IGOR FAGUNDES


IGOR FAGUNDES, carioca, 26 anos, é poeta, jornalista, ator, ensaísta, Mestre em Poética pela UFRJ e professor de Teoria Literária. Diz Latuf Isaias Mucci no prefácio a por uma gênese do horizonte: "O jovem poeta Igor Fagundes urde jogos de linguagem de natureza poética, enredando signos e leitores numa trama misteriosa." Saiba mais sobre Igor visitando o blog de José Inácio Vieira de Melo (clique). Igor também está na postagem Poesia Jovem (clique) do meu blog Literatura & Rio de Janeiro.

construção

Sei de tijolos difíceis de se unir
sei como as mãos se calejam com a enxada
e como a vida prepara vergalhões e pés descalços
sobre cisternas vazias
Sei da escória de quem nos olha ao longe
e não conhece
o gosto de um martelo sobre o dedo
a rosa que desponta na parede
a cada vez que ao fim de tarde
tudo parece ficar pronto e
talvez floresça só depois

ou nunca

(do livro sete mil tijolos e uma parede inacabada - foto dos tijolos obtida na Internet)

ISABEL CORSETTI


Isabel Corsetti, nascida em Antônio Prado, RS, e criada no Rio de Janeiro, formação básica em artes visuais. "Poetar permitiu conectar-me à literatura, magnífica forma de arte que alia todos os sentidos em um só meio de expressão, sulcando as marcas e traçando as trilhas de nossos descaminhos." Poesia lânguida, sensória, devaneante. Em 2005 lançou seu livro de estréia: Plano de Fundo (Oficina do Livro). Poemas desta postagem, inéditos, gentilmente enviados pela autora.

Dança

Torna-me um violão
corda por corda ─
tensionada ao prumo
estreitada ao peito
convertida ao rumo.

E na melodia
faz-me de vadia,
aquecendo-me a cama
vil e profana.
Me alicia.

E na contradança
leva-me os gemidos
fala-me aos ouvidos
toca-me os sentidos.
Me acaricia.

E ao raiar do dia,
serva dos teus dedos ─
lego-te os segredos
livro-me dos medoscurvo-me aos enredos

Xeque-Mate

Porque ma abraças na madrugada,
me envolves toda, sem dizer nada?
E me prometes tantos amores
deixando ao fundo somente as dores?

Me telefonas mandando beijos
de mil vontades, tantos desejos.
E me apareces, todo sorrisos,
trazendo flores pros meus sentidos.

E nas histórias, vários enredos,
cantando glórias de amor sem medos.
Porque me iludes em tuas tramas ―
serei mais uma de tuas damas?

Não vês que sofro, sem esperanças,
sempre à deriva nessas andanças?
Se não me queres, se não me amas,
não mais atices todas as chamas.

Mas, se ao contrário, bem me quiseres,
serei bendita entre as mulheres.

RECEITA DE POETA, de IVO KORYTOWSKI


Compilação da poesia bissexta e alguma prosa poética que andei cometendo desde a remota adolescência.


I

POEMAS DE AMOR


Eis, com efeito, em que consiste o proceder corretamente nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir: em começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre como que servindo-se de degraus, de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciência que de nada mais é senão daquele próprio belo.
PLATÃO, O Banquete


AMOR VIRTUAL


Serás meu absinto, meu ópio, meu nirvana,
A minha bússola, meu norte, meu caminho,
Minha fofinha, gostosinha, amorzinho.
De belas flores farás belas ikebanas!

Meu prelúdio, minha valsa, meu minueto,
Minha Vênus, meu afresco renascentista,
Meu trevo de quatro folhas, minha ametista,
Musa minha inspiradora de meus sonetos.

O seu sorriso me elevará ao alto astral.
Como serão sua voz, postura, olhar,
Seu perfume, fantasia de Carnaval?

São longos quilômetros a nos separar,
Porém, isso não tem importância. Afinal,
A Internet já fez de nós romântico par!


A CAROLINA


"A Carolina" - assim se denomina
Comovente soneto de Machado.
Estarei sendo por demais ousado
Com este soneto a ti, Carolina?

Lampiões as ruas não mais iluminam.
Morro do Castelo foi arrasado.
O tílburi é coisa do passado.
Fitar o Cruzeiro não mais fascina.

Se mudam os cenários que trilhamos,
Sentimentos quedam inalterados:
Hoje como ontem, sofremos, amamos.

Mundo cibernético sem pecados:
Nenhuma fotografia trocamos,
Entanto já estamos apaixonados!


À NAMORADA


Gosto de seus abismos, segredos, odores, perfumes,
De seus chiliques, estresses, surtos de choro, ciúmes.
Da miríade de expressões: de ninfeta, mulher fatal,
De cada dedinho das mãos e pés: vinte no total!

Gosto do choro fácil, do riso de criança em festa,
Dos cabelos castanho-escuros com franja sobre a testa,
Das unhas quando pintadas da cor da pele morena,
Batom vermelho nos lábios qual estrela do cinema.

Gosto das lições de beijo, orelhinha apetitosa,
Pezinhos de sola áspera, mas mãozinha tão mimosa,
Pintinha no rosto e em outro lugar mui bem escondido,
Pele macia, pernocas idem, abissal umbigo.

