Segue um artigo do eminente astrônomo brasileiro, falecido em 2023, Nelson Travnik, retirado da coletânea Ver, ouvir e entender estrelas (foto acima) organizada pelo engenheiro mecânico e astrônomo amador (e meu amigo de adolescência) Ronaldo R. A. Câmara. Na orelha do livro, lemos: "A trajetória do astrônomo Nelson Travnik como pesquisador, divulgador incentivador da Astronomia não foi meteórica, mas sim duradoura como um astro brilhante, por quase setenta anos, Inclui um dedicado trabalho em quatro Observatórios, a participação assídua nos encontros astronômicos, a produção de aulas, cursos, o livro "Os Cometas", e centenas de artigos técnicos, enfocando os mais variados temas da Ciência e da Astronomia."
Vamos ao artigo!
UMA POLÊMICA CENTENÁRIA
Nelson Travnik
Por mais que exista farta literatura, americanos refutam verdades históricas que evidenciam o pioneirismo de Santos-Dumont, e não aceitam o feito do grande brasileiro.
Antes de Santos-Dumont, os pilotos usavam planadores e máquinas semelhantes à asa delta. De início, Dumont conquistou títulos importantes na história aeronáutica, como em 19 de outubro de 1901, com o primeiro voo controlado em um dirigível, o que lhe valeu contornar a Torre Eiffel e conquistar o prêmio de 100.000 francos, instituído por Henri Deutsch. Contudo, a consagração final viria em 23 de outubro de 1906 no campo de Bagatelle, em Paris, com o histórico voo do 14-Bis. No dia 12 de novembro ele repetiu o voo. Tudo feito às claras, diante de uma multidão eufórica, fotógrafo, cinematógrafo, juízes idôneos, conforme as regras competitivas, método científico e experimentação. O fato foi divulgado na mídia europeia e americana. O voo foi o primeiro no mundo a se elevar do solo com um mais pesado que o ar. Presente uma comissão do Aero-Clube da França, que emitiu Ata assinada pelo presidente Ernst Archdeaco e pelo secretário da comissão mista, E. Surconf. O voo, portanto, com o endosso do Aero Clube da França, foi homologado nos registros da Federation. O 14-Bis era, pois, uma máquina voadora que levantou voo e aterrissou por seus próprios meios. E uma curiosidade: o primeiro avião a ser pilotado de pé!
UMA HISTÓRIA MAL CONTADA
Dois anos depois apareceram nos EUA os irmãos Wright com fotos e uma história que voaram em dezembro de 1903. Ora bolas, por que as fotos só foram divulgadas em 1908? Quem garantiu a autenticidade das fotos na época? Porque eles não mostraram os repórteres que presenciaram dois fiascos em 1904, uma vez que eles ainda estavam vivos e poderiam muito bem confirmar os feitos de 1903? Tudo indica que os mesmos saíram de mãos vazias e, segundo o próprio Orville Wright, “não passaram a acreditar neles”. Induziram a imprensa ao erro e esconderam detalhes para o povo americano. O fato é que os irmãos Wright não conseguiram levantar seu avião do chão, a não ser por uma catapulta, e na maioria das vezes a aterrissagem era um desastre. Com catapulta até um tijolo voa! É óbvio que estavam escondendo evidências. Ademais, se tivessem voado antes de 1906, não respeitaram as regras de clareza nas experiências, idoneidade das testemunhas e presença de um órgão oficial credenciado para homologação do voo. Tudo feito na base do: eu fiz e está feito! Outro detalhe importante é que, em 1904 eles, Orville e Wilbur Wright requeriam na Inglaterra patente para um planador (sem motor) de sua invenção. Fato estranho para quem alega ter voado com motor um ano antes! Há também o fato de que ofereceram uma demonstração ao governo americano, mas por um preço exorbitante (100 mil dólares), o que o presidente Theodore Roosevelt não concordou, caracterizando assim mercenarismo, ao contrário de Dumont que mais tarde, em 1910, ofereceu gratuitamente aos americanos todos os planos de construção do seu “Demoiselle”, o primeiro ultraleve do mundo, através da revista “Popular Mechanics”. Existe, pois, uma grande diferença entre os experimentos na França e o que os irmãos Wright faziam, e a história não deve conceder primazia a quem praticou artimanhas, safadeza e jogo desleal. No centenário do voo do 14-Bis, em 2006, celebrado em Paris, uma réplica do avião decolou, alçou voo e aterrissou esplendidamente! No centenário em 2003 do voo dos irmãos Wright, uma grande festividade em 17 de dezembro, com a presença do presidente G. W. Bush, viu-se uma réplica do avião ser catapultado, alçar voo, não se manter no ar, e depois aterrissar em um lamaçal, para frustração da multidão presente (30.000 pessoas). Terminando, fica nossa resposta ao maior feito espacial dos EUA: Neil Armstrong pisou na Lua em 1969 no dia 20 de julho, dia do aniversário de Santos-Dumont.



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