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POETAS DE A A Z:

ALEXEI BUENO


Alexei Bueno é autor (entre várias outras obras de peso) da maravilhosa (e recém-lançada) Uma história da poesia brasileira. Precisa dizer mais? Precisa: a revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, incluiu Alexei no rol dos 20 melhores poetas brasileiros vivos no final do século XX.

SETE POEMAS DA LAPA

LAPA

Nesta casa antiga,
Sob estas volutas,
Como ri com as putas
Entre uma e outra briga.

Como virei copos
E extingui charutos,
Discuti com brutos,
Vaiei misantropos.

Urinei nas pias,
Vomitei nas portas,
Com passadas tortas
Vi nascer os dias.

Velha, velha casa,
Como ainda és a mesma.
(Não tens dentro a lesma
Que nos funda e abrasa.)

          19-9-2004

I. M. L

Na porta do boteco
Com flores de coroas
Que oferta às moças boas
Ele ergue o seu caneco

De alumínio gravado
Com o escudo do seu time,
E conta o último crime,
E olha o bordel fechado.

Sorrindo, no balcão,
Beberica e, prudente,
Fita a vaga onde, em frente,
Deixou o rabecão.

Então, se há um que lhe peça
Que lembre do seu carro,
Diz, dando um grosso escarro:
— Defunto não tem pressa.

          21-9-2004

FAIT DIVERS

Carlinhos, o segurança,
O terror da Mem de Sá,
Trocou tiros num mafuá
Com o Fuinha, em plena dança.

O Fuinha perdeu a perna.
Depois morreu, no hospital.
O membro encaixou bem mal
No corpo, o que até consterna.

Carlinhos, pior que o Fuinha,
Pagou na hora o seu erro.
Três tiros. No seu enterro
Só foi a sua mãezinha.

          21-9-2004

GLÓRIA

Bêbado, às duas da manhã,
Parei na loja de ovos e aves.
Subi na grade e, em grande afã,
Cacarejei, de ecoar nas traves.

Os galos todos acordaram
Cheios de brio e, num só coro,
Com seu cacarejo enfrentaram
O meu, mais forte, mais sonoro.

Saltavam todas as galinhas.
Penas voavam loja afora.
Ligavam luzes nas vizinhas
Casas. Parti. Criara a aurora.

          21-9-2004

LÁZARO

Cobrimos o mendigo que dormia
Com jornais, os jornais do extinto dia.

De fora só ficaram os sapatos
Cambaios, já roídos pelos ratos.

Acendemos então, junto, uma vela
E arengamos na luz branca e amarela.

Um círculo de povo já envolvia
Nosso pranto, e o pinguço nem tremia.

Volveu por fim do reino dos defuntos.
Debandada! E ele riu. Ríamos juntos.

          21-9-2004

NOTURNO

Sobre os seus saltos, sob a lua cheia,
Os travestis desfilam como garças,
Farsa carnal em meio às outras farsas
Que o mundo absurdo no aéreo chão semeia.

São deusas-mães usando liga e meia,
De ancas imensas, madeixas esparsas,
De enormes seios, piscando aos comparsas,
Buscando otários para a escusa teia.

São Vênus neolíticas chamando
Sombras confusas, entre os cães sem casa
E os negros ébrios. Seu barroco bando

Volveu, pulsante, dos tetos das grutas,
E anda na névoa, como numa vasa,
Rotundas popas balouçando enxutas.

          28-10-2004

TROTTOIR

Os homens vão e vêm na íris das putas
E nenhum pára.
Nenhum ouve suas vozes dissolutas
Nem as encara.

São inúteis as frases mais argutas
Ou sobre a cara
A tinta, o pó. E a vida, quantas lutas,
Como está cara!

Ao longe os filhos, os filhos das putas
Com ladrões, ou pinguços, ou recrutas,
Na noite avara

Dormem cingindo palhaços birutas,
Bonecas louras relesmente hirsutas
Que a lua aclara.

          12-11-2004

ALICE MONTEIRO


ALICE DE CARVALHO MONTEIRO PENNA FIRME é jornalista e carioca da gema. Nasceu no Grajaú. Hoje é moradora de Copacabana, uma babel onde os contrastes se misturam democraticamente. Aos oito anos, escreveu sua primeira poesia intitulada "Pobreza", inspirada na tocante cena de um menino maltrapilho que vendia laranjas em uma estação ferroviária, quando viajava de férias, num trem de madeira para Montes Claros, região Norte de Minas Gerais. Nascia ali sua veia poética.

ANJOS SONÂMBULOS

Beijo de sal e tabaco
na boca da noite.
Arrepio.
Corpo exilado de noites insones,
muito além da lembrança
do que foi.
Amor da noite desconhecida,
secreta noite
dos prazeres da carne.
Desejo,
despudorado silêncio.
E na boca da noite
o grito do gozo
ecoa sem pejo e desaba paredes.
Acorda o mundo,
desperta o pássaro
que canta na janela fechada.
Anjos e demônios
se abraçam em êxtase total.

ABISMOS

Desço ao abismo de mim
quando teu sexo
verte a vida
nas minhas entranhas.
Volto da viagem abissal
porque tuas mãos vigorosas
me arrancam do âmago da terra.
Misturo nossos fluidos
e neste momento difuso,
impreciso e solitário,
todas as criaturas estão em mim.
Sinto-me morrer um pouco,
seduzida e flagelada pelo
infinito prazer que me dás.
Mas este prazer agora
não é mais teu nem meu.
Não nos pertence.
É um prazer abundante
como a água dos mares.
E fecundo como a terra.
É um prazer que me embriaga
como se fosse uma bacante.
É um prazer embriagante
como a morte.
É como um deleite,
tão deslumbrante
como a própria vida.

ALPHONSUS DE GUIMARAENS


O outro nome máximo do Simbolismo brasileiro, Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), forma latinizada de Afonso Henriques da Costa Guimarães, nasceu em Ouro Preto, filho de pai português, sendo sua mãe sobrinha materna de Bernardo Guimarães. Aos dezessete anos, período em que escreve os primeiros versos, começa a namorar sua prima Constança, filha do autor d'A escrava Isaura, que vem a falecer, tuberculosa, no final do ano seguinte, 1888. Esse fato marcará toda a obra do poeta, indubitavelmente o grande poeta da morte na literatura brasileira, e o maior poeta católico da língua portuguesa. (Alexei Bueno, Uma história da poesia brasileira)

HÃO DE CHORAR POR ELA OS CINAMOMOS... (na minha modesta opinião, o mais bonito soneto da língua portuguesa)

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão – “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria...”
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos firão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: – Por que não vieram juntos?”

ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO

Convidada a entrar na casa, a poesia ficou
ESTÊVÃO BERTONI

O primeiro da família a se arriscar com a pena foi Bernardo, o tio-avô, no século 19. É o autor de A escrava Isaura. O pai, Alphonsus de Guimaraens, como ele, imortalizou-se nos livros escolares como um dos expoentes da poesia simbolista no país.

Ele, Alphonsus de Guimaraens Filho, foi também poeta. Vivia com a casa cheia de amigos obviamente poetas. Em Drummond, tinha um grande amigo. Bandeira foi seu padrinho de casamento.

O matrimônio, por sinal, foi um encontro das letras. Conheceu a mulher ao comemorar, na confeitaria Papi, em Belo Horizonte, um prêmio que recebeu por seu primeiro livro, Lume de estrelas. O local da festa era de propriedade da família dela, também de escritores.

Natural de Mariana (MG), Alphonsus formou-se em direito, em BH. Nos anos 50, foi trabalhar no gabinete do presidente Juscelino Kubitschek. Em 1972, em Brasília, aposentou-se como procurador do Tribunal de Contas da União e partiu definitivamente para o Rio, onde surgiu a rua Lume de Estrelas.

Publicou 25 livros. Mesmo muito caseiro, como lembra o filho, gostava de freqüentar os "sabadoyles", encontros de escritores organizados pelo bibliófilo Plínio Doyle.

Internado com pneumonia, morreu aos 90, na quinta [28/8/08], no Rio. Tinha mal de Parkinson. Deixa três filhos e quatro netos. Nos últimos anos, corrigiu os textos dos netos Augusto e Domingos. São também poetas. (FSP, Obituário, 3.9.2008)

NESTE PRATO

Neste prato tão sujo nada resta
a não ser a memória de uma festa
de ontem, ou de anteontem, ou deste dia.
Eu me lembro da boca: ela comia,

os dentes ágeis, fresca e sensual.
Eu bem me lembro dela, por sinal
mais do que devorante, devorada
por beijos, rubra e amante, rubra e amada.

Neste prato tão sujo resta vida,
e não só morte. E não só perdida
lembrança, ou desalento, ou coisa assim.

Não é princípio, nem será o fim,
intato, sem fissuras tão mortais.
Podem quebra-lo: não se acaba mais.

(Do livro Todos os sonetos, Edições Galo Branco, 1996)

QUANDO EU DISSER ADEUS...


Quando eu disser adeus, amor, não diga
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao menos na fadiga

da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um "até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.

Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a sua voz me possa convencer

de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irá, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro.

(Do livro Poemas reunidos, José Olympio, 1960)

AMÉLIA ALVES


Amélia (Maria de Almeida) Alves é poeta e educadora nascida em Campos dos Goytacazes, onde, após a graduação em Letras foi co-fundadora do Grupo Uni-Verso, pelo qual publicou Vácuo e Paisagem (poesia e prosa poética).

No Rio de Janeiro, fez mestrado em Educação na área de Tecnologia Educacional UERJ), especializando-se em TV Educativa e Educação à Distância, exerceu o magistério universitário nas disciplinas Literatura Infantil, Estética da Expressão Escrita e Teoria da Educação, ao mesmo tempo em que publicou artigos e ensaios em periódicos e revistas especializadas.

Em 2005 publicou seu segundo livro, Atrás das borboletas azuis (Oficina do Livro). Poema abaixo inédito, gentilmente fornecido pela poeta.

CONFIDÊNCIA
     A Drummond

Sou de Campos.
Por isso sou áspera
Como a textura
Da folha da cana.

Nasci em Campos.
Por isso sou plana
tal a plenitude
da planície.

Sou planície.
Por isso sou fluida
como o melado
escorrido entre ferros
e mãos encardidas de sol
e escravidão.

Sou moenda.
Por isso sou seca
como o bagaço
largado pelos currais.

Sou dos Campos dos Goytacazes.
Por isso quero beira de rio — Paraíba,
e vento nordeste
assanhando a cabeleira
dos canaviais.

ANDERSON BRAGA HORTA


Anderson Braga Horta, poeta, contista, crítico literário, tradutor de poesia, nasceu em Carangola, MG, em 1934. Diplomou-se em Direito em 1959, foi jornalista, professor, assessor legislativo da Câmara dos Deputados. Reside há longos anos em Brasília. (Dados e poema obtidos na revista Poesia para todos n. 4).

AFÃ


A vida, essa experiência deletéria
do Ser, que na existência se complica.

A vida, esse impossível que na etérea
face do Cosmos uma ruga implica.

A vida, este sofrer, esta miséria
que uma esperança absurda santifica.

A vida, esta ilusão, maia, aura, aérea
construção que no engano se edifica.

A vida, ávida vide em que a venérea
ave da áurea ventura nidifica.

A vida, esse esplender, essa cinérea
dor de ter sido luz que o céu abdica.

A vida, essa aventura da matéria,
que, no afã de ser Deus, nos multiplica.

ARTUR DA TÁVOLA


Artur da Távola (pseudônimo de Paulo Alberto Monteiro de Barros) é escritor, jornalista (escreve uma coluna para o jornal O Dia), melômano (excelentes seus programas de rádio de música clássica - há anos escreve um livro sobre o compostior romântico Schumann), ex-deputado federal e ex-senador (sempre votei nele; jamais qualquer escândalo maculou sua carreira) e atualmente reitor de uma universidade e diretor da Rádio Roquete Pinto.

A GARÇA

Irritante, egoísta e superior,
macérrima estafeta do sutil
exclamação arrogante e desafeta,
a garça indiferença é solidão.

O silêncio elegante e implacável
como o passo cauteloso de tísica.
Vaidosa, assexuada e impermeável
a garça geômetra é intolerante.

