GALILEU, UMA VIDA, de JAMES RESTON, Jr

EM 1995 A EDITORA JOSÉ OLYMPIO ENCOMENDOU-ME UMA RESENHA DO ENTÃO RECÉM-LANÇADO GALILEO, A LIFE, DO ESCRITOR JAMES RESTON, JR. E, COM BASE NO MEU PARECER, DECIDIU PUBLICAR O LIVRO E ENCOMENDOU-ME A TRADUÇÃO. A BIOGRAFIA GANHOU MATÉRIA DE PÁGINA INTEIRA DE CELINA CÔRTES, QUE ME ENTREVISTOU PELO TELEFONE, INTITULADA “GALILEU / NOVA BIOGRAFIA DO GÊNIO DERRUBA MITOS COMO O DA IGREJA OBSCURANTISTA”, NO CADERNO B DO JORNAL DO BRASIL. EIS A RESENHA:


No preludio, o autor menciona sua visita à NASA, em dezembro de 1992, preocupada na época com os problemas em torno da mais ambiciosa missão interplanetária da era dos ônibus espaciais: a viagem da nave Galileu em direção a Júpiter e suas luas. Como Galileu, o homem, a máquina Galileu estava incapacitada. Vítima, na era moderna, da maldição de Galileu. A outra importante missão espacial da NASA, o telescópio espacial Hubble, o equivalente moderno ao primeiro telescópio de Galileu, sofria de catarata ótica. A exemplo do velho Galileu em seus derradeiros dias! 

No Posfacio (Apology), o autor narra a entrevista, em abril de 1993, com o cardeal Poupard, que presidiu a comissão, nomeada pelo papa João Paulo II, para reconsiderar o caso Galileu (a qual admitiu que os teólogos que atacaram Galileu erraram ao considerar literalmente as Escrituras no que tange à descrição do mundo físico). Comenta o autor: Escutar o cardeal Poupard era concluir que a Igreja não experimentara nenhuma angústia na reconsideração de Galileu. O conflito entre ciência e fé era um mito, disse desdenhoso. Sem titubear ou perceber sua contradição, repetiu novamente a versão padrão da Igreja sobre Galileu que eu ouvira com frequência nos três anos de redação deste livro: Galileu fora condenado porque insistira em tratar a teoria copernicana como verdadeira, e não como hipótese, sem poder prová la. Essa posição desviava a atenção de um fato simples: A teoria copernicana era verdadeira e a Igreja usara métodos extremados e rigorosos para esmagar essa verdade e proteger sua falsidade. Ao final da entrevista, indaga maldosamente: Quem será o próximo? Giordano Bruno? Poupard sorri indulgentemente. Cita John Huss, Joana D'Arc. Vitimas da intolerância religiosa. 

James Reston, Jr. realiza um trabalho de jornalismo investigador e compõe uma biografia vibrante, num estilo que vem conquistando o leitor atual e que está bem representado no Brasil por Ruy Castro, José Castello, Fernando Morais. Nos agradecimentos, o autor se refere à curiosidade dos italianos sobre um escritor norte-americano que ousou estudar a vida de um italiano de tamanha estatura, embora reconheçam que Galileu pertence ao mundo. E se um italiano ousasse escrever a biografia de George Washington? costumavam pilheriar. Foram três anos de pesquisa: Florença, Roma, Vaticano, Pisa, Pádua, Veneza. O cenário onde se desenrolou a vida de Galileu, cujas pegadas Reston resolveu seguir.

Reston não é um autor acadêmico, que escreve um livro de vulgarização cientifica exclusivamente para os apreciadores da Filosofia da Ciência (se bem que estes também gostarão do livro). O titulo é claro: Galileu, uma vida. Reston é romancista e teatrólogo, o que confere a esta biografia uma qualidade toda especial. O leitor imaginativo (ou o cinéfilo leitor) chega a se sentir na sala de cinema, tamanha a vivacidade com que o autor expõe seu tema. No fundo, todo autor norte-americano tem em mira uma possivel adaptação cinematográfica. Bom para a literatura, bom para a sétima arte. 
 
Reston é um autor dotado de grandes recursos, capaz de descrever minuciosamente a igreja florentina de Santa Maria Novella; de descrever vivazmente o ambiente familiar de Galileu; dotado de incrível poder de síntese, como ao se referir à invenção, pelo ainda estudante de medicina Galileu, de um pêndulo para a medição do pulso; capaz de descrever com um colorido incrivel experiências científicas sobre as quais, até então, só lemos frios relatos, a exemplo das bolas de diferentes pesos e tamanhos jogadas do alto da torre de Pisa (Emergindo expansivamente no topo, entre as pilastras e precárias arcadas abertas, ele representou para sua multidão. Ele foi aclamado clamorosamente. Estranhas vaias despontaram entre as aclamações, pois a maioria da turba sem dúvida esperava testemunhar um fiasco. Havia algo na torre que parecia atrair os excêntricos e os exibicionistas. Quem era aquele jovem gênio, aquele radical, para desafiar não apenas as autoridades no campo, mas o próprio Aristóteles?); capaz de descrever como ninguém as terríveis consequências do choque entre ciência e fé (Ciência e a fé se chocaram e, em seu terrível conflito, as duas foram separadas, tomando direções divergentes e perdendo seu terreno comum. Em sua insistência na vitória total da teologia, a Igreja católica ficou até hoje estigmatizada como anticientífica e obscurantista. Ela continua lutando para superar a maldição de 1616. E a ciência, temendo o espiritual, se tornou cada vez mais árida e sem coração, a ponto de mesmo as mais fantásticas descobertas no firmamento atual terem perdido o poder de tocar a alma e o espírito dos mortais); de comover o leitor ao descrever o processo kafkiano a que é submetido um Galileu idoso e doente. 

