O POETA BAIANO CYRO DE MATTOS ESCREVE SOBRE A POETISA MINEIRA MARIA THEREZA NORONHA

Poesia como água de mina

Cyro de Mattos



O contexto pode até ser de amores, desamores e amizade. Sem admitir a esperança na metáfora esporádica. Expresso por meio de cânticos, canções e cantigas, o tema com o efeito cinematográfico ou sob o clima do surrealismo. Faça-se com experimentos poéticos, nele habitem os gatos na hora do afeto e da saudade. Transpire com os motivos do cristianismo, a memória com as suas raízes africanas, traga versos na ideia transparente, tocante, surpreendentes e satíricos, convite para dois dedos de prosa em torno da filiação ao álcool, por exemplo.

Assim é que Maria Thereza Noronha apresenta-se em Face de Outono, um livro de poeta madura, com várias tonalidades no seu alto nível de criatividade poética, correspondendo sem esforço ao que a vida propõe em seus dilemas e limites. Proceda de zonas lusitanas, com a abordagem do tempo. na travessia da memória, no verso livre, moderno, tradicional em que entram primorosos sonetos. Ela é suave, amorosa, trágica e triste, seu olhar com a face de outono e sua música de alma sensitiva são tecidos com as formas do encanto e do enigma.

Como a brisa que afaga, opera a partir de pequenos e de grandes momentos, sem a grandiloquência dos heroísmos, sempre com a expressão límpida e o conteúdo cheio de sentimentos, que gravita numa estação entre o alto e o baixo astral, os ditos com delicadeza. Água de mina molhando o pensamento e a razão, revela a vida por dentro, por entre os seres e as coisas, anunciados onde haja amor com suas invenções e imagens nascidas da fonte pura, presentes ou passadas. Com toques sutis no fluxo de águas translúcidas, lembradas às vezes com as amargas, há reflexões para acender a esperança nas feridas cicatrizadas. Nessa poesia de precisão vocabular e jogos imagísticos, a candura e o ardor da beleza ressoam nas impressões retiradas de bodas com o coração e a razão, de elogio ao bom senso com a sua fluência pessoal própria.

        Variação de outros poetas em poucos momentos, sempre íntegra e pessoal em sua iluminada atividade criativa, essa poesia também é feita com a entonação puxada como suave canto de pássaro. E, ao mesmo tempo em que encanta, faz pensar na alma sensitiva que sai de seu ritmo cristalino, conduzindo sentimentos dentro dos seres e dos elementos, com os seres e os objetos dentro dela, numa conexão perfeita da palavra mítica bem empregada, os símbolos construídos exatamente com as chamadas da vida e da morte.

        Sempre há uma genuína intuição do que pretende dizer com riqueza de vozes, dotadas de significados agudos, na demonstração de que o eu lírico sabe refletir e bem quando o teor de sua literatura gravita com grandeza. Não é só ardor de sentimentos, impulsos românticos de achados felizes. Em meio ao desconsolo onde vivemos há também no seu entorno criativo o poder de inventar com o conceito, que ocorre na direção do ser-estar, justamente quando se tem em mente a sobrevivência do tempo humano e sua história feita com movimentos constantes, paradoxos e estranhamentos.

Como bem diz a poeta nos três últimos versos do soneto “Canção Redonda”, toca-se aqui uma lira em que se desprende temas difíceis com os seus mistérios, que ensejam incertezas, da vida como dor, com as suas emboscadas, o seu beijo ferido em saudade, com uma linguagem aparentemente fácil mas nunca hermética, submissa a um código que só o autor entende. Pelo contrário, persiste na imagem singela formada às vezes com o gesto dos anjos, que a noite acende com as luzes da esperança e da ternura, da graça e do amor, por meio de palavras que consolam. .

No poema “Amargas”, em que fala “das palavras que gelam nas veias, pronunciando axiomas”, intolerantes semeiam “o pão que o diabo come”, e se indaga “quem cantará a palavra que consola e dulcifica sem mácula”, a resposta que teremos está nessas águas translúcidas singrando o que nela habita. E esse é o melhor alento que nos dá essa poesia que mata a sede com a água de mina, na corrente mansa salpica a sua face de outono, de cujo olhar emerge sentimentos do que mais possa sonhar, auscultar e dizer com sensibilidade o indizível. .

É verdade que muitas lembranças minguam, tantas que se enredam de “dor ou cor, ou flor, ou glamour, de saudade e amizade, brumas” , mas recorrente à sua crença, envolvente em seu abraço, essa alma de poeta, que é verdadeira, intensa, em Maria Thereza Noronha, nos diz que as espumas de sua poesia a todos enternecem. Porque afaga como o vento em carícia, diáfana transluz seus efeitos de alto astral em celebração da vida. Fica sempre a impressão de que seus versos nunca aborrecem. Clareiam a noite como as estrelas, perfumam com as flores diurnas, pois tudo que nela ressoa são de poemas dotados de uma clarividência que brilha ante o efêmero, riscados permanecem com as suas verdades no instante do eterno.


*Face de Outono, Maria Thereza Noronha, prefácio de Ivo Korytowski, contracapa de Alexei Bueno, Editora Sopa no Mel, São Paulo, 2026.


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