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O POETA BAIANO CYRO DE MATTOS ESCREVE SOBRE A POETISA MINEIRA MARIA THEREZA NORONHA

POESIA COMO ÁGUA DE MINA

Cyro de Mattos



O contexto pode até ser de amores, desamores e amizade. Sem admitir a esperança na metáfora esporádica. Expresso por meio de cânticos, canções e cantigas, o tema com o efeito cinematográfico ou sob o clima do surrealismo. Faça-se com experimentos poéticos, nele habitem os gatos na hora do afeto e da saudade. Transpire com os motivos do cristianismo, a memória com as suas raízes africanas, traga versos na ideia transparente, tocante, surpreendentes e satíricos, convite para dois dedos de prosa em torno da filiação ao álcool, por exemplo.

Assim é que Maria Thereza Noronha apresenta-se em Face de Outono, um livro de poeta madura, com várias tonalidades no seu alto nível de criatividade poética, correspondendo sem esforço ao que a vida propõe em seus dilemas e limites. Proceda de zonas lusitanas, com a abordagem do tempo. na travessia da memória, no verso livre, moderno, tradicional em que entram primorosos sonetos. Ela é suave, amorosa, trágica e triste, seu olhar com a face de outono e sua música de alma sensitiva são tecidos com as formas do encanto e do enigma.

Como a brisa que afaga, opera a partir de pequenos e de grandes momentos, sem a grandiloquência dos heroísmos, sempre com a expressão límpida e o conteúdo cheio de sentimentos, que gravita numa estação entre o alto e o baixo astral, os ditos com delicadeza. Água de mina molhando o pensamento e a razão, revela a vida por dentro, por entre os seres e as coisas, anunciados onde haja amor com suas invenções e imagens nascidas da fonte pura, presentes ou passadas. Com toques sutis no fluxo de águas translúcidas, lembradas às vezes com as amargas, há reflexões para acender a esperança nas feridas cicatrizadas. Nessa poesia de precisão vocabular e jogos imagísticos, a candura e o ardor da beleza ressoam nas impressões retiradas de bodas com o coração e a razão, de elogio ao bom senso com a sua fluência pessoal própria.

        Variação de outros poetas em poucos momentos, sempre íntegra e pessoal em sua iluminada atividade criativa, essa poesia também é feita com a entonação puxada como suave canto de pássaro. E, ao mesmo tempo em que encanta, faz pensar na alma sensitiva que sai de seu ritmo cristalino, conduzindo sentimentos dentro dos seres e dos elementos, com os seres e os objetos dentro dela, numa conexão perfeita da palavra mítica bem empregada, os símbolos construídos exatamente com as chamadas da vida e da morte.

        Sempre há uma genuína intuição do que pretende dizer com riqueza de vozes, dotadas de significados agudos, na demonstração de que o eu lírico sabe refletir e bem quando o teor de sua literatura gravita com grandeza. Não é só ardor de sentimentos, impulsos românticos de achados felizes. Em meio ao desconsolo onde vivemos há também no seu entorno criativo o poder de inventar com o conceito, que ocorre na direção do ser-estar, justamente quando se tem em mente a sobrevivência do tempo humano e sua história feita com movimentos constantes, paradoxos e estranhamentos.

Como bem diz a poeta nos três últimos versos do soneto “Canção Redonda”, toca-se aqui uma lira em que se desprendem temas difíceis com os seus mistérios, que ensejam incertezas, da vida como dor, com as suas emboscadas, o seu beijo ferido em saudade, com uma linguagem aparentemente fácil mas nunca hermética, submissa a um código que só o autor entende. Pelo contrário, persiste na imagem singela formada às vezes com o gesto dos anjos, que a noite acende com as luzes da esperança e da ternura, da graça e do amor, por meio de palavras que consolam. .

No poema “Amargas”, em que fala “das palavras que gelam nas veias, pronunciando axiomas”, intolerantes semeiam “o pão que o diabo come”, e se indaga “quem cantará a palavra que consola e dulcifica sem mácula”, a resposta que teremos está nessas águas translúcidas singrando o que nela habita. E esse é o melhor alento que nos dá essa poesia que mata a sede com a água de mina, na corrente mansa salpica a sua face de outono, de cujo olhar emerge sentimentos do que mais possa sonhar, auscultar e dizer com sensibilidade o indizível. .

É verdade que muitas lembranças minguam, tantas que se enredam de “dor ou cor, ou flor, ou glamour, de saudade e amizade, brumas” , mas recorrente à sua crença, envolvente em seu abraço, essa alma de poeta, que é verdadeira, intensa, em Maria Thereza Noronha, nos diz que as espumas de sua poesia a todos enternecem. Porque afaga como o vento em carícia, diáfana transluz seus efeitos de alto astral em celebração da vida. Fica sempre a impressão de que seus versos nunca aborrecem. Clareiam a noite como as estrelas, perfumam com as flores diurnas, pois tudo que nela ressoa são de poemas dotados de uma clarividência que brilha ante o efêmero, riscados permanecem com as suas verdades no instante do eterno.

