ALGUNS POEMAS DE ALEXEI BUENO

 
Alexei Bueno e Nireu Cavalcanti em encontro de amigos no Angu do Gomes em 21/5/2022

Até 27 de junho de 2026
Alexei Bueno era o maior poeta vivo brasileiro, que, à semelhança de um Goethe ou Victor Hugo, dominava magistralmente variadas formas da produção poética, do soneto à poesia em prosa, do haicai à ode, da redondilha maior (“Esta roupa mal cortada / Curta aqui, ali comprida”) ao verso longo à Walt Whitman e, mais ainda, o poema longo como “A Decomposição de J. S. Bach” e “A Chave Quebrada”.

A partir dessa data, com seu desaparecimento do mundo dos vivos, ingressou no panteão dos grandes poetas mundiais de todos os tempos. Se em 35 anos de vida Mozart compôs uma obra mais vasta que a de Beethoven, que viveu muito mais anos, Alexei, em seus 63 anos, escreveu uma obra de uma vastidão e variedade digna de um escritor que tenha vivido cento e vinte anos! Em suma, Alexei Bueno, “a mais poderosa voz da poesia brasileira revelada nas últimas décadas” (Arnaldo Saraiva), gestou uma obra poética única no Brasil em envergadura e profundidade.

Vejamos alguns poemas de Alexei Bueno (com comentários meus):


► O nonsense comparece no poema de seis dísticos com versos de treze sílabas (uma métrica menos comum) “A Luta”:

Os relógios girando
A LUTA


Os antiquários mordendo coxas de baratas,
Os ladrões poltrões fugindo a tropeçar em latas,

Os restaurantes fumando pelas chaminés,
Os monstros do necrotério etiquetando pés,

As moscas pousando nas baixelas e nos sacos,
Os leões enjaulados comendo carne aos nacos,

As moças beijando, o avô mostrando ao neto os cardos,
Os relógios girando, os anões puxando fardos,

As portas rangendo, os vencedores triunfando,
Os loucos supondo, e os burros rindo, e as pombas voando.

Trabalha e transforma, corja tonta e encordoada,
Que eu cego nos postes não farei jamais nem nada.


 Em “Um Hábito”, a vida é comparada a uma roupa mal-ajambrada:

UM HÁBITO

Esta roupa mal cortada,
Curta aqui, ali comprida,
Aqui frouxa, ali apertada,
Esta roupa idiota é a vida.

Se a enlamearem, se a rasgarem,
Se furar muito depressa,
Que dirão os que a envergarem
Se foi ganha sem promessa?

Suja e incômoda a portamos,
Que se esgarce toda, que arda!
Vai ao lixo, e ao lixo vamos
Que ora é próximo, ora tarda.


 Como no poema “Mundo Interior” de Machado de Assis, Alexei gosta de jogar com opostos, e à enormidade do mundo cósmico contrapõe a pequenez de nossas vidinhas sobre a superfície terrestre, no poema “Quem sabe”:

QUEM SABE?

Quem sabe se lá em cima, entre as estrelas
Que explodem e se esfazem sem rumor,
Onde um mundo conhece o ocaso e o alvor,
E onde os sóis se consomem como velas,

Quem sabe se a esses astros que andam pelas
Longas rotas da noite sem fragor,
Todo esse cataclísmico estridor,
Essas fusões sem olhos para vê-las,

Não passam de um doméstico e decrépito
Tédio que não se altera, um morno estrépito,
Como a vida é entre nós, uma cozinha

Onde a tarde se apaga, o pó caído
Sobre um móvel na sombra adormecido,
Uma velha a chorar, curva e mesquinha?


 “Poesia” é um metapoema, um poema sobre a poesia:

POESIA

Essa se vai
Mas sempre volta,
Nunca nos trai,
Nunca nos solta.

Damos-lhe uns reles
Trapos com prantos
E ela faz deles
Místicos mantos.

Damos-lhe a lama
Da alma, e ela acende
Nisso uma chama
Que a noite entende.

Damos-lhe a finda
Vida, e ela a alça
A outra tão linda
Que a ida faz falsa.

Essa não mente,
Essa não passa,
Mira de frente
Glória ou desgraça.

E quando a Morte
Nos pisa, branda,
Essa diz forte:
Levanta-te e anda.


 Em “Na Praça”, poema de um pessimismo a toda prova, o palhaço é visto sob duas óticas antagônicas, a infantil e a adulta:

NA PRAÇA

O palhaço na praça encontra a criança.
Para ela, que indescritível ser...
Para nós, um histrião sem esperança
     Que vai morrer.

Por detrás dos apitos que ele vende
E das cores da roupa alucinada,
Ao nosso olhar, que há muito tudo entende,
     A dor e o nada.

Há uma bomba a falir sob a lapela,
A solidão por baixo da peruca,
A penúria e a doença na amarela
     Cara maluca.

Mas a criança na praça se extasia.
E o bufão, onde à noite dormirá?
O que é ele, e o que é tudo, em breve, um dia,
     Ele verá.


 O poema “A Perfeição” descreve uma tarde perfeita na vida, contrastando com o habitual pessimismo de Alexei:

O sol
A PERFEIÇÃO

Ficar sentado na calçada de um café
     Olhando as mulheres que passam
Na tarde fria, mas com sol. Isto, enfim, é
     A glória ideal que as horas traçam.


Se queres mais és insensato, ou quase louco.
     O fumo, a bebida, as beldades,
O sol, a brisa. Nunca digas: isso é pouco,
     É mais que muitas das verdades.


