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PEDRO NAVA E OS MEANDROS DA MEMÓRIA


O TEXTO ABAIXO É O MESMO DO VÍDEO ACIMA

Não sei até que ponto você está familiarizado com a vida e obra do escritor Pedro Nava. Não é dos escritores mais badalados, nem daqueles que “caem” no ENEM, mas é (uso o tempo presente porque os escritores se eternizam com suas obras) um escritor extraordinário que, na época em que publicou seus livros (anos 1970 e início dos anos 1980), fez grande sucesso de crítica e público, inclusive chegando às listas de best-sellers, devido à originalidade de sua obra, diferente de tudo que já se escrevera antes no Brasil



Naquela época, embora eu fosse leitor contumaz, o Nava passou despercebido para mim. Só travei conhecimento com ele ao ler no jornal a notícia de seu suicídio, por motivos então misteriosos, com um tiro na cabeça, em maio de 1984, próximo a uma das árvores da calçada da Rua da Glória, onde morava. As informações no obituário sobre sua obra despertaram minha curiosidade, e a partir de então me tornei leitor de seus livros de memórias. Originalmente publicados pela José Olympio, com capas bem coloridas usando colagens do autor, depois seus direitos passaram para a Nova Fronteira, com capas mais clean mostrando o famoso relógio da Glória. O problema era que a Nova Fronteira “esqueceu” de publicar o volume 3, Chão de Ferro, e com isso a edição original pela José Olympio tornou-se rara, eu não achava nos sebos de jeito nenhum. Na época não tinha a Estante Virtual onde você acha tudo. Acabei tendo que implorar numa biblioteca que me xerocassem a obra. Pois é, leitor inveterado como eu faz qualquer sacrifício para ler seus autores favoritos. Hoje os direitos de publicação da obra de Nava, depois de passarem pela Ateliê Editorial, estão com a Companhia das Letras.




Outra coisa: com a morte de Nava, brotaram rumores de que ele estaria sofrendo chantagem de um garoto de programa. No final do vídeo falarei sobre isso.

A obra de Nava é monumental em vários aspectos. Primeiro, no escopo temporal, no intervalo de tempo abrangido. Começa contando a história de seus antepassados, o mais antigo, o tataravô por parte do pai, oriundo da Itália, que “teria aportado no Brasil no fim do séc. XVIII ou princípios do XIX. A crônica da família de Nava, tanto por parte do pai como da mãe, desenrola-se século XIX adentro, até o nascimento do escritor em 1903. Os anos da infância, adolescência e início da vida adulta, na Faculdade de Medicina , são contados em primeira pessoa, como é normal em livros de memórias. Mas no primeiro capítulo do Volume V, Galo das trevas, Nava dá um salto temporal e traz a narrativa para o tempo presente, em que ele, com 75 anos de idade (1978), à semelhança de Xavier De Maistre em sua “Viagem à Volta do Meu Quarto”, resolve fazer uma volta pelo seu apartamento, com todas as reminiscências associadas aos seus objetos. Depois desse “jorro de emoções”, Nava retorna ao passado, à época em que iniciou sua carreira médica, mas agora projetando-se em um primo fictício, o Egon, cuja vida (que no fundo é a vida do próprio Nava) conta em terceira pessoa.

A obra de Nava também é monumental na riqueza temática, vocabular & estilística. Em seus livros de memórias Nava tem por característica mesclar fatos pessoais, perfis de terceiros, descrições de locais, acontecimentos históricos, narrações de episódios, reflexões, desabafos etc. numa espécie de fluxo de memória proustiano e num estilo que pode ir do factual à prosa poética. Não é uma leitura fácil como um Paulo Coelho, o que não significa que seja homogeneamente difícil, difícil do primeiro ao último parágrafo, como é, por exemplo, um Grande Sertão e Veredas do Guimarães Rosa que já começa “ilegível”. Não, a obra de Nava tem altos e baixos em termos de dificuldade. Tem desde divagações de uma poeticidade exacerbada (tipo: “O caminho por Bernardo Monteiro era repousante como banho de imersão nas sombras verdes aquários de seus fícus gigantescos. Tal impressão líquida é tão grande que se estranhava quando ave esvoaçava entre galhos raios de sol – entre molezas de algas. Não vê? se esperava é peixes deslizando...” Galo, 346) até causos e anedotas e historinhas que a gente lê com extremo prazer e deleite.

São interessantíssimas também as descrições do Nava da passagem do cometa Halley quando criança, os estragos provocados pela gripe espanhola em 1918, o bombardeio de São Paulo na Revolução Constitucionalista. E com suas descrições da vida escolar, cheias de detalhes sobre os colegas, as matérias, os professores, as provas, a cola, a indisciplina, os castigos, Nava nos proporciona um inventário precioso do sistema educacional brasileiro na segunda década do século XX, comparável apenas, guardadas as devidas proporções, ao clássico O Ateneu de Raul Pompéia.

