Todo mundo deve ter seu livro favorito, assim como tem seu filme favorito, sua cidade favorita. O interessante é que hoje, do alto de meus mais de setenta emocionantes anos, meu livro favorito continua sendo o mesmo do tempo em que tirei esta foto. Ou seja, décadas de leitura não modificaram meu livro favorito: Os Miseráveis, de Victor Hugo. Quem me induziu a ler o livro que se tornaria meu favorito foi meu pai.
O meu livro favorito deve ser o romance mais longo da literatura, ou pelo menos do século XIX. Li pela primeira vez quando tinha uns 16 ou 17 anos. Ainda não estava na faculdade. Como eu era filhinho de papai de Zona Sul carioca, com muito tempo ocioso, levava o livro para a praia e ficava horas devorando as páginas.
O meu livro favorito é uma obra-prima do romantismo francês. Tão cinematográfico em sua ação e ambiência, embora quando escrito o cinema nem tinha sido inventado. Mas depois que inventaram, paradoxalmente, nenhuma versão cinematográfica ou em série de TV sequer chegou aos pés do livro. Em anos recentes virou um megamusical, que virou filme também, mas nada substitui sua leitura.
Reli meu livro favorito, em edição portuguesa de Portugal em vários volumes quando sofri uma doença dos pulmões em 1986 que contraí nos frios da Escócia. Passava a noite tossindo, tossindo, e lendo, lendo...
É uma dessas obras monumentais (como também é Great Expectations do Dickens ou Guerra e Paz do Tolstoi)que só a estética do romantismo europeu conseguiu produzir, com personagens maiores do que a vida, dramas de tragédia grega, amores impossíveis que acabam se realizando, tendo como pano de fundo acontecimentos históricos: a Batalha de Waterloo, as barricadas de Paris na Revolução de 1832. Desfilam pelos olhos da imaginação do leitor o ex-bandido convertido em paladino da virtude, que resgata uma criança vítima de abusos, mas é perseguido implacavelmente por um inspetor da polícia obcecado, levando-o a viver anos clandestinamente num convento e a uma fuga eletrizante pelos meandros dos esgotos de Paris.
Recentemente dei-me conta de que não conhecia quase nada da vida do autor de meu livro favorito, o que me levou a ler sua biografia de 1998 pelo historiador inglês, especializado em história e literatura francesa, Graham Robb. Com suas quase 700 páginas de texto (sem contar os apêndices, notas e bibliografia), trata-se de um fascinante e abrangente relato da vida e obra desse gigante da literatura e poesia francesa. O biógrafo narra detalhes que você não encontrará em qualquer biografia, mas algumas passagens são um tanto divagantes e especulativas (meio que filosóficas ou psicanalíticas), difíceis de entender para uma mente mais objetiva. Graças a essa biografia descobri uma outra faceta do autor, como genial poeta, comparável em grandeza a um Goethe.
Ao comentar essa epifania com Alexei Bueno, ele observou: "O Victor Hugo era mais poeta do que qualquer coisa. Embora ele tenha sido imenso em todos os gêneros literários, além de um dos maiores desenhistas do século XIX, nele nada supera o poeta. Baudelaire sai dele, toda a poesia moderna, de certo modo, sai dele, até o surrealismo sai dele. E o homem não era menos fascinante do que o artista."
Obra máxima da literatura israelense contemporânea em primorosa tradução para o português de Milton Lando. Livro de memórias que você lê como se fosse um romance, de tão agradável leitura. Abrange 1) a história das famílias materna e paterna do autor, oriundas do leste europeu, que felizmente conseguiram emigrar a tempo para a então Palestina britânica, escapando do terrível morticínio provocado pelos nazistas; 2) a história da vida e formação intelectual e artística do autor, alternando passagens trágicas, líricas e divertidas; e (3 - um aspecto interessantíssimo da obra) a história da formação do moderno estado judaico vista não por um historiador frio, mas pelas testemunhas dos acontecimentos. (Esta foi minha avaliação que deixei registrada na página do livro no site da Amazon.)
TRECHOS DO LIVRO:
Lá, no mundo, os muros estavam todos cobertos de frases hostis: “Judeu, vá para a Palestina”. Muito bem,
viemos para a Palestina, e agora o mundo inteiro grita: “Judeu, saia da Palestina”.
A única coisa que tínhamos em abundância eram livros.
Quando eu tinha uns seis anos de idade, chegou o grande dia para mim: papai esvaziou um cantinho da uma
de suas estantes e permitiu que eu transferisse meus livros para lá.
