CRER EM DEUS, HOJE de ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Publicado originalmente na Veja de 2 de abril de 1997

Nosso tempo é materialista e secular como nenhum outro, mas a quase unanimidade dos brasileiros continua acreditando



Na Semana Santa o sol ainda é generoso, no Hemisfério Sul, e a temperatura é agradável, menos ardente e desgastante do que no verão que ficou para trás. Não há dias como os de março e abril. E, como um prêmio, maravilhoso como fonte que brota da pedra, pródigo como o maná que cai do céu, vem a Semana Santa a oferecer quatro dias sem trabalho, ou de folga na escola. Abençoada seja, entre todas as outras semanas, a chamada de Santa, tão digna desse nome. E as estradas se enchem, e os grandes centros urbanos se esvaziam, e os espíritos ficam leves. Na Semana Santa, a ordem é: todos à praia!

Ao observar o movimento nas estradas, rodoviárias e aeroportos, ao considerar o espaço nos meios de comunicação a informações e conselhos de viagem e ao atentar para a ansiedade com que se acompanha a previsão meteorológica, tem-se uma ilustração do tempo irreligioso em que vivemos. Semana Santa é sobretudo feriado — ou “feriadão”, como se passou a dizer no Brasil, com alegre bonomia, assim como se chama o amigo de “Paulão” ou “Marcão”, e se vai assistir ao futebol no “Mineirão”. Aparentemente, jaz perdida na poeira do tempo, ou lá nos fundões da consciência, a lembrança de que o feriado existe por força de uma celebração religiosa — por sinal, o magno evento do cristianismo, que por sinal é a religião da maioria dos brasileiros.

E no entanto somos um povo que acredita em Deus. Um povo que maciçamente, solidamente, cerra fileiras nas hostes de Deus. Uma pesquisa encomendada por VEJA ao instituto Vox Populi resultou em que, à pergunta “Você acredita em Deus?”, 99% responderam sim. Raros povos dariam uma vitória tão consagradora a Deus, e castigariam os ateístas com derrota tão acachapante. A pesquisa foi realizada com base em 1.998 entrevistas entre a população adulta de todas as regiões brasileiras, nos dias 22 e 23 de março. À pergunta seguinte, “Qual é a sua religião?”, os católicos ganharam de longe — 72% — e 9% declararam-se “sem religião”, quase empolgando o segundo lugar dos evangélicos (11%). Ou seja: pode-se não ter religião, mas acredita-se em Deus. E à pergunta “No último fim de semana você foi a alguma igreja, templo ou centro de sua religião?”, 43% responderam sim e 57% responderam não. Não se vai à igreja, mas continua-se a acreditar em Deus.

Que é acreditar em Deus? Responde o professor de filosofia Roberto Romano, da Universidade de Campinas: “É viver a experiência do inefável, do doloroso e — essa é a palavra-chave — do sublime”. O sublime, que para Romano substitui e soma num só os clássicos conceitos filosóficos de verdade, bem e belo, é o sentimento da pequenez do homem diante do Everest, a experiência que a um tempo eleva e impõe admiração, invoca o respeito e o pavor. Responde o rabino Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista: “É sentir-se humilde perante uma força maior. Essa força se chama Deus”. Caso se fosse exigente, haveria razões para duvidar da resposta da maioria dos brasileiros. Certamente lhes falta a experiência do “sublime” de Romano, e nem todos se adequariam ao modelo de humildade profunda de Sobel. Mas não é justo ser exigente. Não se pode desejar um povo de místicos. Pode-se acreditar em Deus inclusive pelo motivo muito pragmático de querer ir para o céu. Augusto Matraga, o personagem de Guimarães Rosa, queria ser bom, depois de muitos anos de malvadeza, para tirar a alma da “boca do demônio”. “P'ra o céu eu vou, nem que seja a porrete”, dizia.

Não há nada de mais no fato de a pesquisa indicar que mais gente acredita em Deus do que tem religião ou vai à igreja. Pode-se acreditar em Deus sem ir à igreja ou ter religião. O que surpreende é tantos se declararem crentes em Deus num tempo laico e secular como o nosso. Muitos fatores contribuem para tornar este século distante de Deus. A ciência, ao explicar desde os fenômenos da natureza até a evolução das espécies, além de formular hipóteses plausíveis para a origem do universo, invadiu espaços que, sendo de mistério, milenarmente pertenciam à jurisdição das religiões. Ao enumerar os pensadores de maior influência neste século, deparamos com uma coligação anti-Deus: Karl Marx, para quem a religião era o ópio do povo; Sigmund Freud, que considerava a fé uma manifestação de infantilismo; Charles Darwin, que, em lugar da prodigiosa moldagem de Adão a partir do barro e de um sopro nas narinas, nos ofereceu como ancestral a miséria de um macaco; Friedrich Nietzsche, que teve a ousadia de decretar a morte de Deus. O racionalismo que, a partir das matrizes europeias, se impôs ao mundo empurrou-nos a uma lógica de pragmatismo e a uma civilização de resultados. A tecnologia, aliada ao culto do sucesso e dos bens materiais, criou uma indústria da urgência cujos ícones são o avião a jato, o fax, o dinheiro eletrônico e o telefone celular. Onde o tempo e a disponibilidade para a meditação e a contemplação? A religião está acuada. “Nosso secularismo atual é uma experiência totalmente nova, sem precedentes na História humana”, escreve a professora inglesa Karen Armstrong, especialista em religiões e autora do livro Uma História de Deus, traduzido no Brasil (Companhia das Letras). Armstrong escreve, ainda: “Um dos motivos pelos quais a religião parece irrelevante hoje é que muitos de nós não têm mais o senso de que estão cercados pelo invisível”. Nossa cultura científica, segundo a autora, educa-nos para concentrar a atenção no mundo físico e material, o que nos distanciaria do “espiritual”. Imagine-se, indo um pouco além do raciocínio de Armstrong, o que era o mundo sem luz elétrica. A noite era noite de verdade, ainda mais que a maior parte das pessoas vivia no campo. Quando não a dominava a treva absoluta, a noite fazia-se o reinado das pesadas sombras ou das chamas bruxuleantes, a partir de rudimentares instrumentos de iluminação. A escuridão convidava ao medo e ao mistério, que são a antessala do sentimento religioso. A luz elétrica veio a operar contra Deus.


E depois ainda há o Estado moderno — laico e liberal. Não faz muito, éramos, os países cristãos, governados de forma não muito diferente da que o Irã é hoje. Religião não era uma opção. Era uma imposição. Lugar de herege era na fogueira. E, quando não era produto da pura força bruta, a religião era resultado da inércia das tradições familiares, grupais ou nacionais. Hoje se tem a liberdade de decidir, e essa é uma inestimável conquista de nossos tempos. “As pessoas hoje assumem a fé por decisão, e não mais por tradição. É um amadurecimento da sociedade”, disse a VEJA o padre João Batista Libânio, professor de teologia do Centro de Estudo Superior da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte. Se as pessoas têm a liberdade de escolher, e escolhem Deus, mais ainda causa espanto o fato de apenas 1% dos brasileiros declararem que não acreditam nele.

Se a pergunta fosse outra, “Você já teve a experiência de Deus?”, o resultado possivelmente seria diferente. Não é fácil, e não é para qualquer um, experimentar Deus. No bonito prefácio a seu livro, Karen Armstrong escreve: “Quando criança, eu tive várias crenças religiosas fortes, mas pouca fé em Deus”. É sutil, mas convida a uma instrutiva reflexão, a diferença entre “crença religiosa” e “fé em Deus”. Católica, Armstrong entrou numa ordem religiosa e foi freira durante sete anos. Nesse tempo, conta, mergulhou na história da vida monástica e em minuciosas discussões sobre a Regra de sua ordem. “Muito estranhamente”, prossegue, “Deus entrava muito pouco em cada uma dessas coisas. As atenções pareciam concentrar-se em detalhes secundários e nos aspectos mais periféricos da religião. Lutei comigo mesma na oração, tentando obrigar minha mente a encontrar Deus, mas ele continuou sendo um severo capataz, observando cada infração minha da Regra, ou então tantalicamente ausente.”

