HOMENAGEM A ALEXEI BUENO (1963-2026)

 


Alexei Bueno (e Daniel Brilhante de Brito) foram as pessoas mais geniais que tive o privilégio de conhecer pessoalmente em minha jornada terrestre. Tão genial que, aos dezessete anos, idade em que os jovens de minha geração “paz e amor, bicho” fumavam maconha e sonhavam em viajar a Amsterdam, dedicou-se a uma tradução do complexo e difícil poema “The Raven”, de Edgar Allan Poe (que você pode ler clicando aqui), fiel na métrica e esquema rímico ao original inglês, superando assim traduções anteriores de vacas sagradas da literatura em português como Machado de Assis e Fernando Pessoa.


Numa meia-noite cava, quando, exausto, eu meditava

Nuns estranhos, velhos livros de doutrinas ancestrais

E já quase adormecia, percebi que alguém batia

Num soar que mal se ouvia, leve e lento, em meus portais.

Disse a mim: “É um visitante que ora bate em meus portais —

            É só isto, e nada mais”.


Até ontem Alexei era o maior poeta vivo brasileiro (agora vai para o panteão dos gigantes da poesia brasileira de todos os tempos)  que, à semelhança de um Goethe ou Victor Hugo, dominava magistralmente variadas formas da produção poética, do soneto à poesia em prosa, da redondilha maior (“Esta roupa mal cortada / Curta aqui, ali comprida”) ao verso longo à Walt Whitman e, mais ainda, o poema longo como “A Chave Quebrada”. Alexei seguia as convenções e tradições eruditas da grande poesia, não foi um poeta de apelo popular. Sua obra é vasta. A Poesia completa e reunida, de 2023, estende-se por 1053 páginas. E depois disso publicou mais quatro livros de poesia (veja sua obra completa na Wikipédia).

Alexei escreveu uma única peça de teatro sobre um episódio da história brasileira que já tinha sido abordado por Bernardo Guimarães em Histórias e tradições da província de Minas Gerais: o mistério do sumiço da cabeça de Tiradentes do poste onde estava exposta à execração pública. Chama-se O poste e num país que vive o eterno presente e esquece sua história, tenho minhas dúvidas de se será um dia encenada.

Se em 35 anos de vida Mozart compôs uma obra mais vasta que a de Beethoven, que viveu muito mais anos, Alexei, em seus 63 anos escreveu uma obra de uma vastidão e variedade digna de um escritor que tenha vivido cento e vinte anos!

Alexei foi uma dessas pessoas que se tivessem nascido na época renascentista teria alcançado uma cultura universal, abrangendo todos os domínios do conhecimento. Mas neste admirável mundo novo onde as descobertas se multiplicam, atualmente só à inteligência artificial é concedido este dom. Mas Alexei não obstante era uma enciclopédia ambulante que você podia consultar sobre um sem-número de assuntos, e dominava profundamente áreas tão diversas como o cinema clássico soviético, o tango, o patrimônio histórico carioca, a poesia francesa do século XIX, a poesia de Camões, etc. etc. etc.

Digno de menção sua maneira de trajar. Alexei era incapaz de trajar um tênis ou uma camiseta. Sempre se apresentava, fosse para uma degustação de charutos, uma reunião festiva com amigos, um lançamento de livro, trajado como as pessoas se trajavam no tempo em que você tinha que usar passeio completo para entrar no Teatro Municipal: sapato de couro “de verdade", calça social (não jeans), camisa social... sempre impecavelmente vestido (até para visitar o Lazareto de São Cristóvão como na foto abaixo).

É isso que me vem à cabeça quando penso no amigo e intelectual que partiu para The undiscovere'd country, from whose bourn / No traveller returns (Hamlet), como já partiram tantos grandes amigos: Márcio Steinbruch, Helio Brasil... Encerro com esta frase do Joaquim Emídio em seu O MIRANTE: “A sua vasta cultura fazia dele uma figura ímpar na vida cultural brasileira embora vivesse muito à margem da elite literária do país.”


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Visita ao Lazareto de São Cristóvão em 2009. Alexei Bueno foi diretor do INEPAC de 1999 a 2002 e conhecia profundamente o patrimônio cultural e arquitetônico carioca.


MEU LIVRO FAVORITO: OS MISERÁVEIS, DE VICTOR HUGO



Todo mundo deve ter seu livro favorito, assim como tem seu filme favorito, sua cidade favorita. O interessante é que hoje, do alto de meus mais de setenta emocionantes anos, meu livro favorito continua sendo o mesmo do tempo em que tirei esta foto. Ou seja, décadas de leitura não modificaram meu livro favorito: Os Miseráveis, de Victor Hugo. Quem me induziu a ler o livro que se tornaria meu favorito foi meu pai.

O meu livro favorito deve ser o romance mais longo da literatura, ou pelo menos do século XIX. Li pela primeira vez quando tinha uns 16 ou 17 anos. Ainda não estava na faculdade. Como eu era filhinho de papai de Zona Sul carioca, com muito tempo ocioso, levava o livro para a praia e ficava horas devorando as páginas. 