Também pudera: após milhões de anos de evolução,
A natureza teria de chegar à perfeição.
E para terminar o poema como manda o figurino:
Sorriso nota dez, voz de menina, empenho taurino.


PRIMEIRO AMOR


São dias do passado, mas jamais esqueço
Do amor que — tão mocinha — a ela dediquei.
Alvorada amorosa, um simples começo...
Não fui correspondido. Quase me matei!

Seus lábios desejava, beijá-los não pude.
A ausência do afago fazia-me sofrer.
Musa, mãe das artes, no descrever me ajude
Da jovem que de mim o afeto não quis ter.

Na cama com Cristina então me imaginava
A praticar o sexo. Tão bela e tão nua!
Mera fantasia! Triste me masturbava.

Dias do passado, perdidos no negror.
Hoje quando a vejo, passando pela rua
Olho indiferente... Não sinto mais amor!


♥ DEZ ANOS DE MI & LI ♥


O primeiro hambúrguer tiveste vergonha.
Agora os devoramos no mundo inteiro.
Nossas fofas barriguinhas cresceram junto.
Agora só falta a barriga do herdeiro.

Nos primeiros meses por aqui tu choravas
com saudades da São Paulo do Adoniram.
Hoje conheces os quatro cantos do Rio
inda melhor do que a palma da própria mão.

A diferença de idade era enorme:
um placar de cinquenta e três a vinte e seis.
Agora já nem sentimos a diferença:
são apenas sessenta e três a trinta e seis.

Amor à primeira vista? Sabe-se lá,
mas simpatia à primeira vista eu garanto.
Veja: depois de conquistar meu coração
Do armário foi conquistando cada canto

No início comemoramos bodas de folha
E mais outras pequenas bodas semanais
Hoje eis que chegamos à boda de zinco!
E pela frente decerto vem muito mais.

Pra encerrar com uma declaração de amor
A quem chegou do nada, assim de repente:
Sem a tua nobre e celestial presença
Eu seria só um tiozinho decadente...


II

POEMAS EM PROSA (& DIVAGAÇÕES)



AMOR LUNÁTICO[1](as notas estão ao final da postagem)


Desgostoso com as pessoas, enamorara-se da lua.

– Bela é a lua, sobretudo quando cheia! E tem um rosto tão sereno...
– Um rosto sereno, porém distante...
– O amor não conhece distâncias. À noite, quando a tristeza me invade o coração, sua etérea beleza me conforta. Então, converso com ela!
– Mas ela não te responde...
– Não, minha amada não é tagarela; sua resposta, não a capta o ouvido, mas o coração!
– Dormes com tua lua?
– Não me fales de amor vulgar!
– Amas a quem não compreendes...
– Seu enigma é meu amor!
– Quimeras...
– O amor é uma quimera!

Não, minhas palavras não o convenceram da impossibilidade de seu amor.
Na noite seguinte, subiu uma montanha para se aproximar mais da Eleita. Chegando ao topo, amanhecera. Desesperado, atirou-se de altura de dois mil metros rumo ao Infinito!


DIVAGAÇÕES[2]


Masturbação
Na calada da noite eu me masturbo. De repente, vieram à tona todas as frustrações; quebraram-se as lentes cor-de-rosa que me interditavam a visão da realidade; vislumbrei a vida em toda sua crueza. De um mero jogo entre dois seres, aqui estou eu, estranho animal ora alegre, ora infeliz. Amanhã meus óculos ganharão novas lentes cor-de-rosa e só verei a praia, as ondas, a brisa... Mas hoje me masturbo para não repetir o erro de meu pai.

Duas visões
Deitado na praia deserta sob a lua cheia, duas visões se me apresentavam: à esquerda, visão da cidade, horrendo amontoado de blocos cavernosos formando intrincados labirintos. À direita, a bonita visão das águas verde-azuladas, cruel sorvedouro de seres humanos. E uma escolha se me apresentou: a cidade. Curvei-me à vontade do destino.

Alma
Há dias em que acordo feliz. Feliz de ver um dia bonito, ensolarado. Feliz por algo que não sei bem o que é. E nesses dias, quão tola e incompreensível se me afigura minha gama de emoções, anseios, obsessões! Hoje acordei satisfeito, estou satisfeito. Quero ser o rapaz mais bonito, adorado por todas as moças e adorado, qual o grego Narciso, também por mim. Quero amar o mundo na certeza de que meu sentimento não é fruto de meras reações químicas, mas de algo superior ao mundo dos átomos: uma alma.

Ventura
Não termos de implorar, não termos de mendigar, as portas se nos abrindo, gentis recepcionistas sorridentes — não sermos párias no mundo.

Esplendor
Por que não conseguimos enxergar o mundo, a cada dia, como o cego que tivesse recém-recobrado a visão? Encantarmo-nos com o esplendor — maravilha de cores e formas — da realidade, em vez de ruminarmos essa ou aquela obsessão.

Clarividência
Nenhuma vidente (ou pítia, pitonisa...) em viagem astral (ou que tal) vislumbrou que, por milhões de anos, foi a Terra dominada por dinossauros!

Politicamente incorreto
Intelectuais acreditavam que encontrariam, em meio ao povo, a verdadeira pureza (autenticidade).
Encontraram, isso sim, altos índices de alcoolismo, padrastos violando enteadas e outras tais mazelas.

Latitude
Você, que tem a mente aberta e gostaria (em princípio) de passar por todas as experiências possíveis: decerto não quereria passar pela câmara de tortura!

Poesia mecânica
Ah! Pudesse apertar um botão em mim e expelir uma genial poesia, aclamada pelos críticos! Por que tudo tem que ser tão difícil?

Tolerância
Maravilha poder flanar pelas ruas sem que me cerquem pedindo autógrafos, sem que me invectivem por ser judeu, sem que se riam de mim por ser magro ou torto, ou por qualquer outro motivo, sem medo de que a polícia venha me pedir os documentos que esqueci em casa.

Fora de mim, dentro de mim[3]
Marcinho, meu filho: pedaço de mim fora de mim. E há pedaços de mim dentro de mim como se estivessem fora de mim: meus rins, minhas mitocôndrias, coisas do gênero.
E coisas fora de mim como se estivessem dentro de mim: meus livros, minhas músicas prediletas, o aconchego do lar.
Antes de eu nascer, tudo era fora de mim; após minha morte, tudo retornará para fora de mim.
Para quem me vê na rua, de passagem, é como se nada existisse dentro de mim.
Para mim, nos momentos de exacerbação do ego, é como se nada fizesse sentido fora de mim.

Efêmera
Sendo efêmera a vida, por que se perde tanto tempo em filas bancárias, oficinas mecânicas e estradas atulhadas para regiões dos lagos?

Resolução
Hoje é o primeiro dia do resto de minha vida.
Nada de provas, nem de almoços comerciais, nem comprar ações ou aplicar no fundo, ou pôr combustível correndo porque à meia-noite vai aumentar.
Pressa, jamais!
Limitar as viagens e compromissos sociais, comprar livros e livros e livros.
Nada de mestrado ou doutorado: títulos, pra que os quero?
Quero distância de cursos técnicos.
Não preciso de cartão de crédito nem de cheque especial.
E o carro sempre bem reguladinho. Pra não enguiçar.


VIRADA DE MILÊNIO[4]


O mundo mudou e mal nos apercebemos.

Posto as cidades já não tenham muralhas, os bárbaros não invadem mais nosso império romano nem os turcos chegam às portas de nossas vienas (os ataques agora vêm do alto, teleguiados).

Ninguém mais tem experiências místicas, salvo um ou outro momento de entusiasmo quimicamente induzido.

Tirante uma rara turbulência no avião ou um tiroteio imprevisto, já não levamos grandes sustos cotidianos como nossos antepassados das cavernas.

Não mais tememos as almas do outro mundo, porquanto a luz elétrica expulsou o outro mundo.

Acabaram-se os prisioneiros políticos (nas democracias), e não há mais heroísmo em exprimir as próprias idéias — por mais desvairadas, já não chocam ninguém.

Bater punheta não enfraquece nem enlouquece nem faz crescer pêlos nas mãos. Perigoso mesmo, foder. (A natureza criando seus próprios antídotos à explosão demográfica.)

As instituições tradicionais — Igreja, família, Capital — convivem lado a lado com a pornografia e o crime organizado.

Bruxas e hereges não são mais queimados na fogueira — mas os traficantes queimam seus desafetos nos “fornos-de-microondas” (e poucos protestam).

O ano 2000 chegou e (contrariando Nostradamus) o mundo não acabou.

Convivemos com a depressão, angústia e ansiedade — quase não nos suicidamos mais. (Covardes!)

Sofremos crises nervosas e trememos que nem varas verdes ante o perigo — cena patética se tivéssemos que entregar as cabeças à guilhotina da Revolução.

Conhecemos a estrutura íntima da matéria e não nos assombramos!
Não vamos à missa aos domingos, e nos dias santos peregrinamos à região dos lagos.

Deus assiste a tudo impassível — como assistiu ao Holocausto — e ainda acreditamos nele.


MINHOCAS NA CABEÇA


☻ Quem está de cabeça para baixo: os japoneses ou nós?

☺ De onde vem tanta água? (Por exemplo, as águas do Amazonas!)

☻ Por que o orgasmo não dura uma hora, ou os camarões não proliferam como a sardinha - ou seja, por que Deus foi tão avaro com as coisas boas?

☺ Será que Deus se importa com os risos e as lágrimas dos homens tanto quanto os homens se preocupam com as alegrias e tristezas das formigas?

☻ Se o dinheiro traz a felicidade, por que não se fabrica em maior quantidade?

☺ Por que os videntes não ficam milionários jogando na Bolsa (ou na Megassena)?

☻ Se, por um acesso de insanidade, todos os passageiros de um avião deixarem de acreditar ser ele capaz de voar, o aparelho cairá?

☺ É possível contemplar o pôr-do-sol sem olhos? (Os espíritas afirmarão que sim.) Deslocar-se sem pernas? (Os espíritas não têm dúvidas de que sim.) Sentir o perfume da flor do campo sem nariz? (Os espíritas talvez achem que sim.) Apreciar o sabor das iguarias sem língua? (O que dirão os espíritas?) Ter orgasmo sem órgão genital? (Claro que não!)