O cheiro da imensa biblioteca de meu tio me acompanhará vida afora: o odor empoeirado e sedutor dos sete
saberes ocultos, o perfume de uma vida silenciosa e retirada, dedicada à erudição, a vida quieta de um
ermitão, o silêncio espectral que se elevava das profundezas do conhecimento e da doutrina, os sussurros
vindos dos lábios de sábios mortos, o murmúrio dos pensamentos secretos de escritores que já então
habitavam o pó, o gélido afago de autoridade das gerações passadas.
O amor é uma mistura estranha de uma coisa com o seu contrário, a mistura do egoísmo mais egoísta com a
mais completa devoção. Paradoxo!
As famílias judias sempre foram assim: acreditam que o estudo é a garantia do futuro, a única coisa que
ninguém, nunca, vai poder tirar dos seus filhos, mesmo que sobrevenha, D’us não permita, outra guerra, outra
revolução, outra emigração de país para país, mais leis discriminatórias — o diploma sempre se pode dobrar e
esconder rápido nas costuras das roupas e fugir para onde for permitido aos judeus viverem.
O diploma — essa é a religião dos judeus. Nem riqueza, nem ouro.
Minha mãe tinha trinta e oito anos quando morreu.
Durante grande parte da minha infância fui um menino solitário, sem irmão ou irmã e quase sem amigos.
Escrever um romance, eu disse uma vez, é mais ou menos como montar toda a cordilheira dos montes Edom
com pecinhas de Lego. Ou como construir uma Paris inteira, edifícios, praças, avenidas, torres, subúrbios, até o
último banco de jardim, usando apenas palitos e meios palitos de fósforo colados. Para escrever um romance
de oitenta mil palavras é preciso tomar no decurso do processo algo como um quarto de milhão de decisões.
Meu pai também não gostava de religião: os sacerdotes de todos os credos sempre lhe pareceram um tanto
suspeitos, homens ignorantes que fomentavam antigos ódios, semeavam medo, difundiam falsas doutrinas,
derramavam lágrimas de crocodilo, eram mercadores de objetos sagrados, de falsas relíquias e de todo tipo de
crenças vãs e preconceitos.
Minha mãe me disse que embora os livros possam mudar ao longo dos anos, assim como as pessoas, a
diferença está em que, enquanto as pessoas sempre nos abandonam quando percebem que não podem mais
obter nenhuma vantagem, prazer, interesse ou pelo menos um bom momento de nós, um livro nunca vai nos
abandonar.
Os ingleses estavam a tal ponto furiosos conosco por causa das afrontas estúpidas dos nossos dirigentes
sionistas fanáticos que Londres simplesmente tinha resolvido deixar que os árabes nos trucidassem de uma
vez por todas.
Havia os que acreditavam que a consciência do mundo civilizado, ou a opinião pública progressista, ou a classe
operária internacional, ou o amplamente difundido sentimento de culpa pelo terrível destino dos judeus na
Europa, tudo isso junto neutralizaria o “Complô Anglo-Árabe para Nossa Extinção”.
Surpreendentemente, a União Soviética de Stalin se juntou aos Estados Unidos para apoiar a criação de um
Estado judeu ao lado de um Estado árabe na Palestina. É possível que Stalin tivesse antevisto que a aprovação
da partilha conduziria a um longo e sangrento conflito na região, e que na confusão ele teria como abrir uma
brecha para os soviéticos numa área até então dominada pelos britânicos no Oriente Médio, próxima às
jazidas petrolíferas e ao canal de Suez.
Não foi um grito de alegria, nem um pouco parecido com os urros dos estádios, nem com nenhuma
manifestação de multidões arrebatadas de alegria, talvez como um berro de terror, de choque, um berro de
assombro, de catástrofe, um grito de mover pedras, de congelar o sangue, como se todos os mortos e todos
aqueles que ainda haveriam de morrer houvessem naquele mesmo instante juntado suas vozes ao rugido da
multidão, que cessou de repente, e depois de mais um momento de assombro foi trocado por gritos de
felicidade, e berros de Am Israel Hai, o Povo de Israel Vive [reação da população judaica ao ouvir pelo rádio que a ONU aprovara a partilha da Palestina entre árabes e judeus]
Meu filho, veja isto, abra bem os olhos e observe muito bem tudo isto, porque esta noite, meu filho, você
nunca vai esquecer, até seu último dia de vida, e sobre esta noite você ainda vai contar aos seus filhos, aos
seus netos e bisnetos, ainda por muitos anos, depois que não estivermos mais neste mundo.