O meu livro favorito é uma obra-prima do romantismo francês. Tão cinematográfico em sua ação e ambiência, embora quando escrito o cinema nem tinha sido inventado. Mas depois que inventaram, paradoxalmente, nenhuma versão cinematográfica ou em série de TV sequer chegou aos pés do livro. Em anos recentes virou um megamusical, que virou filme também, mas nada substitui sua leitura.

Reli meu livro favorito, em edição portuguesa de Portugal em vários volumes quando sofri uma doença dos pulmões em 1986 que contraí nos frios da Escócia. Passava a noite tossindo, tossindo, e lendo, lendo...

É uma dessas obras monumentais (como também é Great Expectations do Dickens ou Guerra e Paz do Tolstoi) que só a estética do romantismo europeu conseguiu produzir, com personagens maiores do que a vida, dramas de tragédia grega, amores impossíveis que acabam se realizando, tendo como pano de fundo acontecimentos históricos: a Batalha de Waterloo, as barricadas de Paris na Revolução de 1832. Desfilam pelos olhos da imaginação do leitor o ex-bandido convertido em paladino da virtude, que resgata uma criança vítima de abusos, mas é perseguido implacavelmente por um inspetor da polícia obcecado, levando-o a viver anos clandestinamente num convento e a uma fuga eletrizante pelos meandros dos esgotos de Paris.

Recentemente dei-me conta de que não conhecia quase nada da vida do autor de meu livro favorito, o que me levou a ler sua biografia de 1998 pelo historiador inglês, especializado em história e literatura francesa, Graham Robb. Com suas quase 700 páginas de texto (sem contar os apêndices, notas e bibliografia), trata-se de um fascinante e abrangente relato da vida e obra desse gigante da literatura e poesia francesa. O biógrafo narra detalhes que você não encontrará em qualquer biografia, mas algumas passagens são um tanto divagantes e especulativas (meio que filosóficas ou psicanalíticas), difíceis de entender para uma mente mais objetiva. Graças a essa biografia descobri uma outra faceta do autor, como genial poeta, comparável em grandeza a um Goethe.

Ao comentar essa epifania com Alexei Bueno, ele observou: "O Victor Hugo era mais poeta do que qualquer coisa. Embora ele tenha sido imenso em todos os gêneros literários, além de um dos maiores desenhistas do século XIX, nele nada supera o poeta. Baudelaire sai dele, toda a poesia moderna, de certo modo, sai dele, até o surrealismo sai dele. E o homem não era menos fascinante do que o artista." 

DE AMOR E TREVAS, de AMÓS OZ (RESUMO e TRECHOS DO LIVRO)


Obra máxima da literatura israelense contemporânea em primorosa tradução para o português de Milton Lando. Livro de memórias que você lê como se fosse um romance, de tão agradável leitura. Abrange 1) a história das famílias materna e paterna do autor, oriundas do leste europeu, que felizmente conseguiram emigrar a tempo para a então Palestina britânica, escapando do terrível morticínio provocado pelos nazistas; 2) a história da vida e formação intelectual e artística do autor, alternando passagens trágicas, líricas e divertidas; e (3 - um aspecto interessantíssimo da obra) a história da formação do moderno estado judaico vista não por um historiador frio, mas pelas testemunhas dos acontecimentos. (Esta foi minha avaliação que deixei registrada na página do livro no site da Amazon.)

TRECHOS DO LIVRO:

Lá, no mundo, os muros estavam todos cobertos de frases hostis: “Judeu, vá para a Palestina”. Muito bem, viemos para a Palestina, e agora o mundo inteiro grita: “Judeu, saia da Palestina”.

A única coisa que tínhamos em abundância eram livros.

Quando eu tinha uns seis anos de idade, chegou o grande dia para mim: papai esvaziou um cantinho da uma de suas estantes e permitiu que eu transferisse meus livros para lá.

O cheiro da imensa biblioteca de meu tio me acompanhará vida afora: o odor empoeirado e sedutor dos sete saberes ocultos, o perfume de uma vida silenciosa e retirada, dedicada à erudição, a vida quieta de um ermitão, o silêncio espectral que se elevava das profundezas do conhecimento e da doutrina, os sussurros vindos dos lábios de sábios mortos, o murmúrio dos pensamentos secretos de escritores que já então habitavam o pó, o gélido afago de autoridade das gerações passadas. 

O amor é uma mistura estranha de uma coisa com o seu contrário, a mistura do egoísmo mais egoísta com a mais completa devoção. Paradoxo! 

As famílias judias sempre foram assim: acreditam que o estudo é a garantia do futuro, a única coisa que ninguém, nunca, vai poder tirar dos seus filhos, mesmo que sobrevenha, D’us não permita, outra guerra, outra revolução, outra emigração de país para país, mais leis discriminatórias — o diploma sempre se pode dobrar e esconder rápido nas costuras das roupas e fugir para onde for permitido aos judeus viverem.

O diploma — essa é a religião dos judeus. Nem riqueza, nem ouro.

Minha mãe tinha trinta e oito anos quando morreu. 

Durante grande parte da minha infância fui um menino solitário, sem irmão ou irmã e quase sem amigos. 