Karen Armstrong diz que teria sido poupada de muita ansiedade se os mestres de alguma das três grandes religiões monoteístas — o cristianismo, o judaísmo e o islamismo — lhe ensinassem que, em vez de esperar que Deus desça das alturas, deveria ela própria criar um sentido para ele. Em vez de deixá-la supor que Deus fosse uma realidade “lá fora”, deveriam tê-la ensinado que Deus é “produto da imaginação criadora, como a poesia e a música”. E então vem esta afirmação perturbadora, afiada com a lâmina do paradoxo para melhor ferir a inteligência: “Uns poucos monoteístas extremamente respeitados teriam me dito discreta e firmemente que Deus não existe — e no entanto que ele era a mais importante realidade do mundo”.

A experiência de Deus não é necessariamente pacífica, ou apaziguadora. “A fé não é a ausência da dúvida”, diz o rabino Sobel. “Eu como rabino tenho muitos problemas com Deus, como Deus deve também ter problemas comigo. Mas nem por isso desisto. Faço da minha dúvida a vontade de conhecer melhor.” Sobel diz que, quando perdeu a mãe, questionou a justiça de Deus: “Por quê?” Depois, entendeu que a pergunta não era “por quê?”, mas “para quê?”.  “Aprendi que a dor deve servir a uma finalidade maior. Existe uma missão na vida, e essa missão é enriquecida pela dor.” O mesmo raciocínio o rabino emprega com relação ao holocausto do povo judeu sob o nazismo. “Seis milhões de judeus foram massacrados, e o sol continuou a brilhar e a grama a crescer. A fé leviana se esvazia nesses momentos como um balão de ar espetado pela agulha da realidade. Mas a fé levou o povo judeu a se reerguer das cinzas. A fé é a coragem de continuar. Crer significa viver com Deus, contra Deus, mas jamais sem Deus”.

A injustiça e a barbárie são outros elementos que em nosso século empurram no sentido do afastamento de Deus. Não que outras épocas fossem mais justas e gentis. A singularidade está em primeiro lugar na escala, nos milhões de mortos em duas guerras mundiais, na estupidez sem nome do holocausto e na carnificina calculada de Hiroshima; em segundo lugar nos meios de comunicação, que levam o conhecimento das brutalidades a toda parte; e em terceiro na injustiça consciente e consentida em países como o Brasil. Este não é um tempo de inocência. Sabe-se o que leva ao desequilíbrio social, ao desamparo e à miséria, e no entanto se continua a aceitá-los como se fossem forças invencíveis como uma tempestade ou um terremoto.


A adversidade pode conduzir ao reforço da fé, em casos como o de Sobel, mas em outros produzirá resultado oposto. Para ficar no holocausto, o escritor judeu Elie Wiesel, prêmio Nobel da Paz em 1986, conta que viu esvair-se sua fé em Deus junto com a fumaça que observou subir do crematório de Auschwitz na primeira noite que passou lá. Sua mãe e a irmã morreriam naquele local. Um dia, uma criança foi enforcada ea cena: m frente de todos. Um prisioneiro, atrás de Wiesel, perguntou ao olhar “Onde está Deus?” Onde está Deus que não vem praticar sua justiça?, ele queria dizer. Onde está Deus que não impede essa atrocidade? Wiesel nesse momento ouviu uma voz dentro de si que respondia: “Deus está ali, pendurado naquele patíbulo”. Deus morria, para ele.

A pergunta “Você acredita em Deus?”, por seu convite à introspecção e a um olhar sobre as questões extremas da vida e da morte, é a mais tremenda das perguntas. Entre as respostas, há duas clássicas, uma no âmbito mundial, outra brasileira. A mundial é a resposta do psicólogo Carl Gustav Jung num programa de televisão americano: “Eu não acredito. Eu sei!” Jung cumpriu uma trajetória em que, a partir dos cacos a que a psicanálise freudiana reduzira o sentimento religioso, pretendeu reconstruir um misticismo possível para o século XX. A resposta clássica no âmbito nacional é a do hoje presidente [artigo escrito em 1977] Fernando Henrique Cardoso, quando candidato a prefeito de São Paulo, em 1985, num debate na televisão. “Essa pergunta o senhor disse que não faria”, começou por reclamar o então senador ao jornalista que a formulou, Boris Casoy. E continuou:

— É uma pergunta típica de quem quer levar uma questão que é íntima para o público, uma pergunta típica de alguém que quer simplesmente usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique, que não está em jogo. Devo dizer ao deputado Boris Casoy que este nosso povo é religioso. Eu respeito a religião do povo e, na medida em que respeito a religião do povo, as várias religiões do povo, automaticamente estou abrindo uma chance para a crença em Deus.