O Galileu que emerge não é o Galileu brechtiano, o herói super-humano na luta contra as forças do mal. O painel traçado por Reston apresenta nuanças, entretons. Galileu, um cérebro privilegiado, é o homem do mundo, bem-sucedido, regiamente remunerado, matemático da corte do grão-duque de Toscana, que enriqueceu graças a suas invenções práticas, com aplicações militares. A Igreja da época contava com seus reacionários, seus Gustavos Corções (que usavam, é claro, métodos bem mais violentos), mas eram contrabalançados por prelados esclarecidos, intelectuais, cientistas, amigos de Galileu. Pertencer à Igreja, na época, era como trabalhar em uma estatal no Brasil do regime militar: um emprego seguro. Nem todo funcionário público é um patife. O grande suspense do livro de Reston: como um cientista bem-relacionado como Galileu, com duas filhas (ilegitimas) como monjas a serviço da Igreja, em cuja homenagem o futuro papa Urbano VIII compusera uma ode, que publicava suas obras em italiano com o imprimatur da Igreja... como, inopinadamente, se envolveu em um processo infamante que envenenou sua velhice? A condenação de Galileu foi, muito mais, resultado de uma conjunção de circunstâncias do que a consequência previsível de uma política obscurantista. Um jesuíta com quem Galileu tivera uma velha rixa consegue convencer o supersticioso e paranoico pontífice de que o ridículo personagem Simplicio dos Discursos sobre as Duas Novas Ciências não passava de uma caricatura de Sua Santidade. Como pano de fundo, a Guerra dos Trinta Anos e a Peste Bubônica; eis o cenário ideal para uma tragédia. O que seria o periodo de consagração do maior gênio italiano da época se transforma em uma página negra da história, comparável à condenação de Sócrates ou à Paixão de Cristo. A lição: toda e qualquer censura à criação artística ou intelectual é condenável. A que extremos chegam os fundamentalistas de qualquer vertente (cristãos, muçulmanos, marxistas...) quando ditam as regras do jogo!

O PEQUENO PRÍNCIPE, de SAINT-EXUPÉRY: UM CONTO FILOSÓFICO?

ARTIGO DE IVO KORYTOWSKI PUBLICADO NO JORNAL O TREM ITABIRANO DE MAIO DE 2022 SOB O TÍTULO "Com vocês, o livro das... De quem quiser boa leitura". Para acessar uma versão PDF do jornal, clique aqui.


Vou falar de um livro que já foi chamado depreciativamente de “o livro das misses”, que é O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince em francês) de Antoine de Saint-Exupéry. Por que o livro das misses? Porque, nos velhos tempos em que concursos de beleza tinham a visibilidade que tem hoje, digamos, um julgamento no STF, várias das chamadas “misses”, aquelas moças bonitas que participavam daqueles concursos, citavam a obra como seu livro favorito.

Se bem que o livro contraste o universo ingênuo da criança com o mundo às vezes exageradamente sério dos adultos – e foi gestado numa época negra, em que essa “seriedade” causou grande destruição, a Segunda Guerra Mundial –, não foi escrito especificamente para o público infanto-juvenil (como foi, digamos, Reinações de Narizinho), embora seja lido com prazer por esse público. É mais do que isto. É uma literatura alegórica, simbólica, de sátira aos costumes, um tipo de literatura com longa tradição.

Antigamente não se podia sair criticando os reis, as classes dirigentes, a igreja, sob risco de ser queimado vivo ou encarcerado. A crítica social tinha de ser feita de modo sutil, velado, através da alegoria e da sátira. É o caso das Viagens de Gulliver, que podem ser lidas como uma aventura fantástica, mas que no fundo são uma sátira social com profunda carga crítica.

A gente pode fazer várias leituras de O Pequeno Príncipe. Primeiro, vejo este livro como uma crítica à limitação, ao espírito tacanho da maioria dos seres humanos. Vivemos num universo inconcebivelmente grande, complexo, cheio de possibilidades e, no entanto, ficamos (não digo todo mundo, mas a maioria) presos em nossos mundinhos cotidianos, como se vivêssemos nos pequenos planetas (ou asteroides) onde habitam o vaidoso, o ébrio, o acendedor de lampiões, o homem de negócios, o rei, os personagens da primeira parte de O Pequeno Príncipe. Esta é uma leitura que podemos fazer, de sátira à tacanhez, à limitação humana. Mas o livro é mais do que isto.

Eu situaria O Pequeno Príncipe dentro da tradição da novela filosófica francesa cujo grande mestre foi Voltaire. Novela não no sentido de novela da televisão, mas de uma obra literária mais longa que o conto, mas menos longa que o romance. Assim como no Cândido de Voltaire, temos o personagem que, com sua aparente ingenuidade, consegue enxergar mais fundo que as pessoas normais e acaba desconcertando-as. Quando o vendedor de pílulas contra a sede apregoa que, com seu produto, as pessoas terão mais tempo livre, o “ingênuo” principezinho responde que, se tivesse mais tempo livre, iria procurar um poço d’água. 

Especificamente, O Pequeno Príncipe guarda certa semelhança com o Micrômegas de Voltaire, que é a história de um gigante de Sirius que decidiu aventurar-se pelo Universo, visita o Sistema Solar e vem parar na Terra, dando a volta ao mundo e discutindo filosofia com os seres humanos. Também o principezinho visita vários asteroides/planetas e discute filosofia com os seres humanos. Quando ele diz que “o essencial é invisível aos olhos” está retomando a teoria de Platão do mundo das ideias. E quando diz que “não se vê bem a não ser com o coração” está refletindo o pensamento de Pascal de que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. E ainda tem gente que acha que é um livro bobinho ou um livro de autoajuda. Bobinho uma ova.

Claro que este é um livro que permite mil leituras diferentes. Há quem veja o principezinho como um anjinho que caiu na Terra. E tem outra coisa: o príncipe morre, supostamente picado pela cobra, para poder subir de volta ao seu planeta sem ser atrapalhado pelo peso do seu corpo. O autor o vê “tombando devagarinho como tomba uma árvore”. Mas tem certeza de que voltou ao seu planeta porque, ao raiar do dia, não encontrou seu corpo. É a história da paixão e ressurreição de Cristo! Só que o “planeta” de Cristo é o reino dos céus!

Em seus voos pelo correio francês entre Buenos Aires e a França, Saint-Exupéry pousava para reabastecer no bairro florianopolitano de Campeche, que seria corruptela de champ de pêche, campo de peixe, como o escritor (que chamavam de “seu Peri”) designava a área. Pelo menos é o que contam aos turistas que visitam a aprazível capital santa-catarinense. Se non è vero, è ben trovato.

VIAGEM A OURO PRETO, MARIANA E CONGONHAS (26-30/4/2022)

Que este “diário de viagem” sirva de orientação & inspiração àqueles que planejam explorar essas encantadoras cidades históricas mineiras.

Vista de Ouro Preto, Armand Julien Pallière, óleo sobre tela, 1820, Museu da Inconfidência

Repousemos na pedra de Ouro Preto,
Repousemos no centro de Ouro Preto:
São Francisco de Assis! Igreja ilustre, acolhe,
À tua sombra irmã, meus membros lassos.

Murilo Mendes, “Motivos de Ouro Preto”
(para baixar um pdf com seus poemas clique aqui)
 
Em Ouro Preto ninguém se defende contra a agressão da poesia.

