Machado
de Assis(Rio
de Janeiro, 21/6/1839–29/9/1908), filho de mãe branca, açoriana,
e de pai “pardo forro” (portanto, longe de ser um “negro”
como queria Harold Bloom), além de suas vertentes de romancista e
contista mais conhecidas do público leitor atual, foi também
tipógrafo e revisor (no início da precoce vida profissional),
repórter político (fazendo a cobertura das sessões do Senado),
poeta romântico (que, ao contrário dos colegas de estro, não
morreu jovem de tuberculose), crítico teatral, censor de peças de
teatro, teatrólogo (com peças “datadas”, que não são mais
encenadas), funcionário público (no bom sentido, trabalhador, usou
de seu poder no serviço público para proteger os escravos),
tradutor (sua tradução de Os trabalhadores
do mar de Victor Hugo é lida até
hoje), colunista de jornal.
Em
vida, publicou 29 livros: nove romances, quatro livros de poesias
(Americanas, Crisálidas,
Falenas
e Poesias
completas),
cinco coletâneas de contos, seis livros de teatro, duas coletâneas
de gêneros diversos (Páginas
recolhidas
e Relíquias
de casa velha),
uma tradução (Os
trabalhadores do mar)
e dois livros de caráter técnico (Higiene
para uso dos mestre-escolas
e Terras).
Uma produção e tanto! Todavia, “grande parte da produção de
Machado de Assis não foi, em vida do autor, reunida em livro,
ficando dispersa em periódicos” (jornais e revistas), bem como
“correspondências particulares, mensagens escritas em álbuns de
autógrafos” etc. (Alex Sander Luiz Campos, conferência “Edições de Machado de Assis: Por Quê, Para Quê?”)
Assim, depois que o “bruxo do Cosme Velho” deixou este mundo,
começou o afã por coligir e publicar seus textos ainda inéditos em
livro, como mostra a seção “Publicações póstumas” do verbete
“Obra de Machado de Assis” da Wikipédia em língua portuguesa
para a qual o autor deste artigo deu sua contribuição. As primeiras publicações póstumas devem-se a Mário de Alencar,
filho do grande romancista romântico, praticamente adotado por
Machado, que organizou sua obra de teatro, crítica literária,
crônicas da seção “A Semana” da Gazeta
de Notícias, e obras de
prosa e verso reunidas nas Outras relíquias.
Em 1932, Fernando Nery publica a correspondência
do grande escritor e um volume de Novas
relíquias. Em 1944 a crítica literária
Lúcia Miguel Pereira traz a lume a novela Casa
Velha. Nos anos 1950 R. Magalhães Júnior
organizou e publicou vários volumes de contos e crônicas do autor.
Em 1965 o pesquisador francês Jean-Michel Massa reúne 150 textos
variados nos Dispersos de Machado de Assis.
(Estes são apenas alguns exemplos.) E o garimpo nunca parou,
entrando século XXI adentro.
Um caso
pitoresco que merece menção foi uma carta de Machado de Assis,
datada de 22 de julho de 1890, contendo um soneto inédito por
ocasião do aniversário de seu amigo e poeta Ernesto Cybrão,
vendido em leilão em 5 de agosto de 2019 por Levy Leiloeiro. O
colunista Lauro Jardim, de O Globo,
em matéria intitulada “Soneto inédito de Machado de Assis é
arrematado em leilão”, anunciou a venda nestes termos: “05/08/2019
• 16:01 Foi arrematado agora há pouco, num leilão no Rio de
Janeiro, uma carta contendo um soneto inédito de Machado de Assis. A
correspondência foi escrita para um velho amigo, o poeta português
Ernesto Cybrão, que aniversariava naquele 22 de julho de 1890. E se
inicia desta maneira: ‘Acabo de saber que, não sabendo/ Que havias
de fazer, fizeste hoje anos;/ Mas tão calado, ó deuses soberanos/
Que eu, sem nada saber, ia morrendo’. A preciosidade foi leiloada
por R$ 8,2 mil, apenas R$ 200 acima do lance inicial.”3
O
leiloeiro assim descreveu o documento: “Manuscrito inédito de
Machado de Assis (1839 - 1908) . Datado de 22 de Julho de 1890.
Curiosamente traz 1 soneto inédito por ocasião do aniversário de
seu amigo e poeta Ernesto Cybrão. Acompanha o manuscrito o envelope
que foi endereçado ao poeta. O manuscrito traz belíssima ilustração
de época na parte superior e assinatura de Machado de Assis no canto
superior direito.”
O
interessante é que, em 26/2/2021, o mesmo manuscrito foi novamente
vendido em leilão, desta vez por Vera Nunes Leilões. Em e-mail enviado aos amigos em 23/7/2019, informou Alexei Bueno: “Um
papeleiro encontrou no lixo, no Leblon, este lindo manuscrito do
Machado, com um muito bom e espirituoso soneto para o aniversário do
Ernesto Cybrão, um poeta português que era seu amigo e vizinho, já
que morava na rua Cosme Velho 33, e o Machado, então com 51 anos, no
18. Já está num leilão, por oito mil reais. O que se descobre no
lixo no Rio de Janeiro é impressionante, a espantosa ignorância
deste povo contribuindo bastante com tal espécie de garimpo. E se
não fosse o papeleiro, adeus soneto.” Eis o soneto:
Acabo de saber que, não sabendo Que havias de fazer, fizeste hoje anos; Mas tão calado, ó deuses soberanos, Que eu, sem nada saber, ia morrendo.
Em tratado de idade, compreendo Que antes cantá-la que sentir-lhe os danos; Mas tu, mas tu, tu quoque, Cyprianus? Tu, eterno rapaz? Acho estupendo.
Nem por isso te livras deste frio Soneto feito de versinhos bambos, Que dão, ao lê-los, tédio e calafrio.
São farrapos, concordo, são molambos... Mas uma cousa nos reforça o brio: “Ambos na flor da idade, árcades ambos.”
Soneto inédito de Machado de Assis. Fonte: Site de Levy Leiloeiro
“Iniciando a atividade literária pela poesia, Machado foi durante muito tempo considerado e louvado acima de tudo como poeta.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poeta”.)“Há diversas poesias de Machado, em geral obras de juventude, recitadas em festas e solenidades, noticiadas em jornais da época, que se encontram perdidas.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poesias perdidas”.) Uma destas poesias perdidas “recitadas em solenidades”, descoberta pelo pesquisador Felipe Rissato, saiu no Jornal da Noitelisboeta de 18-19 de dezembro de 1873 (pág. 3), em matéria sobre a despedida do ator português José Antonio do Vale no “teatro de D. Pedro” (Imperial Theatro de São Pedro de Alcântara, onde hoje se ergue o Teatro João Caetano, na atual Praça Tiradentes - Ver QUAL O TEATRO MAIS ANTIGO DO RIO DE JANEIRO?) antes de retornar a Lisboa, após bem-sucedida temporada no Rio de Janeiro. Informa a matéria (atualizada para a ortografia vigente):
“Cumprimos
hoje a promessa que fizemos, narrando as festas que se fizeram no
benefício de despedida do ator Valle no teatro de D. Pedro, no Rio
de Janeiro, que foram esplêndidas igualando as que o público
daquela capital fez em honra da insigne [atriz italiana Adelaide]
Ristori, e as mais pomposas de que ali há memória.