*Face de Outono, Maria Thereza Noronha, prefácio de Ivo Korytowski, contracapa de Alexei Bueno, Editora Sopa no Mel, São Paulo, 2026. A edição impressa do livro está esgotada, mas uma versão PDF gratuita pode ser obtida clicando aqui.

MARINHAS: "TUDO VALE A PENA / SE A ALMA NÃO É PEQUENA"



MAR PORTUGUEZ
Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.



MARINHA 2
Isabel Corsetti

Espuma nas pedras da praia,
nós na toalha de xadrez.
Crianças e um cesto de santos,
gaivotas e fitas.
Vento de chuva, revirando telhas.
Nadar e amar na areia.

Tesouros, segredos, perdidos medos,
fogueiras e balões
sanfonas e cantos de viola
aguardente com limão
água de cheiro, roupas de algodão
peixe na pedra, farinha e pirão.

Agora hordas na orla, antes só nossa.
Tristes quiosques e pastéis,
tratores, conchas e estrelas do mar.
Construções, calçamento e cones,
gritos e o silêncio das ondas,
picolés e pizzas.

E o arrastão das tardes?
Ambulantes, camarão e coco?
Cores, cabanas e canoas?

Foram-se jangadas e pipas.
E nós na praia, mãos dadas,
pisando em algas
e siris.

Só maresia e saudade.



ÀS MARINHAS
Maria Thereza Noronha

Onda brincando na praia
em anágua de cambraia

dizei-me o que vistes lá
nos altos verdes do mar

se o vistes do branco barco
à proa, de algas ferido

se o vistes em vítreos olhos
de encapeladas espumas

Onda dançando na areia
véspera de lua cheia

dizei-me o que vistes lá
nas escarpas de alto mar

se em sonho transido o vistes
por encanto de sereia

mas ai, que o vistes luzido
e de regresso, dizei-me.

Do livro O verso implume (Rio de Janeiro, Oficina do Livro, 2005) 



MARINHA
Lucia Aizim

No mar o coração entre vagas
No mar esperança entre vagalhões
No mar o amor emerge entre destroços
No mar dia e noite dão-se as mãos.

No mar os anjos trocam as asas
Duendes invadem os poços
e se desvanecem.

Afastado o sonho
ao alcançar a dura
superfície.

O amanhã resplandece.

Do livro Cânticos (Rio de Janeiro, Sette Letras, 2000)



MAR DO NORTE
Wanda Lins

sinto-me hoje como uma praia
do Mar do Norte
sob o chumbo algodoado
do céu invernal

gris a mais não poder

deserta

tão somente algumas gaivotas
mergulhando e bicando
a tristeza encrespada do mar


Do livro 50 tempestades



O REI DO MAR
Cecília Meireles

Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...
Tempo que navegaremos
não se pode calcular.

Vimos as Plêiades. Vemos
agora a Estrela Polar.
Muitas velas. Muitos remos.
Curta vida. Longo mar.

Por água brava ou serena
deixamos nosso cantar,
vendo a voz como é pequena
sobre o comprimento do ar.
Se alguém ouvir, temos pena:
só cantamos para o mar...

Nem tormenta, nem tormento
nos poderia parar.
(Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...)
Andamos entre água e vento
procurando o Rei do Mar.


Do livro Flor de poemas



MAR
Paulo da Mata-Machado Júnior

Mar de poesia, mar de mármore, mar de Minas,
mar de amplas possibilidades telúricas
mar que tem um ar assim, de quem já viu tudo
e é sempre cúmplice. Forja, bigorna e martelo.

Plasma líquido, verde vaga, voga incontido
abismo, vórtice por si mesmo escalavrado.
Mar medicinal, mar curativo mar remédio,
onda, tempestuosa língua
lambida áspera que golpeia a pedra
e com sal pensa os ferimentos decorrentes.

Mar de amar, maré, amarração
mar muro, maravilha, mel, marmelo
entre azuis, ouropel, verde-amarelo
seda, âmbar, mate, limonada;
e agora também em sabor caramelo.


Do livro Ossos do ofício



BEIRA-MAR
Prosa poética de Ivo Korytowski

Deitado na praia deserta sob a lua cheia, duas visões se me apresentavam: à esquerda, visão da cidade, horrendo amontoado de blocos cavernosos formando intrincados labirintos. À direita, a bonita visão das águas verde-azuladas, cruel sorvedouro de seres humanos (os salva-vidas que o digam!).

Dor de cotovelo. Puta
deprê. Meu amor brigou comigo, me deixou na solidão — a canção do tempo da Jovem Guarda reverbera na minha cabeça. Tempo que cabeça se chamava cuca. Cuca fundida. Tempo que eu era feliz e não sabia.

É doce morrer no mar. Fascínio imemorial pelo mar. Suas profundezas, habitavam-nas entidades: Iemanjá, rainha do mar, Netuno, deus dos mares... O advento da exploração submarina expulsou-os de sua morada, como a exploração espacial despejou São Jorge e o Dragão da lua (a os marcianos de Marte!) Será que ainda resistem em algum plano espiritual (ou outra dimensão física) inacessível aos assédios da técnica?

Àquela mesma hora da madrugada, quantas mulheres, na frieza do leito, curtem saudades do marido velho marinheiro que partiu na escuna pro arrastão em alto mar...

Em tempos idos, quantas lágrimas portuguesas com certeza derramadas, à beira-mar, pelo bem-amado que se partiu por mares nunca dantes navegados — que navegar é preciso.

Sol nascente. Pescadores chegam à praia. As redes repletas de peixes pululantes: chernes, enchovas, sardinhas, uma arraia — saltam, bailam, rodopiam qual trapezista no circo, ou bailarina no teatro. Macabro contorcionismo: vã tentativa de escapar à morte!

É doce viver no mar. Por um instante (qual Pessoa invejoso de um mendigo da rua só por não ser ele, Pessoa), queria ser um desses homens rudes, curtidos de sol e cachaça, que partem, inda madrugada, barra afora, atirar a rede e encher o barco dos frutos do mar. Doce mar de águas tão salgadas.




MARINHA & AUTORRETRATO

Frederico Gomes

Vejo um velho barco atracado
em um antigo ancoradouro;
nesta tarde em amarelo-ouro
de verão – tudo está parado,

imóvel como numa foto:
grafia do que foi um movimento.
Eu sou nesta cena sem vento,
barco frágil num cais ignoto.




POEMAS SOBRE GATOS





O GATO
Aníbal Beça

O gato aparece à noite
com seu esquivo silêncio
de passos bem calculados
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na concha de suas patas

O gato passeia a noite
com seu manto de togado
como se fosse um juiz
de presas resignadas
a sua sentença de sombras
seu apetite de gula

O gato varre essa noite
facho de suas vassouras
vermelhas de olhos ariscos
e alcança nessa limpeza
o movimento mais presto
o guincho mais desouvido

Mais que perfeito no bote
(tal qual Mistoffelees de Eliot)
do pulo que nunca ensina
tombam baratas besouros
peixes de aquário catitas
ao paladar sibarita

Nada à noite falta ao gato
nem a presteza no salto
nem a elegância completa
do seu traje de veludo
para o baile dos telhados
roçando as fêmeas no cio

O gato é ato em seu salto
e a noite luz do seu palco:
ribalta luciferina
lunária ária da lua
na réstia de seus dois gozos
é félix feliz felino

Guardei a sétima estrofe
para o canto do mistério
das sete vidas do gato
e seu tapete aziago
nas noites de sexta-feira
há provas do seu estrago.



SONETO DO GATO MORTO
Vinicius de Moraes

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.




OS GATOS DA TINTURARIA
Cecília Meireles

Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram policromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranquilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria.




ENIGMÁTICOS
Maria Thereza Noronha

Mil vezes sim à casa e velhos hábitos
observando gatos em seus códigos,
que atravessar a praça onde montículos
de medo trazem sombra aos olhos trágicos.

Cem vezes não à fonte com meus cântaros,
inda que rodeada de preâmbulos,
mas entreter-me com gatos e seu lânguido
espreguiçar, em tarde de desânimo.

Mil vezes sim à casa e velhos séquitos
olhando gatos – posto, às vezes vândalos –
rodopiem em sopro e pêlos sôfregos,
que percorrer cidades e seus ângulos

onde outros – esquálidos, telúricos
gatos – riscam em saltos acrobáticos
e sobre a humanidade sonambúlica
pousam olhos de luz, enigmáticos.




A GATA CHRISTIE
Frederico Gomes

a Cristina Costa César, também "gata"
        a Oscar F. Neto e seus gatos

Ela me apareceu na janela 
num salto-assalto repentino, 
como sói acontecer a um felino. 
Quem é ele, indagava-se. E eu: 
                                   - Quem é ela?

Mas que bichana mais misteriosa, 
pensei comigo, enquanto a fitava. 
Também ela, por certo, me achava, 
no mínimo, a coisa mais sem prosa

(ante minha mudez) que já vira. 
E vira para lá, para cá, 
seja no parapeito ou sofá, 
e dorme, e sonha... às vezes delira.