Afonso Arinos de Melo Franco, Roteiro lírico de Ouro Preto
 
ouro preto raiando de tarde e outono
vila rica ladeira cochilo e ressono
 
ouro preto a cidade e o lombo da mula
vila rica eriçada nas eras da bula
 
ouro preto cantiga de avante menino
vila rica amanhando em redobres de sino
 
Geraldo Reis, Pastoral de Minas, 21, prêmio de poesia do concurso Cidade de Belo Horizonte - 1981. A íntegra do poema pode ser lida aqui.

 

1o DIA: CHEGADA EM OURO PRETO

Fim de tarde. Mirante do Morro de São Sebastião. As várias igrejas se sobressaem em meio às telhas do casario, evocando um Rio Antigo que hoje só sobrevive em velhas litografias – assim como certas ruas do centro portenho evocam uma Avenida Central que hoje só perdura em velhas fotografias. As igrejas históricas cariocas estão lá, firmes e fortes, protegidas pelo tombamento, mas escondidas pelos arranha-céus. A preservação do centro histórico de Ouro Preto constitui um milagre num país onde o patrimônio histórico e cultural nem sempre recebe os devidos cuidados e sofre toda sorte de rude golpe: incêndio, furto, deterioração, demolição, descaracterização, desfiguração.


Mirante do Morro de São Sebastião. As várias igrejas se sobressaem em meio às telhas do casario.

... evocando um Rio Antigo que hoje só sobrevive em velhas litografias.

Por que algumas cidades, como Ouro Preto, Olinda e Parati, congelam-se no tempo enquanto outras, como Rio de Janeiro e Salvador, expandem-se indefinidamente, sufocando e destruindo seu núcleo original – no Rio de Janeiro, esse núcleo, o Morro do Castelo, foi literalmente arrasado? No caso de Ouro Preto, a topografia montanhosa fez com que a capital fosse transferida, ao final do século XIX, para outro sítio mais propício à expansão urbana, criando-se a cidade planejada de Belo Horizonte. Manuel Bandeira assim explica a preservação da antiga Vila Rica em seu Guia de Ouro Preto (publicado originalmente em 1938 e reeditado em 2015 pela Global Editora):
 
Não se pode dizer de
Ouro Preto que seja uma cidade morta. [...] Ouro Preto é a cidade que não mudou, e nisso reside o seu incomparável encanto. Passada a época ardente da mineração (que foi, de resto, um arraial de aventureiros, a sua idade mais bela como fenômeno de vida), e a salvo do progresso demudador, pelas condições ingratas da situação topográfica, Ouro Preto conservou-se tal qual, em virtude mesma da sua pobreza, aquela pobreza que já por volta de 1809, segundo depoimento de Mawe, fazia trocarem-lhe por escárnio em Vila Pobre o nome de sua fundação em 1711, que era o de Vila Rica de Albuquerque. Na sua decadência econômica, que remonta à segunda metade do século XVIII, não houve dinheiro para abrir ruas, alargar becos, restaurar monumentos. Nas reparações dos prédios envelhecidos a economia levou sempre a alterar o menos possível. Em casas novas ninguém pensava. Elas são raríssimas na cidade, que enfeiam pelo contraste chocante com o resto da edificação.
 
... não houve dinheiro para abrir ruas, alargar becos

Tendo partido da rodoviária do Tietê às sete da noite do dia anterior, chegamos em Ouro Preto em torno das oito da manhã. Doze horas de viagem pelo ônibus noturno e parador da linha São Paulo-Mariana da Útil, adentrando cidade após cidade: Lavras, São João Del Rei, Congonhas (e várias outras), na calada da noite, para deixar passageiros (já no trajeto contrário, Mariana-São Paulo, pega-os de volta). Consegui dormir por longos trechos, cheguei a ter um sonho de que viajava num ônibus maluco, superlotado, onde a gente, de pé, tinha que ficar mudando de lugar, tamanho o movimento de gente... Da Rodoviária de Ouro Preto (uma rodoviária convencional, sem quaisquer méritos arquitetônicos numa cidade que é uma festa da arquitetura) vencemos a pé, mochila às costas como velho mochileiro que sou, o percurso de menos de um quilômetro – que eu estudara previamente pelo Street View – até o três estrelas Hotel Colonial, excelente custo/benefício, no coração da cidade.

Primeira foto, chegando em Ouro Preto, antes de rumarmos ao nosso hotel. Bom começo!

Em sua “aventura brasileira” junto com Pedro Nava, na Semana Santa de 1936, “em demanda de Ouro Preto”, Afonso Arinos não partiu de uma rodoviária como fazemos hoje em dia, mas pegou o trenzinho da bitola estreita “indeciso e laborioso” na estação de Belo Horizonte, que tinha horário de partir mas sem hora certa de chegar, “uma espécie de máquina de explorar o tempo”. Conta ele em seu Roteiro lírico de Ouro Preto (reeditado em 1980 pela Editora Universidade de Brasília e vendido na Estante Virtual): “Nunca nenhum de nós tinha ido a Ouro Preto, mas desde os vinte anos (e já tínhamos dobrado os trinta), através de leituras literárias, críticas, históricas, adquiríramos um conhecimento suficiente e um amor mineiro por aquelas ladeiras, aquelas pontes, aqueles chafarizes, que só nos faltava, agora, ver.”

Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia

O mingau a gente come pelas bordas. Assim, em vez de atacar diretamente os cartões postais da cidade, Museu da Inconfidência, Casa dos Contos, fizemos um trajeto inicial começando pelas beiradas e penetrando no âmago de forma lenta e gradual. Assim sendo, do Hotel Colonial retornamos à praça da Rodoviária, voltando a contemplar a vista magnífica, nossa primeira visão de Ouro Preto que já nos extasiara na ida ao hotel, da amurada defronte à Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia. Da Rodoviária, voltamos a adentrar esse baluarte do barroco pela Rua São Francisco de Paula, detendo-nos longamente no alto da velha escadaria defronte à Igreja de São Francisco de Paula, igreja tardia cujas obras se arrastaram pelo século XIX, que estava fechada. 

Igreja de São Francisco de Paula

De lá descemos até a Igreja de São José, que encontramos aberta. Deslumbramo-nos com o altar-mor rococó projetado pelo Aleijadinho (embora não executado pelo mestre). A Irmandade de São José dos Homens Pardos, congregando trabalhadores livres, na maioria mestiços, em 1746 decidiu edificar, no local da antiga capela de 1726, uma igreja nova cuja construção estendeu-se por uns oitenta anos. (Salvo indicação contrária, informações sobre igrejas de Ouro Preto e Mariana extraídas de Barroco e rococó nas igrejas de Ouro Preto e Mariana, de Myriam A. Ribeiro de Oliveira e Adalgisa Arantes Campos, coleção Roteiros do Patrimônio do IPHAN, cujo pdf pode ser obtido clicando aqui). 

