O ANEL DO NIBELUNGO. PARTE I: O OURO DO RENO



O Anel do Nibelungo é um conjunto de quatro óperas do compositor alemão Richard Wagner – uma tetralogia, como se diz – que foi composto para ser encenado em quatro noites seguidas. Foi escrito entre 1848 e 1874 e estreou integralmente em 1876, embora algumas das óperas já tivessem estreado isoladamente antes. A estreia foi no teatro de Bayreuth, construído pelo próprio Wagner, que existe até hoje. Para conseguir ingresso para a encenação do ciclo você tem que ficar numa fila de espera por anos, ouvi dizer. Assim como Charles Chaplin dirigia, produzia, compunha a música, fazia o roteiro e era dono do estúdio de seus próprios filmes geniais, Wagner compunha a música, escrevia a letra (que em linguagem de ópera se chama libretto – aliás altamente poética num belíssimo e difícil alemão), produzia e dirigia a montagem e era dono do próprio teatro. Se Wagner era antissemita, e a apropriação de sua música pelos nazistas é algo que preciso aprofundar e por isso não abordarei aqui.

A ópera de Wagner rompe com a ópera tradicional organizada em árias, duetos, coros, etc., e onde a orquestra apenas acompanha o canto. Aqui você tem um todo que vai fluindo organicamente, e a orquestra tem a mesma importância das vozes. Aliás, Wagner não só expandiu a orquestra, mas deu uma nova ênfase à seção dos metais, chegando a encomendar instrumentos novos, saídos da sua cabeça, para preencher lacunas sonoras que ele percebeu.

O Anel do Nibelungo bebe das fontes das mitologias germânica e nórdica, valendo-se de elementos como o anel que concede poder, o elmo que proporciona a invisibilidade e a possibilidade de mudar de forma, o dragão, os gigantes, a morada dos deuses, a decadência dos deuses como uma metáfora da decadência humana, o amor proibido, incestuoso, os deuses da mitologia nórdica, tudo isto e ainda mais a gente vê no Anel. Ah, e tem a espada mágica cravada na pedra como na lenda do Rei Artur. A minha geração viu isto no desenho da Disney A Espada Era Lei, que mostra outro elemento da ópera de Wagner: Merlin e Madame Min num duelo em que vão mudando de forma, como no duelo entre Wotan e o Nibelungo pela posse do anel.

O Anel do Nibelungo tem algo a ver com O Senhor dos Anéis? Embora Tolkien, dentre suas muitas fontes, também utilize a mitologia nórdica e embora em O Ouro do Reino exista uma menção explícita ao “senhor do anel” (des Ringes Herrn), as duas histórias (pelo que vi no resumo da Wikipedia, pois não li o livro do Tolkien) são completamente diferentes.

Um conceito musical importante que Wagner desenvolveu no ciclo do anel é o do leitmotif, motivo condutor, que é um tema musical associado a um personagem, um local, um sentimento, um objeto... A ideia de leitmotif teve ampla aplicação no cinema, por exemplo, no Guerra nas Estrelas, temos o tema de Darth Vader, da Força, dos androides, dos asteroides, etc. No YouTube tem vídeos explicitando os leitmotivs, é só pesquisar "Wagner leitmotif" que você acha.

Aqui vou contar a história da primeira das quatro óperas, O Ouro do Reno. Depois farei vídeos/postagens das três óperas seguintes. Portanto, fiquem de olho. A ópera começa com uma música meio etérea, meio espacial, tanto é que existe um vídeo aqui no YouTube que toca esta música com uma filmagem da terra vista do espaço.

Vamos à história. Ela começa no fundo do Rio Reno, onde vivem as filhas do Reno, inocentes e formosas criaturas que guardam um tesouro, o ouro do Reno. Limitam-se a desfrutar a beleza do ouro, sem nenhuma ambição de explorar seu poder. Porque quem forjar um anel com esse ouro ganhará poderes ilimitados. Mas existe uma contrapartida: para ganhar esses poderes, é preciso renunciar ao amor, algo aparentemente impossível a qualquer ser vivo.

Num reino subterrâneo, Nibelheim, vivem os anões Nibelungos. Um deles, Alberich, desce ao leito do Reno e tenta conquistar as Filhas do Reno, mas tudo que recebe são negaças e deboche. As sedutoras criaturas fazem gato e sapato dele. Enfurecido, decide então algo que parecia impossível: renuncia ao amor, e foge levando o ouro roubado. Esta é a primeira cena da ópera.

A segunda cena transcorre no cume de uma montanha, onde vivem os deuses. O líder dos deuses, Wotan (que corresponde a Odin na mitologia nórdica), encomendou aos gigantes Fafner e Fasolt a construção de uma grandiosa morada, o Valhalla. Para tal, prometeu dar-lhes a mão de Freia, deusa do amor e guardiã das maçãs douradas da eterna juventude. Mas Fricka, deusa do matrimônio e esposa de Wotan, está indignada com a promessa que o marido fez aos gigantes. Só que que para desfazê-la Wotan tem que oferecer aos gigantes algo em troca, que seja extremamente valioso, senão eles não vão querer abrir mão de Freia. Os gigantes aparecem e cobram o pagamento por seu trabalho.

Freia, deusa do amor e guardiã das maçãs douradas da eterna juventude. 

Eis que entra em cena o astuto Loge, semideus do fogo, que rodou o mundo em busca de algo que apetecesse aos gigantes e traz a solução: darão aos gigantes o tesouro roubado por Alberich. Mas para isto terão de descer ao reino subterrâneo e surrupiá-lo do Nibelungo.

Na terceira cena, Loge e Wotan descem ao reino dos Nibelungos e constatam que Alberich não só forjou o anel que proporciona poderes absolutos, mas também obrigou o irmão ferreiro, Mime, a forjar um elmo mágico que lhe permite ficar invisível ou mudar de forma, transformando-se no que bem entender. Munido desses poderes Alberich escravizou o seu povo e o obriga a explorar uma mina de ouro e aumentar ainda mais o tesouro que roubou do fundo do Reno. Vai ser difícil para Wotan e Loge arrancar esses tesouros de Alberich mas eles usam um estratagema. Fingem-se de admirados e o induzem a exibir seus poderes, primeiro transformando-se numa enorme cobra, depois num pequenino sapo. Alberich cai na armadilha e, ao se transformar no sapo, é capturado por Wotan e levado para o alto da montanha.

Na quarta e última cena, os gigantes, que levaram Freia como refém, voltam para apanhar seu pagamento. Wotan pretende entregar apenas o ouro, ficando com o anel e o elmo para sim. Mas os gigantes exigem que empilhem o tesouro de tal maneira que esconda Freia, e para isto o ouro sozinho não basta. No final fica uma pequena fresta que deixa à mostra o olho de Freia, e para tapá-la Wotan terá que abrir mão do anel. Ele reluta, mas a deusa Erda, a mãe primordial detentora de toda sabedoria, o convence a entregar aquela preciosidade. Porque Alberich, enfurecido, lançou sobre o anel uma maldição, e quem o possuir será cumulado de desgraças. A maldição já começa a funcionar quando os gigantes brigam pela divisão do tesouro e Fafner mata o irmão Fasolt. No final da ópera os deuses se mudam para a sua nova morada, o Valhalla, numa cena memorável. Mas as filhas do Reno lamentam o ouro roubado e não devolvido.

os gigantes brigam pelo anel


Existe uma tradução em português do libreto do Anel em ebook na Amazon.

FERNANDO LEITE MENDES: UM MESTRE DA CRÔNICA



UM MESTRE DA CRÔNICA, de CYRO DE MATTOS

De origem grega, a palavra crônica vem de chronos, que quer dizer tempo. Forma textual de narrativa curta, possui uma inclinação para os fatos da vida diária, contemporâneos. Escrita para o jornal ou revista, televisão ou rádio, o estofo literário retira-lhe a condição estrita de jornalismo, cuja linguagem é objetiva para informar o fato. Conciso e útil, o jornalismo pretende aproximar do evento os seres humanos com a linguagem precisa, onde quer que estejam, para que tomem conhecimento do que acontece no mundo, enquanto a crônica ameniza a notícia ou o evento levado ao leitor sobre a vida diária.

Na crônica de humor, o autor faz graça com o cotidiano. Na crônica ensaio, o cronista tece crítica ao que acontece no sistema organizado, detectando falhas nas relações sociais e de poder. Na crônica filosófica logra extrair do cotidiano reflexões sábias a partir de um fato. Na jornalística enfoca aspectos particulares de notícias ou fatos, que podem acontecer na área esportiva, policial e política ou em outros campos da atuação humana.

Pode ser atemporal, se o assunto, extraído da realidade exterior sob bases sentimentais, revestir-se de arcabouço literário, servindo para ser lido tempos depois desgarrado do seu contexto e ainda assim causando emoção. Sempre dando tratamento agradável ao assunto em que está descrevendo, a crônica é de tal forma argumentativa ou digressiva nos devaneios dos sentimentos. Seu lirismo poetiza a vida, aviva o evento com graça, tornando-o ameno pelo eu que o recorda no relógio do peito.

A crônica atingiu o ápice na Idade Média quando passou a registrar uma série de acontecimentos e a obedecer uma sequência linear. Nessa época era destituída de qualquer interpretação nas informações de natureza histórica. Com a significação dos fatos em fase moderna entrou em uso no século XIX, passando a designar textos que, embora remotamente se ligam à forma originária, revestem-se de tratamento literário para tornar o assunto menos insípido e fugaz. Em nossas letras, Machado de Assis, no século XIX, com engenho e arte encontrou os meios necessários para lhe dar expressividade.

          A crônica no seu arcabouço de escrita híbrida, entre o jornal e o literário, não apresenta limites muito definidos. Sujeita ao efêmero que passa ante o eterno que fica, o espaço que melhor achou para morar e se expandir foi o jornal, lugar em que demonstra leveza na informação do fato e corresponde ao que os ingleses chamam de commentary, sketch, light essay, literary column, human interest story. Usa a oralidade na fala dos personagens e o coloquial na escrita, a linguagem é simples, alguns querem que seja como poesia espontânea em forma de prosa.

     A crítica não aceita a crônica como uma expressão literária significativa, se comparada ao romance, à poesia e ao conto. Nenhuma literatura se faz grande com livros de crônicas, alega-se. No Brasil, quando se fala em cronistas de primeira grandeza soam com aplausos os nomes de Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Heitor Cony, Henrique Pongeti, Stanislaw Ponte Preta, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues e Fernando Veríssimo.

     No elenco formado por esses cronistas de primeira qualidade poderia figurar o baiano (de Ilhéus) Fernando Leite Mendes?

        Como todo bom autor, ele escreveu um sem-número de crônicas para todos os gostos com fina sensibilidade. Dariam, se publicadas, vários volumes. Ficaram esparsas, esquecidas, perdidas no baú do tempo. O único livro desse cronista admirável, Os olhos azuis de D. Alina e algumas crônicas (1985), hoje uma raridade bibliográfica, foi publicado postumamente, graças à iniciativa do sobrinho Gumercindo Leite Mendes. O volume reúne cinquenta crônicas, algumas antológicas, como “Os gatos e “Elogio do urubu, a primeira de humor e a segunda com sabor de prosa poética; “João da Verdura” e “Adeus, Tamiroff”, crônicas, como de resto, além do cotidiano, de tão humanas, atingem o universal, em seus tons carregados de subjetividade comovente. Apresentam-se pontuadas de ternura na exposição do drama.

     Jornalista de talento excepcional, de Salvador seguiu Fernando Leite Mendes com sua vocação para o Rio onde, nos anos em que residiu na metrópole, nunca esqueceu as raízes baianas, sintonizadas em Ilhéus e Salvador. Em terras cariocas, no seu voo de homem inteligente, se impôs como editor, redator e cronista dos principais veículos da imprensa. Lúcido, esteve presente em algumas colunas importantes que assinou: “O homem da rua”, “ A poesia do asfalto”, “Sextas-feiras estórias”. Foi editor político do jornal “Última Hora”, redator da “Revista da Semana e do “Consórcio Time-Life”, exímio editorialista do “ Diário de Notícias” e do “Correio da Manhã”, redator-chefe do “Diário Carioca”. A notícia informada por ele estava em boas mãos.

Intensamente humano, autêntico lírico que gostava de expressar o lado encantador da vida, como mostra em várias passagens de “Os olhos azuis de D. Alina”; com a alma triste pelo que percebeu na figura de Jacinto de Gouveia, um tocador de piano no cabaré de Ilhéus, que fumava cachimbo inglês e usava cachecol, na cidade atlântica de clima tropical, vivendo pobremente, e que, na última vez que viu o cronista, pediu-lhe que trouxesse do Rio a partitura do poema sinfônico Finlândia, de Sibelius; irônico como pede o assunto em Um comedor de vidro”; alegre com os lances aguerridos da pelada, vista da janela, quando então se revoltou com o adulto que quis interrompê-la, depois aceitou o convite dos meninos e foi pegar no gol.

Com uma capacidade de falar de modo simples e, ao mesmo tempo, sedutor e culto, de gesto solidário e terno, o tempo não quis que esse amanuense da palavra vivesse mais anos aqui entre os humanos. Foi-se embora aos 48 anos. Tivesse mais tempo para esbanjar seu talento verbal, certamente teria posto numa festa demorada da vida mais riso, fraternidade, esperança e sonho, companhias necessárias, ontem como hoje. Haveria mais leitura desses momentos fotográficos que ele registrou no teclado da sua máquina portátil Remington, levada para ser usada onde estivesse, em Hong Kong ou Paris. Mais escuta sensível dos seres humanos haveria, graças a um senhor gordo, com alma de menino, um relógio de cordas suaves no peito, cujos ponteiros costumavam marcar como poesia os passos da existência. Mais divulgado, em seu brinquedo preferido, a crônica, ensejaria minutos de delícia às novas gerações.

CRÔNICA DE ARTUR DA TÁVOLA SOBRE FERNANDO LEITE MENDES
(fonte: https://wilsonleitemendes.blogspot.com/p/fernando-leite-mendes.html):



COPACABANA ACENDE VELAS
Crônica de Fernando Leite Mendes publicada no Correio da Manhã de 29 de setembro de 1964


As igrejas de Copacabana são poucas, porém sinceras. A titular, que é a de Nossa Senhora de Copacabana, propriamente dita, está sob ameaça de se transformar num imenso edifício-hotel, com campo de pouso de helicópteros no terraço. O heliporto em cima e uma capela substituta na base, como se, afinal, não fosse a fé a base de tudo e o heliporto milenar de todos os anjos.

Mas há uma que fica à porta do bairro, sentinela escandalizada diante da veemência dos motoristas todos que invadem o Túnel Novo, em busca da velha praia.

É a Igreja de Santa Terezinha do Menino Jesus, pureza de templo feio, de linhas duras e pouca arquitetura,[1] postada à entrada do universo da Zona Sul, urbi et orbi de muito menos pecado do que todo mundo supõe.

Pelo menos, Copacabana vai mais à missa do que se imagina. E guarda os dias santos. E em maio reza as novenas do Mês de Maria. É pura maldade pensar que as pessoas deixam a fé no subúrbio e a devoção na Zona Norte. Copa é terra de homens, mulheres e meninos que temem a Deus e sabem que religião também tem hora. Até porque ninguém é fanático.

Aquele noviço de Minas Gerais, que trouxe de Ouro Preto a saudade da glória dos tempos velhos, ficou triste no dia em que descobriu Copacabana. "Muito mais gente na praia do que na Igreja", pensou o servo do Senhor, em melancolia. Mas logo que foi estendendo os olhos de rapaz de claustro pelas águas, pelas areias e pelas gentes, tudo debaixo do sol daquele dia, acabou reconhecendo: "Mas essa também é uma festa de Nosso Senhor". A noite é que é de Nossa Senhora. E da humilde Terezinha de Jesus, pelo menos na sua igreja à porta do Túnel.

Pois ali, a fé achou a nave pequena e ganhou o passeio da rua. Então, a primeira vela se acendeu. e depois a segunda e a terceira. E hoje nem o vento apaga, soprando forte, a marca de luz daquelas velas.

A luz daquelas velas está acesa no coração de Copacabana, a ímpia. E a força da igrejinha feia, à entrada do Túnel, é tão grande, que, de bonde (antigamente), de carro, de ônibus ou a pé, todo mundo que passa ali se benze. Até os ateus. E fazem muito bem.




[1] Trata-se de um projeto art-déco, de linhas geométricas (foto abaixo).


JOAQUIM NOGUEIRA, MESTRE DA LITERATURA POLICIAL BRASILEIRA

TEXTO E FOTO DE IVO KORYTOWSKI


Recebi do escritor Joaquim Nogueira um exemplar do primeiro romance policial que ele escreveu, com o título sugestivo Algemas comuns, de aço, que andava esquecido em alguma gaveta do seu escritório, e que ele agora resolveu editar por conta própria com tiragem reduzida (50 exemplares) para distribuir aos amigos. Joaquim Nogueira é autor de dois grandes romances policiais publicados na consagrada SÉRIE POLICIAL da Companhia das Letras: Informações sobre a Vítima e Vida Pregressa. Assim como Conan Doyle criou o detetive Sherlock Holmes e o recém-falecido Luiz Alfredo Garcia-Roza (que foi meu professor nos idos de 1969) criou o detetive Espinosa, Joaquim dá à luz (porque em literatura homens dão à luz!) o policial Venício, o narrador da história, em primeira pessoa. Não é o policial britânico, sherlockiano, que se baseia no puro poder dedutivo, nem o policial norte-americano que conta com uma parafernália tecnológica, tampouco o charmoso policial francês fazendo balançar o coração das mulheres. É o policial brasileiro inserido na nua e crua realidade de um país que, por não ter terremotos, maremotos nem guerras, cria suas próprias crises e mazelas para a vida não ficar monótona.

Aliás o grande mérito do Joaquim Nogueira como escritor policial é, baseado (suponho) na sua experiência pregressa como delegado na megalópole paulistana, ter criado uma linha de romances policiais que reflete perfeitamente a nossa realidade. Neste aspecto podemos dizer que Joaquim Nogueira revoluciona, recria a literatura policial brasileira como, digamos, Nelson Rodrigues recriou o teatro moderno brasileiro e Sílvio Tendler recriou o documentário brasileiro.

Nas orelhas do livro o autor revela que “não encontrou facilidades na vida. Nada caiu de graça no seu colo.” Nascido no interior do Acre, em família humilde, cursou o ginásio na capital Rio Branco, depois morou em Manaus, Belém, Rio de Janeiro, até enfim vir parar – como eu também vim parar – aqui em São Paulo, onde foi delegado de polícia e, depois de aposentado, realizou o sonho de se tornar escritor policial.

Eu sempre digo que se Monteiro Lobato tivesse nascido nos Estados Unidos ou Inglaterra seu Sítio do Picapau Amarelo teria virado desenho da Disney, filme da Dreamwork, parque temático, o escambau, e seus impagáveis personagens, Pedrinho, Visconde, Emília, Narizinho, Dona Benta, seriam mundialmente tão conhecidos quanto Harry Potter, Peter Pan ou a Alice do País das Maravilhas. Pois agora digo que, se o Joaquim Nogueira tivesse nascido nos Estados Unidos, nação com longa tradição de literatura policial, seus romances policiais virariam best-sellers e chegariam às telas dos cinemas.

Como os grandes pontos fortes da obra do Joaquim eu destacaria: primeiro, como já disse, a sua fidelidade a uma realidade policial bem brasileira. Embora leitor inveterado da literatura policial universal, o Joaquim, longe de se deixar influenciar por ela, cria seu próprio estilo original embebido de nossa realidade. Em segundo lugar, temos um dialogismo impecável: as falas fluem com uma naturalidade de novela de televisão (porque as novelas brasileiras têm essa capacidade de criar diálogos que soam naturais, e não teatrais, no mau sentido da palavra “teatral”). Em terceiro lugar eu destacaria seu estilo escorreito, seu texto muito bem escrito. O Joaquim Nogueira é mestre na figura de linguagem conhecida como símile: suas comparações são de uma originalidade e imaginação dificilmente encontradas em algum outro escritor tupiniquim. Vejamos alguns exemplos:

Ela trabalhava ali como um coveiro, silenciosa e solitária.


Nos olhávamos de pé como dois estranhos de noite em um ponto de ônibus.

o antro estava mais cheio que uma casa lotérica em véspera de sena acumulada.

o arroz e feijão gelados como um morto.

lerdo como uma tartaruga cansada

Deprimente como um depósito de esquifes.

uma porta de carvalho larga e pesada como a porta de um mosteiro

o rosto liso como o rosto das imagens na igreja

minha boca estava seca como a boca de um forno

incrédula, como ficaria o motorista multado na 13 de Maio sem nunca ter passado por lá.

Tudo silencioso e morto como o átrio de uma igreja na terça-feira de carnaval.

seco como as areias do Sahara.

No livro, o policial Venício investiga a morte de uma mulher com quem teve breve caso amoroso, Éver Bartoli e, embora tendo por ponto de partida uma única e escassa pista, uma caneta tinteiro com as inicias S.S., ele vai farejando daqui, vai fuçando dali, vai perguntando acolá, dando uns eventuais socos, levando uma eventual porrada, recebendo proposta indecorosa (“Quanto você quer?”), interrogando sem mandado judicial (porque se for cumprir todas as burocracias a investigação não avança), e aos poucos vai desvendando um mundo sujo de jogatina, política, drogas, prostituição, tudo aquilo que a gente vê numa boa série americana... Em suma, o livro é uma boa história policial com a estrutura clássica do crime misterioso logo na abertura, sua investigação e enfim elucidação surpreendente.


O Algemas Comuns, de Aço não está à venda no comércio, mas quem sabe se você pedir pro autor ele faz a gentileza de te enviar um exemplar? Escreva para nogueirajoaquim@hotmail.com

MONTEIRO LOBATO: O TEMPO E AS INJUSTIÇAS, de HÉLIO BRASIL



O tempo nos rouba as energias. As injustiças nos torturam.

Em particular, já me senti afastado, ignorado, jamais injustiçado. Algum deslize, mesmo involuntário, por certo me fez sofrer a marginalização. Meu caso, porém, não está em pauta. Pretendo um papo com os visitantes e não um muro de lamentações pessoais.

O que me leva ao assunto é a tentativa (ou o esforço) – por algumas vozes - em desqualificar a obra do paulista José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948) com a acusação de racismo. Não tenho “bala na agulha” nem procuração para defesas acadêmicas ou jurídicas. Apresento-me apenas como apaixonado leitor da obra de Lobato, conjunto literário que destacaria em maiúsculas, sem distinguir a “obra infantil” e a destinada aos adultos. A paixão não é boa conselheira, pois nos leva a prejulgamentos ou julgamentos apressados, sendo talvez a fonte principal dos críticos do grande brasileiro.

De fato, integrante da burguesia da primeira metade do século XX, com o eco da escravidão ainda nos ouvidos e nos corações, Lobato (neto de um Barão do império) distinguia nos estamentos sociais a presença da “negra beiçuda” Tia Nastácia e de outras figuras até folclóricas como o “turco” e o “português dos armazéns”. E usava a dura terminologia da época. Hoje, fingimos que a cor da pele não existe. Praquê? Temos que fugir dos estereótipos discriminatórios. Assim, o mundo da forma – que receamos misturar-se ao conteúdo como nas artes do Homem – torna-se perigosamente ignorado. Não existirão mais os “baixinhos” e os “carecas”? As louras e as morenas? Os gordos e os magros?

Bem, o abominável universo da discriminação é perigoso, pantanoso e sempre trouxe acusações e queixas das partes que se sentiram afetadas. E, a meu ver, Lobato está muito acima disto. Não vou sequer relembrar que – na sua livre criação – preconizou em “O Presidente Negro” a ascensão de um negro nos Estados Unidos de épocas passadas. Não digo que foi uma antevisão da chegada de Obama, mas admita-se o toque visionário no trabalho...

Para quem leu os livros do paulista (e brasileiros alfabetizados, acima de 50 anos, certamente o fizeram) a mancha “racista” não existe. Para quem leu, por exemplo, dois de seus belos contos: “Negrinha” e “O jardineiro Timóteo” e para os que na infância e na adolescência leram as aventuras da turma do “Pica-pau Amarelo” vale lembrar um detalhe interessante que me aventuro a recordar e que seus críticos sepultaram.

Quase todos seus personagens, de Dona Benta a Rabicó (o leitão que desposou Emília) são desdobramentos de Lobato. Dois antagônicos e surpreendentemente complementares alter-egos do escritor e que encantam os jovens leitores e dão seus recados aos supostamente “adultos” são a espevitada Emília e o sábio e desajeitado Visconde de Sabugosa. Ela, uma boneca de pano, feita de retalhos e chumaços de paina. Ele criado a partir de um desprezado sabugo de milho, pernas feitas de gravetos. Ambos saíram das mãos da negra Nastácia, foram por ela plasmados, a “grande mãe negra brasileira”.
A Lobato, o preconceituoso, os aplausos por uma obra nacionalista e consagradora. Meu terno respeito e perene gratidão ao brasileiro José Bento Monteiro Lobato.

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MONTEIRO LOBATO FOI RACISTA?

TEXTO E FOTOS (TIRADAS EM TAUBATÉ) DE IVO KORYTOWSKI


Nos últimos anos, na onda do politicamente correto, surgiu o “mimimi” de que Monteiro Lobato teria sido racista. A gente tem que julgar um artista pelo contexto e espírito de sua época. Por exemplo, na peça O mercador de Veneza, Shakespeare cria um personagem, que é o protótipo da imagem do judeu usurário e desalmado vigente naquela época. Por isso vamos tachá-lo de antissemita? Charles Dickens, em Oliver Twist, cria um personagem judeu que explora crianças ensinando-as a roubar. Por que judeu? Por que não católico ou hinduísta? Mas não é por isso que a gente vai agora tachar o Dickens de antissemita e deixar de ler os livros dele. Mas nós, brasileiros, temos complexo de vira-lata. Agraciados com um escritor de literatura infanto-juvenil desta magnitude, em vez de o valorizarmos, procuramos defeitos nele.

Acusam Lobato de, em sua caracterização da Tia Nastácia, ter sido racista. Acusam-no também de ter sido partidário da eugenia, e acusam o seu único romance, O presidente negro, de racista. Mas esquecem que em seu conto magistral intitulado “Negrinha” Lobato faz uma denúncia pungente dos maus-tratos infligidos a uma menininha de raça negra. Um racista de verdade jamais teria escrito um tal conto. 


A Tia Nastácia realmente é caracterizada como uma negra beiçuda e, a certa altura de Reinações de Narizinho, Pedrinho revela que ela tinha vergonha de ser preta. “Tia Nastácia não sei se vem. Está com vergonha, coitada, por ser preta.” Mas a gente tem que entender o contexto da sociedade da época. A escravidão havia sido abolida havia ainda poucas décadas. Os negros libertados não receberam nenhum tipo de indenização, e tampouco receberam instrução. Quando escravos não frequentavam escolas, e depois de libertos o sistema educacional levou décadas até absorvê-los. Em meados do século XX metade da população brasileira ainda era analfabeta, e entre estes analfabetos havia uma forte proporção de negros. Na época em que Lobato escreveu suas obras, embora tivesse havido negros de destaque na sociedade, como os irmãos Rebouças, ainda eram exceções. Não existia uma classe média negra. E essa fantasia do negro querer ser branco não é tão estranha quanto se afigura. Macunaíma, o herói sem caráter, criação genial de Mário de Andrade, também nasceu preto mas encontrou uma fonte mágica que o transformou em branco. E nos próprios países africanos na atualidade não são incomuns os cosméticos de branqueamento da pele. O próprio Michael Jackson claramente foi um negro que embranqueceu. A Organização Mundial de Saúde adverte que os tratamentos para embranquecer a pele praticados na África podem causar graves doenças como a gente lê no artigo “Paying a high price for skin bleaching” publicado na Africa Renewal de abril-julho de 2019. 

Por todos esses motivos eu acho um exagero a gente querer tachar o Lobato de racista por ter criado a tia Nastácia da maneira como criou. A própria caracterização dela é ambígua. No livro Histórias de Tia Nastácia ela é a figura principal e, bem no início, observa Pedrinho que “Tia Nastácia é o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando, de um para outro, ela deve saber. Estou com o plano de espremer Tia Nastácia para tirar o leite do folclore que há nela.” E pouco depois Pedrinho diz: “As negras velhas são sempre muito sabidas.” Isso é ser racista? É bem verdade que a certa altura do livro (na história “O Macaco, a Onça e o Veado”), quando Nastácia observa que “A sina dos carneiros é a panela”, Emília reage com estas palavras: “Bem se vê que é preta e beiçuda.” Mas Emília é uma boneca insensível, desbocada, que não respeita ninguém. No início de Viagem ao Céu, quando Emília diz que “negra velha não tem direito de repousar”, Pedrinho chama sua atenção: “Malvada! Quem neste sítio tem mais direito de descansar do que ela, que é justamente quem trabalha mais? Então negra velha não é gente?. E o narrador, Lobato, usa com frequência a designação “a boa negra”. Com seus dotes culinários conquista não só os humanos, mas também São Jorge, o Minotauro e o anjinho da Viagem ao CéuQuando eu havia de pensar que até os santos e os anjos haviam de comer os meus bolos fritos? 

Como bem lembra o escritor Helio Brasil, em "O Tempo e as Injustiças" (que você pode ler aqui), a espevitada Emília como o sábio e desajeitado Visconde de Sabugosa “saíram das mãos da negra Nastácia, foram por ela plasmados, a ‘grande mãe negra brasileira’.” Isto é racismo?

Quanto ao fato de Monteiro Lobato ter sido partidário da eugenia quero lembrar que originalmente se tratou de um movimento que se acreditava científico, assim como o marxismo e a psicanálise também se acreditavam científicos (hoje sabemos que não são). Seu objetivo era a melhoria da raça humana em geral, no sentido de eliminar a transmissão de doenças sabidamente hereditárias, não no sentido de privilegiar uma raça ou etnia em detrimento de outra. É verdade que a ideia degenerou na ideia da raça pura do Hitler, mas não é incomum boas ideias degenerarem em ideias péssimas, por exemplo, a ideia do amor universal de Jesus Cristo degenerou na caça às bruxas, e a ideia da sociedade sem classes de Marx degenerou na barbárie stalinista. Muita gente boa foi partidária da eugenia, não só Monteiro Lobato, por exemplo Miguel Couto.

Quanto a O presidente negro, é uma obra futurista à maneira das obras de Wells que Lobato pretendia lançar nos Estados Unidos para ganhar muito dinheiro, plano esse que saiu pela culatra. Descreve uma sociedade estado-unidense no ano de 2228 dividida entre homens que querem reeleger um presidente e mulheres que pretendem eleger uma feminista. Aproveitando-se dessa divisão um candidato negro acaba se tornando presidente dos Estados Unidos. O eleitorado branco não aceita esse resultado e conspira para derrubar o presidente, como hoje conspiram a esquerda e os políticos corruptos para derrubarem o democraticamente eleito Bolsonaro. A conspiração toma a forma de um plano diabólico para esterilizar os negros. Na época os EUA ainda eram uma sociedade fortemente racista, com influência da Ku Klux Klan, de modo que, mais uma vez, Lobato está refletindo os preconceitos da sociedade da época, o que não significa que ele próprio seja preconceituoso.

Cresci lendo as obras de Monteiro Lobato e confesso que então nunca detectei sinais de racismo, embora agora adulto eu consiga perceber que ao menos a personagem Emília tem lá seus arroubos racistas. Lobato é um autor de uma imaginação estonteante, e acredito que se adotado no nosso ensino o nível cultural de nossa juventude daria um salto de qualidade. Lobato aborda a mitologia, o folclore, a literatura clássica, a geografia, a astronomia, a gramática, a aritmética, história do mundo, história das invenções, exploração do petróleo, o diabo a quatro. Creio também que se tivesse escrito numa língua universal, como o inglês e o francês, suas obras virariam desenhos animados de sucesso internacional e o Sítio do Picapau Amarelo tornar-se-ia parque temático. Claro que tudo isto são especulações que não podem ser cientificamente verificadas. Caso discorde do meu ponto de vista (não sou esquerdista, logo não sou dono da verdade) deixe seu comentário.

E, last but not least, para dar uma ideia da criatividade de Lobato, transcrevo um diálogo da Emília e Dona Aranha, costureira, em Reinações de Narizinho:


– Mas quem é que fabrica esta fazenda, Dona Aranha? [...]
– Este tecido é feito pela fada Miragem – respondeu a costureira.
– E com que a senhora o corta?
– Com a tesoura da imaginação.
– E com que agulha o cose?
– Com a agulha da fantasia.
– E com que linha?
– Com a linha do sonho.

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REVISITANDO A OBRA DE HERBERTO SALES, de CARLOS HEITOR CONY

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA FOLHA DE SÃO PAULO DE 28 DE OUTUBRO DE 2005


Publicado em 1944, quando Herberto Sales tinha 27 anos, "Cascalho" é o imenso romance que logo se colocou ao lado das grandes obras do nosso ciclo nordestino, iniciado com José Américo de Almeida e prolongado por Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado e Rachel de Queiroz.


Morando em Andaraí, na região da Chapada Diamantina, Herberto correspondia-se com Marques Rebelo, mas nunca comunicou-lhe que estava escrevendo um romance. Com mais de 650 páginas, enviou o livro a um concurso coordenado pela "Revista do Brasil", da qual Aurélio Buarque de Holanda era secretário. Na obsessão de catar regionalismos, Aurélio examinou o original e surpreendeu-se com a qualidade do texto. Sendo vizinho de Marques Rebelo, com ele comentou a obra que estava lendo. Ficou admirado ao saber que o autor de "Marafa" correspondia-se com o autor.

Herberto decidira encerrar a carreira literária que sequer começara. Juntara gravetos no quintal da casa de sua família, rasgara em quatro partes as 650 páginas da cópia que lhe restara. Queimara tudo. Aurélio sabia que o original enviado ao concurso seria jogado fora e decidiu ficar com ele, a fim de catar os vocábulos regionais que mais tarde enriqueceriam seu dicionário.

Quando Herberto escreveu a Rebelo, comunicando-lhe que queimara a cópia única do livro, foi surpreendido com a revelação de que o original continuava com Aurélio. Não foi difícil encontrar uma brecha no mercado editorial da época.

A consagração seria imediata. O ciclo do romance regional ganhava novo espaço em nossa geografia literária. O cenário não era mais a Várzea do Paraíba, os engenhos e as bagaceiras de José Lins do Rego e José Américo de Almeida. Tampouco era o litoral baiano, águas encantadas por sereias, o chão coberto pelos frutos cor de ouro do cacau, os territórios mágicos -mar e terra- que ganhariam o mundo na obra de Jorge Amado.

Nem era a seca que afugentava homens e animais pelas caatingas, o flagelo que daria a Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz o ponto de partida para suas carreiras. Em "Cascalho", a fortuna e a maldição estão no ventre da terra. A lenda dos diamantes, fartos e encontrados até nas moelas das galinhas, na prodigalidade dos aluviões ribeirinhos, atraíam homens e mulheres, velhos e crianças. Véspera da fortuna imprevista, a miséria permanente acampava no decadente burgo excluído da civilização, povoado de fantasmas sacrificados na dura moenda dos diamantes e carbonados. A releitura do primeiro livro de Herberto Sales dá a sensação de um anúncio de Guimarães Rosa com seu universo vocabular e sua técnica inovadora.

Em "Além dos Marimbus", o livro seguinte, o cenário é o mesmo, mesma a região já exaurida pelas bateias dos faiscadores. A causa da miséria não é mais o diamante. É a madeira que, nos anos 20 e 30, já atraía a cobiça que devastava florestas e matas. Inovando o gênero com a técnica e a linguagem de seu primeiro livro, Herberto surpreende o leitor de hoje com a visão pioneira da ecologia que, naquele tempo, não entrara ainda no vocabulário e na preocupação do homem contemporâneo.

Até então, a abordagem crítica via nele mais um regionalista, do porte dos grandes nomes da safra nordestina que emergira na década de 30. O livro seguinte, "Dados Biográficos do Finado Marcelino", é um romance urbano numa Bahia que iniciava seu período de metrópole nordestina.

Poderia ter sido este o primeiro romance de Herberto, pois trata dos anos de formação em que o jovem provinciano chega à cidade grande. Ele mergulha na sociedade do incipiente capitalismo nacional, criando uma galeria de tipos que, mais tarde, se tornariam comuns na novelística brasileira.

Surge, então, na vida e na carreira de Herberto Sales, a figura magra e saborosa de José Cândido de Carvalho. Na virada dos anos 40 e 50, deram dimensão nova à formidável geração nascida nos anos 30. Dataria deste período o aparecimento do contista. Um de seus livros, "O Lobisomem e Outros Contos Folclóricos", foi a homenagem de Herberto a seu companheiro José Cândido de Carvalho, que estourara no cenário nacional com o antológico "O Coronel e o Lobisomem".

A despeito de sua obra, vasta e consagrada, traduzida em inglês, japonês, francês, polonês, italiano, tcheco e chinês, tendo o seu romance de estréia adaptado para o cinema e para a história em quadrinhos, Herberto isolou-se da vida literária.

Retirou-se para São Pedro da Aldeia, no litoral fluminense, onde reencontraria nas mangueiras que plantou e nas flores que semeou uma espécie de retorno ao seu Andaraí natal. Escreveria ainda uma série de confissões e memórias a que daria o estranho nome de "Subsidiário". Temos aí o homem Herberto Sales diante de si mesmo, atravessando a escura noite da alma. Suas anotações revelam o desencanto do escritor penetrado pela inexorabilidade do fim.

Olhando em volta, da altura humana e intelectual a que atingira, lamentando seus mortos, evocando seus fantasmas, o memorialista adota uma visão amarga, mas de vigorosa dignidade perante o mundo que viu e a vida que viveu.

AS MAIORES ECONOMIAS DO MUNDO

A ECONOMIA MUNDIAL DE US$ 86 TRILHÕES NUM SÓ GRÁFICO
FONTE: FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL


A maior economia do mundo são os Estados Unidos com 23,89% do PIB mundial. Depois vem a China com 15,86% (mas muito mais gente) e Japão com 5,79%. O Brasil está em nono lugar, atrás da Alemanha, Reino Unido, França, Índia (!!!), Itália, mas na frente do Canadá, Rússia, Coreia, Austrália, Espanha. Nada mal. Estamos melhor do que nós mesmos, com nosso "complexo de vira-lata", imaginamos. Se o governo conseguir o milagre de fazer nossa economia (amarrada por mil e uma burocracias e por uma casta de "marajás" que não quer largar o osso) deslanchar, ninguém segura este país, como se dizia no tempo do governo dos milicos.

PEDRO NAVA E OS MEANDROS DA MEMÓRIA


O TEXTO ABAIXO É O MESMO DO VÍDEO ACIMA

Não sei até que ponto você está familiarizado com a vida e obra do escritor Pedro Nava. Não é dos escritores mais badalados, nem daqueles que “caem” no ENEM, mas é (uso o tempo presente porque os escritores se eternizam com suas obras) um escritor extraordinário que, na época em que publicou seus livros (anos 1970 e início dos anos 1980), fez grande sucesso de crítica e público, inclusive chegando às listas de best-sellers, devido à originalidade de sua obra, diferente de tudo que já se escrevera antes no Brasil



Naquela época, embora eu fosse leitor contumaz, o Nava passou despercebido para mim. Só travei conhecimento com ele ao ler no jornal a notícia de seu suicídio, por motivos então misteriosos, com um tiro na cabeça, em maio de 1984, próximo a uma das árvores da calçada da Rua da Glória, onde morava. As informações no obituário sobre sua obra despertaram minha curiosidade, e a partir de então me tornei leitor de seus livros de memórias. Originalmente publicados pela José Olympio, com capas bem coloridas usando colagens do autor, depois seus direitos passaram para a Nova Fronteira, com capas mais clean mostrando o famoso relógio da Glória. O problema era que a Nova Fronteira “esqueceu” de publicar o volume 3, Chão de Ferro, e com isso a edição original pela José Olympio tornou-se rara, eu não achava nos sebos de jeito nenhum. Na época não tinha a Estante Virtual onde você acha tudo. Acabei tendo que implorar numa biblioteca que me xerocassem a obra. Pois é, leitor inveterado como eu faz qualquer sacrifício para ler seus autores favoritos. Hoje os direitos de publicação da obra de Nava, depois de passarem pela Ateliê Editorial, estão com a Companhia das Letras.




Outra coisa: com a morte de Nava, brotaram rumores de que ele estaria sofrendo chantagem de um garoto de programa. No final do vídeo falarei sobre isso.

A obra de Nava é monumental em vários aspectos. Primeiro, no escopo temporal, no intervalo de tempo abrangido. Começa contando a história de seus antepassados, o mais antigo, o tataravô por parte do pai, oriundo da Itália, que “teria aportado no Brasil no fim do séc. XVIII ou princípios do XIX. A crônica da família de Nava, tanto por parte do pai como da mãe, desenrola-se século XIX adentro, até o nascimento do escritor em 1903. Os anos da infância, adolescência e início da vida adulta, na Faculdade de Medicina , são contados em primeira pessoa, como é normal em livros de memórias. Mas no primeiro capítulo do Volume V, Galo das trevas, Nava dá um salto temporal e traz a narrativa para o tempo presente, em que ele, com 75 anos de idade (1978), à semelhança de Xavier De Maistre em sua “Viagem à Volta do Meu Quarto”, resolve fazer uma volta pelo seu apartamento, com todas as reminiscências associadas aos seus objetos. Depois desse “jorro de emoções”, Nava retorna ao passado, à época em que iniciou sua carreira médica, mas agora projetando-se em um primo fictício, o Egon, cuja vida (que no fundo é a vida do próprio Nava) conta em terceira pessoa.

A obra de Nava também é monumental na riqueza temática, vocabular & estilística. Em seus livros de memórias Nava tem por característica mesclar fatos pessoais, perfis de terceiros, descrições de locais, acontecimentos históricos, narrações de episódios, reflexões, desabafos etc. numa espécie de fluxo de memória proustiano e num estilo que pode ir do factual à prosa poética. Não é uma leitura fácil como um Paulo Coelho, o que não significa que seja homogeneamente difícil, difícil do primeiro ao último parágrafo, como é, por exemplo, um Grande Sertão e Veredas do Guimarães Rosa que já começa “ilegível”. Não, a obra de Nava tem altos e baixos em termos de dificuldade. Tem desde divagações de uma poeticidade exacerbada (tipo: “O caminho por Bernardo Monteiro era repousante como banho de imersão nas sombras verdes aquários de seus fícus gigantescos. Tal impressão líquida é tão grande que se estranhava quando ave esvoaçava entre galhos raios de sol – entre molezas de algas. Não vê? se esperava é peixes deslizando...” Galo, 346) até causos e anedotas e historinhas que a gente lê com extremo prazer e deleite.

São interessantíssimas também as descrições do Nava da passagem do cometa Halley quando criança, os estragos provocados pela gripe espanhola em 1918, o bombardeio de São Paulo na Revolução Constitucionalista. E com suas descrições da vida escolar, cheias de detalhes sobre os colegas, as matérias, os professores, as provas, a cola, a indisciplina, os castigos, Nava nos proporciona um inventário precioso do sistema educacional brasileiro na segunda década do século XX, comparável apenas, guardadas as devidas proporções, ao clássico O Ateneu de Raul Pompéia.

Outro aspecto em que a obra de Nava é monumental é no tamanho. São seis volumes completos e um sétimo volume que, com sua morte, ficou inacabado, perfazendo 2651 páginas, mais do que Os Miseráveis, que é um romance de peso. É monumental ainda pela erudição: no decorrer da obra ostenta conhecimentos de artes plásticas, literatura, arquitetura, medicina, história, francês etc. Além disso tudo, Nava é conhecedor profundo do Rio de Janeiro e, à maneira de um João do Rio, em alguns trechos de sua obra, conduz o leitor pela alma encantadora de suas ruas. Diz ele: “Flanar nas ruas do Rio é prazer refinado. Exige amor e conhecimento. Não apenas o conhecimento local e o das conexões urbanas. É preciso um gênero de erudição.” (Galo)


Para quem nunca leu o Pedro Nava eu recomendaria começar pelo volume II, Balão Cativo, que narra a infância e adolescência do autor no Rio e Minas Gerais, depois passar para o III, Chão de Ferro, época em que ele cursou o internato do Pedro II no Rio e passava as férias em Minas, e só depois, tendo se tornado fã do Nava (espero), retroceder para o volume I, a história dos antepassados, e avançar para os volumes seguintes.

A relação entre o Nava e o escritor francês Proust é muito bem explicitada em crônica do Antônio Carlos Villaça cujo link está na descrição deste vídeo. Villaça conta que em Belo Horizonte em 1925 Nava foi um dos primeiros, de sua patota de estudantes e intelectuais, a lerem a obra de Proust, pouco depois da morte do romancista em 1922. Diz Villaça na crônica: “O seu memorialismo é ostensivamente proustiano. Proustiano pelo estilo, pelo ritmo interior, pela identificação total entre ele e o autor de A procura do tempo perdido. Proust marcou Pedro Nava para sempre.” O que não significa que quem goste de Proust vá necessariamente gostar do Nava, e vice-versa. Eu por exemplo adoro Nava mas, aos 68 anos, ainda não amadureci para conseguir apreciar a prosa divagante do Proust. 

Existem escritores que florescem na juventude (alguns para viverem vidas breves, como os poetas românticos brasileiros, Castro Alves, Álvares de Azevedo, etc.), enquanto outros escritores só despontam, ficam famosos, na maturidade – caso do lusitano Saramago e do nosso Pedro Nava, que começou a escrever seu primeiro livro de memórias em 1968, com 64 anos. Mas quando estudante de medicina em Belo Horizonte na década de 1920, Nava conviveu com a turma dos intelectuais modernistas (foi amigo de Drummond, por exemplo) e colaborou com revistas literárias, onde publicou poemas de elevada qualidade, a ponto de terem sido incluídos na antologia de poetas brasileiros bissextos organizada por Manuel Bandeira. Nava poderia perfeitamente ter seguido uma carreira nas letras ou artes plásticas, mas acabou se dedicando, durante quarenta anos, à profissão médica, tornando-se um destacado reumatologista. Mesmo assim, não parou totalmente de escrever, publicando artigos médicos e até um livro sobre a história da medicina no Brasil. E quando se aposentou e todos acharam que iria fazer o que fazem muitos aposentados – jogar dominó na pracinha, essas coisas  – surpreendeu a todos dando à luz, volume após volume, suas extraordinárias memórias. Segundo Josué Montello, Pedro Nava “era um grande romancista, talvez o maior de sua geração, mas disso só se deu conta, já perto dos 70 anos, quando se lembrou de escrever suas Memórias.” (JB, 22/5/84, p. 11) Segundo Drummond, “Não há notícia de outro escritor que haja esperado 50 anos de vida consciente para se lançar, nem tampouco de alguém que conquistasse logo a unanimidade das admirações.” (JB, 15/8/84)


Outro mistério de Nava é sua memória prodigiosa. Aos setenta anos descreve em mínimos detalhes, aposentos, parentes, professores, amigos, logradouros, um matadouro, que ele viu cinquenta, sessenta anos antes, como se tivesse visto no dia anterior. Pelos objetos que foi acumulando ao longo da vida – cartas, manuscritos, desenhos, lembranças escolares, papéis variados, retratos, vestuários etc. – que hoje fazem parte do acervo do Arquivo-Museu da Literatura Brasileira da Casa de Rui Barbosa (seu arquivo contém 6.110 documentos), tem-se a impressão de que Nava se preparou a vida inteira para um dia escrever suas memórias. Além desses objetos evocadores das lembranças, Nava, exímio desenhista, fez croquis, plantas, desenhos, caricaturas etc. que serviram de suporte visual ao seu trabalho literário.

Finalmente a questão do suicídio. O colunista José Carlos Oliveira assim descreveu a morte do escritor em crônica no JB de 25 de maio de 1984: “Aos oitenta anos, numa noite de sábado igual às outras, encostado numa árvore, Pedro Nava escreveu com silêncio e solidão, dentro do estampido de um tiro de revólver, o ponto final de sua trajetória aqui neste mundo das realidades concretas.” Correu a fofoca de que ele estaria sofrendo chantagem de um “garoto de programa”, mas os jornalistas aos quais chegou essa informação resolveram abafá-la, em respeito ao grande escritor e talvez para poupar a viúva desse constrangimento. Somente anos depois, em seu livro Minhas histórias dos outros, Zuenir Ventura reabre esse dossiê e revela o pacto de silêncio da imprensa em 1984 envolvendo a morte de Nava. Apesar desse episódio lamentável, em nenhum ponto de suas memórias Nava deixa transparecer qualquer inclinação homossexual. Ao contrário, suas paixões, algumas delas não correspondidas, sempre são por mulheres. No Galo das Trevas lemos sobre Egon (que é o Nava): “Ele que era um tarimbado na vida grossa dos estudantes de Belo Horizonte, que desde moço fora audacioso e chegador em matéria amorosa...”. Entre as várias paixões está a “amada bela Amabel”, filha de um senador, a quem Egon sequer tem coragem de se declarar. E Nava não tem o menor pudor em descrever suas idas, com os amigos, primeiro bem novinho à zona do meretrício no Rio de Janeiro e mais tarde, como estudante e médico recém-formado, aos puteiros do Desterro (que na verdade é Juiz de Fora) e Belo Horizonte. Em Galo das Trevas dedica páginas e páginas descrevendo bordéis nos mínimos detalhes, seus frequentadores, as putas, taras de que até Deus duvida... um homossexual não entraria nesses detalhes sobre a putaria. No máximo Nava foi bissexual, algo que muita gente é mas ninguém fica sabendo, porque o bissexual normalmente, podendo optar entre as duas vias, escolhe aquela socialmente mais aceita, e só eventualmente, num surto de luxúria, é que vai experimentar o outro lado, geralmente com um travesti.