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GALILEU, UMA VIDA, de JAMES RESTON, Jr

EM 1995 A EDITORA JOSÉ OLYMPIO ENCOMENDOU-ME UMA RESENHA DO ENTÃO RECÉM-LANÇADO GALILEO, A LIFE, DO ESCRITOR JAMES RESTON, JR. E, COM BASE NO MEU PARECER, DECIDIU PUBLICAR O LIVRO E ENCOMENDOU-ME A TRADUÇÃO. A BIOGRAFIA GANHOU MATÉRIA DE PÁGINA INTEIRA DE CELINA CÔRTES, QUE ME ENTREVISTOU PELO TELEFONE, INTITULADA “GALILEU / NOVA BIOGRAFIA DO GÊNIO DERRUBA MITOS COMO O DA IGREJA OBSCURANTISTA”, NO CADERNO B DO JORNAL DO BRASIL. EIS A RESENHA:


No preludio, o autor menciona sua visita à NASA, em dezembro de 1992, preocupada na época com os problemas em torno da mais ambiciosa missão interplanetária da era dos ônibus espaciais: a viagem da nave Galileu em direção a Júpiter e suas luas. Como Galileu, o homem, a máquina Galileu estava incapacitada. Vítima, na era moderna, da maldição de Galileu. A outra importante missão espacial da NASA, o telescópio espacial Hubble, o equivalente moderno ao primeiro telescópio de Galileu, sofria de catarata ótica. A exemplo do velho Galileu em seus derradeiros dias! 

No Posfacio (Apology), o autor narra a entrevista, em abril de 1993, com o cardeal Poupard, que presidiu a comissão, nomeada pelo papa João Paulo II, para reconsiderar o caso Galileu (a qual admitiu que os teólogos que atacaram Galileu erraram ao considerar literalmente as Escrituras no que tange à descrição do mundo físico). Comenta o autor: Escutar o cardeal Poupard era concluir que a Igreja não experimentara nenhuma angústia na reconsideração de Galileu. O conflito entre ciência e fé era um mito, disse desdenhoso. Sem titubear ou perceber sua contradição, repetiu novamente a versão padrão da Igreja sobre Galileu que eu ouvira com frequência nos três anos de redação deste livro: Galileu fora condenado porque insistira em tratar a teoria copernicana como verdadeira, e não como hipótese, sem poder prová la. Essa posição desviava a atenção de um fato simples: A teoria copernicana era verdadeira e a Igreja usara métodos extremados e rigorosos para esmagar essa verdade e proteger sua falsidade. Ao final da entrevista, indaga maldosamente: Quem será o próximo? Giordano Bruno? Poupard sorri indulgentemente. Cita John Huss, Joana D'Arc. Vitimas da intolerância religiosa. 

James Reston, Jr. realiza um trabalho de jornalismo investigador e compõe uma biografia vibrante, num estilo que vem conquistando o leitor atual e que está bem representado no Brasil por Ruy Castro, José Castello, Fernando Morais. Nos agradecimentos, o autor se refere à curiosidade dos italianos sobre um escritor norte-americano que ousou estudar a vida de um italiano de tamanha estatura, embora reconheçam que Galileu pertence ao mundo. E se um italiano ousasse escrever a biografia de George Washington? costumavam pilheriar. Foram três anos de pesquisa: Florença, Roma, Vaticano, Pisa, Pádua, Veneza. O cenário onde se desenrolou a vida de Galileu, cujas pegadas Reston resolveu seguir.

Reston não é um autor acadêmico, que escreve um livro de vulgarização cientifica exclusivamente para os apreciadores da Filosofia da Ciência (se bem que estes também gostarão do livro). O titulo é claro: Galileu, uma vida. Reston é romancista e teatrólogo, o que confere a esta biografia uma qualidade toda especial. O leitor imaginativo (ou o cinéfilo leitor) chega a se sentir na sala de cinema, tamanha a vivacidade com que o autor expõe seu tema. No fundo, todo autor norte-americano tem em mira uma possivel adaptação cinematográfica. Bom para a literatura, bom para a sétima arte. 
 
Reston é um autor dotado de grandes recursos, capaz de descrever minuciosamente a igreja florentina de Santa Maria Novella; de descrever vivazmente o ambiente familiar de Galileu; dotado de incrível poder de síntese, como ao se referir à invenção, pelo ainda estudante de medicina Galileu, de um pêndulo para a medição do pulso; capaz de descrever com um colorido incrivel experiências científicas sobre as quais, até então, só lemos frios relatos, a exemplo das bolas de diferentes pesos e tamanhos jogadas do alto da torre de Pisa (Emergindo expansivamente no topo, entre as pilastras e precárias arcadas abertas, ele representou para sua multidão. Ele foi aclamado clamorosamente. Estranhas vaias despontaram entre as aclamações, pois a maioria da turba sem dúvida esperava testemunhar um fiasco. Havia algo na torre que parecia atrair os excêntricos e os exibicionistas. Quem era aquele jovem gênio, aquele radical, para desafiar não apenas as autoridades no campo, mas o próprio Aristóteles?); capaz de descrever como ninguém as terríveis consequências do choque entre ciência e fé (Ciência e a fé se chocaram e, em seu terrível conflito, as duas foram separadas, tomando direções divergentes e perdendo seu terreno comum. Em sua insistência na vitória total da teologia, a Igreja católica ficou até hoje estigmatizada como anticientífica e obscurantista. Ela continua lutando para superar a maldição de 1616. E a ciência, temendo o espiritual, se tornou cada vez mais árida e sem coração, a ponto de mesmo as mais fantásticas descobertas no firmamento atual terem perdido o poder de tocar a alma e o espírito dos mortais); de comover o leitor ao descrever o processo kafkiano a que é submetido um Galileu idoso e doente. 

O Galileu que emerge não é o Galileu brechtiano, o herói super-humano na luta contra as forças do mal. O painel traçado por Reston apresenta nuanças, entretons. Galileu, um cérebro privilegiado, é o homem do mundo, bem-sucedido, regiamente remunerado, matemático da corte do grão-duque de Toscana, que enriqueceu graças a suas invenções práticas, com aplicações militares. A Igreja da época contava com seus reacionários, seus Gustavos Corções (que usavam, é claro, métodos bem mais violentos), mas eram contrabalançados por prelados esclarecidos, intelectuais, cientistas, amigos de Galileu. Pertencer à Igreja, na época, era como trabalhar em uma estatal no Brasil do regime militar: um emprego seguro. Nem todo funcionário público é um patife. O grande suspense do livro de Reston: como um cientista bem-relacionado como Galileu, com duas filhas (ilegitimas) como monjas a serviço da Igreja, em cuja homenagem o futuro papa Urbano VIII compusera uma ode, que publicava suas obras em italiano com o imprimatur da Igreja... como, inopinadamente, se envolveu em um processo infamante que envenenou sua velhice? A condenação de Galileu foi, muito mais, resultado de uma conjunção de circunstâncias do que a consequência previsível de uma política obscurantista. Um jesuíta com quem Galileu tivera uma velha rixa consegue convencer o supersticioso e paranoico pontífice de que o ridículo personagem Simplicio dos Discursos sobre as Duas Novas Ciências não passava de uma caricatura de Sua Santidade. Como pano de fundo, a Guerra dos Trinta Anos e a Peste Bubônica; eis o cenário ideal para uma tragédia. O que seria o periodo de consagração do maior gênio italiano da época se transforma em uma página negra da história, comparável à condenação de Sócrates ou à Paixão de Cristo. A lição: toda e qualquer censura à criação artística ou intelectual é condenável. A que extremos chegam os fundamentalistas de qualquer vertente (cristãos, muçulmanos, marxistas...) quando ditam as regras do jogo!

BREVE HISTÓRIA DE QUASE TUDO, de BILL BRYSON


Por que os livros usados para ensinar ciências nas escolas são tão áridos, chatos, desinteressantes, e não conseguem transmitir aos jovens quão fascinante e misteriosa é a realidade que nos circunda? Acho que este é um dos pontos de partida para Bill Bryson ter resolvido escrever seu livro Breve História de Quase Tudo. Se você quer ter uma ideia fascinante de como a ciência, no afã de decifrar o mundo onde estamos inseridos, foi paulatinamente demolindo o mundo das aparências e desvendando realidades invisíveis e desconcertantes, este é o livro certo. Vejam meu vídeo sobre este livro extraordinário que tive o prazer de traduzir para o português.

