VIAGEM AOS PAÍSES BAIXOS E GRÃ-BRETANHA (1986)

5.8.86 a 1.9.86

Dia 5 – Rio de Janeiro a Amsterdam

Embarque no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Voo marcado para 17.25 atrasou mais de 3 horas, devido ao mau tempo em Santiago. Viagem desconfortável e (para mim, paranoico, que até de elevador tenho medo) tensa.

Dia 6 – Amsterdam



Aterrissamos em Amsterdam às 13.10. Das quatro casas de família selecionadas, uma não tinha vaga, em duas não foi atendido o telefone e na quarta só haveria acomodação no dia seguinte; portanto, fiz a reserva e, provisoriamente, hospedei-me no Hotel de La Haye, muito bem localizado (Leidsegracht 114) e relativamente barato (80 florins o casal), porém sou turista de país de moeda fraca e, para mim, mesmo o barato ainda é caro.
Vagamos por Amsterdam até 1 da madrugada. Inclusive pedalamos pelos canais (logo eu, tão exímio barqueiro que, uma vez, naufraguei na Lagoa Rodrigo de Freitas.).

Dia 7 – Amsterdam

De manhã, após eu ter adquirido 2 tickets que dão direito a utilizar por quatro dias os transportes públicos de Amsterdam (bondes, metrô, ônibus), pegamos o bonde que nos deixou nas proximidades da Nwe. Kerk Straat, onde reside Mr. Heuvel, com quem falara no dia anterior ao telefone. Não só teremos a chance de conhecer uma típica família holandesa – pensei – como teremos a oportunidade de sair do centro e conhecer uma área residencial fora do circuito turístico.” Chegando ao número procurado, toquei a campainha. Certamente será atendida por um senhor de meia idade, aposentado, cabelos loiro-agrisalhados, óculos de aros metálicos, testemunha da ocupação da Holanda pelos nazistas... um autêntico holandês, imaginei. A tranca foi destravada através de um mecanismo de porteiro eletrônico. Deparamo-nos com íngreme escada, a qual subimos. No primeiro andar, um pardieiro – a casa do porteiro, pensei. A um senhor preto, deformado e fedendo a aguardente, perguntei onde residia o sr. Heuvel. “Sou eu”, respondeu. Não era o típico holandês de minha imaginação, mas era um cidadão holandês! Existe um grande contingente de surinameses aqui. Os nascidos antes da independência possuem passaporte holandês, podendo emigrar para cá.
Fizemos um passeio a pé pela cidade velha, incluindo a antiga sinagoga sefaradi, de 1675, e a casa onde Rembrandt morou (e que nunca conseguiu quitar).


À noite, fomos à Melkweg, imensa casa noturna de dois pavimentos, com concerto de rock, cinema, espetáculo teatral, livraria, lanchonete. Até aí, nada demais, não fosse o fato de lá ser o haxixe livremente consumido (não meramente tolerado, como ocorre em determinadas circunstâncias no Brasil); mais espantoso: o haxixe é livremente vendido; não por um traficante mal encarado, mas num balcão, junto com balas e jujubas; existe uma lista com os preços das várias qualidades: libanês, marroquino, paquistanês... O fato é que, na Holanda, o comércio e consumo de haxixe foram regulamentados: é permitido o porte em quantidade limitada (que não caracterize o tráfico), a comercialização nos “clubes de drogas” devidamente credenciados (Paradiso e Melkweg) e o consumo em bares específicos, devidamente identificados através de um símbolo, representando uma folha de maconha. Muita reflexão sociológica pode ser feita sobre esse fenômeno. Do ponto de vista criminal, a grande vantagem é a eliminação da vasta rede de corrupção, chantagem e extorsão normalmente associada à repressão da toxicomania. Muitos poderão pensar: a liberalização da maconha poderá levar à desagregação da sociedade, como aconteceu com o Império Romano. O fato é que a Holanda, com sua pornografia, prostituição e toxicomania legalizadas e regulamentadas apresenta uma economia muito mais pujante que a de muitos países metidos a moralistas (o moralismo, no século XX, produz excrescências políticas como o governo teocrático do Irã). Empresas como a C&A, Makro e Phillips projetam a Holanda em todo o mundo; a Phillips especificamente é digna de menção, por ser a única empresa do ramo eletro-eletrônico que consegue concorrer, em todo o mundo, com a imbatível indústria japonesa. Progressos tecnológicos notáveis, como a fita cassette e o disco compacto digital foram desenvolvidos pela Phillips.
Hoje o jovem haxixeiro frequenta o clube de drogas com a mesma naturalidade com que o filatelista frequenta a feira filatélica ou o enxadrista frequenta o clube de xadrez. A sociedade holandesa é historicamente tolerante: em outras épocas, servira de refúgio aos judeus e outras minorias religiosas.


