ARQUITETURA MODERNA NO BRASIL: ASCENSÃO E QUEDA, de Helio Brasil



Encerrada a Feira Internacional de 1889, em Paris, restou sua peça mais significativa à qual os franceses, a princípio, torceram o nariz. Seja pela permanência seja por suas reais virtudes plásticas, a torre projetada por Eiffel (1832-1923), sobreviveu à Exposição e carimbou a nova tecnologia, antecipando a famosa máxima atribuída ao americano Sullivan: “A forma segue a função”.  Basta que nos aproximemos da torre e apreciemos seu esqueleto metálico para entender a mensagem.

Exageros críticos à parte, dentre as muitas lições deixadas pelo notável engenheiro francês, foram definitivas a audácia e a possibilidade tecnológica trazida pelo aço. Do alto dos 300 metros da torre, literalmente, o homem ampliou seus horizontes e neles divisou mais do que uma única tecnologia. Corrobora esta imagem o fato de que não foram apenas as construções metálicas que, em definitivo, marcaram o movimento moderno. Com sua alma de plasticidade artesanal, ‘fôrma’ e forma dialogando sob as mãos dos herdeiros do modesto jardineiro Monnier, a docilidade do concreto armado permitiu “cubar” os volumes, recém-libertados pela audácia pictórica de impressionistas e cubistas. É fácil a associação visual entre as experiências de Braque (após Cézanne) e a enxutês de Adolf Loos. O austríaco amaldiçoou as nódoas que as artificiais pétalas dos ornatos deixavam sobre os planos. O século XX, ainda sob as luzes do século XVIII, renunciava ao século XIX e emprestava novos marcos à humanidade.

Na França, um bom europeu, Le Corbusier, sempre de costas para o Novo Mundo, e Frank Lloyd Wright, um típico americano, ignorando o Velho Continente – ambos cultos – traçaram seus projetos forçando a falsa dicotomia racionalismo versus organicismo. Difícil para os estudiosos, ao analisar toda a obra, de um e de outro, é encontrar a rigorosa permanência de princípios...

Nos EUA, W. Jenney, Sullivan e seus seguidores, ajudados por Ottis, já haviam se apropriado das novas tecnologias, arranhando os céus da América e fazendo com que a arquitetura yankee tivesse avós e pais reconhecidos.  

Na Europa, o desapontamento com a tecnologia ariana da suástica levou a Bauhaus de Groppius a doutrinar em sentido oposto. Coisa não assumida por Albert Speer, que ao cumprir os pedidos esboçados por seu führer, terminou condenado ao olvido, de certo modo, injusto. O mesmo aconteceu com as experiências mussolinescas, na arquitetura dos jovens Sant’Elia e Terragni. Arquitetos e respectivas obras foram associadas a seus criminosos patronos, obstruindo juízos apolíticos das mesmas, se isto for humanamente possível. Ligadas ao período infausto da vida europeia, suspeitas de conteúdo ideológico, tais obras dificilmente receberiam crítica isenta. Muito menos, divulgação.

Cabe perguntar: se, por um azar da humanidade, o Eixo tivesse triunfado, como seria escrita a história da arquitetura moderna? Groppius e Mies migraram para os EEUU, levando mais a forma do que o conteúdo de suas propostas. E se o mestre fosse Speer?

Mas a história não vive de hipóteses...

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Ao descermos o Atlântico e cruzando o equador, nos anos 30 e 40 do século XX, vamos encontrar um Brasil tão grande quanto pobre, ainda vivendo o ufanismo vazio de nação adolescente.

No cenário setentrional o grande conflito de 1914-18 deixou uma alquebrada Europa em aparente convalescença, e o continente norte-americano em ascensão, ensaiando a maioridade dos EEUU.

Passados 21 anos, o duvidoso entendimento entre as nações foi sucedido por novo conflito mundial. Esperado, talvez; fomentado, ou quem sabe a simples continuação do primeiro? A “Liga das Nações” (madrasta da ONU) de 1918 a 1938 fracassara tanto quanto sua sucessora, em nossos dias.

Fotografando a nação brasileira nos meados da década de 1930, vemos um país que há pouco mais de meio século renegara a escravidão e a monarquia. Diríamos que a república, ou melhor, a autêntica representação popular ainda não assentara, aqui, bases sólidas.

No horizonte auri-verde, raiavam as reinações nacionalistas esboçadas por Monteiro Lobato e ouviam-se as buzinadas do Claxon tupiniquim da Semana de Arte Moderna de 1922. Controvertido, mas com a arrogância dos triunfadores, o Modernismo inoculava em nossos intelectuais um exagerado asco a tudo que se fazia até então, contaminando a elite pensante, desde o antilusitanismo da República (com a óbvia criação de anedotário histórico), ao indianismo romantizado, passando pelas penitências que purgassem o preconceito racial, face práticas iníquas aplicadas aos negros escravizados. Em suma, até ali teríamos feito tudo errado porque imitávamos os maus… Quebraríamos os espelhos e seríamos nós mesmos, e melhores.

Se este quadro (simplificado e talvez exagerado) é indicativo de que oferecíamos terreno virgem às novidades que aqui viessem plantar, somos obrigados a ressalvar as autênticas trincheiras intelectuais. Seria assim, injusto, omitir os papéis de Mário de Andrade e de Rodrigo de Mello Franco (sintetizando a lista) na “descoberta” de nossas jóias barrocas e a revelação de um sólido patrimônio cultural, até então, ignorado. Talvez seja este o episódio de maior substância para a cultura nacional, onde o sectarismo desaparece para dar lugar ao pluralismo que não execra a cultura “popular” em benefício da “erudita”, e tenta fazer as duas caminharem em passo igual.

No que concerne à arquitetura, contudo, há outras considerações ao avaliarmos as transfigurações trazidas pela Semana Modernista

Vamos lembrar que à robustez da literatura e das artes plásticas, não corresponde no movimento de 1920 uma eficaz manifestação de nossa arquitetura.  Arquimedes Memória e Ramos de Azevedo, no quase consolidado eixo cultural Rio-São Paulo, ainda exibiam obra tão extensa quanto duradoura, sem adotar a cartilha modernista, para eles um espartilho formal, disfarçado de libelo pela liberdade de criar o “novo”. Mesmo assim, contrariando a crítica de então que os considerava acadêmicos incuráveis e, pior, cristalizados em suas experiências fantasiosas, Memória, principalmente, exibe arrojo na marquise do Jockey Club e vitalidade na igreja de Santa Teresinha, em Botafogo. Os anúncios de que a “modernidade” não lhes era estranha, podem até hoje ser vistos por quem se der o trabalho de examinar as citadas obras. Cuidava-se muito mais das preferências políticas de Arquimedes Memória e seu alinhamento com facções direitistas. O julgamento do maduro arquiteto foi (e tem sido) parcial e arrogante, simplesmente desprovido de isenta análise crítica, e, pior, ausente de qualquer fundamento cultural. Uma réplica, talvez, à infeliz “carta-denúncia” que o mesmo Arquimedes Memória faz ao advertir o governo getulista sobre os perigos da ameaça “esquerdista” que marchava sobre o país com a arte dita moderna (ver Le Corbusier no Brasil). Mais adiante voltaremos ao fato.

Igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus em estilo art déco, com influência gótica. Projeto de Archimedes Memória & Francisque Cuchet de 1935.

Irrelevantes picuinhas pessoais, vaidades feridas e egos em conflito ajudam pouco nas avaliações históricas. Torna-se questão vital: até onde o “engajamento” da arte a faz maior ou menor? Brecht é um bom teatrólogo ou é um equivocado defensor de idéias marxistas? Seu delicioso personagem, o senhor Puntilla é apenas uma caricatura ou autêntico arquétipo? As colunatas barrocas e as vias processionais romanas apenas exaltam o poder dos Papas e dos césares ou criam definitivas referências da polis romana? A White House devia ostentar proporção mais modesta, já que o poder não deveria (ou poderia) emanar dali? O Palácio da Alvorada, em Brasília, expressa um momento democrático do Brasil ou exibe o poder de uma burguesia, por fim, consolidada e levada ao trono? 

