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MANÉ GARRINCHA, de JOÃO SALDANHA


Uma vez, durante uma excursão do Botafogo que duraria uns quinze dias pelo interior e como o Mané [Garrincha] andasse um pouco gordo, o Dr. Gosling e eu combinamos fazer um controle alimentar no cobra. O doutor prescreveu o regime e todo o dia Mané comparecia à balança. Os dias iam passando o Garrincha não diminuía um grama sequer. E olhem que além do regime, havia jogos quase que de três em três dias.

Hilton Gosling passou a sentar junto do Mané, mas mesmo assim, nada. Até que numa cidade (Goiânia), o Neivaldo ficou no mesmo quarto com Garrincha e observou: — "O Garrincha tá tomando uma garrafa de mel toda a noite. Não é ele que está fazendo regime?"

O doutor coçou a cabeça e foi falar com Garrincha sobre o mel. A resposta veio pronta do mais sonso dos jogadores de futebol que já existiram: "É verdade, sim. Mas é que eu estou com uma tossezinha e mel é o melhor remédio para isto..."

O Mané é assim mesmo. Não estava fazendo o regime porque não achava oportuno, e pronto. De outra feita, no Campeonato Sul-Americano de 59 em Buenos Aires, Mané estava redondo como uma bolinha. Então eu perguntei a um companheiro de clube e que também fazia parte do selecionado, o que o Garrincha andava comendo que não devia e me foi respondido que Mané gostava muito de uvas e estava comendo uns dois quilos de uvas argentinas (até parecem jabuticabas de tão grandes) por dia. Mas a verdade é que como na época o Mané tinha andado machucado, acharam que o Dorval era melhor do que ele. Não se interessou absolutamente pelo resto.

De maneira que o Paulo Amaral não deve ficar agastado com as críticas em torno do peso do Mané. Nem que o Paulo se rache de verde e amarelo, conseguirá tirar um grama do Garrincha, se Garrincha não quiser. As críticas são no sentido de aviso e são para o Garrincha.

Evidentemente, continuarão. O Mané é muito maroto e jogador igual a ele, todo torto, todo simples, condenado pela ciência como atleta, não há nada nos compêndios que explique claramente como levá-lo. A do mel, por exemplo, não estava no livro que o Dr. Gosling tinha estudado. (Do livro de João Saldanha Meus amigos publicado em 1987 pela Editora Nova Mitavaí)

O SAMBA DE GARRINCHA

Texto de MÁRIO DE MORAES – Foto de RUBENS AMÉRICO. Publicado originalmente na revista O Cruzeiro de 18 de julho de 1964 e transcrito do site Memória Viva mantendo a ortografia da época.


Mané Garrincha, que sambou como quis frente a “João” de tôda ordem, e balançou muita rêde internacional com seus chutes de enderêço certo, volta ao cartaz numa nova facêta, bem diferente da que o fêz famoso. Garrincha, agora, fará os outros sambarem, dando receita para balanço. Não é conselho para furar arco adversário, mas forma acertada de cair no mais autêntico samba brasileiro. Porque Mané virou sambista. E, na base do teleco-teco, lançou seu primeiro sucesso, que tem como título “Receita de Balanço”. E, com intérprete, Elza Soares, a bossa em pessoa.

A história é simples, como simples são os seus personagens, apesar da fama que os cerca.

Há dias Elza Soares preparava, na cozinha da sua bonita casa da Ilha do Governador, um bem temperado feijão, quando ouviu o ritmado assovio. O samba não era conhecido. O assobiador, sim. Mané Garrincha surgiu, e com êle o diálogo:

 Onde aprendeu êsse samba, Nenen?
 Não aprendi, Crioula. É meu.
 Seu? E tu é sambista?
 Não sou, mas dou meus assobios.

A música era gostosa. Faltava a letra. Ali mesmo, entre pratos e panelas, Mané Garrincha preparou a primeira parte. Depois do almôço, saiu a segunda. Elza deu uns retoques, e veio o batismo: “Receita de Balanço”.

 Vou gravar êsse samba, Nenen.
 Deixa pra lá, Crioula.
 Mas, êle é muito bonito.
 Então, é todo seu.

A turma da Odeon ouviu o samba. Gostou e marcou gravação para o dia 24 de junho. “Receita de Balanço”completará um compacto de 4 sambas. Unindo-se a “O Morro”, “Bossambando” e “Na Roda do Samba”. Garrincha misturando-se com compositores do quilate de Carlos Lyra, Orlandivo e Helton Menezes.

Agora o diálogo é conosco:

 O samba é bom, Garrincha?
 Não sei. A Crioula gostou.
 Você já tinha feito algum outro samba?
 Não me lembro. Talvez, sim. De brincadeira.
 Qual é a letra?
 Não repare a voz. É assim: “Vamos balançar/ Cantando/ Vamos balançar/ Sambando/ Vamos balançar/ E deixando a tristeza da vida pra lá”. Agora, a segunda parte: “Como é que nasce o amor?/ Balançando/ Como é que se cura uma dor? Cantando/ Então vamos balançar/ E deixando a tristeza da vida pra lá”. Gostou?

Gostamos. Principalmente depois que ouvimos a repetição na voz de Elza Soares. É impossível, porém, separar Garrincha do futebol. Ainda mais na semana em que só se fala no seu joelho enfêrmo.

 Como vai o joelho, Garrincha?
 Acabei o tratamento hoje. Agora, segundo o médico que está me tratando, terei que ficar mais quinze dias parado. Depois posso voltar a jogar, em plena forma.
 Quem é êsse médico?
 É um holandês, de nome complicado. É muito bom, e deu jeito no meu joelho.

Garrincha se desabafa. Está triste com os que o criticam, por não ter excursionado com o Botafogo. Explica que teve vontade. O seu médico, porém, avisou ao técnico do clube:

 Se quiser, podem levá-lo. Mas, na volta, não quero mais vê-lo, nem me responsabilizo pelo que lhe possa acontecer. Se não fizer o tratamento direito, pode ter certeza de que Garrincha não ficará bom.
Mané não foi, pensando no próximo campeonato carioca. E na Copa do Mundo de 66:
 Essa eu trago, nem que tenha que morrer em campo.

Falaram que êle só pensa em dinheiro:
 Não é verdade. Gostar de dinheiro, eu gosto. Mas gosto ainda mais do futebol. Se o que dizem fôsse verdade, eu teria ido. Jogava cinco minutos em cada partida, garantia a cota do Botafogo e embolsava 200 mil cruzeiros por jôgo. Além disso, não indo, deixei de ganhar um milhão e pouco. Estou há 13 anos no Botafogo e só não excursionei porque preciso ficar bom. Para o bem do meu próprio clube.

Elza Soares vai trocar de roupa, para novas fotos. E comenta:
 Hoje eu posso escolher um vestido, entre muitos que enchem o meu guarda-roupa. Não era assim no tempo da Conceição.

“Conceição” era um vestido. O único que Elza Soares possuía quando iniciou no rádio. Presente de Ziza, espôsa de Aerton Perligeiro. Côr coral, era lavado todos os dias, para as apresentações da bossa crioula. Hoje Elza ganha 200 contos por “show” e faz de dois a três por semana.