Amsterdam é uma cidade jovem (como Viena é uma cidade velha, Cairo uma cidade pobre, Rio uma cidade bonita...). Grafites cobrem a cidade. Pinturas e esculturas hipermodernas convivem com a arquitetura tradicional: no metrô, nos prédios, no bonde turístico. O próprio papel-moeda reflete o espírito modernista do holandês: as cédulas possuem cores berrantes e, ao contrário das habituais efígies de presidentes ou heróis, retratam flores, figuras abstratas, um Frans Hals todo azul. A sujeira é onipresente: por toda parte, tocos de cigarros, latas, papéis amassados, cocô de cachorro – que contraste com a assepsia dos países germânicos!

Dia 8 – Amsterdam

De manhã, visitamos o Rijksmuseum, cujo carro-chefe são as pinturas de Rembrandt e seus discípulos.
No final da tarde, jantamos um delicioso rijsttafel (foto abaixo) no restaurante indonésio Ling Nam. Como descrever o rijsttafel, prato sui-generis, que nunca encontrei em outro país que não a Holanda? Trata-se de uma cumbuca grande de arroz, acompanhada de uma série de pequenas cambuquinhas, com os mais variados acompanhamentos. Quanto mais caro o rijsttaffel, maior o número de acompanhamentos. Sendo turistas de país endividado, pedimos o mais barato, com 14 variedades deliciosas: batatas fritas, queijo de soja agridoce, broto de feijão com pasta de amendoim, amendoins, coco ralado, ovos com molho de soja, pele de porco frita, repolho em conserva azeda, cenoura em conserva com gosto de haxixe, almôndegas de carne de soja, goulash mil vezes melhor do que o húngaro, pedaços de carne ao curry... Doce, azedo, salgado, apimentado; desconheço a correta combinação de todas essas variedades; como bons experimentadores, fazíamos variadas misturas e todas nos apeteceram, porém uma coisa não conseguimos descobrir: como comer o coco ralado? Sobre os ovos ao molho de soja: horrível! Junto com as carnes no molho picante: não combina! Da próxima vez, tentarei misturá-lo às cenouras com gosto de haxixe: quem sabe, estarei revolucionando a culinária?



Dia 9 – Amsterdam

De manhã, peregrinamos à casa onde Anne Frank e sua família esconderam-se durante a ocupação nazista. O nazismo tem um pouco da incompreensibilidade das pirâmides: assim como é difícil compreender como um povo sem o domínio da tecnologia moderna construiu colossos de imensos blocos de pedra em pleno deserto e sem nenhuma finalidade pragmática, também é difícil compreender como um povo tão requintado, tão civilizado, de um nível cultural tão elevado possa ter sido acometido da voragem nazista.
À tarde, fomos à concha acústica do Vondelpark à procura de entretenimento gratuito. O show propriamente dito não nos empolgou, porém, quando se é turista num país estrangeiro, o principal show constitui-se das pessoas nas ruas em suas atividades quotidianas: no parque, jovens exoticamente vestidos e penteados faziam o espetáculo – para nós, ao menos!


Dia 10 – Amsterdam (passeio a Amstelveen)

Hoje aconteceu de tudo um pouco: perdemo-nos no interior da Holanda, posamos para fotos junto com crianças, como se fôssemos políticos, passeamos pela zona portuária às 11 da noite sem sermos assaltados, a Fátima sofreu o assédio de um fã, fomos fotografados na polícia... mas vamos por etapas!
Amsterdam tem todas as vantagens das cidades civilizadas (o que o Rio definitivamente não é): não se é molestado por mendigos, assaltantes, vendedores de bilhetes de loteria, etc.; pode-se andar nas calçadas sem ter de contornar automóveis, bancas de jornais, bancas de camelôs e outros obstáculos (só é preciso cuidado para não pisar em cocô de cachorro!); é possível atravessar-se tranquilamente uma rua pois, fechando o sinal, os automóveis automaticamente param, com a mesma certeza com que ao dia sucede a noite... porém é uma cidade suja, cheia de imigrantes, com viciados cheirando cocaína nos meandros do metrô... ou seja, não representa a Holanda ideal de nossos sonhos. Essa está no interior... e para lá rumamos, a fim de passar o domingo.


