A verdade sobre GRANDE SERTÃO: VEREDAS, de GUIMARÃES ROSA


Grande Sertão: Veredas é uma “vaca sagrada” da literatura brasileira. Não gostar dessa obra do Rosa é o suprassumo do “culturalmente incorreto”. O máximo que você pode dizer é que não está à altura do livro, não está preparado ainda para ler o livro. O defeito não é do livro, é teu.

O livro tem qualidades enormes que não vou declinar aqui porque já o foram sobejamente. Mas tem defeitos também. Quer saber a verdade sobre Grande Sertão: Veredas? Então me acompanhe.

1) Vê-se  de tudo em Grande Sertão: Veredas, uma Ilíada brasileira, um pacto faustiano sertanejo, uma regressão à língua primordial pré-Babel, menos o que a obra realmente é: uma grande “guerra de quadrilhas” ou, mais exatamente, guerra entre bandos de jagunços que percorrem os sertões das “Gerais” meio que sem destino com sede de luta e vingança. “O senhor sabe o mais que é, de se navegar sertão num rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso diferente, sem juízo de raiz?” (pág. 275 da 37. edição, da foto abaixo) “Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde o homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada.” (pág. 92) Em meio a toda essa violência desenfreada tropas do governo também metem a colher. Só que guerra de quadrilha urbana tem um objetivo: conquistar território para vender drogas para ganhar dinheiro. E essa guerra sem fim dos jagunços aparentemente não tem objetivo concreto, ou se tem Rosa não deixa claro qual seja: é a guerra pela guerra, as eternas vendetas.


2) Os personagens que travam essa guerra, por mais pitorescos que se afigurem na criação artística de Rosa, são maus: matam com prazer, estupram, invadem cidades e saqueiam o comércio, numa das cenas mais revoltantes massacram cavalos só de maldade, tem cena de antropofagia (“o corpudo não era bugio não, não achavam o rabo. Era homem humano” - pág. 43), é gente com culpa no cartório. “Jagunço – criatura paga para crimes, impondo o sofrer no quieto arruado dos outros, matando e roupilhando” (pág. 191)

São todos maus, menos o protagonista/narrador. “Eu Riobaldo, jagunço, homem de matar e morrer com a minha valentia.” (pág. 174) Esse é o protótipo de um arquétipo da literatura: o bom bandido. O bandido filósofo, porque está preocupado com a questão da existência de Deus e do diabo (como se a existência de Deus e do diabo fosse a suprema questão filosófica). O bandido poeta (o discurso de Riobaldo tem, sim, poeticidade). O jagunço que entrou na jagunçagem não por ser ruim, mas pela força de um destino de tragédia grega (ἀνάγκη) que o empurrou para a “vida de jagunço”. “Por que será que eu precisava de ir por adiante, com Diadorim e os companheiros, atrás de sorte e morte, nestes Gerais meus? Destino preso.” (pág. 171) O problema é que não existe “bandido bom” na vida real. Só na literatura e numa ciência social descolada da realidade. (Como posso ser tão tacanho a ponto de equiparar Riobaldo a um bandido? Dirão)

3) Uma das virtudes apontadas em Grande Sertão: Veredas, aliás, a virtude cardeal, que impressionou o meio intelectual da época do lançamento (segunda metade da década de 1950) e continua impressionando até hoje, é a inovação, a criatividade linguística. Segundo Alexei Bueno, “uma espécie de expressionismo linguístico onde violentas deformações da base já muito requintada que é a expressão oral do sertanejo brasileiro conseguiram atingir sínteses artísticas e emocionais espantosas”. Não que a linguagem do sertanejo (ou de outros estratos da população menos letrada) nunca tivesse sido reproduzida tal e qual. Já havia sido, em diálogos. 