O teatro
encheu-se completamente assistindo ao espetáculo a família
imperial, o nosso embaixador e as pessoas mais distintas da corte.
Quando o
simpático artista acabou de recitar a poesia de despedida [de
Machado de Assis, como veremos adiante], correu-se o pano de fundo e
avistou-se o navio que figurava no drama a Filha
do Mar, todo embandeirado, grandes fogos cambiantes e chuvas de oiro.
Ao mesmo
tempo, uma atriz de 7 anos desceu de um pedestal em que se lia a
seguinte inscrição: Ao gênio dramático,
e veio entregar ao seu colega uma coroa oferecida pelos carpinteiros
do teatro e depois uma linda abotoadura da guarda roupa, uma coroa da
orquestra, outra do cabeleireiro e muitos versos. A esta manifestação
seguiu-se a dos artistas da companhia com uma fotografia em que se
viam todos eles de casaca, formando um grupo, uma poesia de um
artista brasileiro e duas de artistas portugueses.
As
palavras e os bravos repetiam-se freneticamente, os versos caíam em
nuvens dos camarotes. No camarim recebeu ainda muitas prendas de
todos os artistas e de grande número de pessoas que admiram nele a
par dos dotes do talento as qualidades pessoais.
Ao
terminar o espetáculo o público invadiu o palco e foi abraçar o
ator que agradecia enternecido e com as lágrimas nos olhos aquelas
provas de afeto. A comoção dos que o apertavam nos braços não era
menos espontânea.
O senhor
Valle foi ao camarote imperial despedir-se de suas majestades que o
acolheram benevolamente e na véspera da partida deu um banquete aos
seus artistas e empregados e amigos mais íntimos. [...]
A poesia
[cinco oitavas endeeassilábicas com rimas entre o primeiro e terceiro,
e sexto e sétimo versos] que o ator Valle recitou na despedida é de
um poeta conhecido nos dois hemisférios, o senhor Machado
d’Assis[grifo nosso] cujas composições
inspiradas são sempre bem recebidas. Ei-la:
Breve irei; pouco tarda que eu vejaLonge, longe sumir-se no espaço Esta terra que eterna verdeja, Esta terra de palmas e amor. Volto ao seio da pátria um instante, Doce mãe que a seus filhos adora. Curta a ausência há de ser. Curta embora, Parte d’alma aqui deixo em penhor.
Tantas flores viçosas me destes Tanto afeto, tamanho e tão puro, Tantas vezes a mão me estendestes; Nesta estrada cruel de passar, Que ora sinto morrer-me nos lábios A palavra que vibra em meu peito; Perdoai-me, que é justo o defeito: Sei apenas sentir e lembrar.
Sei lembrar-me... se a mão do destino Me trancasse o caminho das águas, Se de novo este céu peregrino Contemplar não pudesse uma vez, Dentro d’alma com letras de fogo, A memória gravada ficara Deste povo que as artes ampara, Justo, amável, sincero e cortês.
Inda assim vai comigo a lembrança... Não; vai mais: é saudade que levo É saudade que aviva a esperança De tornar a gozar este amor. Levo-a n’alma. No meio do Oceano, No regaço da pátria querida, Pintar-me-á estas noites de vida Como aroma que lembra uma flor.
Há mais alta, mais fúlgida glória, Viçam louros de eterna frescura, Enchem folhas austeras da história Muita fama bendita por Deus; A mais doce das glórias, contudo, É sentir-se de afetos coberto, Ter nos peitos o prêmio mais certo, E dizer numa lágrima: adeus!”
TEXTO EXTRAÍDO DO LIVRO MACHADO DE ASSIS: UM ESCRITOR CARIOCA DE ANDRÉ LUIS MANSUR (PÁG. 76)
Para tentar diminuir a dor de Machado, a jovem Alba Ribeiro de Araújo, filha do casal Fanny e Armando Ribeiro de Araújo, vizinhos de Machado, lhe deu, em 1906, dois anos após a morte de Carolina, um pequeno gatinho preto. Depois que o animal começou a fazer parte de rotina da casa do escritor, Machado escreveu uma carta irreverente para a menina, como se fosse o gatinho que escrevesse, uma prova de que o novo hóspede da casa lhe deu momentos de alegria. "D. Alba. Só agora posso pegar da pena e escrever-lhe para agradecer o obséquio que me fez dando-me de presente ao velho amigo Machado. No primeiro dia não pude conhecer bem este cavalheiro; ele buscava-me com palavrinhas, doces e estalinhos, mas eu fugia-lhe, com medo, e metia-me pelos cantos ou embaixo dos aparadores. No segundo dia já me aproximava, mas ainda cauteloso. Agora corro para ele sem receio, trepo-lhe aos joelhos e às costas, ele coça-me, diz-me graças, e se não mia como eu é porque lhe custa..." (Machado de Assis - Vida e Obra -Volume 4 - Apogeu, de Raimundo Magalhães Júnior).
Ateísmo está na moda. A religião está cheia de defeitos. Fanáticos disseminam o terror em nome de Deus/Alá. A história da religião é uma sucessão de atrocidades: Inquisição, caça às bruxas, queima de hereges, censura ao livre pensamento (Galileu, Giordano Bruno), guerras religiosas (Cruzadas, católicos versus protestantes), conversões forçadas dos povos pagãos. Sem falar nos escândalos sexuais no seio da religião católica. Mas o ateísmo não se saiu melhor, como mostram o período do Terror na Revolução Francesa e as ditaduras stalinista, maoísta e de Pol Pot nos regimes comunistas ateus.
O sobrevivente do Holocausto Elie Wiesel, em seu livro Sinais do Êxodo, faz uma observação interessante sobre a conduta dos judeus religiosos versus seculares nos campos de extermínio. Enquanto entre os seculares "amigos e irmãos
dilaceravam-se entre si por uma colherada de sopa, um instante de
prazo, um casaco mais grosso" e intelectuais liberais revelavam-se uns sádicos atuando como Kapos (colaboracionistas), entre os ortodoxos a conduta era impecável, conforme revela este texto extraído do livro:
Mas os homens de
convicção religiosa, os sacerdotes resistentes, souberam se manter à altura: nenhum aceitou colaborar, a fim de salvar sua pele. E isto é
igualmente, e ainda mais, verdadeiro para os rabinos: nenhum, repito,
nenhum consentiu em aceitar o pouco de poder a ele oferecido para
viver ou viver melhor, e por mais tempo – às custas de seus
companheiros, de seus irmãos de infortúnio. Pelo contrário, deram
provas de uma abnegação que deixou os assassinos perplexos e, num
certo sentido, estupefatos. Quanto aos hassidim, ergueram-se mais
alto do que os céus por seu espírito de fé e solidariedade: suas
preces comuns nos dias de ano novo, sua decisão de celebrar com
alegria a festa da Lei. E tudo isto teve lugar em locais onde,
querendo desumanizar suas vítimas, o assassino conseguia desumanizar
a si mesmo... Ainda hoje, minha razão vacila; ela não consegue
alcançar o sentido oculto, a verdade brutal daquilo que vi: de um
lado uma humanidade tão pura, do outro uma humanidade tão baixa,
como era possível? Invocar Deus em Birkenau, à sombra das chaminés,
como era possível? Como podíamos invocar Deus sobre as ruínas de
Sua criação? vocês leram certo: com alegria.