 Por vezes Alexei atinge uma originalidade temática difícil de encontrar em outros poetas, como em La Mort des Pauvres:

Paris

LA MORT DES PAUVRES


É muito ruim morrer tendo dinheiro,
Podendo, alegre, ir rápido a Paris.
Almoçar no Véfour, beber inteiro
Um lote de Bordeaux. Flanar, feliz,

Nos cais. Comprar um Dürer verdadeiro,
Uns bronzes do Ceilão, a flor-de-lis
De ouro real sobre um códice em carneiro,
Uns vasos gregos, e aí tomar pastis...

Bom é morrer falido, endividado,
Cortados gás e luz, o nome imundo
Na praça, todo crédito negado.

E, num nicho que alugue algum parente,
Mors omnia solvit, no mais vagabundo
Caixão, ser sepultado inadimplente.


 Poema sobre o trajeto da vida até desembocar no “beco” da morte:

TRAJETO

Quantas ruas, travessas, avenidas,
De início a abrir-se em leque à nossa frente?
Depois já são bem menos. Finalmente
Umas poucas. Então, de certa feita,
Resta uma só das tantas prometidas,
Um beco, uma viela, unicamente,
E como é estreita.


 Em “Ad Coevos” (“Aos Colegas”) Alexei professa a sua aversão ao mundo “concreto” e preferência pelo mundo onírico e secreto:

AD COEVOS

Vibrem outros com as formas mais concretas,
Com o palpável, o real, o aqui e o agora,
Seja lá o que for isso, com o de fora,
Que estou bem com as sonhadas e as secretas.

Estorçam-se a gozar nas rijas teses
Que começam e acabam nos sentidos.
Cruzo, e não só, os mares pressentidos --
De concreto me bastam minhas fezes.


 O poema “Reflexos” resume a marcha da vida, que no começo é cheia de expectativas (o possível) e no final, de recordações (o real), com o incognoscível à frente:

REFLEXOS

Chega um momento onde o que há à frente é estreito,
E o que há atrás é convidativo e largo.
Que o semblante se volva. É um outro jeito
     Também amargo.

Que olhe o que foi real, e julgue, então,
Se o real é um valor, se o é o possível.
Entre os espelhos há o que resta, um vão –
     O incognoscível.


 O poema “Comédia” evoca, em tom debochado (porque pessimismo sem humor se torna intragável), antigas crenças dualistas de que apenas o mundo espiritual teria sido criado pela divindade, enquanto o mundo material foi criado por um demiurgo ou demônio.

COMÉDIA

Um demônio, um demônio galhofeiro,
Criou num dia só o mundo inteiro.
Deus dormia – de Deus se espera o sono –
Deixando assim o Nada ao abandono.
No ensejo, o diabo infeccionou o Nada
Com a bactéria do Ser, que trapalhada!
O Inferno estava pronto, o Paraíso
Espera ainda o Dia do Juízo.
O Purgatório tosta almas sem conta,
Mas a fornada nunca fica pronta.
O Inferno apenas recebeu então
A sua primeira e última demão.
Eis-nos aqui. Bendito tudo seja!
Uivamos. Ri o diabo. Deus boceja.


 Um poema originalíssimo, sobre um inseto no balcão de um bar (qual outro poeta teve a imaginação de escrever sobre um tal tema?):

EPISÓDIO

Um muito pequeno inseto
Pousou no balcão do bar.
Informe, incolor, abjeto,
Um nada, uma nódoa a andar.

Com um copo sujo esmaguei-o.
Ao vê-lo imóvel, extinto,
Que estranha impressão me veio,
Que absurda dor, e ainda a sinto.

Mas vi que ele se mexia,
Nem sei qual parte. Elas, juntas,
Nada eram. No entanto eu via
Nelas a vida, ex-defuntas.

Com o mesmo copo animei-o –
Com a borda –, e ele se mexeu.
Depois andou, com receio,
E, súbito, ei-lo no céu.

O ponto morto voava,
E eu, outro átomo esquecido,
Via-o. E ele, do ar, me dava
Um nada, um tudo, um sentido.


 O curto poema decassilábico, de estrofe única, “Na Plateia”, de um pessimismo total e absoluto, culmina com uma constatação surpreendente:

NA PLATEΙΑ


Alguém assistiria à mesma peça
No mesmo teatro, imóvel, por cem anos?
As mesmas falas, marcações, enganos,
Num enredo que sempre recomeça?
Ardis iguais, os mesmos personagens,
E a trama que ninguém desenovela?
A mesma história, e os beijos, e as pilhagens,
Os mesmo alçapões, mesmas passagens.
Desde sempre uma claque assiste a ela.


 “Avante” é um poema original sobre algo que dificilmente inspiraria um poeta: as portas.

De quantas formas são as portas!
AVANTE


Mais de mil portas se fecharam
Às minhas costas, incontáveis.
Algumas régias, admiráveis,
Outras que os homens nem fitaram.

Umas da mais rara madeira,
Outras de pedra trabalhada.
Em vão. Cada uma foi fechada,
Cerrada para a vida inteira.

Algumas eram pobres, tortas,
Outras brilhavam como o dia,
Uma imponente, a outra sombria,
De quantas formas são as portas!

Trancas abaixo. Os gonzos mudos.
Nem uma aberta, e tantas eram.
Meus olhos retos perseveram.
Um par de lanças. Mil escudos.


 Em “Fruições Salvíficas” Alexei escreve sobre o lado bom, salvífico (=que salva) da vida:

FRUIÇÕES SALVÍFICAS

Todos os livros do mundo
(Alguns só afago e não leio),
E as estátuas, e outro veio –
Os quadros – que não tem fundo;

E os filmes, e os edifícios,
E a música inigualada,
Os antídotos do nada,
Os incruentos sacrifícios;

Tudo um acúmulo louco,
Tudo, o que importa está nisso,
Êxtase humano insubmisso...
E o tempo, eterno e tão pouco.