Se seu olhar brilha como cascatas, 
ela é cheia de suspense, mistério;
mas nem sempre leva a vida a sério, 
e rola no chão com flos, baratas;

– que artimanha, que estratagema! 
Com seu caminhar arredondado, 
bem depois do brincar saciado, 
adormece, enrolada em si mesma.

Como boêmia, tem vida noturna: 
se há luar, sem um só pingo de chuva, 
enfeita-se toda, até com luva, 
e volta ao raiar do dia, taciturna,

Que há na noite que tanto a fascina? 
Gato de Botas e Gato Preto, 
gato honesto e gato suspeito? 
E o Cão Feroz, que tanto abomina?

Na rua, parece, há muita aventura: 
corre riscos, vive por um triz, 
mas seu santo é Francisco de Assis, 
pois volta imune da noite escura.

Mas como será o mundo dos gatos? 
Mas o mundo dos gatos é vário: 
Míster Mistofelino e Macário*, 
ambos exercem estelionatos,

seja com mágicas ou com crimes. 
Songamonga e Mambojambo, dois 
felinos arruaceiros... depois 
ainda há outros: mais... ou menos... 
                                                    [sublimes.

E o gato de Schrödinger, o abstrato 
Gato Quântico? Estar-se-á vivo 
ou morto, ninguém sabe... (Esquivo 
à morte em sete "caixas" de gato?)

Contudo, Christie é uma gata à parte,
fazendo dos subterfúgios sua Arte: 
– Ela logo aparece, se triste. 
– Se alegre, desaparece a Christie.

*Mister Mistofelino, Macário, Songamonga e Mambojambo são os nomes dos gatos que, entre outros, encontramos no Livro do Velho Gambá sobre gatos travessos, de T.S. Eliot, em tradução de Ivan Junqueira. Veja mais sobre o poeta Frederico Gomes clicando aqui.




GATO PENSA?
Ferreira Gullar

Dizem que gato não pensa 
mas é difícil de crer. 
Já que ele também não fala 
como é que se vai saber? 

A verdade é que o Gatinho 
quando mija na almofada 
vai depressa se esconder: 
sabe que fez coisa errada. 

E se a comida está quente, 
ele, antes de comer, 
muito calculadamente 
toca com a pata pra ver. 

Só quando a temperatura 
da comida está normal 
vem ele e come afinal. 

E você pode explicar 
como é que ele sabia 
que ela ia esfriar?







Fotos do editor do blog. A foto superior mostra um quadro de Gerson Machado.

MARIA THEREZA NORONHA


Maria Thereza Noronha, mineira de Juiz de Fora, considerada por Ivan Proença "uma das melhores poetas do Brasil-hoje" (eu a considero a melhor de todas), formou-se em Direito pela Universidade Federal dessa cidade e trabalhou como advogada no BNH e Caixa Econômica Federal, no Rio de Janeiro. Participou do Grupo Edições de Minas, de poetas de Juiz de Fora. Durante duas décadas foi aluna da Oficina Literária Ivan Proença. Livros: A Face na água (edição da autora, 1990), Pedra de limar (Edições de Minas, 1993), A face dissonante (Oficina do Livro, 1995), "Alaúde", seção do livro Poesia em três tempos (Editora Bom Texto, 2001), O verso implume (Oficina do Livro, 2005) e 50 poemas escolhidos pelo autor (Edições Galo Branco, 2008). Depois de 17 anos sem publicar nenhum livro, lançou no dia 24 de outubro de 2025 seu Face de outono, com organização e introdução de Ivo Korytowski e texto da contracapa de Alexei Bueno. 

Escreveu Carlos Machado no poesia.net n. 252 de 2008: "Praticante de uma poesia essencialmente lírica, Maria Thereza Noronha pertence à estirpe de brilhantes vozes femininas em que se destacam nomes como Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa. O ponto comum entre essas três poetas está na singeleza do verso, que flui leve e musical." 

Em 2026 o poesia-net dedicou uma nova edição, de número 574, a Maria Thereza Noronha, onde escreve: "Face de Outono constitui uma reunião de poemas produzidos em período mais recente. […] Nesse volume, a poesia de Maria Thereza Noronha mantém os traços fundamentais de sua obra, sempre marcada pelo lirismo e a reflexão existencial sobre a passagem do tempo."

Escreveu Alexei Bueno: "Este seu sétimo livro, Face de outono [...] comprova a grande unidade e a rara altitude da sua obra, em múltiplos registros que não se chocam jamais. [...] A poesia de Maria Thereza Noronha vai das formas fixas ao verso livre, com idêntica habilidade, desde aquelas anteriores ao dolce stil novo, como o romance, até o soneto, que parece gradativamente assumir a preponderância, embora em toda a sonoridade dos seus versos possa perceber-se um longínquo eco dos Cancioneiros. [...]"

O poeta Frederico Gomes, em mensagem enviada ao editor deste blog, escreveu sobre o livro: "O livro da Maria Thereza Noronha é belíssimo, Identifiquei-me muito com ele, sobretudo com a seção 10 (Passagem do tempo & memórias), onde brilha intensamente o poema 'Vela'. Me vi, mais que um leitor, autor de vários poemas. Tomara que ganhe o Jabuti, o livro merece, apesar das 'injustiças dos prêmios' como já disse Drummond."

Você pode baixar um pdf gratuito do livro clicando aqui.



CORES

A dama em preto e branco nos cinzentos
domingos. A amarelinha nos azuis.
Papagaios carmim rosa magenta
levantados no céu, braços em cruz.

Verdes anos. Do rio as pardacentas
águas acalentavam corpos nus.
Mexericas e ameixas cismarentas
ao pôr-do-sol filtravam ouro e luz.

Da imprensa marrom não se sabia.
Laranja, só a fruta merecia
o nome. Na inocência iam as horas.

O bispo em sua roupa solferino.
Nos dedos andarilhos dos meninos
o roxo corrompido das amoras.

Do livro O verso implume

O PROFETA

Chegou sem deixar claro porque vinha.
Viveu ao Deus-dará, lírio do campo
coberto de esplendor, como convinha
a um servo de Deus. Um pirilampo

alumiava suas noites pardas.
Dizia-lhe bom-dia um rouxinol.
Algum lampejo em sua face tarda
à visão de uma garça ou um girassol.

Alimentou-se de ervas e raízes.
Não teceu nem fiou. Tentado, acaso,
rechaçou o demônio e seus matizes.

Partiu como chegou, ao fim do prazo.
E, por anos de vida tão felizes,
lavrou o seu recado em ferro e brasa.

Do livro A face dissonante

CRUZADAS

Cruzei palavras com o vento.
Suspiros e folhas secas
vieram na horizontal
desinências, dissonâncias
na vertical
sussurros e amendoeiras
sopraram em diagonal
anáforas e amor-perfeito
na transversal.

Cruzei palavras com o vento.
Vieram textos canônicos
na vertical
pássaros brancos em bando
na horizontal
sonetos camonianos
no original
e sapos bandeirianos
no Carnaval.

Cruzei palavras com o vento.
Cartas Chilenas chegaram
na horizontal
Castroalvinas flutuantes
espumas na vertical
sermões de Padre Vieira
no areal
Machado de Assis é Aires
no memorial.

Com o vento cruzei palavras.
Vieram folhas em branco
na vertical
vagas estrelas da Ursa
na horizontal
a roca sem fuso ou uso
no vendaval
e um poema esfacelado
na marginal.

Do livro Poesia em três tempos

NO TEMPO EM QUE A CANÇÃO

A música eletrônica me faz nervosa e insone
centopéia no ar gritando com cem pernas
queria envelhecer ao som do gramofone
no tempo em que a canção era abafada e terna.

O tempo onde o mocinho vencia o bandido
e a vida em preto e branco alternava mistérios
vivia-se e ninguém falava ao telefone
e o pai levava o filho a ver o trem de ferro.

Vivia-se e ninguém falava em Microsoft
e a vida, delicada, punha os pés na terra
queria envelhecer ao som de um foxtrote
no tempo em que a canção era abafada e terna.

Do livro O verso implume

ÀS SEIS DA TARDE

Às seis da tarde sempre morro um pouco.
Vou-me embora com o dia. Mas, retorno
para à noite tecer finas mortalhas
onde me abrigarei – mas não tão cedo.

Pela manhã desperto cega e inflável
dependendo do sopro e o espaço em torno.
Devagar, abro os olhos: e aos detalhes
fluidos, olhar mais nítido concedo.

E face ao dia – colhê-lo ou carpi-lo?
Se um tanto tem de flor o outro de cinzas,
desfolhá-lo, indecisa ou despedi-lo?

Que tanto faz me traga as boas-vindas
ou se esconda e ofereça-se em sigilo.
Às seis da tarde morrerei à míngua.

Do livro 50 poemas escolhidos pelo autor

A VOLTA DA BAILARINA (soneto simbolista)

A bailarina de asas transparentes
volta mais tarde, os olhos dardejantes
de Ardor que, em volteios torturantes,
torna seus olhos rubros e dementes.

A volta não lhe traz o mesmo anseio
nem o passo é tão ágil como dantes.
Vem esgarçada e leve, mas distante
um leve véu a cobrir-lhe o seio

Quantas vezes bailou ao sol poente
os brancos pés em mágicos volteios,
encantando aos que a sorte fez presentes.

