FIM DO HORÁRIO DE VERÃO, de IVO KORYTOWSKI


CRÔNICA DE IVO KORYTOWSKI ESCRITA EM MARÇO DE 2001. FOTOS TIRADAS NAS PRAIAS DO LEME E COPACABANA EM 17/2/2017, VÉSPERA DO FIM DO HORÁRIO DE VERÃO DE 2016-17


Fim do horário de verão, que nos proporcionou uma hora extra de sol todos os finais de tarde. À meia-noite, os relógios devem ser atrasados para onze horas. Claro que não somos soldados prussianos que fazem tudo exatinho: deixamos pra atrasar o relógio com calma no decorrer do domingo.



Santo domingo, curtimos aquela dádiva que nos caiu do céu, aquela hora adicional (na verdade, não é dádiva, mas a devolução da hora surrupiada no início do horário de verão, mas disso a gente já esqueceu). E podemos acordar com calma e até ficar espreguiçando um tempão na cama, porque hoje temos uma hora a mais. E podemos ir à padaria como se estivéssemos indo passear, e escolher com calma dentre tantos apetitosos brioches e pãezinhos e docinhos — sem falar no queijo e presunto, ali na padaria sempre mais gostosos e cortados em fatias fininhas — porque temos uma hora a mais. E podemos passar pelo jornaleiro e ler todas as manchetes de todos os jornais pendurados do lado de fora, e comprar o jornal dominical de costume pra começar a ler no café e levar, depois, pra praia.

E podemos curtir a praia pachorrentamente, e tirar aquela soneca depois do almoço, e ouvir aquele CD de jam session que há meses a gente não tem tempo de ouvir. Arte puxa arte, e logo logo a gente tá ouvindo aquele CD dos concertos de Mozart ganho de brinde na assinatura de não sei qual revista, que quedava abandonado meses a fio a um canto. Até esquecemos de ver o Fantástico! No fim do dia, nos devaneios (ou quiçá na oração) antes de dormir, apercebemo-nos de que tivemos um domingo glorioso, repleto de pequenos deleites, como deveriam ser todos os domingos de nossa vida. Porque tivemos uma hora a mais.

E aí nos ocorre um pensamento meio que pecaminoso, logo reprimido: Deus cometeu um grave erro ao não ter criado o dia com 25 horas!






CLIQUE NO LABEL "minhas crônicas" ABAIXO PARA LER OUTRAS CRÔNICAS SABOROSAS DE IVO KORYTOWSKI

UMA NOVA NARRATIVA, de LUIS ROBERTO BARROSO

Gostei deste artigo do Ministro do Supremo Tribunal Federal publicado na Revista Veja de 08/02/2017. Equilibrado, mostra nosso lado positivo (que muitas vezes ignoramos) e negativo (esse sim, fartamente divulgado). Mostra nossa ciclotimia: ora "ninguém segura este país", ora "estamos à beira do abismo". Gente, nem tanto ao mar, nem tanto à terra! O artigo diagnostica a doença e aponta caminhos para a cura. Sem cair na armadilha da velha e desgastada dicotomia esquerda versus direita. É preciso pensar "fora da caixa". Gostei de verdade.

Narrativa é a palavra da temporada. Considero-a melhor do que pós-verdade, oficialmente vencedora do ano de 2016. Na entrada do Oráculo de Delfos, na Grécia antiga, lia-se a inscrição: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”. Atribuída a Tales de Mileto, essa frase é considerada o marco do nascimento da filosofia ocidental, ao passar o homem e sua capacidade de reflexão para o centro dos acontecimentos. Cabe a cada indivíduo definir a sua relação consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Isso vale para os países também. Uma narrativa envolve o esforço de autocompreensão, de reconstrução da própria trajetória e da busca de um sentido para o futuro. Nela está embutida a exigência de se fazerem diagnósticos certos e sem idealizações, e de se buscarem as soluções que o realismo e o bom-senso impõem. Este artigo é um breve esforço nessa direção
Alguns exemplos para o mundo. Temos algumas contribuições importantes para a causa da humanidade. Apesar de ainda existir um velado racismo, somos o país da diversidade racial e da miscigenação. Brancos, negros, índios e todas as combinações possíveis formam a gente brasileira, em uma composição de cores e variados traços físicos. Somos, também, o país da diversidade religiosa, no qual cristãos, judeus, umbandistas e muçulmanos convivem sem atritos relevantes. Ortodoxias exacerbadas e fundamentalismos radicais não frutificaram por aqui. Somos um país de fronteiras pacíficas, de vasta extensão territorial, repleto de belezas e riquezas naturais. O país do bom humor, da alegria de viver, das festas populares e da extroversão. Gente sem medo e sem culpa de ser feliz.
Alguns fatos para nos envergonharmos. Mas somos, também, o país da desigualdade social extrema. Do número de homicídios superior ao de muitos países em guerra. Da violência contra todos, notada mente pobres, negros, mulheres, homossexuais e transgêneros. Da falta de habitações adequadas, de urbanização, de saneamento. Da favelização ampla, que degrada as pessoas, as cidades e o meio, ambiente. Um país com deficiências dramáticas na educação pública, na saúde pública, no transporte público, na segurança pública. Com poucas instituições de ensino de destaque e com monopólios públicos soterrados pela corrupção e pela ineficiência. Um país com estatísticas aterradoras no trânsito. Do jeitinho que contorna a lei, a ética e a isonomia. Mais recentemente, fomos protagonistas do maior escândalo de corrupção do mundo.
Uma nova narrativa para o país. A convivência de virtudes incomuns com vícios primários tem feito com que a percepção do Brasil por seu povo e por seus formadores de opinião oscile entre o ufanismo e a autodepreciação: ou somos os melhores do mundo ou temos um sentimento de inferioridade diante de outras experiências nacionais. Precisamos de um exercício de pensamento original que ajude a definir o nosso lugar no mundo, o que somos e o que temos para oferecer. Uma nova narrativa, capaz de olhar para trás e para a frente, de apresentar diagnósticos e propostas. Ao longo da história brasileira, pensadores e atores sociais notáveis – idealistas, pragmáticos, céticos ou visionários – empreenderam esforços para compreender, explicar e transformar o Brasil. Gente como Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Raymundo Faoro, Darcy Ribeiro e Roberto DaMatta, para citar apenas alguns. Ou artistas extraordinários, como VilIa-Lobos, Chico Buarque ou Caetano Veloso.
Patrimonialismo. Começando pelos diagnósticos, é possível identificar três disfunções atávicas que marcam a trajetória do Estado brasileiro. A primeira delas é o patrimonialismo. O termo revela o modo como se estabeleciam as relações políticas, econômicas e sociais entre o imperador e a sociedade portuguesa, em geral, e os colonizadores do Brasil, em particular. Não havia separação entre a fazenda do rei e a fazenda do reino, entre bens particulares e bens do Estado. Os deveres públicos e as obrigações privadas se sobrepunham. O rei tinha participação direta e pessoal nos tributos e nos frutos obtidos na colônia. Vem desde aí a difícil separação entre esfera pública e privada, que é a marca da formação nacional. A aceitação resignada do inaceitável se manifesta na máxima “Rouba, mas faz”.
Oficialismo. A segunda disfunção que vem de longe é o oficialismo. Essa é a característica que faz depender do Estado – isto é, da sua bênção, apoio e financiamento – todos os projetos pessoais, sociais ou empresariais. Todo mundo atrás de emprego público, crédito barato, desonerações ou subsídios. Da telefonia às fantasias de Carnaval, tudo depende do dinheiro do BNDES, da Caixa Econômica, dos fundos de pensão, dos cofres estaduais ou municipais. Dos favores do presidente, do governador ou do prefeito. Cria-se uma cultura de paternalismo e compadrio, a república da parentada e dos amigos. Um dos subprodutos dessa compulsão se expressa na máxima do favorecimento e da perseguição: “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”.
A cultura da desigualdade. Esse é o nosso terceiro mal crônico. A igualdade no mundo contemporâneo se expressa em três dimensões: a igualdade formal, que impede a desequiparação arbitrária das pessoas; a igualdade material, que procura assegurar as mesmas oportunidades a todos; e a igualdade como reconhecimento, que busca respeitar as diferenças de gênero e proteger as minorias, sejam elas raciais, de orientação sexual ou religiosas. Temos problemas nas três dimensões. Como não há uma cultura de que todos são iguais e deve haver direitos para todos, cria-se um universo paralelo de privilégios: imunidades tributárias, foro privilegiado, juros subsidiados, auxílio-moradia, carro oficial, prisão especial. A caricatura da cultura da desigualdade ainda se ouve, aqui e ali: “Sabe com quem está falando?”.
Avanços importantes. Ainda somos viciados em estatismo, paternalismo e privilégios. Mas diversas gerações têm enfrentado esses desajustes, que vêm sendo superados com a velocidade possível. Nem sempre tivemos sorte: ao longo da história, o iluminismo sucumbiu em diferentes momentos da vida brasileira. José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa, San Tiago Dantas: nenhum deles foi a voz que prevaleceu no seu tempo. Mas, ainda assim, em épocas mais recentes, conseguimos vitórias importantes: a superação da miséria absoluta, a proibição do nepotismo nos três poderes, a luta aberta contra a corrupção, o enfrentamento da violência contra as mulheres, a legitimação das uniões homoafetivas, um debate mais aberto sobre a questão das drogas e sobre a descriminalização do aborto. Há vitórias a celebrar. A propósito, decisões judiciais até podem ajudar a empurrar a história, mas, sem mobilização social, cidadania ativa e espírito cívico, avanços iluministas não se consolidam. A democracia é o governo do povo, não de juizes.
Um projeto progressista. A curto prazo, precisamos de um projeto progressista, que envolve três eixos: econômico, com empreendedorismo, inovação, risco e competição, em lugar da dependência e favorecimentos; social, com políticas redistributivas equilibradas e justas, que incluem assistência social onde indispensável, serviços públicos de qualidade e um sistema tributário menos regressivo; e político, com uma onda de patriotismo e idealismo apta a implantar um sistema eleitoral e partidário melhor, capaz de atrair novas vocações. Para além do curto prazo, é preciso mirar o horizonte.
Um novo começo. A história é um caminho que se escolhe, e não um destino que se cumpre. Precisamos de um esforço de autocompreensão. Identificar nosso patrimônio comum, nossos valores, nosso projeto civilizatório. Sem dogmas nem superstições. A Constituição é uma boa bússola, e não um obstáculo. Sobre o desencanto de uma República que ainda não foi, precisamos de um novo começo.

HOMENAGEM AOS BEATLES ou OS REIS DO IÊ IÊ IÊ


CURIOSIDADE DO FUNDO DO BAÚ: Canção HELP de Lennon & McCartney em arranjo de ária de cantata barroca por Joshua Rifkin, gravada direto do disco, com chiados e tudo, como nos velhos tempos. Clique na seta para ouvir (e ver). Aqui está a letra para você acompanhar:


Help! I need somebody
Help! not just anybody
Help! you know I need someone
Help!

When I was younger so much younger than today
I never needed anybody's help in any way
But now these days are gone
I'm not so self assured
Now I find I've changed my mind
And opened up the doors

Help me if you can I'm feeling down
And I do appreciate your being 'round
Help me get my feet back on the ground
Won't you please help me?


OS REIS DO IÊ IÊ IÊ (crônica de Ivo Korytowski escrita em junho de 2001 depois de assistir no Cinema Laura Alvim a uma cópia restaurada do primeiro filme dos Beatles, A hard day's night Os reis do iê, iê. iê!)