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Sem respostas às questões levantadas – se legítimas –, vamos examinar o papel da arquitetura moderna entre nós, voltando à primeira metade do século anterior. Tentemos um paralelo entre a modernidade gerada no Velho Continente, para aqui transplantada e seus desdobramentos lá e cá.

Se a Europa, a partir de 1939 era um cenário de destruição e desespero, seus centros de produção cultural comprometidos, perguntava-se: para que mãos passaria o cetro, a chama olímpica da cultura ocidental? Os EEUU, vitoriosos, já empunhavam a tocha libertária na baía de Hudson e contemplavam seu mercado consumidor esvair-se nas trincheiras, aguardando o momento oportuno para, com o Plano Marshall, estender ao Velho Continente a bolsa salvadora... e senhorial.

Improvável e impossível para aquela Europa dos anos 30 e 40 dar atenção às ousadias de Le Corbusier, Groppius, Mies e outros. Pintar, esculpir, seriam passatempos ociosos (senão irônicos) diante dos esfomeados e dos cadáveres nos fronts minados e nos campos de concentração. Construir, então, seria atitude suicida diante dos escombros revirados pelos constantes ataques aéreos. Como perder tempo com propostas utópicas (e caras?) de “máquinas de morar”, “cidades radiosas” e racionais “funções urbanas”? A Carta de Atenas era menos que um documento. Apenas  mais uma proposta nefelibata, condenada a amarelar dentro das gavetas burocráticas. Após o último disparo de canhão, ao derradeiro cessar-fogo, à Europa só caberia contar os mortos e alimentar os vivos.

Enquanto o Velho Mundo vivia o inferno da guerra, o Brasil dela participava com os contingentes da FEB e outros sacrifícios. Dentro de suas fronteiras: limitações impostas pelos cartões de racionamento e uma vaga sensação de que, afinal, éramos notados. Disney descobrira o Zé Carioca e Hollywood, Carmen Miranda.

Um campo virgem para experiências estava disponível. Os cabos estavam ligados. Faltava o gerador. A exemplo do que ocorre na eletricidade, a diferença de potencial faz com que se desloque, em queda, do maior para o menor, a corrente que iluminará o ponto distante.

A Europa, um caldeirão de idéias contraditórias, dúbias e ameaçadoras, entre o capitalismo salvador e o socialismo empobrecedor, lambia, ainda, as feridas da guerra. No Brasil, o fermento local era favorável à proliferação de novas idéias, não importa a maneira com que seriam interpretadas, absorvidas ou implantadas. Quase uma folha em branco.

O próprio ecletismo não mais dava as cartas em Pindorama e o século XIX, seus barões, suas encasacadas figuras eram objeto de charges e até desprezo. Os rebeldes não tinham outra causa, a não ser a modernidade.

Assim, sem esquecer o pioneirismo da (insípida) casa do arquiteto Gregory Varchawsky, em São Paulo (1920), no Rio de Janeiro, um dream-team de expressivos valores aguardava apenas a descarga elétrica que os faria eclodir.

Na década de 1930, já tínhamos (e sobreviveram) exemplares interessantes de uma arquitetura que reconhecia a “mudança de escala” – ou a verticalização imposta como prova de avanço – denominada proto-moderna (ou pré-moderna), de influência americana, por certo, em alguns edifícios interessantes: o edifício de “A Noite”, o Hospital do IPASE, a Central do Brasil, e alguns silos e instalações na área próxima à Praça Mauá, dentre outros. Hibridismos nacionalistas e modernistas acomodam-se no figurino Art-Dèco. São obras que poderiam integrar as páginas de Pevsner, Zevi e outros ilustres historiadores. Na época eram vistas como uma arquitetura “pesada”, isto é, não estavam nos cadernos dos nossos fiscais do modernismo... Uma idéia levantada pelo professor e historiador Nireu Cavalcanti lança luz curiosa sobre aquela arquitetura: seria a solução “eclética” para a verticalização. Um avanço, portanto.