Outro aspecto em que a obra de Nava é monumental é no tamanho. São seis volumes completos e um sétimo volume que, com sua morte, ficou inacabado, perfazendo 2651 páginas, mais do que Os Miseráveis, que é um romance de peso. É monumental ainda pela erudição: no decorrer da obra ostenta conhecimentos de artes plásticas, literatura, arquitetura, medicina, história, francês etc. Além disso tudo, Nava é conhecedor profundo do Rio de Janeiro e, à maneira de um João do Rio, em alguns trechos de sua obra, conduz o leitor pela alma encantadora de suas ruas. Diz ele: “Flanar nas ruas do Rio é prazer refinado. Exige amor e conhecimento. Não apenas o conhecimento local e o das conexões urbanas. É preciso um gênero de erudição.” (Galo)


Para quem nunca leu o Pedro Nava eu recomendaria começar pelo volume II, Balão Cativo, que narra a infância e adolescência do autor no Rio e Minas Gerais, depois passar para o III, Chão de Ferro, época em que ele cursou o internato do Pedro II no Rio e passava as férias em Minas, e só depois, tendo se tornado fã do Nava (espero), retroceder para o volume I, a história dos antepassados, e avançar para os volumes seguintes.

A relação entre o Nava e o escritor francês Proust é muito bem explicitada em crônica do Antônio Carlos Villaça cujo link está na descrição deste vídeo. Villaça conta que em Belo Horizonte em 1925 Nava foi um dos primeiros, de sua patota de estudantes e intelectuais, a lerem a obra de Proust, pouco depois da morte do romancista em 1922. Diz Villaça na crônica: “O seu memorialismo é ostensivamente proustiano. Proustiano pelo estilo, pelo ritmo interior, pela identificação total entre ele e o autor de A procura do tempo perdido. Proust marcou Pedro Nava para sempre.” O que não significa que quem goste de Proust vá necessariamente gostar do Nava, e vice-versa. Eu por exemplo adoro Nava mas, aos 68 anos, ainda não amadureci para conseguir apreciar a prosa divagante do Proust. 

Existem escritores que florescem na juventude (alguns para viverem vidas breves, como os poetas românticos brasileiros, Castro Alves, Álvares de Azevedo, etc.), enquanto outros escritores só despontam, ficam famosos, na maturidade – caso do lusitano Saramago e do nosso Pedro Nava, que começou a escrever seu primeiro livro de memórias em 1968, com 64 anos. Mas quando estudante de medicina em Belo Horizonte na década de 1920, Nava conviveu com a turma dos intelectuais modernistas (foi amigo de Drummond, por exemplo) e colaborou com revistas literárias, onde publicou poemas de elevada qualidade, a ponto de terem sido incluídos na antologia de poetas brasileiros bissextos organizada por Manuel Bandeira. Nava poderia perfeitamente ter seguido uma carreira nas letras ou artes plásticas, mas acabou se dedicando, durante quarenta anos, à profissão médica, tornando-se um destacado reumatologista. Mesmo assim, não parou totalmente de escrever, publicando artigos médicos e até um livro sobre a história da medicina no Brasil. E quando se aposentou e todos acharam que iria fazer o que fazem muitos aposentados – jogar dominó na pracinha, essas coisas  – surpreendeu a todos dando à luz, volume após volume, suas extraordinárias memórias. Segundo Josué Montello, Pedro Nava “era um grande romancista, talvez o maior de sua geração, mas disso só se deu conta, já perto dos 70 anos, quando se lembrou de escrever suas Memórias.” (JB, 22/5/84, p. 11) Segundo Drummond, “Não há notícia de outro escritor que haja esperado 50 anos de vida consciente para se lançar, nem tampouco de alguém que conquistasse logo a unanimidade das admirações.” (JB, 15/8/84)


Outro mistério de Nava é sua memória prodigiosa. Aos setenta anos descreve em mínimos detalhes, aposentos, parentes, professores, amigos, logradouros, um matadouro, que ele viu cinquenta, sessenta anos antes, como se tivesse visto no dia anterior. Pelos objetos que foi acumulando ao longo da vida – cartas, manuscritos, desenhos, lembranças escolares, papéis variados, retratos, vestuários etc. – que hoje fazem parte do acervo do Arquivo-Museu da Literatura Brasileira da Casa de Rui Barbosa (seu arquivo contém 6.110 documentos), tem-se a impressão de que Nava se preparou a vida inteira para um dia escrever suas memórias. Além desses objetos evocadores das lembranças, Nava, exímio desenhista, fez croquis, plantas, desenhos, caricaturas etc. que serviram de suporte visual ao seu trabalho literário.