Nessas poucas linhas há material para várias considerações. O embaraço de Fernando Henrique é tal que chega a chamar o jornalista de “deputado”. Sua resposta, na parte mais substantiva, se é que há alguma substância nela, é estapafúrdia. “Respeitar” a religião de alguém não parece trazer como consequência “automática” admitir a crença em Deus. Não fica claro, além disso, a quem se está “abrindo uma chance” para acreditar em Deus — se ao povo ou ao próprio entrevistado. Se for ao povo, ele, Fernando Henrique, não tem autoridade para abrir ou fechar chances numa questão dessas. Se for a ele próprio, resta saber o que seja “abrir uma chance” para acreditar em Deus.

Fernando Henrique não quis responder objetivamente sabe-se por quê. Se dissesse sim, seria chamado de cínico por todos os que sabem que em seu passado e sua formação intelectual não há vestígios de religião. Se dissesse não, temia afastar um eleitorado que se supõe não esteja preparado — não para votar, como diria Pelé, mas para separar a fé em Deus da moralidade. Para o comum das pessoas, não acreditar em Deus equivaleria a ser mau. Mesmo sem conhecê-la, muitos brasileiros concordariam com a frase famosa de Ivan Karamasov, personagem de Dostoievski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

Fernando Henrique, em sua famosa resposta, por mais tortuosa e titubeante, tem razão em três pontos. Primeiro, que a pergunta era uma armadilha. Foi formulada para embaraçá-lo. Segundo, que a questão não estava em jogo. Não é por acreditar ou não em Deus que alguém será melhor ou pior prefeito. Por último, e mais importante, a questão é íntima. É de uma intimidade brutal, tanto quanto uma pergunta sobre os hábitos sexuais de alguém.

É a mais tremenda das perguntas, mas não é a mais velha. Não faria sentido formulá-la aos personagens que, na Bíblia, protagonizam as histórias da aurora da humanidade, segundo nota o americano Richard Elliott Friedman, professor de hebraico e teologia e autor de outro livro traduzido no Brasil, O Desaparecimento de Deus (Editora Imago). Adão ouve os passos de Deus, no Jardim do Éden, Abraão dialoga com ele. Como perguntar-lhes se acreditavam em Deus? Eles simplesmente “sabiam”, como Jung. Na travessia do deserto, conduzida por Moisés, o povo de Israel tem diante de si uma nuvem a apontar-lhe o caminho, alimenta-se de maná, um milagroso alimento que cai do céu, e bebe água que jorra das pedras. São milagres sobre milagres, a atestar a presença permanente de Jeová. Não teria cabimento perguntar se aquele povo acreditava em Deus. E, no entanto, dá-se um fenômeno espantoso, ressaltado por Friedman: a geração do deserto está sempre a reclamar, ou a trair Jeová adorando falsos deuses.


Hoje é mais difícil acreditar em Deus. Ele não nos visita com tanta frequência, e as proezas milagrosas migraram para os sacerdotes da ciência, capazes de tornar possíveis viagens pelo espaço e clones de seres vivos. Acreditar em Deus implica uma opção muito mais consciente, meditada e deliberada. “Uma das coisas mais bonitas que Deus criou foi o livre-arbítrio”, disse a VEJA o pastor Valdir Raul Steuernagel, diretor do Centro de Formação Teológica da Igreja Luterana. “Abraçar a fé é ato consciente do ser humano. Exige sua participação ativa e racional.” Outro entrevistado, o professor Mário Sérgio Cortella, do departamento de teologia e ciência da religião da PUC de São Paulo, afirma: “Há cinquenta anos, quem nascia numa religião morria nela. Agora, a pessoa pode escolher várias alternativas. Isso reforça seu caráter de busca individual”.

Mas acreditar ou não em Deus liga-se também a algo muito antigo. Apesar de todos os progressos da ciência, e de toda a liberdade para conjeturar, não há resposta humana ainda às perguntas cruciais a respeito de onde viemos, para onde vamos e o que fazemos aqui. Diante da perplexidade que elas provocam, somos frágeis como um pastor de ovelhas do tempo em que o mundo e as sociedades estavam se fazendo, tal como relatado na Bíblia.


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