DOS DEFUNTOS, de Hélio Brasil


Não gosto de enterros, mesmo quando os defuntos não me são simpáticos. Ao meu enterro irei por absoluta impossibilidade de faltar, e para não ser descortês com os amigos. Além do que, enterro é envolvido e antecedido por expressões lúgubres e palavras exdrúxulas (em todos os sentidos): nosocômio, coma, CTI, laparatomia, entubação, necropsia, seguidos, em geral, por passamento, expiração, falecimento e velório, logo acompanhados por féretro, ataúde, essa, catafalco, cenotáfio e, mais, sepulcro, jazigo, tumba, exumação.

Este rebarbativo, sonoro e sombrio elenco poderia desqualificar a morte, não fossem a lágrima – amiga da tristeza, mas bela palavra – e, logo depois, a saudade, segundo alguns, vocábulo ímpar da derradeira flor do Lácio, sem equivalente, dizem, nas outras línguas. O regret do inglês e o revenir do francês, não expressam o sentimento, não “traduzem” aquela dorzinha aguda, o desconforto da ausência. Apenas quebram o galho... 


Mas o caso não é vocabular. Sob o título geral de Deslumbramento & Amargura, minhas crônicas não poderiam desprezar o enterro, este ato da comédia humana e, de como, na qualidade (por ora) de assistente, a ele cheguei.

Logo que me aprumei como gente, participando da vida familiar, ouvindo sem ser ouvido, mais escutando do que ouvindo e sempre falando para as paredes, acompanhei minha mãe nos enterros, já com eles familiarizado. Em outras crônicas falei das madrugadas tétricas com as mortes de um dos meus tios e de meu avô, esta última por mim testemunhada. Experiência amarga e repetida, anos mais tarde, ao ver o último suspiro de minha prima Élida, ainda um bebê.

Ao recebermos a comunicação da morte de alguém próximo, parente ou conhecido, mais das vezes cabia à minha mãe representar a família. Ir ao velório – na época, realizado em casa, pois raros morriam nos hospitais – e, a seguir, acompanhar o féretro. Ali, a família era o espetáculo, o defunto um personagem secundário. Viúvas inconsoláveis ou conformadas, filhos pranteando pais, mostrando, porém, o alívio ao se desfazer dos encargos criados por irremediáveis velhos, doentes de irremediáveis doenças.


O morto era entronizado, em geral, na sala de visitas da casa (os apartamentos é que acabaram com os velórios). Coberto de flores, vestido como se fosse a uma festa onde não faltavam  a gravata, as meias e os sapatos de verniz. Lá ficava o falecido, o rosto talhado em marfim, olhos vítreos, entreabertos, o queixo amarrado por um lenço ou por uma gaze, para que não lhe sobrasse um último ar de espanto. Jamais lhes surpreendi um esgar de sorriso. A maioria das vezes, a falsa serenidade deixava transparecer a perplexidade de ter deixado uma vida jamais desejada.

Em nossas terras, usava-se o indispensável cafezinho para distrair os presentes. Aqui e ali, um biscoitinho. Mais requintados, um bolinho. Ou pastéis. Música, nem pensar. Só na missa do sétimo dia, os Gounot, Schubert entravam em cena.

As cenas no fechamento do caixão, para as despedidas tradicionais, implicavam em gritos, choro convulso e um grupo tentando arrancar o sofredor vivo curvado sobre o irremediável morto. O transporte até o carro paramentado com ornatos negros sobre fundo dourado, o roxo da seda do caixão compunham a cine-xilogravura tétrica.


Olhai este retrato lindo / Vereis quem aqui está dormindo

E lá se ia o cortejo, carros e mais carros perseguindo o morto, levando, por vezes, em suas capotas as tétricas coroas, penduradas as faixas: Saudade eterna (como se o amigão fosse eterno), Jamais o esqueceremos (mal voltados do cemitério, já esqueciam quem se fora...). E o defunto perseguido, vigiado na sua última viagem para o campo santo. Lá chegando, uma carreta o esperava. Os mesmos abnegados que o levaram da essa ao carro, o depositavam na carreta. Mas esta nem sempre fora componente do ato e, mãos fortes, de novo, empunhavam as alças do caixão. Seguia-se o trajeto entre as campas e jazigos, seguindo o grupo dos carregadores, mais das vezes as pessoas da família, revezando-se os homens na tarefa, ora pela distância em que se encontrava o sepulcro, ora pelo avantajado peso do defunto. À beira da cova, nova cerimônia. Nada de aplausos, como hoje vem se fazendo. Podia parecer um desrespeito ao morto. Como sonoplastia adicional, o soluçar dos mais chegados, o fungar de um ou outro e, mais raro, uma voz em despedida.  Apenas as orações murmuradas antes que o caixão baixasse, o choro abafado, a pá de cal passada de mão em mão, e a fila aflita para que o derradeiro a lançar o pó branco não fosse um jovem, alimentada a crença de que o último a jogar a cal seria o próximo a morrer, davam som e cor ao lúgubre espetáculo. O arremate cabia aos coveiros que aguardavam com ar entre compungidos e impacientes, chapéus na mão, sua entrada em cena. A terra acumulada ao lado, como se fazia nas covas rasas, era puxada pelas enxadas para encobrir o ataúde, como de praxe, a sete palmos do chão. A operação fazia ressoar o tenebroso ruído dos torrões quebrando-se sobre tampa do esquife, até cessar, sendo substituído pelo som da terra preenchendo toda a sepultura.


Nos jazigos perpétuos, onde os restos mortais seriam sobrepostos – os mais antigos já exumados, os ossos acomodados em uma caixa –, uma laje de concreto cobria o novo hóspede. Jamais acompanhei um morto que fosse guardado nos grandes jazigos, semelhantes a capelas, com gavetões laterais. Meus mortos eram menos importantes.

E assim, família, amigos e conhecidos desfaziam-se do falecido que ganharia visitas esparsas, nos aniversários, no dia dos Finados ou em datas marcantes. Depois, a exumação que se tornava espetáculo macabro, dependendo do solo e das condições físicas do defunto. Mais das vezes, lá estavam os trajes em farrapos e ossos mais ou menos em estranho quebra-cabeças...


Um derradeiro ato da tragi-comédia humana.



Este texto, um dos capítulos de Cadernos (quase) esquecidos de Hélio Brasil, foi gentilmente cedido pelo autor para publicação neste blog cultural.  Fotos do Cemitério São João Batista (Rio de Janeiro) do editor do blog.


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