Finalmente a questão do suicídio. O colunista José Carlos Oliveira assim descreveu a morte do escritor em crônica no JB de 25 de maio de 1984: “Aos oitenta anos, numa noite de sábado igual às outras, encostado numa árvore, Pedro Nava escreveu com silêncio e solidão, dentro do estampido de um tiro de revólver, o ponto final de sua trajetória aqui neste mundo das realidades concretas.” Correu a fofoca de que ele estaria sofrendo chantagem de um “garoto de programa”, mas os jornalistas aos quais chegou essa informação resolveram abafá-la, em respeito ao grande escritor e talvez para poupar a viúva desse constrangimento. Somente anos depois, em seu livro Minhas histórias dos outros, Zuenir Ventura reabre esse dossiê e revela o pacto de silêncio da imprensa em 1984 envolvendo a morte de Nava. Apesar desse episódio lamentável, em nenhum ponto de suas memórias Nava deixa transparecer qualquer inclinação homossexual. Ao contrário, suas paixões, algumas delas não correspondidas, sempre são por mulheres. No Galo das Trevas lemos sobre Egon (que é o Nava): “Ele que era um tarimbado na vida grossa dos estudantes de Belo Horizonte, que desde moço fora audacioso e chegador em matéria amorosa...”. Entre as várias paixões está a “amada bela Amabel”, filha de um senador, a quem Egon sequer tem coragem de se declarar. E Nava não tem o menor pudor em descrever suas idas, com os amigos, primeiro bem novinho à zona do meretrício no Rio de Janeiro e mais tarde, como estudante e médico recém-formado, aos puteiros do Desterro (que na verdade é Juiz de Fora) e Belo Horizonte. Em Galo das Trevas dedica páginas e páginas descrevendo bordéis nos mínimos detalhes, seus frequentadores, as putas, taras de que até Deus duvida... um homossexual não entraria nesses detalhes sobre a putaria. No máximo Nava foi bissexual, algo que muita gente é mas ninguém fica sabendo, porque o bissexual normalmente, podendo optar entre as duas vias, escolhe aquela socialmente mais aceita, e só eventualmente, num surto de luxúria, é que vai experimentar o outro lado, geralmente com um travesti.

PEDRO NAVA, crônica de ANTÔNIO CARLOS VILLAÇA

TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA PÁG. 9 DO PRIMEIRO CADERNO DO JORNAL DO BRASIL DE 26 DE ABRIL DE 1993

Pedro Nava estaria fazendo, breve, 90 anos. Inesquecível Pedro Nava. Um dos maiores memorialistas do Brasil, ao lado de Helena Morley, Afonso Arinos, Gilberto Amado ou Thiers Martins Moreira com o seu O menino e o palacete.

Nava estreou tarde, quase no limiar da velhice lépida. Dividiu a vida entre o consultório, a cátedra, o hospital, a policlínica. E a leitura. Porque foi sempre um grande leitor literário. Em Belo Horizonte, por volta de 1925, foi ele o primeiro do grupo modernista a ler a obra de Marcel Proust, que chegava às montanhas de Minas, pouco depois da morte do romancista.

Esse encontro com Proust foi decisivo. Os dois autores que mais o impressionaram foram Euclides da Cunha e Proust. Pois Pedro Nava pertence decididamente e declaradamente à categoria dos escritores ricos, frondosos, farfalhantes. A sobriedade de Machado não era o seu caminho, ao contrário de Graciliano e Drummond, seu companheiro de juventude.

Nava morou a maior parte da vida aqui no Rio. Morou nesta cidade definitivamente desde 10 de março de 1933. Ele próprio nos confessa com aquela sua precisão deliciosa e perfeita que residiu 20 anos em Minas, dois no Oeste Paulista, numa aventura da mocidade, e o resto no Rio. Morou em Visconde de Figueiredo, Aristides Lobo, Haddock Lobo, São Cristóvão, Copacabana, Urca, Ipanema, Laranjeiras, Glória.

Viveu na Glória, no mesmo apartamento [no prédio da foto abaixo], desde o dia 28 de junho de 1943. E na Glória, em plena rua, morreu.

É impressionante o número de escritores nascidos em Juiz de Fora, como Pedro Nava, Murilo Mendes e Silva Melo, Rubem Fonseca e Raquel Jardim, Cleonice Rainho e Gilberto de Alencar, Fernando Gabeira e Belmiro Braga. E mais Rute Bueno, Cosette de Alencar, Rangel Coelho, Henrique José Hargreaves, o filósofo tomista, discípulo de Maritain, de Kierkegaard, Wilson de Lima Bastos e Regina Hargreaves, autora de O diário do sol, que tanto entusiasmo provocou em Sobral Pinto.