Desde os tempos bíblicos, contrastam (na filosofia, na arte, na vida
das pessoas)
a visão de mundo otimista, "cor de rosa" (“O Senhor é o meu pastor, nada
me faltará” - Salmos 23) versus a cosmovisão
pessimista (“E proclamei mais felizes os mortos que já há
tempos faleceram do que os vivos que ainda existem. E, mais felizes
que ambos, aquele que ainda não nasceu, que ainda não experimentou
a malvadez que se pratica sob o sol” - Eclesiastes 4), com uma série de gradações intermediárias entre os dois extremos. O poeta Frederico Gomes, com
sua visão schopenhaueriana e obsessão pela
morte, inscreve-se neste segundo time.
Quanto a esta obsessão, o meu pensamento
pessoal é que, embora nosso aniquilamento pessoal nos assuste e
repugne, no fundo, no fundo, nenhum
ser humano em sã
consciência desejaria viver mil, dois mil anos, sem perspectiva de
interrupção do fluxo que nos prende a um corpo que a certa altura
começa, como um carro velho, a dar defeito. Como tudo que é bom
(doce de leite, por exemplo), a vida a
certa altura cansa ou enjoa.
Frederico Gomes é um poeta de formas fixas, tradicionais (embora a
métrica nem sempre seja cem por cento rigorosa); rimas originais,
algumas inusitadas, preciosas, ou mesmo toantes (espécie de rima que
poucos poetas dominam); e versos médios e longos, conquanto ocasionalmente
pratique o verso curto, como em “Nereidas & Neuras” à pág.
30 de seu mais recente livro de que trato aqui. Em suas poesias,
insere citações por vezes em outros idiomas (“neste mezzo del
cammin da tua vida”, em alusão a Dante, pág. 58), citações
eruditas às antiguidades greco-romanas tão distantes deste
admirável mundo tecnológico novo, e em meio a uma linguagem poética
elevada, sofisticada, mergulha por vezes no coloquial, no vulgar
(“Todos te lambem o saco” - pág. 17; “vejam só que baita
sacanagem” - pág. 42), no naturalismo (“Como os machos rastreiam
fêmeas no cio, / perseguindo-as pelo cheiro o dia inteiro [...]” -
pág. 156). E em meio ao pessimismo, às vezes Fred deixa aflorar um
poema pleno de lirismo, como “Pinturas” (ver abaixo). Em suma,
trata-se de um poeta de mil e um recursos.
Encontrei em seu último livro, Esse animal, o homem, uns
poucos erros gramaticais, sintoma de que, nesta pressa pós-moderna,
não se fazem mais revisões cuidadosas como outrora, por exemplo:
“Tu, que me lê” à pág. 93, “a morte lhes
arrastou” (verbo transitivo direto) à pág. 110, “só se via
as duas” (voz passiva sintética) à pág. 42, “Pois hei-nos”
(em vez de “eis-nos”) à pág. 112, “que elas contém”,
à pág. 172).
Mas não tenho dúvida de que Frederico Gomes se inscreve na
“sociedade dos poetas vivos” geniais, junto com Alexei Bueno e
Maria Thereza Noronha.
De seu Esse animal, o homem, publicado pela editora lusitana Rosmaninho (embora Fred seja um poeta brasileiro, nascido em Barra do Piraí e residente na “terceira” Tebas, a mineira – as outras são as cidades grega e egípcia antigas) selecionei, para compartilhar com você, estimado visitante deste blog, estes poemas:
Por quê? (pág. 17) a Haroldo Viegas in memoriam
Por que passas na rua com tal soberba, como se fosses o dono da vida? E olha-nos, oh com tamanha certeza, como se fôssemos meras formigas? Sim, diz-me: Por quê? Por quê? Iremos todos morrer.
Com tua testa larga, brilhante e calva, crês possuir tal e único talento, porém ganhar dinheiro já foi prova, alguma vez, de “bom” discernimento? Sim, diz-me: Por quê? Por quê? Iremos todos morrer.
Esposa, filhos, amigos, as posses – eis o farto reino a que te obrigas. Todos te lambem o saco. E se morres, da herança viverão como lombrigas. Sim, diz-me: Por quê? Por quê?
Pinturas (pág. 42, poema lírico) a Denise Albuquerque e Rosária Rent
Vi duas moças (Denise e Rosária)
conversando numa enorme sala.
Havia quadros de uma exposição expostos nos painéis do salão.
Mas diante de Rosária e Denise os quadros eram só um deslize
da beleza, pois só se via as duas pra lá e pra cá entre pinturas cruas.
Bem no finzinho do vernissage – vejam só que baita sacanagem –
as duas debandaram desta parte: restando no salão nenhuma arte.
Deparei no YouTube com um vídeo de Jeffrey Kaplan (554 mil inscritos) que declara que o artigo "Über Sinn und Bedeutung"("Sobre o Sentido e a Referência") publicado em 1892 pelo filósofo alemão Gottlob Frege foi "o mais importante da história da filosofia da linguagem". Por acaso debrucei-me sobre esse artigo nos meus tempos de curso de Filosofia no IFCS da UFRJ, quando fui aluno de lógica matemática do professor Paulo Alcoforado. Na época escrevi um artigo para ser publicado por uma revista, mas que acabou ficando inédito. Aqui está ele. Vamos ver se alguém descobre e lê. Você pode me contactar via escritorcarioca@yahoo.com.br. Estou no Facebook.
FREGE
E RUSSELL E O PROBLEMA DO SIGNIFICADO
Resumo: O artigo
analisa os problemas associados ao significado das palavras,
expressões e frases, à luz da teoria semântica, e as soluções
propostas pelos filósofos Gottlob Frege e Bertrand Russell,
pioneiros neste ramo de estudos.
Abstract: The
article analyzes the problems associated with the meaning of words,
expressions and sentences, in the light of semantic theory, and the
solutions proposed by philosophers Gottlob Frege and Bertrand
Russell, pioneers in this field of study.
Palavras-chave:
significado, semântica, teoria referencial.
O Problema do
Significado
Dentre as grandes
correntes da Filosofia da Linguagem destaca-se, por mais se
aproximar, a nosso ver, da concepção do senso comum, a chamada
Teoria Referencial. De fato, nada mais natural do que pensar que as
palavras, expressões e sentenças nomeiam esta ou aquela entidade.
