AMOR DE CARNAVAL, de IVO KORYTOWSKI



Li na Time artigo sobre as consequências totalmente imprevisíveis que podem resultar de um simples ato. Foi o caso do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando pelo estudante sérvio Gavrilo Princip, que desencadeou a Primeira Grande Guerra, que produziu o Tratado de Versalhes, que exasperou um cabo austríaco chamado Adolf Hitler...

Um ato meu também teve consequências imprevisíveis. Um amor de Carnaval...

– Pai, compra uma revista.
– Filho, sossega, não vê que estou escrevendo uma história?

...amor de Carnaval, dizia, imprimiu à minha vida um rumo com que jamais sonhara.

Meu negócio era boemia. Sabia o nome de cada garota das boates de Copacabana. Roda de pôquer, meu fraco. Varava a noite magnetizado pela dança das cartas: duplas que bom blefe transformava em full hands; a guerra de nervos quando o adversário sistematicamente dobrava minha aposta, eu receoso de pagar para ver; a sorte grande, tão improvável, do royal “street” flush, as rodadas de fogo...

Numa dessas jogatinas, perdi o salário do mês. Só Deus sabe como sobrevivi nos trinta dias seguintes: foi o mês mais comprido de minha vida. Na época, trabalhava como auxiliar em escritório de contabilidade no centro da cidade. Morava com os pais, tive de lhes pedir dinheiro emprestado, foi um estrilo geral.

Chegou mais um Carnaval. Os bailes eram meu fraco. Sabia de cor e salteado tudo que era marchinha: “Alalaô, ooô, ooô...” “Eu fui às touradas de Madri, paratibum, bum, bum...” Naquele tempo, os sambas de enredo das escolas de samba ainda não haviam se imposto como a música de carnaval predominante. Naquele ano, Dalva de Oliveira, com sua voz poderosa, na fronteira do canto lírico, tomara de assalto os bailes com “Quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão...” Eu era um deles. Munira-me de confete, serpentinas, bisnaga de lança-perfume (não era proibido). Pegava garota para pular, tirava uns sarros, dispensava, arrumava outra. “Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval...” Até que peguei Araci.

Araci era diferente: fantasiada de tirolesa, qual cândida adolescente. Mas era moreninha de dar água na boca, pele fresca e saudável, cabelos quase pretos e moderadamente encaracolados de baianinha. Podia ser estudante de Direito ou empregadinha doméstica, estar disponível ou comprometida... em baile de Carnaval ninguém é de ninguém e não se fazem perguntas. Uma coisa sabia ao certo: era cheirosa, a danada. Cheiro de erva aromática. Dessa não desgrudei, que não sou de jogar fora um tesouro: brincamos até os últimos acordes da orquestra carnavalesca. Foi aí, já na rua, acariciados pela aragem da madrugada, que joguei verde pra colher maduro.

– Você tem pra onde ir?
– Não sou daqui, estou em casa de um tio, mas ele bebe tanto que nem sabe se estou em casa ou na rua.
– Quer vim pra minha casa?
– É muita gentileza sua, não precisa se incomodar.

Incomodar, brincadeira! O problema era que eu morava com os pais, portugueses de Trás-os-Montes que labutavam na mercearia de sol a sol e nem um pouco sintonizados com a revolução sexual. A salvação foi que um amigo que morava sozinho viajara e deixara comigo a chave do quitinete para minhas eventuais aventuras... Não por amizade desinteressada; eu era boa-pinta, desenvolto com as mulheres e, às vezes, sobrava pra ele a amiga de alguma paquera minha.

Fomos pro apê do Alfredo. Estava uma zorra total, cama desarrumada, guimbas de cigarro espalhadas pelos cinzeiros. Araci fez vista grossa:

– Você mora aqui? Bonitinho.
– Moro, mas quando for promovido quero mudar para um apartamento maior.

Foi Carnaval com chave de ouro, um desses sucessos que fazem com que a vida valha a pena ser vivida. No final, despedimo-nos. Amor de Carnaval termina na quarta-feira de Cinzas, não se trocam telefone nem endereço. Cada um pro seu lado, pra sua família, pro seu namorado, marido... sabe-se lá. Esqueci a gata, descolei outras.

Seis meses depois, Alfredo me telefona aflito:

– Apareceu aqui uma morena que é um tesão. Grávida. Diz que precisa falar com você de qualquer maneira. Estranhou que você não mora aqui.
– Deixa eu falar com ela.

Era Araci. Engravidara. De mim, jurava de pés juntos. Queria me ver. Afinal, onde eu morava e por que mentira pra ela? Marcamos num restaurante próximo.

De barriga, Araci ficara ainda mais apetitosa. Sem muita convicção, sugeri que tirasse o filho. Araci mostrou-se cheia de dengos:

– Matar o fruto de nosso amor, querido?

Amor? questionei com meus botões. Aquilo não passara de aventura de Carnaval.

– Olha, bem – respondi – sou muito boêmio. Gosto de varar a noite em boate, jogo...
– Gosto de você assim mesmo. – Com estas palavras, me desarmou.

Não houve jeito. Araci me enfeitiçou. Maneirei no jogo, aluguei pequeno apartamento no Méier. Pior foi que meus pais se opuseram, acharam que eu deveria ser mais seletivo, casar com a filha de algum comerciante da praça, alguém de boa família. E aquela, uma morena cujos antecedentes eram um mistério, sabia-se lá se o pai não era bandido cumprindo pena em penitenciária e com quantos homens já fora para a cama? Magoei-me com essa observação de papai. Chegamos a cortar relações por algum tempo.

Aí começou vida totalmente nova para mim: comprar bercinho, chocalho, preparar o enxoval (roupinhas rosas ou azuis? Não sabíamos se nasceria menino ou menina), escolher o nome. Pior que fazia tudo aquilo com prazer, parecia que Araci me hipnotizara. A turma do pôquer me telefonava, mas em vão: meu negócio agora era outro.

Batizamo-lo de Carlos. Nome do tio que criara Araci, órfã de pai, coitada. Ser mãe é padecer no paraíso, disse o poeta, e eu compartilhei desse paraíso também. As noites em claro nas mesas de jogo deram lugar a noites mal dormidas tentando decifrar o porquê daqueles choros lancinantes: embalando o bebê, trocando fraldas, dando remédio, Araci dando de mamar. Veio o primeiro banho, a primeira visita ao pediatra, o primeiro passeio no carrinho de bebê, a primeira vacina (contra paralisia infantil), o batizado na Igreja, os apelidos carinhosos (o primeiro foi “Totoso”, se não me falha a memória). Um belo dia, vimos que Totoso já não tinha mais aquele cheirinho gostoso característico dos bebês: tornara-se monstrinho de oito quilos, esperto, tudo querendo segurar ou levar à boca. Um dia proferiu: “Babai”. Veio a primeira febrinha, a primeira prainha, irrompeu o primeiro dentinho, aprendeu a engatinhar, sofreu a primeira faringite, chegou o primeiro aniversário. Depois as gripes terríveis que outrora matavam os anjinhos e agora só curáveis com antibióticos (embora sempre apareça um chato de galochas sustentando que deveríamos ter levado a criança ao homeopata), as crises de falta de ar no meio da noite, acenando com o espectro da asma, os quase-acidentes... paraíso! Depois tudo isso passou, e os acontecimentos se precipitaram: Carlos cresceu, adquiriu resistência às moléstias, seguiu os bons conselhos do pai e virou torcedor do Flamengo, aprendeu a ler e viciou-se em histórias em quadrinhos, arrumou a primeira namorada – puxou ao pai, teve bom gosto, o danado –, viveu a fase do deslumbramento com o mundo, quase não parava em casa, enchendo Araci e eu de preocupação, mais adiante redescobriu as alegrias da vida em família, bacalhoada de domingo, os dias comemorativos...

Trinta anos se passaram desde aquele baile de Carnaval. Hoje é dia dos pais. Carlos prometeu levar Araci e eu para almoçar em restaurante de Copacabana. Frutos-do-mar, nosso prato favorito. Quem diria: eu, ex-rei da noite, Don Juan dos cabarés cariocas, exímio no pôquer, hoje pacato pai de família (depois de Carlos vieram Ciro e Carla), chefe da contabilidade na empresa onde comecei como auxiliar. Amarrado na Araci, raramente pulando a cerca. É bem verdade que não casamos de papel passado, mas: amasiado com fé, casado é.

Somos felizes, Araci e eu.

Do meu livro de contos Édipo.

ORIGENS DO SAMBA

PESQUISA E TEXTO DE IVO KORYTOWSKI. JORNAIS E PERIÓDICOS ANTIGOS CONSULTADOS NA HEMEROTECA DIGITAL


Quem não gosta de samba bom sujeito não é (Dorival Caymmi)


Segundo o Dicionário do folclore brasileiro de Camara Cascudo, a palavra “samba” provém de semba, umbigada em Angola. Originalmente significava um “baile popular urbano e rural” (=pagode, arrasta-pé, forrobodó) ou “dança de roda” (=batuque), antes de adquirir a acepção de um gênero musical urbano. O primeiro registro escrito da palavra, segundo o folclorista, teria ocorrido no periódico recifense O Carapuceiro no 6 de 3 de fevereiro de 1838, que “esbraveja indignado contra o samba d’almocreves [condutores de bestas de carga]”.

Na verdade, o periódico não esbraveja contra o samba, mas o contrapõe às óperas de Rossini, assim como contrapõe uma garatuja de bules e bandejas chineses às pinturas de Rafael, Rubens e Corregio, e os acepipes africanos (bobó, vatapá, acarajé, caruru) às delícias de uma mesa italiana, sustentando que, ao contrário do dito popular de que “gosto não se discute”, existe, sim, o bom e o mau gosto – o “samba de almocreves”, as garatujas chinesas e os acepipes africanos sendo exemplos de “mau gosto”.

Na edição de 26 de dezembro do mesmo ano (no 72), matéria intitulada “Os Fumistas”, que exalta as virtudes do tabaco fumado e em forma de rapé – “se o tabaco é mui útil a todas as hierarquias, e profissões, para um periodiqueiro [=periodicista, profissional que escreve em periódicos] pode-se dizer que é condição sine qua non. Quem há de acudir a um apoquentado jornalista em muitas ocasiões de aperto, se não a sua inseparável amiga, a boceta de tabaco?” – refere-se ao “laborioso matuto” que, depois que lhe furtam o cavalinho, ao chafurdar “as ventas em duas ou três pitadas” de rapé, “esquece-se do cavalo, resigna-se com a sua sorte, e com uma viola nas unhas zangarreia o samba por uma noite inteira”.

Até agora a data fixada por Camara Cascudo costumava ser considerada como a do primeiro registro escrito da palavra samba. Em seu Almanaque do Samba, André Diniz confirma essa crença: “A primeira menção ao termo samba conhecida foi feita em 3 de fevereiro de 1838 no jornal satírico pernambucano O Carapuceiro.” Mas empregando o mecanismo de pesquisa da Hemeroteca Digital Brasileira, consegui localizar menções à palavra anteriores a 1838.

Por exemplo, o Diário de Pernambuco de 4 de agosto de 1830 (p. 2), em matéria sobre a indisciplina de certos corpos de soldados da capital da província, afirma que de nada adianta enviar, como castigo, esses soldados para guarnições no interior, pois lá, na falta de um serviço ativo, descambarão na ociosidade, entretendo-se (vou manter a ortografia da época) “nas pescarias de curraes [currais, ou seja, armadilhas de apanhar peixe], e trepaçoens [trepações] de coqueiros, em cujos passatempos será recebida com agrado a viola, e o samba; e aos peraltas, cada vez os fará mais dezenvolvidos na conjugação do verbo surripio [surrupio, ato de surrupiar]”.

Esse mesmo jornal em diversas edições de 1834, ao relatar incursões contra os insurgentes da Cabanada, refere-se a uma localidade chamada Samba, também Engenho do Samba e Ponto do Samba. O Diário do Governo do Ceará de 1832 (p. 360) menciona igualmente um Engenho Samba. Idem o Correio Oficial do Rio de Janeiro de 1833 (p. 363) e 1834 (p. 67): Engenho Samba do distrito das Alagoas, de propriedade de José Theodoro Pereira.

A Nova Sentinela da Liberdade baiana de 23 de outubro de 1831, alude aos “marotos solteiros sem tamba [bebida indígena fermentada] nem samba; porque esta é a gente do Comércio”.

Na edição de 5 de janeiro de 1856 do Diário do Rio de Janeiro (p.2), na seção de notícias da Província do Ceará, vemos uma menção a um samba (folia) associado a desordem, associação essa que se tornaria comuníssima no noticiário da imprensa na virada do século XIX ao século XX:


No ano seguinte, em 21 de maio (p.2), nas notícias da Bahia, esse mesmo Diário do Rio de Janeiro menciona um espetáculo teatral com “crioulas” dançando o samba:


A coluna “Carteira do Repórter”, assinada por Zé Mimoso, do Correio Paraense de 28 de setembro de 1893 narra uma cena tragicômica num samba cheio de “embigadas” [umbigadas].



A primeira descrição de um "samba" na literatura brasileira acredito que tenha sido na obra clássica do naturalismo brasileiro A carne de Júlio Ribeiro, de 1888 (se alguém tem conhecimento de uma descrição literária anterior por favor me informe). A cena descreve uma dança dos escravos, em torno de uma fogueira, no terreiro em frente às senzalas, após um dia de trabalho, ao som de dois atabaques e vários adufes:

Os que não dançavam, que não tomavam parte no samba, grupavam-se aos magotes, acotovelando-se; olhavam em silêncio, enlevados, absortos.

Do solo batido pelo tripudiar de tanta gente erguia-se uma nuvem de pó, avermelhada pelo clarão da fogueira.

A garrafa de aguardente andava de mão em mão: não havia copos; bebiam pelo gargalo.

Ao cheiro de terra pisada, de cachaça, de sarro de pito, sobrelevava dominante um cheiro humano áspero, aliáceo, um odor almiscarado forte, uma catinga africana, indefinível, que doía ao olfato, que cortava os nervos, que entontecia o cérebro, sufocante, insuportável.
[...]

A rapariga dormia, dormia profundamente, respirando alto, em estertores.

Fora, o samba continuava; ouvia-se tutucar dos atabaques, e o estrupido surdo dos pés; sonoro, melancólico, plangente, repercutiu o estribilho:

Eh! Pomba! eh!

Em 1890 Alexandre Levy compõe uma peça orquestral intitulada Suíte Brasileira cujo terceiro movimento, inspirado na cena do samba de A Carne, intitulou-se Samba.

Em folhetins publicados na imprensa na passagem do século XIX para o XX, várias são as menções a sambas. Por exemplo, no conto “O Francellino” de Mario Negreiros, publicado na edição de julho de 1898 da “revista mensal de lettras, artes e sciencias” Genesis, encontramos este trecho:



Nas notícias dos jornais dessa mesma época o samba costuma estar associado a arruaças, bebedeiras, ocorrências policiais. Vejamos alguns exemplos:

Cidade do Rio, 14 de novembro de 1900:


Gazeta da Tarde, 30 de janeiro de 1896:


Gazeta da Tarde, 11 de novembro de 1901


Costuma-se mencionar uma suposta “repressão” ao samba no início do século XX. A minha impressão, ao ler esses jornais, é que não se reprimiu o samba em si, o ritmo, mas as rodas de samba, devido ao alarido, à arruaça (o pessoal ficava bêbado), não por causa da música em si. Imagine numa época sem carros, sem sirenes de ambulância, sem rádios, sem aparelhos de som, sem aviões sobrevoando, o silêncio sepulcral das noites ser quebrado por uma roda de samba. Aquilo incomodava os vizinhos, que chamavam a polícia. Meu amigo Alexei Bueno, a quem consultei, confirma essa minha impressão: “O problema era exatamente esse, arruaça, barulho, bebedeira, numa época onde se dormia muito cedo, pois nem rádio havia, e grande parte da população nem um romance podia ler, pois era analfabeta.” 

O samba como gênero musical nasceu em meio à população negra carioca (em grande parte, ex-escravos) da Zona Portuária (Pedra do Sal, etc.) e Cidade Nova (Praça XI, etc.) nas primeiras décadas do século XX. Em 1917 gravou-se o primeiro samba (samba-maxixe, mais propriamente), Pelo Telefone, registrado por Donga. Para quem o acusou de ter se apropriado de uma obra de criação coletiva, Donga teria replicado: Samba é que nem passarinho, é de quem pegar primeiro. E o resto da história você já conhece.

VIAGEM A TAUBATÉ & APARECIDA

Monteiro Lobato

Sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Você sabia que Taubaté é a Capital Nacional da Literatura Infantil? Pois é, lá nasceu e cresceu o genial escritor Monteiro Lobato, cuja imaginação embalou o final de minha infância e a pré-adolescência (e a infância de meu filho também, já que eu lia as histórias de Lobato em voz alta para ele na hora de dormir). Eu tenho uma tese de que, se Lobato tivesse escrito numa língua mais universal, tipo inglês, francês, alemão, seu Sítio do Picapau Amarelo teria no mínimo virado filme da Disney e seria mundialmente conhecido.

Fomos, Mi e eu, de ônibus. Grave acidente na altura da Serra das Araras, do qual não vimos mais sinal, mas cujos reflexos ainda perduravam, fizeram com que a viagem até Taubaté levasse o tempo que se leva normalmente para ir a São Paulo. Ficamos no Ibis, na Avenida Independência, pertinho do centro. Gosto muito dessa rede de hotéis com qualidade, conforto, boas localizações e excelente custo/benefício. Este de Taubaté custou exatos R$ 236,64, ou seja, R$ 118,32 por noite. Pechincha!

Lanche noturno na Casa da Esfiha, na mesma rua do hotel (Av. Independência, 693), com esfihas abertas de variados sabores (berinjela, peperone, mussarela...) e um quibe que você dificilmente comerá melhor em algum outro lugar deste vasto mundo.

"ares de Sampa": R. Dr. Emílio Winther ao entardecer

Sábado, 13 de janeiro de 2018

Com base no mapinha do Google que preparei previamente marcando as atrações de Taubaté (que você pode ver aqui), fizemos um imenso passeio por essa cidade que tem ares de Sampa (quais seriam esses ares? As poucas pessoas circulando a pé em contraste com os muitos carros, na maioria novos; o tipo de calçada; prédios residenciais modernos brotando qual cogumelos, etc.), mas em escala menor – Sampa é um mar de prédios a perder de vista.

Taubaté parece uma cidade civilizada, com bom nível de vida: relativamente limpa para padrões brasileiros, praças bem cuidadas, população motorizada, alguns ótimos restaurantes e confeitarias (de fato, entre os 5565 municípios brasileiros, ocupa o 40o em IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – ver aqui). E quando você desembarca na Rodoviária não é assediado por uma máfia de taxistas piratas. Pelo contrário pegamos um ótimo taxista que nos deixou seu cartão e nos prestou ótimos serviços em nossa estadia (Murilo Ribeiro: 98123-1781).

O Sítio do Picapau Amarelo, também conhecido como Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico Monteiro Lobato, do lado de lá da via férrea, proporcionou uma viagem sentimental ao mundo lobatiano que habitei durante longas horas de leitura em uma época (anos 1950) em que a programação infantil da TV ainda era incipiente. Situa-se numa chácara que teria sido do avô do Monteiro e abriga, na casa da chácara, uma biblioteca e um pequeno museu com objetos ligados à vida e literatura de Lobato. Atividades culturais para a criançada também têm lugar ali. No vasto quintal com frondosos mangueiras você depara com as estátuas de pedra em tamanho natural dos personagens do sítio.

Visconde de Sabugosa

Marquês de Rabicó

A "boneca" Emília

Tia Nastácia

Pedrinho

Dona Benta

O Vale do Paraíba fez parte da rota das tropas de burro que desciam a Mantiqueira, vindas das Minas Gerais, rumo ao litoral, onde embarcavam o ouro trazido, com destino à capital. Um século depois abrigou ricas fazendas de café. Assim você ainda vê em suas cidades algumas relíquias históricas, geralmente igrejas, mas dificilmente com seu aspecto barroco paulista original, já que foram posteriormente reformadas, supostamente para embelezá-las mais, mas as descaracterizando. Em Taubaté visitamos estas igrejas: Igreja de Santa Teresinha, neogótica; igreja do Rosário, interditada devido a risco de desabamento do telhado, rachaduras e infiltrações, mas de todas a que mais preserva o aspecto original do estilo colonial paulista; Igreja Matriz, atual Catedral, que começou a ser construída por volta de 1640, portanto o templo mais antigo do Vale do Paraíba, mas que sofreu uma reforma que lhe deu feições neocoloniais em 1940; Igreja do Convento de Santa Clara (que vimos ao cair da noite), fundado em 1673 por frades franciscanos, destruído por um incêndio em 1843, reformado e ocupado em 1891 pelos frades capuchinhos.

Igreja neogótica de Santa Teresinha inaugurada em 1929 pouco depois da canonização de Santa Teresa de Lisieux, conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus. Mais informações aqui.

Interior da igreja de Santa Teresinha

Igreja do Rosário (1700-5) ao anoitecer. Atualmente interditada. Apesar da reforma de 1861-88, é a que mais preserva o aspecto original do estilo colonial paulista. Mais informações aqui.

A Catedral antes da reforma que lhe deu feições neocoloniais

Catedral


Igreja do convento de Santa Clara. O convento foi fundado em 1673 por frades franciscanos. Destruído por um incêndio em 1843, foi reformado e ocupado em 1891 pelos frades capuchinhos.

Do outro lado da Dutra fica a estátua do Cristo, uma réplica daquela do Corcovado. Quando eu era criança e viajava com meus pais de carro para São Paulo, dava para ver a estátua perfeitamente da Dutra, e quando meu pai a mostrava, eu, na minha ingenuidade infantil, achava que se tratava da mesma que vemos aqui no Rio no alto do Corcovado. Atualmente da Dutra já não se vê mais a estátua com tanta facilidade, mas eu teria que um dia voltar a Taubaté para ver a estátua dos meus tempos de criança que ficou tão indelevelmente gravada na minha memória.

Taubaté vista do outeiro onde se ergue o Cristo

Cristo de Taubaté, inaugurado em 1956, réplica do carioca

À noite fomos à pizzaria onde se reúne aparentemente a nata da sociedade taubateana: Fornarina Pizza (Praça Monsenhor Silva Barros, 11 - Centro - aberta das 18:30 à meia-noite). Pizza tamanho único (não é barata e dá perfeitamente para três; no caso de um casal, se sobrar, eles põem numa quentinha e você leva), forno de lenha, opção de massa fina ou tradicional, tamanha variedade de sabores que você se perde no cardápio e acaba pedindo à garçonete que lhe dê uma sugestão, ingredientes frescos, orégano italiano, chope claro ou escuro. A “verdadeira pizza italiana de bordas grossas e recheios exuberantes”.

Teatro Metrópole. Rua Duque de Caxias, 312. Construído em 1919 e inaugurado em 21 de junho de 1921 como Cine-Teatro Polytheama. Depois virou o Cine Metrópole. Adquirido pelo Município em 1999, em 2000 passou a se chamar Teatro Metrópole.  Estilo eclético com elementos art nouveau. Mais informações aqui.

Casa tombada, de 1854, mandada construir por um rico fazendeiro de café, na Av. Visc. do Rio Branco, 516. Atualmente funciona lá o Bar e Balada Quarto do Santo.  Mais informações aqui.

Edifício Brasil, puro art déco, 1940, perto do Mercado Municipal

Villa S. Aleixo, elegante casarão de 1872 aguardando um possível restauro, na R. Dr. Emílio Winther, perto da Praça Santa Teresinha. Mais informações aqui. 

Casarão neocolonial na Praça Monsenhor Silva Barros ao anoitecer

Domingo, 14 de janeiro de 2018

Impressionado com a Basílica de São Pedro, tive a “certeza” de que devia ser a maior igreja do mundo, e quando fui à Wikipedia confirmar, constatei que de fato é a maior tanto em área ocupada como em volume (ver aqui e aqui), mas o que me surpreendeu é que, não muito atrás, no honroso segundo lugar, estava o nosso Santuário de Aparecida. Precisava ir lá conferir. E fui.

Igreja de São Benedito: fachada

Igreja de São Benedito: interior

Você salta na rodoviária oval e já na praça em frente depara com a Igreja de São Benedito de 1918, de fachada graciosa, interior despojado, e em ótimo estado de conservação. Aí você sobe a Rua Monte Carmelo, repleta de hoteizinhos baratos, com uns chatos na porta insistindo em oferecer quartos – “Precisa de hotel?” – e um comércio popular multicolorido tipo Saara ou 25 de Março. Você chega em uma praça onde está a Matriz Basílica de Nossa Senhora Aparecida, popularmente conhecida como Basílica Velha, de 1745, estilo barroco, com uma fila para ver a réplica da imagem da padroeira  a original foi transferida para o Santuário novo. 


Basílica Velha

Basílica Velha: interior

Basílica Velha: teto

Basílica Velha: azulejo hidráulico

Basílica Velha: detalhe de uma pintura do teto

Lá você pega a Passarela da Fé que o conduz até o imponente, impressionante, magnífico Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Alguns romeiros cumprem promessas percorrendo a passarela de joelhos (mas com joelheiras que ninguém é de ferro). A graça alcançada deve ter sido enorme.

imponente...


... impressionante, magnífico

O Santuário é um colossal projeto do arquiteto Benedito Calixto Neto. Tem a forma de cruz grega, com imensa cúpula no meio com uma cruz pendente, sob a qual, no púlpito elevado, celebram-se missas quase o dia inteiro. Nos dois braços da cruz estendem-se duas naves centrais ladeadas por naves laterais. O revestimento externo é de uns tijolinhos que evocam aqueles que você encontra nas construções romanas clássicas como o Coliseu. 


Cúpula e cruz pendente sobre o púlpito


Tijolinhos em Aparecida

Tijolinhos no Coliseu romano

Nave central

Fiéis na missa


Conquanto uma igreja “novinha em folha”, sua morfologia é arcaizante, pré-gótica, mescla de romano com românico. Claro que, na falta dos Berninis e Michelangelos da velha Itália, soluções originais tiveram de ser adotadas para dar ao interior uma monumentalidade e esplendor de tempo renascentista, sem sê-lo. A solução genial foi – diferente da talha barroca ou do mármore renascentista – o revestimento com azulejos e pastilhas belamente pintados. De moderno só os vitrais e rosáceas abstratos, com predominância do azul dando ao interior da basílica uma luminosidade especial. 


Mescla de romano com românico: ruínas da Basílica de Maxêncio no Foro Romano

Mescla de romano com românico: Santuário de Aparecida


Chão de mármore

Azulejos pintados

Azulejos

Azulejos

Imagem da Padroeira


Luminosidade especial

Tudo na Basílica é muito limpo e organizado, padrão Vaticano. Na Casa do Pão no subsolo, projeto social que ensina a menores aprendizes o ofício de padeiro, você pode fazer um lanchinho gostoso, a preços cristãos. Na Sala dos Milagres você verá milhares de objetos e fotografias (coladas no teto) deixados por fiéis que viram seus pedidos atendidos pela Mãe de Deus & Rainha do Brasil. 


Sala dos Milagres: fotografias no teto

Sala dos Milagres: carrinhos

Sala dos Milagres: chapéus

Sala dos Milagres: Menino Jesus


Sala das velas

Do alto da torre (R$ 8) descortina-se uma vista nas quatro direções (norte, sul, leste, oeste) de toda a região de Aparecida. Dá para ver a Mantiqueira, o Rio Paraíba, a Dutra, tudo, e depois você visita o museu nos andares inferiores com belas peças de Arte Sacra e muito mais (não é permitido fotografar). Na frente da Basílica você tem uma réplica da famosa colunata em semicírculo de Bernini da Praça de São Pedro e nos fundos o campanário com treze sinos de Oscar Niemeyer.

Vista da torre

Cúpula vista da torre

Campanário

Colunata

Na volta, um contratempo: o ônibus que nos traria de volta ao Rio chegou na Rodoviária com mais de uma hora de atraso.


Contrastes arquitetônicos em Aparecida