Nunca em minha vida, nem antes daquela noite nem depois, nem mesmo quando minha mãe morreu, eu
tinha visto meu pai chorar.
Os israelenses estavam extremamente orgulhosos por sua vitória, com a absoluta certeza de estar com a razão
e tomados por sentimentos de supremacia moral. Naqueles tempos não havia quem se preocupasse com o
destino de centenas de milhares de refugiados palestinos, dos quais muitos tinham fugido, e muitos outros
simplesmente tinham sido expulsos das cidades e aldeias conquistadas pelo Exército de Israel.
Do ponto de vista deles [dos palestinos], somos [os judeus] estrangeiros vindos de outro planeta, que aterrissaram e invadiram as suas
terras.
Muito jovem ainda, na aldeiazinha de Plonsk, na Polônia Oriental, Ben Gurion tinha já duas idéias básicas: que
o povo judeu devia voltar a ter sua pátria em Eretz-Israel, e que ele era a pessoa indicada para liderar esse
povo.
“Isto é, eu diria isso se acreditasse em presságios, e se acreditasse que o céu se interessa por nós. Mas o céu é
indiferente. Com exceção do Homo sapiens, todo o universo é indiferente. E para falar a verdade, a maior
parte das pessoas também é indiferente. Considero a indiferença a grande característica de todo o universo.”
É verdade, todos os seres humanos nasceram iguais — esse é o fundamento da vida no kibutz, mas o campo
do amor pertence às forças da natureza, e não à assembleia-geral. E o campo do amor, como se sabe, está
destinado apenas aos mais altos cedros, e não aos tufos de capim.
Noite após noite, nos reuníamos [no kibutz] para fazer juntos algo bem barulhento, quase selvagem, até a meia-noite.
Até depois da meia-noite. Para a escuridão não se infiltrar nos quartos nem nos ossos e não apagar a alma.
Precisávamos cantar, gritar e nos empanturrar de comida, discutir, brigar, fofocar, contar piadas, tudo para
afastar a escuridão, o silêncio e os uivos dos chacais. Naqueles tempos não havia televisão, nem videocassete,
nem estéreo, nem internet, nem jogos de computador.
Aos quinze, dezesseis anos, eu admirava a alegria transbordante de Nili [que viria a se tornar esposa do autor] como quem admira a Lua cheia:
distante, inatingível, mas emocionante e arrebatadora.
TEXTO DE AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO DE 22 DE FEVEREIRO DE 1971, DO SEU QUARTO LIVRO DE MEMÓRIAS, ALTO-MAR MARALTO (p. 1484 na edição da Topbooks). FOTO OBTIDA NO SITE VINA.
DOMINGO CHUVOSO DE CARNAVAL O ruído da chuva me deprime. O ruço da serra apagou as montanhas, para além do vale e, agora, sobe pela mata e alcança o meu terraço. Revivo e reconheço a tristeza que me invadia em moço, naquelas tardes nevoentas de sanatório suíço. Naquele tempo o sanatório era uma espécie de navio, de onde eu podia desembarcar na vida. Agora...
De repente volta-me uma cena de Carnaval que jazia sepultada no esquecimento. Eu teria uns 6 ou 7 anos. Vinha com meu pai e minha mãe, a pé, pela rua da Bahia. Fazia escuro e aquele ponto alto da rua, próximo à praça da Liberdade, estava quase deserto, O Carnaval de Belo Horizonte ficava mais embaixo, no largo fronteiro ao Teatro Municipal. Eu andava na frente, com meu lança-perfume na mão. Na soleira da porta vi a menina sentada. Era moreninha, calada, muito triste. Ao passar, lancei-lhe o esguicho gelado. Ela não reagiu, continuou calada, sentadinha, os olhos tristes no chão. Voltei ao encontro de meus pais e, de novo, provoquei a menininha triste, que continuou indiferente. Com meu inútil lança-perfume, senti-me tão só como agora. Por que retorna, de repente, esta visão perdida? Que podem significar hoje, para mim, estes escombros desaparecidos? A rua é outra, diversa a cidade, mortos os pais há tantos anos, para sempre desaparecidos o menino e a menina, que num relâmpago cruzaram suas vidas. Só a tristeza e a indefinível sensação de abandono são as mesmas, finas e pungentes.
É tão difícil escrever! Mais difícil que fazer um laço de
gravata é fazer uma sentença. E para fazer um laço de gravata
George Brumell, o “beau” Brumell, torturava-se horas a fio diante
do espelho. […] Escrever bem não é garatujar uma folha de papel.