O QUE ACONTECEU NA TERRA? de CHRISTOPHER LLOYD



O que aconteceu na Terra?, de Christopher Lloyd (tradução de Ivo Korytowski), é a história do mundo mais genial que já tive a oportunidade de ler (neste caso, também traduzi). Diferente das histórias tradicionais, não se restringe às grandes civilizações do Ocidente, abordando também as civilizações orientais, americanas pré-colombianas, megalíticas etc. Além disso a história não se restringe ao período de existência da espécie humana, mas retrocede até o Big Bang, e abarca a formação da Terra, o surgimento da vida, as mudanças climáticas etc. Christopher Lloyd escreve uma história multidisciplinar, derrubando as fronteiras entre as diversas disciplinas. A leitura do livro de Lloyd faz brotar a pergunta: por que assuntos tão fascinantes como estes que Lloyd narra se tornam tão áridos quando transmitidos pelo sistema de ensino? Aliás, na sua Grã-Bretanha natal ele é um ativista pró-sistema educacional mais significativo, mais interessante, menos maçante. É o que você perceberá lendo os artigos que Lloyd posta no seu site, como The Lost Love of Learning e Why Children Fail. O livro de Lloyd, editado pela Intrínseca, está à venda nas principais livrarias, reais e virtuais. Veja também o comentário sobre o livro no JACIfoiOdiscoVoador

A ONDA, de Susan Casey

TRADUÇÃO DE IVO KORYTOWSKI



TRECHO DA INTRODUÇÃO DO LIVRO:

A história está repleta de testemunhos sobre ondas gigantes, monstros na faixa dos trinta metros ou mais, porém até recentemente os cientistas os descartavam. Eis o problema: de acordo com a física básica das ondas oceânicas, as condições que podem produzir uma onda de trinta metros são tão raras que praticamente nunca acontecem. Qualquer alegação de que alguém tenha visto uma, portanto, não passaria de papo furado de pescador ou mentira pura e simples.

Mesmo assim, era difícil desprezar o relato do herói polar Ernest Shackleton, que estava longe de ser o tipo de pessoa com inclinação para exageros histéricos. Em sua travessia da Antártida à ilha da Geórgia do Sul, em abril de 1816, Shackleton observou movimentos estranhos no céu noturno. “Em seguida, percebi que o que eu vira não havia sido uma brecha nas nuvens, mas a crista branca de uma enorme onda”, escreveu. “Durante meus 26 anos de experiência no oceano em todos os seus estados de ânimo, eu nunca vira uma onda tão gigante. Uma sublevação poderosa do oceano, algo bem diferente das grandes ondas de crista branca que tinham sido nossos incansáveis inimigos por muitos dias.” Quando a onda atingiu seu navio, Shackleton e sua tripulação foram “lançados à frente como uma rolha” e a embarcação ficou alagada. O navio só não soçobrou por pura sorte e porque a tripulação conseguiu rapidamente retirar a água com baldes. “Francamente, torcemos para que nunca mais nos deparássemos com uma onda daquelas.”

Os homens no cargueiro München, de 850 pés, teriam concordado se algum deles tivesse sobrevivido ao encontro com uma onda semelhante em 12 de dezembro de 1978. O München, que todos acreditavam ser impossível de afundar, era o que havia de mais moderno em termos de embarcação, a nau capitânia da marinha mercante alemã. Às 3h25, fragmentos de um pedido de socorro em código Morse com origem 720 quilômetros ao norte de Açores indicavam graves danos causados por uma onda. Mas mesmo depois que 110 navios e 13 aeronaves foram mobilizados — a mais completa operação de busca na história da navegação —, o navio e seus 27 tripulantes nunca mais foram vistos. Restara apenas uma pista assustadora: as equipes encontraram um dos barcos salva-vidas do München, que normalmente ficavam vinte metros acima da linha-d’água, boiando vazio. Os encaixes de metal retorcidos mostravam que o bote tinha sido arrancado. “Algo extraordinário” havia destruído o navio, concluiu o relatório oficial.

O desaparecimento do München aponta para o principal problema em se provar a existência de uma onda gigante: se você depara com esse tipo de pesadelo, é provável que ele seja o último de sua vida. A força das ondas é inegável. Uma onda de meio metro consegue derrubar um muro erguido para suportar ventos de duzentos quilômetros por hora, por exemplo, e alertas costeiros são emitidos até para ondas de um metro e meio de altura, que costumam matar quem for pego desprevenido no lugar errado. O número de pessoas que testemunharam de perto uma onda de trinta metros e conseguiram voltar para casa para descrever a experiência é ínfimo.