Curiosa, pragmática, pontual,
autista, longilínea, insuportável
em seu hierático olhar de rapina,
a garça não cogita, bica.

Estável, fléxil, sobeja pernalta,
álgido filete de brio, zen na meditação,
virgíneo clarão de um venábulo,
a garça é sina, seca e supina.

Glóssario:
venábulo: espécie de lança ou dardo para caça de feras
supino: alto, elevado, superior

AUGUSTO DOS ANJOS


Curioso, no mínimo, o que se passa com o poeta Augusto dos Anjos. Reconhecidamente, poeta de difícil, muito complexo, vocabulário, a exigir conhecimentos ora puramente científicos, ora filosóficos, para justa e ampla compreensão de seus escritos, poeta cujos versos acabam resultando, por vezes, herméticos e de sofrida "tradução", este mesmo poeta acaba se transformando em escritor dos mais conhecidos, muito lido, e, aqui o mais surpreendente, "decorado", declamado pelo público leitor (ou não).
[...]

Augusto dos Anjos é autor de um só livro, e de um livro que se chama Eu. Indicação curiosa para que vejamos nessa circunstância um autor que, evidentemente, deveria descrever um universo cujo centro era sua própria pessoa. E, interessante, este universo augusto-cêntrico é apresentado dentro de uma avassaladora maioria de versos decassílabos, de tal modo que poderíamos dizer que toda poesia de Augusto é feita em decassílabos, tão raros e tão pouco numerosos os que não têm dez sílabas. Ora, devemos notar que a leitura desses versos nos traz a todo momento a repetição das mesmas idéias. Só o gênio do poeta — dando roupagem a esse pequeno número de idéias — é que faz do livro um dos de maior aceitação entre todos os de poetas brasileiros, além de isolá-lo entre os demais de nossa literatura. (Ivan Cavalcanti Proença, Antologia poética de Augusto dos Anjos)

VENCEDOR

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma
Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT


Saint-Beuve já reparara em pleno romantismo que existe uma poesia caracteristicamente dos gordos e a propósito de umas estâncias bem balançadas de Théophile Gautier exclamara num de seus “Lundis”: “Eis uns versos que um magro nunca poderia fazer.” A poesia de Augusto Frederico Schmidt é assim. Meiga, triste, neo-romântica, mas gorda. Às vezes tem um sabor a Casimiro de Abreu, a Gonçalves Dias, a Fagundes Varela. (Manuel Bandeira, "Um poeta que não quer cantar mais o Brasil" em Crônicas inéditas I)

Schmidt publicou O galo branco em 1948, memórias poéticas, datilografadas por João Conde. Publicara muitos textos no Correio da Manhã, no suplemento literário. Era um prolongamento da sua poesia neo-romântica. Sempre à sombra do enigmático, esquivo Galo Branco, um galo birmanês, elegantíssimo, esguio, longilíneo, solitário, que morava na varanda do apartamento da rua Paula Freitas 20, em frente ao restaurante Le Mazot, em que o poeta muitas vezes se refugiava, triste, ou angustiado, ou melancólico, ou naquelas crises de desespero que o assaltavam. Frágil e trágico poeta. (Antônio Carlos Villaça, "A memorialística brasileira" em Diário de Faxinal do Céu)

QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer o mundo continuará o mesmo.
A doçura das tardes continuará a envolver as coisas todas,
Como as envolve agora neste instante.
O vento fresco dobrará as árvores esguias
E levantará as nuvens de poesia nas estradas —
Quando eu morrer as águas claras dos rios rolarão ainda
Rolarão sempre, alvas de espuma...
Quando eu morrer as estrelas não cessarão de se acender
no lindo céu noturno,
E nos vergéis onde os pássaros cantam — as frutas continuarão a ser doces e boas.
Quando eu morrer os homens continuarão sempre os mesmos
E se hão de esquecer do meu caminho silencioso entre eles.
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer a humanidade continuará a mesma
Porque nada sou — nada conto e nada tenho
Porque sou um grão de poeira perdido no infinito.
Sinto porém, agora, que o mundo sou eu mesmo
E que a sombra descerá por sobre o universo vazio de mim
Quando eu morrer...

BENEDITA DE MELO


"Exímia sonetista, com um verso musical, Benedita de Melo possui apenas um livro publicado: Luz da minha vida. E é realmente a sua luz, pois a poetisa cega encontra na poesia seu iluminado mundo interior. Sua lírica vem valorizada pela capacidade de fixar conflitos psicológicos e situações do cotidiano." (J.G. de Araújo Jorge)

TRISTEZA MAIOR

Ia ser mãe ou ser mulher, talvez;
Indizível anseio a dominava.
Veio-lhe belo o filho que esperava
Em róseo dia de ridente mês.

Pela primeira e derradeira vez
A criança nos seus braços apertava;
E na falta que ao anjo ela deixava,
Vi quanta falta minha mãe me fez.

Nesse momento de aflições sem termos,
Todos os vendavais, todos os ermos
Previ em torno ao ser por quem sofria.

E no meu modo de sentir ou ver,
Eu não chorei a mãe que ia morrer,
Chorei antes o filho que nascia.

CAIRO TRINDADE


Cairo de Assis Trindade, escritor, ministra oficinas literárias há mais de 10 anos no Rio de Janeiro. Tem quatro livros de poesia publicados, duas peças de teatro encenadas, trabalhou como ator nas peças Hair e Hoje é dia de rock. (Informações e poemas obtidos na revista não funciona n. 10.)

???

ela, toda exclamações!!!
ele, sempre reticências...
nunca acertaram os pontos:
a vida foi uma barra /
— cheia de travessões —
até o ponto final

Via-Gen

ávida
a vida havida
— nave navenida —
sem dúvida
nem dívida
é dádiva
di
vi di
da

sintaxe

cansei de ser objeto
hoje sou sujeito
pleno de predicados

Vate em Transe

poema só se faz poesia
se emitir mensagem
se tiver magia
se for viagem

(o poema não é um monte
de palavras vomitadas:
é um vírus visceral
revolucionário)

e um poeta só será poeta
se for fundo, inteiro, intenso
e viver sempre entre
a vertigem e a voragem

CARLOS MACHADO


Carlos Machado é editor do boletim poesia.net, um inventário crítico da produção poética de todos os tempos (com destaque para a poesia brasileira contemporânea e moderna). Carlos Machado também é poeta de mão cheia como mostra em seu Pássaro de vidro, que gentilmente me enviou, do qual selecionei os três poemas abaixo. Para conhecer e assinar o boletim poesia.net, clique aqui.

TREM

Meu destino é perder o trem
para Caxambu.

Há muitos anos vivo na estação.
Todos os dias
os comboios passam.
Deixo passar:
ainda não é hora de partir.

Caxambu fica distante
e é preciso esperar
o momento certo para seguir
uma
vontade
súbita
de me pôr nos trilhos.

Hoje decidi: devo embarcar.
Mas descobri que
nenhum trem passa em Caxambu.

ESFINGES

Alguns, prudentes, não falam com estranhos.
Outros, muito práticos, dizem apenas o necessário
para o bom andamento dos negócios.

Alguns, calmos e sérios, fecham portas e janelas.
Outros, afoitos, ou filhos de um deus sem-terra,
oferecem biscoitos, talvez flores, e longa prosa.

De todos, quem sorri com mais dentes de ouro?
quem finge? quem vê no espelho sua própria esfinge?

ALMA DE RELÓGIO (2)

   É na mudança que as coisas
   acham repouso.
     Heráclito


não dormes:
teu único
repouso
é descobrir-te
em cada momento
sempre
desigual a
ti mesmo

CARLOS PENA FILHO

Aldemir Martins, Gatos

Um fenômeno da poesia pernambucana prematuramente falecido aos 31 anos num desastre de automóvel. Segundo Alexei Bueno em Uma história da poesia brasileira, "dos maiores poetas de sua geração e um dos grandes sonetistas brasileiros. Seu Livro geral, de 1959 [...] é um dos mais importantes livros de sua geração."

A SOLIDÃO E SUA PORTA

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha).

Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

Mais poemas de Carlos Pena Filho em Poesia.Net

CASIMIRO DE ABREU


[Casimiro José Marques de Abreu nasceu em Barra de São João, RJ, em 1839.] Depois dos primeiros estudos, em Friburgo, o pai fê-lo entrar no comércio. Viu-se o jovem poeta diante de uma profissão que detestava. Daí lhe nasceu o desalento, o desencanto da vida, sentimento ampliado por efeito de constituição frágil e demasiado sensível. Passou quatro anos em Portugal, de onde regressou doente, doença que se agravara pela saudade, pela nostalgia. Essa nostalgia, ele a cantou em versos que se tornaram, em grande parte, muito populares. [Morreu em 1860.] (Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Hollanda, Roteiro literário de Portugal e do Brasil, volume II, brasileiros.)

A VALSA

Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...
Calado,
Sozinho

Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!

Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!

CASTRO ALVES


Em 1868, escreveu Machado de Assis sobre o jovem poeta Castro Alves, de passagem pelo Rio com destino à Academia de São Paulo: "A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria.. Se se adivinha que a sua escola é a de Victor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irmã levou-o a preferir o poeta das Orientais ao poeta das Meditações [Lamartine]. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode. Como o poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com igual inspiração e método idêntico; a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma forma esculpida com arte, sentindo-se por baixo desses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a forma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possui; veste as suas idéias com roupas finas e trabalhadas [...]" (R. Magalhães Junior, Vida e obra de Machado de Assis, Volume 2)

ADORMECIDA

UMA NOITE, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente

Estava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos - beijá-la.

Era um quadro celeste!...A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida :
"Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
"Virgem! - tu és a flor da minha vida!..."

TEUS OLHOS (Barcarola)

Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.

Tua voz é a cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento;

E como em noites de Itália,
Ama um canto o pecador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Teu sorriso é uma aurora,
Que o horizonte enrubesceu,
— Rosa aberta com biquinho
Das aves rubras do céu.

Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.

Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;

Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no langor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!?

Teu amor na treva é — um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa — nas calmarias,
É abrigo — no tufão;

Por isso eu te amo, querida,
Quer no prazer, quer na dor,
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

CASTRO MENESES


"A obra deixada por Castro Meneses, apesar de escassa, é uma das mais formosas do nosso momento literário. Entretanto ela está longe, bem longe de representar o que havia de possibilidades naquele espírito excepcional." (Manuel Bandeira em crônica de 1920). Álvaro de Sá Castro Meneses nasceu em Niterói (RJ) em 3 de junho de 1883 e faleceu no Rio de Janeiro a 7 de março de 1920. "Mas como morreste cedo!" (Bandeira). Pertenceu ao grupo simbolista que fundou a revista Rosa Cruz (1901) e a sua principal obra é a Estrada de Damasco (1920).

Calipso

Pela doce paciência de enfermeira
com que procuras encantar-me a vida,
renovando em minha alma a fé perdida
depois de morta a crença derradeira;

Pelo sorriso bom de companheira
que a novas esperanças me convida,
quando vejo, na estrada percorrida
dos meus sonhos a extinta sementeira;

Pela graça de irmã de Caridade
com que teu meigo afeto me persuade
de que lutar confiante é o meu dever;

Bendita sejas Flor de mansuetude,
em cujo seio, finalmente,
pude descansar a cabeça e adormecer...

CECÍLIA MEIRELES


Na Nota Editorial a Flor de poemas, antologia por ele organizada, escreve Paulo Mendes Campos: “Não há poeta moderno em língua portuguesa mais harmonioso do que Cecília Meireles; do princípio ao fim, com o mesmo fino fio de seda a incomparável artífice-e-artista teceu as suas peças inconsúteis [...] Só há uma monotonia em Cecília Meireles: é a inacreditável qualidade de seus versos, é o nítido tecido conjuntivo de toda a sua obra.”

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

O Rei do Mar

Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...
Tempo que navegaremos
não se pode calcular.

Vimos as Plêiades. Vemos
agora a Estrela Polar.
Muitas velas. Muitos remos.
Curta vida. Longo mar.

Por água brava ou serena
deixamos nosso cantar,
vendo a voz como é pequena
sobre o comprimento do ar.
Se alguém ouvir, temos pena:
só cantamos para o mar...