O memorialismo brasileiro tinha duas vertentes nítidas. A de Nabuco e de Afonso Arinos, claramente romântica, que se inspira em Chateaubriand, com as Memórias de além-túmulo. E a de Graça Aranha e de Gilberto Amado, o impressionismo dionisíaco. Pedro Nava não pertence a nenhuma dessas vertentes.

O seu memorialismo é ostensivamente proustiano. Proustiano pelo estilo, pelo ritmo interior, pela identificação total entre ele e o autor de A procura do tempo perdido. Proust marcou Pedro Nava para sempre.

Prédio na Glória onde residiu Pedro Nava

Sobretudo, um retratista. Descreve o físico das pessoas e passa agilmente para o retrato psicológico, em que é mestre. E sabe descrever as cidades. No Galo das trevas, seu quinto volume, há um passeio maravilhoso pelas ruas da Glória, verdadeira obra-prima. O quarto volume é um retrato de Belo Horizonte (onde estudou a sua medicina). Concretude saborosa. Vemos a rua da Bahia do tempo de Pedro Nava mocinho.

A verdade é que Nava rapaz era excelente desenhista. E se tornou mestre na arte de retratar, quando se fez memorialista, na curva dos 70 anos. A sua obra não tem igual. Vai da genealogia minuciosa do Baú de ossos, primeiro volume das Memórias, à incrível liberdade criadora do Galo das trevas, quando Nava, maduro, solta-se inteiramente à vontade, sem nenhuma cerimônia, com uma franqueza desabusada de espeleólogo audaz.

Pois não tem medo de nada. Nenhuma palavra assusta. Nenhuma realidade o inibe. Capta o movimento da vida. Desce fundo na mina humana. Como um perscrutador insaciável. Que analista meticuloso. Que inventariante preciso. Tudo nele é abissal e trágico.

Vejo em Nava pessimismo e cepticismo. Um pessimismo filosófico, à maneira de La Rochefoucauld, certa melancolia diante do humano, como em La Bruyère, com toda a sua paixão dos caracteres. Um fundo jansenista.

Há em Pedro Nava o cepticismo filosófico, o experimentalismo científico e a volúpia da palavra, o senso da exatidão. E, sempre, um espírito boêmio, que o leva a confessar (numa página soberba) que “flanar nas ruas do Rio era prazer refinado” [ver ARTE DE FLANAR PELO RIO].

A consciência da corrupção da natureza humana, que o acompanha, não o tornou seco. O memorialista surgiu quando ninguém o esperava, como uma espécie de torrente impetuosa. Ou de incêndio. Ou de vulcão. Os seus seis volumes de Memórias foram uma explosão de autenticidade perturbadora.

Nava passou de bissexto a contumaz. Era já conhecido e admirado como poeta bissexto, sobretudo pelo grande poema O Defunto [sobre o qual fiz um vídeo que você pode ver aqui], que, junto com A cachorra, de Pedro Dantas, é uma obra-prima de nossa poesia bissexta. Manuel Bandeira o incluiu na sua Antologia famosa dos poetas brasileiros bissextos, isto é, não-contumazes. Nava navegante.

Placa no prédio da Glória onde morou Pedro Nava

VEJA TAMBÉM MEU VÍDEO "PEDRO NAVA E OS MEANDROS DA MEMÓRIA":

RESUMO DE LIVRO: BALÃO CATIVO de PEDRO NAVA


Balão Cativo é o segundo volume das memórias do médico e escritor mineiro Pedro Nava, “dedicado à recuperação da infância do autor [...] e sua transição do ambiente doméstico para o mais público dos colégios” (André Botelho, "Balão cativo: o aprendizado da memória". Recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte e o prêmio Machado de Assis.

Resumo

A obra, publicada pela Editora José Olympio em 1973 (foto acima; atualmente a obra memorialística de Nava é publicada pela Companhia das Letras), narra os acontecimentos após a morte do pai, em 1911, quando a família (Pedro, seus irmãos mais novos e a mãe, Diva Mariana Jaguaribe Nava) retorna a Juiz de Fora, onde moram os avós maternos do autor. “São anos difíceis os passados no sobrado nada acolhedor da avó materna, Inhá Luísa.” Lá retorna ao Colégio Andrès (onde permaneceu pouco tempo porque a mãe atrasou o pagamento das mensalidades) e depois vai para no Colégio Lucindo Filho, do Professor Machado Sobrinho, onde se ministrava “instrução ‘principalmente moral’, ‘sobretudo cívica’”. Com a morte da avó materna, em 1913, a família muda-se a 25 de dezembro para Belo Horizonte, indo morar no bairro Floresta. Lá Nava cursa o terceiro e quarto primário, em 1914-15, no Ginásio Anglo-Mineiro, que segue o modelo educacional inglês e criado para dotar a capital mineira de uma instituição moderna, “que fosse, em Minas, o seu Eton e o anti-Caraça”.