Existe um museu devotado à restauração de antigos bondes. Estes percorrem, nos fins-de-semana, o trajeto da Haarlemmermeerstation à cidade de Amstelveen. Lá chegando, compramos duas latas de Heineken e nos dirigimos a um parque, a fim de fazer nosso piquenique. Aqui a Holanda de nossas fantasias materializou-se: um grupo de crianças tão loirinhas encantou-nos a ponto de não resistirmos em chamá-las para posar, junto à Fátima, para uma fotografia. No parque, pessoas pescavam, passeavam de bicicleta, montavam cavalo, ou simplesmente se expunham aos parcos raios de sol com que a Natureza brindou o verão holandês. A quantidade de bicicletas era tal e os ciclistas circulavam com tal imprudência, que tínhamos de prestar atenção redobrada, a fim de não sermos colhidos por uma delas.
Nas aléias do parque nos perdemos; mas aqui todos falam inglês e são extremamente prestativos em dar informações a turistas desorientados. Só que, desta vez, a informação dada foi errada (ou não conseguimos nos fazer entender), e subitamente demo-nos conta de estarmos na extremidade do parque oposta à em que havíamos entrado, a uma distância significativa da estação de bonde! Porém nossas pernas estavam bem adestradas e percorremos o longo caminho, desta vez do lado de fora do parque, para não nos perdermos novamente!
Em frente a uma casinha de aspecto idílico, com vasos de flores nas janelas pedimos a um senhor que nos fotografasse: tratava-se da sede da polícia municipal! Quem vem do Terceiro Mundo não acredita.
Quanto à “imprudência” dos ciclistas, uma ressalva: no parque, existem pistas diferenciadas para caminhantes, ciclistas e jóqueis. As primeiras, com pedrinhas; as segundas, com cimento e as terceiras, com areia. Como não sabíamos disto, andávamos sempre pela pista de cimento, mais cômoda: exatamente a pista reservada aos ciclistas!
À noite, ao teatro. Num imenso depósito na zona portuária, um grupo de vanguarda montou um espetáculo de expressão corporal, explorando o ambiente, um galpão completamente alagado, através de jogos de som e luz. A platéia vai sendo sucessivamente conduzida, por uma das atrizes, primeiro da recepção a uma pequena arquibancada; o espaço cênico vai sendo paulatinamente aumentado pela remoção de cortinas; uma vez desvelado todo o galpão, a plateia é conduzida, através de um estreito estrado de madeira, a uma fileira de cadeiras, de onde se descortina o restante do espetáculo; ao final, fomos conduzidos através de uma escadaria escura ao andar superior do depósito, onde, numa espécie de galeria de arte, eram vendidas cervejas e outras bebidas; lá, os atores despojaram-se de sua condição artística, e o restante do espetáculo ficou por conta de nós, espectadores.
Antes do início da peça, entramos num bar, para beber cerveja com genebra. O ambiente era o mais eclético possível: um negro fumando haxixe num pequeno cachimbo de metal brincava com duas crianças branquinhas; um inglês caindo de bêbado, dizendo-se apreciador de cocaína, contou ter vivido vários anos em Portugal; imitou a fisionomia dos atores das soap-operas brasileiras, que vira na televisão portuguesa e, acometido de um súbito entusiasmo, induzido não sei se pela bebida ou pela cocaína, pespegou um beijo na face da Fafá!
E para terminar, uma de nosso hospedeiro. Constantemente bêbado, em certos momentos coloca na vitrola em alto volume discos do tempo do cha-cha-cha. Enquanto ouvia suas rumbas e boleros, para puxar papo, perguntei que música era aquela; incontinenti respondeu: “From Brazil”.

Dia 11 – Amsterdam a Londres

Hoje fomos à Meca do apreciador da boa cerveja: a fábrica Heineken. Infelizmente, nesta época do ano o tradicional passeio pelo local de fabricação não pode ser realizado (ignoro o motivo), contudo fomos gentilmente recepcionados num amplo salão, com projeção de filmes sobre a cervejaria e degustação de cerveja à vontade, acompanhada de deliciosos biscoitos de bacon e quadrados de queijo.


Para completar o roteiro gastronômico, retornamos ao nosso restaurante favorito de Amsterdam, o Ling Nam, para nova sessão de rijsttafel.
Às 18.30 embarcamos no ônibus para Londres, onde imediatamente fizemos uma conexão para Edinburgh.

Dia 12 – Londres a Edimburgo


Às 18.00 desembarcamos em Edinburgh, após quase 24 horas de viagem, e sem saber se encontraríamos hotel, uma vez estarmos em pleno festival.
A viagem foi extremamente cansativa: em Oostende, entramos num ferry-boat para Dover; o controle da entrada na Inglaterra é rigoroso, e é-se submetido a um breve interrogatório.
Apesar de a garota do tourist information, a caminho de Edinburgh, ter dito ser difícil encontrar acomodação durante o festival, encontrei vaga no primeiro hotel ao qual telefonei: Victoria Hotel, construção sólida e de cômodos confortáveis; nos bath rooms, duas vezes ao dia tomávamos relaxantes banhos de banheira; substancial breakfast constituída a base de nossa alimentação: cereais com leite e açúcar, torradas com manteiga e geleia de laranja, a melhor salsicha que já comemos, sem nenhum resquício de gordura, ovos de clara sólida e gema mole, bacon rosado como presunto. O prédio não possuía elevador: nosso quarto ficava no 3º pavimento; no 4º, o banheiro; no 2º, o lounge, com amplas poltronas e um aparelho de TV; no térreo, a recepção e o breakfast room. Fazia sol; o recepcionista do hotel observou ter sido trazido por nós. “Trouxemo-no de nosso país”, repliquei. “Qual é o país de vocês?” “Brasil”. Ficou admirado (como ficaríamos se deparássemos, no Rio de Janeiro, com um visitante do Nepal) e mencionou uma peça de teatro em que um dos personagens, ao saber que a tia de outro veio do Brasil, observa: “That’s the place where the peanuts come from!