☻ Existem outras pessoas? (Em outras palavras, quem garante que não sou louco?)

☺ Por que os intelectuais de minha geração se fascinaram com as experiências trágicas da Rússia, China, Albânia etc. e ignoraram por completo a aparentemente bem-sucedida experiência holandesa?

☻ Na maré alta, o mar se dilata ou fica um vazio no fundo?

☺ Por que, antes de 1933, ninguém jamais afirmou que Nostradamus previu a ascensão de Hitler? (Por que só se descobre que os videntes previram um fato depois que aconteceu?)

☻ Deus criou também os micróbios e o cocô?

☺ Freud chegou a ter algum paciente semivitalício como (praticamente) o são os pacientes da psicanálise moderna? (Meus amigos psicanalistas que me perdoem esta brincadeira!)

☻ Se os dez maiores engenheiros do mundo forem confinados em uma ilha deserta, farão brotar um Empire State Building? (Em outras palavras, daqui a mil anos, surgirá um livro sobre o século XX intitulado Eram os Engenheiros Astronautas?)

☺ Estará a morte para a vida como a vigília para o sonho? (Ou seja, ao morrer, acordaremos para outra realidade?)

☻ Se os sacerdotes são tão íntimos de Deus, por que não O convencem a fazer mais milagres? (Ou, inversamente, se são tão ineficazes, por que os sustentamos?)

☺ Existem anjos? Números irracionais? Princípios morais? A mesa ou cadeira platônica, em si? A dignidade? O mal? Iemanjá? O inferno? O outro lado da lua? O nirvana?

☻ Se não passamos de um átimo na infinidade do espaçotempo, por que nos percebemos como o centro do Universo?

☺ Cai um avião lotado e se salvam alguns passageiros. Rezam agradecidos. Se Deus pôde salvá-los, por que não se esforçou mais um pouquinho e evitou o acidente?

☻ Por que os homens deixam de acreditar em Papai Noel e continuam acreditando no Papai do Céu?

☺ Por que chatos de galocha, ecologistas e naturalistas de plantão não atribuem às ondas de rádio e televisão que cruzam a atmosfera o aumento da incidência do câncer? (Talvez agora que dei a idéia, passem a atribuir – mas quero os “direitos autorais”!)

☻ Por que o microfone não acabou com o canto lírico, o cinema não acabou com o teatro e o helicóptero não acabou com o alpinismo?

☺ Por que temos medo do nada após a morte e não temos medo exatamente do mesmo nada antes de termos nascido?

☻ Onde estavam os anjos da guarda quando os nazistas mataram centenas de milhares de crianças?

☺ Por que nenhum místico ou vidente, em viagem astral, jamais vislumbrou que (por exemplo) durante milhões de anos a Terra foi habitada por dinossauros?

☻ Por que não existem Cláudias, Márcias e Danieles feias? (Ou seja, o nome de batismo determina as características físicas?)

☺ Por que os fantasmas das milhões de vítimas dos nazistas não vieram puxar os pés de seus algozes enquanto estes dormiam? (Ou seja, para que existem fantasmas se são ineficazes?)

☻ Não passa pela cabeça dos naturalistas que cicuta e veneno de cobra são cem por cento naturais? (Aceita uma dose?)

☺ Não passa pela cabeça dos naturalistas que usar óculos é totalmente antinatural?

☻ Por que na Literatura as prostitutas são “santas”, os policiais vivem “crises existenciais”, os bêbados são iluminados e os ricos são desalmados quando todo mundo sabe que as putas são frias negociantes do próprio corpo, os policiais costumam ser truculentos, o alcoolismo é um flagelo e há quem fique rico pelo próprio esforço?

☺ Se o século XXI começou no ano 2000, como apregoou a mídia, o século I começou no ano zero? (Existiu o ano zero?)

☻ Os sentimentos também se compõem de átomos?

☺ Por que esse alvoroço todo em torno do fim do milênio, se a divisão do tempo em mil anos é arbitrária, convencional (como as fronteiras entre os países)?

☻ Por que quem nunca se interessou por arte, quando vai a Paris, faz questão de visitar o Louvre; quem nunca se interessou por arqueologia, quando vai a Londres, sente vontade de visitar o British Museum; e quem nunca se interessou por religião, em Roma, acha que tem de ver o papa?


III

RECEITA DE POETA



RECEITA DE POETA[5]


O poeta não precisa ser boa-pinta
Mas tem de escrever coisa supimpa.

Não precisa ser um Humphrey Bogard
Contanto que componha uma bela obra.

Pode se chamar João, José, Almir
Sob a condição de que saiba escandir.

Não importa se branco, índio, preto
Mas tem de compor um belo soneto.

Não importa se pardo, moreno ou louro
Se o soneto culminar em chave de ouro.

O poeta pode até ser meio franzino
Mas tem de compor em alexandrino.

O poeta pode ser coxo ou manco
Mas que se esmere no verso branco.

Ao falar, quem sabe seja gago?
Mas ao escrever tem de ser um Machado.

Na vida real pode até ser vulgar
Mas na poesia tem de saber rimar.

O poeta pode até ser casmurro
Mas tem de escrever com apuro.

O poeta pode até ser ferino
Se compuser como manda o figurino.