Em 29 de fevereiro de 1916 Nava viaja de trem, sozinho, para o Rio de Janeiro onde morará com os tios Antônio Salles e Alice (irmã de seu pai) na Pensão Moss, na Rua Haddock Lobo, 252, no Engenho Velho e fará vestibular para o internato do Colégio Pedro II, onde ingressará em 4 de abril de 1916 no primeiro ano ginasial. O tio, homem dedicado às letras, com ideias progressistas e liberais que transmite ao sobrinho, o levará à Livraria Garnier, reduto de intelectuais, e a passeios pelo Centro carioca (“Devo a meu tio e a estes passeios o amor que nutro pelas casa velhas do Rio antigo”). A narração dos anos no internato do Colégio Pedro II, que ocupa o último capítulo do livro, “Morro do Barro Vermelho”, prosseguirá no volume seguinte, Chão de Ferro.

O título, “Balão Cativo”, refere-se a um balão preso por cordas e que por isso não consegue ganhar altura. O termo é mencionado duas vezes na obra. A primeira, no Capítulo II, quando contrasta os céus mineiros com aqueles do litoral:

Só paisagens de Minas. De suas estradas, de suas montanhas, de seus horizontes perdidos — cheios daqueles cúmulos-nimbos e alticúmulos como só se veem das serras alcandoradas das nossas Gerais — não como os balões cativos de paina dos litorais, mas como a sucessão de degraus invertidos que se afastam nas perspectivas infinitas.

A segunda menção ocorre no Capítulo III quando fala de um velho livro de contos de Andersen, que o faz viajar pela imaginação, mas “apenas num balão cativo [...] de que a roldana vai puxar o cabo e fazê-lo voltar inexoravelmente ao chão!”. No primeiro volume das memórias (Baú de Ossos), Nava também faz menção à "ascensão de balão cativo no parque de Juiz de Fora".

A obra abrange o período de formação do autor, rememorando em detalhes sua vivência e aprendizado nos colégios Anglo-Mineiro e Dom Pedro II e no convívio com o tio Salles. Como tal, compara-se a O Ateneu, clássico brasileiro de Raul Pompeia sobre a vida escolar, do qual um trecho é citado em Balão Cativo.


CAPÍTULOS
A obra divide-se em 4 capítulos, cujos nomes são todos topônimos:

Capítulo I: MORRO DO IMPERADOR

O Morro do Imperador é o “mais alto dos que circulam a cidade” de Juiz de Fora. O capítulo narra o período em que Pedro, a mãe e irmãos ficam morando no sobrado da avó materna em Juiz de Fora. Desfila aqui toda uma galeria de familiares, negrinhas e mulatas crias da casa, moradores da cidade: prima Maria Luísa Paleta, tias Rolinha e Berta, bisavó Clodes, tio Dominguinhos etc. O único ausente é o Major, marido de Inhá Luísa, que "fugiu" da fúria da esposa para outras plagas. O capítulo conta também uma viagem ao Rio de Janeiro no final de 1911 para a visita ao cemitério no Dia de Finados. Aqui Nava esboça uma história dos cemitérios do Rio de Janeiro.

O menino Pedro já descobre uma vocação que o acompanhará vida afora: flanar pela cidade. Para isso, dava um jeito de "fugir" do colégio.

“O colégio era de uma caceteação mortal. Quando estava demais, eu disfarçava, pedia para ir lá fora, volteava a casa, saía pelo portãozinho de cima e ia banzar para o jardim da Matriz: ia escorregar nos gramados em rampa da igreja de São Sebastião; ia deslizar monte abaixo, sentado numa tábua, nos desbarrancamentos do plano inclinado que o Saint-Clair estava construindo no morro do Imperador; ia correr sozinho entre as árvores, as araras e os irerês do Parque Halfeld. Ninguém no colégio dava por minha falta e aos poucos fui aperfeiçoando minhas fugas, descobrindo a técnica das gazetas. Explorava a cidade.”

Nessa época, Pedro recebe dos colegas, no recreio, uma “sólida introdução à pornografia e à sacanagem”, e aprende a pesquisar palavrões no dicionário. Toma conhecimento também, através de um mico enforcado e depois mal sepultado, do fenômeno da decomposição do corpo após a morte, espécie de obsessão que o acompanhará vida afora. “Pobres, pobres, pobres mortos! Vocês estouram como nas Danças macabras e no afresco horrendo do Triunfo da morte, do Campo-Santo de Pisa. Ficam verdes, amarelos, roxos, furta-cor, engordam e murcham, crescem e minguam, emitem gases e o artifício dos fogos-fátuos!” Com a morte da avó, a família decide mudar para Belo Horizonte.