Dia 13 – Edimburgo

Para nosso desapontamento, amanheceu chovendo. Dirigimo-nos ao centro histórico da cidade; deparamo-nos com um anúncio de uma free walking tour, da qual resolvemos tomar parte. O guia, inglês típico, ao saber sermos do Brasil, observou: “That’s the place where the coffee comes from”; ao que repliquei: “and the peanuts too!” Gentil como todo britânico, ofereceu “carona” à Fátima em seu guarda-chuva; durante o tour, punha-se a falar consigo próprio e se esquecia de sua carona, deixando-a para trás; ao se dar conta da situação, solicitava: “sorry, sorry!
Nesta época, ocorrem três festivais na cidade: o International Festival, de música, teatro, balé, ópera, do qual participam este ano artistas do porte de um Ingmar Bergman (como diretor teatral), Ivo Pogorelich, Seijo Ozawa...; o Fringe Festival, reunindo grupos teatrais e musicais de toda a Grã-Bretanha (a profusão de eventos é inacreditável: este ano, encenam-se 370 peças dramáticas, 74 comédias, 37 musicais) e o bizarro Tattoo Festival, desfile de regimentos militares, tendo por cenário de fundo o imponente castelo de Edimburgo, feericamente iluminado.
À tarde, assistimos ao Elephant Man, encenado por um grupo de Oxford. Depois, jantamos num restaurante chinês (mais um para nosso repertório, que já inclui La Paz, São Paulo, Paris, Budapest... só falta Pequim).

Dia 14 – Edimburgo

Dedicamos a manhã a conhecer o castelo e outros pontos de interesse.
À tarde, resolvi “curtir” um pouco o lounge e assistir à TV britânica; um programa chamou-me a atenção: um dos personagens chamava-se Yolanda, nome nada britânico; a cena passava-se numa boate, ao som de música brasileira; subitamente surge na tela Sônia Braga... que programa seria aquele? Estaria Sônia Braga trabalhando para a TV britânica? Em outra cena, vejo um “orelhão”, tão diferente da tradicional cabine telefônica inglesa. Subitamente, o mistério se desfaz: era a novela Dancin’ Days. Para dirimir qualquer dúvida, consultei a programação televisiva no jornal. Lá estava: Dancin’ Days – Brazilian drama.
À noite, o Military Tattoo.

Dia 15 – Edimburgo a Inverness


Assim como Edinburgh é uma festa cultural, Inverness é uma festa geográfica. A cidade em si é pequena (menos de 50 mil habitantes) e seus locais de interesse são limitados, porém fica situada bastante ao norte (57º de latitude) em região plena de lagos (“lochs”, inclusive o afamado Loch Ness, onde reside o lendário monstro) e com acesso ferroviário e rodoviário a pontos de extrema beleza: a noroeste, a estrada pelas Highlands para Kyle of Lochalsh, de onde parte o ferry à ilha de Skye; a estrada para Thurso, no extremo norte da Ilha Britânica, de onde parte o ferry para as ilhas Orkney. Estou há horas coletando informações nos mapas, prospectos etc. (a Grã-Bretanha possui um sistema de informações turísticas fantástico; praticamente todas as cidades possuem um escritório de informação turística que, além de fornecer orientação, providencia acomodação) tentando montar um programa para os próximos dias.
Fizemos uma walking tour pelo centro; contou o guia sobre uma profecia segundo a qual, quando houvesse cinco pontes sobre o rio Ness, ocorreria uma catástrofe; a quinta ponte foi inaugurada nas vésperas da 2ª Grande Guerra; o mesmo profeta vaticinou que, quando a Grã-Bretanha fosse governada por duas mulheres, na Escócia o verão viraria inverno. É o que aconteceu: em pleno agosto, fomos derrotados pela chuva e pelo frio. Mas não esmoreceremos: amanhã, agasalhos redobrados, voltaremos à carga!

Dia 16 – Inverness-Thurso-Inverness



Tour-de-force ferroviário, através das lindas paisagens escocesas: campos de um verde de lápis de cor, cortados por regatos e lagos, pinheirinhos de natal, casas de pedra, carneirinhos gordinhos e simpáticos, flores amarelas. Nosso destino: Thurso, no extremo setentrional da Ilha, onde fizemos um pequeno passeio da estação ferroviária à praia, cheia de pedras e algas; o mar, gelado (foto abaixo). Uma pequena cidade perdida nos confins da Grã-Bretanha, porém com uma boa livraria. Em nosso país, regiões muito maiores, por exemplo, o distrito de Jacarepaguá, onde moro, não possuem nenhuma: sintoma de nosso crônico subdesenvolvimento.