O poeta pode ser um pecador
Mas tem de escrever com vigor.

Pode esquecer de fechar a braguilha
Contanto que componha redondilha.

O poeta pode até ser bonachão
Se escrever do fundo do coração.

O poeta pode até ser malandro
Contanto que componha um ditirambo.

O poeta pode até ser um paxá
Mas não pode escrever rima má.

Não é preciso ser trovador
Mas não vá rimar "amor" e "dor".

O poeta pode até ser palhaço
Contanto que nos eleve ao Parnaso.

Não precisa ser de origem nobre
Contanto que evite a rima pobre.

Ele pode se meter num entrevero
Contanto que escreva com esmero.

O poeta pode até ser "filha da puta"
Mas tem que escrever coisa batuta.

O poeta pode ser meio cavalar
Contanto que evite a rima vulgar.

O poeta pode ser de direita
Contanto que a rima seja perfeita.

No dia-a-dia pode até ser trapalhão
Mas na métrica tem de ser campeão.


IV

POEMAS TRADUZIDOS



RELÓGIOS, PARAR!

W. H. Auden[6]

Relógios, parar! Telefone, desligar!
Um osso suculento pro cão não ladrar.
Pianos, silêncio! Com dobres de finados
Tragam o caixão, venham os enlutados.

Aviões circulem chorosos pelo céu
Escrevendo uma mensagem: ele morreu.
Os pombos da rua laços de crepe ostentarão
Os guardas de trânsito, luvas pretas de algodão.

Ele era meu sul, norte, oriente, ocidente
Domingo de lazer, meus dias de batente
Meio-dia, meia-noite, papo, canção
Pensei que o amor fosse eterno: triste ilusão!

Sejam expulsos os astros, já não fazem sentido,
A lua empacotada, o sol destruído!
Os oceanos, secados, a mata, ceifada,
Já que tudo isso não serve mais para nada!


VITA NUOVA

Oscar Wilde

Erguia-me diante do infrutífero mar
Face e cabelos pelas ondas encharcados,
As longas rubras chamas do dia finado
Ardiam a oeste; que vento de arrepiar!
Rumo à terra gaivotas ruidosas a voar:
“Ai!” gritei, “que vida cheia de decepção
E quem há de colher fruto ou dourado grão
Nesses campos desolados a labutar?”
Redes furadas e falhadas escancaro
Tentando a sorte no meu último arremesso
Mar a dentro, e então quedo-me à espera do fim.
Eis que com uma inesperada glória deparo
Surgir o esplendor de membros cor de marfim
E em júbilo meu triste passado esqueço.


A MALDIÇÃO DE ADÃO

W. B. Yeats

O verão chegava ao fim; eu, você e ainda
Aquela moça amiga sua, meiga e linda,
Juntos sentados comentávamos poesia.
Observei: “Um verso talvez nos tome um dia.
Mas se não parecer pensamento fugaz
O nosso esforço terá sido ineficaz.
Mil vezes preferível forçar nossa espinha
Trabalhando em pedreira, varrendo a cozinha
Tal qual pobretão, faça chuva, faça sol,
Porquanto harmonizar entre si doces sons
É pior que isso tudo, e ser, não obstante,
Tachado de inútil pelo grupo falante
De banqueiros, mestres-escolas e eclesiásticos
Que os mártires chamam de mundo.”

.... Ao que
Aquela mulher divina e maravilhosa,
Cuja voz doce, suave e melodiosa
Despedaçaria mil e um corações
Disse: “Quem nasce mulher tem obrigação
– Posto a escola não ensine essa desdita –
De viver se esforçando para ser bonita.

Respondi: “Decerto nada há nesta vida,
Desde a queda de Adão, sem grande esforço e lida.
Muitos amantes, corações apaixonados,
Fizeram do amor um sentimento elevado,
Suspirando e citando, semblante de sábio,
Precedentes de venerando alfarrábio,
Posto isto hoje se afigure sem valor.”

Sentados calamo-nos em nome do amor
E vimos a chama do dia se apagar
E, no trêmulo verde-azul do céu, brilhar
A lua, gasta como casco fustigado
Pelas águas do tempo, que, no seu bailado
Pelos astros, dias e anos vão formando.

Sussurrei-lhe ao ouvido o que vinha pensando:
Você era bonita, e eu havia tentado
Amá-la daquele velho modo elevado.
Parecêramos felizes, mas no final
Cansamo-nos, como aquela lua irreal.


A COSTA MEDIEVAL

Michael Ondaatje

Aldeia de escultores. Aldeia de adivinhos.
Homens escavam a terra à procura de gemas.

Parentes circenses compõem arbóreas pirâmides humanas.

Vida caseira. Medo da distância ao longo da costa sul.

Cada escultor tem sua marca secreta, aresta de seu cinzel.

Na aldeia de adivinhos
ossos de familiar animal
orientam as interpretações.


TRÊS QUADRAS DO RUBAIYAT[7]

Omar Khayyam

Temos que aproveitar o tempo pela frente,
Antes que nosso corpo em pó se fragmente;
Do pó vieste e para o pó retornarás,
Sem vinho, sem canção, sem festa — para sempre!

No Rio de Janeiro, Bagdá ou Xangai,
Contenha a taça doce ou amarga bebida,
O vinho da vida gota a gota se esvai,
E, uma a uma, caem as folhas da vida.