Capítulo II: SERRA DO CURRAL

A Serra do Curral está ligada às origens de Belo Horizonte. O capítulo começa com a chegada da família em Belo Horizonte, onde se hospeda por quinze dias em casa de tio Júlio e tia Joaninha, de regime espartano, onde se acordava às quatro e meia da madrugada, tomava-se café às cinco (“torrada escorrendo manteiga, café com leite, pratarradas de mingau de fubá com açúcar e queijo picado, broa de milho, mãe-benta”), às cinco e meia todos os “marmanjos” já haviam saído, “trabalhando ou trocando perna na rua”, e às dez horas em ponto estavam todos de volta para o almoço (“Tudo nadava em banha de porco”). Depois a família se instala numa casa na Rua Januária, 327, no bairro de Floresta.

Em Belo Horizonte Pedro trava conhecimento com a solidão, sua companheira vitalícia (Solitude, ma camarade). Também ali faz seus passeios exploratórios — “os périplos indizíveis que me entregariam Belo Horizonte” — e traça um paralelo entre Paris e a capital mineira. Em 1914-15 cursa o Ginásio Anglo-Mineiro, tentativa de trazer um ensino “moderno” para uma sociedade conservadora, de curta duração: manteve-se em atividade apenas esses dois anos. Na biblioteca do colégio Pedro deleita-se com “os livros — nossos escravos da lâmpada, amigos de sempre, senhores despóticos de nosso tempo”. Através deles, “o mundo foi se abrindo para meus onze anos e multidões passaram a desfilar diante de meus olhos”.

Capítulo III: ENGENHO VELHO

Engenho Velho é o bairro onde moram os tios de Nava, Antônio Salles e Alice, na Pensão Moss, uma “casa de hospedar” de um gênero que não existe mais. “No princípio do século elas enxameavam [...] Serviam de residência a altos funcionários, a militares entre major e general, a comerciantes na altura da gerência [...]” No escritório do tio, “as seis estantes chegando quase ao teto, suas tábuas vergando aos peso daquele mundo de livros” alimentam o gosto pela leitura do autor. “Depois da biblioteca do Anglo que eu esgotara, eu tinha ali rumas de literatura nacional, portuguesa, inglesa, francesa.” “O que ele [o tio] mandava é que eu lesse. O que fosse. Livro. Revista. Jornal. Até catálogo de telefone. Tudo era sagrado porque tudo era letra impressa.”

Com o tio, passeia no Centro e conhece a Livraria Garnier (“Lembro até hoje a primeira vez que entrei na livraria ilustre”), frequentada por João do Rio (“gorducho, cifótico, bedonante e daquela polidez exemplar”), pela poetisa Gilka Machado, por Coelho Neto (“guardei bem sua figura de olhos esbugalhados, seus óculos de míope, seu cabelo en brosse, sua testa curta, sua mofina estatura”), Lima Barreto (“estava que nem gambá, todo ardido e suado de vir rolando dos seus subúrbios”), Alberto de Oliveira (“o deus de bigodes encerados”).

Ao narrar os passeios pelo Rio antigo com o tio, Nava discorre sobre sua destruição recente — “Uma cidade americana está sendo erigida sobre os escombros da cidade francesa que Passos construíra, derrubando a primitiva portuguesa” — e faz uma declaração de amor à cidade:

“O lugar onde eu moro é a Muito Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. É a cidade de Estácio e Salvador de Sá. [...] A de Machado de Assis e João do Rio. [...] A de Vinicius. [...] Esta é a minha cidade, saudade! a cidade que escolhi para vida, paixão e morte do mineiro despencado do seu Caminho Novo. A cidade onde todos se abraçam no mesmo bloco e seguem sob o mesmo estandarte rutilante.”

O capítulo se encerra com uma espécie de biografia do tio Salles, que em fevereiro de 1918 embarca de volta ao Ceará.

Capítulo IV: MORRO DO BARRO VERMELHO

Trata-se de um morro em São Cristóvão ao pé do qual se situa o colégio Pedro II. Nava começa o capítulo narrando a história desse tradicional colégio, onde ingressa a 4 de abril de 1916 (“Eu era o náufrago Pedro da Silva Nava, aluno 129, primeiro ano efetivo, quarta divisão do internato do Colégio Pedro II”) . Conta os trotes humilhantes a que são submetidos os calouros, levando-o, pela primeira vez na vida, a pensar em se matar, descreve o aprendizado sexual (“Com treze anos incompletos vim para o Pedro II e, ao fim de quinze dias dessa universidade intensiva, conquistei o diploma do terceiro grau de minha educação pornográfica”), os livrinhos pornográficos, a zona do meretrício (“Havia velhas hediondas e meninas de uma beleza radiante e apodrecida”), a “autogratificação” (masturbação). A narrativa de seus anos no Pedro II prosseguirá no terceiro volume de memórias, Chão de Ferro.