Dia 17 – Inverness

Este ano, poucos turistas norte-americanos, em relação aos anteriores; a desvalorização do dólar e as ameaças de Khadafi os mantiveram afastados da Europa. Predominam os italianos, franceses, alemães, japoneses. Em nossa guest-house, o português tornou-se língua predominante no café da manhã: além de estar hospedado aqui um casal de brasileiros, a proprietária do estabelecimento (simpaticíssima!) viveu quase dois anos em Portugal e, para nos agradar, esforçava-se em falar um macarrônico português.
Fizemos uma mini-bus tour pelos arredores de Inverness: os campos de Culloden, onde tropas inglesas derrotaram os rebeldes escoceses (foto abaixo), partidários de Bonnie Prince Charlie (neto de Jaime II, rei deposto por Guilherme de Orange); o castelo de Cawdor, cercado de gramados e jardins como só os britânicos sabem fazer.


Dia 18 – Inverness-Elgin-Dufftown-Elgin-Inverness

Ponto culminante de nossa viagem à Escócia: visita a uma destilaria de whisky. O tour que planejáramos fazer estava já com lista de espera, de modo que resolvemos não nos arriscar e fazer o passeio por conta própria, do seguinte modo: primeiro, trem para Elgin; de lá, ônibus, através de uma região belíssima, cheia de destilarias, até Dufftown, onde fica a destilaria Glenfiddich, produtora do malt whisky de mesmo nome e do blended whisky Grant’s.
Ao final da visita, fomos brindados com uma dose, que nos deixou levemente eufóricos; a reação em cadeia foi inevitável: chegando a Inverness, entramos no pub (os pubs britânicos são tão aconchegantes! Amplos, atapetados, assentos estofados...) para novas libações de malt whisky e pints das deliciosas cervejas, Lager e Export. Conhecemos um casal de alemães, igualmente bons de copo, com o qual fomos jantar em nossa nova paixão gastronômica: restaurante indiano. Após o jantar, complementamos a bebedeira em outro pub, cujos frequentadores, igualmente bêbados, juntaram-se a nosso grupo: como os índios do tempo de Cabral, fascinados com espelhos e contas de vidro, assim ficavam os escoceses com o cartão postal de Copacabana que lhes mostrei, para esses habitantes de terras cujo clima varia de frio, no verão, a gelado, no inverno, um país onde faz calor o ano inteiro é algo de paradisíaco! E o futebol brasileiro também aqui é curtido. Josimar, Sócrates, Zico: nomes conhecidos pelos escoceses. Um deles colocou-me literalmente “contra a parede”: queria saber como é possível coexistir no Brasil um parque industrial moderno com tamanha miséria. Paradoxo: como explicá-lo a um escocês bêbado, porém esperto? “Você viu alguma miséria na Escócia?”, perguntava. De fato, não vi nenhuma.


Dia 19 – Inverness a Stratford (via Glasgow e Birmingham)

Entre os vários mitos que acalentamos, um é que whisky escocês não dá ressaca. Pelo menos em mim, deu! Ou foi a mistura de whisky com cerveja?
Às 8.00 começou nossa maratona rodoviária. Após duas baldeações, em Glasgow e em Birmingham, às 20.00 desembarcávamos em Stratford. A viagem ferroviária é muito mais agradável, contudo custa o dobro; nos pequenos passeios, preferimos o trem; entretanto, nos grandes trajetos, a economia feita andando-se de ônibus é significativa.

Dia 20 – Stratford upon Avon

A cidade de Stratford upon Avon (foto abaixo) é um templo shakespeareano: aqui estão preservadas várias propriedades ligadas a sua vida, inclusive a casa em que nasceu, e são encenadas suas peças pela Royal Shakespeare Company.
Shakespeare é aqui uma instituição tão notável como a rainha: suas peças são sistematicamente representadas, não só em sua cidade natal, como também no festival edimburgueano e nos teatros londrinos. O proprietário da hospedaria onde moramos disse que antes de assistir a uma peça de Shakespeare, previamente a lê. Não se trata de leitura fácil: o inglês shakespeareano tem 4 séculos de idade e, em tão grande período, o idioma, com suas expressões, gírias, provérbios, modifica-se profundamente.


Dia 21 – Stratford-Oxford-Stratford

Passamos o dia em Oxford , cidade universitária, famosa pelos belíssimos átrios de seus colleges (foto abaixo).



Dia 22 – Stratford-Kenilworth-Stratford

Fizemos um passeio ferroviário a Kenilworth, onde visitamos as ruínas do famoso castelo.