No caso dos nomes próprios, isto é extremamente claro: “Pluto”
nomeia aquele cãozinho que lá está a latir. Nas palavras de
Alston:
A teoria referencial tem sido atraente para um grande número de
teóricos, porque parece fornecer uma resposta simples facilmente
assimilável às maneiras naturais de pensar acerca do problema do
significado. Parece a muitos que os nomes próprios possuem uma
estrutura semântica idealmente transparente. Aqui está a palavra
“Pluto”: ali está o cão nomeado por esta palavra. Tudo está
claramente exposto; nada há de escondido ou misterioso. O fato de
possuir o significado que possui constitui-se simplesmente do fato de
ser o nome daquele cão. É igualmente tentador e natural supor que
uma tal explicação possa ser dada para qualquer expressão
significativa. Pensa-se que toda expressão significativa nomeia isto
ou aquilo, ou ao menos designa algo numa relação de algum modo
similar à relação de nomear.”1
Partindo-se da
constatação de que as expressões da linguagem são dotadas de algo
que denominamos “significado”, pode-se levantar a seguinte
questão: em que consiste este algo, o significado de uma expressão?
Ora, dentro de uma
concepção referencial da linguagem, duas podem ser as respostas à
questão acima: (i) ou bem, o significado da expressão é assimilado
à entidade por ela nomeada, e neste caso estaríamos dentro de uma
teoria referencial de dois níveis; o significado de “Kepler”,
por exemplo, seria aquele indivíduo que nasceu em 1571, lecionou
matemática em Graz de 1594 a 1598, escreveu o Mysterium
Cosmographicum, onde se mostrou adepto do sistema copernicano...;
(ii) ou bem, o significado não se identifica, propriamente, com a
entidade nomeada pela expressão, mas se situa num domínio
intermediário entre a expressão e aquilo que ela nomeia; por
exemplo, o significado de “o mais brilhante dos astros noturnos”
seria, não exatamente o planeta Vênus, mas uma espécie de conexão
que associa a expressão “o mais brilhante dos astros noturnos”
ao planeta Vênus; e aqui estamos dentro de uma teoria referencial de
três níveis.
Duas grandes
dificuldades emergem numa teoria referencial de dois níveis, ou
teoria referencial mais ingênua (na terminologia de Alston) ou
teoria referencial stricto sensu, quais sejam: (i) o caso de
expressões distintas – por exemplo, “o mais brilhante dos astros
noturnos” e “o segundo planeta do sistema solar” – que, se
bem nomeiem a mesma entidade, possuem significados diferentes; (ii) o
caso de expressões – como “eu”, “aqui” etc. – que
possuem significado constante, porém nomeiam entidades distintas
conforme o contexto em que sejam proferidas.
Quanto a esta última
dificuldade, de fato, se assimilamos o significado de, digamos, “eu”,
àquilo que este termo nomeia, então teremos de ser levados a
admitir que tal termo possui um número indefinido de significados –
o que não é o caso. Já a primeira dificuldade, é patente que “o
mais brilhante dos astros noturnos” e “o segundo planeta do
sistema solar” possuem significados distintos, se bem que nomeiem a
mesma entidade, o planeta Vênus.
A Solução de Frege
Tais dificuldades não
ocorrem numa teoria semântica de três níveis, ou teoria
referencial menos ingênua, ou teoria do significado, cuja expressão
clássica é a teoria do sentido e da referência de Frege.2
Esta teoria se estrutura a partir de uma investigação acerca da
igualdade. “A igualdade desafia a reflexão dando origem a questões
que não são muito fáceis de responder”: com estas palavras
inicia Frege seu artigo “Sobre o Sentido e a Referência”. Ele
constata que sentenças como
(1) O segundo planeta
do sistema solar é o mais brilhante dos astros noturnos
não são meramente analíticas como é
a sentença
(2) O segundo planeta
do sistema solar é o segundo planeta do sistema solar.
Pelo contrário, as
asserções (1) e (2) possuem valores cognitivos distintos. De fato,
a descoberta de que o mais brilhante dos astros noturnos é o segundo
planeta do sistema solar foi uma descoberta astronômica de grande
relevância. Pois bem, numa semântica de dois níveis, dois poderiam
ser os casos. Ou bem, a igualdade seria uma relação entre aquilo
que as expressões nomeiam, caso este em que dificilmente
encontraríamos critérios para distinguir, quanto ao valor
cognitivo, as asserções (1) e (2); ou bem, a igualdade seria uma
relação entre as próprias expressões, e em (1) estaríamos
arbitrariamente estipulando nomes diferentes para um mesmo objeto –
o que não é o que queremos.
Para dar conta do
problema da igualdade, Frege irá introduzir, como mediador entre o
que ele chama de “sinal” (Zeichen) e o que ele denomina de
“referência” (Bedeutung),3
um terceiro elemento, a saber, o sentido (Sinn), que seria
como que o “modo de apresentação” do referente.
Com a introdução
deste terceiro elemento, mediando o sinal e a referência, o problema
da igualdade fica assim resolvido: se bem que os sinais “o mais
brilhante dos astros noturnos”, “o segundo planeta do sistema
solar” e “a Estrela d’Alva” refiram-se ao mesmo objeto, o
planeta Vênus, tais expressões são maneiras distintas de
apresentar tal objeto.
Fica assim resolvida a
questão de expressões com significados diferentes, porém nomeando
uma mesma entidade. Também expressões como “eu”, “aqui”
etc. não mais oferecem dificuldade: o sentido de tais expressões é
constante, mas seus referta, variáveis.
Coloca-se agora o
problema de qual o status ontológico do sentido. Para Frege, o
sentido de uma expressão não se identifica à ideia que
temos quando proferimos ou ouvimos a expressão. Para dar uma ideia
clara da diferença entre sentido, ideia e referente,
Frege faz uma analogia com alguém que observe a lua através de um
telescópio. A própria lua pode ser comparada à referência; a
imagem real projetada pela lente no interior do telescópio, Frege a
compara ao sentido; finalmente, a imagem que se forma na retina do
observador, compara-se à ideia.
Frege irá portanto
admitir, além do domínio dos sinais e do domínio dos referta,
uma espécie de Universo atemporal e inespacial – o terceiro
domínio – habitado por sentidos ou, mais exatamente, por
pensamentos, que são os sentidos das sentenças. “O
pensamento que enunciamos no teorema de Pitágoras é intemporalmente
verdadeiro, independente do fato de alguém tomá-lo como verdadeiro.
[...] Ele não se torna verdadeiro a partir do momento de sua
descoberta mas, como um planeta, antes mesmo de alguém o ter visto,
esteve em interação com outros planetas.”4
Finalmente, em Frege,
praticamente todas as expressões são, de alguma forma, nomes de
entidades. Quanto a este aspecto, duas são as espécies de
expressões: (i) os nomes próprios, que podem ser simples
– Vênus, Kepler... – ou compostos – “o mais brilhante
dos astros noturnos”, “o descobridor da forma elíptica das
órbitas planetárias” – e que têm por referência objetos;5
(ii) os nomes funcionais – “a raiz quadrada de 4”,
“casa” – que têm por referência conceitos, relações ou
funções.
