O NU SIMBÓLICO, de Antônio Torres



NOTA BIOGRÁFICA: Antônio Torres nasceu em Diamantina em 1885 e foi um veemente polemista de nossa imprensa nas primeiras décadas do século XX. Autor de Verdades indiscretas (1920), de onde extraímos este texto, Pasquinadas cariocas (1921) e Prós e contras (1922). Morreu em 1934 quando servia como cônsul em Hamburgo. Não confundir com o famoso escritor baiano contemporâneo autor de Um cão uivando para a Lua.

Chamava-se Serafim Dias e era um símbolo nacional. Tendo bebido mais do que lhe permitiria a Escola de Salerno, ou ainda a Universidade de Coimbra, foi Serafim ao largo do Rocio [atual Praça Tirandentes], saltou o gradil da estátua de Pedro I [foto acima], o Libertador, grimpou [=subiu] como um símio pelos índios e pilastras acima e atingiu o cavalo. Era, entretanto, pouco para o civismo de Serafim. Um cidadão, quando chega a tal estado de entusiasmo patriótico, carece de mais. Serafim, não contente de cavalgar o cavalo, entendeu que convinha amansar o cavaleiro; e lá se foi pelo imperador arriba até o capacete, onde se assentou tão comodamente como um prelado na sua cadeira prelatícia. Essa quietação, porém, durou pouco. Se grande era o desejo de descansar do esforço da subida, maior era o entusiasmo de Serafim, que se levantou e ficou de pé sobre o imperial chapéu armado, isto depois de arrancar toda a roupa que trazia (e que não era muita), a ponto de poder, se soubesse latim bradar como Jó: Nudus egressus sum de utero matris meae [Nu saí do ventre de minha mãe]! Mas em vez desta tirada bíblica, Serafim, de pé, sobre a cabeça do Libertador, bradou aos quatro ventos da praga: “Sempre fui monarquista e admirador de Dom Pedro I, que deu liberdade a esta terra !” 

Cá em baixo, o poviléu, numeroso e compacto a ponto de interromper o transito, apoiava e ria-se . O nosso povo, sempre que se trata de aplaudir discursos patrióticos, tem o singular costume de sublinhar cada apoiado com uma gargalhada. Mas o entusiasmo de Serafim ainda não estava satisfeito. Do Capitólio à Rocha Tarpeia [encosta do Capitólio de onde eram lançados os criminosos], segundo já proclamava há quarenta anos, no largo de S. Francisco, o sr. Lopes Trovão, vai apenas um salto. A mesma distância provou ontem Serafim que vai do capacete do Libertador até o exemplar da Constituição que ele oferece aos povos agradecidos. De um salto ele conseguiu apegar-se à Carta; e ali mesmo, sustentado pelo braço armipotente de Pedro I, executou várias manobras de malabarista, dando cambalhotas, ficando preso ora por um braço, ora por uma perna, dando giros sucessivos e, uma vez que estava nu, fazendo pensar no sino fantasma do sr. Augusto de Lima, o qual termina: “A badalar! A badalar!...”

Até que depois de uma hora desses exercícios ginásticos, chegaram os bombeiros e encerraram a sessão, fazendo Serafim descer e levando-o para a delegacia. Símbolo magnífico, o Serafim ! Os nossos patriotas, sempre que querem mostrar aos povos o seu patriotismo, dão cambalhotas e fazem malabarismos na Constituição da República, exatamente como Serafim, por excesso de monarquismo e vinho, fez piruetas clownescas no braço do Imperador...

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