Igreja de São José

altar-mor rococó projetado pelo Aleijadinho (embora não executado pelo mestre)

Deixei umas flores (que achei no chão do cemitério da igreja, talvez tombadas pelo vento) no túmulo do escritor romântico ouro-pretano Bernardo Guimarães, autor célebre de Escrava Isaura, cuja obra Histórias e tradições da província de Minas Gerais vim lendo na viagem. O livro, na primeira de três partes, conta uma versão para o mistério do sumiço da cabeça de Tiradentes. Quando morreu, o inconfidente teve o corpo esquartejado e suas partes expostas em locais ligados à sua atuação. A cabeça, fincada no alto de um poste em praça pública na então Vila Rica, embora guardada por uma sentinela, uma bela noite desapareceu, e o autor do furto nunca foi descoberto. Esse mesmo tema é explorado por Alexei Bueno em seu drama O poste, que um dia eu gostaria de ver encenado.

cemitério da igreja

Da igreja descemos por uma ladeira tortuosa e erma (onde à noite talvez ainda vague o último dos fantasmas), até a movimentada Rua Getúlio Vargas, e pegamos a direita rumo à igreja curvilínea de Nossa Senhora do Rosário, que teríamos visitado se aberta estivesse. Dali nos enfiamos pela Rua Alvarenga, antigo caminho de entrada e saída de Vila Rica, então chamada Rua das Cabeças, nome sinistro cuja origem “vem de que aí se fincavam na ponta de estacas as cabeças dos míseros enforcados pelas esquinas dos becos [...] para servir de exemplo e escarmento aos povos”, como conta Bernardo Guimarães na obra supracitada. 

Descendo da Igreja de São José para a Rua Getúlio Vargas, com a Igreja do Rosário ao centro.

Cuidado ao planejar seus roteiros em Ouro Preto pois, se os mapas são bidimensionais, com caminhos que se afiguram planos, a realidade é acrescida de uma terceira dimensão: na hora de pôr as pernas em movimento você descobre que o relevo da cidade é ondulado, fortes aclives e declives. Nas subidas, haja fé e fôlego, mas em compensação nas descidas todos os santos ajudam!

Nas subidas, haja fé e fôlego

Avançamos, passando pela singela capelinha do Bom Jesus da Pedra Fria, velhos chafarizes coloniais, casas de antanho (como o conjunto de sete casas de paredes-meias do século XVIII construídas em adobe que serviam de pouso para os romeiros), Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, Colégio Arquidiocesano, até chegarmos à casa onde morou Bernardo Guimarães, hoje sede do FAOP, Fundação de Arte de Ouro Preto, que só vimos de fora, pois (com exceção de uma pequena biblioteca) não está aberta à visitação.

singela capelinha do Bom Jesus da Pedra Fria

velhos chafarizes coloniais: Chafariz das Cabeças

conjunto de sete casas de paredes-meias do século XVIII construídas em adobe que serviam de pouso para os romeiros

casa onde morou Bernardo Guimarães

Igreja do Bom Jesus de MatosinhosColégio Arquidiocesano

E após uma sesta no Hotel Colonial encaramos a íngreme subida ao Mirante do Morro de São Sebastião, com que abrimos este relato. Cães que ladram mas não mordem (como reza o ditado mas, observava meu sábio pai, “será que os cães sabem disto”?) deram um sustinho, e daqui do alto, o sol já tendo descambado atrás da linda serra, vemos as luzes se acendendo aos poucos por essa cidade que é uma joia do barroco brasileiro, e embora nas encostas dos morros construções não tão coloniais assim tenham se agregado ao conjunto urbano, daqui de cima tudo forma um todo harmônico. Ademais, todas as casas, por mais simples, ostentam portas e janelas de madeira, nada de esquadria de alumínio, deve ser postura municipal. O ar nesses altos mineiros tem um frescor de Alpes suíços. Lá de baixo sobem sons de sinos de igreja, cães ladrando, motos. Aqui em cima, ruído de um ou outro carro vencendo o aclive. Do mato, sons de insetos. Minas montanhosa, pedregosa, luminosa.

o sol já tendo descambado atrás da linda serra

íngreme subida

nas encostas dos morros construções não tão coloniais assim

Terminamos nosso primeiro dia em Ouro Preto saboreando o pão com linguiça e a cerveja Ouropretana num simpático bar na esquina da Rua Cláudio Manoel com a Praça Tiradentes.
 
cerveja Ouropretana


2o DIA: MARIANA, PRIMEIRA CIDADE DE MINAS

Panorama de Mariana, Alberto Delpino, óleo sobre tela, 1931

“A última vez que estive em Mariana foi no ano da graça de 1968.” Estava sentado em um banco da Praça Gomes Freire quando escrevi esta frase no meu caderninho.

“A última vez que estive em Mariana foi no ano da graça de 1968”: slide que tirei lá naquela ocasião.

Mariana, primeira vila, primeira cidade, primeiro bispado e arcebispado, primeira capital de Minas, segundo o prospecto que apanhei num centro de atenção ao turista. O nome, homenagem à rainha Maria Ana D’Áustria, esposa do rei de Portugal D. João V em 1745, quando a Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo foi elevada a cidade com o nome de Mariana. Ares de cidade do interior drummondiana. “Um homem vai devagar. / Um cachorro vai devagar. / Um burro vai devagar. / Devagar... as janelas olham. / Eta vida besta, meu Deus.”

as janelas olham

No centro da praça, o coreto. Nos diversos bancos espalhados pela praça, grupo conversando animado, casal namorando, pessoas sós manuseando celulares. Michela e eu tínhamos sentado naquela praça para comer um açaí. O Leonardo, recepcionista noturno no nosso hotel que nos dias de folga trabalha como motorista de aplicativo (caso precise de seus serviços: 31 8671-9630), nos havia trazido ao centro histórico de Mariana e havíamos combinado que ligaríamos à tarde para nos pegar de volta.