Central do Brasil, marco (assim como a estátua do Cristo no Corcovado) do art déco carioca

Se o Estado Novo (1935-1945) de Vargas, viesse a eleger seu “estilo oficial”, haveria de se empolgar com a arquitetura dos já lembrados Speer e  Terragni, darlings de Hitler e de Mussolini, jamais com as simplificações formais de Corbusier, de Groppius, de Mies ou as alucinações futuristas de Sant’Elia. Lúcio Costa, cultor da nossa tradição barroca (para ele, algo definitivo) fora banido da “nova” Escola de Belas Artes. Briga política ou estético-conceitual? Lúcio decretou que fosse amaldiçoada toda a produção após o neoclássico. Faríamos tabula rasa a partir do colonial, ele próprio rompendo em público o breve noivado com o ingênuo e simpático neocolonial de José Mariano da Fonseca.

A cordialidade brasileira, afirmada por Sérgio Buarque de Holanda, pregou uma peça à ideologia da Ditadura. Ironicamente, a quem caberia divulgar a mensagem estado-novista, um Ministro de Ditadura – calcado no comportado binômio educação-saúde –, sobrou o papel de inoculador de germens renovadores, logo taxados de esquerdistas. Um mero (e curioso) desvio ideológico no episódio mais ilustrativo do que definitivo: o Concurso para o projeto do Edifício do Ministério da Educação e Saúde. As marchas e contramarchas da disputa são do conhecimento de todos, ainda que as explicações mantenham reticências. O projeto triunfante no certame, de Arquimedes Memória, foi rejeitado e o arquiteto reembolsado na forma do regulamento. Para os que militam na profissão e pensam arquitetura além do (legítimo) campo profissional-comercial, não foi solução simpática. O grande patrono do concurso foi o próprio Ministro getulista de então, o mineiro Gustavo Capanema (hoje, nome do prédio), assessorado por vozes ilustres, onde não faltavam os versos brancos de Drumond e as reflexões nativistas de Lúcio Costa, agora convertido ao modernismo. Os chamados, então, foram os modernistas, sobre eles pesando as mais graves acusações políticas.

O prédio por fim erguido (entre 1937 e 1943, com base em projeto de 1936) e que antes dominava todo o espaço da quadra, em plena esplanada do Castelo, cercado inicialmente por um justo não-me-toques, foi o belo Palácio Capanema, síntese não apenas dos princípios doutrinários de Le Corbusier (voltando ao Brasil para a inicial consultoria) como também da extraordinária capacidade brasileira de improvisar equipes. O dream-team então reunido (união cuja perenidade teve vida curta), faria inveja aos enciclopedistas do século XVIII. Lúcio Costa, Jorge Moreira, Afonso Eduardo Reidy (curiosamente todos brasileiros... nascidos na França), Hernani Vasconcelos, Athos Bulcão, Carlos Leão, Burle Marx, Portinari e, por fim, mas de singular e definitiva importância, o jovem Oscar Niemeyer.


Palácio Gustavo Capanema, ícone da arquitetura modernista.

A brilhante equipe teve direta responsabilidade sobre a jóia de arquitetura erguida e de pronto transformada, com justiça, no grande ícone-síntese da arte moderna brasileira. Sua imagem dominou nossos corações e mentes durante mais de 30 anos. A brutal explosão urbana do Rio de Janeiro e o descaso pelos monumentos significativos da cultura carioca e brasileira reduziram o entorno, quase anulando os antes privilegiados pontos de observação. As quadras adjacentes ganharam prédios, também modernos (alguns de qualidade) reduzindo a excepcionalidade inicial do Ministério.

O estado de conservação do Palácio, ainda que protegido por tombamento, não é dos mais animadores.  Mesmo assim, é obra definitiva, marco inconteste de beleza e elegância. Os apressados moradores da cidade, dentre eles alguns raros cariocas, perdem a oportunidade de observar melhor a obra de arte. Mais por falta de cultura do que por falta de ângulo de visão. Nele foram incorporados todos os princípios propostos por Le Corbusier. O mestre franco-suíço fez de tudo para obter a integral paternidade do projeto, pois talvez não tivesse imaginado que suas doutrinações pudessem chegar a compor tão elegante obra. O Palácio Capanema quase não guardou sotaque.