Mas hoje os pés com calos se distendem
a cada passo que lhe fica ao meio.
Pobre antiga bailarina decadente.


Do livro Face de outono

ÁGUAS PASSADAS

Debruçada sobre os dias,
mazelas inesperadas.
Os fatalistas diriam:
– cartas marcadas.

Posto que esperança é bengala
de fino poder ornada,
diriam os confiantes:
– favas contadas.

Debruçada sobre os dias
feridas cicatrizadas,
digo de antigos amores:
– águas passadas.


Do livro Face de outono

ALGUNS MANDAMENTOS DO POETA (metapoema)

Escolhe com apuro teus vocábulos,
a cabeça não ponhas no patíbulo.

Não espalhes incenso num turíbulo
nem aceites esmolas como um óbolo.

Abre os olhos, ergue os ombros. Cântico
algum de sereia – inda que lúdico –

te seduza. Não andes tal sonâmbulo
pelas letras e motes. Traça um ângulo

(antes que em ti se faça rasa tábula)
de cento e oitenta graus além da fábula.


Do livro Face de outono

POEMAS NATALINOS


CANÇÃO DO DEUS MENINO
Cyro de Mattos


Alegre como passarinho
Lá vou eu pelo caminho
Cantando porque nasceu
Em Belém o Deus Menino.

Esse menino que nasceu
Na manjedoura em Belém
Como estrela nos fascina
Na cidade ou na campina.

Quer os homens como irmãos
Convivendo em comunhão
Dentro de cada coração
Pelos ares ou no chão.

Quer os bichos sem matança,
A vida sem agressão,
A vida sem solidão,
A vida como uma dança.

Alegre como passarinho
Lá vou eu pelo caminho
Cantando porque nasceu
Em Belém o Deus Menino.


Do livro Ecológico

NATAL
Angela Nassim (lynn)


...e depois do Natal
tudo volta ao cotidiano
da materialidade
esquece-se o sentido
da festa vivida

e o Messias?
ficou pregado na cruz


POEMA I da "Primeira Dor" do
Setenário das Dores de Nossa Senhora

Alphonsus de Guimaraens



Nossa-Senhora vai... Céu de esperança
Coroando-lhe o perfil judaico e fino...
E um raio de ouro que lhe beija a trança
É como um grande resplandor divino.

O seu olhar, tão cheio de ondas, lança
Clarões longínquos de astro vespertino.
Sob a túnica azul uma alva Criança
Chora: é o vagido de Jesus Menino.

Entram no Templo. Um hino do Céu tomba.
Sobre eles paira o Espírito celeste
Na forma etérea de invisível Pomba.

Diz-lhe o velho Simeão: "Por uma Espada
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada..."


NUMAS PALHINHAS DEITADO
João Saraiva


Numas palhinhas deitado,
abrindo os olhos à luz,
loiro, gordinho, rosado,
nasce o Menino Jesus.

Uma vaquinha bafeja
seu lindo corpo divino,
de mansinho, que a não veja
e não se assuste o Menino.

Meia-noite. Canta o galo.
Por essa Judéia além
dormem os que hão de matá-lo
quando for homem também.

E, pensativa, a Mãe Pura
ouve, fitando Jesus,
os rouxinóis na espessura
de um cedro que há de ser cruz!...


Extraído de “O Natal na Poesia”, artigo de Dom Marcos Barbosa publicado no Jornal do Brasil de 24/12/81

O ANÚNCIO FEITO A MARIA
Maria Thereza Noronha


Abre-se a asa do Arcanjo
e nela se vê, pousada,
a cabeça coroada
de um rei além deste mundo.

Abre-se a asa do Arcanjo
sobre a sombra de Maria.
E a ela, grave, anuncia
o filho oculto nas nuvens.

Das asas de ouro o Arcanjo
doura a fronte de Maria
com um diadema de luzes
que ofusca a pele do dia.

E ao assombro de Maria,
tal um espelho, do lado
esquerdo na asa, reflete
um coração trespassado.

Não à dor que se anuncia
o amor de mãe sangre e trema:
vê apenas um menino
cheirando a leite e alfazema.

E estende os braços de alfanje
rumo à asa esquerda do Arcanjo.
Enquanto Este já ia longe
deixando um rastro de plumas.

Bizarro e áureo tapete
– facho de luz entre brumas –
onde, serena, a mãe vela
seu ninho de cruz e estrelas.


Do livro A face dissonante

NUM POSTAL COM DOIS CACHORRINHOS E ENFEITES DE NATAL — PERDÃO, COM UM GATO E UM CACHORRINHO
Carlos Drummond de Andrade

Este gato não é de araque,
é de copo de conhaque,
e o malandro cacholinho
fica olhando de fininho
para ver se a dona chega
e acaba com a bagunça.
Enquanto a dona não vem,
os dois fazem seu Natal
entre bolas, contas, flores,
pois neste mundo, afinal,
os dois bichinhos de truz,
como as damas e os senhores,
são filhinhos de Jesus.