Casa da Câmara e Cadeia estava em restauração

“O largo onde estão as igrejas do Carmo (direita) e S. Francisco (esquerda) é o mais puro, o mais comovente largo de igreja do Brasil”

Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, de uma confraria de homens pardos, com frontispício chanfrado

A Casa da Câmara e Cadeia estava em restauração, a Igreja de São Francisco de Assis, fechada, mas pudemos adentrar a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, com sua fachada singular que destoa do padrão, torres redondas, sobre a portada o emblema carmelita encimado por dois anjos, talha rococó. “O largo onde estão as igrejas do Carmo e S. Francisco é o mais puro, o mais comovente largo de igreja do Brasil”, escreve Afonso Arinos no livro já citado. De lá subimos pela Rua Dom Silvério, passando pela Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, de uma confraria de homens pardos, com frontispício chanfrado, até a Igreja de São Pedro dos Clérigos, a cavaleiro da cidade. Igreja com interessante planta em duas ovais entrelaçadas, desenho depois repetido na igreja de Nossa Senhora do Rosário em Ouro Preto. Sua construção foi uma verdadeira “obra de igreja”: começou em meados do século XVIII, sofreu várias paralisações, até que na década de 1920 foram finalmente concluídas as torres e frontão. Do mirante em frente à igreja pode-se “admirar convenientemente a cidade”, como fizera Afonso Arinos em 1936.


Do mirante em frente à igreja pode-se “admirar convenientemente a cidade”

Igreja de São Pedro dos Clérigos, a cavaleiro da cidade

Igreja de São Pedro dos Clérigos: nave elíptica, desprovida de ornamentação

Descemos pela Rua Dom Viçoso, compramos um açaí, fazia calor, sentamo-nos na praça a fim de o saborearmos, gostamos tanto que Michela voltou para comprar mais um, e eu fiquei guardando o lugar sombreado. Peguei meu caderninho tencionando escrever umas mal traçadas linhas sobre essa aprazível cidadezinha pioneira na região aurífera mineira, cheguei a escrever uma frase que abre o relato deste segundo dia de viagem pelas Minas Gerais, Michela voltou mais rápido do que eu esperava, pus o caderninho de lado, devoramos nosso segundo açaí e prosseguimos o passeio.

Praça da Sé, tão diferente da praça homônima em São Paulo!

Catedral Basílica de Nossa Senhora da Assunção (Sé de Mariana)

Casa setecentista

A famosa dedicada a Nossa Senhora da Assunção estava fechada para trabalhos de restauro. Visitamos a casa de estilo colonial, adquirida em 1975 pelo governo mineiro para transformar em museu, onde viveu e faleceu Alphonsus de Guimarães, “um dos maiores poetas brasileiros de qualquer época, com uma qualidade formal inalterável” (Alexei Bueno), autor do mais pungente soneto da língua portuguesa na minha modesta opinião (conforme exprimo no meu Manual do poeta), em memória de Constança, prima com quem se casaria, mas que morreu precocemente aos dezessete anos de idade, vítima de tuberculose. Mais tarde, Alphonsus acabaria se casando com Zenaide, com quem teria uma carreira de filhos.
 
HÃO DE CHORAR POR ELA OS CINAMOMOS...
 
Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.
 
As estrelas dirão – “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria...”
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.
 
A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.
 
Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: – “Por que não vieram juntos?”
 

Terminada a visita à casa do poeta simbolista que, à semelhança do pintor Van Gogh, só veio a alcançar a merecida fama após a morte (“Sua vida foi modesta. [...] A semi-obscuridade, senão a obscuridade, foi-lhe o ambiente de cada dia”, escreveu Abgar Renault), voltamos à mesma praça Gomes Freire, onde já estivéramos, para chamar e aguardar nosso motorista. Abri a bolsa para pegar meu caderninho e prosseguir as anotações do dia. Tinha sumido. Revirei a bolsa de alto a baixo. Nada. Voltei à casa do poeta para ver se havia deixado lá. Neca. Voltei a Ouro Preto sem o caderninho. Sem as anotações do primeiro dia de viagem. Mas uma boa alma, daquelas que se existe o céu irão para lá, achou o caderno no banco da praça, viu que seu dono estava hospedado no Hotel Colonial de Ouro Preto e se deu ao trabalho de vir à cidade vizinha entregá-lo na recepção do hotel! Reza a lenda judaica que, enquanto existirem ao menos dez justos no mundo, Deus não o destruirá!


Conquanto próxima a Ouro Preto e com origens semelhantes no ciclo do ouro, Mariana é diferente. Mais pacata, ar de cidade de interior, enquanto em sua cidade-irmã pululam turistas e estudantes. Contrastando com o emaranhado ouro-pretano, o traçado das ruas marianenses é simétrico, planejado. E o relevo com ondulações mais suaves, aclives e declives menos acentuados.

À noite, como no primeiro dia, tencionávamos jantar comida mineira, mas os restaurantes só a servem durante o dia, de modo que repetimos o pão com linguiça da noite anterior (aquela linguiça de fazenda de interior que não chega à cidade grande) e provamos os pastéis de angu. Pensei que fossem pastéis convencionais com recheio de angu (santa ignorância!), mas são pastéis de massa de fubá, com os recheios normais a que estamos acostumados.

Pastéis de angu

3o DIA: OURO PRETO, JOIA BARROCA

Não tivemos as antiguidades greco-romanas. Nossa antiguidade foi a cultura indígena que, por falta de um sistema de registro escrito, em grande parte se perdeu. No Renascimento estávamos desbravando a terra recém-descoberta. Explodimos artística e culturalmente no barroco e rococó. Os modernistas revelaram ao brasileiro o esplender da arte brasileira do século XVIII. A transferência da capital mineira para Belo Horizonte, no final do século XIX, salvou Ouro Preto do tipo de destruição de que padeceu o Rio de Janeiro. Ouro Preto é o maior conjunto de arquitetura colonial barroca do Brasil (quiçá do mundo). As torres das igrejas se sobressaem, vistas dos mirantes, o mar de telhados de telhas se espraiando entre elas, evocando o que já foi o centro carioca, como mostram velhas gravuras. O sistema educacional brasileiro deveria nos ensinar a nos orgulharmos (entre outras coisas) do nosso patrimônio barroco.

Telhados e torres da Igreja de N.S. do Pilar

Dito isto, vamos à programação do dia: esplendorosa Igreja de Nossa Senhora do Pilar (partindo da Praça Tiradentes e descendo por íngremes ladeiras, mas na volta subindo por um caminho alternativo mais suave); recém-inaugurado e magnífico Museu Boulieu de arte sacra barroca universal; almoço mineiro no mui recomendado Bené da Flauta; meio sem graça Mirante das Lajes.
 
MATRIZ DE NOSSA SENHORA DO PILAR (Praça Monsenhor Castilho Barbosa)

A Matriz de Nossa Senhora do Pilar é a mais esplendorosa das igrejas ouro-pretanas, estando entre os templos brasileiros com maior emprego de ouro na decoração. Sem adro, comunica-se diretamente com a rua defronte, em relação à qual está ligeiramente desalinhada. O magnífico traslado do Santíssimo Sacramento da Igreja do Rosário para a do Pilar em 24 de maio de 1733, designado de Triunfo Eucarístico, foi reencenado em 2011, nas comemorações do tricentenário da fundação de Vila Rica, com base na minuciosa descrição do português Simão Ferreira Machado em seu livro sobre o evento (que você pode acessar aqui). Transposto o para-vento [clique nesta e em outras palavras em tom mais claro para acessar sua explicação ilustrada] inicial, o visitante surpreende-se com a majestosa nave de forma elipsoidal, que a volumetria externa, retangular, não deixava entrever. Entre pilastras laterais de dupla altura inserem-se seis retábulos consagrados a Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora do Terço, Santo Antônio, São Miguel e Almas, Santa Ana, Senhor dos Passos, encimados por tribunas. Sobre a suntuosa cimalha que circunda toda a nave, painéis de formatos irregulares contêm padrões decorativos e pinturas. “Todos os retábulos têm coroamento em dossel e são integralmente dourados, como de praxe na primeira fase do joanino. Dois deles têm colunas torsas e não quartelões como elementos de suporte, aspecto que indica serem mais antigos, possivelmente da igreja primitiva, com os coroamentos refeitos para harmonização com o conjunto” (Myriam A. Ribeiro de Oliveira e Adalgisa Arantes Campos, Barroco e Rococó nas Igrejas de Ouro Preto e Mariana). No deslumbrante altar-mor uma profusão de elementos faz o deleite do apreciador da arte e arquitetura sacra: o retábulo tem o trono ladeado por quartelões e colunas salomônicas que dão apoio ao forte dossel, que, por sua vez, tem, ao alto, as figuras do Padre Eterno, de Cristo e da pomba do Espírito Santo entre grupos de anjos. Nas laterais da capela, duas grandes pinturas apresentam-se emolduradas por volutas e anjos.” (Augusto da Silva Telles em Patrimônio Construído: As 110 mais belas edificações do Brasil). A imagem de Nossa Senhora do Pilar é tardia, do século XIX. A sacristia, acessada por corredores laterais à capela-mor, também abriga alguns tesouros: quadros, pinturas de teto, arcaz de jacarandá, oratório, tocheiro, pia batismal.
 
Sem adro, comunica-se diretamente com a rua defronte, em relação à qual está ligeiramente desalinhada

 o visitante surpreende-se com a majestosa nave de forma elipsoidal

Todos os retábulos têm coroamento em dossel e são integralmente dourados

Sacristia: pintura do teto

MUSEU BOULIEU
(Rua Padre Rolim, 412, no caminho do Centro para a Rodoviária)

Tivemos a sorte de chegar em Ouro Preto poucos dias após a inauguração do Museu Boulieu, que abriga uma coleção privada, doada à Arquidiocese de Mariana (com a condição de que o museu fosse instalado na vizinha Ouro Preto), de um casal, ele, Jacques, francês, ela, Maria Helena, brasileira, que se conheceram graças ao amor que nutriam pela música e que, em suas andanças pelo mundo, já que Jacques representava empresas de perfumes e sedas (como contou um recepcionista na entrada do museu), dedicaram-se a colecionar peças de arte sacra representativas da expansão do barroco pelo mundo na esteira dos colonizadores (a diáspora do barroco). Um painel logo na entrada da exposição conta a história da origem desse amor longevo de dimensões cinematográficas:
 
O casal Boulieu

Maria Helena de Toledo, nascido em Bebedouro, em São Paulo, formou-se em piano no Conservatório de Belo Horizonte. Os professores, considerando o seu talento, aconselharam-na a mudar-se para o Rio de Janeiro para continuar seus estudos.
Maria Helena aperfeiçoava os estudos de piano enquanto trabalhava na Presidência da República, no secretariado do presidente Getúlio Vargas e, em seguida, de seu sucessor eleito, Juscelino Kubitschek.
Jacques Boulieu, francês de Lyon, especialista em tecelagem e impressão de tecidos em seda, sempre gostou de música clássica. Trouxe mais de 20 quilos de discos quando, em 1951, se mudou para a Argentina e, em seguida, para o Brasil.
Após quatro anos em São Paulo, Jacques trabalhou no Rio, na Jean Manzon filmes, produtora de películas documentárias, onde fez amizade com Monique, preceptora das filhas Kubitschek.
Apaixonada por música, Monique tinha livre acesso ao camarote presidencial do Teatro Municipal. Jacques, muitas vezes, a acompanhava.
Certo dia de 1959, Monique avisou que uma amiga também estaria no camarote: “Mas você vai ver... Ela é muito simpática...”
Quando entraram no camarote, Maria Helena já estava lá. Virou-se, olhou Jacques com seus belos olhos azuis. O resultado foi fulgurante.
Um ano depois, Jacques e Maria Helena se casaram na Igreja da Glória. Juscelino foi padrinho da noiva. Já se passaram mais de 60 anos de felicidade...
 
Nossa Senhora do Rosário, de la Montera, sécs. XVIII-XIX, Altiplano andino, óleo sobre tela

Sant'Ana Mestra, séc. XVIII, Pernambuco, escultura em madeira policromada

O museu abriga o que talvez seja a maior coleção privada brasileira de arte sacra, com pinturas, esculturas, oratórios, do Altiplano andino, América Central, Bahia, Minas Gerais, nordeste brasileiro, Índia. Admirável que um único casal tenha conseguido juntar tamanha coleção e, não tendo filhos, resolvido compartilhá-la com o resto de nós!
 
BENÉ DA FLAUTA (Rua São Francisco de Assis, 32)

Um dos restaurantes mais recomendados de Ouro Preto, amplo casarão, espaçoso e arejado, ao lado da Igreja de São Francisco de Assis, teto de madeira sem forro, paredes de pedra, linda pintura de Ouro Preto de grande dimensão por Milton Passos na parede, vista para a subida que vai dar na Igreja de Santa Efigênia (depois do almoço você pode fazer a digestão subindo até lá), serve pratos fartos, para dois, por menos de cem reais, da típica comida mineira, mas só até as cinco da tarde. De noite, só pratos individuais de comida internacional.
 
Feijão tropeiro: só até as 17 horas

linda pintura de Ouro Preto de grande dimensão por Milton Passos na parede

MIRANTE DAS LAJES

Ao contrário do Mirante de São Sebastião, situado em subida íngreme e tranquila, de pouco trânsito (como descrevi no primeiro dia), o Mirante das Lajes situa-se em rua de trânsito pesado, desagradável de percorrer a pé. Enquanto do Mirante de São Sebastião você vê (além do centro) a parte oeste da cidade, aqui você vê (idem) o lado leste. Foi mais ou menos daqui que Pallière pintou sua famosa vista que abre esta postagem.