 Em “Astronomia” Alexei contrasta o universo natural (“desde os micróbios até as nebulosas”) com o mundo da criação humana (o Partenon, a Missa de Bach, um quadro de Rembrandt...):

Quadro de Rembrandt retratando seu filho, Tito, em traje monástico, no Rijksmuseum de Amsterdam
ASTRONOΜΙΑ


Grande universo, pródigo de formas,
Desde os micróbios até as nebulosas,
Todos escravos de umas tantas normas
     Indecorosas.

Constelações a arder... Por vós não troco
O Partenon, a Missa em Si Menor,
Nem um Rembrandt por um cometa louco
     A voar, sem cor.

Árvore cósmica, cheia de frutos...
Quanto a frutas, prefiro as de Cézanne,
Ou Schubert aos silêncios absolutos.
     Que o mais se dane.

Estrelas duplas, astros sem tamanho,
Sóis que arrefecem, globos em fusão!
Só é grande o homem neste circo estranho,
     Mas os que o são.

O POETA BAIANO CYRO DE MATTOS ESCREVE SOBRE A POETISA MINEIRA MARIA THEREZA NORONHA

POESIA COMO ÁGUA DE MINA

Cyro de Mattos



O contexto pode até ser de amores, desamores e amizade. Sem admitir a esperança na metáfora esporádica. Expresso por meio de cânticos, canções e cantigas, o tema com o efeito cinematográfico ou sob o clima do surrealismo. Faça-se com experimentos poéticos, nele habitem os gatos na hora do afeto e da saudade. Transpire com os motivos do cristianismo, a memória com as suas raízes africanas, traga versos na ideia transparente, tocante, surpreendentes e satíricos, convite para dois dedos de prosa em torno da filiação ao álcool, por exemplo.

Assim é que Maria Thereza Noronha apresenta-se em Face de Outono, um livro de poeta madura, com várias tonalidades no seu alto nível de criatividade poética, correspondendo sem esforço ao que a vida propõe em seus dilemas e limites. Proceda de zonas lusitanas, com a abordagem do tempo. na travessia da memória, no verso livre, moderno, tradicional em que entram primorosos sonetos. Ela é suave, amorosa, trágica e triste, seu olhar com a face de outono e sua música de alma sensitiva são tecidos com as formas do encanto e do enigma.

Como a brisa que afaga, opera a partir de pequenos e de grandes momentos, sem a grandiloquência dos heroísmos, sempre com a expressão límpida e o conteúdo cheio de sentimentos, que gravita numa estação entre o alto e o baixo astral, os ditos com delicadeza. Água de mina molhando o pensamento e a razão, revela a vida por dentro, por entre os seres e as coisas, anunciados onde haja amor com suas invenções e imagens nascidas da fonte pura, presentes ou passadas. Com toques sutis no fluxo de águas translúcidas, lembradas às vezes com as amargas, há reflexões para acender a esperança nas feridas cicatrizadas. Nessa poesia de precisão vocabular e jogos imagísticos, a candura e o ardor da beleza ressoam nas impressões retiradas de bodas com o coração e a razão, de elogio ao bom senso com a sua fluência pessoal própria.

        Variação de outros poetas em poucos momentos, sempre íntegra e pessoal em sua iluminada atividade criativa, essa poesia também é feita com a entonação puxada como suave canto de pássaro. E, ao mesmo tempo em que encanta, faz pensar na alma sensitiva que sai de seu ritmo cristalino, conduzindo sentimentos dentro dos seres e dos elementos, com os seres e os objetos dentro dela, numa conexão perfeita da palavra mítica bem empregada, os símbolos construídos exatamente com as chamadas da vida e da morte.

        Sempre há uma genuína intuição do que pretende dizer com riqueza de vozes, dotadas de significados agudos, na demonstração de que o eu lírico sabe refletir e bem quando o teor de sua literatura gravita com grandeza. Não é só ardor de sentimentos, impulsos românticos de achados felizes. Em meio ao desconsolo onde vivemos há também no seu entorno criativo o poder de inventar com o conceito, que ocorre na direção do ser-estar, justamente quando se tem em mente a sobrevivência do tempo humano e sua história feita com movimentos constantes, paradoxos e estranhamentos.

Como bem diz a poeta nos três últimos versos do soneto “Canção Redonda”, toca-se aqui uma lira em que se desprendem temas difíceis com os seus mistérios, que ensejam incertezas, da vida como dor, com as suas emboscadas, o seu beijo ferido em saudade, com uma linguagem aparentemente fácil mas nunca hermética, submissa a um código que só o autor entende. Pelo contrário, persiste na imagem singela formada às vezes com o gesto dos anjos, que a noite acende com as luzes da esperança e da ternura, da graça e do amor, por meio de palavras que consolam. .

No poema “Amargas”, em que fala “das palavras que gelam nas veias, pronunciando axiomas”, intolerantes semeiam “o pão que o diabo come”, e se indaga “quem cantará a palavra que consola e dulcifica sem mácula”, a resposta que teremos está nessas águas translúcidas singrando o que nela habita. E esse é o melhor alento que nos dá essa poesia que mata a sede com a água de mina, na corrente mansa salpica a sua face de outono, de cujo olhar emerge sentimentos do que mais possa sonhar, auscultar e dizer com sensibilidade o indizível. .

