dissimulado numa rolha de cristal.

6. Les Confidences d'Arsène Lupin (As Confidências de Arsène Lupin - 1913), coletânea de 9 contos




  • O Jogo dos Raios de Sol, publicação original em Je sais tout n° 75, 15 de abril de 1911. Uma mensagem em código projetada por raios de sol na fachada de uma casa (cujos erros ortográficos compõem a palavra ETNA) leva Lupin a decifrar o mistério do desaparecimento da esposa do barão Repstein, que fugiu levando toda sua fortuna. Lupin acaba encontrando o corpo da baronesa no cofre-forte do barão.
  • A Aliança de Casamento, publicação original em Je sais tout n° 76, 15 de maio de 1911. Um anel onde Yvonne d’Origny gravou o nome de um antigo admirador poderá servir de ensejo ao seu marido para obter o divórcio e a guarda do filho. Este antigo admirador na verdade foi Lupin, sob o pseudônimo de Horace Velmont, que agora se faz passar pelo joalheiro para salvá-la do vexame.
  • O Signo da Sombra, publicação original em Je sais tout n° 77, 15 de junho de 1911. Ao seguir uma mulher (Louise d'Ernemont) que por coincidência possui um quadro idêntico ao de seu biógrafo (o narrador deste episódio), Lupin (sob o pseudônimo de capitão Janniot) acaba descobrindo valiosos diamantes escondidos por uma vítima do Terror.
  • A Armadilha Infernal, publicação original em Je sais tout n° 78, 15 de julho de 1911. A viúva Dugrival, cujo marido se matou após ter uma fortuna roubada por Lupin no hipódromo, jura vingança. Ela atrai o ladrão de casaca a uma armadilha infernal, inescapável. Mas o "poder de sedução" de Lupin o salva.
  • A Echarpe de Seda Vermelha, publicação original em Je sais tout n° 79, 15 de agosto de 1911. Ganimard cai numa armadilha armada por Lupin e, valendo-se de informações por este repassadas, desvenda um assassinato, mas a joia que o assassino tentava roubar vai parar nas mãos de Lupin.
  • A Morte Que Espreita, publicação original em Je sais tout n° 80, 15 de setembro de 1911. A partir de uma carta que Jeanne Darcieux escreveu mas depois rasgou e jogou fora, Lupin (sob o pseudônimo de Paul Daubreuil) descobre que alguém procura assassiná-la e desmascara o criminoso (que parecia acima de qualquer suspeita), salvando-a.
  • O Casamento de Arsène Lupin, publicação original em Je sais tout n° 94, 15 de novembro de 1912. Fazendo-se passar pelo sobrinho do Duque de Sarzeau-Vendôme, que mantém aprisionado num barco, Lupin consegue desposar sua romântica filha, Angélique, detentora de uma fortuna.
  • O Canudinho de Palha, publicação original em Je sais tout n° 96, 15 de janeiro de 1913. Lupin descobre o ladrão que se escondeu na fazenda do Patrão Goussot (disfarçado de espantalho) após roubar seu dinheiro, mas embolsa o produto do roubo.
  • Edith, Pescoço de Cisne, publicação original em Je sais tout n° 97, 15 de fevereiro de 1913. Partindo do pressuposto de que "com Lupin não há mortes", Ganimard desvenda o roubo misterioso da coleção de tapeçarias do supostamente brasileiro Coronel Sparmiento. Afinal, "não devemos, quando se trata [de Arsène Lupin], esperar exatamente o que é inverossímil e estupeficador?"


7. L'Éclat d'obus (O Estilhaço de Obus na edição Vecchi; O Estilhaço de Granada na edição Nova Fronteira - 1915), romance






Este livro é mais uma história de guerra (Primeira Guerra Mundial) e espionagem do que uma aventura típica de Lupin. Tanto é que na versão original em folhetim e na primeira edição, Lupin sequer figurava, tendo sido introduzido, em rápida aparição num hospital de campanha, pouco depois. Quando criança, Paul Delorze viu, junto com seu pai, brevemente o Kaiser alemão Guilherme II numa capela em território francês e, ato contínuo, o pai foi assassinado por uma acompanhante do Kaiser. Anos depois, Paul casa-se com Elizabeth e vai morar na propriedade que o pai dela, conde d’Anderville, abandonara depois da morte da esposa, com a filha ainda pequena. Lá chegando, ao ver o retrato da mãe de Elizabeth pendurado na parede, Paul constata, surpreso, que foi a mesma mulher que matou seu pai. Paul parte para a guerra, onde um tal major Hermann o persegue, e chega a ver uma camponesa com a fisionomia da assassina do seu pai. Os alemães ocupam por um período a propriedade de Andeville, matam os caseiros, e Elizabeth desaparece. A análise de um estilhaço de projétil (obus, no original, que a edição da Vecchi traduziu por obus e a da Nova Fronteira, por granada; na verdade, trata-se de um projétil lançado por uma peça de artilharia, não de uma granada de mão. Aliás, a tradução da Nova Fronteira tem outras falhas além desta) revela que não foi morta, e sim sequestrada.

Com ajuda de Arsene Lupin, que o visita brevemente no hospital, Paul descobre um túnel que liga as imediações da propriedade a território alemão. Pelo túnel Paul penetra no lado inimigo onde tenta libertar Elizabeth, que está aprisionada. Sequestra o filho do Kaiser e em troca pede a libertação da esposa e de prisioneiros de guerra franceses. Desvenda os crimes da Condessa Hermine, membra da família imperial Hohenzollern, que herdou do pai “um ódio feroz, selvagem, contra essa França” e conduziu uma obra gigantesca de preparação e espionagem, da qual fez parte o túnel de Ebrecourt a Corvigny, para facilitar uma invasão da França. A condessa, que se fazia passar pelo major Hermann e até pela mãe de Elizabeth (caso do retrato), é fuzilada. O livro termina com uma mensagem antibélica: "Ao lado, uma criança levantou os braços para eles, pobres braços onde já não havia mãos."

8. Le Triangle d'or (publicado pela Vecchi em dois volumes: O Triângulo de Ouro e A Câmara da Morte - 1918), romance


Divide-se em duas partes: "La Pluie d'Étincelles" ("A Chuva de Faíscas"), publicada em 1953 pela Vecchi como um volume independente intitulado O Triângulo de Ouro e "La Victoire d'Arsène Lupin" ("A Vitória de Arsène Lupin"), lançado igualmente como um volume independente sob o título A Câmara da Morte. O personagem principal de Maurice Leblanc só faz sua aparição na segunda parte como um Deus ex machina, salvando Patrício e Corália da morte e desvendando o mistério do triângulo de ouro.
Cronologicamente, a ação se situa entre o aparente "suicídio" de Lupin (lançando-se do alto dos penhascos de Capri) e a subsequente partida para a Legião Estrangeira, ao final do sombrio romance 813, e sua reaparição pública em Os Dentes do Tigre.


Primeira Parte: O Triângulo de Ouro - Um mutilado de guerra, o capitão Patrício Belval, frustra uma tentativa de sequestro de uma enfermeira conhecida como Mamãe Corália. Apaixonado por ela, descobre que é casada. Seu marido, o banqueiro Essarès Bey, ligado a um complô para remeter ilegalmente ao exterior as reservas de ouro da França, aparentemente morre assassinado. Parte desse ouro, que a eclosão da Primeira Guerra Mundial impediu de ser expedido, jaz oculto na propriedade de Essarès, sem que ninguém o encontre. Além disso, um álbum de fotografias encontrado com Essarés, uma ametista quebrada e outros sinais entrelaçam os destinos de Patrício e Corália. Seus pais viúvos, que se amavam, morreram assassinados juntos, no mesmo dia. Durante todos esses acontecimentos, um inimigo oculto está sempre atacando. Ya-Bon, braço-direito de Patrício, sugere que chamem Lupin para desvendar o mistério. Mas ele não havia morrido ao saltar de um penhasco em Capri? Ao final Patrício e Corália caem na mesma armadilha que tirou a vida de seus pais.