Contudo, o encantador edifício, ao consolidar os ideais do modernismo arquitetônico, produziu efeitos colaterais, talvez inevitáveis, e que não podem (ou não devem) ser imputados aos extraordinários mestres que o ergueram. São eles:

– A injusta (embora explicável) desqualificação das belas obras do ecletismo carioca, legando-as ao esquecimento e, em casos gravíssimos, à sua destruição absurda. Pior: com o beneplácito expresso de importantes vozes do movimento moderno. O barroco jesuítico era bom, legítimo, nacional, até. Talvez houvesse quem lhe negasse o peso lusitano. O romantismo que ordenou a Avenida Central, de Pereira Passos e seus companheiros, era intitulado de “decadência”. Por volta dos anos 60 os cariocas viram sua memória atirada ao chão sob denúncia de não ter “interesse arquitetônico”. Este anátema fez com que o Palácio Monroe fosse arrasado nos anos 70 do século XX, e as confusas notícias acusaram as obras do Metrô que se concretizara, afinal, depois de gestado – não por avançados modernistas – mas pelos “atrasados” homens do século XIX,

Palácio Monroe, sede do Senado do antigo Distrito Federal, foto sem indicação do autor obtida na Biblioteca Nacional Digital

– O olvido do grande mestre, preterido no Concurso: Arquimedes Memória (para não citar outros importantes nomes, atirados ao porão).

Palácio Tiradentes, projetado por Archimedes Memória e Francisco Couchet e inaugurado em 6 de maio de 1926. Destaca-se na edificação a escadaria monumental, as rampas, os grupos escultóricos, as colunas e a grande cúpula revestida em escamas de vidro na cobertura, além do luxuoso interior.

– Roubar a primazia do edifício da ABI (1935), projeto dos irmãos Milton e Marcelo Roberto, na verdade o primeiro grande e importante edifício modernista do Centro do Rio de Janeiro. Ressalve-se que sua implantação lhe é desfavorável. Ocupando um canto da quadra (esquina da rua Araújo Porto Alegre com rua México), não possui a mesma visibilidade que tem o Palácio Capanema, pela já ressaltada dominância na quadra.

ABI, prédio "sem janelas" pioneiro da arquitetura moderna no Rio de Janeiro.

– Ofuscar, em certa medida e posteriormente, a obra importante de Jorge Moreira (o mais fiel seguidor de Le Corbusier) e a presença de Ernani Vasconcelos no Rio de Janeiro. No mínimo, uma ironia, se também foram “pais” do Palácio Capanema.

Os fatos aqui relacionados não podem (ou não devem) ser imputados aos extraordinários mestres que ergueram o MES.

Não pretendemos, com as observações feitas, assumir posições iconoclastas. Nós construímos e rotulamos os ídolos. Os arquitetos citados, autores de outras obras significativas, fizeram a sua parte, arregaçaram as mangas e nos legaram um importante acervo cultural que a nós compete preservar. Para citar: o MAM e a Cidade Universitária. O apreço e o cuidado com tais monumentos seria assunto para outras crônicas...

É importante, porém, reconhecer os princípios de um movimento para que possamos identificar seus caminhos, descaminhos e, acima de tudo, seus desdobramentos. 

No Brasil, a triunfante arquitetura moderna, nas décadas de 40 e de 50 foi moldada e consolidada pelos já citados arquitetos e muitos outros. Listagem sumária e com graves omissões, por certo, ainda incluiria: Sérgio Bernardes, Vilanova Artigas, Rino Levy, Carlos Bratke, Henrique  Mindlin, Alcides Rocha Miranda e muitos mais.