Nem tormenta, nem tormento
nos poderia parar.
(Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...)
Andamos entre água e vento
procurando o Rei do Mar.

Pescaria

Cesto de peixes no chão.
Cheio de peixes, o mar.
Cheiro de peixe pelo ar.
E peixes no chão.

Chora a espuma pela areia,
na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
as mãos do mar pela areia
onde os peixes estão.

As mãos do mar vêm e vão,
em vão.
Não chegarão
aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia,
a espuma da maré cheia.

CLÁUDIO ARAGÃO


“Quando penso em Cláudio Aragão, vejo um milagre brasileiro que se multiplica por esta terra como pães e peixes bíblicos: é o milagre de Vitalino que veio do nada para tornar-se mago do mundo mítico de barro [...] Cláudio veio em 1963 ao Rio num pau-de-arara, atravessando com um grupo de retirantes paisagens de seca e morte durante duas semanas para instalar-se em seguida com mãe e irmã num sótão de subúrbio e depois numa favela. [...] Terminados os estudos universitários, além de lutar pelo sustento, como infelizmente a maioria dos intelectuais e artistas neste país, dedicou-se à literatura.” (Wira Selanski, Prefácio de Anjo Feio)

Cláudio Aragão
é autor de A história da seleção brasileira em cordel e das histórias de vários times de futebol também em forma de cordel, editadas pela Bom Texto.

POESIA

Pouco sei dos prótons e nêutrons.
Do cálculo binário, da origem do Homem,
das estrelas perdidas, dos planetas distantes.
Posso dizer que não decorei
nenhuma canção de guerra.
Ouvi falar, muito de longe,
dos cossacos e dos Kamikazes
e quando o Homem pisou na lua,
confesso,
eu dormia.

Desprezo profundamente
a arrogância humana,
visto que pouco sei do valor do ouro,
da moeda corrente, das terras usurpadas.
Pouco sei dos novos planos do Homem
para o futuro.
Sei apenas dos raios de sol
furando a floresta, trazendo vida.
Sei apenas dos pássaros
voando mais alto que as balas dos canhões.

(do livro Anjo Feio)

SOBRE AS ÁGUAS DO JORDÃO

Tava sentado no leito do Rio Jordão
2.030 anos atrás
quando vi Cristo ameaçar entrar no mar
caminhar sobre as águas.
— Faz isso não, Mestre!
Essa raça não vale um banho!

Os 12 apóstolos me lançaram
um olhar de reprovação.

Foi quando o Senhor os repreendeu:
— Acalmai vossos pensamentos
e deixar vir a mim os Poetas!

CLÁUDIO FELDMAN

"Poeta, escritor e roteirista, professor aposentado de língua e literatura. Polígrafo!!! Cláudio [Bauru, SP, 29.08.44] é um talento ímpar, prolífico, versátil, divertido, criativo. Merece os adjetivos." (Antonio Miranda)


CAVALOS


Os cavalos brancos dos heróis
Suportaram suas duras nádegas
Em mil campos de batalha
Mas não puderam descansar na morte:
Mumificados em estátuas
Continuam a carregá-los
Eternidade adentro
Com o peso adicional do bronze

CONCEIÇÃO ALBUQUERQUE


Carioca, com formação em Direito, funcionária pública federal aposentada. Conceição recebeu o Prêmio Cecília Meireles em 1996 com o livro de poesias inédito Perfil de sombras, concedido pela UBE. Participou como co-autora do livro Poesia em três tempos, publicado em 2001 pela editora Bom Texto, justamente com Maria Thereza Noronha e Rafael Pitanguy.

ESTAÇÕES

Dias tristes esfrego no tanque
levo ao varal e deixo
que lhes acolha o vento.
Os alegres, diluo-os em água
translúcida e doce, à janela
ao dispor de beija-flores
rumo aos longes, pra voltar.

Assim escrevo:
Inventando outono em qualquer dia:
pra me desfolhar, entrar no rio
e me chover de sol.

Germino, germino sem parar.
Cobrem-me folhas e flores
algum orvalho, nenhum bocejo.
Primavero-me.

Até que o inverno me surpreenda
tênue tal fio de teia
enredando-me em palavras, precisas vias
para alcançar o poema.