Escrever um romance, eu disse uma vez, é mais ou menos como montar toda a cordilheira dos montes Edom com pecinhas de Lego. Ou como construir uma Paris inteira, edifícios, praças, avenidas, torres, subúrbios, até o último banco de jardim, usando apenas palitos e meios palitos de fósforo colados. Para escrever um romance de oitenta mil palavras é preciso tomar no decurso do processo algo como um quarto de milhão de decisões.

Meu pai também não gostava de religião: os sacerdotes de todos os credos sempre lhe pareceram um tanto suspeitos, homens ignorantes que fomentavam antigos ódios, semeavam medo, difundiam falsas doutrinas, derramavam lágrimas de crocodilo, eram mercadores de objetos sagrados, de falsas relíquias e de todo tipo de crenças vãs e preconceitos.

Minha mãe me disse que embora os livros possam mudar ao longo dos anos, assim como as pessoas, a diferença está em que, enquanto as pessoas sempre nos abandonam quando percebem que não podem mais obter nenhuma vantagem, prazer, interesse ou pelo menos um bom momento de nós, um livro nunca vai nos abandonar

Os ingleses estavam a tal ponto furiosos conosco por causa das afrontas estúpidas dos nossos dirigentes sionistas fanáticos que Londres simplesmente tinha resolvido deixar que os árabes nos trucidassem de uma vez por todas.

Havia os que acreditavam que a consciência do mundo civilizado, ou a opinião pública progressista, ou a classe operária internacional, ou o amplamente difundido sentimento de culpa pelo terrível destino dos judeus na Europa, tudo isso junto neutralizaria o “Complô Anglo-Árabe para Nossa Extinção”.

Surpreendentemente, a União Soviética de Stalin se juntou aos Estados Unidos para apoiar a criação de um Estado judeu ao lado de um Estado árabe na Palestina. É possível que Stalin tivesse antevisto que a aprovação da partilha conduziria a um longo e sangrento conflito na região, e que na confusão ele teria como abrir uma brecha para os soviéticos numa área até então dominada pelos britânicos no Oriente Médio, próxima às jazidas petrolíferas e ao canal de Suez.

Não foi um grito de alegria, nem um pouco parecido com os urros dos estádios, nem com nenhuma manifestação de multidões arrebatadas de alegria, talvez como um berro de terror, de choque, um berro de assombro, de catástrofe, um grito de mover pedras, de congelar o sangue, como se todos os mortos e todos aqueles que ainda haveriam de morrer houvessem naquele mesmo instante juntado suas vozes ao rugido da multidão, que cessou de repente, e depois de mais um momento de assombro foi trocado por gritos de felicidade, e berros de Am Israel Hai, o Povo de Israel Vive [reação da população judaica ao ouvir pelo rádio que a ONU aprovara a partilha da Palestina entre árabes e judeus] 

Meu filho, veja isto, abra bem os olhos e observe muito bem tudo isto, porque esta noite, meu filho, você nunca vai esquecer, até seu último dia de vida, e sobre esta noite você ainda vai contar aos seus filhos, aos seus netos e bisnetos, ainda por muitos anos, depois que não estivermos mais neste mundo. 

Nunca em minha vida, nem antes daquela noite nem depois, nem mesmo quando minha mãe morreu, eu tinha visto meu pai chorar.

Os israelenses estavam extremamente orgulhosos por sua vitória, com a absoluta certeza de estar com a razão e tomados por sentimentos de supremacia moral. Naqueles tempos não havia quem se preocupasse com o destino de centenas de milhares de refugiados palestinos, dos quais muitos tinham fugido, e muitos outros simplesmente tinham sido expulsos das cidades e aldeias conquistadas pelo Exército de Israel. 

Do ponto de vista deles [dos palestinos], somos [os judeus] estrangeiros vindos de outro planeta, que aterrissaram e invadiram as suas terras. 

Muito jovem ainda, na aldeiazinha de Plonsk, na Polônia Oriental, Ben Gurion tinha já duas idéias básicas: que o povo judeu devia voltar a ter sua pátria em Eretz-Israel, e que ele era a pessoa indicada para liderar esse povo.

“Isto é, eu diria isso se acreditasse em presságios, e se acreditasse que o céu se interessa por nós. Mas o céu é indiferente. Com exceção do Homo sapiens, todo o universo é indiferente. E para falar a verdade, a maior parte das pessoas também é indiferente. Considero a indiferença a grande característica de todo o universo.” 

É verdade, todos os seres humanos nasceram iguais — esse é o fundamento da vida no kibutz, mas o campo do amor pertence às forças da natureza, e não à assembleia-geral. E o campo do amor, como se sabe, está destinado apenas aos mais altos cedros, e não aos tufos de capim. 

Noite após noite, nos reuníamos [no kibutz] para fazer juntos algo bem barulhento, quase selvagem, até a meia-noite. Até depois da meia-noite. Para a escuridão não se infiltrar nos quartos nem nos ossos e não apagar a alma. Precisávamos cantar, gritar e nos empanturrar de comida, discutir, brigar, fofocar, contar piadas, tudo para afastar a escuridão, o silêncio e os uivos dos chacais. Naqueles tempos não havia televisão, nem videocassete, nem estéreo, nem internet, nem jogos de computador. 

