A BARATA SAI CARO, de Ivo Korytowski


Que o cão é o maior amigo do homem, todos hão de concordar. E o maior inimigo? O próprio homem. Homo homini lupus — O homem é um lobo para o homem. Mas em segundo lugar, ao menos nos meios urbanos, vêm as baratas. Acham que exagero?

Vez ou outra deparamos, num desses programas de TV sobre o mundo natural, com denodado cientista coletando, examinando, catalogando alguma ordem de inseto: borboletas, besouros, essas coisas. Mas nenhum cientista é maluco de estudar as baratas (só se for um cientista masoquista). Se elas já parecem medonhas, hediondas a olho nu, em tamanho natural, quão mais assustadoras serão — você consegue imaginar? — sob a lente do microscópio?

O dia (bendito dia!) em que a barata for uma espécie em extinção, quero ver se algum ambientalista virá em sua defesa. Mundo sem baratas, maior barato!

Dizem os expertos que a barata existe desde as priscas eras em que os dinossauros reinavam sobre a Terra. Cá entre nós, os dinossauros, tão fofinhos, não mereciam...

O primeiro preceito budista proíbe matar animais. Por isso, o bom budista não come carne. Mas como fazem os bons budistas pra conviver com as baratas? Acho que vou fazer uma viagem ao Sri Lanka pra pesquisar in loco esta questão!

A barata, de tão repelente, não é citada em nenhum livro da Bíblia, seja do Novo ou Antigo Testamento. E olha que até a pulga tem seu momento de fama na sagrada escritura: “Após quem saiu o rei de Israel? A quem persegues tu? A um cão morto, a uma pulga!”

Não se pode servir a dois senhores simultaneamente: ou você se dedica à família, ou à literatura. Depois de vários casamentos (formais e “pirata”) malsucedidos, resolvi me casar com a literatura (as freiras não se casam com Cristo?). Mas como me dedicar à nobre arte num apartamento que (sem o toque feminil) aos poucos vinha sendo invadido por legiões de formigas e baratas?

Combater as formigas foi mais fácil. Sempre que elas farejam (lá da rua, suponho) uma pitada — ainda que infinitesimal, no sentido matemático do termo — de açúcar ou qualquer alimento doce, escalam (suponho) os três andares até a minha toca e, em perfeita fila indiana, qual soldadinhos de desenho animado, vêm atacar o petisco. A solução: bombardear a fila de formiguinhas. Bombardeio de inseticida, claro, que não sobra uma pra contar a história.

Ou por outra, sobra sim. Porque, depois de alguns meses de bombardeios sistemáticos e impiedosos, imagine que as formiguinhas desistiram de vir me incomodar! Tenho pra mim que as formigas não são nada imbecis e se comunicam entre si: sabe o apartamento lá no terceiro andar onde mora aquele escritor aloprado cercado de livros? Pois é, tomem cuidado, que ele é meio nazista...

Já as baratas são mais burras. A cada barata que você extermina (morrendo de nojo, às vezes chegando ao cúmulo de se arrepender de ter se separado — pelo menos pra matar baratas a patroa servia), logo aparecem mais duas. Não há nada que espante esses repelentes ortópteros onívoros (obrigado, Aurélio!) — nem mesmo a Cavalgada das Valquírias ou música funk.

Munido de tubo após tubo de inseticida, declarei guerra santa, cruzada contra as baratas que teimavam em vir dar as caras onde não eram chamadas. Se, no Juízo Final, eu vier a ser acusado de assassino de pobres baratas, replicarei ao bom Deus, pobres uma ova, eu bem que avisei, alto e bom som, que não ousassem invadir meu sagrado domicílio, que a pena não era nada branda — pena de morte, sumária, sem apelação. Quem mandou serem abusadas?

Pois: um dia estava tranqüilamente preparando o almoço quando flagro uma barata passeando, maior cara-de-pau (não tomem esta expressão literalmente), bem em cima do meu fogão. Numa reação que já se tornara automática, peguei do tubo de inseticida e... pfff... quase provoquei um desastre. Ninguém nunca me havia dito que o inseticida é inflamável, e a chama do fogão veio subindo spray acima quase até o tubo em minha mão. A pobre da barata, baratinada, mergulhou de encontro à chama do fogão, que lhe queimou as pernas, deixando-a desmembrada e morta. Dantesco!

Aquela foi a gota d’água. Parei tudo que estava fazendo, peguei as Páginas Amarelas e liguei pras dedetizadoras. Escolhi a empresa de maior preço (a barata sai caro) e com maior garantia: um ano sem estas pestes! É bom demais pra ser verdade.

É bom demais pra ser verdade, disse eu? Pois é, meu primo advogado veio logo cortar meu barato. Ele é desse tipo chato-de-galochas-que-gosta-de-contar-fim-de-filme. (O Burton faz um papel perfeito de mordomo, nem dá pra desconfiar que ele é o assassino... ih, foi mal, sem querer contei o fim do filme.) Segundo ele, o Procom está assim de gente reclamando de dedetizações que não surtiram o menor resultado.

Deus, ó Deus, não quero me meter em Vossa criação, mas em Vosso lugar, no Dilúvio Universal, teria feito uma única exceção às baratas. Deixando-as sucumbir. (Escrito em junho de 2004, quando eu morava sozinho e legiões de insetos invadiam meu apartamento)

Um comentário:

Editora Muiraquitã disse...

Olá Ivo.
Você foi premiado no sorteio do livro Roteiro Sentimental do Rio de Janeiro.
Por favor, mande seu endereço completo para editora.muiraquita@gmail.com

Roberta