PS. Você encontrará este mesmo resumo na Wikipédia, o que não quer dizer que copiei de lá. Ao contrário, eu criei o verbete lá!

VEJAM MEU VÍDEO SOBRE PEDRO NAVA:

RESUMO DE LIVRO: BAÚ DE OSSOS de PEDRO NAVA


Baú de Ossos é o primeiro volume das memórias do médico e escritor mineiro Pedro Nava, “digno de figurar entre o que de melhor produziu a memorialística em língua portuguesa” (Carlos Drummond de Andrade, “Baú de Surpresas”). Lançada em 1972 pela Editora Sabiá (comprada logo depois pela José Olympio), a obra resgata histórias dos antepassados de Nava, além das primeiras lembranças do escritor. Obteve o prêmio Luísa Cláudio de Sousa, categoria Memórias, do Pen Clube do Brasil, em 1972. Reeditado nos anos 80 pela Nova Fronteira (foto acima) e mais recentemente pela Companhia das Letras, inclusive em ebook formato Kindle (que adquiri).

O livro divide-se em quatro capítulos, cujos títulos são referências geográficas.

CAPÍTULO I: Setentrião

O capítulo narra a história da família paterna de Nava, oriunda das regiões setentrionais (ou seja, ao norte) do país, especificamente Ceará e Maranhão. O antepassado mais remoto é o tataravô, Francisco Nava, oriundo da Itália e que “teria aportado ao Brasil no fim do século XVIII ou princípio do XIX”. O avô, Pedro da Silva Nava, nascido em São Luís do Maranhão em 1843, muda-se com a família para o Rio de Janeiro em 1878 (ano posterior ao do nascimento do pai do autor), onde se torna bem-sucedido comerciante (“o dinheiro vinha para ele e onde quer que ele pusesse as mãos nascia ouro”) à Rua General Câmara (desaparecida com a construção da Avenida Presidente Vargas), importador de secos & molhados (vinhos, conservas, manteiga, presunto, azeites, tintas, ferragens, couros, panos grossos e fazendas finas) da Europa, que distribuía pelo município neutro e províncias do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de São Paulo. Mas morreu vítima do calor carioca (especificamente, de tísica galopante resultante de um banho gelado tomado para aliviar o calor), teve quase toda sua fortuna roubada por um auxiliar (que o fez assinar papéis, durante sua agonia, transferindo para si suas propriedades) e a família voltou para o Ceará, onde a avó se casou em segundas núpcias com o viúvo de sua irmã (Joaquim Feijó de Melo).

Capítulo II: Caminho Novo

O capítulo aborda o tronco mineiro materno. O Caminho Novo das Minas era o “caminho comercial, econômico, estratégico e político” que dava acesso às minas de ouro, “a estrada violenta e dolosa do ouro, do quinto, da capitação, dos registros, do fisco, dos moedeiros falsos, dos cunhadores ilegais, dos contrabandistas que passavam ouro engolido, enfiado no rabo, incrustado na pele e enchendo os santos de pau oco”. Contrastando com a família paterna, de “bom nível intelectual”, caracterizada pela 'cordialidade, a boa convivência e a palestra deleitável', o bisavô de Nava, pai de sua avó materna, o tropeiro Luís da Cunha, com seu “olho mineral [...] espavoria a família, que ele trazia na bordoada e que só respirava quando ele viajava a negócios”. Na década de 1860 o avô desce, pelo Caminho Novo, do Centro para a Mata, estabelecendo-se em Juiz de Fora. A avó de Nava, Maria Luiza (Inhá Luísa), mulher de gênio “detestável e despótico”, que foi “mãe admirável, sogra execrável, sinhá odiosa para escravas e crias, amiga perfeita de poucas, inimiga não menos perfeita de muitas e corajosa como um homem”, casa-se com um ricaço de origem alemã, “grande proprietário territorial”, muito mais velho do que ela (“quando ficaram noivos, ele tinha setenta anos e minha avó dezenove para vinte”), o comendador Henrique Guilherme Fernando Halfeld. Seis anos depois este “passou-se desta para melhor” e a viúva, herdeira de sua fortuna, casa-se agora com um homem dois anos mais jovem, Joaquim José Nogueira Jaguaribe, filho de um senador do Império, que todos chamam de Major e que foi “agrimensor, construtor, empreiteiro, ferroviário, político, jornalista, funcionário, educador e fazendeiro”.