Aos quinze, dezesseis anos, eu admirava a alegria transbordante de Nili [que viria a se tornar esposa do autor] como quem admira a Lua cheia: distante, inatingível, mas emocionante e arrebatadora. 

DOMINGO CHUVOSO DE CARNAVAL, de AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO

TEXTO DE AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO DE 22 DE FEVEREIRO DE 1971, DO SEU QUARTO LIVRO DE MEMÓRIAS, ALTO-MAR MARALTO  (p. 1484 na edição da Topbooks). FOTO OBTIDA NO SITE VINA.




DOMINGO CHUVOSO DE CARNAVAL  O ruído da chuva me deprime. O ruço da serra apagou as montanhas, para além do vale e, agora, sobe pela mata e alcança o meu terraço. Revivo e reconheço a tristeza que me invadia em moço, naquelas tardes nevoentas de sanatório suíço. Naquele tempo o sanatório era uma espécie de navio, de onde eu podia desembarcar na vida. Agora...


De repente volta-me uma cena de Carnaval que jazia sepultada no esquecimento. Eu teria uns 6 ou 7 anos. Vinha com meu pai e minha mãe, a pé, pela rua da Bahia. Fazia escuro e aquele ponto alto da rua, próximo à praça da Liberdade, estava quase deserto, O Carnaval de Belo Horizonte ficava mais embaixo, no largo fronteiro ao Teatro Municipal. Eu andava na frente, com meu lança-perfume na mão. Na soleira da porta vi a menina sentada. Era moreninha, calada, muito triste. Ao passar, lancei-lhe o esguicho gelado. Ela não reagiu, continuou calada, sentadinha, os olhos tristes no chão. Voltei ao encontro de meus pais e, de novo, provoquei a menininha triste, que continuou indiferente. Com meu inútil lança-perfume, senti-me tão só como agora. Por que retorna, de repente, esta visão perdida? Que podem significar hoje, para mim, estes escombros desaparecidos? A rua é outra, diversa a cidade, mortos os pais há tantos anos, para sempre desaparecidos o menino e a menina, que num relâmpago cruzaram suas vidas. Só a tristeza e a indefinível sensação de abandono são as mesmas, finas e pungentes.

"ESCREVER É BRINCAR COM PALAVRAS COMO O DOMADOR BRINCA COM AS FERAS" (Gilberto Freyre)

 

Casa de Gilberto Freyre no Recife

É tão difícil escrever! Mais difícil que fazer um laço de gravata é fazer uma sentença. E para fazer um laço de gravata George Brumell, o “beau” Brumell, torturava-se horas a fio diante do espelho. […] Escrever bem não é garatujar uma folha de papel. Nós, os garatujadores, é que temos essa ideia. Daí ser a literatura o templo mais infestado de falsos profetas. Pessoas que diante de um piano não ousam tocar nem de leve na dentadura escancarada do instrumento, com medo de ofender o instinto melodioso do gato que ronrona sobre o sofá, garatujam uma folha de papel com a maior sem cerimônia deste mundo. E supõem que escrevem.

Deviam os escritores de verdade formar uma liga contra nós, garatujadores impertinentes, e destinada a criar mais respeito pelo escrever. A liga deveria mostrar que escrever é mais difícil que tocar piano. Escrever é brincar com palavras como o domador brinca com as feras. E as primeiras são tão difíceis de amansar como as últimas.


Gilberto Freyre

Texto do então jovem Gilberto Freyre, estudante das Columbia University nos EUA, para sua coluna “Da Outra América” de 15/8/1920, no jornal Diário de Pernambuco. Embora se considerasse um “garatujador”, com apenas 20 anos de idade Freyre já escrevia feito um mestre, como atestam as várias crônicas desta coluna, inéditas em livro, mas acessíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

ROMANCE DA PEDRA DO REINO E O PRÍNCIPE DO SANGUE DO VAI-E-VOLTA, de ARIANO SUASSUNA: MINHA IMPRESSÃO


O livro, que nas primeiras cem ou duzentas páginas empolga pela originalidade, genialidade, pela fusão de elementos eruditos, ibéricos, com a cultura popular nordestina, etc., pelos muitos causos narrados, acaba cansando o leitor devido à extensão desmedida, repetitividade, constante embate ideológico esquerda versus direita (neste quesito o romance é atual), um narrador delirante "monarquista de esquerda" que se julga o legítimo pretendente ao trono brasileiro, derramamento de sangue e violência excessivos (parece que o autor tem obsessão pela palavra "sangue", que figura mais de quatrocentas vezes na obra, conforme contagem do meu Kindle). 

O leitor que persiste na esperança de um final revelador se decepciona. A história é tão rocambolesca, com tantos personagens, que fica difícil montar uma boa síntese na cabeça (ou no papel). 