"O filme Tubarão deixou você com medo do mar? Este livro cheio de adrenalina desvenda a mais terrível força da natureza. Uma viagem ao mesmo tempo assustadora e inspiradora." People

O QUE SE PASSA NA CABEÇA DOS CACHORROS, de Malcolm Gladwell

TRADUÇÃO DE IVO KORYTOWSKI


TRECHO DE "TALENTOS MADUROS: POR QUE ASSOCIAMOS A GENIALIDADE À PRECOCIDADE" DA PARTE III DO LIVRO:

A genialidade, no conceito popular, está associada à precocidade — estamos inclinados a pensar que fazer coisas realmente criativas requer o vigor, exuberância e energia da juventude. Orson Welles produziu sua obra-prima, Cidadão Kane, aos 25 anos. Herman Melville escreveu um livro por ano em torno dos 30 anos, culminando, aos 32, com Moby Dick. Mozart compôs seu revolucionário “Concerto para Piano no 9 em mi bemol” aos 21 anos. Em algumas formas criativas, como a poesia lírica, a importância da precocidade se tornou lei. Que idade tinha T. S. Eliot quando compôs “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” (“Envelheço...envelheço...”)? Vinte e três anos. “Os poetas atingem o auge na juventude”, sustenta o pesquisador da criatividade James Kaufman. O professor de psicologia Mihály Csíkszentmihályi concorda: “Os versos líricos mais criativos foram escritos por jovens.” De acordo com o psicólogo de Harvard Howard Gardner, uma importante autoridade em criatividade, “a poesia lírica é o domínio onde o talento é descoberto cedo, brilha intensamente e depois se extingue numa idade prematura.”

Alguns anos atrás, um economista da Universidade de Chicago chamado David Galenson decidiu descobrir se esse pressuposto sobre a criatividade era verdadeiro. Ele vasculhou 47 importantes antologias poéticas publicadas desde 1980 e listou os poemas que figuravam com mais frequência. Algumas pessoas, é claro, criticariam a ideia de que o mérito literário pode ser quantificado. Mas Galenson queria apenas consultar uma amostragem de acadêmicos literários para saber quais poemas consideravam mais importantes no cânone norte-americano. Os 11 primeiros foram, na ordem: “Prufrock”, de T. S. Eliot, “Skunk Hour” (Hora do gambá), de Robert Lowell, “Stopping by Woods on a Snowy Evening” (Parando nos bosques numa noite de neve), de Robert Frost; “Red Wheelbarrow” (Carrinho de mão vermelho), de William Carlos Williams, “The Fish” (O peixe), de Elizabeth Bishop, “The River Merchant’s Wife” (A Mulher do Mercador do Rio), de Ezra Pound, “Daddy” (Papai), de Sylvia Plath, “In a Station of the Metro” (Numa estação de metrô), de Pound, “Mending Wall” (Consertando o muro), de Frost, “The Snow Man” (O boneco de neve), de Wallace Stevens e “The Dance” (A Dança), de Williams. Esses 11 poemas foram compostos nas idades, respectivamente, de 23, 41, 48, 40, 29, 30, 30, 28, 38, 42 e 59. Não há indício, concluiu Galenson, do conceito de que poesia lírica é um passatempo de gente jovem. Alguns poetas realizam seu melhor trabalho no início da carreira. Outros se destacam décadas mais tarde. Dos poemas de Frost que constam de antologias, 42 foram escritos após os 50 anos. No caso de Williams, o índice é de 44%. No de Stevens, 49%.

O mesmo vale para os filmes, observa Galenson em seu estudo “Old Masters and Young Geniuses: The Two Life Cycles of Artistic Creativity” (Velhos mestres e jovens gênios: os dois ciclos de vida da criatividade artística). Sim, houve Orson Welles, cujo auge como diretor foi aos 25 anos. Mas existiu também Alfred Hitchcock, que dirigiu Disque M para matar, Janela indiscreta, Ladrão de casaca, O terceiro tiro, Um corpo de cai, Intriga internacional e Psicose — uma das maiores sequências de êxitos de um diretor na história — entre os 54 e 61 anos. Mark Twain publicou Aventuras de Huckleberry Finn aos 49 anos. Daniel Defoe escreveu Robinson Crusoe aos 58.