É verdade que muitas lembranças minguam, tantas que se enredam de “dor ou cor, ou flor, ou glamour, de saudade e amizade, brumas” , mas recorrente à sua crença, envolvente em seu abraço, essa alma de poeta, que é verdadeira, intensa, em Maria Thereza Noronha, nos diz que as espumas de sua poesia a todos enternecem. Porque afaga como o vento em carícia, diáfana transluz seus efeitos de alto astral em celebração da vida. Fica sempre a impressão de que seus versos nunca aborrecem. Clareiam a noite como as estrelas, perfumam com as flores diurnas, pois tudo que nela ressoa são de poemas dotados de uma clarividência que brilha ante o efêmero, riscados permanecem com as suas verdades no instante do eterno.

*Face de Outono, Maria Thereza Noronha, prefácio de Ivo Korytowski, contracapa de Alexei Bueno, Editora Sopa no Mel, São Paulo, 2026. A edição impressa do livro está esgotada, mas uma versão PDF gratuita pode ser obtida clicando aqui.

A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR: QUEM DESCOBRIU O AVIÃO, SANTOS DUMONT OU OS IRMÃOS WRIGHT?



Quando eu era jovenzinho, ficava frustrado por quase todas as modernidades (o gramofone, o para-raios, a lâmpada elétrica...) terem sido inventadas por estrangeiros, e me consolava o fato de ao menos o avião e o soro antiofídico terem sido criações de cérebros brasileiros. Mas ao crescer fiz a ingrata descoberta de que nem mesmo a façanha de Santos Dumont era reconhecida em todo o mundo, já que ele tinha um rival: os irmãos Wilbur e Orville Wright.

Segue um artigo do eminente astrônomo brasileiro, falecido em 2023, Nelson Travnik, retirado da coletânea Ver, ouvir e entender estrelas (foto acima) organizada pelo engenheiro mecânico e astrônomo amador (e meu amigo de adolescência) Ronaldo R. A. Câmara. Na orelha do livro, lemos: "A trajetória do astrônomo Nelson Travnik como pesquisador, divulgador incentivador da Astronomia não foi meteórica, mas sim duradoura como um astro brilhante, por quase setenta anos, Inclui um dedicado trabalho em quatro Observatórios, a participação assídua nos encontros astronômicos, a produção de aulas, cursos, o livro "Os Cometas", e centenas de artigos técnicos, enfocando os mais variados temas da Ciência e da Astronomia." 

Vamos ao artigo!


UMA POLÊMICA CENTENÁRIA

Nelson Travnik

Por mais que exista farta literatura, americanos refutam verdades históricas que evidenciam o pioneirismo de Santos-Dumont, e não aceitam o feito do grande brasileiro.


Antes de Santos-Dumont, os pilotos usavam planadores e máquinas semelhantes à asa delta. De início, Dumont conquistou títulos importantes na história aeronáutica, como em 19 de outubro de 1901, com o primeiro voo controlado em um dirigível, o que lhe valeu contornar a Torre Eiffel e conquistar o prêmio de 100.000 francos, instituído por Henri Deutsch. Contudo, a consagração final viria em 23 de outubro de 1906 no campo de Bagatelle, em Paris, com o histórico voo do 14-Bis. No dia 12 de novembro ele repetiu o voo. Tudo feito às claras, diante de uma multidão eufórica, fotógrafo, cinematógrafo, juízes idôneos, conforme as regras competitivas, método científico e experimentação. O fato foi divulgado na mídia europeia e americana. O voo foi o primeiro no mundo a se elevar do solo com um mais pesado que o ar. Presente uma comissão do Aero-Clube da França, que emitiu Ata assinada pelo presidente Ernst Archdeaco e pelo secretário da comissão mista, E. Surconf. O voo, portanto, com o endosso do Aero Clube da França, foi homologado nos registros da Federation. O 14-Bis era, pois, uma máquina voadora que levantou voo e aterrissou por seus próprios meios. E uma curiosidade: o primeiro avião a ser pilotado de pé!

UMA HISTÓRIA MAL CONTADA

Dois anos depois apareceram nos EUA os irmãos Wright com fotos e uma história que voaram em dezembro de 1903. Ora bolas, por que as fotos só foram divulgadas em 1908? Quem garantiu a autenticidade das fotos na época? Porque eles não mostraram os repórteres que presenciaram dois fiascos em 1904, uma vez que eles ainda estavam vivos e poderiam muito bem confirmar os feitos de 1903? Tudo indica que os mesmos saíram de mãos vazias e, segundo o próprio Orville Wright, “não passaram a acreditar neles”. Induziram a imprensa ao erro e esconderam detalhes para o povo americano. O fato é que os irmãos Wright não conseguiram levantar seu avião do chão, a não ser por uma catapulta, e na maioria das vezes a aterrissagem era um desastre. Com catapulta até um tijolo voa! É óbvio que estavam escondendo evidências. Ademais, se tivessem voado antes de 1906, não respeitaram as regras de clareza nas experiências, idoneidade das testemunhas e presença de um órgão oficial credenciado para homologação do voo. Tudo feito na base do: eu fiz e está feito! Outro detalhe importante é que, em 1904 eles, Orville e Wilbur Wright requeriam na Inglaterra patente para um planador (sem motor) de sua invenção. Fato estranho para quem alega ter voado com motor um ano antes! Há também o fato de que ofereceram uma demonstração ao governo americano, mas por um preço exorbitante (100 mil dólares), o que o presidente Theodore Roosevelt não concordou, caracterizando assim mercenarismo, ao contrário de Dumont que mais tarde, em 1910, ofereceu gratuitamente aos americanos todos os planos de construção do seu “Demoiselle”, o primeiro ultraleve do mundo, através da revista “Popular Mechanics”. Existe, pois, uma grande diferença entre os experimentos na França e o que os irmãos Wright faziam, e a história não deve conceder primazia a quem praticou artimanhas, safadeza e jogo desleal. No centenário do voo do 14-Bis, em 2006, celebrado em Paris, uma réplica do avião decolou, alçou voo e aterrissou esplendidamente! No centenário em 2003 do voo dos irmãos Wright, uma grande festividade em 17 de dezembro, com a presença do presidente G. W. Bush, viu-se uma réplica do avião ser catapultado, alçar voo, não se manter no ar, e depois aterrissar em um lamaçal, para frustração da multidão presente (30.000 pessoas). Terminando, fica nossa resposta ao maior feito espacial dos EUA: Neil Armstrong pisou na Lua em 1969 no dia 20 de julho, dia do aniversário de Santos-Dumont.