Vista do Mirante das Lajes: Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões, Museu da Inconfidência e Igreja de Nossa Senhora do Carmo
 
Ladeira


4o DIA: CONGONHAS: SANTUÁRIO DO BOM JESUS DE MATOSINHO & A COMOVENTE ARTE DO ALEIJADINHO

Ao planejar a viagem, quando vi que Congonhas distava apenas 55 quilômetros de Ouro Preto, imaginei que seria possível ir de manhã tranquilamente de ônibus para lá e voltar à tarde. Mas não é bem assim. Não existe uma estrada direta ligando as duas cidades. O percurso é tortuoso. Você tem que combinar um preço com um motorista de aplicativo para levá-lo até lá, aguardar duas horas até que você veja com calma o santuário, e trazê-lo de volta. (Nosso motorista foi o André Luís, que recomendo: telefone 31 8837-4287) O carro percorre um trecho montanhoso das Geraes, mata abundante, terra cor ocre, nascentes. Em alguns pontos, o motorista tibubeia, ou até erra (por exemplo, entramos por engano no acesso coalhado de caminhões da siderúrgica Gerdau), porque a sinalização não é cem por cento precisa ou presente, mas sempre haverá alguém na beira da estrada para dar uma informação com a maior boa vontade.


No percurso sinuoso de ida e volta em meio à serraria, o motorista contou (com aquela fala gostosa do mineiro, mas sem os proverbiais “trem” e “uai”
, que não ouvi em lugar algum – caíram em desuso?) causos de ricos topázios vermelhos encontrados em quintais de casas, uma moradia que desmoronou por ter sido erguida sobre uma antiga mina de ouro, prospecção clandestina de minerais, dado que a mineração é restringida devido aos danos causados ao meio ambiente – vimos no percurso uma encosta degradada pela exploração mineral.

No alto de um morro ergue-se o Santuário do Bom Jesus de Matosinho

No alto de um morro (dentre os tantos morros que compõem o relevo ondulado dessa região brasileira tão rica em minérios) ergue-se o Santuário do Bom Jesus de Matosinho, patrimônio legado à humanidade (de fato, o santuário foi eleito patrimônio mundial pela UNESCO) pela resiliência de um artista que, à semelhança de Beethoven, enfrentou uma doença cruel que tentou tolhê-lo em sua capacidade criativa: Aleijadinho. Segundo Manuel Bandeira, “inegavelmente, o maior arquiteto e estatuário que já tivemos”, que, se houvesse vivido na Europa, “teria dado motivo a toda uma biblioteca”. Suas estátuas dos profetas, ao ar livre, na escadaria que dá acesso ao adro, sob as intempéries, bem como as esculturas em madeira que compõem os Passos da Paixão nas capelas ao longo do aclive defronte à igreja, são vitórias do espírito brasileiro e humano. Rivalizam com as esculturas de mestre Michelangelo – na Europa, onde rondam loucos e terroristas, os profetas estariam protegidos por vidro à prova de bala, caso do Moisés de Michelangelo em Florença, mas aí não exerceriam o mesmo impacto.


Augusto da Silva Telles assim descreve a fachada da igreja (clicando numa palavra em azul claro você acessa uma explicação ilustrada, uma oportunidade de ampliar sua cultura e vocabulário no campo da arquitetura sacra): “A igreja obedece ao plano setecentista de Minas Gerais, com nave única, torres sineiras salientes às ilhargas e capela-mor contornada por corredores que dão acesso à sacristia localizada nos fundos. A fachada é ladeada por dois pares de pilastras que se estendem até a cimalha e tem, ao centro, uma portada singela, formada por quartelões que suportam elementos de cimalha, acima da qual volutas envolvem uma cartela. Todo esse conjunto possui, aos lados, as janelas no nível do coro. Acima da cimalha da igreja, que percorre toda a frontaria, eleva-se um frontão barroco margeado por curvas e volutas. Lateralmente, assentam-se as sineiras esguias, encimadas por calotas com arestas salientes.” (em Patrimônio Construído: As 110 mais belas edificações do Brasil, à venda na Amazon). 

uma portada singela, formada por quartelões que suportam elementos de cimalha, acima da qual volutas envolvem uma cartela



Ao adentrar a igreja, você depara com um para-vento. As paredes laterais e teto da nave são adornados com pinturas sacras de Nepomuceno Correia e Castro, “um dos mais importantes pintores do século XVIII em atuação na capitania de Minas Gerais”, segundo Hudson Lucas Marques Martins, autor da única monografia acadêmica (que pode ser acessada aqui) sobre esse artista sacro nascido e falecido em Mariana. Dois retábulos ladeiam o arco-cruzeiro. “Na capela-mor [aqui voltamos a recorrer a Augusto da Silva Telles], o retábulo é mais rígido e possui, acima de colunas retas, um dossel de curvas caprichosas com lambrequins, semelhante ao retábulo da igreja do Rosário de Mariana. No teto abaulado dessa capela, pintura similar ao da nave envolve, ao centro, um medalhão oval representando o enterro do Senhor Jesus.” 
Numa casa anexa, ao lado da igreja, estão expostos impressionantes ex-votos, alguns de mais de cem anos atrás. 

Na capela-mor, o retábulo é mais rígido

Anjo tocheiro

As paredes laterais e teto da nave são adornados com pinturas sacras de Nepomuceno Correia e Castro

impressionantes ex-votos, alguns de mais de cem anos atrás

Em Congonhas, uma senhorinha, Lucimar, convidou a Michela a entrar em sua própria casa para ver seus gatos – ela acolhe gatos abandonados – e a presenteou co
m um queijo minas artesanal – hospitalidade mineira. Na estrada, em duplicação, durante longa meia hora tivemos que aguardar a liberação do tráfego, e ninguém fica buzinando nem tenta furar fila – placidez mineira.

Telhados ouro-pretanos e torre da igreja de N.S. da Conceição

Retornados a Ouro Preto, repetimos o feijão tropeiro no Bené da Flauta e, barrigas cheias, fizemos a digestão caminhando até a Igreja de Nossa Senhora da Conceição (fechada), passando pelo Chafariz de Marília no paredão do antigo solar onde residiu a musa do poeta inconfidente, daí subindo a ladeira rumo à Igreja de Santa Ifigênia (fechada), de lá descendo até a Capela de Padre Faria (fechada) ao anoitecer e, já noite caída, trilhamos o caminho de volta ao hotel, que andar é preciso, a certa altura surpreendidos pelo som de instrumentos musicais ensaiando.