Nós, os garatujadores, é que temos essa ideia. Daí ser a
literatura o templo mais infestado de falsos profetas. Pessoas que
diante de um piano não ousam tocar nem de leve na dentadura
escancarada do instrumento, com medo de ofender o instinto melodioso
do gato que ronrona sobre o sofá, garatujam uma folha de papel com a
maior sem cerimônia deste mundo. E supõem que escrevem.
Deviam os escritores de verdade formar uma liga contra nós,
garatujadores impertinentes, e destinada a criar mais respeito pelo
escrever. A liga deveria mostrar que escrever é mais difícil que
tocar piano.Escrever é brincar com palavras como o domador brinca
com as feras.E as primeiras são tão difíceis de amansar como as
últimas.
Texto do então jovem Gilberto Freyre, estudante das Columbia
University nos EUA, para sua coluna “Da Outra América” de
15/8/1920, no jornal Diário de Pernambuco. Embora se
considerasse um “garatujador”, com apenas 20 anos de idade Freyre
já escrevia feito um mestre, como atestam as várias crônicas desta
coluna, inéditas em livro, mas acessíveis na Hemeroteca
Digital da Biblioteca Nacional.
O livro, que nas primeiras cem ou duzentas páginas empolga pela originalidade, genialidade, pela fusão de elementos eruditos, ibéricos, com a cultura popular nordestina, etc., pelos muitos causos narrados, acaba cansando o leitor devido à extensão desmedida, repetitividade, constante embate ideológico esquerda versus direita (neste quesito o romance é atual), um narrador delirante "monarquista de esquerda" que se julga o legítimo pretendente ao trono brasileiro, derramamento de sangue e violência excessivos (parece que o autor tem obsessão pela palavra "sangue", que figura mais de quatrocentas vezes na obra, conforme contagem do meu Kindle).
O leitor que persiste na esperança de um final revelador se decepciona. A história é tão rocambolesca, com tantos personagens, que fica difícil montar uma boa síntese na cabeça (ou no papel).
Esta foi a minha impressão, que registrei nas avaliações da página do livro na Amazon. Dei nota 3. A maioria dos leitores deu nota 5, resultando em uma média de 4,8. Esta minha impressão negativa em nada reduz a grande admiração que nutro pelo Ariano Suassuna e sua atuação em prol da cultura brasileira. E adoro seu Auto da Compadecida. Se você discorda de mim deixe seu comentário.
Machado
de Assis(Rio
de Janeiro, 21/6/1839–29/9/1908), filho de mãe branca, açoriana,
e de pai “pardo forro” (portanto, longe de ser um “negro”
como queria Harold Bloom), além de suas vertentes de romancista e
contista mais conhecidas do público leitor atual, foi também
tipógrafo e revisor (no início da precoce vida profissional),
repórter político (fazendo a cobertura das sessões do Senado),
poeta romântico (que, ao contrário dos colegas de estro, não
morreu jovem de tuberculose), crítico teatral, censor de peças de
teatro, teatrólogo (com peças “datadas”, que não são mais
encenadas), funcionário público (no bom sentido, trabalhador, usou
de seu poder no serviço público para proteger os escravos),
tradutor (sua tradução de Os trabalhadores
do mar de Victor Hugo é lida até
hoje), colunista de jornal.
Em
vida, publicou 29 livros: nove romances, quatro livros de poesias
(Americanas, Crisálidas,
Falenas
e Poesias
completas),
cinco coletâneas de contos, seis livros de teatro, duas coletâneas
de gêneros diversos (Páginas
recolhidas
e Relíquias
de casa velha),
uma tradução (Os
trabalhadores do mar)
e dois livros de caráter técnico (Higiene
para uso dos mestre-escolas
e Terras).
Uma produção e tanto! Todavia, “grande parte da produção de
Machado de Assis não foi, em vida do autor, reunida em livro,
ficando dispersa em periódicos” (jornais e revistas), bem como
“correspondências particulares, mensagens escritas em álbuns de
autógrafos” etc. (Alex Sander Luiz Campos, conferência “Edições de Machado de Assis: Por Quê, Para Quê?”)