Saltando dos anos de apogeu ou de aceitação formal do modernismo na arquitetura (década de 50), para os anos 60 e 70, teríamos outra extensa lista. Lastimando os prematuros desaparecimentos de Artur Lício Pontual e Eolo Maia, e sempre admitindo lacunas, temos: Ruy Othake, Paulo Mendes da Rocha, J. Gandolfi, José Sanchotene, Severiano Porto, Marcos Konder, João Filgueiras Lima – o Lelé, Acácio Gil Borsoi e Luiz Paulo Conde.

Diante de tal elenco caberia falar em decadência ou declínio do modernismo? Os citados são arquitetos presentes com suas obras em muitas cidades brasileiras. O rol seria mais justo e completo se acrescentássemos os nomes dos que ainda exercem suas atividades nos demais estados brasileiros, cujas obras são eclipsadas (ou ignoradas) pelo insistente peso do eixo Rio-São Paulo. A omissão da Curitiba de Lerner nos anos 70 seria pecado mortal.

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Mas devemos voltar à década de 50 do século XX para que nossa argumentação ganhe continuidade, constatando o impasse do modernismo, não necessariamente sua “queda”.

A estrada até então solidamente pavimentada e retilínea, entre 1935 e 1960 chega ao grande parque da nossa modernidade arquitetônica: Brasília, a nova capital, o reino absoluto, criado por gesto demiúrgico destinado a eliminar o contraste. Respeitadas as importantes obras e nomes de peso que lá atuaram, presenciamos um grande jardim de infância que abriu espaços para infantilidades de nosso modernismo arquitetônico. A fragilidade tecnológica de então (falamos dos anos 1960), a quase ausência de visão madura do movimento, produziu as “belas ruínas” de que nos falava Artigas.  

A arquitetura que pressupunha aplainar diferenças sociais e superar seus conflitos (uma espécie de “solução final”) veio defrontar-se com o esgotamento. A Carta de Atenas, por fim transposta do papel para a realidade, faz com que euforia e desgosto cruzem nossas mentes. Ainda assim, restava-nos o orgulho de realizar o que nem os europeus nem os americanos lograram: erguer toda uma cidade a partir de rígidos mas singelos princípios normativos e validados por uma estética quase impositiva. A posterior ruptura só engrandece o feito, deixa lição que o resto do mundo aproveitaria, não estivesse ele, em nossos dias – apesar da TV e da Internet –, tão fragmentado. Um gesto que tangencia a ousadia (ou a loucura). Se habitantes do Rio e de São Paulo dividem-se entre o amor e o ódio às suas cidades, os habitantes de Brasília não a abominam e muitos nos trazem depoimentos de plena identificação com seus espaços, suas vias cartesianas e seus “caixotes” antes execrados. A nova capital, não tanto pelo status, tornou-se um ente urbano com cabeça, tronco e membros.

De qualquer modo, os desenganos estiveram presentes. O rigor ascético e a uniformidade dos belos palácios não incentivaram a democracia política, nem seus espaços moldaram o aperfeiçoamento dos costumes. A realidade social jamais se viu refletida no molde democrático anunciado na criação da nova capital.  Além disto, o contraste entre a inesgotável criatividade e a limitada capacidade técnica das edificações (pelo menos na época de sua construção) colocou em cheque o orgulho com que contemplávamos o porvir.

Brasília: slide (com fortes marcas do tempo) tirado pelo autor do blog nos idos de julho de 1968 (quando Brasília ainda era uma novidade e ainda não estava associada à corrupção)

Diante, porém, da segunda lista apresentada alguns parágrafos atrás, caberia falar em decadência ou declínio do modernismo? Os arquitetos citados estão ainda presentes com suas obras em muitas outras cidades brasileiras. O rol seria mais justo e completo se acrescentássemos os nomes dos que exercem suas atividades nos demais estados brasileiros, cujas obras são eclipsadas (ou ignoradas), vale repetir, pelo insistente peso do eixo Rio-São Paulo. Vamos lembrar que apenas duas excelentes revistas divulgam, testemunham e registram nossa produção de arquitetura: AU (Arquitetura e Urbanismo, da PINI) e PROJETO-DESIGN (da Editora Projeto). Poucas se somam a estas e, mesmo assim, com circulação e objetivos mais restritos. Cabe perguntar: onde estão os órgãos de classe?