Os exemplos que Galenson não conseguia tirar da cabeça, porém, eram Picasso e Cézanne. Ele era um apaixonado pela arte e conhecia bem suas histórias. Picasso foi o prodígio incandescente. Sua carreira como artista sério começou com uma obra-prima, Evocação: O enterro de Casagemas, produzida aos 20 anos. Num curto período, ele pintou muitas das maiores obras de sua carreira — incluindo Les Demoiselles d’Avignon, aos 26 anos. Picasso se encaixa perfeitamente em nossas ideias usuais sobre genialidade.

Cézanne não. Se você for à sala de Cézanne no Musée d’Orsay, em Paris — a melhor coleção de Cézanne do mundo — encontrará ao longo da parede posterior uma sequência de obras-primas que foi pintada ao final de sua carreira. Galenson fez uma análise econômica simples, comparando os preços pagos em leilões por pinturas de Picasso e Cézanne com as idades em que aquelas obras foram criadas. Uma pintura feita por Picasso em torno dos 25 anos valia em média quatro vezes mais do que outra que ele fez aos 60 anos. Com Cézanne ocorria o inverso. As pinturas que ele criou em torno de 65 anos valiam 15 vezes mais do que as de sua juventude. O vigor, a exuberância e a energia da juventude pouco ajudaram Cézanne. Ele foi um talento maduro — e por alguma razão em nossa explicação da genialidade e criatividade nos esquecemos de enquadrar os Cézannes do mundo.

E JÁ QUE FALAMOS EM CACHORROS, VOCÊ ESTÁ CONVIDADO A VER MEU VÍDEO SOBRE O CLÁSSICO A REVOLUÇÃO DOS BICHOS (ANIMAL FARM) DE GEORGE ORWELL:

O HOMEM QUE QUERIA SALVAR O MUNDO, de Samantha Power

Tradução de IVO KORYTOWSKI



Seis anos atrás, o brasileiro Sergio Vieira de Mello, chefe da missão da ONU no Iraque após a invasão americana, morreu num desses atentados malucos com que os extremistas procuram... procuram o quê? Não há área conturbada neste último meio século em que Sergio não tenha atuado: Ruanda, Líbano, Iraque, Timor Leste, Camboja, Bósnia, Sudão, e ele cotado como possível candidato a secretário-geral da ONU. A biografia de Sergio, que tive o prazer de traduzir ao português para a Companhia das Letras, foi escrita pela jornalista e professora de Harvard Samantha Power, uma das maiores autoridades em relações internacionais. Um livro sobre um brasileiro tão relevante (e heroico) merecia virar best-seller. Pena que não virou.

TRECHO DA INTRODUÇÃO DO LIVRO:

A biografia de Sergio Vieira de Mello é também a biografia de um mundo perigoso, cujos males são grandes demais para serem ignorados, mas complexos demais para serem solucionados de forma rápida ou barata. Embora os tipos de conflito — e os focos da atenção do Ocidente — tenham mudado no decorrer das últimas quatro décadas, cada geração precisou lidar com vidas e sociedades destroçadas.

A questão, para ele e para nós, não é se devemos nos envolver no mundo, e sim como nos envolver. Ainda que não dispusesse de tempo para formular uma doutrina norteadora, ele dispunha da vantagem conferida por uma experiência de 34 anos para refletir sobre as pragas que nos preocupam hoje: guerra civil, fluxos de refugiados, extremismo religioso, supressão da identidade nacional e religiosa, genocídio e terrorismo.


Sergio Vieira de Mello passou mais de três décadas tentando salvar e melhorar vidas — vidas que ainda continuam com um futuro incerto. À medida que rufam os tambores de guerra e que as fissuras culturais e religiosas se abrem em fossos profundos, este é o momento ideal para buscar orientação com um homem cuja longa jornada sob o fogo cruzado ajuda a revelar as raízes dos nossos problemas atuais — e talvez as soluções para eles.

A BIBLIOTECA ESQUECIDA DE HITLER, de Timothy Ryback

Tradução de Ivo Korytowski


Uma visão de Hitler sob um ângulo inusitado: sua paixão pelos livros. O homem que queimava livros, quem diria, foi também um bibliófilo, um colecionador de livros. Um golpe na crença comum de que "a leitura civiliza o homem"? Timothy W. Ryback, com base em pesquisas exaustivas, traça, em A Biblioteca Esquecida de Hitler (Cia das Letras, 2009) a radiografia da formação intelectual de um dos grandes vilões do século XX. (Trecho da sinopse publicada no site Capitu; para ler o texto completo clique aqui.)