Mas aqui não se trata só de diálogos entre personagens. Um narrador conta a história, da primeira (“Nonada”) à última (“Travessia”) frase, em uma linguagem supostamente de um sertanejo, livre das amarras da “norma culta”. Que não é uma linguagem de um sertanejo comum, qualquer. É a linguagem de um sertanejo idealizado, esclarecido, de pendores poéticos, inclinação filosófica, que discorre “sabiamente” sobre o bem e o mal, Deus e o diabo na terra do sol, em suma, um sertanejo criado pela imaginação fertilíssima, pela genialidade do Rosa. No fundo é a linguagem do Rosa se ele, homem urbano, diplomata, cultíssimo, fosse viver no meio sertanejo! Rosa é louvado por ter revolucionado a língua. Revolucionou mesmo? A língua falada pelos brasileiros mudou em decorrência da obra do Rosa? Por outro lado, se alguém escrever um livro inteiro em miguxês/internetês, que é o calão dos internautas, ou em gíria de traficante de morro carioca, tá ligado?, será louvado por ter revolucionado a língua? E uma língua com séculos de tradição literária carece de ser revolucionada? Não basta que evolua naturalmente?

4) A linguagem de Riobaldo, narrador de Grande Sertão: Veredas, soa estranha para quem abre o livro pela primeira vez, mas se você se esforçar e ultrapassar certo número de páginas, acaba se acostumando: é o que dizem. Como se acostuma com a sintaxe & pontuação esdrúxula do Saramago. Pois vou confessar uma coisa. No momento em que escrevo estas linhas já ultrapassei a página 300 e ainda não me acostumei com a linguagem. Digo mais: já enjoei dessa linguagem, tipo enjoo que se tem em navio depois de vários dias em alto-mar. É assaz frustrante ler uma obra em que, vira e mexe, você depara com construções léxicas que parecem não fazer sentido e onde as palavras que você porventura não entende (porque você não tem na cabeça todas as centenas de milhares de palavras da língua portuguesa) não constam necessariamente do dicionário. Querem exemplos?

Agora, advai que aquietavam, no estatuto. Nanja, o senhor, nessa sossegação, que se fie! O que fosse, eles podiam referver em imediatidade, o banguelê, num zunir: que vespassem. (pág. 227)

Assim que, inimigo, persistia só inimigo, surunganga; mas enxuto e comparado, contra-homem sem o desleixo de si. (pág. 317)

“É, eu vou com o senhor, e esse urucuiano Salústio vem comigo, mas é na hora da situação... Aí, na hora horinha, estou junto perto, para ver. A para ver como é, que será vai ser... O que será vai ser ou vai não ser...” (pág. 306)

Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual – e é o que é. Isso já aprendi. (pág. 301)

Vou ainda mais longe: há momentos em que o narrador parece estar delirando. Senão vejamos.

Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. (pág. 272)

5) E a fidedignidade histórica? Essas guerras de jagunços sem nenhum motivo aparente ocorreram realmente em Minas/Goiás? Sei que houve cangaço no Nordeste, sei que latifundiários praticaram (ou até ainda praticam) grilagem de terras e até lançaram ou lançam mão de jagunços para se apropriar de terrenos alheios, mas guerras entre bandos de jagunços tipo guerras feudais medievais sem qualquer objetivo ocorreram em Minas Gerais? (Aqui espero o socorro dos historiadores mineiros.) Aliás, Alexei Bueno, em seu ensaio “Ribeiro, Rego, Rosa e Rocha: Afinidades Eletivas” confirma essa minha sensação de irrealidade ao escrever que em Grande Sertão: Vereda sente-se uma organização social e militar muito mais próxima do que conhecemos como cangaço, pela independência, sobretudo, dos seus membros, do que de qualquer jaguncismo histórico daquele mais sonhado do que real norte de Minas”.