Problemas na Teoria de
Frege
Uma teoria, como a de
Frege, em que expressões tais como “o mais brilhante dos astros
noturnos”, “o descobridor da forma elíptica das órbitas
planetárias” etc. são encaradas como nomes próprios,6
conduz a terríveis dificuldades, como apontou Bertrand Russell,
quando se trata de expressões que não possuem referência – por
exemplo, “o atual rei do Brasil”, “a montanha de ouro”, “o
maior número natural” etc.
Vejamos o tratamento
que Frege dá a tais expressões. A posição de Frege é de que,
numa linguagem logicamente perfeita – isto é, uma linguagem
artificial destituída das imperfeições da linguagem corrente –
pressupõe-se que toda expressão que funcione como nome próprio
tenha uma referência. A carência de referência por parte de certos
nomes próprios pode facilmente servir como apoio para o “abuso
demagógico”: “‘A vontade do povo’ pode servir de exemplo a
este respeito, pois é fácil estabelecer que não há uma referência
universalmente aceita para esta expressão.” (S.R., pp. 22-3) Erros
na história da matemática – diz ainda Frege – originaram-se da
falta de referência de certas expressões. Observa o autor que mesmo
a linguagem simbólica da Análise não está de todo destituída de
tais imperfeições – é o caso da expressão “as séries
infinitas divergentes” (S.R., p. 22). É importante que, ao menos
na ciência, seja eliminada uma tal fonte de erros; e nos casos em
que nenhuma entidade possa ser atribuída como referência de uma
expressão – por exemplo, no caso das séries infinitas divergentes
– dever-se-á pelo menos estipular uma referência convencional, o
número zero (S.R., p. 22).
A atribuição de uma
referência convencional a nomes próprios compostos sem referência
acarreta a seguinte dificuldade: é uma verdade que
(1) Não existe a
montanha de ouro.
Ora, segundo Frege, “a
montanha de ouro” teria a mesma referência que “o número zero”.
Portanto, podemos substituir, em (1), essa primeira expressão por
esta segunda, o que dá:
(2) Não existe o
número zero,
sentença esta que, ao contrário de
(1), é inteiramente falsa.
Devemos portanto
rejeitar a atribuição de uma referência convencional às
expressões que nada nomeiam. Com isto, porém, surgem novas
dificuldades.
Frege admitiria que
ela, se bem que possua um sentido, não possui referência, pois, por
estarmos circunscritos ao domínio da ficção, o valor de verdade da
sentença não está aqui em jogo.
É possível que uma sentença como um todo tenha tão-somente
sentido, mas nenhuma referência? [...] A sentença “Ulisses
profundamente adormecido foi desembarcado em Ítaca” tem obviamente
um sentido. Mas assim como é duvidoso que o nome “Ulisses”, que
aí ocorre, tenha uma referência, é também duvidoso que a sentença
inteira tenha uma.” (S.R., p. 10)
Todavia, a partir da
sentença “O Sol gira ao redor da Lua”, que é obviamente falsa,
podemos construir o seguinte par de sentenças, em que (1) é
verdadeira, e (2), falsa:
(1) A revolução do
Sol ao redor da Lua não existe;
(2) A revolução do
Sol ao redor da Lua existe.
Vemo-nos ante o
seguinte paradoxo:
(i) Aparentemente, a
expressão “a revolução do Sol ao redor da Lua” não possui
referência, posto que o Sol não gira ao redor da Lua;
(ii) Por outro lado,
quando uma sentença é verdadeira ou falsa, seu sujeito possui
necessariamente uma referência, pois de uma não-entidade não
se pode afirmar uma verdade ou falsidade. “Aquele que não admite
que o nome tenha uma referência não lhe pode afirmar nem negar um
predicado.” (S.R., p. 11)
Teremos portanto que
admitir que entidades tais como a revolução do Sol ao redor da
Lua, o atual rei do Brasil, a montanha de ouro,
etc. possuem alguma forma de existência. O próprio Russell, antes
da publicação de “Da Denotação”, admitia tal solução.”
“Os números, os deuses homéricos, as relações, as quimeras e os
espaços quadridimensionais todos têm ser, pois se eles não fossem
entidades de uma certa espécie, não poderíamos fazer proposições
acerca deles.”8
Ora, a admissão de
entidades tais como o atual rei do Brasil em nosso universo não
elimina as dificuldades na teoria de Frege, como procuraremos agora
demonstrar. De fato, seja a sentença:
(1) O atual rei do
Brasil é um astronauta.
Ela é obviamente
falsa, posto que, entre os astronautas, não encontramos nenhum que
seja atualmente rei do Brasil.
Seja agora a negativa
de (1), qual seja:
(2) O atual rei do
Brasil não é um astronauta.
Esta sentença não é
falsa, consoante a tábua da verdade da negação; tampouco é
verdadeira, pelos mesmos motivos que (1) não é. Teremos assim de
admitir um terceiro valor de verdade, que não é o verdadeiro ou o
falso, violando o princípio do terço excluso.9
A Solução de Russell
A solução de Russell
aos problemas acima abordados vão se constituir em sua famosa Teoria
das Descrições. O ponto central desta teoria é que expressões
como “o autor de Dom Casmurro”10
não são, ao contrário do que classicamente se advogou, nomes
próprios, como é “Machado de Assis”.11
Em outros termos, se
bem que a sentença:
(1) Machado de Assis
nasceu no Rio de Janeiro
seja uma sentença da forma
sujeito-predicado – e aqui a forma lógica está em concordância
com a forma gramatical – o mesmo não ocorre com:
(2) O autor de Dom
Casmurro nasceu no Rio de Janeiro.
Aqui, a forma
gramatical escamoteia a forma lógica da sentença, já que, embora
“o autor de Dom Casmurro” seja o sujeito gramatical, não
é verdadeiramente um sujeito, na acepção lógica deste termo.
Admitir que o seja, isto é, admitir que seja um nome próprio, como
faz Frege, acarreta todos aqueles problemas que abordamos: a
introdução, no universo, de coisas tais como montanhas de ouro, a
violação do princípio do terço excluso.
Como decorrência
disto, as sentenças em que ocorrem descrições são submetidas por
Russell à análise lógica.
Porém, antes de
examinarmos de que maneira Russell procede a esta análise, dois
pressupostos devem ser abordados.
Em primeiro lugar,
Russell pressupõe, em suas investigações linguísticas, uma
concepção diádica da linguagem. Diz ele:
Com relação ao que significamos por “significado”,12
darei algumas poucas ilustrações. Por exemplo, a palavra Sócrates
[...] significa um certo homem; a palavra “mortal” significa uma
certa qualidade; e a sentença “Sócrates e mortal” significa um
certo fato.13
A admissão de um
domínio de pensamentos atemporais e inespaciais não se coaduna com
seu “sentimento da realidade” “Em obediência ao sentimento de
realidade, insistiremos em que, na análise das proposições, nada
de irreal deva ser admitido”.14
Em segundo lugar, a
abordagem que Russell faz da linguagem vincula-se a um pressuposto
epistemológico. Para uma boa compreensão de tal pressuposto, porém,
devemos previamente explicitar as noções de componentes de uma
sentença e conhecimento direto.
A noção de
componentes de uma sentença é ambígua, em Russell. Por componentes
de uma sentença podemos entender, ou bem, (i) as próprias palavras
de que se compõe a sentença, ou bem, (ii) as contrapartidas
extralinguísticas de palavras. Deste modo, dada uma sentença, “A
ama B”, podemos considerar como sendo seus componentes (i) as
palavras “A”, “ama” e “B”, ou (ii) os particulares A
e B, e o conceito amar. Por ser esta segunda acepção
a mais corrente em Russell, será a que adotaremos.
O problema do
conhecimento direto é pela primeira vez abordado por Russell no “Da
Denotação”. Neste artigo, ele contrapõe acquaintance
(familiaridade) a knowledge about (conhecimento acerca). O
tema é retomado em várias de suas obras posteriores, e em
Misticismo e Lógica, o último capítulo é totalmente
consagrado ao que, agora, denomina knowledge by acquaintance
(a rigor, conhecimento por familiaridade, porém preferimos traduzir
tal expressão por “conhecimento direto”) e knowledge by
description (conhecimento por descrição).
O conhecimento direto
revela-nos a presença imediata do objeto. Assim, temos conhecimentos
direto de cores, ruídos, sabores, em suma, dos dados sensíveis. Tal
espécie de conhecimento não se limita, porém, ao conhecimento de
objetos particulares, mas engloba ainda os objetos universais:
conceitos, como o amarelo, e relações, como a semelhança
(M.L., pp. 232-6).
Já o conhecimento por
descrição envolve:
(i) que saibamos
existir um único objeto possuidor de determinada propriedade;
(ii) que não possuamos
conhecimento direto de tal objeto (M.L., p.237).
De Kepler, por exemplo
não podemos ter conhecimento direto, posto que ele não nos é
contemporâneo. No entanto, nosso conhecimento não se restringe ao
que nos é dado imediatamente, ou ao que pode ser evocado por nossa
memória. Podemos conhecer Kepler, portanto, como autor do Mysterium
Cosmographicum, ou o descobridor da forma elíptica das órbitas
planetárias, etc. O conhecimento por descrição, porém, não
envolve apenas objetos do passado; poderá envolver objetos futuros
(o centro de massa do sistema solar no primeiro instante do século
XXII), objetos de localização temporal indeterminável (o homem que
proferiu, em sua vida, o maior número de palavras), objetos de
existência pouco provável (o décimo milionésimo rei da
Inglaterra), ou mesmo um objeto do qual tenhamos conhecimento direto,
sem porém podermos afirmar ser ele o detentor da propriedade em
questão: o partido que obtiver o maior número de votos nas próximas
eleições parlamentares.
Toda a abordagem
russelliana da linguagem pressupõe o seguinte princípio: para
que uma sentença nos seja inteligível, devemos ter conhecimento
direto de cada um de seus componentes. Por exemplo, para uma
pessoa destituída de visão, seria ininteligível a sentença “o
verde simboliza a esperança”. Russell justifica este princípio
pela constatação de que “parece impossível acreditar que
possamos fazer um juízo [...] sem saber o que estamos julgando”15
Vimos que, quando
consideramos as descrições – à maneira de Frege – como nomes
próprios de objetos, somos forçados a admitir a existência de
entes tais como a montanha de ouro e, o que é grave,
deparar-nos-emos com casos em que é violado o princípio do texto
excluso. Por outro lado, considerar as descrições como nomes
próprios viola frontalmente o princípio epistemológico acima.
Realmente, se aceitamos que expressões como “o autor de Dom
Casmurro” possam funcionar como sujeitos lógicos de sentenças,
então o autor de Dom Casmurro será um componente de tais
sentenças, o que vai de encontro ao nosso princípio epistemológico,
já que deste grande escritor não podemos infelizmente ter
conhecimento direto.
Assim, pelas duas
razões acima abordadas – razões de cunho lógico e pressuposições
de caráter epistemológico – as sentenças onde ocorrem descrições
são submetidas à análise, a saber:
Toda sentença acerca
de um assim-e-assim (onde o assim-e-assim é uma descrição
definida) será interpretada como afirmando a satisfação ou não de
uma função sentencial.
Uma função
sentencial é uma expressão em que ocorrem uma ou mais
variáveis, ou que se torna uma sentença assim que as variáveis
sejam quantificadas (ou instanciadas). Um exemplo de função
sentencial é:
(1) x é um
unicórnio
onde “x” é uma variável,
que pode ser assim quantificada:
(2) Existe um x,
tal que x é um unicórnio;
(3) Qualquer que seja
x, x é um unicórnio.
Nas sentenças (2) e
(3) usaram-se, respectivamente, os quantificadores existencial
e universal. A sentença (2) afirma a satisfação de (1) para
ao menos um valor de x; a sentença (2) afirma a satisfação
de (1) para qualquer valor de x.
Assim, as sentenças
existenciais são analisadas como afirmando a satisfação de uma
função sentencial para um, e somente um, valor de x. Por
exemplo a sentença
O reino de Troia existe
é analisada como envolvendo duas
afirmações:
(1) Existe pelo menos
uma entidade que é o reino de Troia ou, em linguagem técnica,
existe um x, tal que x é o reino de Troia;
(2) No máximo uma
entidade é o reino de Troia ou, em linguagem técnica, qualquer que
seja y, se y é o reino de Troia, então y = x.
Sintetizando:
Existe um x tal
que: x é o reino de Troia e, qualquer que seja y, se y
é o reino de Troia, y = x.
Sentenças em que se
atribuiu uma propriedade a um assim-e-assim envolvem, além da
atribuição de tal propriedade, a afirmação da existência do
assim-e-assim. A sentença
O reino de Troia foi
descoberto por Schliemann
é portanto analisada como envolvendo
as afirmações acima, e mais uma terceira afirmação, quais sejam:
(1) Existe pelo menos
uma entidade que é o reino de Troia, isto é, existe um x,
tal que x é o reino de Troia;
(2) No máximo uma
entidade é o reino de Troia, isto é, qualquer que seja y, se
y é o reino de Troia, estão y = x;
(3) Tal entidade foi
descoberta por Schliemann, ou, x foi descoberto por
Schliemann.
Sintetizando:
Existe um x tal
que: x é o reino de Troia e, qualquer que seja y, se y
é o reino de Troia, então y = x, e x foi
descoberto por Schliemann.
Nossa dificuldade
acerca de sentenças existenciais cujo sujeito gramatical é uma
descrição sem referência fica assim resolvida: a sentença
A revolução do Sol ao
redor da Lua existe,
que é analisada como: existe um x
tal que x é a revolução do Sol ao redor da Lua e, qualquer
seja y, se y é a revolução do Sol ao redor da Lua,
então y = x, não mais afirma a existência da
revolução do Sol ao redor da Lua, pois de uma não-entidade nada de
falso pode ser afirmado; porém afirma que a função sentencial
x
é a revolução do Sol ao redor da Lua e, qualquer que seja y,
se y é a revolução do Sol ao redor da Lua então y =
x
é satisfeita por pelo menos um valor
de x, o que é uma inverdade. O mesmo raciocínio aplica-se,
mutatis mutandis, à negação da sentença acima.
Com a análise das
sentenças, também o problema da violação da lei do terço excluso
é superado. A sentença
O atual rei do Brasil é
careca,
analisada como
Existe um x
tal que: x é o atual rei do Brasil e, qualquer que seja y,
se y é o atual rei do Brasil, y = x, e x
é careca
será falsa em qualquer um dos casos
seguintes:
1. a função
proposicional “x é o atual rei do Brasil” não é
satisfeita;
2. a função
proposicional “se y é o atual rei do Brasil, y = x
não é satisfeita;
3. a função
proposicional “x é careca” não é satisfeita.
Em outras palavras,
nossa sentença será falsa se:
1. não existe nenhum
atual rei do Brasil; ou
2. existe mais de um
atual rei do Brasil; ou
3. existe um e somente
um atual rei do Brasil, porém ele não é careca.
Consequentemente, nossa
sentença é falsa, não porque o atual rei do Brasil não seja
careca, mas porque não existe o atual rei do Brasil.
Pois bem, consoante a
análise de Russell, a negação de nossa sentenças será:
É falso que existe um
x tal que: x é o atual rei do Brasil e, qualquer que
seja y, se y é o atual rei do Brasil, y = x,
e x é careca,
o que é evidentemente verdadeiro.
Assim, não mais se viola a lei do terço excluso.
Dificuldades de uma
Teoria Referencial Diádica
Várias dificuldades
emergem numa teoria referencial diádica, das quais duas, sugere-nos
W. Alston, chegariam a invalidar uma tal teoria: (1) o caso de
expressões (como “o mais brilhante astro noturno” e “o segundo
planeta do Sistema Solar”) que, se bem possuam idêntico refertum,
indubitavelmente possuem significados distintos, e (2) o caso de
expressões (como “eu”, “aqui”) que, se bem possuam um
significado constante, possuem variados referta, conforme o
contexto em que sejam enunciadas.
Se, por um lado, a
Teoria das Descrições foi extremamente feliz em lidar com
expressões que nada nomeiam, vejamos de que modo ela lidará com
estas duas dificuldades, e verifiquemos se elas realmente invalidam a
teoria de Russell.
A primeira dificuldade
pode ser assim recolocada. Dadas as expressões “o mais brilhante
dos astros noturnos” e “o segundo planeta do Sistema Solar”,
(i) dado que elas nomeiam o mesmo objeto, possuem idêntico
significado (já que, numa semântica diádica, significado =
referente). Ora (ii) se elas possuem idêntico significado, posso
substituir numa sentença uma pela outra, sem alterar a verdade ou a
falsidade da sentença, o que nem sempre ocorre, posto que,
admitindo-se que seja verdadeira a sentença
Fulano perguntou se o
mais brilhante dos planetas é o segundo planeta do sistema solar,
isto não acarreta necessariamente a
verdade de
Fulano perguntou se o
segundo planeta do sistema solar é o segundo planeta do sistema
solar.
Ora, na concepção de
Russell, as descrições não são expressões que nomeiam, portanto,
elas não possuem significado. As asserções (i) e (ii)
repousam sobre falsas premissas.
Em outros termos, se
bem que “brilhante” signifique um conceito e “sistema solar”
signifique um particular, a descrição “o mais brilhante astro
noturno do sistema solar” não possui significado, no sentido em
que “brilhante” e “sistema solar” possuem. Por isso, ela não
pode ser o sujeito lógico de uma sentença, e onde ocorre como
sujeito gramatical, requer-se uma análise que faça a descrição
desaparecer do sujeito. Ela será – conforme vimos – traduzida em
termos de um predicado, predicado este que, mediante a quantificação,
é relacionado a particulares do universo (no caso da quantificação
universal, a todos tais particulares; no caso da quantificação
existencial, a pelo menos um particular). Daí a introdução de
funções sentenciais em nossa análise.16
Quanto à segunda
dificuldade, a saber, o caso de palavras como “eu”, “aqui”
que, se bem possuam um significado único, nomeiam entidades as mais
diferentes, conforme o contexto em que são proferidas, devemos
observar o seguinte. Nas obras até aqui mencionadas, escritas entre
1905 (“Da Denotação”) e 1919 (Introdução à Filosofia
Matemática e “A Filosofia do Atomismo Lógico”), tais
palavras são consideradas como nomes próprios, sem que Russell se
aperceba dos problemas que tal colocação acarreta. O problema só é
realmente desenvolvido por Russell a partir do Inquiry into
Meaning and Truth, escrito em 1945. Nesta época, porém,
a teoria referencial diádica havia sido abandonada por Russell em
favor de uma teoria condutista (behaviorista), por não explicar,
segundo ele, o que vem a ser o significado. Em Meu Pensamento
Filosófico,17
– escreve ele: “Foi em 1918 [...] que primeiro me interessei na
definição de “significado”, e na relação da linguagem com os
fatos. Até então eu havia encarado a linguagem como “transparente”,
e nunca havia examinado em que consiste sua relação com o mundo
não-linguístico.
Na última parte do
trabalho, faremos um levantamento de como Russell discute – a
partir do Inquiry into Meaning and Truth – a questão
de tais palavras, limitando-nos porém ao que interessa estritamente
a uma teoria da referência.
Os Particulares
Egocêntricos
A questão do
significado de palavras como “isto”, “eu”, “aqui”,
“agora” – que Russell denomina particulares egocêntricos –
só vem a ser colocada em An Inquiry into Meaning and Truth18e, posteriormente, em O Conhecimento Humano.19
Em O Conhecimento
Humano, após definir “particulares egocêntricos” como “as
palavras cujo significado varia conforme o locutor e sua posição no
tempo e no espaço”, Russell reconhece que “entretanto, há
obviamente algum sentido em que tais palavras possuem um
significado constante”.
No Inquiry, após
observar que “todas as palavras egocêntricas podem ser definidas
em termos de ‘isto’”, diz ele: “A palavra ‘isto’ é uma
palavra que, em algum sentido, tem um significado constante”
(p.109).
Ainda no Inquiry,
duas hipóteses são levantadas: (i) ou bem, “isto” é um nome
próprio, ou bem, (ii) é uma descrição disfarçada.20
Em obras anteriores ao
Inquiry, palavras como “isto” eram consideradas como nomes
próprios. Por exemplo, em Misticismo e Lógica, Russell chega
a afirmar que “só há duas palavras que são a rigor nomes
próprios de particulares, a saber, ‘eu’ e ‘isto’ (p.246).
No Inquiry,
porém, Russell reconhece que, se queremos que “isto” tenha um
significado constante – e em Russell o significado de um termo
identifica-se com aquilo que ele designa –, então não poderá ser
tratado como um nome próprio.
Poder-se-á alegar que
tampouco palavras como “João” possuem um significado constante;
de fato, esta palavra nomeia grande número de pessoas. Entretanto, a
relação de “João” com estas pessoas é diferente da relação
dos particulares egocêntricos com os objetos por estes nomeados.
“João” nomeia diferentes pessoas, porém de maneira constante.
Uma pessoa que tenha sido batizada de “João” será assim chamada
por toda a sua vida. Já um particular egocêntrico como, por
exemplo, “você”, também pode nomear um número indefinido de
pessoas, porém apenas enquanto esta palavra esteja sendo empregada.
Ao dirigir-me a João, posso chamá-lo de “você”, porém assim
que cesso de empregar esta palavra, João não continua chamando-se
“você”.
O que se pode concluir
é que uma palavra como “João” possui significado
constante, porém ambíguo; já um particular egocêntrico como
“isto” ou “você”, se tratado como nome próprio, não possui
nenhum significado constante. A hipótese (i) deve ser descartada.
Examinemos agora a
segunda hipótese. Em obras anteriores ao Inquiry, Russell já
havia observado que, por exemplo, quando usamos a palavra “Sócrates”,
não se trata de um nome próprio, posto que não temos conhecimento
direto deste filósofo. “Quando usamos a palavra ‘Sócrates’,
estamos na verdade usando uma descrição.”21
O termo “Sócrates” seria, portanto, uma abreviação de uma
descrição tida em mente pelo seu usuário ou ouvinte, por exemplo,
“o mestre de Platão”, ou “o filósofo que bebeu a cicuta”,
ou ainda “a pessoa que os lógicos afirmam ser mortal”.22
Do
mesmo modo, o termo “Deus” seria uma descrição abreviada de “o
mais perfeito dos seres”.23
Não é implausível
pensar que, quando se usa um particular egocêntrico, trata-se de uma
descrição abreviada, disfarçada. No Inquiry, Russell sugere
que “isto” seja uma abreviação da descrição “o objeto da
atenção”, mas mostra a seguir que tal não é o caso, posto que
esta descrição, se bem que, por sua forma, seja uma descrição
definida, é ambígua, porque descreve todo e qualquer objeto que
alguma vez tenha sido objeto de atenção – do mesmo modo que “o
habitante de Londres” descreve toda e qualquer pessoa que habite,
ou tenha alguma vez habitado, Londres.
Em qualquer tentativa
de contornar esta ambiguidade, ou caímos em circularidade, ou novos
particulares egocêntricos são introduzidos no definiens e o
problema se desloca para ele. Se defino “isto” como “o objeto
deste ato de atenção” (admitindo-se que “isto” e “este”
tenham o mesmo significado), recaio no primeiro caso. Se o defino
como “o objeto de meu ato de atenção agora”, recaio no segundo.
A solução que Russell
dá, no Inquiry, a este problema envolve considerações de
cunho condutista, fugindo portanto do escopo de uma Teoria
Referencial.
Em O Conhecimento
Humano, o problema é colocado em termos de definição
ostensiva. “Definição ostensiva” é definida como “qualquer
processo pelo qual uma pessoa aprende a entender uma palavra por
meios outros que pelo uso de outras palavras”. O exemplo típico de
definição ostensiva é a aprendizagem da língua quando se é
criança.
Dentre os particulares
egocêntricos, Russell tomará “isto” como fundamental –
deixando claro que a escolha é arbitrária – e dirá que qualquer
outro particular egocêntrico poderá ser definido em termos de
“isto”. Por exemplo, “eu” será definido como “a pessoa que
presencia a isto”, e assim por diante. Russell procurará então
dar uma definição ostensiva de “isto”, a saber: “‘isto’
denota qualquer coisa que, no momento em que a palavra é usada,
ocupa o centro de atenção.”
Na verdade, não se
trata de uma definição ostensiva, já que envolve o uso de
palavras, mas uma explicação de como é possível a aprendizagem,
por definição ostensiva, do termo “isto”.
Se de fato “isto”
pode ser ostensivamente definido, então de alguma forma a Teoria
Referencial estará salva. Que palavras como “cavalo”,
“Corcovado”, “amarelo” são ostensivamente definíveis está
fora de qualquer dúvida. Se o mesmo ocorre com “isto”, eis um
problema que diz respeito à Psicologia da Aprendizagem.
NOTAS:
1
W. Alston, Filosofia da Linguagem, Zahar, p. 12.
2
G. Frege, “Sobre o Sentido e a Referência”, trad. bras. em
Littera, 5 (1972), pp. 102-118. Daqui em diante, faremos
menção a este artigo pela sigla S.R. Publicado pela primeira vez
sob o título “Über Sinn und Bedeutung” em Zeitschrift für
Philosophie und philosophische Kritik, NF, 100 (1892) pp.25-50.
3
O termo fregeano “Bedeutung”é difícil de
traduzir. Literalmente, tal termo significa “significado”,
porém, na acepção técnica em que Freire o emprega, não deve ser
entendido como tal, já que o que correntemente se entende por
“significado” identifica-se, na teoria de Frege, muito mais com
“Sinn” (sentido), e não com “Bedeutung”. Por
isso, o Prof. Paulo Alcoforado, em sua tradução do artigo de
Frege, preferiu seguir a solução de P. Geach e M. Black (orgs.),
Translations from the Philosophical Writings of G. Frege,
Oxford, 1952, que traduzem tal termo por reference
(referência).
5
Quanto às sentenças, Frege as considera como nomes próprios, quer
do objeto o Verdadeiro, quer do objeto o Falso. Ver “Sobre o
Sentido e a Referência”.
6
Frege denomina tais expressões “nomes próprios compostos”.
8
Bertrand Russell, The Principles of Mathematics, p. 449.
9
Ou princípio do terceiro excluído, segundo o qual, se uma sentença
não é verdadeira, sua negação o será, não existindo uma
terceira alternativa.
10
Tais expressões – que Frege denomina “nomes próprios
compostos” – são chamadas por Russell de descrições
definidas. Por uma descrição definida, entende Russell uma
frase da forma “o assim-e-assim” (the so-and-so). Em “A
Filosofia do Atomismo Lógico” (em Os Pensadores, volume. XLII,
Editora Abril. p. 111), Russell dá como exemplos de descrições
definidas: “o homem com a máscara de ferro”, “a última
pessoa que entrou nesta sala”, “o único inglês que ocupou a sé
papal”, “o número de habitantes de Londres”, “a soma de 43
e 34”, e chama a atenção para o fato de que o que faz com que
uma expressão seja uma descrição definida é unicamente sua
forma, independentemente de se realmente existe um objeto definido
descrito.
11
A rigor, “Machado de Assis” é uma descrição abreviada. Porém,
para fins de exposição, a trataremos como nome próprio,
procedimento este que o próprio Russell por vezes adota. O problema
das descrições abreviadas ou descrições disfarçadas será
retomado no segmento final deste trabalho, quando tratarmos dos
egocêntricos particulares.
12
Em “Da Denotação” (em Os Pensadores, volume. XLII), nos
trechos em que discute a teoria de Frege, Russell usa “significado”
(meaning) também como tradução do termo fregeano “Sinn”
(sentido).