HOMENAGEM A ALEXEI BUENO (1963-2026)

 


             Fora de ti, poesia,
                        Nunca vali um nada.
                        Que a tua mão sagrada
                        Me acene mais um dia.
                        Alexei Bueno, "Ex voto" 
    
             Meus livros amados,
             Como trepadeiras
             Sobem apinhados,
             Paredes inteiras.
             Alexei Bueno"Ode amatória" 

      

Alexei Bueno no lançamento do livro de poesias Face de Outono de Maria Thereza Noronha no Lamas em outubro de 2025, cuja contracapa ele escreveu.

            Alexei Bueno (e Daniel Brilhante de Brito) foram as pessoas mais geniais que tive o privilégio de conhecer pessoalmente em minha jornada terrestre. Tão genial que, aos dezessete anos, idade em que os jovens de minha geração “paz e amor, bicho” fumavam maconha e sonhavam em viajar a Amsterdam, dedicou-se a uma tradução do complexo e difícil poema “The Raven”, de Edgar Allan Poe (que você pode ler clicando aqui), fiel na métrica e esquema rímico ao original inglês, superando assim traduções anteriores de vacas sagradas da literatura em português como Machado de Assis e Fernando Pessoa.


Numa meia-noite cava, quando, exausto, eu meditava

Nuns estranhos, velhos livros de doutrinas ancestrais

E já quase adormecia, percebi que alguém batia

Num soar que mal se ouvia, leve e lento, em meus portais.

Disse a mim: “É um visitante que ora bate em meus portais —

            É só isto, e nada mais”.


Até ontem Alexei era o maior poeta vivo brasileiro (agora vai para o panteão dos gigantes da poesia brasileira de todos os tempos)  que, à semelhança de um Goethe ou Victor Hugo, dominava magistralmente variadas formas da produção poética, do soneto à poesia em prosa, da redondilha maior (“Esta roupa mal cortada / Curta aqui, ali comprida”) ao verso longo à Walt Whitman e, mais ainda, o poema longo como “A Chave Quebrada”. Alexei seguia as convenções e tradições eruditas da grande poesia, não foi um poeta de apelo popular. Sua obra é vasta. A Poesia completa e reunida, de 2023, estende-se por 1053 páginas. E depois disso publicou mais quatro livros de poesia (veja sua obra completa na Wikipédia).

Alexei escreveu uma única peça de teatro sobre um episódio da história brasileira que já tinha sido abordado por Bernardo Guimarães em Histórias e tradições da província de Minas Gerais: o mistério do sumiço da cabeça de Tiradentes do poste onde estava exposta à execração pública. Chama-se O poste e num país que vive o eterno presente e esquece sua história, tenho minhas dúvidas de se será um dia encenada.

Se em 35 anos de vida Mozart compôs uma obra mais vasta que a de Beethoven, que viveu muito mais anos, Alexei, em seus 63 anos escreveu uma obra de uma vastidão e variedade digna de um escritor que tenha vivido cento e vinte anos!

Alexei foi uma dessas pessoas que se tivessem nascido na época renascentista teria alcançado uma cultura universal, abrangendo todos os domínios do conhecimento. Mas neste admirável mundo novo onde as descobertas se multiplicam, atualmente só à inteligência artificial é concedido este dom. Alexei não obstante era uma enciclopédia ambulante que você podia consultar sobre um sem-número de assuntos, e dominava profundamente áreas tão diversas como o cinema clássico soviético, o tango, o patrimônio histórico carioca, a poesia francesa do século XIX, a poesia de Camões, etc. etc. etc.

Digno de menção sua maneira de trajar. Alexei era incapaz de trajar um tênis ou uma camiseta. Sempre se apresentava, fosse para uma degustação de charutos, uma reunião festiva com amigos, um lançamento de livro, trajado como as pessoas se trajavam no tempo em que você tinha que usar passeio completo para entrar no Teatro Municipal: sapato de couro (tênis, nem pensar), calça social (a única concessão ao casual era uma eventual jeans), camisa social (nada de camiseta)... sempre impecavelmente vestido (até para visitar o Lazareto de São Cristóvão como na foto abaixo).

É isso que me vem à cabeça quando penso no amigo e intelectual que partiu para The undiscovere'd country, from whose bourn / No traveller returns (Hamlet), como já partiram tantos grandes amigos: Márcio Steinbruch, Helio Brasil... Encerro com esta frase do Joaquim Emídio em seu O MIRANTE: “A sua vasta cultura fazia dele uma figura ímpar na vida cultural brasileira embora vivesse muito à margem da elite literária do país.”


a
Visita ao Lazareto de São Cristóvão em 2009. Alexei Bueno foi diretor do INEPAC de 1999 a 2002 e conhecia profundamente o patrimônio cultural e arquitetônico carioca.

POST SCRIPTUM

No último dia 30 de maio, embarcando para Lisboa para dar uma palestra sobre Camões, Alexei escreveu a um amigo em comum: "Estou no Galeão, indo para a Lisboa, para a IX Reunião Internacional de Camonistas. Definitivamente, é a minha última viagem longa, estou de saco cheio das tecnologias deste mundo de merda em que nos despejaram. Não se vê a cara de ninguém, nem para olhar o passaporte! Só geringonças, onde as pessoas trabalharão?!"

   Tenho uma casa, comprei um túmulo,

   Felicidade, chegaste ao cúmulo.

   Aos nove lustros estou completo;
              Um teto é meu, o outro do esqueleto.
              Alexei Bueno, "Conquistas"

Seu velório e enterro foi no histórico Cemitério dos Ingleses, no túmulo da família onde repousam seu avô materno  General João Tarcísio Buenoherói condecorado da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial, na Itália, sobre quem Alexei escreveu um livro  e sua avó Anna Luiza de Mattos Bueno. Um amigo em comum escreveu-me: "Fizemos ontem no Cemitério dos Ingleses uma bela homenagem ao Alexei. Tinha mais de 100 pessoas. O Nireu [Cavalcanti] colocou um livro no caixão. Houve muitos discursos e leitura de poemas. Acredito que o Alexei gostaria da homenagem." Segue uma foto de uma visita ao túmulo em 2011, estando presente o próprio Alexei:

Sobre o Cemitério dos Ingleses (e outros cemitérios cariocas) veja a postagem HISTÓRIA DOS CEMITÉRIOS DO RIO DE JANEIRO neste blog
                                                    
                     Resta-me ser um fantasma,
                     Acolhe-me, pois, qual sombra,
                     Cidade que amo e me assombra,
                     Num tempo que o tempo plasma.
                     Alexei Bueno, "Apelo"

         Se eu plantar um loureiro no meu túmulo 
         Meus pósteros, por certo, arrancar-lhe-ão 
         As folhas para as porem no feijão.
         Para um vate, isto, irmãos, é mesmo o cúmulo!
        Alexei Bueno, "Um senão"

Os poemas ou trechos de poemas aqui citados são de As desaparições, um livro (nas palavras de Alexei) "sobra a morte, a cidade, sobre a decadência que a cerca e nos cerca, sobre o visível e o que não se vê, e sobre a visceral ânsia humana da eternidade". 

E finalmente recomendo a edição do poesia.net em homenagem ao querido Alexei.

MEU LIVRO FAVORITO: OS MISERÁVEIS, DE VICTOR HUGO



Todo mundo deve ter seu livro favorito, assim como tem seu filme favorito, sua cidade favorita. O interessante é que hoje, do alto de meus mais de setenta emocionantes anos, meu livro favorito continua sendo o mesmo do tempo em que tirei esta foto. Ou seja, décadas de leitura não modificaram meu livro favorito: Os Miseráveis, de Victor Hugo. Quem me induziu a ler o livro que se tornaria meu favorito foi meu pai.

O meu livro favorito deve ser o romance mais longo da literatura, ou pelo menos do século XIX. Li pela primeira vez quando tinha uns 16 ou 17 anos. Ainda não estava na faculdade. Como eu era filhinho de papai de Zona Sul carioca, com muito tempo ocioso, levava o livro para a praia e ficava horas devorando as páginas. 

O meu livro favorito é uma obra-prima do romantismo francês. Tão cinematográfico em sua ação e ambiência, embora quando escrito o cinema nem tinha sido inventado. Mas depois que inventaram, paradoxalmente, nenhuma versão cinematográfica ou em série de TV sequer chegou aos pés do livro. Em anos recentes virou um megamusical, que virou filme também, mas nada substitui sua leitura.

Reli meu livro favorito, em edição portuguesa de Portugal em vários volumes quando sofri uma doença dos pulmões em 1986 que contraí nos frios da Escócia. Passava a noite tossindo, tossindo, e lendo, lendo...

É uma dessas obras monumentais (como também é Great Expectations do Dickens ou Guerra e Paz do Tolstoi) que só a estética do romantismo europeu conseguiu produzir, com personagens maiores do que a vida, dramas de tragédia grega, amores impossíveis que acabam se realizando, tendo como pano de fundo acontecimentos históricos: a Batalha de Waterloo, as barricadas de Paris na Revolução de 1832. Desfilam pelos olhos da imaginação do leitor o ex-bandido convertido em paladino da virtude, que resgata uma criança vítima de abusos, mas é perseguido implacavelmente por um inspetor da polícia obcecado, levando-o a viver anos clandestinamente num convento e a uma fuga eletrizante pelos meandros dos esgotos de Paris.

Recentemente dei-me conta de que não conhecia quase nada da vida do autor de meu livro favorito, o que me levou a ler sua biografia de 1998 pelo historiador inglês, especializado em história e literatura francesa, Graham Robb. Com suas quase 700 páginas de texto (sem contar os apêndices, notas e bibliografia), trata-se de um fascinante e abrangente relato da vida e obra desse gigante da literatura e poesia francesa. O biógrafo narra detalhes que você não encontrará em qualquer biografia, mas algumas passagens são um tanto divagantes e especulativas (meio que filosóficas ou psicanalíticas), difíceis de entender para uma mente mais objetiva. Graças a essa biografia descobri uma outra faceta do autor, como genial poeta, comparável em grandeza a um Goethe.

Ao comentar essa epifania com Alexei Bueno, ele observou: "O Victor Hugo era mais poeta do que qualquer coisa. Embora ele tenha sido imenso em todos os gêneros literários, além de um dos maiores desenhistas do século XIX, nele nada supera o poeta. Baudelaire sai dele, toda a poesia moderna, de certo modo, sai dele, até o surrealismo sai dele. E o homem não era menos fascinante do que o artista." 

DE AMOR E TREVAS, de AMÓS OZ (RESUMO e TRECHOS DO LIVRO)


Obra máxima da literatura israelense contemporânea em primorosa tradução para o português de Milton Lando. Livro de memórias que você lê como se fosse um romance, de tão agradável leitura. Abrange 1) a história das famílias materna e paterna do autor, oriundas do leste europeu, que felizmente conseguiram emigrar a tempo para a então Palestina britânica, escapando do terrível morticínio provocado pelos nazistas; 2) a história da vida e formação intelectual e artística do autor, alternando passagens trágicas, líricas e divertidas; e (3 - um aspecto interessantíssimo da obra) a história da formação do moderno estado judaico vista não por um historiador frio, mas pelas testemunhas dos acontecimentos. (Esta foi minha avaliação que deixei registrada na página do livro no site da Amazon.)

TRECHOS DO LIVRO:

Lá, no mundo, os muros estavam todos cobertos de frases hostis: “Judeu, vá para a Palestina”. Muito bem, viemos para a Palestina, e agora o mundo inteiro grita: “Judeu, saia da Palestina”.

A única coisa que tínhamos em abundância eram livros.

Quando eu tinha uns seis anos de idade, chegou o grande dia para mim: papai esvaziou um cantinho da uma de suas estantes e permitiu que eu transferisse meus livros para lá.

O cheiro da imensa biblioteca de meu tio me acompanhará vida afora: o odor empoeirado e sedutor dos sete saberes ocultos, o perfume de uma vida silenciosa e retirada, dedicada à erudição, a vida quieta de um ermitão, o silêncio espectral que se elevava das profundezas do conhecimento e da doutrina, os sussurros vindos dos lábios de sábios mortos, o murmúrio dos pensamentos secretos de escritores que já então habitavam o pó, o gélido afago de autoridade das gerações passadas. 

O amor é uma mistura estranha de uma coisa com o seu contrário, a mistura do egoísmo mais egoísta com a mais completa devoção. Paradoxo! 

As famílias judias sempre foram assim: acreditam que o estudo é a garantia do futuro, a única coisa que ninguém, nunca, vai poder tirar dos seus filhos, mesmo que sobrevenha, D’us não permita, outra guerra, outra revolução, outra emigração de país para país, mais leis discriminatórias — o diploma sempre se pode dobrar e esconder rápido nas costuras das roupas e fugir para onde for permitido aos judeus viverem.

O diploma — essa é a religião dos judeus. Nem riqueza, nem ouro.

Minha mãe tinha trinta e oito anos quando morreu. 

Durante grande parte da minha infância fui um menino solitário, sem irmão ou irmã e quase sem amigos. 

Escrever um romance, eu disse uma vez, é mais ou menos como montar toda a cordilheira dos montes Edom com pecinhas de Lego. Ou como construir uma Paris inteira, edifícios, praças, avenidas, torres, subúrbios, até o último banco de jardim, usando apenas palitos e meios palitos de fósforo colados. Para escrever um romance de oitenta mil palavras é preciso tomar no decurso do processo algo como um quarto de milhão de decisões.

Meu pai também não gostava de religião: os sacerdotes de todos os credos sempre lhe pareceram um tanto suspeitos, homens ignorantes que fomentavam antigos ódios, semeavam medo, difundiam falsas doutrinas, derramavam lágrimas de crocodilo, eram mercadores de objetos sagrados, de falsas relíquias e de todo tipo de crenças vãs e preconceitos.

Minha mãe me disse que embora os livros possam mudar ao longo dos anos, assim como as pessoas, a diferença está em que, enquanto as pessoas sempre nos abandonam quando percebem que não podem mais obter nenhuma vantagem, prazer, interesse ou pelo menos um bom momento de nós, um livro nunca vai nos abandonar

Os ingleses estavam a tal ponto furiosos conosco por causa das afrontas estúpidas dos nossos dirigentes sionistas fanáticos que Londres simplesmente tinha resolvido deixar que os árabes nos trucidassem de uma vez por todas.

Havia os que acreditavam que a consciência do mundo civilizado, ou a opinião pública progressista, ou a classe operária internacional, ou o amplamente difundido sentimento de culpa pelo terrível destino dos judeus na Europa, tudo isso junto neutralizaria o “Complô Anglo-Árabe para Nossa Extinção”.

Surpreendentemente, a União Soviética de Stalin se juntou aos Estados Unidos para apoiar a criação de um Estado judeu ao lado de um Estado árabe na Palestina. É possível que Stalin tivesse antevisto que a aprovação da partilha conduziria a um longo e sangrento conflito na região, e que na confusão ele teria como abrir uma brecha para os soviéticos numa área até então dominada pelos britânicos no Oriente Médio, próxima às jazidas petrolíferas e ao canal de Suez.

Não foi um grito de alegria, nem um pouco parecido com os urros dos estádios, nem com nenhuma manifestação de multidões arrebatadas de alegria, talvez como um berro de terror, de choque, um berro de assombro, de catástrofe, um grito de mover pedras, de congelar o sangue, como se todos os mortos e todos aqueles que ainda haveriam de morrer houvessem naquele mesmo instante juntado suas vozes ao rugido da multidão, que cessou de repente, e depois de mais um momento de assombro foi trocado por gritos de felicidade, e berros de Am Israel Hai, o Povo de Israel Vive [reação da população judaica ao ouvir pelo rádio que a ONU aprovara a partilha da Palestina entre árabes e judeus] 

Meu filho, veja isto, abra bem os olhos e observe muito bem tudo isto, porque esta noite, meu filho, você nunca vai esquecer, até seu último dia de vida, e sobre esta noite você ainda vai contar aos seus filhos, aos seus netos e bisnetos, ainda por muitos anos, depois que não estivermos mais neste mundo. 

Nunca em minha vida, nem antes daquela noite nem depois, nem mesmo quando minha mãe morreu, eu tinha visto meu pai chorar.

Os israelenses estavam extremamente orgulhosos por sua vitória, com a absoluta certeza de estar com a razão e tomados por sentimentos de supremacia moral. Naqueles tempos não havia quem se preocupasse com o destino de centenas de milhares de refugiados palestinos, dos quais muitos tinham fugido, e muitos outros simplesmente tinham sido expulsos das cidades e aldeias conquistadas pelo Exército de Israel. 

Do ponto de vista deles [dos palestinos], somos [os judeus] estrangeiros vindos de outro planeta, que aterrissaram e invadiram as suas terras. 

Muito jovem ainda, na aldeiazinha de Plonsk, na Polônia Oriental, Ben Gurion tinha já duas idéias básicas: que o povo judeu devia voltar a ter sua pátria em Eretz-Israel, e que ele era a pessoa indicada para liderar esse povo.

“Isto é, eu diria isso se acreditasse em presságios, e se acreditasse que o céu se interessa por nós. Mas o céu é indiferente. Com exceção do Homo sapiens, todo o universo é indiferente. E para falar a verdade, a maior parte das pessoas também é indiferente. Considero a indiferença a grande característica de todo o universo.” 

É verdade, todos os seres humanos nasceram iguais — esse é o fundamento da vida no kibutz, mas o campo do amor pertence às forças da natureza, e não à assembleia-geral. E o campo do amor, como se sabe, está destinado apenas aos mais altos cedros, e não aos tufos de capim. 

Noite após noite, nos reuníamos [no kibutz] para fazer juntos algo bem barulhento, quase selvagem, até a meia-noite. Até depois da meia-noite. Para a escuridão não se infiltrar nos quartos nem nos ossos e não apagar a alma. Precisávamos cantar, gritar e nos empanturrar de comida, discutir, brigar, fofocar, contar piadas, tudo para afastar a escuridão, o silêncio e os uivos dos chacais. Naqueles tempos não havia televisão, nem videocassete, nem estéreo, nem internet, nem jogos de computador. 

Aos quinze, dezesseis anos, eu admirava a alegria transbordante de Nili [que viria a se tornar esposa do autor] como quem admira a Lua cheia: distante, inatingível, mas emocionante e arrebatadora. 

DOMINGO CHUVOSO DE CARNAVAL, de AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO

TEXTO DE AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO DE 22 DE FEVEREIRO DE 1971, DO SEU QUARTO LIVRO DE MEMÓRIAS, ALTO-MAR MARALTO  (p. 1484 na edição da Topbooks). FOTO OBTIDA NO SITE VINA.




DOMINGO CHUVOSO DE CARNAVAL  O ruído da chuva me deprime. O ruço da serra apagou as montanhas, para além do vale e, agora, sobe pela mata e alcança o meu terraço. Revivo e reconheço a tristeza que me invadia em moço, naquelas tardes nevoentas de sanatório suíço. Naquele tempo o sanatório era uma espécie de navio, de onde eu podia desembarcar na vida. Agora...


De repente volta-me uma cena de Carnaval que jazia sepultada no esquecimento. Eu teria uns 6 ou 7 anos. Vinha com meu pai e minha mãe, a pé, pela rua da Bahia. Fazia escuro e aquele ponto alto da rua, próximo à praça da Liberdade, estava quase deserto, O Carnaval de Belo Horizonte ficava mais embaixo, no largo fronteiro ao Teatro Municipal. Eu andava na frente, com meu lança-perfume na mão. Na soleira da porta vi a menina sentada. Era moreninha, calada, muito triste. Ao passar, lancei-lhe o esguicho gelado. Ela não reagiu, continuou calada, sentadinha, os olhos tristes no chão. Voltei ao encontro de meus pais e, de novo, provoquei a menininha triste, que continuou indiferente. Com meu inútil lança-perfume, senti-me tão só como agora. Por que retorna, de repente, esta visão perdida? Que podem significar hoje, para mim, estes escombros desaparecidos? A rua é outra, diversa a cidade, mortos os pais há tantos anos, para sempre desaparecidos o menino e a menina, que num relâmpago cruzaram suas vidas. Só a tristeza e a indefinível sensação de abandono são as mesmas, finas e pungentes.

"ESCREVER É BRINCAR COM PALAVRAS COMO O DOMADOR BRINCA COM AS FERAS" (Gilberto Freyre)

 

Casa de Gilberto Freyre no Recife

É tão difícil escrever! Mais difícil que fazer um laço de gravata é fazer uma sentença. E para fazer um laço de gravata George Brumell, o “beau” Brumell, torturava-se horas a fio diante do espelho. […] Escrever bem não é garatujar uma folha de papel. Nós, os garatujadores, é que temos essa ideia. Daí ser a literatura o templo mais infestado de falsos profetas. Pessoas que diante de um piano não ousam tocar nem de leve na dentadura escancarada do instrumento, com medo de ofender o instinto melodioso do gato que ronrona sobre o sofá, garatujam uma folha de papel com a maior sem cerimônia deste mundo. E supõem que escrevem.

Deviam os escritores de verdade formar uma liga contra nós, garatujadores impertinentes, e destinada a criar mais respeito pelo escrever. A liga deveria mostrar que escrever é mais difícil que tocar piano. Escrever é brincar com palavras como o domador brinca com as feras. E as primeiras são tão difíceis de amansar como as últimas.


Gilberto Freyre

Texto do então jovem Gilberto Freyre, estudante das Columbia University nos EUA, para sua coluna “Da Outra América” de 15/8/1920, no jornal Diário de Pernambuco. Embora se considerasse um “garatujador”, com apenas 20 anos de idade Freyre já escrevia feito um mestre, como atestam as várias crônicas desta coluna, inéditas em livro, mas acessíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.