Dia 23 – Stratford a Londres

Às 10.30, tomamos o ônibus para Londres, última cidade de nosso roteiro, e na qual planejamos permanecer por mais tempo: nove dias. Ainda em Stratford, comprei a revista Time Out, contendo os programas culturais de Londres na semana: são tantos, que fica difícil escolher onde ir. Para dar uma ideia: estão sendo exibidos 201 diferentes filmes; diariamente, existe uma média de quatro concertos: domingo, Sergio Baudo regerá a Philarmonia, num programa orquestral; no dia seguinte, voltará a regê-la, desta vez tendo como solista Alicia de Larrocha; terça-feira será cantado o Requiem de Mozart; na semana vindoura, a Philarmonic Orchestra terá por regente Bernard Haitink e assim por diante. No teatro, inúmeros musicais: La Cage aux Folles, Cabaret, Time, Cats, Les Misérables etc. etc. etc. Outra interessante instituição são os London Walks: caminhadas com guia enfocando aspectos interessantes da cidade: existem as Ghost Walks, caminhadas por locais visitados por fantasmas; caminhadas pelo submundo londrino, nos locais que serviram de palco aos personagens de Dickens; mas as mais divertidas são as Historic Pub Walks, a saber, caminhadas que combinam história com visitas aos pubs: programa para alcoólatra nenhum botar defeito! Ao folhear as páginas da Time Out, os nove dias pela frente em Londres parecem escassos!
Por outro lado, o dinheiro aqui evapora como água: no interior, um bom bed and breakfast, numa casa aconchegante, com um simpático casal de proprietários fazendo todos os esforços para agradar aos hóspedes, custa de 8 a 9 pounds por pessoa; em Londres, no mínimo 12 pounds, perfazendo 36 dólares diários por casal. Uma viagem de metrô custa no mínimo 50 pence (75 centavos de dólar), ou seja, oito vezes mais que no metrô carioca. A pint (pouco mais de meio livro) de cerveja custa em torno de 1 libra, i.é, três vezes o preço da garrafa da Antarctica. Em compensação, um anúncio de jornal oferecia um salário de £ 16.000 para um programador analista, ou seja, 340 mil cruzeiros anuais (1 libra compra 1,52 dólares; um dólar compra 14 cruzados no câmbio oficial).
Depois da cansativa viagem de ônibus e dos percalços para conseguir hotel barato, um passeio ameno: walking tour pelos pubs nas imediações do Tâmisa, entre as estações de Blackfriars e London Bridge.


Dia 24 – Londres

Uma dádiva divina: domingo de sol em Londres! Fenômeno quase tão raro como a neve no Brasil! Ao meio-dia, encontramo-nos com os amigos alemães que conhecêramos em Inverness, exatamente no ponto onde combináramos uma semana antes: o Speaker’s Corner, no Hyde Park. Que espetáculo bizarro: em seus pequenos palanques ambulantes, oradores discursam sobre os mais variados temas: socialismo, emancipação do homem, salvação em Jesus Cristo. Todavia, o mais interessante são os apartes acalorados da plateia; algumas pessoas frequentam sistematicamente o Speaker’s Corner, com o único intuito de contestar os oradores. Programa de inglês!
Outros programas de inglês, que presenciamos: tomar sol no gramado do Hyde Park, cortejar o Palácio de Buckingham, na vã esperança de uma aparição real, passear de barco no Tâmisa, dar comida às aves do St. James’s Park, tomar imensas pints de cerveja nos confortáveis pubs, porém dentro dos horários estabelecidos por lei: aos domingos e feriados, a venda de bebidas alcoólicas é proibida entre duas e sete da tarde, mesmo nos restaurantes.
Almoçamos numa espelunca no Soho, bairro chinês, onde se amontoam restaurantes orientais: chineses, principalmente; indianos; até um restaurante indonésio encontramos.
Quando, finalmente, às 19.00 reabriram os pubs, saciamos nossa sede de cerveja, e ficamos em agradável conversa até o horário de fechamento: dez e trinta. A seguir, a corrida ao metrô, que aos domingos só funciona até 23.30. Na Inglaterra horário é coisa séria!

Dia 25 – Londres

Hoje partilhamos da companhia dos Beatles, Mozart (foto), Kennedy, Gandhi, Napoleão, Nasstatia Kinski, a família real britânica e outras personalidades bem mais ilustres que nós. Como foi possível esse prodígio? Visitando o famoso museu de cera de madame Tussaud, inaugurado em Paris em 1777 e que, não sei por que motivo, acabou por se estabelecer aqui em Londres (com filiais em outras capitais: Amsterdam, Kopenhagen). O museu possui, além das imagens de personagens da história, da arte, do show-business, da política, uma reconstituição da Batalha de Trafalgar, vista do interior de uma escuna, e a horripilante Chamber of Horrors, dedicada aos vilões da história: à entrada, Hitler; no interior, cenas de execução na guilhotina, cadeira elétrica, garrote, por fuzilamento etc., e figuras de famosos assassinos, James Mason entre eles. Os britânicos parecem possuir o gosto pelo macabro e grotesco: existe aqui um museu sui generis, o Dungeon, com reconstituições em cera de aspectos horripilantes da história: decapitações de reis, torturas medievais, doenças etc. E fantasmas até hoje aparecem para espíritos desavisados... bem, já estou antecipando a história de amanhã.


À noite, ouvimos o concerto de Alicia de Larrocha no Royal Albert Hall.

Dia 26 – Londres

Ontem compartilhamos da companhia de pessoas célebres; hoje compartilhamos da de importantes marcos históricos: a pedra de Rosetta, os alto-relevos e esculturas que restaram do Partenon de Atenas (destruído numa batalha entre venezianos e turcos) e centenas de esculturas, mosaicos, pedras tumulares, inscrições, fragmentos de edificações etc. que os arqueólogos britânicos resgataram do esquecimento para compor a glória do British Museum.
À tarde, tentamos obter entradas baratas (o barato aqui é £ 7,50, i.é, 11,5 dólares; imaginem o caro!) para musicais badalados como CATS e TIME, mas em vão: tudo vendido. Aqui os bilhetes teatrais podem ser adquiridos com antecedência de quase um ano; os residentes podem encomendá-los pelo telefone, com débito no cartão de crédito e recebendo-os pelo correio; apesar da imensa procura para certos espetáculos, não existem cambistas oferecendo entradas pelo dobro do preço. Fizemos o teste: fomos à bilheteria do teatro de Cats comprar os ingressos mais baratos; tudo esgotado até setembro, informaram. Pensei: vamos a uma agência de turismo; decerto terão bilhetes “por fora”; fomos; não tinham.
Cansados de caçar bilhetes teatrais, resolvemos tomar cerveja num pub. Novamente, a frustração: eram exatamente três da tarde, horário em que, aos domingos e feriados, fecham os pubs, para reabrir às sete. E aqui absolutamente não existe jeitinho. (NOTA – na verdade, ao menos no bairro chinês, existe; alguns dias depois, serviram-nos cerveja, durante uma refeição, em pleno horário de proibição!)
À noite, procuramos compartilhar da companhia dos famosos fantasmas britânicos: participamos de uma ghost walk que, principiando na estação Embankment, atravessou a área de teatros em torno de Covent Garden e Leicester Square (pronuncia-se “Lester Square; não me perguntem por quê) e, após cruzar St. James’s Park, terminou num pub perto da estação de metrô de mesmo nome. Apesar das horripilantes histórias narradas pelo guia, nenhum fantasma dignou-se a honrar-nos com sua presença; é mais fácil encontrar um assaltante no Rio de Janeiro. (À noite, misteriosas batidas nas paredes dos andares superiores do hotel fizeram-nos dormir de luz acesa; no dia seguinte, analisando o evento friamente, concluímos termos sido sugestionados pela tour; afinal, nem tudo que bate é fantasma!)

Dia 27 – Londres

Visita à Torre de Londres (foto abaixo - não confundir com a Tower Bridge), impressionante conjunto de edificações históricas, a mais antiga do tempo de Guilherme o Conquistador (séc. XI), cercadas por uma muralha, tendo servido de palácio real e local de confinamento de presos políticos, como Sir Walter Raleigh. Em seus gramados habitam os famosos corvos, muito bem tratados e alimentados pois, segundo uma lenda, quando deixarem de habitar a Torre, cairá a monarquia.


Às seis da tarde, aproveitamos o único horário na semana de visita gratuita às capelas reais da Abadia de Westminster, onde estão enterrados os soberanos ingleses.

Dia 28 – Londres

A viagem vai chegando ao fim, trazendo a frustração de vivermos num país rico em recursos naturais, com um grande parque industrial, com todas as condições de se tornar civilizado (e é tão bom viver num país civilizado, onde as instituições – a polícia, os transportes públicos, o governo, a moeda etc. – funcionam, sem cambistas, sem guardadores de carro, sem garotos vendendo balas nas ruas, sem “paqueras” abordando toda e qualquer mulher desacompanhada, sem automóveis entulhando as calçadas, sem “espertalhões” furando filas, pagando ágio, comprando na “robauto”...), porém eterna vítima de administradores ineptos, funcionários corruptos, classe média tacanha, classe rica amoral, classe pobre ignorante e explorada. Impressionante, na Grã-Bretanha, a quantidade de livrarias, e de pessoas lendo nos trens, no metrô, nos pubs etc. O desenvolvimento de uma nação pressupõe o adestramento da capacidade intelectual de sua população; um país onde ninguém lê será eternamente colonizado.
Aqui a polícia anda desarmada, e não precisa “dar porrada” para reprimir a criminalidade; a Idade Média foi superada. O criminoso é coibido por um sistema jurídico e penitenciário eficaz: é o que infiro a partir de pequenas observações. Por exemplo, nos ônibus há um aviso de que passageiros que tentarem viajar sem pagar passagem estão sujeitos a multa e medidas judiciais; nos supermercados, o aviso de que tentativas de furto são passíveis de processo judicial, etc.
Quer dizer: se eu for pilhado em flagrante delito, serei processado; o processo não durará dez anos, como no Brasil; se condenado, possivelmente não conseguirei comprar minha liberdade... ante tais perspectivas, melhor não furtar!
Chega de digressões, e vamos ao passeio do dia! Estivemos em Greenwich, onde fica o antigo observatório real, hoje transformado em museu de instrumentos astronômicos e de mensuração do tempo.