Igreja de Santa Ifigênia

Chafariz de Marília

Ladeira acima



Calçamento de pedras

Capela de Padre Faria


5o DIA: ÚLTIMO DIA EM OURO PRETO

 

O que é que Ouro Preto tem?
[...]
E ali na rua das Flores,
na varandinha do bar,
tem a figura risonha
do grande pintor Guignard
que Deus botou neste mundo
para Ouro Preto pintar.
 
Cecília Meireles no álbum de dedicatórias do pintor
 
Vista de Ouro Preto de Wilde Lacerda, discípulo de Guignard, quadro que fotografei quando estive em Ouro Preto com meu pai em 1968. Estes episódios de minha vida vocês lerão na minha autobiografia que pretendo lançar no final de 2022 ou início de 2023.

MUSEU CASA GUIGNARD
(Rua Conde de Bobadela, 110)

Último dia em Ouro Preto. Antes de entregamos o quarto do hotel ao meio-dia e deixarmos a bagagem na recepção, já que nosso ônibus de volta só partiria às sete e quinze da noite, visitamos o museu dedicado ao pintor Guignard, o “anjo mutilado”, como o chamou o poeta Manuel Bandeira devido ao lábio leporino acentuado. Em sua recente biografia Guignard: anjo mutilado, conta o autor Marcelo Bortoloti que “o lábio leporino era apenas a parte aparente de uma anomalia maior. O pintor nasceu com uma fenda no palato [...]”

O museu reúne um acervo pequeno, já que a obra do artista está dispersa entre colecionadores privados, porém precioso, evocando a vida e obra desse artista que morou dos onze aos 33 anos na Europa, onde adquiriu uma sólida formação artística e casou-se com uma estudante de música alemã, enlace que não durou sequer um ano, e quando sete anos depois ela veio a falecer prematuramente de câncer, o artista decidiu que viveria o resto da vida sozinho. Criador de paisagens imaginárias, pelas quais se celebrizou, também foi exímio retratista e ilustrador de livros, entre eles os de Lúcia Machado de Almeida dedicados às cidades históricas de Sabará, Diamantina e Ouro Preto. Quando convidado pelo presidente Juscelino a pintar um quadro da execução de Tiradentes, por amor a Ouro Preto situou-a nessa cidade, e não no Rio onde de fato ocorreu.

Paisagem imaginária (detalhe)

Apaixonado por Ouro Preto, lá passou os últimos meses da vida, depois que foi “despejado” do casarão do seu médico Santiago Americano Freire. Tendo acolhido seu paciente alcoólatra, solitário e incapaz de administrar seu talento, sofreu uma campanha da imprensa que o acusou (falsamente) de se apropriar da renda da venda dos quadros do artista, subitamente valorizados. Em Ouro Preto Guignard veio a falecer e foi enterrado. Uma curiosidade do museu são os 111 cartões que escreveu/desenhou na década de 1930 para Amalita Fontenelle, uma paixão platônica. Nunca chegou a enviá-los, e acabaram sendo adquiridos em 1987 pelo governo mineiro e incorporados ao acervo do museu.

Um dos cartões escritos para Amalita Fontenelle mas jamais enviados
 
IGREJA DE NOSSA SENHORA DO CARMO E MUSEU DO ORATÓRIO ANEXO

À semelhança do Museu Boulieu, o Museu do Oratório, instalado na antiga Casa do Noviciado, anexa à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, resulta do que foi uma coleção particular, um acervo de oratórios e imagens brasileiras dos séculos XVII ao XX, doados por Angela Gutierrez ao IPHAN e gerido pelo Instituto Cultural Flávio Gutierrez. Preciosidades.

No passado, os oratórios faziam parte da vida quotidiana das pessoas, como hoje, digamos, o celular. A fé religiosa era mais forte do que na nossa época de descrença, e as pessoas rezavam, faziam promessas, faziam pedidos para seus santos de devoção não só no ambiente das igrejas, mas também em casa ou em viagem por meio dos seus oratórios. Assim sendo, vemos no museu magníficos oratórios itinerantes ou de algibeira, funcionando como amuletos; de convento, elaborados por freiras; de quarto de donzela, depois levados para os lares de casadas; de esmoler, com um recipiente para guardar as esmolas; de uso litúrgico, levados por membros da igreja em viagens pastorais; domésticos; afro-brasileiros, confeccionados por escravos; ermidas, pequenas capelas domésticas...

Oratório ermida, Nossa Senhora da Purificação, Minas Gerais, séc. XVIII/XIX

Oratório de salão, Santo Antônio, Minas Gerais, século XVIII

A Igreja de Nossa Senhora do Carmo, típica do rococó religioso mineiro, foi projetada por Manuel Francisco Lisboa, pai do Aleijadinho, risco depois revisado pelo filho, que também executou a portada da fachada e o lavabo da sacristia, em pedra-sabão. Única igreja de Ouro Preto com painéis de azulejos no altar-mor, importados de Lisboa.

Igreja de Nossa Senhora do Carmo, típica do rococó religioso mineiro

Painel de azulejos (detalhe)

 
MUSEU DA INCONFIDÊNCIA

Depois ainda tivemos fôlego de percorrer o Museu da Inconfidência. Afonso Arinos de Melo Franco, profundo conhecedor de Roma, sobre a qual escreveu um livro, em seu Roteiro lírico de Ouro Preto faz uma observação interessante: a antiga Casa da Câmara e Cadeia, atual Museu da Inconfidência, teve como modelo um palácio (Palazzo Sanatorio) da Praça do Capitólio (Piazza del Campidoglio) do Monte Capitolino em Roma. Cansados, não pudemos desfrutar plenamente o museu que, no primeiro piso, abriga uma exposição histórica, e no segundo, artística, tendo como pontos altos a sala dedicada ao Aleijadinho e a Vista de Ouro Preto do francês Armand Julien Pallière, que abre este diário de viagem.

Museu da Inconfidência na antiga Casa da Câmara e Cadeia

Casa da Câmara e Cadeia em gravura de Augusto Riedel de 1868

Afonso Arinos de Melo Franco faz uma observação interessante: a antiga Casa da Câmara e Cadeia, atual Museu da Inconfidência, teve como modelo um palácio (Palazzo Sanatorio) da Praça do Capitólio (Piazza del Campidoglio) do Monte Capitolino em Roma. Foto obtida no Street View do Google.
 
Em torno das cinco e meia vimos, do adro da Igreja do Carmo, o sol se pondo atrás da serra. Pouco depois, apanhamos a mochila no hotel e rumamos a pé, já noite caída, à Rodoviária para voltarmos ao dia-a-dia paulistano. Mas as cidades históricas mineiras tocaram nossos corações e deram um combustível ao nosso por vezes esmaecido orgulho pela terra natal. “Criança! não verás nenhum país como este!”