Do livro Poesia errante

SONETO DE NATAL
Alphonsus de Guimaraens Filho


É Natal. Foram tantos os Natais...
Pois que é Natal mais uma vez, apreende
esse cântico longo que se estende
por terras, mares, não termina mais.

Natal mais uma vez. Uma vez mais,
o menino que só a estrela entende,
os pais que a treva inquieta, ela, a quem rende
a certeza das coisas abissais.

Pois que é Natal, pensemos no menino,
apenas no menino. E o contemplemos
no berço onde ora está, tão pequenino.

Já quanto aos pais, a meditar deixemos.
Sabem os pais qual a hora do destino.

Fingindo não saber, sonhando olhemos.

Do livro Todos os sonetos, da Editora Galo Branco.



VESTE-SE A TERRA DE AZUL
Maria Isabel (Ferreira), terceira carmelita

Veste-se a terra de azul
enxuga o pranto da espera
foi encontrado um Menino
nos braços da Primavera

Maria rosa orvalhada
nuvenzinha aparecida
deixaste chover o Justo
sobre o deserto da vida.

Adeus chão do nunca mais
adeus abismos do medo
chegou quem nos levará
como um anel em seu dedo.


Extraído de “O Natal na Poesia”, artigo de Dom Marcos Barbosa no Jornal do Brasil de 24/12/81. Poema possivelmente nunca publicado em livro, dedicado a Dom Marcos.

POEMA II da “Segunda Dor” do Setenário das Dores de Nossa Senhora
Alphonsus de Guimaraens


Fora uma estrela de fulgor imenso
Que os guiara, em noite incerta, ao Lugar-Santo...
Mirra trouxera Beltesar: incenso
Gaspar: Melchior o ouro que fulge tanto.

Eram vales e montes, e era o denso
Bosque, e o campo espraiado em verde manto:
E ao luar, todo de jaspe, e ao sol intenso,
Seguiam na asa de celeste encanto.

Quando se viram sob o mesmo teto
Que abrigara a Família imaculada,
Brotou-lhes na Alma a Flor do etéreo Afeto.

E os Reis Magos, o olhar humilde e terno,
Os Diademas tiraram, poeira e nada,
Diante d’Aquele que era o Verbo eterno...


SONETO DE NATAL
José Antonio Jacob


Essa mulher, que sonha, sofre e chora,
E o escasso seio estende, e o acaricia,
Ao filho magro, que seu leite implora,
Podia se chamar Virgem Maria.

O que lhe importa se essa noite é fria
E além da porta é Natal lá fora,
Se Jesus Cristo nasce todo dia
E está dormindo no seu colo agora?

Ela é Nossa Senhora da Pureza,
Cuida da nossa vida de pobreza
E ora por nós que somos filhos seus...

Essa Mulher, que sonha, sofre e chora,
Só pode ser então Nossa Senhora,

A Mãe de todos nós... A Mãe de Deus!




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DIA DO POETA (20/10)


ALGUMAS COISAS QUE O POETA É
Jamil Damous (do livro A camisa no varal)

O poeta é um gavião
espreitando a beleza,
sua presa, seu pão
de cada dia.

O poeta é um avião
sobrevoando
sem mapa
a mata espessa,
a solidão.

O poeta é um peão
construindo sozinho
o edifício do sim
só com os tijolos do não.

O poeta é um cão
rondando a mesa do difícil,
os restos do fácil,
o osso do seu ofício.



MÁGICO
Vera Tavares (texto gentilmente fornecido pela autora)

Lembra circo: palhaço, mágico, domador, equilibrista, contorcionista.

Por um fio invisível ele desce até o mais profundo do mar, e lá se acomoda, permanece hibernando, fugindo e fingindo.

Passado o perigo, numa onda volta à superfície — desliza, salta, surfa. E à terra volta.

Sombra, por entre transeuntes passa. E bons desejos almeja. A canção da paz solfeja.

Enfatiza o amor, receita o amor para qualquer coisa, mazelas inclusive.

Refaz o mundo desfazendo as tristezas, dando sumiço às mágoas, derrubando as incertezas, apagando a solidão.

Mundo novo vestido de guirlandas coloridas, bonitos sorrisos. Céu azul jorrando luz. Estrelas estalando beijos de felicidade.

Sonho do poeta.


DIA DO POETA
Maria Thereza Noronha (do livro O verso implume)

O dia do poeta acende a sala
de palavras: antena outono tâmara
todas compondo a egrégora que a rama
dos anos vai tecendo em fina opala.