Esta foi a minha impressão, que registrei nas avaliações da página do livro na Amazon. Dei nota 3. A maioria dos leitores deu nota 5, resultando em uma média de 4,8. Esta minha impressão negativa em nada reduz a grande admiração que nutro pelo Ariano Suassuna e sua atuação em prol da cultura brasileira. E adoro seu Auto da Compadecida. Se você discorda de mim deixe seu comentário.

DOIS POEMAS INÉDITOS DE MACHADO DE ASSIS

 

Machado de Assis jovem

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21/6/1839–29/9/1908), filho de mãe branca, açoriana, e de pai “pardo forro” (portanto, longe de ser um “negro” como queria Harold Bloom), além de suas vertentes de romancista e contista mais conhecidas do público leitor atual, foi também tipógrafo e revisor (no início da precoce vida profissional), repórter político (fazendo a cobertura das sessões do Senado), poeta romântico (que, ao contrário dos colegas de estro, não morreu jovem de tuberculose), crítico teatral, censor de peças de teatro, teatrólogo (com peças “datadas”, que não são mais encenadas), funcionário público (no bom sentido, trabalhador, usou de seu poder no serviço público para proteger os escravos), tradutor (sua tradução de Os trabalhadores do mar de Victor Hugo é lida até hoje), colunista de jornal.

Em vida, publicou 29 livros: nove romances, quatro livros de poesias (AmericanasCrisálidas, Falenas e Poesias completas), cinco coletâneas de contos, seis livros de teatro, duas coletâneas de gêneros diversos (Páginas recolhidas e Relíquias de casa velha), uma tradução (Os trabalhadores do mar) e dois livros de caráter técnico (Higiene para uso dos mestre-escolas e Terras). Uma produção e tanto! Todavia, “grande parte da produção de Machado de Assis não foi, em vida do autor, reunida em livro, ficando dispersa em periódicos” (jornais e revistas), bem como “correspondências particulares, mensagens escritas em álbuns de autógrafos” etc. (Alex Sander Luiz Campos, conferência “Edições de Machado de Assis: Por Quê, Para Quê?) 

Assim, depois que o “bruxo do Cosme Velho” deixou este mundo, começou o afã por coligir e publicar seus textos ainda inéditos em livro, como mostra a seção “Publicações póstumas” do verbete “Obra de Machado de Assis” da Wikipédia em língua portuguesa para a qual o autor deste artigo deu sua contribuição. As primeiras publicações póstumas devem-se a Mário de Alencar, filho do grande romancista romântico, praticamente adotado por Machado, que organizou sua obra de teatro, crítica literária, crônicas da seção “A Semana” da Gazeta de Notícias, e obras de prosa e verso reunidas nas Outras relíquias. Em 1932, Fernando Nery publica a correspondência do grande escritor e um volume de Novas relíquias. Em 1944 a crítica literária Lúcia Miguel Pereira traz a lume a novela Casa Velha. Nos anos 1950 R. Magalhães Júnior organizou e publicou vários volumes de contos e crônicas do autor. Em 1965 o pesquisador francês Jean-Michel Massa reúne 150 textos variados nos Dispersos de Machado de Assis. (Estes são apenas alguns exemplos.) E o garimpo nunca parou, entrando século XXI adentro.

Um caso pitoresco que merece menção foi uma carta de Machado de Assis, datada de 22 de julho de 1890, contendo um soneto inédito por ocasião do aniversário de seu amigo e poeta Ernesto Cybrão, vendido em leilão em 5 de agosto de 2019 por Levy Leiloeiro. O colunista Lauro Jardim, de O Globo, em matéria intitulada “Soneto inédito de Machado de Assis é arrematado em leilão”, anunciou a venda nestes termos: “05/08/2019 • 16:01 Foi arrematado agora há pouco, num leilão no Rio de Janeiro, uma carta contendo um soneto inédito de Machado de Assis. A correspondência foi escrita para um velho amigo, o poeta português Ernesto Cybrão, que aniversariava naquele 22 de julho de 1890. E se inicia desta maneira: ‘Acabo de saber que, não sabendo/ Que havias de fazer, fizeste hoje anos;/ Mas tão calado, ó deuses soberanos/ Que eu, sem nada saber, ia morrendo’. A preciosidade foi leiloada por R$ 8,2 mil, apenas R$ 200 acima do lance inicial.”3

O leiloeiro assim descreveu o documento: “Manuscrito inédito de Machado de Assis (1839 - 1908) . Datado de 22 de Julho de 1890. Curiosamente traz 1 soneto inédito por ocasião do aniversário de seu amigo e poeta Ernesto Cybrão. Acompanha o manuscrito o envelope que foi endereçado ao poeta. O manuscrito traz belíssima ilustração de época na parte superior e assinatura de Machado de Assis no canto superior direito.”

O interessante é que, em 26/2/2021, o mesmo manuscrito foi novamente vendido em leilão, desta vez por Vera Nunes Leilões. Em e-mail enviado aos amigos em 23/7/2019, informou Alexei Bueno: “Um papeleiro encontrou no lixo, no Leblon, este lindo manuscrito do Machado, com um muito bom e espirituoso soneto para o aniversário do Ernesto Cybrão, um poeta português que era seu amigo e vizinho, já que morava na rua Cosme Velho 33, e o Machado, então com 51 anos, no 18. Já está num leilão, por oito mil reais. O que se descobre no lixo no Rio de Janeiro é impressionante, a espantosa ignorância deste povo contribuindo bastante com tal espécie de garimpo. E se não fosse o papeleiro, adeus soneto.” Eis o soneto:


Acabo de saber que, não sabendo
Que havias de fazer, fizeste hoje anos;
Mas tão calado, ó deuses soberanos,
Que eu, sem nada saber, ia morrendo.