Entre o medo do inferno e a fé na salvação,
Só uma coisa é certa: a vida é um turbilhão.
Só uma coisa é certa, e o resto é ilusão:
As flores que murcham jamais retornarão.


EGO TRIP (pode haver uma razão de ser)

Nikki Giovanni

Eu nasci no congo
Andei até o crescente fértil e ergui
a esfinge
Projetei pirâmide tão resistente que uma estrela
que só brilha a cada cem anos projeta
bem no centro uma luz divina e perfeita
Sou mau
Sentei-me ao trono
bebendo néctar com alá
Senti calor e enviei uma era glacial à europa
pra mitigar-me a sede
Minha irmã mais velha, nefertiti
as lágrimas das dores de meu parto
geraram o nilo
Sou bela mulher
Meu ígneo olhar a floresta transformou
no deserto do saara
com um farnel de carne de cabra
e uma muda de roupa
Atravessei-o em duas horas
Sou gazela tão veloz
tão veloz que ninguém me alcança
No aniversário de três anos de meu filho
aníbal dei de presente um elefante
Ele retribuiu com roma no dia das mães
Minha força não pára de fluir
Meu filho noé construiu nova arca e
Postei-me com orgulho ao leme
Ao singrarmos em ameno dia estival
Transformei-me em mim mesmo e fui
jesus
os homens entoam meu amoroso nome
Louvado Louvado
Sou o esperado salvador
Semeei diamantes no quintal
Minhas entranhas expelem urânio
A limalha de minhas unhas da mão,
pedras semipreciosas
Em viagem ao norte
Resfriei-me e ao espirrar
Meu nariz dotou de petróleo o mundo árabe
Sou tão demais que até meus erros são legais
Singrei para oeste a fim de alcançar o leste e tive
de arredondar a terra no percurso
Minha queda de cabelos depositou
ouro por três continentes
Sou tão perfeito tão divino tão etéreo tão surreal
Que só posso ser compreendido com minha permissão
Além de tudo... Eu... sei voar
qual pássaro no céu...


V

OUTROS POEMAS



IDEALISMO


“É Proibido Proibir”
Palavra de ordem da rebelião dos estudantes de 1968

Quem destruirá nossas idéias?
De um mundo melhor os ideais?
Quem sabe, a ditadura opressora?
Não! São impotentes os cassetetes.
Quem destruirá nossas idéias?
Será a opressão de nossos pais?
Não! Pensamentos idealistas
Encontram à frente um só rival:

O tempo, corrosivo, é o inimigo terrível!
Um dia, burgueses, os nossos ideais mortos.
E, em protesto pelas ruas, os nossos filhos:

– Abaixo a ditadura dos pais!


RIO 450 ANOS


Nasceste três vezes, ó minha cidade natal:
Primeiro, por obra dos invasores lá da França;
Segundo, à entrada da barra, onde é a Urca atual;
Terceiro: Morro do Castelo pra mais segurança.

Contornando morros, enfrentando brejos, mangais
Foste te espraiando depois que pra várzea desceste,
Pois, ao contrário de outras cidades convencionais,
Em planície à margem de um grande rio não nasceste.

Sob a proteção do santo flechado, Sebastião,
A capital do vice-reino foste alçada em glória,
Recebeste Dom João fugido de Napoleão,
Testemunhaste grandíssimos eventos da História.

De dois imperadores assististe à coroação,
Aqui a Lei Áurea libertou a raça cativa,
Aqui da República deu-se a proclamação,
Foste a capital da nação até surgir Brasília.

Já são 450 anos de existência.
Que contrastes: mar, mata, metrópole — esplendor!
Favela, asfalto, tradições, samba, malemolência...
À cidade querida declaramos nosso amor!

POEMA ESPACIAL


De Zyps os telescópios nossa Terra
Enfocam. Dos Zypzanos se apodera
Gigantesca admiração. É geral
O espanto por astro tão colossal.

“Oceanos tão profundos jamais vi!
Matas tão viçosas desconheci.
Logramos – ninguém há de duvidar –
O paraíso perdido encontrar.”

Dotados de lunetas mais possantes,
Divisariam cenas bem chocantes:
Tortura, crime, guerra fratricida...

Toda a barbárie humana, inda acrescida
De terremotos, pestes... a crueza
Com que nos castiga a mãe natureza.


CHURRASCARIA


Eu passara algumas vezes pelo bazar de Yanash e vira os carniceiros matando galinhas, patos, gansos. Os açougueiros começavam a arrancar suas penas quando as criaturas ainda viviam, revolvendo-se no próprio sangue. Eu estudara no Livro do Levítico sobre sacrifícios que sacerdotes costumavam queimar no altar: os cordeiros, os bodes, as cabras e as pombas cujas cabeças decapitavam e cujo sangue esguichavam como um doce aroma até o Senhor. E, mais uma vez, e outra, eu me indagava a mim mesmo por que Deus, Criador de todos os homens e criaturas, gostaria desses horrores? 
ISAAC BASHEVIS SINGER, Amor e Exílio.

Sol nascente. Pescadores chegam à praia.
As redes repletas de peixes pululantes:
Chernes, enchovas, sardinhas, uma arraia,
Saltam, bailam, rodopiam
(Qual trapezista no circo,
Ou bailarina no teatro).
Macabro contorcionismo:
Vã tentativa de escapar à morte!

– Peixe à baiana ou peixe à brasileira?
– Não, hoje prefiro carne.
– Filé à francesa?
– Não, picanha ao alho e óleo
Bem passada... (O sangue me enoja.)

Também em nossas veias
(Sim, nossas: minhas, sentado à poltrona,
Versejando;
Tuas, sentado, sei lá onde, não sei por que motivos
Lendo minhas lucubrações!)
Circula o mesmo sangue da carne mal passada.

Dança macabra: o boi, pressentindo o cutelo,
Em vão tenta escapar ao magarefe:
Triste sina!
A estrutura do matadouro foi concebida pelo engenheiro
Para permitir o abate de cem cabeças de gado diárias.

Ora! Bois são bois, peixes são peixes...
Não têm alma,
Ou, se a têm, é de estrutura rudimentar.

Mas gente é gente!
E hoje, ao abrir de manhã o jornal,
Li que gente como eu
Habitando o mesmo planeta que habito,
Respirando o mesmo ar que respiro,
Muitos na flor da idade, em que já estive,
Com sangue nas veias, como eu,
Com alma, como eu, nada rudimentar,
Foi vítima de estuprador,
De guerrilheiro, de terremoto.
Tanta coisa ruim
Que prefiro desviar o pensamento para algo mais positivo:

– Gente, vamos à churrascaria!


A PROSTITUTA DA CENTRAL DO BRASIL[8]


Todos os dias,
Do trem para o metrô para o trabalho,
Do trabalho para o metrô para o trem para casa,
Passava defronte à prostituta da Central do Brasil.
Pernas à mostra, magras, marcadas:
Alguma moléstia tornada inofensiva pela penicilina,
Mas que, na era medieval,
Teria dizimado três quartas partes de uma população.

Por que é prostituta,
Amante potencial dos não sei quantos mil homens que transitam diariamente pela Central do Brasil?
Por que não é balconista, secretária, mãe-de-família?
Pergunta sem nexo: acaso
Serão balconistas, secretárias, mães-de-família
Intrinsecamente mais humanas do que as prostitutas?
Ademais, faria sentido indagar por que o mar não é praia.
E a praia não é colina?
Ninguém mandou cartões de Natal à prostituta da Central do Brasil!


ROMARIA DE CARNAVAL


“Ó lua, é de madrugada,
diga onde anda minha doce amada...”
De uma marchinha de Carnaval dos anos 60.

É Carnaval: todos presos na Niterói-Manilha,
Ou na rua comprando a máscara da Tiazinha,
Ou então dando os últimos retoques na fantasia,
Ou enchendo a moringa de cerveja noite e dia.

Eu não: o divino Amadeus toca pra mim um trio,
Machado me leva a passear pelo antigo Rio
E Vieira declama em alto e bom som um sermão;
Se eu quiser subir ao céu, Dante me dará a mão!

Terrível acidente na estrada. Mergulho interior.
Alalaô, ooô, ooô. Canção de amor.
A Região dos Lagos. Os recessos de minh’alma.
Desfile das Escolas. Total e irrestrita calma.

Birita, pó, lança-perfume. Poesia, incenso.
Bumbum, paticumbum, prugurundum. Total silêncio.
O império dos sentidos. A santa masturbação.
Mão na bunda abundante. Livro repousa na mão.

Navegar é preciso, boa romaria faz,
Porém, quem baixa a âncora e no porto se queda em paz!


EU


Por que se detém o Universo tão longamente em mim,
A ponto de parecer nada existir afora eu?

Profundos oceanos,
Sinfonias imortais,
Teoremas matemáticos,
Infinitos grãos de areia
De finitas praias e desertos,
Palavras dos idiomas mortos, existentes ou por nascer,
Moléculas de matéria e antimatéria:
VIBRAI!
Reconquistai, no universo, o lugar
Roubado por este espírito enfermo
A que chamo EU!


FINGIMENTO[9]


O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
FERNANDO PESSOA, Autopsicografia.

Radiante, bela, luminosa estava Marta.
Fingiu que não me via. Viu-me,
Mas fingiu que não me via.
Mas se me via, por que fingiu?

Fingi segurança; fingi ter amizades.
Fingi estar preocupado com os destinos do mundo.
Fingi seriedade.
Pasta sob o braço. Ian, o lógico.
Ian, o semanticista.
Fingi sociabilidade.
Tudo fingimento.
Fingiu ela. Fingi eu.
Fingimos.
Viu-me, de relance. E fingi que não a via.
Observei-a, disfarçadamente. E simulava não a ver.
Sofri. Dilacerou-se-me o coração.
Dilacerado. Sozinho. Fingindo.


COISAS E HORAS[10]


Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu:Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.
ECLESIASTES, Capítulo 3

O tempo nada mais é que a forma do sentido interno, quer dizer, da intuição de nós mesmos, e de nosso estado interior. 
EMMANUEL KANT, Crítica da razão pura.