Segunda Parte: A Câmara da Morte - Arsène Lupin, enviado à França em missão secreta para recuperar os trezentos milhões em ouro e assim influenciar os rumos da Primeira Guerra Mundial, salva Patrício e Corália da armadilha mortal, põe-se no encalço do inimigo implacável, descobre o paradeiro do ouro (aplicando o princípio do conto A Carta Roubada de Poe), revela o verdadeiro destino do pai de Patrício e desmascara o perseguidor do casal, que se valerá de uma troca de identidades para agir com mais desenvoltura (a troca foi entre Essarès e seu secretário Simeão Diodokis).

9. L'Île aux trente cercueils (publicado pela Vecchi em dois volumes: A Ilha dos Trinta Ataúdes e O Flagelo de Deus - 1919), romance



Véronique casa-se com o cavalheiro polonês de má reputação Alexis Vorski, contra a vontade do pai. No ano seguinte, este rapta a criança nascida do casal, mas avô e neto morrem no naufrágio de um iate. Véronique recolhe-se a um convento carmelita e, mais tarde, torna-se uma humilde modista em Besançon. O polonês Alexis Vorski, acusado de espionagem durante a guerra, é detido, foge e morre assassinado na floresta de Fontainebleau, sendo lá enterrado. Uma profecia de família rezava que Vorski, filho de rei, morreria da mão de um amigo e sua esposa seria crucificada (e de fato Vorski é filho bastardo do rei Luís da Baviera com uma ocultista). Ao assistir a um filme, Verónique vê a cena de uma cabana abandonada onde aparece, nas tábuas da velha porta, suas iniciais de solteira: V.d’H. Ela contrata a Agência Dutreillis para aclarar o enigma e esta a orienta a ir até a cabana, onde depara com um cadáver e uma folha de papel com um desenho de quatro mulheres crucificadas em quatro troncos de árvore, sendo uma delas a própria Véronique. Seguindo certas pistas, Véronique vai dar em uma praia. Lá encontra Honorine, que revela que seu pai e filho estão vivos na Ilha de Sarek, também conhecida como Ilha dos 30 Ataúdes

Segundo uma velha profecia, no espaço de doze meses os trinta recifes principal que cercam a ilha, chamados de trinta ataúdes, terão suas trinta vítimas, mortas de morte violenta, entre elas quatro mulheres mortas na cruz. 1917 seria o ano fatídico. Véronique reencontra seu ex-marido Vorski, o "flagelo de Deus", que na verdade simulara sua morte, viera se refugiar na ilha e acabara se convencendo, com base numa antiga profecia de um monge beneditino do século XV, ser ele uma espécie de “ungido” destinado a resgatar a Pedra de Deus, que dá a vida e a morte, e se tornar todo-poderoso. Vorski revela seu amor por Véronique e promete que, se esta se submeter, reinará como uma imperatriz, elevando-se acima das outras mulheres. Do contrário, morrerá na cruz. Ela prefere a morte. A intervenção de um velho druida, ou melhor, Don Luis Perennna, ou ainda melhor, Arsene Lupin, salva Véronique da morte. Lupin (em seu estilo fanfarrão e justiceiro) faz Vorski de gato e sapato e revela toda a história da laje dos reis da Boêmia (um dos quatro fabulosos segredos de Cagliostro), que em tempos antigos veio parar na ilha, numa segunda fase foi associada a cultos druidas e acabou sendo ocultada pela Igreja, dando origem a lendas, superstições e profecias. Os poderes terapêuticos, e destruidores, da Pedra de Deus deviam-se à sua natureza radioativa.

10. Les Dents du tigre (publicado pela Vecchi em dois volumes: Os Dentes do Tigre e O Segredo de Florence - 1920), romance



A primeira parte narra o assassinato de Hyppolyte Fauvile e seu filho, parentes e herdeiros do milionário americano Cosmo Mornington; a atuação ambígua de Don Luis Perenna (anagrama de Arsene Lupin) ao provar a culpabilidade de sua viúva Marie-Anne Fauville (uma das provas são as marcas de seus dentes deixadas em uma maçã, os "dentes do tigre"), já que, como um dos beneficiários do testamento de Cosmo por ter-lhe salvado a vida enquanto legionário no Marrocos, Don Luis aparentemente teria interesse no desaparecimento dos demais herdeiros; a atuação sinistra de um misterioso primo de Cosmo, Gaston Sauverand, reconhecível pela bengala de ébano, que parece conspirar contra Perenna, infiltrando-se até em sua mansão e aliando-se à secretária Florence Levasseur; enfim, o convencimento de Perenna de que Marie-Anne, Florence e a viúva são inocentes. Neste caso, quem teria cometido o duplo crime e qual a origem das cartas misteriosas de Hyppolite que aparecem de dez em dez dias? A solução ficará para a segunda parte.

Segunda parte: Apesar de provar a inocência de Marie-Anne e Gaston e mostrar que as provas contra eles foram plantadas pela própria vítima, Hyppolyte, num plano diabólico para se vingar do amor existente entre a esposa e Gaston, Don Luis não consegue evitar o suicídio de ambos, tornando-se assim o herdeiro universal de Cosmo, portanto suspeito aos olhos de uma facção da polícia parisiense e da opinião pública. Mas no dia marcado para a herança ser concedida, aparece outro parente de Cosmo, ninguém menos que Florence Levasseur. Mas longe de ter sido a autora dos assassinatos que a favoreceram, existe alguém por detrás que a manipula. E esse alguém a rapta. Quando Don Luis quer partir para salvá-la, sua identidade de Arsène Lupin é desmascarada e ele é preso pela polícia. Em troca da liberdade, oferece à França um reino no norte da África que conquistou em seu tempo de legionário e do qual se tornou imperador. Lupin vai atrás do bandido de avião, entrega-o ao chefe da polícia e se casa com Florence, indo morar na aldeia de Saint-Maclou, às margens do Rio Oise. 

11. Les Huit Coups de l'horloge (As Oito Pancadas do Relógio - 1923), coletânea de 8 contos



Sob o nome de Príncipe Sernine ou ainda Príncipe Rénine, Lupin decifra enigmas policiais em nome de Hortense Daniel, que procura seduzir.

12. La Comtesse de Cagliostro (A Condessa de Cagliostro - 1924), romance




Ao visitar furtivamente sua namorada, Clarice (Clarisse em português) d’Étigues, o jovem Raoul d’Andrésy (Raul de Andrésy em português, na verdade Arsène Raoul Lupin quando usava ainda o sobrenome da mãe; a história transcorre em 1894, a primeira aventura de Lupin, mas só publicada após o “ajuste de contas definitivo” um quarto de século depois) espreita uma reunião em que o barão Godefroy (Godofredo) d´Étigues, pai de Clarisse, e seus cúmplices "julgam" e condenam uma “criatura infernal” e tentam matá-la amarrando-a em um barco e afundando-o. Essa criatura é Joséphine Pellegrini-Balsamo (Josefina Pellegrini Bálsamo), a Condessa de Cagliostro, supostamente nascida em 1788, portanto, centenária, que teria descoberto a fórmula da juventude (na verdade, conclui Raul, ela se vale da semelhança com a mãe para dar a impressão de que são a mesma pessoa). Raul a salva do afogamento. Tanto o bando do barão como o da condessa estão atrás de um fabuloso tesouro medieval escondido pelos monges. Joseph Balsamo (José Bálsamo), suposto "pai" (na verdade, avô) da condessa, “que agitou a corte de França sob o reinado de Luís XVI”, propôs-se a decifrar quatro grandes enigmas, mas não teve tempo para tal:

In roboro fortuna (a fortuna no carvalho): decifrado por Doroteia em A rival de Arsène Lupin;
A laje dos reis da Boêmia: decifrado por Lupin em A ilha dos trinta ataúdes;
A fortuna dos reis de França: decifrado por Lupin em A agulha oca;
O candelabro de sete braços: o tesouro dos monges medievais, tema deste livro.

Desenvolve-se entre Lupin e a Cagliostro uma relação ambígua, de amor desenfreado, por um lado, e ódio e competição pelo tesouro, por outro. A Lupin repugnam os métodos violentos da condessa, que inclui tortura e assassinatos, daí a certa altura a abandonar. No penúltimo capítulo, defrontam-se num velho farol Beaumagnan, apaixonado pela condessa e líder do grupo a que pertence o barão, Clarisse, a condessa e Lupin. Este decifra o paradeiro do tesouro ao observar que as sete abadias que o acumularam formam a figura exata da Ursa Maior. O tesouro jaz na posição da estrela Alcor, iniciais de Ad lapidem currebat olim regina (para a pedra outrora corria a rainha), suposta chave do enigma. Num embate final, Lupin passa a perna na Cagliostro e embolsa o tesouro. Casa-se com Clarice, que morre de parto seis anos depois. Seu filho, João, é raptado, aparentemente pela Cagliostro. 

A cena da capa da edição da Vecchi, acima, não ocorre no livro, já que Raul salva a condessa amarrada no barco, não se afogando.

13. La Demoiselle aux yeux verts (A Moça dos Olhos Verdes - 1927), romance


Lupin encontra-se envolvido na busca de uma suposta Fonte da Juventude, oculta sob um lago em Auvergne. Conhece a dama dos olhos verdes e a dama dos olhos azuis.

14. L'Homme à la peau de bique (1927), conto isolado


Lupin se ocupa do enigma do homem da pele de cabra.

15. L'Agence Barnett et Cie (A Agência Barnett & Cia. - 1928), coletânea de 8 contos



Sob a identidade do detetive Jim Barnett, Lupin decifra ao menos nove enigmas com a ajuda, nem sempre dada de boa vontade, do jovem inspetor Théodore Béchoux.

16. La Demeure mystérieuse (A mansão misteriosa - 1928), romance


Sob o nome de Jean d'Enneris, Arsène Lupin investiga o duplo sequestro de Régine Aubry e Arlette Mazolle e soluciona o mistério da mansão Mélamare.

17. La Barre-y-va (O Mistério do Rio do Ouro - 1930), romance


Lupin, sob o pseudônnimo de Raoul d'Avenac, encontra-se na Normandia para solucionar o enigma da morte do senhor Guercin.

18. Le Cabochon d'émeraude (1930), conto isolado


Sob o nome de barão d'Enneris, Lupin localiza uma famosa esmeralda.

19. La Femme aux deux sourires (A Mulher de Dois Sorrisos - 1932), romance


Lupin adquire, sob a identidade de don Luis Perenna, o castelo de Volnic, perto de Vichy, e soluciona a morte de Elisabeth Hornann, derrotando o inspetor Gorgeret.

20. Victor, de la Brigade mondaine (Arsène Lupin, na Pele da Polícia - 1934), romance


Um ladrão age em nome de Arsene Lupin. O verdadeiro Lupin, sob o nome de Victor Hautin, inspetor da Brigada Mundana, desmascara o usurpador, um certo Antoine Bressacq.

21. La Cagliostro se venge (A Vingança da Cagliostro - 1935), romance


Lupin, sob o pseudônimo de Raoul d'Averny, cai numa cilada armada pela condessa de Cagliostro antes de morrer, reencontra seu filho Jean e o ajuda a se defender de uma acusação falsa de homicídio.

22. Les Milliards d'Arsène Lupin (1939), romance póstumo com a colaboração de sua filha Marie-Louise


Lupin encontra-se nos Estados Unidos para vigiar as maquinações de uma organização criminosa que quer lhe roubar a fortuna.

23. Le Dernier Amour d'Arsène Lupin (2012), romance póstumo datilografado, permaneceu em estado de rascunho, editado em 2012 pela Balland


Lupin apaixona-se por Cora de Lerne e a desposa.

PS. Quem lê francês pode também consultar um resumo das obras de Leblanc sobre Lupin, incluindo peças de teatro, no site Calaméo: