O PERFUME QUE ROUBAM DE TI, de HELIO BRASIL



TEXTO DA ORELHA DE IVO KORYTOWSKI:

Helio Brasil faz parte, junto com Saramago e Pedro Nava, do seleto grupo de escritores de maturidade, cuja carreira literária começou tardiamente, o que não impediu que os três atingissem altos píncaros de qualidade literária. Mesclando a mais fina ironia machadiana e pitadas de lirismo com o mais cru naturalismo, Helio nos brinda nesta obra com 26 joias de um gênero literário que, por exigir concisão e economia de recursos, poucos autores dominam à perfeição: o conto.

Na história de abertura, que dá título ao livro e evoca a inspirada canção de Cartola, em meio à alternância de perfumes franceses e outros baratos, ordinaríssimos, insinua-se que “o destino costura mal suas tramas ou, simplesmente, Deus é um mau dramaturgo”.

Nos contos subsequentes, desfilam ante a imaginação do leitor, entre outros: os mistérios do sertão “onde tem erva pra tudo: mata bicho, mata homem, faz levantar defunto”; o asilo onde “quem brigava de manhã, à noite estava no mármore do necrotério”; a viúva “esquecida por Deus” moradora em casa de cômodos no Catumbi; a comprovação do ditado popular “infeliz no jogo, feliz no amor”; São Sebastião intercedendo por sua muy leal e heroica cidade; etc. (são 26 histórias para o deleite do leitor)

Desde O perfume, best-seller do alemão Patrick Süskind, não se escrevia uma obra literária tão... perfumosa! Além do “perfume que roubam de ti”, perpassam pelas narinas do leitor “o perfume forte dos abacaxis, das laranjas e o odor sensual dos pêssegos”, “o perfume de jasmim”, “o perfume de tia Celeste” e “a suave e perfumada mão de Dorothy”. Portanto, narizes a postos, leitores!

ELOGIOS À OBRA DE HELIO BRASIL:
O seu saboroso estilo é indisfarçavelmente inspirado no texto machadiano, ainda que adaptado aos nossos dias. [...] um dos lançamentos mais auspiciosos da Literatura Brasileira neste começo de século XXI.

Adelto Gonçalves, mestre em Língua e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa, a respeito de Ladeira do Tempo-Foi

A riqueza dos personagens, da ambiência e da sensação soberana do tempo, acima de todo o resto, é que dão origem ao que há de encantatório e profundamente humano na obra de Helio Brasil.

Alexei Bueno, poeta, editor e ensaísta

Notável memorialismo. Inclusive porque alguém (no caso, escritores competentes) precisa "documentar" literariamente nossos bairros e os ontem que não voltam mais. [...] E seu talento, Helio, permitiu esse livro, registro (digamos) belo e forte e lírico de gentes e ambiências desde São Cristóvão que você já retratara sem os recursos de humanização que só a Literatura permite. [...]
No gênero, o que há de mais importante em nossa literatura contemporânea.  Parabéns, amigo Helio Brasil.

Ivan. C. Proença, crítico literário, ensaísta, professor, mestre e doutor em literatura

"Seu estilo é elegante, as histórias interessantes e originais, e, embora Hélio seja um escritor clássico, às vezes lembrando Guy de Maupassant, há um toque moderno nas suas narrativas, que não explicam demais, deixando fatos importantes um tanto velados."

Miriam Mambrini, escritora

TRAUMAS DO FUTEBOL BRASILEIRO, de CYRO DE MATTOS



O futebol brasileiro gosta de escrever sua história no extremo. Várias vezes desceu uma ladeira horrível , fomos parar no fundo do poço. A primeira catástrofe do futebol brasileiro aconteceu na Copa do Mundo de 1950, no Maracanã. Já vão longe aqueles idos. O Brasil jogava pelo empate. Um gol fazia balançar o estádio com duzentas mil pessoas. Foi de Friaça no início do segundo tempo, lenços acenavam para os valentes atletas uruguaios. Veio o gol de empate dos uruguaios, Schiafino o autor da proeza. Um calafrio penetrava ossos e nervos do Maracanã com a lotação máxima. O inexorável iria acontecer aos trinta e quatro minutos. O ponteiro Gighia chutava a bola e a grama. Ninguém acreditava no que se estava vendo, a bola entrando entre a trave e o goleiro Barbosa. Lenços já não acenavam. Aquela coisa que só infundia medo, estupidamente sem tamanho, percorria todo o estádio. Ninguém podia reverter o capricho dos deuses. Contava o locutor que, encerrado o jogo, a procissão de mortos saía do Maracanã, e o país, que pensava e amava pelos pés, principalmente naquele dia, em caos desencantava-se.

Outras derrotas amargas em campeonatos mundiais iriam acontecer e com elas ferimentos que teimam em não cicatrizar. Anotem a eliminação do Brasil pela primeira vez na fase de grupos, Copa da Inglaterra. Perdera para Portugal por três a zero e para a Hungria por três a um. Só conseguiu vencer a desconhecida Bulgária por dois a zero. Voltamos cabisbaixos para casa. Na Copa de 1982, na Espanha, a lendária seleção, que jamais sucumbiu à derrota contra a Itália, provou que o futebol não é apenas jogar bonito e ofensivo, mas resultado. O Brasil, de Telê, Zico, Sócrates, Junior e Falcão, era a vítima na Tragédia de Sarriá. Eliminado pela seleção italiana, a aguerrida azurra, de Zoff e Paolo Rossi, por três a dois. Em 24 de junho de 1990, outra derrota traumática. Com uma seleção superior, com duas bolas na trave do adversário e um massacre desferido no tempo regulamentar, o Brasil foi eliminado pela Argentina por um a zero. O lance do gol: aos 35 minutos do final, Maradona passou por três brasileiros e serviu Claudio Caniggia, que ficou cara a cara com Taffarel. O atacante teve calma para driblar o goleiro brasileiro e tocar a bola para o fundo das redes. Na Copa de 86, Zico e Sócrates perderam pênaltis, e o Brasil foi eliminado pela França de Platini.

Depois que ganhamos da França por cinco a dois na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, só fizemos perder em mundiais. O dia 12 de julho de 1998 deixou uma triste lembrança para o torcedor brasileiro na disputa da Copa do Mundo, na França. O time brasileiro enfrentou um duro jogo contra a Holanda, nas semifinais. Após o empate por 1 a 1, o jogo foi para as penalidades, vencidas pelo Brasil por 4 a 2. Na final, o Brasil entrou em campo para sagrar-se hexacampeão mundial. Com um futebol apático, sonolento, foi derrotado pelos franceses por 3 a 0, com gols de Zidane (2) e Petit. Antes do jogo, Ronaldo, principal estrela do time brasileiro, sofreu uma convulsão em um episódio que abalou todo o time e que gera polêmica até os dias de hoje.
           
         Pensávamos que o volume da tragédia, com o Brasil derrotado numa final de Copa do Mundo, em sua casa, fosse ser expulso do estádio na Copa de 2014, a ser realizada pela segunda vez nessa “pátria em chuteiras”, como dizia Nelson Rodrigues.
           
          O pior dos traumas estava para acontecer. Sem Neymar, o craque do time, fora retirado de campo contundido, pela falta abominável cometida pelo defensor da Colômbia, na partida anterior, os ares da tragédia começavam a ser anunciados pelos ventos do azar. Ele estava fora da final contra a Alemanha. Apesar dessa baixa enorme, havia alguma confiança de que a batalha final seria vencida pela Seleção do Brasil. Meu Deus, o que foi que aconteceu naquele dia vergonhoso? Perdemos em casa outra Copa do Mundo, dessa vez pelo humilhante placar de sete a um. Em poucos minutos já perdíamos por três a zero, sofremos três gols de repente, um atrás do outro.

Perguntaram a Gerson, o meia-esquerda genial da Seleção de 70, no México, para muitos a melhor de todas em mundiais, como se explicava outra catástrofe do futebol em nossa casa. Não se explica o que é inexplicável, respondeu. Sabem quando vai acontecer outra derrota vergonhosa dessas? A seguir completou, nunca.

Como disse no início que o futebol brasileiro gosta de escrever sua história no extremo, penso que vamos ser hexacampeões de futebol na Copa do Mundo de Moscou.

Até mais verde que te quero verde.

* Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, Associação Paulista de Críticos de Arte com “O Menino Camelô”, infantil, e o Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil com o romance “Os Ventos Gemedores”.

A verdade sobre GRANDE SERTÃO: VEREDAS, de GUIMARÃES ROSA


Grande Sertão: Veredas é uma “vaca sagrada” da literatura brasileira. Não gostar dessa obra do Rosa é o suprassumo do “culturalmente incorreto”. O máximo que você pode dizer é que não está à altura do livro, não está preparado ainda para ler o livro. O defeito não é do livro, é teu.

O livro tem qualidades enormes que não vou declinar aqui porque já o foram sobejamente. Mas tem defeitos também. Quer saber a verdade sobre Grande Sertão: Veredas? Então me acompanhe.

1) Vê-se  de tudo em Grande Sertão: Veredas, uma Ilíada brasileira, um pacto faustiano sertanejo, uma regressão à língua primordial pré-Babel, menos o que a obra realmente é: uma grande “guerra de quadrilhas” ou, mais exatamente, guerra entre bandos de jagunços que percorrem os sertões das “Gerais” meio que sem destino com sede de luta e vingança. “O senhor sabe o mais que é, de se navegar sertão num rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso diferente, sem juízo de raiz?” (pág. 275 da 37. edição, da foto abaixo) “Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde o homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada.” (pág. 92) Em meio a toda essa violência desenfreada tropas do governo também metem a colher. Só que guerra de quadrilha urbana tem um objetivo: conquistar território para vender drogas para ganhar dinheiro. E essa guerra sem fim dos jagunços aparentemente não tem objetivo concreto, ou se tem Rosa não deixa claro qual seja: é a guerra pela guerra, as eternas vendetas.


2) Os personagens que travam essa guerra, por mais pitorescos que se afigurem na criação artística de Rosa, são maus: matam com prazer, estupram, invadem cidades e saqueiam o comércio, numa das cenas mais revoltantes massacram cavalos só de maldade, tem cena de antropofagia (“o corpudo não era bugio não, não achavam o rabo. Era homem humano” - pág. 43), é gente com culpa no cartório. “Jagunço – criatura paga para crimes, impondo o sofrer no quieto arruado dos outros, matando e roupilhando” (pág. 191)

São todos maus, menos o protagonista/narrador. “Eu Riobaldo, jagunço, homem de matar e morrer com a minha valentia.” (pág. 174) Esse é o protótipo de um arquétipo da literatura: o bom bandido. O bandido filósofo, porque está preocupado com a questão da existência de Deus e do diabo (como se a existência de Deus e do diabo fosse a suprema questão filosófica). O bandido poeta (o discurso de Riobaldo tem, sim, poeticidade). O jagunço que entrou na jagunçagem não por ser ruim, mas pela força de um destino de tragédia grega (ἀνάγκη) que o empurrou para a “vida de jagunço”. “Por que será que eu precisava de ir por adiante, com Diadorim e os companheiros, atrás de sorte e morte, nestes Gerais meus? Destino preso.” (pág. 171) O problema é que não existe “bandido bom” na vida real. Só na literatura e numa ciência social descolada da realidade. (Como posso ser tão tacanho a ponto de equiparar Riobaldo a um bandido? Dirão)

3) Uma das virtudes apontadas em Grande Sertão: Veredas, aliás, a virtude cardeal, que impressionou o meio intelectual da época do lançamento (segunda metade da década de 1950) e continua impressionando até hoje, é a inovação, a criatividade linguística. Segundo Alexei Bueno, “uma espécie de expressionismo linguístico onde violentas deformações da base já muito requintada que é a expressão oral do sertanejo brasileiro conseguiram atingir sínteses artísticas e emocionais espantosas”. Não que a linguagem do sertanejo (ou de outros estratos da população menos letrada) nunca tivesse sido reproduzida tal e qual. Já havia sido, em diálogos. 

Mas aqui não se trata só de diálogos entre personagens. Um narrador conta a história, da primeira (“Nonada”) à última (“Travessia”) frase, em uma linguagem supostamente de um sertanejo, livre das amarras da “norma culta”. Que não é uma linguagem de um sertanejo comum, qualquer. É a linguagem de um sertanejo idealizado, esclarecido, de pendores poéticos, inclinação filosófica, que discorre “sabiamente” sobre o bem e o mal, Deus e o diabo na terra do sol, em suma, um sertanejo criado pela imaginação fertilíssima, pela genialidade do Rosa. No fundo é a linguagem do Rosa se ele, homem urbano, diplomata, cultíssimo, fosse viver no meio sertanejo! Rosa é louvado por ter revolucionado a língua. Revolucionou mesmo? A língua falada pelos brasileiros mudou em decorrência da obra do Rosa? Por outro lado, se alguém escrever um livro inteiro em miguxês/internetês, que é o calão dos internautas, ou em gíria de traficante de morro carioca, tá ligado?, será louvado por ter revolucionado a língua? E uma língua com séculos de tradição literária carece de ser revolucionada? Não basta que evolua naturalmente?

4) A linguagem de Riobaldo, narrador de Grande Sertão: Veredas, soa estranha para quem abre o livro pela primeira vez, mas se você se esforçar e ultrapassar certo número de páginas, acaba se acostumando: é o que dizem. Como se acostuma com a sintaxe & pontuação esdrúxula do Saramago. Pois vou confessar uma coisa. No momento em que escrevo estas linhas já ultrapassei a página 300 e ainda não me acostumei com a linguagem. Digo mais: já enjoei dessa linguagem, tipo enjoo que se tem em navio depois de vários dias em alto-mar. É assaz frustrante ler uma obra em que, vira e mexe, você depara com construções léxicas que parecem não fazer sentido e onde as palavras que você porventura não entende (porque você não tem na cabeça todas as centenas de milhares de palavras da língua portuguesa) não constam necessariamente do dicionário. Querem exemplos?

Agora, advai que aquietavam, no estatuto. Nanja, o senhor, nessa sossegação, que se fie! O que fosse, eles podiam referver em imediatidade, o banguelê, num zunir: que vespassem. (pág. 227)

Assim que, inimigo, persistia só inimigo, surunganga; mas enxuto e comparado, contra-homem sem o desleixo de si. (pág. 317)

“É, eu vou com o senhor, e esse urucuiano Salústio vem comigo, mas é na hora da situação... Aí, na hora horinha, estou junto perto, para ver. A para ver como é, que será vai ser... O que será vai ser ou vai não ser...” (pág. 306)

Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual – e é o que é. Isso já aprendi. (pág. 301)

Vou ainda mais longe: há momentos em que o narrador parece estar delirando. Senão vejamos.

Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. (pág. 272)

5) E a fidedignidade histórica? Essas guerras de jagunços sem nenhum motivo aparente ocorreram realmente em Minas/Goiás? Sei que houve cangaço no Nordeste, sei que latifundiários praticaram (ou até ainda praticam) grilagem de terras e até lançaram ou lançam mão de jagunços para se apropriar de terrenos alheios, mas guerras entre bandos de jagunços tipo guerras feudais medievais sem qualquer objetivo ocorreram em Minas Gerais? (Aqui espero o socorro dos historiadores mineiros.) Aliás, Alexei Bueno, em seu ensaio “Ribeiro, Rego, Rosa e Rocha: Afinidades Eletivas” confirma essa minha sensação de irrealidade ao escrever que em Grande Sertão: Vereda sente-se uma organização social e militar muito mais próxima do que conhecemos como cangaço, pela independência, sobretudo, dos seus membros, do que de qualquer jaguncismo histórico daquele mais sonhado do que real norte de Minas”.

6) Grande Sertão: Veredas não é a maior saga da literatura brasileira do século XX. Quem detém o laurel, em minha modesta opinião, é O Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo, que conta, romanceadamente, a história da formação do Rio Grande do Sul, desde os primórdios até a era getuliana, com as rixas entre as famílias poderosas proprietárias das terras, reconstituição dos gauchismos mas... sem "revolucionar a língua", digamos assim.
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Na época do lançamento, Grande Sertão: Veredas foi recebido com estupor, diferente de tudo que se escrevera antes. Reconheceram os críticos as virtudes, mas também as dificuldades de compreensão da monumental obra (e um dos críticos chegou a aludir aos “exageros” do estilo roseano). 

Assim, diz Maria Eugenia Celso,  no Jornal do Brasil de 28/7/1956:

O que acho mais extraordinário em “Grande Sertão: Veredas”, o novo romance de Guimarães Rosa, é que, assim tão terrivelmente sertanejo no linguajar, no ambiente e na trama passional dos episódios, tenha sido escrito aqui por um diplomata num meio supercivilizado, para o qual aquela maneira de falar não pode deixar de ser um tanto charadística. Verdadeiro “tour de force”, a meu ver.

Escreve Manuel Bandeira em “Livros a Mancheias” no JB de 12 de agosto daquele mesmo ano:

Guimarães Rosa ouvi dizer que inventou uma língua nova, que não é nem a portuguesa, nem a brasileira, nem a de Mário de Andrade.

Em mesa redonda sobre Rosa publicada no JB de 2 de setembro afirmou Sérgio Milliet:

Mas com “Grande Sertão: Veredas” temos o grito de independência de nossa literatura. Depois deste livro será preciso reescrever a gramática do português do Brasil. [...] “Grande Sertão: Veredas” é sem dúvida alguma, o nosso grande acontecimento literário e linguístico do século. Está para a possível língua brasileira como a poesia de Villon ao findar a Idade Média.

Benedito Nunes, em “Primeira Notícia sobre Grande Sertão: Veredas”, no JB de 10/2/1957, escreve:

Grande Sertão: Veredas” ultrapassa o âmbito regional. No drama do sertanejo ou do jagunço, irrompem os grandes problemas humanos – seja a luta do homem contra a natureza que o estimula e o abate ao mesmo tempo, seja o ímpeto do jagunço que se põe em armas para defender uma causa indefinível, adota a lei da guerra menos pela rudeza de seu espírito do que pela necessidade de viver e de realizar o seu destino.

Aliás, trata-se do único crítico que ousa apontar as deficiências do estilo do autor:

Os trechos onde a linguagem decai, perdendo a sua eficiência expressiva, revelam os defeitos da técnica que o romancista preferiu adotar para ser fiel às situações vividas pelo personagem. Alguns desses defeitos são cacoetes estilísticos decorrentes do uso, tantas vezes abusivo das desarticulações sintáticas, contrações e elipses que, praticadas mecanicamente, não possuem mais valor expressivo. 

Josué Montello, em aula inaugural do Curso de Literatura proferida em 28 de março de 1957 na Faculdade de Letras de Lisboa, considerou Grande Sertão: Veredas “a mais arrojada aventura da nova ficção brasileira. Guimarães Rosa é um renovador da língua como Aquilino Ribeiro.”

Múcio Leão (JB, 1/5/1957) reconhece que a linguagem de Grande Sertão: Veredas é dificílima, “uma espécie de língua nova, inaceitável à maioria dos leitores, senão a todos eles. Eu mesmo, que terminei por achar uma pura delícia esse Grande Sertão: Veredas, tive muita dificuldade para conseguir lê-lo. [...] Resolvi lê-lo mais ou menos como se fosse um livro escrito em outra língua, uma língua aproximada desta que falo.”
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Em suma, “o sertão é do tamanho do mundo” (pág. 60), e Grande Sertão: Veredas é um clássico, um monumento da nossa literatura, inovador, impressionante, de tirar o fôlego, uma das três epopeias da língua portuguesa (as outras, Os Lusíadas e Os Sertões), segundo meu amigo Alexei, tudo isso admito, mas... não há nada de errado em você, nem você precisa ficar com sentimento de culpa, caso não goste do livro de Guimarães Rosa. Afinal, gosto se discute!

DOIS CRAQUES GRAPIÚNAS* NA ELITE DO FUTEBOL BRASILEIRO de CYRO DE MATTOS**


América - Campeão Mineiro - 1948. Em pé : Humaitá , Lazzarotti, Esteves, Aldo Gaia, Lusitano. Agachados: Valinho, Nandinho, Fernando, Celso, Murilinho

Refiro-me a Nandinho e Tuta, dois jogadores grapiúnas que brilharam na elite do futebol brasileiro, na época do pré-estádio do Maracanã. Os jogos mais importantes no Rio eram realizados até então em São Januário, o maior estádio de futebol carioca. O futebol nacional vivia a transição do amadorismo para o profissional.

O jogador Nandinho atuou no Flamengo, formando com Zizinho e Pirilo o célebre trio do primeiro tricampeonato do rubro-negro carioca. No entanto, deu seus primeiros passos no caminho do futebol jogando pelada no campo das pastagens de Berilo Guimarães, em Itabuna. Foi para Salvador e ingressou no time juvenil do Bahia onde mais tarde faria parte da equipe profissional. Sagrou-se campeão no time profissional do tricolor baiano em 1940. Quando retornava a Itabuna, treinava para manter a forma no Campo da Desportiva. Do Bahia transferiu-se para o Flamengo. Depois de passagem destacada no rubro-negro carioca foi jogar no América mineiro onde se sagrou campeão e se tornou ídolo em várias temporadas.

O jogador Tuta veio de Uruçuca, antiga Água Preta. Atuou no futebol de Ilhéus e de Itabuna, onde vestiu a camisa da Associação, poderoso time que dominou o futebol amador do Sul da Bahia na década de 40. Foi jogar em Salvador no Bahia e, no tricolor baiano, sagrou-se também campeão. De lá chegou ao Vasco da Gama, na época em que o esquadrão de São Januário formou um dos times mais importante de sua história, conhecido como Expresso da Vitória. Nessa equipe lendária, jogavam Barbosa, Augusto, Ely, Danilo, Friaça, Ademir Menezes e Chico, que foram servir à Seleção Brasileira de 1950, vice-campeã mundial.

Vasco da Gama – Torneio dos Campeões – Minas Gerais - 1948. Em pé: Rafanelli, Barbosa, Augusto, Ely, Jorge e Danilo; Agachados: Djalma, Maneca, Friaça, Tuta, Chico e o massagista Mário Américo.

Importa lembrar que o grande derby do futebol mineiro era América e Atlético até meados de 1960. O Cruzeiro ainda não havia surgido como uma potência do futebol brasileiro, com aquele famoso time integrado pelo goleiro Raul, os craques Tostão e Dirceu Lopes, Natal, Zé Carlos e Euvaldo. O América chegou a se sagrar dez vezes campeão na época que o seu grande rival era o Atlético.

Para comemorar a reinauguração do Estádio da Alameda, modernizado e ampliado em março de 1948, de cinco mil para 15 mil espectadores, o América promoveu um torneio quadrangular, que ficou conhecido como o Torneio dos Campeões. A disputa reuniu os campeões estaduais de Rio de Janeiro (Vasco), de São Paulo, representado pelo São Paulo, Minas Gerais pelo Atlético, campeão dois anos antes, além do anfitrião América, que se sagrou campeão do torneio e de Minas Gerais, no final daquele ano.

Nandinho fez parte do esquadrão do América, campeão mineiro em 1948, que tinha como técnico o polêmico Yustrich. Já Tuta jogou no Vasco da Gama, que tinha como técnico Flávio Costa, no Torneio dos Campeões , realizado naquele mesmo ano em Belo Horizonte.

Enquanto isso, em 1949 o time do Arsenal, o mais popular da Inglaterra, fez uma excursão ao Brasil onde em São Paulo enfrentou o Corinthians, derrotando-o, e o Palmeira, que conseguiu um empate a duras penas. Restava enfrentar o Vasco e o Flamengo no São Januário, o gigante da colina. Na noite de 25 de maio de 1949, uma quarta-feira, São Januário recebeu o maior público de sua história, no amistoso entre o Vasco e o Arsenal.

A excursão do time britânico era cercada de grande expectativa. Havia uma mística, que corria no tempo, alardeando que o time britânico era o melhor do mundo, e os próprios ingleses julgavam-se  os donos do futebol, pois foram eles os inventores desse esporte. Por tudo isso, a partida entre Vasco e Arsenal foi cercada de um interesse enorme, adquirindo até um sabor de decisão de mundial de clubes, uma vez que, no ano anterior, o Vasco havia conquistado o título de campeão sul-americano  invicto, no torneio realizado no Chile. Para enfrentar o time da Inglaterra, o Vasco (foto abaixo) entrou em campo com uma das formações mais fortes da sua história, saindo vencedor da partida por um a zero, gol de Nestor aos 33 minutos do segundo tempo. E o baiano grapiúna Tuta participou desse time lendário do gigante da colina.

Time do Vasco da Gama que Derrotou o Arsenal em 1949. Em pé, Eli, Augusto, Jorge, Danilo, Barbosa e Sampaio; agachados, Mário Américo (massagista), Nestor, Maneca, Ademir, Ipojucan e Tuta.

*Grapiúna é o nascido no Sul da Bahia, na época da conquista da terra e do povoamento. E o que se identifica com uma civilização singular forjada pela lavoura do cacau, ao longo dos anos.

** Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Membro efetivo do Pen Clube do Brasil e Academia de Letras da Bahia. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha e Espanha. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia)

ARQUITETURA NEOCOLONIAL NO RIO DE JANEIRO

A arquitetura neocolonial foi um estilo ligado ao movimento nacionalista dos anos 20 que reinterpretou o estilo colonial brasileiro à luz da modernidade, numa reação à arquitetura importada da Europa. Segundo Carlos Kessel, em "Estilo, Discurso, Poder: Arquitetura Neocolonial no Brasil", "caracteriza-se por uma estilização do velho estilo colonial. Nascido da reação contra o ecletismo dominante nos primeiros anos deste século, o neocolonial encontrou sua justificativa na ânsia de buscar, nas formas construtivas tradicionais do Brasil, uma arquitetura que pudesse ser definida como genuinamente autóctone." 

As principais características nas fachadas neocoloniais são o uso de azulejos (letra A na foto abaixo, da capela do Hospital Gaffrée e Guinle, na Tijuca), pináculos ou coruchéus (B), beirais e frontões ondulados (C), telhas como elementos da ornamentação (na foto abaixo, no coroamento da torre sineira, letra D), volutas ocasionais (E), sacadas (por exemplo, na foto 2) e pátios internos.


Foto 1: Capela de N. S. da Conceição do Hospital Gaffrée e Guinle, na Tijuca ilustrando as características do estilo neocolonial

O Museu Histórico Nacional, embora preserve partes da antiga Casa do Trem e Arsenal de Guerra coloniais, possui acréscimos neocoloniais (foto 2). Outros prédios neocoloniais notáveis são o Instituto de Educação , a mais importante obra do neocolonial carioca, com projeto escolhido por um concurso, cujo edital especificava essa opção estilística, como informa o Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro (Rua Mariz e Barros, 273, Tijuca - aqui), o Hospital Gaffrée e Guinle (foto 3) e a sede do clube futebolístico Vasco da Gama (foto 4). 



Foto 2: Pátio de Santiago, Museu Histórico Nacional. O conjunto composto da Casa do Trem (1762) e Arsenal de Guerra (1764) foi reformado e "aformoseado" para abrigar o Palácio das Indústrias na Exposição de 1922, dando depois origem ao Museu Histórico Nacional.


Foto 3: Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, à Rua Mariz e Barros, 775 (Tijuca). A fachada dos fundos do hospital pode ser vista aqui


Foto 4: Fachada do Estádio Vasco da Gama (mas conhecido como Estádio São Januário). "Fundado no dia 21 de abril de 1927, o Estádio Vasco da Gama acabou ficando mais famoso como São Januário, que é o nome de umas das principais ruas que levam ao estádio. O estádio é a principal sede do Vasco. Construída numa área de 56 mil metros quadrados e situada à Rua General Almério de Moura, 131, no bairro Vasco da Gama, o complexo conta com estádio, ginásio, parque aquático e setor administrativo." Mais informações aqui

Além do já citado instituto que agora se chama Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro, várias escolas municipais adotaram o estilo: Escola Uruguai, na Rua Ana Néri, 192 (Benfica, 1930 - aqui), Escola Estados Unidos, na Rua Itapiru, 453 (Catumbi, 1930), Escola Sarmiento, na Rua 24 de Maio, 931 (Engenho Novo, 1929 - foto 5), Escola Henrique Dodsworth, na Av, Epitácio Pessoa, esquina com Rua Redentor (Ipanema, 1943), Escola Soares Ferreira (Av. Maracanã, 450 (Tijuca, 1927 - aqui). Também o antigo Colégio Arte e Instrução, em Cascadura, que encerrou suas atividades no final de 2013 e foi uma das escolas mais importantes na formação de inúmeras gerações na região, adotou esse estilo (foto 6).


Foto 5: Escola Municipal Sarmiento em estilo neocolonial, construído em 1929. Observe a sacada com gradil e o mapa do Brasil em painel de azulejos à direita.


Foto 6: Antigo Colégio Arte e Instrução em estilo neocolonial (Cascadura). Segundo Washington Fajardo, "o edifício é um belo exemplar da arquitetura neocolonial. Na época do Estado Novo, as escolas precisavam, por meio da arquitetura, passar uma mensagem nacionalista forte. O edifício do Colégio Arte e Instrução é um exemplo disso. O imóvel é uma referência no bairro de Cascadura e na região de Madureira". Tombado em 2015 (ver aqui). 

No Largo do Boticário (Cosme Velho - foto 7) temos um conjunto de casas que, nos anos 1920-40, foram construídas ou reformadas dentro de uma estética neocolonial então em voga, empregando materiais de casas demolidas no Centro, inclusive para a abertura da Avenida Presidente Vargas. O conjunto hoje está degradado, aguardando uma solução, para que seja restaurado. Mais informações sobre o largo e sua história você encontra aqui.


Foto 7: Largo do Boticário. "O Largo do Boticário é lindo, mas... é recente. Foi construído por ideia e mando de D. Sylvinha de Bittencourt, mulher do então dono do Correio da Manhã, Paulo Bittencourt, na década de 40, usando material de demolição das casas centenárias postas abaixo pelo prefeito Henrique Dodsworth. O Largo original, onde o atual foi construído, era um lugar pobre que ganhou o nome por causa de um farmacêutico de então, que lá viveu. Dele, sobrevivem as belas árvores da entrada. Hoje se encontra abandonado e decadente, com ocupações de sem-teto recorrentes. Sua proprietária, herdeira de D. Sylvinha, não o vende, nem aluga, nem preserva. O Estado é impotente diante de tal situação." Francisco Daudt

Outras casas residenciais, além daquelas do famoso largo, adotaram o neocolonial, algumas delas na Urca, bairro cuja ocupação, possibilitada por um aterro, deu-se na década de 1920, em plena vigência do neocolonial. Por exemplo, os casarões das fotos 8 e 9. 


Foto 8: Casarão neocolonial na Rua Ramon Franco, 87 (Urca), com frontão ondulado, treliças nas sacadas e num trecho do muro,  azulejos, pináculos, telhas compondo a ornamentação, ou seja, os elementos definidores do estilo. 


Foto 9: Casarão neocolonial na Av. Portugal, 716 (Urca), com portada neobarroca com uma estilização dos oratórios coloniais no frontão e emprego abundante de telhas. 

Um elemento da arquitetura colonial retomado em umas poucas construções do neocolonial é o muxarabi ou rótula. de origem mourisca, trazido de Portugal pelos colonizadores, foi proibido por motivos estéticos em 1808 pelo Intendente-Geral da Polícia Paulo Fernandes, já que "além de serem incômodas, prejudiciais à saúde publica, interceptando a livre circulação do ar, estão mostrando a falta de civilização dos seus moradores" (Padre Perereca). No Largo do Boticário temos talvez o único exemplar autêntico, colonial, de muxarabi sobrevivente, que você pode ver aqui. As alas neocoloniais do Museu Histórico Nacional (pois existe a parte autenticamente colonial também) utilizam muxarabis estilizados (aqui).  Mas a reprodução moderna mais perfeita de um muxarabi encontrei na bonita casa neocolonial da Rua Domício da Gama (Tijuca) mostrada na foto 10.


Foto 10: Bonita casa neocolonial com muxarabis estilizados sob os dois frontões e elegante pórtico, na Rua Domício da Gama (Tijuca). Mais detalhes sobre esta maravilha no blog do meu amigo Fabio Carvalho clicando aqui. 

 Na arquitetura religiosa temos:

  • Igreja de Santa Maria Margarida (Rua Frei Solano, 23, Lagoa - foto 11 e aqui).
  • Igreja de Nossa Senhora do Brasil (Av. Portugal, 772, Urca - foto 12).
  • Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa (Av. Passos, 15, Centro - foto 13).
  • Capela de Santa Teresinha no jardim do Palácio Guanabara (Laranjeiras - foto 14).


Foto 11: Igreja Matriz Santa Margarida Maria (Lagoa). A Igreja foi construída em 1939, por uma congregação holandesa do Sagrado Coração de Jesus. Tem estilo neocolonial tardio, com as paredes internas pintadas em azul e rosa, e adornadas por oito colunas altíssimas ao longo da nave. 


Foto 12: Igreja de Nossa Senhora do Brasil na Urca, interpretação original, que não segue estritamente o "modelo", do estilo neocolonial. A ondulação, normalmente no frontão ou beiral, aqui se encontra na parte inferior do prédio, onde estão as escadas de duplo acesso e o pátio diante da portada elevada. Projeto de Frederico Faro Filho de 1932, construída em 1934. "A colocação do salão paroquial no térreo eleva a pequena igreja em relação à rua e oferece boa solução de distribuição para o terreno exíguo. No interior há nave única com ornamentação copiada do vocabulário barroco ibero-americano. A construção desta igreja dedicada a uma invocação marcadamente nacionalista da Virgem Maria corresponde ao momento inicial de ocupação da Urca e ao apogeu do neocolonial." (Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro) 


Foto 13: Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa. A construção setecentista foi demolida em 1929 par dar lugar a uma igreja em estilo neocolonial, com influência da arquitetura mexicana. 

Foto 14: Capela Santa Teresinha, do Palácio Guanabara,  em estilo neocolonial, construída em 1946 a pedido de Carmela Dutra, a esposa do então Presidente. 

Estas e outras fotos representativas do neocolonial você pode ver no álbum ESTILO NEOCOLONIAL


Além do estilo neocolonial luso-brasileiro a que nos referimos (e quando a gente fala "neocolonial" puramente, subentende-se o luso-brasileiro), esteve também em voga nos anos 20 e 30 um estilo neocolonial hispano-americano, conhecido como estilo Missões ou Mexicano, cujo principal exemplar no Rio é a sede do clube Botafogo (foto 15). 

Foto 15: Sede do Botafogo (1928). Projetado pelos arquitetos Archimedes Memória e Francisque Cuchet em estilo Missões (neocolonial hispano-americano). Tombado pelo Município. "Na sede do Botafogo, os arquitetos adotam o estilo missões, inspirado na arquitetura colonial da América espanhola tal como fora interpretada nos Estados Unidos, com pequenas referências à arquitetura colonial portuguesa." (Enciclopédia Itaú Cultural) 

O estilo Missões também foi muito empregado em casas e prédios em diferentes bairros do Rio. São características do estilo Missões:


torre circular com telhado de beiral
parede com superfície irregular, texturizada
alpendre com entrada em arco
muro coberto de telha
frontão arqueado coberto de telhas e ornado com um pequeno painel de azulejos, geralmente de temática religiosa
colunas torsas ou salomônicas (espiraladas)
Dificilmente uma casa reunirá todos esses elementos, por exemplo, se tiver uma torre circular, não terá o frontão arqueado, e vice-versa, como você pode ver nas fotos 10.16-17 abaixo, mas a parede texturizada é um elemento universal, obrigatório no estilo Missões (conquanto mais tarde a casa possa ter sido descaracterizada e recebido uma nova pintura sem esse traço), e o frontão arqueado é a característica mais comum, sobretudo nas casinhas de subúrbio. Tudo isso você pode conferir no álbum ESTILO MISSÕES.


Foto 10.16: Casinha no Grajaú em estilo Missões.

Foto 10.17: Casa em Ipanema em estilo Missões.

ART NOUVEAU NO RIO DE JANEIRO

Art nouveau foi um estilo de design e arquitetura muito popular na belle époque que explorou materiais novos como o ferro e o vidro e avanços nas artes gráficas. Seu maior expoente foi o espanhol Antoni Gaudí. Procurou referências nas tradições barroca, gótica e mourisca, mas sem fixar regras. Caracteriza-se por formas sinuosas e fluidas. Segundo Marcio Roiter, do Instituto Art Déco Brasil, é um estilo assimétrico, com fluidez de linhas e forte inspiração da natureza. Segundo o arquiteto Hélio Brasil, é “como se você construísse um emaranhado geométrico e, depois, sobre ele, usasse as caprichosas curvas da natureza, lembrando as tramas da vegetação, com folhas e flores estilizadas”.

No Rio o exemplar mais notável do art nouveau foi a Fábrica do Elixir de Nogueira, projeto de Antonio Virzi, construído em 1916, tombado em 1968, destombado (!) e demolido em 1970 (ver aqui). Para o proprietário do elixir, Gervásio Renault da Silveira, esse mesmo arquiteto construiu o Villino Silveira (Rua do Russel, 734, Glória, ao lado do prédio da Manchete - foto 1, bem como aqui e aqui), esse tombado pra valer, um "um dos raríssimos exemplares cariocas em que o art nouveau não foi apenas um estilo decorativo superficial aplicado sobre paredes e mobiliário, mas efetivamente um princípio arquitetônico", segundo o Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro. Outro desses raríssimos exemplares é o anexo da Casa de Artes Paquetá, inspirado no art nouveau de Gaudí (foto 2, bem como no álbum ESTILO ART NOUVEAU). 

Algumas casas em Santa Teresa apresentam ornamentação art nouveau, como as de números 598 (aqui) e 616 (aqui) na Rua Joaquim Murtinho e a Villa Alice, que mescla art nouveau com neogótico (janelas ogivais).  A "cauda de pavão" formada pelas janelas de vitrais da fachada da Casa Franklin (Avenida Passos, 36 - foto 3) também tem inspiração art nouveau. Recentemente descobri uma casa na Rua General Dionísio, 53, Humaitá, que embora semiencoberta pela folhagem do jardim dianteiro, revela seu espírito art nouveau na grade do muro (aqui), vitrais (aqui) e portal da varanda (foto 4).  Até nos "confins" de Santa Cruz achei uma casinha com elegantes linhas art nouveau, a Vila Joanna (foto 5). 

O Cinema Íris (cinema centenário na Rua da Carioca, 49 que atualmente exibe filmes pornô - ver postagem CINEMA ÍRIS no meu blog Literatura & Rio de Janeiro) e a Confeitaria Colombo exibem elementos art nouveau na decoração interna: o cinema, nos azulejos (foto 6), grades (aqui) e painéis de madeira (aqui) e a confeitaria, especialmente nos vitrais da claraboia (foto 7).

O Restaurante Albamar, que é um dos cinco torreões do antigo Mercado Municipal, de estrutura metálica, demolido com a construção da Perimetral, apresenta um traçado art nouveau em sua cúpula, como mostra a foto 8.

Finalmente, embora especialistas afirmem que a influência do art nouveau na arquitetura carioca foi discreta, que "pouco houve no Brasil de art nouveau" (Marcio Roiter), discordo com base na minha observação, em andanças pela cidade, de que muitas casas rotuladas como ecléticas exibem elementos art nouveau, de forma mais diluída, menos ostensiva que nas exuberantes construções art nouveau europeias, mas mesmo assim a influência da estética art nouveau transparece. 

Por exemplo, o clássico formato de portas e janelas em três seções formando um todo arredondado, do qual um exemplo paradigmático pode ser visto nesta foto tirada em Praga, foi muito utilizado, em versões mais ou menos simplificadas, em diversas casas Rio afora, como você pode ver na foto 9, de uma singela casinha numa ladeira que sobe para Santa Teresa, na foto 10, de uma fachada no Largo do Machado, na casa da Rua Joaquim Murtinho, 616, já mencionada, bem como aqui, aqui, aqui, aqui (sacada), aqui, aqui, aquiTambém nestas janelas geminadas julgamos ver certa influência art nouveau, embora diluída (mas se você discorda por favor contacte o editor do blog no Facebook): foto 11, foto 12 e aquiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaqui (falsa janela), aquiaquiaqui. 

E se ainda não se cansaram do tema, convido-os para uma olhada no álbum ESTILO ART NOUVEAU onde verão estes e ainda outros exemplos da influência art nouveau na arquitetura carioca.       


Foto 9.1: Villino Silveira, projeto de Antônio Virzi de 1915. "Um dos raríssimos exemplares cariocas em que o art nouveau não foi apenas um estilo decorativo superficial aplicado sobre paredes e mobiliário, mas efetivamente um princípio arquitetônico." (Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro)


Foto 9.2: Casa de Arte Paquetá: anexo inspirado no art nouveau de Gaudí. 


Foto 9.3: Casas Franklin (1911). "As janelas com vitrais formam uma grande cauda de pavão de onde alça voo uma águia de bronze que, originalmente, levava uma luminária no bico." Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro. Para uma foto da fachada inteira clique aqui


Foto 9.4: Varanda art nouveau de casa do Humaitá 

Foto 9.5: Villa Joana em Santa Cruz, com elegantes linhas art nouveau. 

Foto 9.6: Azulejos art nouveau no Cinema Íris


Foto 9.7: Claraboia art nouveau da Confeitaria Colombo


Foto 9.8: Traçado art nouveau na cúpula do Restaurante Albamar.


Foto 9.9: Art nouveau na Ladeira Frei Orlando que sobe para Santa Teresa.


Foto 9.10: Janela art nouveau no Largo do Machado.

Foto 9.11: Casa com linhas art nouveau em Ramos. 

Foto 9.12: Vila Aymorés, conjunto de dez casas ecléticas (com toques art nouveau) construídas na primeira década do século XX que sofreram um forte processo de degradação mas foram restauradas para abrigar escritórios comerciais.