MACHADO DE ASSIS: TREZE MELHORES CONTOS
Se você tem curiosidade de ler Machado de Assis mas não sabe por onde começar ou tem medo de se decepcionar, este é o portão de entrada.
Se você já é fã do “bruxo”, tem aqui o suprassumo de sua obra, para levar no seu Kindle, tablet ou celular e ler e reler em todos os lugares: na fila de espera, no engarrafamento, no metrô, no trem, no avião, no parque, na praia, até mesmo em casa.
Mais informações clicando aqui.

RACISMO PÚBLICO, MAS SEM NOTICIÁRIO, de Carlos Brickmann

Um espantoso pedido foi feito pelo chefe da Assessoria de Assuntos Internacionais do Ministério da Ciência e Tecnologia à Universidade de São Paulo: que indique pesquisadores e cientistas de origem árabe "tendo em vista o desenvolvimento de programas e projetos de cooperação em Ciência e Tecnologia entre nosso País e os Países árabes". O absurdo passou em branco pela imprensa (se houve notícia, este colunista não chegou a encontrá-la, o que mostra como tudo foi feito discretamente, sem repórteres por perto).

Não basta ser brasileiro: agora é preciso verificar, como na Alemanha de 70 anos atrás, quem são os pais, avós e bisavós de nossos cientistas, para que possam participar de projetos de cooperação. O professor César Lattes, orgulho da Física brasileira, não estaria enquadrado na restrição étnica do Ministério da Ciência e Tecnologia; nem o professor Isaías Raw, que comanda com brilho o Instituto Butantan; nem o médico José Gomes Temporão, nosso ministro da Saúde. Nem, saliente-se, o engenheiro eletrônico Sérgio Machado Rezende, mestre e doutor pelo Massachusetts Institute of Technology e ministro da Ciência e Tecnologia, exatamente da pasta onde foi cometida essa tremenda escorregada.

Nos Estados Unidos, um descendente de alemães, Eisenhower, comandou tropas americanas, inglesas, canadenses e francesas no combate ao Exército nazista. Não se procurou um general "com ascendência anglo-saxã". Havia alemães, italianos, americanos das mais variadas origens, no Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica. Um judeu russo, Irving Berlin, compôs a mais conhecida das músicas americanas de Natal, White Christmas, e o hino nacional extraoficial dos Estados Unidos, "God Bless America". Os reis da Inglaterra têm origem alemã; a rainha da Suécia é filha de brasileira. O presidente dos Estados Unidos é filho de queniano. Mas cientista brasileiro, para participar de um projeto de cooperação com países árabes, tem de ter ascendência árabe. E nossa imprensa, para se manifestar, precisa ser provocada por algum evento especial?

Há no Brasil notáveis cientistas e professores de origem árabe, que sem dúvida estão entre os melhores do país. Mas não é sua origem que deve determinar as atividades que vai desempenhar: é sua competência, sua capacidade, seu reconhecimento. A exigência do Ministério da Ciência e Tecnologia é tão estrambólica que a USP se esquivou delicadamente de cooperar. Divulgou a mensagem do Ministério da Ciência e Tecnologia, colocou-se como mera repassadora da estranha solicitação e informou aos professores interessados que poderiam dirigir-se diretamente ao chefe da Assessoria de Assuntos Internacionais do MCT, pelo e-mail (como os endereços e telefones são públicos, este colunista toma a liberdade de divulgá-los) secassin@mct.gov.br ou pelos telefones (61) 3317-7777 e (61) 3317-7733. Ah, sim, não percam tempo desmentindo: esta coluna tem a documentação toda.

Alô, ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi! É lícito discriminar entre brasileiros, ainda mais com base em seus antepassados? A igualdade, com a liberdade e a fraternidade, não faz parte dos Direitos Humanos? Alô, ministro da Igualdade Racial, Édson Santos: vai ficar por isso mesmo? Que igualdade racial é essa, que vai buscar a ascendência dos brasileiros para aproveitar ou não seu talento e sua capacidade de trabalho?

E, principalmente, alô, jornais, revistas, rádio, TV, Internet, blogs, imprensa em geral: que tal cuidar desse assunto grave em vez de limitar-se a fofoquinhas eleitorais? Quedar-se em silêncio diante da discriminação é inaceitável.

Carlos Brickmann, colunista do Observatório da Imprensa, do Diário do Grande ABC, antigo editor-chefe da Folha de São Paulo, é dono de invejável currículo no jornalismo brasileiro.

Nenhum comentário: