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| Alexei Bueno e Nireu Cavalcanti em encontro de amigos no Angu do Gomes em 21/5/2022 |
Até 27 de junho de 2026 Alexei Bueno era o maior poeta vivo brasileiro, que, à semelhança de um Goethe ou Victor Hugo, dominava magistralmente variadas formas da produção poética, do soneto à poesia em prosa, do haicai à ode, da redondilha maior (“Esta roupa mal cortada / Curta aqui, ali comprida”) ao verso longo à Walt Whitman e, mais ainda, o poema longo como “A Decomposição de J. S. Bach” e “A Chave Quebrada”.
Os antiquários mordendo coxas de baratas,
Os ladrões poltrões fugindo a tropeçar em latas,
Os restaurantes fumando pelas chaminés,
Os monstros do necrotério etiquetando pés,
As moscas pousando nas baixelas e nos sacos,
Os leões enjaulados comendo carne aos nacos,
As moças beijando, o avô mostrando ao neto os cardos,
Os relógios girando, os anões puxando fardos,
As portas rangendo, os vencedores triunfando,
Os loucos supondo, e os burros rindo, e as pombas voando.
Trabalha e transforma, corja tonta e encordoada,
Que eu cego nos postes não farei jamais nem nada.
UM HÁBITO
Esta roupa mal cortada,
Curta aqui, ali comprida,
Aqui frouxa, ali apertada,
Esta roupa idiota é a vida.
Se a enlamearem, se a rasgarem,
Se furar muito depressa,
Que dirão os que a envergarem
Se foi ganha sem promessa?
Suja e incômoda a portamos,
Que se esgarce toda, que arda!
Vai ao lixo, e ao lixo vamos
Que ora é próximo, ora tarda.
QUEM SABE?
Quem sabe se lá em cima, entre as estrelas
Que explodem e se esfazem sem rumor,
Onde um mundo conhece o ocaso e o alvor,
E onde os sóis se consomem como velas,
Quem sabe se a esses astros que andam pelas
Longas rotas da noite sem fragor,
Todo esse cataclísmico estridor,
Essas fusões sem olhos para vê-las,
Não passam de um doméstico e decrépito
Tédio que não se altera, um morno estrépito,
Como a vida é entre nós, uma cozinha
Onde a tarde se apaga, o pó caído
Sobre um móvel na sombra adormecido,
Uma velha a chorar, curva e mesquinha?
POESIA
Essa se vai
Mas sempre volta,
Nunca nos trai,
Nunca nos solta.
Damos-lhe uns reles
Trapos com prantos
E ela faz deles
Místicos mantos.
Damos-lhe a lama
Da alma, e ela acende
Nisso uma chama
Que a noite entende.
Damos-lhe a finda
Vida, e ela a alça
A outra tão linda
Que a ida faz falsa.
Essa não mente,
Essa não passa,
Mira de frente
Glória ou desgraça.
E quando a Morte
Nos pisa, branda,
Essa diz forte:
Levanta-te e anda.
NA PRAÇA
O palhaço na praça encontra a criança.
Para ela, que indescritível ser...
Para nós, um histrião sem esperança
Que vai morrer.
Por detrás dos apitos que ele vende
E das cores da roupa alucinada,
Ao nosso olhar, que há muito tudo entende,
A dor e o nada.
Há uma bomba a falir sob a lapela,
A solidão por baixo da peruca,
A penúria e a doença na amarela
Cara maluca.
Mas a criança na praça se extasia.
E o bufão, onde à noite dormirá?
O que é ele, e o que é tudo, em breve, um dia,
Ele verá.
Ficar sentado na calçada de um café
Olhando as mulheres que passam
Na tarde fria, mas com sol. Isto, enfim, é
A glória ideal que as horas traçam.
Se queres mais és insensato, ou quase louco.
O fumo, a bebida, as beldades,
O sol, a brisa. Nunca digas: isso é pouco,
É mais que muitas das verdades.
| Paris |
LA MORT DES PAUVRES
É muito ruim morrer tendo dinheiro,
Podendo, alegre, ir rápido a Paris.
Almoçar no Véfour, beber inteiro
Um lote de Bordeaux. Flanar, feliz,
Nos cais. Comprar um Dürer verdadeiro,
Uns bronzes do Ceilão, a flor-de-lis
De ouro real sobre um códice em carneiro,
Uns vasos gregos, e aí tomar pastis...
Bom é morrer falido, endividado,
Cortados gás e luz, o nome imundo
Na praça, todo crédito negado.
E, num nicho que alugue algum parente,
Mors omnia solvit, no mais vagabundo
Caixão, ser sepultado inadimplente.
TRAJETO
Quantas ruas, travessas, avenidas,
De início a abrir-se em leque à nossa frente?
Depois já são bem menos. Finalmente
Umas poucas. Então, de certa feita,
Resta uma só das tantas prometidas,
Um beco, uma viela, unicamente,
E como é estreita.
AD COEVOS
Vibrem outros com as formas mais concretas,
Com o palpável, o real, o aqui e o agora,
Seja lá o que for isso, com o de fora,
Que estou bem com as sonhadas e as secretas.
Estorçam-se a gozar nas rijas teses
Que começam e acabam nos sentidos.
Cruzo, e não só, os mares pressentidos --
De concreto me bastam minhas fezes.
REFLEXOS
Chega um momento onde o que há à frente é estreito,
E o que há atrás é convidativo e largo.
Que o semblante se volva. É um outro jeito
Também amargo.
Que olhe o que foi real, e julgue, então,
Se o real é um valor, se o é o possível.
Entre os espelhos há o que resta, um vão –
O incognoscível.
COMÉDIA
Um demônio, um demônio galhofeiro,
Criou num dia só o mundo inteiro.
Deus dormia – de Deus se espera o sono –
Deixando assim o Nada ao abandono.
No ensejo, o diabo infeccionou o Nada
Com a bactéria do Ser, que trapalhada!
O Inferno estava pronto, o Paraíso
Espera ainda o Dia do Juízo.
O Purgatório tosta almas sem conta,
Mas a fornada nunca fica pronta.
O Inferno apenas recebeu então
A sua primeira e última demão.
Eis-nos aqui. Bendito tudo seja!
Uivamos. Ri o diabo. Deus boceja.
EPISÓDIO
Um muito pequeno inseto
Pousou no balcão do bar.
Informe, incolor, abjeto,
Um nada, uma nódoa a andar.
Com um copo sujo esmaguei-o.
Ao vê-lo imóvel, extinto,
Que estranha impressão me veio,
Que absurda dor, e ainda a sinto.
Mas vi que ele se mexia,
Nem sei qual parte. Elas, juntas,
Nada eram. No entanto eu via
Nelas a vida, ex-defuntas.
Com o mesmo copo animei-o –
Com a borda –, e ele se mexeu.
Depois andou, com receio,
E, súbito, ei-lo no céu.
O ponto morto voava,
E eu, outro átomo esquecido,
Via-o. E ele, do ar, me dava
Um nada, um tudo, um sentido.
NA PLATEΙΑ
Alguém assistiria à mesma peça
No mesmo teatro, imóvel, por cem anos?
As mesmas falas, marcações, enganos,
Num enredo que sempre recomeça?
Ardis iguais, os mesmos personagens,
E a trama que ninguém desenovela?
A mesma história, e os beijos, e as pilhagens,
Os mesmo alçapões, mesmas passagens.
Desde sempre uma claque assiste a ela.
| De quantas formas são as portas! |
Mais de mil portas se fecharam
Às minhas costas, incontáveis.
Algumas régias, admiráveis,
Outras que os homens nem fitaram.
Umas da mais rara madeira,
Outras de pedra trabalhada.
Em vão. Cada uma foi fechada,
Cerrada para a vida inteira.
Algumas eram pobres, tortas,
Outras brilhavam como o dia,
Uma imponente, a outra sombria,
De quantas formas são as portas!
Trancas abaixo. Os gonzos mudos.
Nem uma aberta, e tantas eram.
Meus olhos retos perseveram.
Um par de lanças. Mil escudos.
FRUIÇÕES SALVÍFICAS
Todos os livros do mundo
(Alguns só afago e não leio),
E as estátuas, e outro veio –
Os quadros – que não tem fundo;
E os filmes, e os edifícios,
E a música inigualada,
Os antídotos do nada,
Os incruentos sacrifícios;
Tudo um acúmulo louco,
Tudo, o que importa está nisso,
Êxtase humano insubmisso...
E o tempo, eterno e tão pouco.
| Quadro de Rembrandt retratando seu filho, Tito, em traje monástico, no Rijksmuseum de Amsterdam |
Grande universo, pródigo de formas,
Desde os micróbios até as nebulosas,
Todos escravos de umas tantas normas
Indecorosas.
Constelações a arder... Por vós não troco
O Partenon, a Missa em Si Menor,
Nem um Rembrandt por um cometa louco
A voar, sem cor.
Árvore cósmica, cheia de frutos...
Quanto a frutas, prefiro as de Cézanne,
Ou Schubert aos silêncios absolutos.
Que o mais se dane.
Estrelas duplas, astros sem tamanho,
Sóis que arrefecem, globos em fusão!
Só é grande o homem neste circo estranho,
Mas os que o são.