Dia 29 – Londres

De manhã, frequentamos o moderno comércio londrino: Selfridges, gigantesca loja de departamentos na Oxford Street; Tower Records, maior loja de discos do mundo, no Piccadilly Circus: são quatro grandes compartimentos, respectivamente de rock, jazz, miscelânea e música clássica, onde se encontra praticamente qualquer disco editado (exceto aqueles que eu procurava: um disco esgotado de Ray Charles, um antigo disco de Joe Cocker e um da Electric Light Orchestra); e a Foyles, maior livraria do mundo, com quatro pavimentos: no primeiro, romances, poesia, turismo e culinária; no segundo, livros técnicos; no terceiro, arte e livros estrangeiros; no quarto, teatro e cinema.
Após um almoço (decepcionante) num restaurante chinês (no Soho, existem às dezenas; acostumamo-nos de tal maneira à comida cantonesa, que a pequinesa não mais nos apetece) e duas horas de repouso em nossa espelunca (quando o cruzado realmente for moeda forte, como o marco, o yen e até o dinar iugoslavo, quem sabe possamos melhorar o nível de nossa hospedagem? Encontramos uma única casa de câmbio, entre as centenas que aqui pululam, a negociar a moeda brasileira; a troca de cruzados em libras sai 94% mais cara que pelo câmbio oficial brasileiro; já a troca de libras em cruzados ultrapassa em 62% nosso câmbio oficial, quer dizer, é mais vantajoso realizar essa operação no paralelo brasileiro; moral da história: cruzado, em Londres, só dá prejuízo), dirigimo-nos à estação Temple (região onde ficava a sede dos templários), para mais um coquetel de cerveja e cultura: desta vez, uma Charles Dickens Pub Walk, passeio guiado por locais significativos na vida de Dickens, ou que tenham sido descritos em seus romances, inclusive a visita a três pubs por ele frequentados. Conhecemos um irlandês (da República da Irlanda, não da Irlanda do Norte), que disse terem seus compatriotas torcido pelo Brasil na última Copa; aliás, por toda parte, seja no Cairo, na Escócia, em Londres, o futebol brasileiro é admirado; para muitas pessoas, o futebol e o café são os únicos aspectos conhecidos do Brasil; o único brasileiro representado no museu de cera de madame Tussaud é Pelé.
A cerveja britânica merece um parágrafo à parte. Enquanto o resto do mundo bebe a cerveja lager, de baixa fermentação, normalmente dourada (desenvolvida, na metade do século passado, na cidade boêmia de Pilsen, daí o termo “pilsener”), a Grã-Bretanha ainda mantém a tradição de beber cervejas de alta fermentação: a ale, na Inglaterra, Gales e Escócia, e a stout, na Irlanda. São cervejas de cor amarronzada, de gosto um pouco amargo, servidas em temperatura ambiente; no Brasil consideraríamos tais cervejas como “chocas”.

Dia 30 – Londres

Influenciados pela pub walk de ontem, fizemos uma visita à casa em que viveu Charles Dickens, hoje um museu reunindo cartas, manuscritos, fotografias, publicações, quadros, etc.
A caminho do Soho, onde pretendíamos almoçar, passando em frente ao Dominion Theatre, resolvi, sem grandes esperanças, tentar obter um ticket de £ 7,5 (o mais barato) para a badalada peça Time. Para minha surpresa, tive sucesso, de modo que, para não comprometer o orçamento, trocamos o almoço cantonês por um lanche ligeiro nos gramados do Hyde Park (pode parecer romântico, mas o vento frio estava insuportável!). Sobre a peça: trata-se de uma alegoria musical, com fantásticos efeitos luminosos e de laser, sobre um julgamento da incapacidade da humanidade de se conduzir racionalmente, e a discussão de esta vir a abrir mão da agressividade, de modo a não colocar em risco o restante do universo. Deve virar filme de sucesso. Aguardem.

Dia 31 – Londres

Último dia em Londres. Cansados, as pernas doloridas. Um mês sem notícias do Brasil: que terá acontecido? Sarney ainda é presidente, ou terá sido derrubado? E a bolsa de valores? Terei ganhado dinheiro para financiar futuras viagens, ou perdido? Nosso último passeio em Londres: uma caminhada sem guia, por lugares onde tantos guias nos trouxeram ultimamente. Um concerto de órgão na catedral de Westminster, um dos poucos marcos católicos num país onde, após o rompimento de Henrique VIII com o papado, o catolicismo tornou-se quase que uma religião clandestina. Nosso último jantar no Soho: no restaurante cantonês, tão de nosso agrado, que tão agradáveis experiências gastronômicas tem-nos proporcionado! À noite, fizemos as malas.

Dia 1 – Londres-Amsterdam-Rio de Janeiro

Retornamos à cidade maravilhosa. Como já é praxe, notícias de acidentes aéreos nos perseguem: choque de aviões nos Estados Unidos. Porém, graças a Deus, voltamos sãos e salvos! (Se bem que os passageiros do avião acidentado certamente também acreditavam em Deus).

Rio de Janeiro, 13 de setembro de 1986. Slides (digitalizados) e texto de Ivo Korytowski.

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