Dividida entre Munique, Berlim e o refúgio de Obersalzberg, nos Alpes bávaros, a coleção de livros de Adolf Hitler chegou a ter 16 000 volumes. O líder nazista era um leitor voraz – dizia ler um livro por noite – e eclético. Frequentava tanto as tragédias de Shakespeare quanto os romances de aventura de Karl May. Tinha um gosto especial por obras de ocultismo – e, claro, por panfletos antissemitas, como O Judeu Internacional, do americano Henry Ford. O historiador americano Timothy Ryback estudou detidamente os livros que restaram da biblioteca do tirano, divididos principalmente entre a Biblioteca do Congresso, em Washington, e a Universidade Brown. Sua pesquisa revela um instantâneo inusitado da personalidade até hoje indecifrável de um dos maiores genocidas do século XX. (Revista Veja de 10/6/09.)

NUMERATI, de Stephen Baker

Tradução de Ivo Korytowski


Eles formam uma elite de cientistas com a missão de vasculhar montanhas de dados em busca de padrões para descrever o comportamento humano. São os Numerati, o título do livro do jornalista americano Stephen Baker, da revista BusinessWeek, que está sendo lançado agora em português [em tradução de Ivo Korytowski].

Segundo Baker, os Numerati querem criar um modelo virtual de cada consumidor do planeta, usando-o para analisar nossas ações no mundo on-line e oferecer produtos no exato instante em que os desejarmos. Um exemplo de seu poder? Eles ajudaram Barack Obama a vencer as eleições americana.

ÉPOCA – Quem são os Numerati?
Stephen Baker – São uma elite global de cientistas da computação e matemáticos que analisam todos os nossos movimentos. Eles vasculham montanhas de dados à procura dos nossos padrões de comportamento, para poder prever o que iremos comprar, em qual candidato votaremos ou qual trabalho faremos melhor. Alguns tentam até mesmo encontrar possíveis casais. O Google e a IBM estão infestados de Numerati.

ÉPOCA – Eles são perigosos?
Baker – É preciso ter cuidado com eles. Têm um poder sem precedentes para desvendar nossos segredos. E cometem erros o tempo todo – porque lidam com estatística e probabilidade. O poder deles sobre sua vida depende de quanta informação particular você quer deixar nas mãos de uma única empresa. Você pode preferir dividir seu relacionamento on-line entre várias empresas.

ÉPOCA – Todos os meses, o Yahoo reúne 110 bilhões de dados sobre seus usuários. Quais são os números do Google?
Baker – O Google tem menos dados de seus usuários que o Yahoo, pois não os conhece tão bem. O Yahoo tem mais serviços com registro obrigatório. É uma das razões por que o Google criou o Gmail, para nos conhecer melhor.

ÉPOCA – Há quem não veja problema no uso dessas informações para fins publicitários. Afinal, vivemos em democracias. Mas isso pode mudar, não?
Baker – Exatamente. Logo após os ataques de 11 de setembro de 2001, o governo Bush começou a se comportar cada vez menos como um governo democrata, assumindo poderes excepcionais. Se a Casa Branca achasse que obter acesso aos dados do Google ajudaria a capturar terroristas, ela o faria. Aí, a questão seria outra: não temos razão para suspeitar que o Peter é um terrorista, mas parece que ele está sonegando impostos. Uma vez que o governo tenha acesso a nossos dados, poderá usá-los para qualquer fim.

ÉPOCA
– Quais são as chances de alguém estar nos observando a cada tecla que digitamos no computador do trabalho?
Baker – Pequenas. A maioria das empresas ainda não tem esse grau de sofisticação. Só grandes grupos como a IBM, a Microsoft e o Google começam a observar o comportamento de seus funcionários de modo mais sofisticado. Não quer dizer que os programas para filtrar o uso da internet, para descobrir se os funcionários olham sites pornográficos ou enviam dados confidenciais, não estejam disseminados. Para mim, é interessante notar que as mesmas ferramentas usadas para nos monitorar podem ser empregadas para entender nosso comportamento e otimizar nossa produtividade.

ÉPOCA
– Dê um exemplo.
Baker – A Knoa Software tem um programa para saber como as pessoas usam os diversos programas nas empresas. O objetivo é tornar os empregados mais produtivos. Suponha que alguém não esteja usando um programa caríssimo que a empresa comprou, mas o funcionário a seu lado está. Ao descobrir quem não usa o programa, a empresa pode oferecer treinamento – ou decidir demiti-lo. (Matéria transcrita do site da revista Época)