MACHADO DE ASSIS: TREZE MELHORES CONTOS
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NOSSOS DEUSES (porque amo Oscar Niemeyer), de HELIO BRASIL


Eles existiram, alguns ainda existem, porém só comigo convivem. E somente comigo, deixarão de existir. São e foram de carne e de osso, riram, choraram e, como todos os deuses, entre baixezas, praticaram raros milagres. Pelo menos, por mim reconhecidos.
E como qualquer deus, fracassaram.
Quando ingressei na Faculdade, disposto a percorrer um curso de arquitetura, tal uma disputa de salto em altura anual – ufa, saltei mais um –, os anos de 1950 anunciavam que a aurora já se fora e um meridiano sol nos aquecia: a arte moderna. Invenção e redescoberta. Raros, então, ainda torciam o nariz aos abstracionistas, raríssimos e tímidos chocavam-se com Picasso (eram os derrotados das barricadas). A arquitetura, sobretudo a aventura racionalista – a razão prevalente –, impunha-nos a tabula rasa . Nada se fez, tudo se erguerá. A arquitetura é invenção, os modelos são moldes descartáveis, cujo odor de mofo confunde-se com a peste nas velhas cidades, onde o ornato tornou-se crime. O que seria o amontoado de casas assobradadas com suas réplicas de arquitraves, molduras e acantos? As massas trabalhadas em granito, degraus, hachuras de prata, o entardecer dos topos das cúpulas, em brilhos tristonhos ? Incômodo monturo a insistir em discursar na empolada algaravia do século XIX. (Ah, sim, sim. Tínhamos o barroco. Lá, lá, bem ao fundo, recém exumado em perfil confuso, massa iluminada em nesgas, lembrando: Olha bem, este é o teu único passado. Respeita-o. Para o resto, tapa o nariz. Deixa-o apodrecer em imagens amareladas. Desprezo ).
Um traço rompe a alvura do papel e rompe o bidimensional. Firme. Reto aqui, alonga-se, curva-se, envolve um jardim, é dorso liso, plana suave no espaço, mantém-se eqüidistante do solo, assenta-se na discreta sombra própria que esconde o exigente beijo da estática , levita plástica placa. O espaço ofega a linha curva respira. É Oscar.
Outro traço. É geometria, catetos imóveis a espera de uma hipotenusa jamais feita, pois, em sucessivos saltos ortogonais evoca o segmento áureo. A disciplina de quadriláteros justapostos, olham a luz, deixam a luz, ao toque da técnica. Da sombra salta, luminosa, a forma rígida, pura. Equilíbrio.  O espaço respira. É Jorge.
Mais um traço. A doçura disciplinada da linha que envolve, desenha-se, abraça a forma e a faz iluminada de doce virilidade. Coloratura e cordialidade fazem abrir-se o espaço que suspira. É Reidy.
Foram meus deuses. Seriam semi-deuses Bernardes, Ernani, Mindlin.
Quem é ousado? Quem se atreve a ignorar o chão, onde as garras da gravidade rugem a sugar os corpos que querem levitar, transitar no espaço. Liberdade! Liberdade! Existe? É possível? Quem responde é a formidável massa de cimento, areia e ferro, caldo cinza esverdeado, um vômito expelido após a farra da liberdade, ajustado antes a tábuas justapostas e sobrepostas, logo desprezadas pelo concreto frio, indiferente às tramas da atração dos corpos, que corta sem gemidos o espaço, ergue-se vaidoso, arrogante e diz EU SOU A FORMA. Escrava da FUNÇÃO, vestida contudo de pompa e orgulho a quem se lega o ofício de prestar contas, dizer a que veio. Inútil dizer, sempre existi e sou noiva em casamento já vencido...
Na aldeia dos tupiniquins baixavam os avatares Le Corbusier, Frank Lloyd Wright, Mies Van Der Roe, Groppius – Walter Bauhauss Groppius. As palavras dos homens feitas divinas, tornadas ordens, rígidas, definitivas.
Brasília equilibrou-se, entre ordenadas e abscissas, em torno dos rigorosos eixos e fez-se ortogonal, mítica, cínica e volúvel. Ao brotar no liso cerrado revelou a desfaçatez da proposta, expôs a fratura entre a vida e o pro-jeto. Um pilotis apunhalou o modernismo, o solo ingrato fez tremer os alicerces do não orgânico.
Restou no século uma figura, alquebrada, manchada, de brilho conspurcado: um deus sujo de barro, respingado de erros e de empoeiradas frases de esquerda, gauche malgré tout, vivo porém nos meus sonhos. Oscar, a livre linha que cruza o infinito.
Às minhas cinzas hão de misturar-se o pó do grafite com que tentei imitar o sonho. Oscar.

                                                     HELIO BRASIL (dezembro de 2011)
Leia também deste mesmo autor neste blog ARQUITETURA MODERNA NO BRASIL: ASCENSÃO E QUEDA
                                                          


3 comentários:

Ineifran varão disse...

Caro Ivo, a cada visita a seu blog, nos deparamos com textos de excelente qualidade, tanto pela beleza da escrita, quanto pelo conteúdo. Parabenizo-o pela excelência do blog. Abraços

Péricles disse...

HÉLIO, No mundo tudo é relativo. Uns gostam dos olhos e outros da ramela. Aparentemente você optou pela ramela.

Anônimo disse...

Péricles:
No meu ocaso, tenho, sobre o que vi e vivi, uma luz amarelada que dá contornos estranhos à minha história e às minhas pobres vivências. Abri os olhos para o mundo da arte e da arquitetura sob a luz forte do modernismo. Com a distância, penso ver suas limitações e suas excelências. Mas mantenho o respeito ao que também se fez sob outras legendas, reconhecendo-lhes o mérito e, sobretudo, a garantia da continuidade da arte brasileira. Fui aluno de alguns fortes defensores do Ecletismo, tão achincalhado naqueles idos, e reconheço-lhes a cultura e a competência. Não sou tão ramelento assim, meu caro. Um abraço.