6) Grande Sertão: Veredas não é a maior saga da literatura brasileira do século XX. Quem detém o laurel, em minha modesta opinião, é O Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo, que conta, romanceadamente, a história da formação do Rio Grande do Sul, desde os primórdios até a era getuliana, com as rixas entre as famílias poderosas proprietárias das terras, reconstituição dos gauchismos mas... sem "revolucionar a língua", digamos assim.
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Na época do lançamento, Grande Sertão: Veredas foi recebido com estupor, diferente de tudo que se escrevera antes. Reconheceram os críticos as virtudes, mas também as dificuldades de compreensão da monumental obra (e um dos críticos chegou a aludir aos “exageros” do estilo roseano). 

Assim, diz Maria Eugenia Celso,  no Jornal do Brasil de 28/7/1956:

O que acho mais extraordinário em “Grande Sertão: Veredas”, o novo romance de Guimarães Rosa, é que, assim tão terrivelmente sertanejo no linguajar, no ambiente e na trama passional dos episódios, tenha sido escrito aqui por um diplomata num meio supercivilizado, para o qual aquela maneira de falar não pode deixar de ser um tanto charadística. Verdadeiro “tour de force”, a meu ver.

Escreve Manuel Bandeira em “Livros a Mancheias” no JB de 12 de agosto daquele mesmo ano:

Guimarães Rosa ouvi dizer que inventou uma língua nova, que não é nem a portuguesa, nem a brasileira, nem a de Mário de Andrade.

Em mesa redonda sobre Rosa publicada no JB de 2 de setembro afirmou Sérgio Milliet:

Mas com “Grande Sertão: Veredas” temos o grito de independência de nossa literatura. Depois deste livro será preciso reescrever a gramática do português do Brasil. [...] “Grande Sertão: Veredas” é sem dúvida alguma, o nosso grande acontecimento literário e linguístico do século. Está para a possível língua brasileira como a poesia de Villon ao findar a Idade Média.

Benedito Nunes, em “Primeira Notícia sobre Grande Sertão: Veredas”, no JB de 10/2/1957, escreve:

Grande Sertão: Veredas” ultrapassa o âmbito regional. No drama do sertanejo ou do jagunço, irrompem os grandes problemas humanos – seja a luta do homem contra a natureza que o estimula e o abate ao mesmo tempo, seja o ímpeto do jagunço que se põe em armas para defender uma causa indefinível, adota a lei da guerra menos pela rudeza de seu espírito do que pela necessidade de viver e de realizar o seu destino.

Aliás, trata-se do único crítico que ousa apontar as deficiências do estilo do autor:

Os trechos onde a linguagem decai, perdendo a sua eficiência expressiva, revelam os defeitos da técnica que o romancista preferiu adotar para ser fiel às situações vividas pelo personagem. Alguns desses defeitos são cacoetes estilísticos decorrentes do uso, tantas vezes abusivo das desarticulações sintáticas, contrações e elipses que, praticadas mecanicamente, não possuem mais valor expressivo. 

Josué Montello, em aula inaugural do Curso de Literatura proferida em 28 de março de 1957 na Faculdade de Letras de Lisboa, considerou Grande Sertão: Veredas “a mais arrojada aventura da nova ficção brasileira. Guimarães Rosa é um renovador da língua como Aquilino Ribeiro.”

Múcio Leão (JB, 1/5/1957) reconhece que a linguagem de Grande Sertão: Veredas é dificílima, “uma espécie de língua nova, inaceitável à maioria dos leitores, senão a todos eles. Eu mesmo, que terminei por achar uma pura delícia esse Grande Sertão: Veredas, tive muita dificuldade para conseguir lê-lo. [...] Resolvi lê-lo mais ou menos como se fosse um livro escrito em outra língua, uma língua aproximada desta que falo.”
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Em suma, “o sertão é do tamanho do mundo” (pág. 60), e Grande Sertão: Veredas é um clássico, um monumento da nossa literatura, inovador, impressionante, de tirar o fôlego, uma das três epopeias da língua portuguesa (as outras, Os Lusíadas e Os Sertões), segundo meu amigo Alexei, tudo isso admito, mas... não há nada de errado em você, nem você precisa ficar com sentimento de culpa, caso não goste do livro de Guimarães Rosa. Afinal, gosto se discute!

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