Em tratado de idade, compreendo
Que antes cantá-la que sentir-lhe os danos;
Mas tu, mas tu, tu quoque, Cyprianus?
Tu, eterno rapaz? Acho estupendo.

Nem por isso te livras deste frio
Soneto feito de versinhos bambos,
Que dão, ao lê-los, tédio e calafrio.

São farrapos, concordo, são molambos...
Mas uma cousa nos reforça o brio:
“Ambos na flor da idade, árcades ambos.”


Soneto inédito de Machado de Assis. Fonte: Site de Levy Leiloeiro

“Iniciando a atividade literária pela poesia, Machado foi durante muito tempo considerado e louvado acima de tudo como poeta.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poeta”.) “Há diversas poesias de Machado, em geral obras de juventude, recitadas em festas e solenidades, noticiadas em jornais da época, que se encontram perdidas.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poesias perdidas”.) Uma destas poesias perdidas “recitadas em solenidades”, descoberta pelo pesquisador Felipe Rissato, saiu no Jornal da Noite lisboeta de 18-19 de dezembro de 1873 (pág. 3), em matéria sobre a despedida do ator português José Antonio do Vale no “teatro de D. Pedro” (Imperial Theatro de São Pedro de Alcântara, onde hoje se ergue o Teatro João Caetano, na atual Praça Tiradentes - Ver QUAL O TEATRO MAIS ANTIGO DO RIO DE JANEIRO?) antes de retornar a Lisboa, após bem-sucedida temporada no Rio de Janeiro. Informa a matéria (atualizada para a ortografia vigente):

Cumprimos hoje a promessa que fizemos, narrando as festas que se fizeram no benefício de despedida do ator Valle no teatro de D. Pedro, no Rio de Janeiro, que foram esplêndidas igualando as que o público daquela capital fez em honra da insigne [atriz italiana Adelaide] Ristori, e as mais pomposas de que ali há memória.

O teatro encheu-se completamente assistindo ao espetáculo a família imperial, o nosso embaixador e as pessoas mais distintas da corte.

Quando o simpático artista acabou de recitar a poesia de despedida [de Machado de Assis, como veremos adiante], correu-se o pano de fundo e avistou-se o navio que figurava no drama a Filha do Mar, todo embandeirado, grandes fogos cambiantes e chuvas de oiro.

Ao mesmo tempo, uma atriz de 7 anos desceu de um pedestal em que se lia a seguinte inscrição: Ao gênio dramático, e veio entregar ao seu colega uma coroa oferecida pelos carpinteiros do teatro e depois uma linda abotoadura da guarda roupa, uma coroa da orquestra, outra do cabeleireiro e muitos versos. A esta manifestação seguiu-se a dos artistas da companhia com uma fotografia em que se viam todos eles de casaca, formando um grupo, uma poesia de um artista brasileiro e duas de artistas portugueses.

As palavras e os bravos repetiam-se freneticamente, os versos caíam em nuvens dos camarotes. No camarim recebeu ainda muitas prendas de todos os artistas e de grande número de pessoas que admiram nele a par dos dotes do talento as qualidades pessoais.

Ao terminar o espetáculo o público invadiu o palco e foi abraçar o ator que agradecia enternecido e com as lágrimas nos olhos aquelas provas de afeto. A comoção dos que o apertavam nos braços não era menos espontânea.

O senhor Valle foi ao camarote imperial despedir-se de suas majestades que o acolheram benevolamente e na véspera da partida deu um banquete aos seus artistas e empregados e amigos mais íntimos. [...]

A poesia [cinco oitavas endeeassilábicas com rimas entre o primeiro e terceiro, e sexto e sétimo versos] que o ator Valle recitou na despedida é de um poeta conhecido nos dois hemisférios, o senhor Machado d’Assis [grifo nosso] cujas composições inspiradas são sempre bem recebidas. Ei-la:


Breve irei; pouco tarda que eu veja

Longe, longe sumir-se no espaço
Esta terra que eterna verdeja,
Esta terra de palmas e amor.
Volto ao seio da pátria um instante,
Doce mãe que a seus filhos adora.
Curta a ausência há de ser. Curta embora,
Parte d’alma aqui deixo em penhor.

Tantas flores viçosas me destes
Tanto afeto, tamanho e tão puro,
Tantas vezes a mão me estendestes;
Nesta estrada cruel de passar,
Que ora sinto morrer-me nos lábios
A palavra que vibra em meu peito;
Perdoai-me, que é justo o defeito:
Sei apenas sentir e lembrar.