O dia do poeta acende a fala:
imagens abrem frestas sobre o tema.
E pouco importa a chama seja efêmera
se eterna é a poesia onde se cala.

À flor do dia luminosa esteira:
vão chegando Drummond, Vinícius, Mário,
Jorge de Lima, Cecília, Bandeira.

Sentam-se à mesa dos eternos topos.
Colhem o dia, acordam tempo vário.
E, como Mallarmé, batem os copos.

Glossário:
egrégora - termo do esoterismo, designa a somatória de energias mentais, criadas por grupos.
topos - grandes temas da literatura, por exemplo, o tema do bucolismo, dos tempos idos e vividos, do carpe diem.


VENCEDOR
Augusto dos Anjos (um dos poetas mais populares no Brasil, durante sua vida só publicou um livro, Eu, cuja edição foi custeada pelo irmão)

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma
Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!


TRIBO POÉTICA
Manuel de Souza (escrito em Luanda, Angola, a 30 de Setembro de 2005 e dedicado a todos os Poetas de todos os tempos e almas)

Cada vez mais...
Sou indígena da Tribo Poética
Em minhas veias
Agora pela presente
Ao invés de sangue
Circula uma torrente de letras
Jorra um fluído rico em palavras
Meu coração bombeia verbo atrás de verbo
Meus órgãos foram substituídos
Existem no seu lugar imensas bibliotecas
Completas com livros ainda por desfolhar
Minha Alma é uma Prensa Cósmica
Onde se editam páginas sem fim...
Inspiro-me nos raios que advêm das Estrelas
Bebo a seiva da Vida na Fonte Divina
Alimento-me da poeira vinda das Galáxias
Ilumino frase atrás de frase
Página após página...
Com a Luz Maior da Eternidade
Sirvo-me da Mente do Criador como tinteiro
Como se minha própria pena de escriba
Seja em si e em minhas mãos
Uma espécie de Maná de literatura poética
De cuja natureza e essência
Seja ela de origem física ou espiritual
Sou eu próprio feito ...


RECEITA DE POETA
Ivo Korytowski (dedicado a Vinicius, que nos deu a "Receita de Mulher")

O poeta não precisa ser boa-pinta
Mas tem de escrever coisa supimpa.

Não precisa ser um Humphrey Bogard
Contanto que componha uma bela obra.

Que se chame João, José, Almir
Sob a condição de que saiba escandir.

Não importa se branco, índio, preto
Mas tem de compor um belo soneto.

Não importa se pardo, moreno ou louro
Se o soneto culminar em chave de ouro.

O poeta pode até ser meio franzino
Mas tem de compor em alexandrino.

O poeta pode ser coxo ou manco
Mas que se esmere no verso branco.

Ao falar, quem sabe seja gago?
Mas ao escrever tem de ser um Machado.

Na vida real pode até ser vulgar
Mas na poesia tem de saber rimar.

O poeta pode até ser casmurro
Mas precisa escrever com apuro.

O poeta pode até ser ferino
Se compuser como manda o figurino.

Admite-se um poeta pecador
Mas tem de escrever com vigor.

Acaso esqueceu aberta a braguilha?
Tudo bem se compuser redondilha.

Tudo bem que seja bonachão
Se escrever do fundo do coração.

Que seja porventura malandro
Contanto que componha um ditirambo.

Quem sabe seja um paxá?
Mas não pode escrever rima má.

Não é preciso ser trovador
Mas não vá rimar "amor" e "dor".

O poeta pode até ser palhaço
Contanto que nos eleve ao Parnaso.

Do poeta não se exige origem nobre
Contanto que evite a rima pobre.

Que se meta, vez ou outra, num entrevero
Contanto que escreva com esmero.

Pode até ser meio que "filha-da-puta"
Mas tem que escrever coisa batuta.

O poeta pode ser meio cavalar
Contanto que evite a rima vulgar.

Tanto faz se de esquerda ou direita
Contanto que a rima seja perfeita.

No dia-a-dia pode até ser trapalhão
Mas na métrica tem de ser campeão!


POETAS
HFroidi (da revista não funciona n. 10)

Poetas não nascem em Belém
Poetas não são homens de bem
Poetas não dizem ao que vêm
Poetas não são business men

Poetas não vivem de salários
Poetas jamais são necessários
Poetas na roda dos contrários
Agora são bons publicitários

Poetas não têm objetivos
Não são economicamente ativos
Poetas são enterrados vivos
Em sepulturas de livros


VATE EM TRANSE
Cairo Trindade (da revista não funciona n. 10)

poema só se faz poesia
se emitir mensagem
se tiver magia
se for viagem

(o poema não é um monte
de palavras vomitadas:
é um vírus visceral
revolucionário)

e um poeta só será poeta
se for fundo, inteiro, intenso
e viver sempre entre
a vertigem e a voragem