Por outro lado, não devemos nos eximir da autocrítica.

Enquanto no planalto goiano, no final do dos anos 50 do século XX, erguíamos edifícios obedientes ao almanaque modernista, a Europa – um Frankenstein remendado pelo Plano Marshall do pós-guerra e exaurida pelo ocaso ou desaparecimento de seus principais líderes – reordenava-se. A guerra fria não teve temperatura tão baixa que congelasse os propósitos de soerguimento das nações européias. Movidos ou não pelos antagonismos com os países da cortina de ferro, os EEUU mostravam desvelo com os novos aliados e com as estratégias relativas ao oriente médio. Pouco a pouco, o quase cadáver europeu fugiu à decomposição, reordenou-se e passou a negociar sua participação nos destinos da humanidade. Ao fazê-lo recorreu ao espaço construído. Varsóvia, por exemplo, foi reconstituída em apropriada resposta ao nazismo e, ao mesmo tempo, um reconhecimento da contribuição que o ecletismo tinha produzido de melhor nas capitais européias. A febre destruidora cedeu à conservação e à preservação dos monumentos. Praga e outras tradicionais tornam-se visitas obrigatórias para os que admiram a boa arquitetura. As transformações radicais são aceitas com reservas. A pluralidade é festejada e o “novo” convive com o “tradicional”, bem como com os projetos de “ponta”. Beaubourg e La Dèfense conseguem partilhar o espaço com o Louvre e a Notre Dame sem que Paris deixe de ser (sempre) uma festa.

A bela arquitetura de Praga

As mega empresas erguem mega-estruturas, exibindo uma arquitetura não mais feita para o homem (promessa do modernismo), mas para as anônimas multidões de consumidores. As torres que chegam às nuvens, reafirmam o seu destemor, mesmo depois de ameaçadas pelo insano terror imposto, em 2002, às torres gêmeas do WTC.

O Brasil vê perplexo, seu extenso território alcançado pela TV e pela Internet, mas quase inatingível por estradas péssimas e desservido por entidades educacionais e de bem estar social irrisórias. O Palácio Capanema torna-se um cristalizado símbolo de boas intenções plásticas, generosos propósitos, transformado, porém, em desprezada peça de museu. Em contraste, as nações europeias, inevitavelmente grudadas umas às outras e com territórios adversos, mas com apreciável compromisso com a cultura, unem-se em torno do Euro, olhos aterrorizados no oriente, que se arma para uma possível investida final.

O movimento moderno teria, então, fracassado? Foi substituído a tempo por novas propostas, de caráter holístico, pluralista ou inclusivista? Ou disfarçamos, constrangidos, assistir a um novo ecletismo?

Talvez, em épocas anteriores, jamais tivéssemos mudança tão profunda na relação espaço-tempo. Cabe meditar sobre a contemplação do espaço construído a partir do complexo sistema de apreensão do binômio forma-conteúdo, quando as informações e as análises daquela entidade nos chegam através da veloz informática e a fruição daquele espaço construído é quase atomizada pelos meios de transporte. Apreciar um aglomerado urbano através da estreita janela de um jato ou divisá-lo da confortável poltrona de um trem-bala, não nos permite assimilá-lo. As nuances não mais fazem sentido. Torres eretas ortogonais ou contorcidas, tal ventre de bailarinas exóticas, campos esportivos e restaurantes entre as nuvens nos trazem outras correlações entre o viver urbano e o destino do habitat desses seres. As ruas e avenidas que Jane Jacobs implora serem resgatadas não oferecem condições para apreciar a arquitetura da orgia fálica que inunda as grandes cidades.

Jenks, ao analisar os movimentos arquitetônicos a partir do romantismo, nos mostra a impossibilidade de definir inícios precisos, a exata fonte de uma corrente e seu ponto de extinção. Na verdade, transcorre sutil processo de mutação, por vezes acelerado, por vezes retardado, sempre nutrido, porém, por antagonismos. Hoje, mais e mais sente-se tal aceleração e até as gardênias são longevas diante dos movimentos que se sucedem. O modernismo que aqui comentamos, se dele pudermos demarcar datas, poderá passar para a grande história sob dois diferentes rótulos: fim de um ato ou retumbante overture de novos tempos.