Sei lembrar-me... se a mão do destino
Me trancasse o caminho das águas,
Se de novo este céu peregrino
Contemplar não pudesse uma vez,
Dentro d’alma com letras de fogo,
A memória gravada ficara
Deste povo que as artes ampara,
Justo, amável, sincero e cortês.

Inda assim vai comigo a lembrança...
Não; vai mais: é saudade que levo
É saudade que aviva a esperança
De tornar a gozar este amor.
Levo-a n’alma. No meio do Oceano,
No regaço da pátria querida,
Pintar-me-á estas noites de vida
Como aroma que lembra uma flor.

Há mais alta, mais fúlgida glória,
Viçam louros de eterna frescura,
Enchem folhas austeras da história
Muita fama bendita por Deus;
A mais doce das glórias, contudo,
É sentir-se de afetos coberto,
Ter nos peitos o prêmio mais certo,
E dizer numa lágrima: adeus!”

O GATINHO PRETO DE MACHADO DE ASSIS

TEXTO EXTRAÍDO DO LIVRO MACHADO DE ASSIS: UM ESCRITOR CARIOCA DE ANDRÉ LUIS MANSUR (PÁG. 76)


Para tentar diminuir a dor de Machado, a jovem Alba Ribeiro de Araújo, filha do casal Fanny e Armando Ribeiro de Araújo, vizinhos de Machado, lhe deu, em 1906, dois anos após a morte de Carolina, um pequeno gatinho preto. Depois que o animal começou a fazer parte de rotina da casa do escritor, Machado escreveu uma carta irreverente para a menina, como se fosse o gatinho que escrevesse, uma prova de que o novo hóspede da casa lhe deu momentos de alegria. "D. Alba. Só agora posso pegar da pena e escrever-lhe para agradecer o obséquio que me fez dando-me de presente ao velho amigo Machado. No primeiro dia não pude conhecer bem este cavalheiro; ele buscava-me com palavrinhas, doces e estalinhos, mas eu fugia-lhe, com medo, e metia-me pelos cantos ou embaixo dos aparadores. No segundo dia já me aproximava, mas ainda cauteloso. Agora corro para ele sem receio, trepo-lhe aos joelhos e às costas, ele coça-me, diz-me graças, e se não mia como eu é porque lhe custa..." (Machado de Assis - Vida e Obra -Volume 4 - Apogeu, de Raimundo Magalhães Júnior).

INVOCAR DEUS EM BIRKENAU, À SOMBRA DAS CHAMINÉS


Ateísmo está na moda. A religião está cheia de defeitos. Fanáticos disseminam o terror em nome de Deus/Alá. A história da religião é uma sucessão de atrocidades: Inquisição, caça às bruxas, queima de hereges, censura ao livre pensamento (Galileu, Giordano Bruno), guerras religiosas (Cruzadas, católicos versus protestantes), conversões forçadas dos povos pagãos. Sem falar nos escândalos sexuais no seio da religião católica. Mas o ateísmo não se saiu melhor, como mostram o período do Terror na Revolução Francesa e as ditaduras stalinista, maoísta e de Pol Pot nos regimes comunistas ateus.

O sobrevivente do Holocausto Elie Wiesel, em seu livro Sinais do Êxodo, faz uma observação interessante sobre a conduta dos judeus religiosos versus seculares nos campos de extermínio. Enquanto entre os seculares "amigos e irmãos dilaceravam-se entre si por uma colherada de sopa, um instante de prazo, um casaco mais grosso" e intelectuais liberais revelavam-se uns sádicos atuando como Kapos (colaboracionistas), entre os ortodoxos a conduta era impecável, conforme revela este texto extraído do livro:

Mas os homens de convicção religiosa, os sacerdotes resistentes, souberam se manter à altura: nenhum aceitou colaborar, a fim de salvar sua pele. E isto é igualmente, e ainda mais, verdadeiro para os rabinos: nenhum, repito, nenhum consentiu em aceitar o pouco de poder a ele oferecido para viver ou viver melhor, e por mais tempo  às custas de seus companheiros, de seus irmãos de infortúnio. Pelo contrário, deram provas de uma abnegação que deixou os assassinos perplexos e, num certo sentido, estupefatos. Quanto aos hassidim, ergueram-se mais alto do que os céus por seu espírito de fé e solidariedade: suas preces comuns nos dias de ano novo, sua decisão de celebrar com alegria a festa da Lei. E tudo isto teve lugar em locais onde, querendo desumanizar suas vítimas, o assassino conseguia desumanizar a si mesmo... Ainda hoje, minha razão vacila; ela não consegue alcançar o sentido oculto, a verdade brutal daquilo que vi: de um lado uma humanidade tão pura, do outro uma humanidade tão baixa, como era possível? Invocar Deus em Birkenau, à sombra das chaminés, como era possível? Como podíamos invocar Deus sobre as ruínas de Sua criação? vocês leram certo: com alegria.

