Todo mundo deve ter seu livro favorito, assim como tem seu filme favorito, sua cidade favorita. O interessante é que hoje, do alto de meus mais de setenta emocionantes anos, meu livro favorito continua sendo o mesmo do tempo em que tirei esta foto. Ou seja, décadas de leitura não modificaram meu livro favorito: Os Miseráveis, de Victor Hugo. Quem me induziu a ler o livro que se tornaria meu favorito foi meu pai.
O meu livro favorito deve ser o romance mais longo da literatura, ou pelo menos do século XIX. Li pela primeira vez quando tinha uns 16 ou 17 anos. Ainda não estava na faculdade. Como eu era filhinho de papai de Zona Sul carioca, com muito tempo ocioso, levava o livro para a praia e ficava horas devorando as páginas.
O meu livro favorito é uma obra-prima do romantismo francês. Tão cinematográfico em sua ação e ambiência, embora quando escrito o cinema nem tinha sido inventado. Mas depois que inventaram, paradoxalmente, nenhuma versão cinematográfica ou em série de TV sequer chegou aos pés do livro. Em anos recentes virou um megamusical, que virou filme também, mas nada substitui sua leitura.
Reli meu livro favorito, em edição portuguesa de Portugal em vários volumes quando sofri uma doença dos pulmões em 1986 que contraí nos frios da Escócia. Passava a noite tossindo, tossindo, e lendo, lendo...
É uma dessas obras monumentais (como também é Great Expectations do Dickens ou Guerra e Paz do Tolstoi) que só a estética do romantismo europeu conseguiu produzir, com personagens maiores do que a vida, dramas de tragédia grega, amores impossíveis que acabam se realizando, tendo como pano de fundo acontecimentos históricos: a Batalha de Waterloo, as barricadas de Paris na Revolução de 1832. Desfilam pelos olhos da imaginação do leitor o ex-bandido convertido em paladino da virtude, que resgata uma criança vítima de abusos, mas é perseguido implacavelmente por um inspetor da polícia obcecado, levando-o a viver anos clandestinamente num convento e a uma fuga eletrizante pelos meandros dos esgotos de Paris.
Recentemente dei-me conta de que não conhecia quase nada da vida do autor de meu livro favorito, o que me levou a ler sua biografia de 1998 pelo historiador inglês, especializado em história e literatura francesa, Graham Robb. Com suas quase 700 páginas de texto (sem contar os apêndices, notas e bibliografia), trata-se de um fascinante e abrangente relato da vida e obra desse gigante da literatura e poesia francesa. O biógrafo narra detalhes que você não encontrará em qualquer biografia, mas algumas passagens são um tanto divagantes e especulativas (meio que filosóficas ou psicanalíticas), difíceis de entender para uma mente mais objetiva. Graças a essa biografia descobri uma outra faceta do autor, como genial poeta, comparável em grandeza a um Goethe.
Ao comentar essa epifania com Alexei Bueno, ele observou: "O Victor Hugo era mais poeta do que qualquer coisa. Embora ele tenha sido imenso em todos os gêneros literários, além de um dos maiores desenhistas do século XIX, nele nada supera o poeta. Baudelaire sai dele, toda a poesia moderna, de certo modo, sai dele, até o surrealismo sai dele. E o homem não era menos fascinante do que o artista."

2 comentários:
Texto maravilhoso, Ivo! Parabéns e obrigada por compartilhar.
Abraços, Lívia Brasil
Me lembrei de uma viagem a Paris. A excursão passa na Place de Vosges. o guia aponta e fala: naquela casa (mansão) morou Victor Hugô. O brasileiro pergunta: o dono da loja de bolsas?
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