Por ora, sem perspectiva que nos autorize a criar novos títulos, voltamos aos feitos que o século XX, principalmente, testemunhou.

Triunfante sobre a aparente exaustão dos movimentos anteriores, face às aceleradas mudanças que envolviam o mundo, o modernismo teve a generosa pretensão de devolver o espaço urbano ao homem comum, mesmo pecando na rígida forma cartesiana. Contudo, jamais recuou diante dos desafios provocados pelas populações crescentes em progressão geométrica, os intrincados sistemas de relações e o aparato tecnológico oferecidos àquelas populações. O 1900 concretizou programas arquitetônicos de inesperada complexidade e novidades capazes de alterar fundamente relações nos grupamentos humanos. Com audácia, os arquitetos da modernidade os enfrentaram, exaurindo-se no mister.  E de modo quase casual, do modernismo mais puro (singelamente dialogando entre racionalistas e organicistas) surgiram as obras brutalistas e metabólicas, para não citar outras subjacentes.  Em vão Tom Wolffe tentou ridicularizar o caos produzido a partir da Bauhaus. Por falta de críticas não nos perderíamos.

Uma vez posto em cheque por autoridades como Portoghesi, Peter Blake, Venturi, Rogers, Eisenmann, Ghery e outros, o passado sofrerá paródias, metáforas e se submeterá à contorções que o desconstruam. Matar o pai será o eterno papel de Édipo.

Se o pós-modernismo traz respostas precisas aos anseios do homem atual, apoiado em aparato tecnológico de maior eficiência, cumpre o que dele espera a história mas, nem por isto, demonstra a falência cabal dos movimentos que o antecederam; não os desmascara, pela simples razão por que o modernismo, em sua aparência arrogante, manteve-se presente através de seus mestres principais. Deles, resta entre nós Niemeyer [artigo escrito em março de 2008] que, dispensável dizer, não baixa a guarda nem recusa os desafios. Oscar, porém, transcende ao Brasil sem deixar seus compromissos nacionalistas. É um arquiteto do mundo, ironicamente nascido aqui, no Rio de Janeiro, ao contrário de alguns de seus pares, como frisamos no começo deste artigo, por acaso nascidos em outras plagas.


Pós-modernismo: Cidade das Artes

A queda da arquitetura moderna assemelha-se à queda atribuída por Bruno Zevi às correntes que a antecederam. Há o cansaço, há a moda e a inevitável transformação (ou contaminação?) entre movimentos, efêmeros ou não. Tentamos explicá-los, mesmo quando não os entendemos. Mestre Lúcio Costa não gostava da expressão “moderna” para título da arquitetura que fazíamos. Preferia chamá-la contemporânea. De quem? Para Sisto V, a arte barroca era uma perfeita e definitiva manifestação contemporânea. Quem sabe os historiadores do novo século encontrarão nomenclatura mais precisa? Será mais fácil do que descobrir-lhe a verdadeira ascensão e a possível queda.

Curiosamente, o termo MODERNO, usado na historiografia para definir o período que parte do Renascimento até, pelo menos, o final do século XVIII, voltou a ser usado nos compêndios das Histórias da Arte e da Arquitetura para rotular os movimentos surgidos após a Revolução Industrial.  Usando as novas concepções ou visões do espaço, falam do Modernismo autoridades como Bazin, Shenney, Giedeon, Zevi, Pevsner e muitos outros.

No latim tardio, Modernus  significa o que é novo (moderno, então) mas também e, em nossa visão, muito curioso:  MODERADO. Loos, Le Corbu pedem a moderação da forma, sua enxutês, sob o título de racionalismo, purismo, etc  Hoje, os pós-modernos, portanto, não pedem moderação. Desconstroem as formas, retorcem os espaços e tentam, entronizando a tecnologia de ponta, construir seus próprios pedestais.

Os homens e seus feitos têm seu tempo e dele não escapam...

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