Assim, depois que o “bruxo do Cosme Velho” deixou este mundo,
começou o afã por coligir e publicar seus textos ainda inéditos em
livro, como mostra a seção “Publicações póstumas” do verbete
“Obra de Machado de Assis” da Wikipédia em língua portuguesa
para a qual o autor deste artigo deu sua contribuição. As primeiras publicações póstumas devem-se a Mário de Alencar,
filho do grande romancista romântico, praticamente adotado por
Machado, que organizou sua obra de teatro, crítica literária,
crônicas da seção “A Semana” da Gazeta
de Notícias, e obras de
prosa e verso reunidas nas Outras relíquias.
Em 1932, Fernando Nery publica a correspondência
do grande escritor e um volume de Novas
relíquias. Em 1944 a crítica literária
Lúcia Miguel Pereira traz a lume a novela Casa
Velha. Nos anos 1950 R. Magalhães Júnior
organizou e publicou vários volumes de contos e crônicas do autor.
Em 1965 o pesquisador francês Jean-Michel Massa reúne 150 textos
variados nos Dispersos de Machado de Assis.
(Estes são apenas alguns exemplos.) E o garimpo nunca parou,
entrando século XXI adentro.
Um caso
pitoresco que merece menção foi uma carta de Machado de Assis,
datada de 22 de julho de 1890, contendo um soneto inédito por
ocasião do aniversário de seu amigo e poeta Ernesto Cybrão,
vendido em leilão em 5 de agosto de 2019 por Levy Leiloeiro. O
colunista Lauro Jardim, de O Globo,
em matéria intitulada “Soneto inédito de Machado de Assis é
arrematado em leilão”, anunciou a venda nestes termos: “05/08/2019
• 16:01 Foi arrematado agora há pouco, num leilão no Rio de
Janeiro, uma carta contendo um soneto inédito de Machado de Assis. A
correspondência foi escrita para um velho amigo, o poeta português
Ernesto Cybrão, que aniversariava naquele 22 de julho de 1890. E se
inicia desta maneira: ‘Acabo de saber que, não sabendo/ Que havias
de fazer, fizeste hoje anos;/ Mas tão calado, ó deuses soberanos/
Que eu, sem nada saber, ia morrendo’. A preciosidade foi leiloada
por R$ 8,2 mil, apenas R$ 200 acima do lance inicial.”3
O
leiloeiro assim descreveu o documento: “Manuscrito inédito de
Machado de Assis (1839 - 1908) . Datado de 22 de Julho de 1890.
Curiosamente traz 1 soneto inédito por ocasião do aniversário de
seu amigo e poeta Ernesto Cybrão. Acompanha o manuscrito o envelope
que foi endereçado ao poeta. O manuscrito traz belíssima ilustração
de época na parte superior e assinatura de Machado de Assis no canto
superior direito.”
O
interessante é que, em 26/2/2021, o mesmo manuscrito foi novamente
vendido em leilão, desta vez por Vera Nunes Leilões. Em e-mail enviado aos amigos em 23/7/2019, informou Alexei Bueno: “Um
papeleiro encontrou no lixo, no Leblon, este lindo manuscrito do
Machado, com um muito bom e espirituoso soneto para o aniversário do
Ernesto Cybrão, um poeta português que era seu amigo e vizinho, já
que morava na rua Cosme Velho 33, e o Machado, então com 51 anos, no
18. Já está num leilão, por oito mil reais. O que se descobre no
lixo no Rio de Janeiro é impressionante, a espantosa ignorância
deste povo contribuindo bastante com tal espécie de garimpo. E se
não fosse o papeleiro, adeus soneto.” Eis o soneto:
Acabo de saber que, não sabendo Que havias de fazer, fizeste hoje anos; Mas tão calado, ó deuses soberanos, Que eu, sem nada saber, ia morrendo.
Em tratado de idade, compreendo Que antes cantá-la que sentir-lhe os danos; Mas tu, mas tu, tu quoque, Cyprianus? Tu, eterno rapaz? Acho estupendo.
Nem por isso te livras deste frio Soneto feito de versinhos bambos, Que dão, ao lê-los, tédio e calafrio.
São farrapos, concordo, são molambos... Mas uma cousa nos reforça o brio: “Ambos na flor da idade, árcades ambos.”
Soneto inédito de Machado de Assis. Fonte: Site de Levy Leiloeiro
“Iniciando a atividade literária pela poesia, Machado foi durante muito tempo considerado e louvado acima de tudo como poeta.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poeta”.)“Há diversas poesias de Machado, em geral obras de juventude, recitadas em festas e solenidades, noticiadas em jornais da época, que se encontram perdidas.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poesias perdidas”.) Uma destas poesias perdidas “recitadas em solenidades”, descoberta pelo pesquisador Felipe Rissato, saiu no Jornal da Noitelisboeta de 18-19 de dezembro de 1873 (pág. 3), em matéria sobre a despedida do ator português José Antonio do Vale no “teatro de D. Pedro” (Imperial Theatro de São Pedro de Alcântara, onde hoje se ergue o Teatro João Caetano, na atual Praça Tiradentes - Ver QUAL O TEATRO MAIS ANTIGO DO RIO DE JANEIRO?) antes de retornar a Lisboa, após bem-sucedida temporada no Rio de Janeiro. Informa a matéria (atualizada para a ortografia vigente):
“Cumprimos
hoje a promessa que fizemos, narrando as festas que se fizeram no
benefício de despedida do ator Valle no teatro de D. Pedro, no Rio
de Janeiro, que foram esplêndidas igualando as que o público
daquela capital fez em honra da insigne [atriz italiana Adelaide]
Ristori, e as mais pomposas de que ali há memória.
O teatro
encheu-se completamente assistindo ao espetáculo a família
imperial, o nosso embaixador e as pessoas mais distintas da corte.
Quando o
simpático artista acabou de recitar a poesia de despedida [de
Machado de Assis, como veremos adiante], correu-se o pano de fundo e
avistou-se o navio que figurava no drama a Filha
do Mar, todo embandeirado, grandes fogos cambiantes e chuvas de oiro.
Ao mesmo
tempo, uma atriz de 7 anos desceu de um pedestal em que se lia a
seguinte inscrição: Ao gênio dramático,
e veio entregar ao seu colega uma coroa oferecida pelos carpinteiros
do teatro e depois uma linda abotoadura da guarda roupa, uma coroa da
orquestra, outra do cabeleireiro e muitos versos. A esta manifestação
seguiu-se a dos artistas da companhia com uma fotografia em que se
viam todos eles de casaca, formando um grupo, uma poesia de um
artista brasileiro e duas de artistas portugueses.
As
palavras e os bravos repetiam-se freneticamente, os versos caíam em
nuvens dos camarotes. No camarim recebeu ainda muitas prendas de
todos os artistas e de grande número de pessoas que admiram nele a
par dos dotes do talento as qualidades pessoais.
Ao
terminar o espetáculo o público invadiu o palco e foi abraçar o
ator que agradecia enternecido e com as lágrimas nos olhos aquelas
provas de afeto. A comoção dos que o apertavam nos braços não era
menos espontânea.
O senhor
Valle foi ao camarote imperial despedir-se de suas majestades que o
acolheram benevolamente e na véspera da partida deu um banquete aos
seus artistas e empregados e amigos mais íntimos. [...]
A poesia
[cinco oitavas endeeassilábicas com rimas entre o primeiro e terceiro,
e sexto e sétimo versos] que o ator Valle recitou na despedida é de
um poeta conhecido nos dois hemisférios, o senhor Machado
d’Assis[grifo nosso] cujas composições
inspiradas são sempre bem recebidas. Ei-la:
Breve irei; pouco tarda que eu vejaLonge, longe sumir-se no espaço Esta terra que eterna verdeja, Esta terra de palmas e amor. Volto ao seio da pátria um instante, Doce mãe que a seus filhos adora. Curta a ausência há de ser. Curta embora, Parte d’alma aqui deixo em penhor.
Tantas flores viçosas me destes Tanto afeto, tamanho e tão puro, Tantas vezes a mão me estendestes; Nesta estrada cruel de passar, Que ora sinto morrer-me nos lábios A palavra que vibra em meu peito; Perdoai-me, que é justo o defeito: Sei apenas sentir e lembrar.
Sei lembrar-me... se a mão do destino Me trancasse o caminho das águas, Se de novo este céu peregrino Contemplar não pudesse uma vez, Dentro d’alma com letras de fogo, A memória gravada ficara Deste povo que as artes ampara, Justo, amável, sincero e cortês.
Inda assim vai comigo a lembrança... Não; vai mais: é saudade que levo É saudade que aviva a esperança De tornar a gozar este amor. Levo-a n’alma. No meio do Oceano, No regaço da pátria querida, Pintar-me-á estas noites de vida Como aroma que lembra uma flor.
Há mais alta, mais fúlgida glória, Viçam louros de eterna frescura, Enchem folhas austeras da história Muita fama bendita por Deus; A mais doce das glórias, contudo, É sentir-se de afetos coberto, Ter nos peitos o prêmio mais certo, E dizer numa lágrima: adeus!”