Capítulo III: Paraibuna

Paraibuna é o rio que banha Juiz de Fora. O capítulo mostra como “doenças, necessidades, obrigações, compromissos, acaso, destino [...] fizeram convergir para o Rio de Janeiro gente da família” do pai e mãe do autor. “Os parentescos e amizades começaram a tecer a teia dos conhecimentos e dos amores.” O capítulo começa retomando a história dos avós maternos na década de 1880. Em 1883 vem ao mundo sua terceira filha, Diva Mariana (sinhá Pequena), mãe do autor. A família vai viver na Fazenda do Bom Jesus, “onde tudo era róseo, abundante, sem trabalho, nem ralho, sem barulho nem matinada. Paraíso terrestre, ilha da Utopia, Pasárgada onde elas eram não amigas, mas filhas do rei”. No fim da década de 1890 uma doença nos olhos da mãe de Nava faz com que a família venha para o Rio para ela se tratar com o dr. Moura Brasil (“Senão, cegueira...”), instalando-se num casarão no Andaraí. Estamos na belle époque (“O que teria sido ao justo essa belle époque? Diferente das outras épocas? Melhor? [...] Teria sido ao menos bela?”)

Em 1896 o pai de Nava, José Pedro da Silva Nava, vai para a Bahia estudar farmácia e medicina e no ano posterior transfere-se para a capital federal. Em 1898 forma-se em farmácia e com o dinheiro de sua Farmácia Nava custeia os estudos de medicina, colando grau em dezembro de 1901. Em 14 de junho de 1902 os pais de Nava se casam. O casal muda-se para o povoado do Sossego no interior mineiro, onde o pai passa a clinicar, apadrinhado por um fazendeiro. Diva, ao fim da gravidez, vai para a casa da mãe em Juiz de Fora, onde nasce Pedro Nava. Pouco depois o pai vem se instalar nessa cidade mas “assim que conheceu melhor a sogra rural, escravocrata, dominadora e violenta, tomou-lhe horror”. Nava criança tem seu primeiro contato com a “revelação da morte, da podridão, do aniquilamento, do fim, do nada”. Um fato notável em sua infância é a passagem do cometa Halley, “uma bola luminosa com uma cabeleira cintilante. Cegava a quem o olhasse diretamente, sem óculos escuros.” O primo prognostica o fim do mundo “e a ideia cataclísmica do fim [...] habitou minha alma desde então”. Em Juiz de Fora o pai de Nava exerce as funções de diretor de higiene, presidente do Liceu de Artes e Ofícios, professor da Escola de Odontologia do Granbery e diretor do Hospital de Isolamento Santa Helena”. No final do capítulo, o pai, “farto da sogra, farto de fazer oposição, farto [...] das picuinhas e perseguições miúdas da situação municipal”, resolve se mudar com a mulher grávida e três filhos para o Rio de Janeiro, instalando-se na rua Aristides Lobo, bairro do Rio Comprido.

Capítulo IV: Rio Comprido

Neste capítulo o autor recorda sua infância no Rio Comprido valendo-se das “chaves da memória que serviram ao nosso Machado, a Gérard de Nerval, a Chateaubriand, a Baudelaire, a Proust”. Fala sobre as ruas noturnas, crepusculares, matinais; o “sistema de rendas de ferro [gradis, escadas de ferro, portas, ornatos, quiosques, balaústres, estatuetas, pavilhões] que enfeita fabulosamente o Rio de Janeiro e faz dele uma das cidades mais ricas do mundo em matéria de serralheria”; os vendedores de rua com seus pregões característicos (peixeiros, tripeiros, vassoureiros, doceiros, baleiros, sorveteiros); o Carnaval de 1910 ou 1911 (“velhas fantasias que não existem hoje”); as reuniões de família, com parentes vindos “de pontos diversos da zona norte”, dessas “ruas cheias de famílias de militares, de funcionários em exercício, de viúvas de aposentados, de cartomantes, de tendas espíritas, de terreiros de candomblé, de cantigas ao sol, de namoros à lua, de modinhas suburbanas, do samba em gestação”; o desabrochar de um amor que nunca o deixou: “o amor dos livros, o amor da leitura”; os bondes de burro ("me lembro dos bondes de burro com seus poucos bancos, com o condutor e o cobrador, os dois sem farda, de terno velho, colarinho duro, chapéu de lebre, ou chile, ou bilontra — e a bigodeira solta ao vento carioca"); o cinematógrafo Kinema iluminado com lâmpadas vermelhas porque "não ficaria bem uma sala de breu, com damas e cavalheiros"; a avenida Central em construção; passeios por diferentes bairros cariocas, como Santa Teresa, Flamengo, Botafogo e Copacabana. O capítulo culmina com a morte do pai de Pedro Nava, em 30 de julho de 1911, deixando a viúva e filhos "a nada, mão na frente e outra atrás".

PS. Você encontrará este mesmo resumo na Wikipédia, o que não quer dizer que copiei de lá. Ao contrário, eu criei o verbete lá!

VEJAM MEU VÍDEO SOBRE PEDRO NAVA: