LUCIA AIZIM







Lucia Aizim nasceu na Ucrânia em 1915. Em 1919, sua mãe emigrou para o Brasil acompanhada das duas filhas, Lucia e Luba. Veio para a cidade do Rio de Janeiro, onde já viviam seus pais.
Aqui Lucia estudou, formou-se na Academia de Comércio Cândido Mendes, trabalhou alguns anos, casou-se e depois dedicou-se à família por décadas. Seu livro Cânticos foi dedicado às filhas: Isabela, Diva, Eliana, Elisabeth, Margareth (minha amiga de adolescência quando sua mãe nem sonhava que viria a publicar livros e eu nem sonhava que iria ao lançamento de um deles) e Evelyn. Publicou seu primeiro livro de poesia em 1974. Faleceu em 2006.

Ivan Cavalcanti Proença chama a atenção para o ritmo singular e pessoal de Lucia Aizim: “Um ritmo (o grande e único segredo, afinal, da poesia moderna) dela, só dela, poeta Lucia Aizim: ritmo de uma sintaxe própria, inclusive nos encadeamentos de verso para verso, de estrofe para estrofe.”

Marinha

No mar o coração entre vagas
No mar esperança entre vagalhões
No mar o amor emerge entre destroços
No mar dia e noite dão-se as mãos.

No mar os anjos trocam as asas
Duendes invadem os poços
e se desvanecem.

Afastado o sonho
ao alcançar a dura
superfície.

O amanhã resplandece.

Trama

Eu sou uma aranha
teço reteço transteço
o abismo sem parar.

Vivo a tecer e a retecer
e outra vez e outra.
Que tecer é destino.

Depois amanheço e vem
o sol e lambe de novo a teia,
as cores se escondem no avesso.

Mais tarde anoiteço
e vem a lua e ilumina
todo aquele feitiço.

Eu que entre o desconhecido
e as estrelas navego.
Quanto susto ao recordar:

a infância, o perigo, o infortúnio
enquanto aqui a salvo
com meus dedos ágeis

continuo a tecer os fios,
a trama um universo
no tecido do tempo.
Infindável desafio.

Metalinguagem II

Não posso dormir
Minha cabeça gira gira.
Pego uma, duas palavras.
Descasco-as.
Espremo-as.
Extraio sua essência.

Mas voltam-me tal e qual
antes de transformá-las
em seres inanimados.

Estiro-me e procuro
contemplá-las. Então o enxame
de mosquitos vem se juntar.
Pousam nas fibras secas,
esbranquiçadas medulas.

Já não se podem pronunciar
as palavras sagradas.
Recusam-se. Nem forma nem cor
tampouco a sonoridade se revela.

Restam apenas, fragmentos,
libélulas, gota suspensa,
sob a asa de um devaneio.
E fios, tênues, de pensamento
voam.

2 comentários:

Anônimo disse...

Lindos poemas da minha bisavó !

Renan Dal-cin Aizim Diamante

Unknown disse...

Como me lembro bem da D.Lucia!! Minha infância foi passada na casa dela todos os finais de semana.