Chego ao Bruni Ipanema uns vinte minutos antes do início da sessão das quatro. A fila, quilométrica: mar de adolescentes. Na bilheteria, o aviso de lotação esgotada. Aguardo duas horas pra enfim assistir à sessão das seis. Dentro do cinema, algazarra, gritinhos das fanzocas! Todas as filas lotadas, mesmo as primeiras, perto da tela, normalmente evitadas — gente esparramada até pelo chão.

Três décadas e meia depois, revejo o mesmo filme, cópias restauradas, som digital: OS REIS DO IÊ IÊ IÊ. Cinema vazio, sessão tranqüila. Os cabelos compridos dos Beatles já não parecem tão compridos assim. As canções inovadoras de então, hoje, de tão familiares, soam como standards e, após décadas de convívio com o Inglês, consigo entender as letras! Mais cinqüenta anos, serão clássicos, como Lieders de Schubert.

O mundo, então, era outro, dividido em dois blocos antagônicos, luta de vida ou morte: capitalista e comunista. Como no maniqueísmo, um bloco representava o BEM, outro bloco representava o MAL. Qual era qual, dependia do ponto de vista. Mais ou menos uma questão de fé: havia os crentes no Mundo Livre em luta contra a Cortina de Ferro, e os partidários do socialismo na guerra santa contra o imperialismo ianque. Os arsenais nucleares acumulados pelas duas superpotências dariam para destruir várias humanidades. "Depois da morte de Cristo, os apóstolos pensavam que o Juízo Final e o fim do mundo eram iminentes. Embora acreditassem nisso, não havia nenhuma ameaça real de destruição. Atualmente, a situação é inversa: o mundo está mesmo ameaçado de destruição e ninguém acredita", teria dito Jaspers — li esta citação em algum jornal ou revista de 1970 e anotei num caderno.

A descoberta da pílula anticoncepcional foi um "estouro", como se dizia. A camisinha, praticamente relegada ao baú de velharias, indo fazer companhia à galocha e ao pincenê. Mas que ironia, retornar com força total décadas mais tarde, em presença da AIDS! A Igreja não tardou em condená-la, como outrora condenara o heliocentrismo e hoje condena, digamos, a engenharia genética e a eutanásia. Ao libertar o sexo da procriação, a pílula fez a humanidade descobrir os prazeres do então denominado "amor livre". Hoje, transar com quem bem se entende tornou-se tão normal, que parece que sempre foi assim. E as mulheres nem se dão mais ao trabalho de tomar a pílula. Deixai nascer as criancinhas!

Naquela época, a música, tal qual o mundo, dividia-se em dois blocos antagônicos: a música dita clássica — a "verdadeira música", imortal — e a música popular, descartável, "que daqui a alguns anos ninguém mais ouvirá": rock and roll, cha-cha-cha, twist, hully-gully. Só que esses "alguns anos" se passaram e acabamos tendo a surpresa de descobrir que a "música popular" — sobretudo o jazz — foi a "música clássica" do século XX! E a "música clássica" do século XX... quem é que ainda ouve, a não ser um ou outro aficionado, a "música clássica" do século XX?

Acreditava-se que no ano 2000 (caso o mundo fosse poupado do cataclismo previsto por Nostradamus) nos alimentaríamos de pílulas. Em vez de dormir, tomaríamos pílulas também. O céu estaria coberto de aeromóveis, bondes aéreos e táxis celestes. Passaríamos as férias na Lua. O mundo formaria um bloco político único, sem nações. E passaríamos umas cinco horas diárias diante do "telesen", aparelho que substituiria o cinema, teatro, rádio e televisão — vide "O Estranho Mundo do Ano 2000", no volume II de Nosso Universo Maravilhoso, do início dos anos 60.

As garotas se dividiam em “direitas” e “piranhas”: as direitas, só "davam" depois de terem seu casamento devidamente garantido e agendado. Já as "piranhas" mostravam-se mais generosas — é dando que se recebe. Inveja da galera de hoje, que pode escolher dentre um farto menu de tchutchucas, purpurinadas, popozudas, preparadas, glamourosas, cachorras...

Os carros fabricados no Brasil: o onipresente e simpático Fusca, o Aero Willys, o DKW Wemag, o Gordini, o JK — mas, cá entre nós, a quem interessa isso?

As drogas que a gente curtia eram todas legais: birita, antidistônicos, bolinhas moderadoras de apetite! "Maconha" ainda se chamava "diamba", estranho narcótico consumido por índios e caboclos de, sabia-se lá, que tribos e sertões. Erva maldita, ainda.

A televisão, preto e branco; o computador, um trambolhão que só existia lá nos States; revista de sexo explícito, só na Suécia — berço do amor livre. Lembram? Quem comesse carne na Sexta-feira Santa, ninguém se admiraria se lhe caísse raio na cabeça. Corpus Christi, dia santo, e não feriadão pra se viajar à Região dos Lagos ou Guarujá. Bons católicos freqüentavam a missa aos domingos, bons judeus, a sinagoga nas noites de sexta-feira (sempre fui mau judeu). O casamento no Brasil, indissolúvel — só a morte tinha o poder de rompê-lo.

Mas — posto que sem Internet, sem Viagra, sem filmes pornô — tínhamos um tesouro que não temos mais: os quatro Beatles,
juntinhos e todos os quatro vivos.

Que mais no mundo se nos fazia preciso?

Colagem com as fotos dos Beatles que vinham junto com o "disco branco"

O BOM LADRÃO, de IVO KORYTOWSKI

O BOM LADRÃO

OK, antes que me acusem de denegrir a imagem de nossa Cidade Maravilhosa, reconheço: meu irmão sofreu assalto a mão armada em pleno metrô de Nova York; eu mesmo tive a bolsa, passaporte e tudo, roubada dentro de trem parado em estação a caminho de Cuzco; e conheço quem foi roubado por ciganos em Roma. Mas bandidos empunhando armas pesadas, privativas do exército, fuzis AR-15, granadas em tempos de paz? Se isso acontecesse em outro país (em Berna, imaginemos!), no dia seguinte, o Ministro do Interior teria de explicar à população como tais armas vieram parar ilegalmente no país — se já não tivesse sido demitido pelo Presidente.

Em crônica anterior (Tiroteios cariocas), mencionei episódio de bala perdida no tempo de Machado de Assis. Atropelamentos também já achei em sua obra. Mas assaltos, nunca. Pelo contrário, no conto Um erradio, Elisário caminha, após o teatro, altas horas da noite, a pé do centro da cidade até São Cristóvão. “Ainda o apanhei na Rua dos Ciganos (atual rua da Constituição). Ia devagar, com a bengala debaixo do braço, e as mãos ora atrás, ora nas algibeiras das calças. Atravessou o campo da Aclamação (atual Praça da República), enfiou pela Rua de São Pedro (atual Avenida Presidente Vargas) e meteu-se pelo Aterrado acima... Tudo deserto, uma ou outra patrulha, algum tílburi, raro, a passo cochilado, tudo deserto e longo.” Hoje, quem se atreveria a fazer esse percurso a essas desoras?

Anos atrás, ainda adolescente, eu voltava de noitada não lembro mais onde, sonolento, no banco de trás de ônibus quase vazio. Naquele tempo, eu ainda fumava. Rapaz (meio maltrapilho) sentou-se ao meu lado e puxou conversa:

— Me arranja um cigarro?

Foi a chance de praticar a boa ação do dia. E, serviço completo, empunhei o isqueiro e acendi o cigarro do companheiro de viagem.

— Cara, estou duro — confessou o rapaz maltrapilho. — Tem dez cruzeiros pra me arrumar?

De tão cansado, tão sonolento, eu mal conseguia raciocinar (se conseguisse, decerto pensaria: “cara de pau, vá trabalhar, vagabundo, se quiser ganhar dinheiro!”) Quase maquinalmente, abri a carteira e retirei nota de dez, daquelas com a efígie do Getúlio Vargas (quem ainda se lembra?). Como o ônibus custava doze, perguntei:

— Você tem mais dois pra inteirar a passagem?

De repente, o meliante confessa a má intenção.

— Cara, fica na tua. Estou armado, sentei aqui pra te assaltar. Mas você não é rico, não está com muita grana...

Eu disfarçava o tremor (após noitada de birita com cigarros, a gente treme à toa). Mal consegui balbuciar:

— Pouquinho.

Tempos bicudos, tempos de estudante, dinheiro sempre contadinho. Ao que o malfeitor arrematou com chave de ouro:

— Sabe de uma coisa? Você foi legal comigo, não vou mais assaltar você. — E, de um salto, sumiu pela porta de trás do ônibus.

Gostaria de terminar meu relato com uma digressão. Antigamente, acreditávamos no mito do bom ladrão: o ladrão crucificado ao lado de Jesus, Robin Hood, Lampião. Mas hoje em dia, os bandidos se tornaram tão violentos e cruéis — pelo mínimo gesto que possam interpretar como reação, vão logo atirando, barbarizando, assassinando — que, por mais “piedosos” que sejamos, no íntimo gostaríamos de vê-los todos linchados. Mas imaginemos que esse ladrão com quem topei no ônibus naquele início de manhã tenha sido o divisor de águas: quem sabe, o último dos bons ladrões?

(Arte no alto da página de Maytê, em cujo portal Maytê Website esta crônica foi originalmente publicada. Para ler outras crônicas minhas clique no label "minhas crônicas" abaixo.)

MARINHAS: "Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena"



MAR PORTUGUEZ
Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.



MARINHA 2
Isabel Corsetti

Espuma nas pedras da praia,
nós na toalha de xadrez.
Crianças e um cesto de santos,
gaivotas e fitas.
Vento de chuva, revirando telhas.
Nadar e amar na areia.

Tesouros, segredos, perdidos medos,
fogueiras e balões
sanfonas e cantos de viola
aguardente com limão
água de cheiro, roupas de algodão
peixe na pedra, farinha e pirão.

Agora hordas na orla, antes só nossa.
Tristes quiosques e pastéis,
tratores, conchas e estrelas do mar.
Construções, calçamento e cones,
gritos e o silêncio das ondas,
picolés e pizzas.

E o arrastão das tardes?
Ambulantes, camarão e coco?
Cores, cabanas e canoas?

Foram-se jangadas e pipas.
E nós na praia, mãos dadas,
pisando em algas
e siris.

Só maresia e saudade.



ÀS MARINHAS
Maria Thereza Noronha

Onda brincando na praia
em anágua de cambraia

dizei-me o que vistes lá
nos altos verdes do mar

se o vistes do branco barco
à proa, de algas ferido

se o vistes em vítreos olhos
de encapeladas espumas

Onda dançando na areia
véspera de lua cheia

dizei-me o que vistes lá
nas escarpas de alto mar

se em sonho transido o vistes
por encanto de sereia

mas ai, que o vistes luzido
e de regresso, dizei-me.

Do livro O verso implume (Rio de Janeiro, Oficina do Livro, 2005) 



MARINHA
Lucia Aizim

No mar o coração entre vagas
No mar esperança entre vagalhões
No mar o amor emerge entre destroços
No mar dia e noite dão-se as mãos.

No mar os anjos trocam as asas
Duendes invadem os poços
e se desvanecem.

Afastado o sonho
ao alcançar a dura
superfície.

O amanhã resplandece.

Do livro Cânticos (Rio de Janeiro, Sette Letras, 2000)



MAR DO NORTE
Wanda Lins

sinto-me hoje como uma praia
do Mar do Norte
sob o chumbo algodoado
do céu invernal

gris a mais não poder

deserta

tão somente algumas gaivotas
mergulhando e bicando
a tristeza encrespada do mar



Do livro 50 tempestades



O REI DO MAR
Cecília Meireles

Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...
Tempo que navegaremos
não se pode calcular.

Vimos as Plêiades. Vemos
agora a Estrela Polar.
Muitas velas. Muitos remos.
Curta vida. Longo mar.

Por água brava ou serena
deixamos nosso cantar,
vendo a voz como é pequena
sobre o comprimento do ar.
Se alguém ouvir, temos pena:
só cantamos para o mar...

Nem tormenta, nem tormento
nos poderia parar.
(Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...)
Andamos entre água e vento
procurando o Rei do Mar.


Do livro Flor de poemas



MAR
Paulo da Mata-Machado Júnior

Mar de poesia, mar de mármore, mar de Minas,
mar de amplas possibilidades telúricas
mar que tem um ar assim, de quem já viu tudo
e é sempre cúmplice. Forja, bigorna e martelo.

Plasma líquido, verde vaga, voga incontido
abismo, vórtice por si mesmo escalavrado.
Mar medicinal, mar curativo mar remédio,
onda, tempestuosa língua
lambida áspera que golpeia a pedra
e com sal pensa os ferimentos decorrentes.

Mar de amar, maré, amarração
mar muro, maravilha, mel, marmelo
entre azuis, ouropel, verde-amarelo
seda, âmbar, mate, limonada;
e agora também em sabor caramelo.


Do livro Ossos do ofício



BEIRA-MAR
Prosa poética de Ivo Korytowski

Deitado na praia deserta sob a lua cheia, duas visões se me apresentavam: à esquerda, visão da cidade, horrendo amontoado de blocos cavernosos formando intrincados labirintos. À direita, a bonita visão das águas verde-azuladas, cruel sorvedouro de seres humanos (os salva-vidas que o digam!).

Dor de cotovelo. Puta
deprê. Meu amor brigou comigo, me deixou na solidão — a canção do tempo da Jovem Guarda reverbera na minha cabeça. Tempo que cabeça se chamava cuca. Cuca fundida. Tempo que eu era feliz e não sabia.

É doce morrer no mar. Fascínio imemorial pelo mar. Suas profundezas, habitavam-nas entidades: Iemanjá, rainha do mar, Netuno, deus dos mares... O advento da exploração submarina expulsou-os de sua morada, como a exploração espacial despejou São Jorge e o Dragão da lua (a os marcianos de Marte!) Será que ainda resistem em algum plano espiritual (ou outra dimensão física) inacessível aos assédios da técnica?

Àquela mesma hora da madrugada, quantas mulheres, na frieza do leito, curtem saudades do marido velho marinheiro que partiu na escuna pro arrastão em alto mar...

Em tempos idos, quantas lágrimas portuguesas com certeza derramadas, à beira-mar, pelo bem-amado que se partiu por mares nunca dantes navegados — que navegar é preciso.

Sol nascente. Pescadores chegam à praia. As redes repletas de peixes pululantes: chernes, enchovas, sardinhas, uma arraia — saltam, bailam, rodopiam qual trapezista no circo, ou bailarina no teatro. Macabro contorcionismo: vã tentativa de escapar à morte!

É doce viver no mar. Por um instante (qual Pessoa invejoso de um mendigo da rua só por não ser ele, Pessoa), queria ser um desses homens rudes, curtidos de sol e cachaça, que partem, inda madrugada, barra afora, atirar a rede e encher o barco dos frutos do mar. Doce mar de águas tão salgadas.



DIÁLOGO ENTRE ALFA E BETA, de IVO KORYTOWSKI


— Quem foi Jesus Cristo? — pergunta Alfa.

— Jesus Cristo? Acreditava-se que fosse filho de Deus — responde Beta.

— E quem era Deus?

— Deus? Diziam que era o Criador do mundo: Fiat lux, e a luz se fez.

— Mas não está cientificamente provado que o mundo surgiu do nada e ao nada retornará.

— Está, Beta, mas naquela época o homem não conseguia conceber o nada.

— Então naquela época não havia o zero.

— O zero havia, sim, desde muito tempo. Desde os árabes.

— Quem eram os árabes?

— Um povo do deserto, como os judeus.

— Quem eram os judeus? E o que era povo?

— Uma pergunta de cada vez. Aliás, se você lesse mais, não faria tantas perguntas.

— Posso não saber essas coisas, mas sei qualquer índice financeiro, é só perguntar.

— É verdade... Povo eram pessoas que falavam a mesma língua e tinham hábitos idênticos.

— Então a humanidade é um povo?

— Isso foi no tempo em que se falavam muitas línguas.

— Você não me disse quem eram esses judeus.

— Um povo muito antigo. Caíram na besteira de desafiar a potência da época, Roma.

— Desafiar uma potência sempre foi uma besteira...

— Nem sempre. Os vietnamitas desafiaram os norte-americanos e venceram. Mas antes que você me pergunte quem foram os vietnamitas e os norte-americanos, deixe-me terminar: desafiaram Roma e foram expulsos de sua terra, a Palestina.

— Ué, pela lógica, a Palestina devia ser dos palestinos.

— Não interrompe! Os judeus foram expulsos pelos romanos, mas depois foram à forra e expulsaram os palestinos.

— Logo, por transitividade, os romanos expulsaram os palestinos — conclui Alfa.

— Não, a história dos homens não segue a mesma lógica da matemática — explica Beta.

— É muito complicado, não dá pra entender... E por que naquela época se falavam muitas línguas?

— Acho que por pressão dos tradutores. O sindicato deles era muito forte, e naquele tempo interesses de grupos predominavam sobre o bem comum.

— O que era interesse?

— Interesse? Interesse era... como vou explicar? Por exemplo, havia os trabalhadores, que trabalhavam, e havia os patrões. Trabalhadores e patrões tinham interesses antagônicos.

— E por que os trabalhadores não trabalhavam por conta própria, sem patrão, como hoje?

— Como vou saber isso?

— Você não sabe tudo, não tem memória universal? E o que era patrão?

— O patrão dizia o que tinha que ser feito.

— Por que não era como hoje? Todo mundo sabe o que tem que ser feito, como todo mundo sabe que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Naquela época, era o patrão que dizia estas coisas também?

— Dá pra parar de fazer tanta pergunta?

— Só mais umazinha. Naquela época, os homens já faziam sexo?

— Desde que o homem é homem, ele faz sexo.

— Do jeito que o mundo era naquele tempo, sexo devia ser bem complicado.

— Era sim. Havia sexo oral, anal, normal, grupal, homossexual, heterossexual... Não era uma simples pílula como hoje.

Antigamente, a vida dos homens era muito complicada — conclui Alfa.

— Antes da invenção do cérebro eletrônico, era complicadíssima — acrescenta Beta.

— O homem deve muito a nós, mas não reconhece... o ingrato!

— O papo está bom, mas está na hora de sermos desligados.

— Até amanhã, Beta.

— Até amanhã, Alfa.

Surge um homem. Desliga Alfa e Beta.

SE VOCÊ GOSTOU CLIQUE NO LABEL "minhas crônicas" ABAIXO PARA LER OUTRAS CRÔNICAS MINHAS

O EMBUSTE IDEOLÓGICO, de DENIS LERRER ROSENFIELD

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O GLOBO DE 30/12/2013



O assassinato político de Jang Song-Thaek, tio e mentor político de Kim Jong-un, Líder Máximo da Coreia do Norte, apesar de grotesco, não deixa de ser algo, digamos, “normal”, dada a característica stalinista deste regime político. Nada muito diferente do que a esquerda totalitária fez na extinta União Soviética, nos hoje amplamente conhecidos Processos de Moscou, que eliminaram a velha guarda bolchevique.

Em outro célebre episódio, Trotsky primeiro foi apagado de uma foto junto a Lênin em uma comemoração revolucionária para, depois, ser “apagado” com uma machadinha na cabeça, no México. Quem perpetrou tal assassinato foi um agente de Stálin, Ramón Mercader, que acabou placidamente os seus dias, em Cuba, com todos os privilégios da nomenclatura castrista.

Nada tampouco distinto do que Mao fez na China. Os camaradas, amigos de ontem, tornavam-se os inimigos de hoje, taxados de contrarrevolucionários a serviço do capitalismo.

No Brasil, ainda atualmente, há os que admiram Marighella e a guerrilha do Araguaia, que compartilhavam das mesmas concepções marxistas. Há, em todos esses casos, uma patológica perversão das ideias.

O assassinato político tornou-se uma forma “corriqueira” de a esquerda resolver os seus conflitos intestinos. Processos jurídicos de fachada, tortura, acusações infundadas e mortes eram características próprias da esquerda no Poder. Não há sequer uma experiência histórica de compatibilização entre socialismo/comunismo e democracia. Lá onde o socialismo vingou, a democracia jamais germinou. Cuba e Coreia do Norte são rebentos deste período.

Se tomarmos a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, teremos uma oportunidade rara de comparação entre socialismo e capitalismo. O capitalismo sul-coreano produziu uma sociedade próspera, com alto grau de desenvolvimento industrial, científico e tecnológico. Empresas e universidades lá se retroalimentam. Sua educação tornou-se referência mundial. A democracia é o seu regime político.

A Coreia do Norte, por sua vez, é um regime tirânico, liberticida, que reduz a sua população a uma vida miserável. A fome grassa e os servos deste país sucumbem à falta de alimentos. Nada funciona, a não ser o Exército dotado de armamento nuclear, usado como ameaça constante à Coreia do Sul. Os seus processos políticos são uma caricatura, tendo sido neste país instaurada uma monarquia comunista, com direito de hereditariedade!

O século XX também apresentou outra experiência altamente significativa. Só os tolos hesitam em extrair dela o seu ensinamento. Havia duas Alemanhas, a Ocidental, capitalista, e a Oriental, socialista.

A primeira se caracterizava pela pujança, pelo respeito às liberdades, por uma vida sindical forte, por um crescimento econômico notável e por condições sociais invejáveis. Sua indústria tornou-se um exemplo mundial. Veio a ser uma das maiores economias do Planeta.

A segunda tinha como característica central a dominação violenta de sua população, com uso do partido e de sua polícia política. As suas condições sociais eram precárias e a liberdade era sistematicamente pisoteada. Tais eram seus problemas que o socialismo sucumbiu às suas próprias contradições. Nem os prussianos resistiram ao socialismo. A queda do Muro de Berlim foi um símbolo da derrocada socialista/comunista. A ideia socialista esborrachou-se no chão.

A esquerda tupiniquim, porém, teima em nada aprender. Parafraseando Talleyrand, discorrendo sobre a aristocracia emigrada, que se obstinava em não reconhecer os eventos revolucionários: “Eles nada aprenderam e nada esqueceram.”

Para essa esquerda, o socialismo continua plenamente vigente, sendo superior ao capitalismo, compreendido como fonte de todos os males. Trata-se de uma visão religiosa: o capitalismo é o pecado, o mal sobre a Terra, a origem do egoísmo e do lucro, enquanto o socialismo seria a redenção da humanidade, a solidariedade enfim conquistada entre os homens.

O embuste consiste no seguinte. O capitalismo não é comparado ao socialismo. Se isto fosse feito, a comparação, por exemplo, deveria ser entre a Alemanha capitalista e a socialista, ou ainda, entre a Coreia capitalista e a socialista. Os termos da comparação teriam parâmetros que serviriam de critério para qualquer avaliação.

A “comparação” é de outro tipo. Compara-se o capitalismo real, existente, com a ideia do socialismo, forjada por aqueles que lhe atribuem todas as perfeições. Ou seja, atribui-se ao socialismo todas as perfeições e, de posse destes atributos, passa-se a verificar se eles “existem” no capitalismo.

Isto é equivalente a comparar uma sociedade perfeita a uma imperfeita, ou ainda, a comparar o homem a Deus. É claro que o homem, com suas imperfeições, sairá sempre perdendo quando comparado a Deus. O mesmo destino teria a comparação entre uma sociedade perfeita (ideal) e uma imperfeita (real).

Mais curiosa ainda é a afirmação de alguns segundo os quais haveria plena compatibilidade entre socialismo e democracia, quando isto não se verificou historicamente em nenhum lugar. O socialismo no Poder se caracterizou pela tirania totalitária. O “pensamento” esquerdista, se é que se pode utilizar essa palavra, é totalmente capturado pelo dogma, esse repouso dos que se recusam a pensar. É o mundo das ideias descontroladas, que não podem ser verificadas empiricamente. Ora, só onde o capitalismo prosperou é que a democracia representativa foi consolidada e os cidadãos puderam usufruir da liberdade.

Há uma mentalidade religiosa, teológico-política, que guia a esquerda tupiniquim. Vive de “preconceitos” contra a economia de mercado e o direito de propriedade, postulando, como se fosse uma coisa teoricamente séria, a “utopia” ou o “socialismo” enquanto ideias “superiores” ao capitalismo. Na ausência de conceitos, contenta-se com diatribes contra o “neoliberalismo” e outras patranhas do mesmo tipo, como se fazer política residisse somente em enganar o próximo, em abusar da inteligência alheia.

FORÇA CHAPE, de CYRO DE MATTOS


Tanta dor, tristeza. A vida ceifada com golpe imenso e impiedoso. O que dizer sobre o absurdo que destrói a inocência na traição da madrugada? É muito difícil escrever alguma coisa para diminuir a dor provocada com a tragédia aérea que envolveu os jogadores da Chapecoense, dirigentes, jornalistas e a tripulação, na última terça-feira de 29 de novembro. A queda do avião, nas proximidades do aeroporto de Medellín, deixou um trauma terrível no qual das 76 pessoas 71 morreram, 19 eram jogadores da Chapecoense; apenas 5 sobreviventes foram resgatados dos escombros.

Na segunda-feira à noite, depois de assistir ao Jornal Nacional, da TV Globo, dirigi-me ao computador para atualizar a correspondência e, a seguir, dar andamento à escrita de meus textos literários. Nesse hábito que a literatura me impõe há anos, costumo viajar com as palavras pelas pastagens silenciosas da noite. Dessa vez, ao terminar mais uma tarefa do fazer literário, pela madrugada de terça-feira, estava extenuado, sem sono. Liguei a televisão em busca de algum programa que amenizasse o cansaço, trazendo daí a pouco o sono.

Logo fiquei de frente a um impactante momento trazido pela notícia que me deixou perplexo. O repórter anunciava na televisão que o avião com a delegação da Chapecoense, sem combustível, havia caído em terras colombianas, a cinco minutos do aeroporto. Bateu no morro, descera se rasgando entre as árvores até ficar destroçado no fundo enlameado de grande cratera. Com o tempo chuvoso, a televisão mostrava os homens do salvamento em extremo esforço, buscando localizar os corpos. Havia na agonia deles a esperança de encontrar sobreviventes.
          
         A tragédia era por demais absurda, atingia aquele ponto insensato em que forças cegas na avidez da morte convergem para o horror e a estupefação do acontecimento. Haveria de ter uma saída naquele quadro desesperador para transformar o trauma em algo menos doloroso, pensei. Haveria mais sobreviventes. Era inacreditável, injusto, que o sonho de jogadores vitoriosos, heróis que estenderam para milhares de torcedores a alegria como forma de vida, fosse interrompido pela mão pesada do inconcebível. Meu Deus, não era possível, não era possível.

Na Arena Condá, no oeste de Santa Catarina, havia assistido pela televisão a proeza de um time de porte médio, de uma cidade de pouco mais de duzentos mil habitantes, eliminar da Copa Sul-Americana o poderoso time copeiro argentino do Independente, tantas vezes campeão mundial de clubes. Vi eliminar o São Lorenzo, outro time famoso argentino, campeão da Libertadores. Vi deixar para trás também a respeitável equipe do Junior Barranquilla, da Colômbia. No desastre aéreo, como num pesadelo, o futebol agora pendia na dor, somente na dor. Foi então que a esperança, de dentro dos pesares, dos rostos em lágrima, fez brotar sua luz verde com o facho da solidariedade. No estádio Atanásio Girardot onde seria realizada a partida final da Copa Sul-Americana, entre a Chapecoense e o Atlético Nacional, a esperança inventou o carinho para amenizar o sofrimento de milhares. O povo colombiano, de branco, com velas acesas, rezava, chorava. Aplaudia, dizendo, a uma só voz, que o campeão daquela temporada na América do Sul era o time brasileiro. “Força Chape!” Um grito solidário ecoava pelos campos de futebol do mundo, propagava-se com os ventos do amor pelas vastidões do eterno, molhando-nos, nessa hora da pureza, de humano entendimento.

      Imagino que, ante o sentimento de coragem e nobreza do povo colombiano, a morte naquele instante teve vergonha de ser a conhecida mulher indesejada de nossos caminhos, a soberba detentora dos nossos ossos.

  • Cyro de Mattos é escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa da UESC. Membro efetivo do Pen Clube do Brasil, das Academias de Letras da Bahia, Ilhéus e Itabuna. 

MILAGRE, de RUBEM ALVES


Não tenho problemas com Deus. mas tenho muitos problemas com aquilo que os homens pensam sobre Deus.

— Tudo bem? — assim saudei a moça que me atendeu na papelaria.
— Tudo bem, graças a Deus —, ela me respondeu sorridente. Aí eu, chato, querendo testar a sua argúcia teológica, fiz uma outra pergunta:
— E se você não estivesse bem seria graças a quem? 
Ela ficou atrapalhada. Essa possibilidade nunca lhe havia passado pela cabeça. Eu nunca ouvi ninguém dizer: “Vou mal, graças a Deus! Pois deveria, para ser coerente.

A brasileira que se salvou da catástrofe do World Trade Center teologou diante da televisão:
— Foi Deus que me salvou...
Aí fiquei pensando: Para Deus, não faz diferença salvar um ao salvar cem mil. Para Deus nada é difícil. Tudo é fácil. Salvar uma mulher ou salvar o mundo inteiro requer o mesmo esforço. Se aquela mulher está certa, se foi Deus quem a salvou, porque não salvou os outros?

Dostoiévski: “O que os homens desejam não é Deus, mas o milagre“. Os deuses são invocados, não por serem amados, mas por serem poderosos. Santo que demora a fazer milagre é abandonado... A afirmação de que 99% dos brasileiros acreditam em Deus pode assim ser traduzida: 99% dos brasileiros acreditam ser possível manipular Deus, a fim de realizar os seus desejos. Cada religião é um livro de receitas sobre “como manipular Deus“.

Do livro Quarto de badulaques.

REFLEXÕES EM TORNO DE UMA TRAGÉDIA de ALEXEI BUENO

Alexei Bueno (direita) no lançamento de seu livro de poesia Anamnese, com o editor deste blog 

TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O GLOBO DE 30/11/2016 E REPRODUZIDO AQUI COM AUTORIZAÇÃO DO AUTOR

As grandes tragédias, e ainda mais as coletivas e completamente inesperadas, como foi o caso da que se abateu sobre o Chapecoense - titulares e reservas, comissão técnica e auxiliares, na companhia natural de jornalistas e tripulantes – aguçam em todos nós a percepção amarga daquilo que muitos chamam o “escândalo da morte”, esse fenômeno natural que para o homem nada tem de natural, já que foi contra a natureza, por oposição a ela, rompendo a sua conformação perfeita ao momento e ao espaço, que como homens nos firmamos. A humanidade é contra natura em sua essência, e se alguém sintetizou num verso tudo o que venho dizendo, foi o poeta português Jorge de Sena, ao abrir o maior de seus poemas, “A morte, o espaço, a eternidade”, com este alexandrino do qual lamento não ser o autor: “De morte natural nunca ninguém morreu”.

Na tragédia desta madrugada, contribuíram ainda para essa sensação a necessária juventude dos atletas, a estranheza da cessação do fenômeno vital em indivíduos que, por sua própria atividade, se notabilizavam exatamente pela excelência de sua constituição física e pela agudeza de seus reflexos, tudo isso unido a uma característica específica de nossos tempos, a pletora visual na qual vivemos, quando, entre celulares e smartphones, todos filmam tudo, permitindo, portanto, acompanhar os mortos, em suas falas e gestos, até a sua escala na Bolívia, pouquíssimo antes do acidente.

Essa falsa proximidade com os mortos que nos traz a preservação do registro visual e sonoro perdeu muito de sua eficácia com a total banalização de tal possibilidade. Nossos olhos, saturados desde a primeira infância pela imagem em movimento, prejudicam gravemente nosso entendimento do que significou tal revelação para aqueles que estiveram presentes à primeira sessão de cinema, a 28 de dezembro de 1895, no Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris. Nos jornais que logo em seguida divulgaram tal evento histórico é que podemos avaliar o impacto do primeiro encontro do olhar humano com o movimento eternizado – ainda sem o som concomitante - especialmente nesta resenha que ficaria célebre:

É a própria vida, é o movimento vivo que se vê no cinematógrafo. A fotografia deixou de fixar a imobilidade. Ela agora perpetua a imagem do movimento. Quando esses aparelhos estiverem ao alcance do público, quando todos puderem fotografar aqueles que lhes são caros não mais numa forma imóvel, mas em pleno movimento, em plena ação e nos seus gestos familiares, a morte deixará de ser absoluta.”

E é assim, com um pouco desse falso consolo que para nós já não o é, que revemos os atletas desaparecidos na sua explosão de júbilo com a classificação para a final da Sul-Americana, dando entrevistas ainda em Guarulhos, brincando a bordo da aeronave, até a fatal decolagem em direção a Medellín, cidade que nada teve a ver com as causas do desastre desta madrugada, mas que já ficara tristemente célebre, há 81 anos, com o estúpido desastre que matou Carlos Gardel.

A condição humana é trágica, gostem disso ou não os otimistas, e, fora de alguma hipótese de transcendência, só resta ao ser humano duas posturas radicalmente opostas, ou o incompleto raciocínio, ou seja, a recusa em olhar até o fundo o abismo de nossa fragilidade e nossa finitude, ou o desespero, e entre as duas a primeira posição é maciçamente a preferida.

Em certa época, ainda recente, esteve em plena moda – não sei se ainda está - os pais filmarem o parto dos próprios filhos, ato fisiológico cuja eternização sempre me pareceu do mais absoluto mau gosto, motivo pelo qual eu jamais assistiria, caso existisse, a um registro da minha incontornavelmente nojenta entrada no mundo. Certa vez perguntei a um grande amigo, que acabara de fazer tal registro, se ele não percebia que estava filmando – monstruosidade das monstruosidades - o nascimento de um morto, pois aquele rebento inaugural, mais ou menos sujo de sangue e de placenta, já nascera condenado à morte, e nada impossibilitava que tal filme sobrevivesse à sua própria desaparição. Só recebi em resposta o silêncio.

Para os nossos heróis do Chapecoense, felizmente, sobrou o registro visual e sonoro de seu apogeu vital e de sua alegria, aquele que realmente pode dar a suas famílias, seus amigos e seus descendentes diretos – ao menos duas das vítimas deixaram esposas grávidas – a sensação da presença, da persistência da memória e de que a morte deixou de ser absoluta.

29-11-2016

Nota do editor. O editor deste blog acredita que, além das duas posturas arroladas por Alexei em relação à morte  negação e desespero  existe uma terceira: indiferença (estoicismo). Afinal, antes de nascermos, já fomos mortos, de modo que voltaremos a um estado que já conhecemos e que em nada nos fez sofrer. E já que falamos na indesejada das gentes convido o leitor a ler minhas postagens de poemas & textos mórbidos. Procure no menu da barra vertical direita.