Alexei Bueno (e Daniel Brilhante de Brito) foram as pessoas mais geniais que tive o privilégio de conhecer pessoalmente em minha jornada terrestre. Tão genial que, aos dezessete anos, idade em que os jovens de minha geração “paz e amor, bicho” fumavam maconha e sonhavam em viajar a Amsterdam, dedicou-se a uma tradução do complexo e difícil poema “The Raven”, de Edgar Allan Poe (que você pode ler clicando aqui), fiel na métrica e esquema rímico ao original inglês, superando assim traduções anteriores de vacas sagradas da literatura em português como Machado de Assis e Fernando Pessoa.
Numa meia-noite cava, quando, exausto, eu meditava
Nuns estranhos, velhos livros de doutrinas ancestrais
E já quase adormecia, percebi que alguém batia
Num soar que mal se ouvia, leve e lento, em meus portais.
Disse a mim: “É um visitante que ora bate em meus portais —
É só isto, e nada mais”.
Até ontem Alexei era o maior poeta vivo brasileiro (agora vai para o panteão dos gigantes da poesia brasileira de todos os tempos) que, à semelhança de um Goethe ou Victor Hugo, dominava magistralmente variadas formas da produção poética, do soneto à poesia em prosa, da redondilha maior (“Esta roupa mal cortada / Curta aqui, ali comprida”) ao verso longo à Walt Whitman e, mais ainda, o poema longo como “A Chave Quebrada”. Alexei seguia as convenções e tradições eruditas da grande poesia, não foi um poeta de apelo popular. Sua obra é vasta. A Poesia completa e reunida, de 2023, estende-se por 1053 páginas. E depois disso publicou mais quatro livros de poesia (veja sua obra completa na Wikipédia).
Alexei escreveu uma única peça de teatro sobre um episódio da história brasileira que já tinha sido abordado por Bernardo Guimarães em Histórias e tradições da província de Minas Gerais: o mistério do sumiço da cabeça de Tiradentes do poste onde estava exposta à execração pública. Chama-se O poste e num país que vive o eterno presente e esquece sua história, tenho minhas dúvidas de se será um dia encenada.
Se em 35 anos de vida Mozart compôs uma obra mais vasta que a de Beethoven, que viveu muito mais anos, Alexei, em seus 63 anos escreveu uma obra de uma vastidão e variedade digna de um escritor que tenha vivido cento e vinte anos!
Alexei foi uma dessas pessoas que se tivessem nascido na época renascentista teria alcançado uma cultura universal, abrangendo todos os domínios do conhecimento. Mas neste admirável mundo novo onde as descobertas se multiplicam, atualmente só à inteligência artificial é concedido este dom. Mas Alexei não obstante era uma enciclopédia ambulante que você podia consultar sobre um sem-número de assuntos, e dominava profundamente áreas tão diversas como o cinema clássico soviético, o tango, o patrimônio histórico carioca, a poesia francesa do século XIX, a poesia de Camões, etc. etc. etc.
Digno de menção sua maneira de trajar. Alexei era incapaz de trajar um tênis ou uma camiseta. Sempre se apresentava, fosse para uma degustação de charutos, uma reunião festiva com amigos, um lançamento de livro, trajado como as pessoas se trajavam no tempo em que você tinha que usar passeio completo para entrar no Teatro Municipal: sapato de couro “de verdade", calça social (não jeans), camisa social... sempre impecavelmente vestido (até para visitar o Lazareto de São Cristóvão como na foto abaixo).
É isso que me vem à cabeça quando penso no amigo e intelectual que partiu para “The undiscovere'd country, from whose bourn / No traveller returns” (Hamlet), como já partiram tantos grandes amigos: Márcio Steinbruch, Helio Brasil... Encerro com esta frase do Joaquim Emídio em seu O MIRANTE: “A sua vasta cultura fazia dele uma figura ímpar na vida cultural brasileira embora vivesse muito à margem da elite literária do país.”
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| Visita ao Lazareto de São Cristóvão em 2009. Alexei Bueno foi diretor do INEPAC de 1999 a 2002 e conhecia profundamente o patrimônio cultural e arquitetônico carioca. |