FREDERICO GOMES: POETA GENIAL DO PESSIMISMO


 

Desde os tempos bíblicos, contrastam (na filosofia, na arte, na vida das pessoas) a visão de mundo otimista, "cor de rosa" (“O Senhor é o meu pastor, nada me faltará” - Salmos 23) versus a cosmovisão pessimista (“E proclamei mais felizes os mortos que já há tempos faleceram do que os vivos que ainda existem. E, mais felizes que ambos, aquele que ainda não nasceu, que ainda não experimentou a malvadez que se pratica sob o sol” - Eclesiastes 4), com uma série de gradações intermediárias entre os dois extremos. O poeta Frederico Gomes, com sua visão schopenhaueriana e obsessão pela morte, inscreve-se neste segundo time.

Quanto a esta obsessão, o meu pensamento pessoal é que, embora nosso aniquilamento pessoal nos assuste e repugne, no fundo, no fundo, nenhum ser humano em sã consciência desejaria viver mil, dois mil anos, sem perspectiva de interrupção do fluxo que nos prende a um corpo que a certa altura começa, como um carro velho, a dar defeito. Como tudo que é bom (doce de leite, por exemplo), a vida a certa altura cansa ou enjoa.

Frederico Gomes é um poeta de formas fixas, tradicionais (embora a métrica nem sempre seja cem por cento rigorosa); rimas originais, algumas inusitadas, preciosas, ou mesmo toantes (espécie de rima que poucos poetas dominam); e versos médios e longos, conquanto ocasionalmente pratique o verso curto, como em “Nereidas & Neuras” à pág. 30 de seu mais recente livro de que trato aqui. Em suas poesias, insere citações por vezes em outros idiomas (neste mezzo del cammin da tua vida, em alusão a Dante, pág. 58), citações eruditas às antiguidades greco-romanas tão distantes deste admirável mundo tecnológico novo, e em meio a uma linguagem poética elevada, sofisticada, mergulha por vezes no coloquial, no vulgar (“Todos te lambem o saco” - pág. 17; “vejam só que baita sacanagem” - pág. 42), no naturalismo (“Como os machos rastreiam fêmeas no cio, / perseguindo-as pelo cheiro o dia inteiro [...]” - pág. 156). E em meio ao pessimismo, às vezes Fred deixa aflorar um poema pleno de lirismo, como “Pinturas” (ver abaixo). Em suma, trata-se de um poeta de mil e um recursos.

Encontrei em seu último livro, Esse animal, o homem, uns poucos erros gramaticais, sintoma de que, nesta pressa pós-moderna, não se fazem mais revisões cuidadosas como outrora, por exemplo: “Tu, que me ” à pág. 93, “a morte lhes arrastou” (verbo transitivo direto) à pág. 110, “só se via as duas” (voz passiva sintética) à pág. 42, “Pois hei-nos” (em vez de “eis-nos”) à pág. 112, “que elas contém”, à pág. 172).

Mas não tenho dúvida de que Frederico Gomes se inscreve na “sociedade dos poetas vivos” geniais, junto com Alexei Bueno e Maria Thereza Noronha.


De seu Esse animal, o homem, publicado pela editora lusitana Rosmaninho (embora Fred seja um poeta brasileiro, nascido em Barra do Piraí e residente na “terceira” Tebas, a mineira – as outras são as cidades grega e egípcia antigas) selecionei, para compartilhar com você, estimado visitante deste blog, estes poemas:

Por quê? (pág. 17)
a Haroldo Viegas in memoriam

Por que passas na rua com tal soberba,
como se fosses o dono da vida?
E olha-nos, oh com tamanha certeza,
como se fôssemos meras formigas?
Sim, diz-me: Por quê? Por quê?
Iremos todos morrer.

Com tua testa larga, brilhante e calva,
crês possuir tal e único talento,
porém ganhar dinheiro já foi prova,
alguma vez, de “bom” discernimento?
Sim, diz-me: Por quê? Por quê?
Iremos todos morrer.

Esposa, filhos, amigos, as posses
– eis o farto reino a que te obrigas.
Todos te lambem o saco. E se morres,
da herança viverão como lombrigas.
Sim, diz-me: Por quê? Por quê?


Pinturas (pág. 42, poema lírico)
a Denise Albuquerque e Rosária Rent

Vi duas moças (Denise e Rosária)

conversando numa enorme sala.

Havia quadros de uma exposição
expostos nos painéis do salão.

Mas diante de Rosária e Denise
os quadros eram só um deslize

da beleza, pois só se via as duas
pra lá e pra cá entre pinturas cruas.

Bem no finzinho do vernissage
– vejam só que baita sacanagem –

as duas debandaram desta parte:
restando no salão nenhuma arte.

Taedium Vitae (pág. 59, que incluí em minha coletânea de poemas mórbidos neste mesmo blog)


E se nesta noite sem perspectiva
– lúgubre – Frederico se matasse?
Alguém o choraria, alguém que o amasse
maiusculamente como coisa viva?

Coisa viva que se abre para a morte
sem que ninguém, ninguém jamais o chore.
Frederico só espera que melhore
do outro lado da vida a ingrata sorte.


A poesia (metapoema, à pág. 152)

Dizem: a poesia não vale a pena.

Coisa vã. Pura inutilidade.
Ora, quem a lê? Uma dezena
entre os milhões da mega-cidade?

Nada respondo. Fico mudo.
(Que o meu silêncio diga tudo.)