Já anteriormente vivera rotinas forte ou fracamente estruturadas,
Tendo que fazer determinadas coisas em determinadas horas,
E nem sempre convinham coisas e horas:
Já tive horas ociosas sem coisas: pura forma;
Já tive coisas abundantes sem horas: pura matéria;
Sempre a rotina dialética de coisas e horas.

Reinterpretei Aristóteles à luz de meu problema existencial:
Escrevi uma tese de doutoramento, e a apresentei à banca examinadora.
Tiveram-me como louco, e por pouco
Não me internaram num asilo para alienados.


VIVER

Ai de mim! da filosofia,
Medicina, jurisprudência,
E, mísero eu! da teologia,
O estudo fiz, com ardor e paciência.
Eis-me, pobre asno, entre os pedantes,
E sou tão sábio como dantes!
GOETHE, Fausto.

Afogados em exposições de arte,
Galerias, bienais,
Conferências, recitais,
Concertos, festivais.
Afogados em discussões sobre Marx,
Materialismo dialético e Monadologia,
Freud, Reich, Marcuse.
Totalmente afogados,
Vermelhos, sem respiração:
Tão afogados, que nos esquecemos de viver!


QUATRO PAREDES[11]

Deixara para trás, pendurados em invisíveis cabides, os meus títulos exteriores. Que me importava a mim, nessa expedição decisiva, ser professor da faculdade de filosofia [...]? Que me importava toda a série de pequenas conquistas e de grandes malogros que fazem a fisionomia exterior de minha vida? 
GUSTAVO CORÇÃO, Lições de abismo

Tentei sonhar...
Mas as quatro paredes do quarto sufocaram-me o sonho!
No sonho, namoraria,
À beira do mar, tão profundo...
O sol nascente; tudo tão bonito,
Tão fantástico e irreal!
Mas acordei,
E uma rotina inodora e insípida sufocou os anseios do coração de minha alma.
Um cronograma, uma tábua de obrigações, preencheram-me o tempo,
Transformando-me numa máquina desumana.
Tão eficiente, eficaz,
Tão inteligente, tão digno de louvor,
Que terminei meus dias como técnico,
Em um centro tecnológico.
Mas cada vez que me embriagava,
Minha’alma ascendia às alturas
E voltava a se emocionar com o nascer do sol!
Em vão: a carreira técnica se me impunha.
E a solidão, a falta de amor,
Faziam de mim um pseudo-auto-suficiente tecnocrata...
Nos fins de semana, um alcoólatra!


FUGA A KATMANDU[12]

Todos os caminhos levam a Katmandu. Geralmente quem pega a estrada acaba sempre pintando por lá. É uma espécie de ponto final da moçada. 
O vale de Katmandu” in Flor do Mal[13]

O sol nasce no horizonte...
Que bela visão!
Relembra-me o tempo em que era feliz:
A mochila, às costas, e a menina,
Numa aldeia longínqua,
Em longínquo país asiático,
Com que sonhei, e que nunca visitei.
Sonhos, meros sonhos, puro escapismo...
Amanhã, burguês, volto à in-segura rotina.
Volto a trabalhar, volto a sonhar,
E a fuga a Katmandu transfere-se a um futuro sempre mais remoto,
E a realidade, nos cubículos do Rio de Janeiro, impõe-se num presente
sempre mais presente.
E o presente matou o futuro!
Futuro, fantástico! Vem, e mata meu presente!



O AUTOR

IVO KORYTOWSKI é escritor com duas obras premiadas pela UBE, tradutor consagrado, lexicógrafo, filósofo pela UFRJ, pesquisador da história do Rio, blogueiro e Youtuber. Pode ser contactado no Facebook.






[1] Composto na (remota) adolescência. Apesar do espírito romântico, não “pegava” ninguém.
[2] Algumas de velhos diários de adolescência.
[3] Composto quando do nascimento do meu filho.
[4] Composto na virada para o ano 2000.
[5] Se o Vinicius compôs sua Receita de Mulher, achei que poderia escrever minha Receita de Poeta.
[6] Poema declamado na cena do enterro do filme Quatro casamentos e um funeral.
[7] O Rubaiyat é uma coletânea da poesia do poeta persa do século XII Omar Khayyam compilada e traduzida para o inglês por Edward Fitzgerald e publicada em 1859. Trabalhando com dois manuscritos, um do século XV e outro de origem relativamente moderna, Fitzgerald, mais poeta do que erudito, “destilou”e fundiu cerca de 600 quadras, ou rubaiyat.
[8] Composto quando eu trabalhava na Rede Ferroviária.
[9] Marta foi minha primeira namorada. Durou pouco, logo logo me traiu. Eu já tinha mais de vinte anos. Oh, timidez!
[10] Composto durante meus anos de IFCS. Rapaz de classe média na época estudava Engenharia, Direito ou Medicina. Quando eu disse que ia estudar Filosofia minha família só faltou me crucificar. Os amigos tentaram me demover da tresloucada ideia com argumentos profundamente filosóficos tipo “Filosofia é coisa de viado...”
[11] Composto nos velhos tempos de Faculdade.
[12] Composto em minha fase hippie. Paz e amor, bicho!!!
[13] Flor do Mal foi o nome de um jornal alternativo publicado, se não me engano, em 1971. Na época, recortei este artigo; portanto, não sei em que número saiu, nem quem foi seu autor.