A guerra, um fenômeno deplorável que, desde que Caim matou
Abel, acompanha a marcha da humanidade sobre este planeta, inspirou grandiosas
obras de literatura: a Ilíada, sobre a Guerra de Troia, Guerra e paz,
sobre a invasão napoleônica da Rússia, as longas páginas de Os miseráveis e
A cartuxa de Parma descrevendo a Batalha de Waterloo, E o vento
levou... sobre a guerra civil norte-americana, Nada de novo no front,
sobre a Primeira Guerra Mundial... No Brasil, tivemos a obra magna de Euclides
da Cunha acerca da Guerra de Canudos (uma espécie de guerra de extermínio do
Estado contra um grupo de destituídos fanáticos), Os sertões, segundo o
poeta e ensaísta Alexei Bueno uma das duas epopeias em prosa da literatura
brasileira – a outra é Grande Sertão, Veredas. E o romance machadiano
romântico Iaiá Garcia (à semelhança deste primeiro romance histórico de
Helio Brasil) transcorre tendo por pano de fundo a Guerra do Paraguai.
Assim como existem escritores prematuros, que desabrocham na
tenra juventude – o exemplo quintessencial são os poetas românticos, todos
mortos jovens: Álvares de Azevedo com 20 anos, Casimiro de Abreu com 21,
Junqueira Freire com 22, Castro Alves com 24, Fagundes Varela com 33 e Gonçalves
Dias com 41 – existem os escritores de maturidade que, após uma vida dedicada a
uma atividade profissional “normal”, viram escritores: caso do médico, mais
tarde memorialista, Pedro Nava, do delegado de polícia, mais tarde escritor
policial, Joaquim Nogueira (com dois livros excelentes publicados pela
Companhia das Letras, recomendo), e do arquiteto, mais tarde (após um rito de
passagem pela oficina literária do mestre Ivan Proença, que assina o Posfácio
da obra aqui em pauta) escritor, Helio Brasil.
Helio Brasil celebrizou-se como o “escritor de São
Cristóvão”, bairro carioca histórico, que abrigou o palácio primeiro real e
depois imperial, onde Helio cresceu. São de Helio Brasil dois magníficos romances protagonizados nesse
bairro em dois períodos diferentes da história republicana brasileira: A
última adolescência, cenas do cotidiano, ora trágicas, ora cômicas (ora
tragicômicas) dos moradores de uma típica vila de casas carioca nos anos finais
do Estado Novo, e Ladeira do Tempo-Foi, romance dramático que tem como
fulcro uma ladeira imaginária do bairro, conforme lemos no verbete sobre Helio
da Wikipédia criado pelo autor desta resenha.
Agora Helio resolve regredir para antes de seu nascimento e
nos oferece um texto primoroso (de um escritor-arquiteto não se poderia esperar
outra coisa), A pele do soldado(Rio de Janeiro, Mauad Editora, 2022),
que, já na abertura, transporta-nos para a carnificina da cruenta Guerra do
Paraguai, para depois saltar, num longo flash back cinematográfico, à
infância, adolescência e início da vida adulta do protagonista, Alberto, na
Fazenda Morro Brilhante, no Vale do Paraíba. Deve ter contribuído para a
perfeita reconstituição do ambiente da fazenda a pesquisa de Hélio, cerca de
década e meia atrás, para seu suntuoso livro de capa dura sobre uma fazenda
mineira antiga, O solar da fazenda do Rochedo e Cataguases, tendo por
coautor seu proprietário, José Rezende Reis.
Desfilam por A pele do soldado a “prosperidade e
labor nas terras de Gonçalo Francisco de Aires Rodrigues”, a violência, física
e sexual, contra os escravos, o casamento por conveniência sufocando o amor
autêntico, o pai administrando a propriedade com mão de ferro (e se assim não
fosse, teria sucumbido nos conflitos fundiários), a mãe temperando com um toque
humano a prepotência do pai, o vizinho dublê de médico e fazendeiro, o francês
Jean-Jacques Pauchet, trazendo toques de civilização e civilidade ao ambiente
rude (mas, não obstante sua “civilização”, condenando a filha a um destino
infeliz)... O protagonista revolta-se com as injustiças e acaba se tornando um
abolicionista. Quando convocado para lutar no Paraguai, seu pai mexe os
pauzinhos para mandar dois escravos no seu lugar, mas Alberto abre mão das
“costas quentes” e faz questão de participar da guerra já quase no seu
desenlace, expondo sua vida à sanha dos meninos paraguaios que o ditador Solano
López enviava ao front quando já não havia mais adultos para recrutar.
Àqueles que queiram se enfronhar melhor na obra de Helio
Brasil, recomendo o verbete da Wikipédia supracitado e o artigo “Helio Brasil:
A Persistência da Memória” na Revista Brasileira no
105, acessível no site da Academia Brasileira de Letras.
RESENHA DE IVO KORYTOWSKI DA BIOGRAFIA DE HEIDEGGER ESCRITA POR RÜDIGER SAFRANSKI
Teria sido Heidegger um “nazista
do bem”? Sim, porque, por um lado, ele foi um militante nazista de primeira hora,
tão fanaticamente nazista que os professores de Freiburg o consideravam “um
sonhador radical que tinha enlouquecido” (p. 318) e um psicólogo nazista
(Jaensch) o considerou “uma das cabeças mais confusas e um dos mais excêntricos
sujeitos que temos no ensino superior”, com um “pensamento tão excêntrico
quanto obscuro, esquizoide, em parte já esquizofrênico” (p.333), e por outro
lado ele vem sendo há décadas o queridinho de uma plêiade de intelectuais que
se embasbacam com seu pensamento tão nebuloso que dá até turbulência...
Meu primeiro contato com
Heidegger foi em 1970 no primeiro ano da faculdade de Filosofia da UFRJ, quando
fui aluno de Emmanuel Carneiro Leão, recém-chegado de Freiburg, onde havia sido
discípulo de Heidegger, filósofo que caracterizou o ser humano como
“ser-para-a-morte” e que, décadas depois, seria desmascarado como antigo adepto
do nazismo. Está no meu livro de memórias que ganhou um prêmio literário e será
lançado. O Carneiro Leão era muito carismático e muito camarada, e as aulas
dele eram deleitosas. A gente não entendia nada mas achava bonito.
Acabo de ler a monumental e
esclarecedora biografia do Heidegger pelo alemão Rüdiger Safranski, na tradução
de Lya Luft. Traduzir uma biografia de Heidegger do complexo idioma alemão é
tarefa para um Hércules da tradução. Infelizmente o livro está cheio de erros
tipográficos como "ação história" em vez de "ação
histórica" (pág. 96) e "silipsistas" em vez de
"solipsistas" (e dezenas de outros que marquei no livro). A editora poderia investir um pouco mais em revisão.
A impressão que tive foi de que o
Heidegger era mau caráter. Teve toda sua formação custeada por bolsas de estudo
concedidas por instituições católicas e depois se voltou contra o cristianismo,
macaqueando a proclamação de Nietzsche de que “Deus está morto”. Na Primeira Guerra Mundial, quando a juventude
alemã (inclusive meus dois avós, materno e paterno) pegou em armas para
defender seu país, Heidegger deu um jeito de não ser enviado ao front, por
problemas cardíacos. Problemas cardíacos que depois, pelo resto da vida,
sumiram.
Ele se valeu do fascínio
intelectual que exercia sobre a aluna dezessete anos mais jovem Hannah Arendt
para, em bom português do tempo em que ainda não existia o politicamente
correto, “comê-la”. Como o Heidegger era casado, com dois filhos, seus
encontros com a aluna menor de idade tinham de ser completamente secretos.
Heidegger marcava o local e a hora, às vezes até em outras cidades,
aproveitando palestras que tinha que dar, e a Hannah comparecia como um cão
amestrado. Submissão total, nelson-rodrigueana.
Heidegger foi dedo-duro. Delatou
colegas às autoridades nazistas. Está no Safranski, nas páginas 324-5.
Os heideggerianos varrem para
baixo do tapete o flerte de seu ídolo com o nazismo. Na verdade, não foi um
flerte, nem uma mera paixão política, foi uma paixão filosófica. O nazismo
representava a volta à verdadeira filosofia pré-socrática, o dasein em sua plenitude. Antes dos
nazistas subirem ao poder, Heidegger já flertava com aquela ideologia nefasta.
Aproveitou a tomada do poder por aquele bando para arrebatar o cargo de reitor
da Universidade de Freiburg, passando para trás outros pretendentes talvez mais
qualificados. No cargo, impôs a disciplina nazista ao campus. Está tudo na
biografia do Safranski, você pode ler com seus próprios olhos.
Quando, em viagem a Roma em 1936
para dar conferências, seu ex-aluno Karl Löwith, que tivera de deixar a
Alemanha por sua ascendência judaica (embora professasse o protestantismo),
observou que a “tomada de partido” de Heidegger “em favor do
nacional-socialismo estava na essência de sua filosofia”, este concordou e
explicou que “seu conceito de historicidade era o fundamento de sua mobilização
política”. Nas andanças por Roma, Heidegger ostentava o símbolo do partido, a
suástica. Está no Safranski, pp. 376-7.
Depois que renunciou à reitoria
em Freiburg, Heidegger maquinou com as autoridades nazistas a criação de uma
academia de docentes em Berlim para a formação ideológica de candidatos a
lecionar no ensino superior, retirando este poder das universidades. Projeto
que daria um poder incrível a Heidegger, praticamente de credenciar quem
quisesse lecionar nas faculdades. Mas o projeto não se concretizou. Os próprios
nazistas desconfiaram da megalomania de Heidegger. Está nas páginas 332-3 do
Safranski.
Encerrada a guerra, os próprios
catedráticos encarregados de desnazificar a universidade de Freiburg se
indignaram com a ausência de qualquer sentimento de culpa em Heidegger pelo
apoio ao nazismo.
Com a moda da filosofia
existencialista francesa, de Sartre, Heidegger ganha um público novo, jovem,
que não está nem aí para seu envolvimento com o nazismo. Em 1949 publica seu
primeiro texto do pós-guerra, A carta sobre o humanismo. O filósofo que
apoiou ativamente o regime que exterminou milhões de civis inocentes mete-se a
falar de humanismo!
A filosofia de Heidegger me soa
como mero jogo de palavras. Sim, ele se vale da capacidade de composição de
palavras da língua alemão para fazer verdadeiros malabarismos lexicais. Para
mim, aquele palavreado não faz o menor sentido. Se para você faz, então me
explique o significado deste trecho de sua conferência sobre as interpretações
fenomenológicas de Aristóteles: “Essa orientação fundamental do indagar
filosófico não é imposta e aparafusada de fora no objeto indagado, pela via
fáctica, mas deve ser compreendido como o apreender explícito de uma motilidade
fundamental da vida fáctica, que é de maneira tal que na produção concreta de
seu ser ele se preocupe com o seu ser, e isso também ali onde se desvia de si
mesmo.” (p. 159)
Se você pesquisar sobre Heidegger
lerá que ele revolucionou a filosofia como Einstein revolucionou a física no
século XX. Não consigo ver essa revolução. Talvez por cegueira minha. O grande
filósofo inglês Bertrand Russell teria sido cego como eu quando disse que
“Altamente excêntrico em sua terminologia, sua filosofia é extremamente
obscura”? Ou Roger Scruton ao dizer que “Sua obra principal Ser e Tempo é
extremamente difícil — a não ser que seja puro absurdo, e neste caso é
risivelmente fácil”? Ou o filósofo grego Panagiotis Kondylis ao afirmar que “Eu
considero Ser e Tempo um dos livros mais superestimados do século. Para
ser preciso, encaro-o como uma coleção de platitudes expressas em linguagem
pretensiosa e obscura” ou o filósofo inglês Ayer ao acusar Heidegger de
charlatanismo?
Um embuste da filosofia
heideggeriana é a entronização da filosofia pré-socrática como sendo a
autêntica, a verdadeira filosofia. Tudo que veio depois foi uma deformação, uma
decadência da filosofia. Na verdade ninguém sabe direito como foi a filosofia
antes de Sócrates, não sobreviveu nenhuma obra dos filósofos daquela época,
tudo que temos são citações feitas por filósofos posteriores, fragmentos de
textos.
A filosofia política inglesa
gerou bons frutos, como a democracia, a sociedade liberal, etc. Já a filosofia
alemã gerou algumas aberrações, como a barbárie marxista, subproduto da
filosofia de Hegel. O marxismo prega o extermínio puro e simples da burguesia.
Parece que essas filosofias que são contra as platitudes da vida corriqueira,
contra o mundo burguês raso, etc. etc. acabam descambando na carnificina. Em
sua aversão platônica à democracia e desejo de salvar a humanidade, acabam
impondo a tirania. Você sabia que os nazistas flertaram com o pensamento de Nietzsche, deturpando-o, é verdade, mas flertaram? Quem se salva é Schopenhauer, com sua filosofia pessimista baseada no budismo,
que nunca empolgou nenhum
ditador de plantão. Vou ler as biografias desses filósofos, também escritas
pelo Safranski, em seguida.
EM 1995 A EDITORA JOSÉ OLYMPIO ENCOMENDOU-ME UMA RESENHA DO ENTÃO RECÉM-LANÇADO GALILEO, A LIFE, DO ESCRITOR JAMES RESTON, JR. E, COM BASE NO MEU PARECER, DECIDIU PUBLICAR O LIVRO E ENCOMENDOU-ME A TRADUÇÃO. A BIOGRAFIA GANHOU MATÉRIA DE PÁGINA INTEIRA DE CELINA CÔRTES, QUE ME ENTREVISTOU PELO TELEFONE, INTITULADA “GALILEU / NOVA BIOGRAFIA DO GÊNIO DERRUBA MITOS COMO O DA IGREJA OBSCURANTISTA”,NO CADERNO B DO JORNAL DO BRASIL. EIS A RESENHA:
No preludio, o autor menciona sua visita à NASA, em dezembro de 1992, preocupada na época com os problemas em torno da mais ambiciosa missão interplanetária da era dos ônibus espaciais: a viagem da nave Galileu em direção a Júpiter e suas luas. Como Galileu, o homem, a máquina Galileu estava incapacitada. Vítima, na era moderna, da maldição de Galileu. A outra importante missão espacial da NASA, o telescópio espacial Hubble, o equivalente moderno ao primeiro telescópio de Galileu, sofria de catarata ótica. A exemplo do velho Galileu em seus derradeiros dias!
No Posfacio (Apology), o autor narra a entrevista, em abril de 1993, com o cardeal Poupard, que presidiu a comissão, nomeada pelo papa João Paulo II, para reconsiderar o caso Galileu (a qual admitiu que os teólogos que atacaram Galileu erraram ao considerar literalmente as Escrituras no que tange à descrição do mundo físico). Comenta o autor: Escutar o cardeal Poupard era concluir que a Igreja não experimentara nenhuma angústia na reconsideração de Galileu. O conflito entre ciência e fé era um mito, disse desdenhoso. Sem titubear ou perceber sua contradição, repetiu novamente a versão padrão da Igreja sobre Galileu que eu ouvira com frequência nos três anos de redação deste livro: Galileu fora condenado porque insistira em tratar a teoria copernicana como verdadeira, e não como hipótese, sem poder prová la. Essa posição desviava a atenção de um fato simples: A teoria copernicana era verdadeira e a Igreja usara métodos extremados e rigorosos para esmagar essa verdade e proteger sua falsidade. Ao final da entrevista, indaga maldosamente: Quem será o próximo? Giordano Bruno? Poupard sorri indulgentemente. Cita John Huss, Joana D'Arc. Vitimas da intolerância
religiosa.
James Reston, Jr. realiza um trabalho de jornalismo investigador e compõe uma biografia vibrante, num estilo que vem conquistando o leitor atual e que está bem representado no Brasil por Ruy Castro, José Castello, Fernando Morais. Nos agradecimentos, o autor se refere à curiosidade dos italianos sobre um escritor norte-americano que ousou estudar a vida de um italiano de tamanha estatura, embora reconheçam que Galileu pertence ao mundo. E se um italiano ousasse escrever a biografia de George Washington? costumavam pilheriar. Foram três anos de pesquisa: Florença, Roma, Vaticano, Pisa, Pádua, Veneza. O cenário onde se desenrolou a vida de Galileu, cujas pegadas Reston resolveu seguir.
Reston não é um autor acadêmico, que escreve um livro de vulgarização cientifica exclusivamente para os apreciadores da Filosofia da Ciência (se bem que estes também gostarão do livro). O titulo é claro: Galileu, uma vida. Reston é romancista e teatrólogo, o que confere a esta biografia uma qualidade toda especial. O leitor imaginativo (ou o cinéfilo leitor) chega a se sentir na sala de cinema, tamanha a vivacidade com que o autor expõe seu tema. No fundo, todo autor norte-americano tem em mira uma possivel adaptação cinematográfica. Bom para a literatura, bom para a sétima arte.
Reston é um autor dotado de grandes recursos, capaz de descrever minuciosamente a igreja florentina de Santa Maria Novella; de descrever vivazmente o ambiente familiar de Galileu; dotado de incrível poder de
síntese, como ao se referir à invenção, pelo ainda estudante de medicina Galileu, de um pêndulo para a medição do pulso; capaz de descrever com um colorido incrivel experiências científicas sobre as quais, até então, só lemos frios relatos, a exemplo das bolas de diferentes pesos e tamanhos jogadas do alto da torre de Pisa (Emergindo expansivamente no topo, entre as pilastras e precárias arcadas abertas, ele representou para sua multidão. Ele foi aclamado clamorosamente. Estranhas vaias despontaram entre as aclamações, pois a maioria da turba sem dúvida esperava testemunhar um fiasco. Havia algo na torre que parecia atrair os excêntricos e os exibicionistas. Quem era aquele jovem gênio, aquele radical, para desafiar não apenas as autoridades no campo, mas o próprio Aristóteles?); capaz de descrever como ninguém as terríveis consequências do choque entre ciência e fé (Ciência e a fé se chocaram e, em seu terrível conflito, as duas foram separadas, tomando direções divergentes e perdendo seu terreno comum. Em sua insistência na vitória total da teologia, a Igreja católica ficou até hoje estigmatizada como anticientífica e obscurantista. Ela continua lutando para superar a maldição de 1616. E a ciência, temendo o espiritual, se tornou cada vez mais árida e sem coração, a ponto de mesmo as mais fantásticas descobertas no firmamento atual terem perdido o poder de tocar a alma e o espírito dos mortais); de comover o leitor ao descrever o processo kafkiano a que é submetido um Galileu idoso e doente.
O Galileu que emerge não é o Galileu brechtiano, o herói super-humano na luta contra as forças do mal. O painel traçado por Reston apresenta nuanças, entretons. Galileu, um cérebro privilegiado, é o homem do mundo, bem-sucedido, regiamente remunerado, matemático da corte do grão-duque de Toscana, que enriqueceu graças a suas invenções práticas, com aplicações militares. A Igreja da época contava com seus reacionários, seus Gustavos Corções (que usavam, é claro, métodos bem mais violentos), mas eram contrabalançados por prelados esclarecidos, intelectuais, cientistas, amigos de Galileu. Pertencer à Igreja, na época, era como trabalhar em uma estatal no Brasil do regime militar: um emprego seguro. Nem todo funcionário público é um patife. O grande suspense do livro de Reston: como um cientista bem-relacionado como Galileu, com duas filhas (ilegitimas) como monjas a serviço da Igreja, em cuja homenagem o futuro papa Urbano VIII compusera uma ode, que publicava suas obras em italiano com o imprimatur da Igreja... como, inopinadamente, se envolveu em um processo infamante que envenenou sua velhice? A condenação de Galileu foi, muito mais, resultado de uma conjunção de circunstâncias do que a consequência previsível de uma política obscurantista. Um jesuíta com quem Galileu tivera uma velha rixa consegue convencer o supersticioso e paranoico pontífice de que o ridículo personagem Simplicio dos Discursos sobre as Duas Novas Ciências não passava de uma caricatura de Sua Santidade. Como pano de fundo, a Guerra dos Trinta Anos e a Peste Bubônica; eis o cenário ideal para uma tragédia. O que seria o periodo de consagração do maior gênio italiano da época se transforma em uma página negra da história, comparável à condenação de Sócrates ou à Paixão de Cristo. A lição: toda e qualquer censura à criação artística ou intelectual é condenável. A que extremos chegam os fundamentalistas de qualquer vertente (cristãos, muçulmanos, marxistas...) quando ditam as regras do jogo!
ARTIGO DE IVO KORYTOWSKI PUBLICADO NO JORNAL O TREM ITABIRANO DE MAIO DE 2022 SOB O TÍTULO "Com vocês, o livro das... De quem quiser boa leitura". Para acessar uma versão PDF do jornal, clique aqui.
Vou falar de um livro que já foi chamado depreciativamente
de “o livro das misses”, que é O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince em
francês) de Antoine de Saint-Exupéry. Por que o livro das misses? Porque, nos
velhos tempos em que concursos de beleza tinham a visibilidade que tem hoje,
digamos, um julgamento no STF, várias das chamadas “misses”, aquelas moças
bonitas que participavam daqueles concursos, citavam a obra como seu livro
favorito.
Se bem que o livro contraste o universo ingênuo da criança
com o mundo às vezes exageradamente sério dos adultos – e foi gestado numa
época negra, em que essa “seriedade” causou grande destruição, a Segunda Guerra
Mundial –, não foi escrito especificamente para o público infanto-juvenil (como
foi, digamos, Reinações de Narizinho), embora seja lido com prazer por
esse público. É mais do que isto. É uma literatura alegórica, simbólica, de
sátira aos costumes, um tipo de literatura com longa tradição.
Antigamente não se podia sair criticando os reis, as classes
dirigentes, a igreja, sob risco de ser queimado vivo ou encarcerado. A crítica
social tinha de ser feita de modo sutil, velado, através da alegoria e da
sátira. É o caso das Viagens de Gulliver, que podem ser lidas como uma
aventura fantástica, mas que no fundo são uma sátira social com profunda carga
crítica.
A gente pode fazer várias leituras de O Pequeno Príncipe.
Primeiro, vejo este livro como uma crítica à limitação, ao espírito tacanho da
maioria dos seres humanos. Vivemos num universo inconcebivelmente grande,
complexo, cheio de possibilidades e, no entanto, ficamos (não digo todo mundo,
mas a maioria) presos em nossos mundinhos cotidianos, como se vivêssemos nos
pequenos planetas (ou asteroides) onde habitam o vaidoso, o ébrio, o acendedor
de lampiões, o homem de negócios, o rei, os personagens da primeira parte de O
Pequeno Príncipe. Esta é uma leitura que podemos fazer, de sátira à
tacanhez, à limitação humana. Mas o livro é mais do que isto.
Eu situaria O Pequeno Príncipe dentro da tradição da novela
filosófica francesa cujo grande mestre foi Voltaire. Novela não no sentido
de novela da televisão, mas de uma obra literária mais longa que o conto, mas
menos longa que o romance. Assim como no Cândido
de Voltaire, temos o personagem que, com sua aparente ingenuidade, consegue
enxergar mais fundo que as pessoas normais e acaba desconcertando-as. Quando o
vendedor de pílulas contra a sede apregoa que, com seu produto, as pessoas
terão mais tempo livre, o “ingênuo” principezinho responde que, se tivesse mais
tempo livre, iria procurar um poço d’água.
Especificamente, O Pequeno
Príncipe guarda certa semelhança com o Micrômegas
de Voltaire, que é a história de um gigante de Sirius que decidiu aventurar-se
pelo Universo, visita o Sistema Solar e vem parar na Terra, dando a volta ao
mundo e discutindo filosofia com os seres humanos. Também o principezinho
visita vários asteroides/planetas e discute filosofia com os seres humanos.
Quando ele diz que “o essencial é invisível aos olhos” está retomando a teoria
de Platão do mundo das ideias. E quando diz que “não se vê bem a não ser com o
coração” está refletindo o pensamento de Pascal de que “o coração tem razões
que a própria razão desconhece”. E ainda tem gente que acha que é um livro
bobinho ou um livro de autoajuda. Bobinho uma ova.
Claro que este é um livro que permite mil leituras
diferentes. Há quem veja o principezinho como um anjinho que caiu na Terra. E
tem outra coisa: o príncipe morre, supostamente picado pela cobra, para poder
subir de volta ao seu planeta sem ser atrapalhado pelo peso do seu corpo. O
autor o vê “tombando devagarinho como tomba uma árvore”. Mas tem certeza de que
voltou ao seu planeta porque, ao raiar do dia, não encontrou seu corpo. É a
história da paixão e ressurreição de Cristo! Só que o “planeta” de Cristo é o
reino dos céus!
Em seus voos pelo correio francês entre Buenos Aires e a
França, Saint-Exupéry pousava para reabastecer no bairro florianopolitano de
Campeche, que seria corruptela de champ de pêche, campo de peixe, como o
escritor (que chamavam de “seu Peri”) designava a área. Pelo menos é o que
contam aos turistas que visitam a aprazível capital santa-catarinense. Se
non è vero, è ben trovato.
Em português, na tradução de Carlos Alberto Nunes:
Se os estados, ofícios, posições não fossem dados por maneira corrupta, e as honrarias só fossem conquistadas pelo mérito, quantas pessoas que andam descobertas, a cabeça cobririam! Quanta gente que hoje é mandada, assumiria o mando.
Os nazistas
adoravam O Mercador de Veneza: entre 1933 e 1939, a peça foi montada
mais de cinquenta vezes na Alemanha nazista. Péssimo sinal. Meu pai adorava O
Mercador de Veneza, gostava de mencionar sua história. Ótimo sinal.
Shylock interpretado por Henry Urwick em pintura de Walter Chamberlain da coleção da Royal Shakespeare Company
Antonio, o mercador de Veneza, é o protagonista da peça, mas quem se sobressai é seu antagonista, o judeu Shylock. Ele reflete o estereótipo negativo que a Europa, após séculos de pregação antijudaica por parte da Igreja, formou do judeu. Estereótipo que também vemos no personagem judeu Fagin, do romance Oliver Twist de Dickens, e no usurário e banqueiro Gobseck, “filho de uma judia e de um holandês”, do romance homônimo de Honoré de Balzac.
Ator Ron Moody como Fagin
O próprio Shakespeare nunca deve ter visto um judeu na sua frente, já que estes foram expulsos da Inglaterra por decreto real do rei Eduardo I em 1290 e só foram readmitidos no país por Cromwell mais de 350 anos depois, em 1657. Assim como foram expulsos da Espanha em 1492 e de Portugal em 1496. Com a expulsão os reis tentavam forçar sua conversão ao catolicismo, mas muitos judeus preferiam procurar refúgio num país islâmico a abjurar sua fé. Sim, o mundo dá voltas. Naquela época, os judeus eram muito melhor acolhidos entre os muçulmanos, que segundo a tradição descendem do mesmo patriarca dos judeus: Abraão.
Gobseck no filme russo homônimo de Preben J. Rist de 1924
Qual a grande
culpa dos judeus para serem tão execrados no mundo cristão, sofrendo uma
perseguição sistemática que culminou com a tentativa de extirpá-los da face da
terra durante o odioso regime nazista que envergonha a raça humana? Era a culpa
coletiva, transmitida de pai para filho, pela morte de Jesus Cristo. Essa culpa
coletiva, com base em Mateus 27:25 – “O seu sangue caia sobre nós e sobre
nossos filhos” – foi doutrina oficial da Igreja até meados do século XX. Eu
mesmo cheguei a ouvir na escola, quando algum colega ficava sabendo que eu era
judeu, o comentário de que “o judeu matou Cristo”. Assim, durante quase dois milênios,
a história dos judeus é uma saga de errância, coagidos de tempo em tempo e de local para
local a emigrar em consequência das restrições, expulsões, pogrons (ataques
violentos), tudo isso culminando no trágico e absurdo Holocausto da era nazista.
O judeu errante em representação nazista
Na peça de Shakespeare essa doutrina da transmissão da culpa de uma geração para a outra se reflete quando o bufão Lancelote Gobo diz que “the sins of the father are to be laid upon the children = os pecados do pai devem recair sobre os filhos” (Ato III, Cena V). Ele está se dirigindo à filha do judeu, que reconhece a culpabilidade ao responder que “I shall be saved by my husband; he hath made me a Christian = Serei salva por meu marido; ele me tornou cristã.”
Qual é a história de O Mercador de Veneza? Vou tentar contar de forma resumida e sem revelar o final. Mas antes, uma reminiscência. No meu tempo de adolescente, quando passava um filme baseado numa obra clássica, digamos, de Shakespeare, antes da gente ir ver o filme, meu pai, que conhecia toda a literatura inglesa, alemã, francesa, punha-se a contar a história. Quando chegava perto do final, a gente pedia, “não conta o final pra não tirar a surpresa”, e ele respondia, “mas este é um clássico, todo mundo sabe o final”, e a gente replicava, “mas nós não sabemos”, mas meu pai, empolgado, continuava contando, e eu e meu irmão mais velho tapávamos os ouvidos ou começávamos a fazer ruído para não ouvir. Pois eu não vou repetir a mania do meu pai, não vou contar o final.
Lynn Collins como Pórcia na versão cinematográfica de Radford
Quem dá título
à história é Antônio, um mercador rico. Seu amigo Bassânio pretende viajar a
Belmonte para conquistar a mão da formosa e rica herdeira Pórcia. Só que Pórcia não
pode escolher livremente seu marido, ela tem que acatar a ordem deixada por seu
pai, antes de morrer, de se casar com quem conseguisse, dentre três escrínios
ou cofres (depende da tradução, em inglês são three caskets), um de
ouro, outro de prata, o terceiro de chumbo, escolher aquele que contém seu
retrato. O cofre de ouro traz a inscrição “Quem me escolher ganha o que muitos
querem”, o de prata, “Quem me escolher, ganha o que bem merece”, e o de chumbo,
“Quem me escolher, arrisca e dá o que tem”. Até agora todos os pretendentes que
tentaram a sorte erraram de cofre, e nenhum
deles agradou à donzela. Pois bem, Bassânio precisa de dinheiro para fazer a
viagem até Belmonte e impressionar a deslumbrante moça, mas Antônio está sem
disponibilidade de caixa, toda sua grana está aplicada em mercadorias que
comprou em diferentes partes do mundo e que estão a caminho de Veneza. Naquele
tempo, Veneza, uma república, era uma potência comercial. Então Antônio vai
pedir dinheiro emprestado ao judeu. Este de início reclama que Antônio sempre o
tratou mal, sempre o desprezou por ser judeu, mas acaba concordando em conceder
o empréstimo dos 3 mil ducados. E tem mais: não vai nem cobrar juros. Mas tem
um senão: se no dia do vencimento Antônio não devolver o dinheiro, como
penalidade terá que fornecer ao judeu uma libra de sua própria carne, retirada
da parte do corpo que o judeu escolher. Ele acha que não corre nenhum risco, que seus navios com as
mercadorias chegarão incólumes, e o empréstimo será reembolsado. Só que o
destino prega uma peça no mercador: os navios com as mercadorias naufragam, e o
judeu exige o cumprimento do contrato. E o resto você vai ter que ler a peça
para saber.
A história central, do empréstimo, não é original de Shakespeare. Baseia-se em “Il Gianetto”, da coletânea de cinquenta histórias, Il Pecorone (O Simplório), de Giovanni Fiorentino, no estilo do Decameron de Boccacio, que Shakespeare teve a oportunidade de ler na tradução de William Painter. Mas o bardo pega uma simples história e transforma num texto de grande poeticidade e impacto, assim como, digamos, um compositor pega um tema singelo do folclore e transforma num movimento de uma sinfonia.
Veneza por Canaletto
Veneza na época contava com uma considerável colônia judaica. O termo gueto (ghetto em italiano) teve lá sua origem, designando o bairro onde os judeus tinham que se confinar nas horas noturnas.
Se você for
ler a peça no original inglês, estará lendo um texto escrito mais de 400 anos
atrás. Ou seja, escrito num inglês bem diferente do atual. O Mercador de
Veneza foi escrito menos de trinta anos depois de Camões escrever Os
Lusíadas. Você sabe que ler Os Lusíadas não é para qualquer um.
Aliás, só conheço uma pessoa que leu na íntegra, o Alexei Bueno. Eu mesmo nunca li. O brasileiro
quando tem que ler Machado de Assis na escola, um autor que morreu pouco mais
de cem anos atrás, já reclama, já acha o texto arcaico. Então como é que os
ingleses (e norte-americanos) leem com tanta facilidade as peças do
Shakespeare? Ou se não leem, assistem no cinema, pois não são poucas as filmagens, com
grande sucesso de público, de peças shakespeareanas. Talvez o sistema escolar
inglês e norte-americano familiarize os estudantes com a linguagem de Shakespeare.
Não sei, estou chutando. O que sei é que eu, tradutor aposentado, que no
decorrer de 35 anos traduzi 193 livros do idioma de Shakespeare para o idioma
de Camões, não tenho a mesma facilidade em ler um texto do bardo que tenho em
ler uma reportagem na BBC.
Primeiro, Shakespeare não escreve em prosa, escreve
(na maior parte do tempo, com algumas exceções) em versos quase sempre sem
rima, mas seguindo uma métrica rigorosa. Ele usa o chamado pentâmetro jâmbico,
que é um verso decassilábico, composto de cinco pares de sílabas, uma átona e a
outra tônica. Por exemplo:
How sweet/ the moon/light sleeps/ upon/ this bank!
Here will/ we sit/ and let/ the sounds/ of music
Creep in/ our ears:/ soft still/ness and/ the night
Become/ the
tou/ches of/ sweet har/mony.
Como fazer
para destrinchar o texto de Shakespeare? Eis a questão. O texto contém provérbios antigos,
palavras propositadamente erradas (ditas por personagens cômicos), palavras que
na época de Shakespeare tinham um sentido diferente do atual, formas de grafar arcaicas, frases que para
se encaixar na métrica ficam difíceis +de entender, etc. Eu pessoalmente, na
leitura de O Mercador de Veneza, lancei mão de cinco ferramentas
disponíveis na Internet:
1) O texto
original clássico acompanhado de uma tradução para o inglês contemporâneo -
https://www.sparknotes.com/nofear/shakespeare/merchant/
2) O texto
original clássico acompanhado de notas explicativas -
https://shakespeare-navigators.com/merchant/MerchantText11.html
3) Um
dicionário Webster de 1828, que ainda registra significados que hoje são
considerados arcaísmos - http://webstersdictionary1828.com/
4) A tradução
de Carlos Alberto Nunes, a mais fiel ao texto original, reproduzindo inclusive
a métrica, cujo pdf pode ser baixado do site Shakespeare Brasileiro -
https://shakespearebrasileiro.org/pecas/
5) A tradução
de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros e Oscar Mendes, em prosa, abandonando a
métrica, num bonita edição de capa dura da editora Abril de uma coleção que era
vendida em bancas de jornal.
E você conta
com uma ferramenta adicional com a qual eu não contei: meu próprio dicionário
eletrônico inglês-português para tradutores, que eu fui construindo no decorrer
de três décadas trabalhando como tradutor. Nele cadastrei não só a terminologia
dos livros que traduzi, mas também dos livros que li. O download é gratuito. O link: https://sites.google.com/site/livrosdeivokorytowski/ivo-korytowski-s-english-portuguese-translator-s-dictionary
Primeira edição da obra
Finalmente, a pergunta que não quer calar: O Mercador de Veneza é uma peça antissemita? Embora o título da primeira edição da obra em 1600 – The most excellent Historie of the Merchant of Venice. With the extreme cruelty of Shylock the Jew towards the said Merchant, in cutting a just pound of his flesh, and the obtaining of Portia by the choice of three chests; em português, A magnífica história do mercador de Veneza. Com a extrema crueldade de Shylock, o judeu, para com o dito mercador, em cortar uma libra exata de sua carne, e a conquista de Pórcia pela escolha entre três arcas–acuse o judeu de crueldade, se você lê a peça vê que ela mostra os dois lados da moeda. O judeu como um personagem mesquinho, alvo de chacotas, por um lado, mas também como uma vítima da sociedade. Ele é chamado de faithless Jew, judeu incrédulo, villain Jew, judeu vilão, the dog Jew, judeu cachorro, etc. Shylock deixa claro que, se quer vingança contra Antonio, é porque aprendeu a se vingar com os cristãos (The villany you teach me, I will execute = Hei de pôr em prática a maldade que me ensinastes). Afinal, Antonio “me humilhou, impediu-me de ganhar meio milhão, riu de meus prejuízos, zombou de meus lucros, escarneceu de minha nação, atravessou-se-me nos negócios, fez que meus amigos se arrefecessem, encorajou meus inimigos.” Sua própria filha, Jéssica, tem vergonha do pai e foge de casa, levando uma arca de joias, inclusive o anel que Shylock guardava como lembrança da falecida esposa, para se casar com um cristão. A defesa de Shylock, em que diz que (parafraseando Tom Jobim) “no peito de um judeu também bate um coração” é um dos trechos mais belos da obra, senão vejamos:
Al Pacino como Shylock
I am a Jew. Hath not a Jew eyes? Hath not a Jew hands, organs, dimensions, senses, affections, passions? Fed with the same food, hurt with the same weapons, subject to the same diseases, healed by the same means, warmed and cooled by the same winter and summer as a Christian is? If you prick us, do we not bleed? If you tickle us, do we not laugh? If you poison us, do we not die? And if you wrong us, shall we not revenge? If we are like you in the rest, we will resemble you in that.
Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquece e refresca os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar nos? Sim em tudo o mais somos iguais a vós, teremos de ser iguais também a esse respeito.
Quando o duque pede a Shylock que tenha misericórdia de Antonio, o judeu denuncia a hipocrisia dos cristãos e diz que, se estes abrirem mão dos seus escravos e os libertarem, ele, Shylock, abrirá mão da multa devida por Antônio. (Ato IV, Cena I: You have among you many a purchased slave, Which like your asses and your dogs and mules, You use in abject and in slavish parts, Because you bought them = Possuís muitos escravos, que como asnos, cães e mulos tratais, e que em serviços empregais vis e abjetos, sob a escusa de os haverdes comprado.) O judeu tem tanto ressentimento dos cristãos que preferiria que sua filha casasse com alguém da raça do bandido Barrabás a casar-se com um cristão: I have a daughter; Would any of the stock of Barrabas / Had been her husband rather than a Christian! = Tenho uma filha; mas preferiria que ela casasse com um dos descendentes de Barrabás, a vê-la desposada com um desses cristãos.
Caricatura de um judeu de Praga, gravura em cobre de Elias Bäck do início do século XVII
As montagens da peça pelos nazistas claro que procuravam desumanizar o judeu, apresentá-lo como um ser desprezível, o bode expiatório para todos os males. Já a versão cinematográfica de Michael Radford de 2004 mostra Shylock, em magnífica interpretação de Al Pacino, como vítima de uma sociedade intolerante. Os autores de grandes clássicos têm essa característica, suas obras não são preto no branco, são matizadas, permitem infinitas leituras, tanto é que vivem sendo reencenadas, refilmadas, reinterpretadas, relidas.
Caymmi disse que “quem não gosta de samba, bom sujeito não é”. Na peça Lorenzo diz algo parecido: “The man that hath no music in himself, Nor is not moved with concord of sweet sounds, Is fit for treasons, stratagems, and spoils; The motions of his spirit are dull as night, And his affections dark as Erebus = O homem que música em si mesmo não traz, nem se comove ante a harmonia de agradável toada, é inclinado a traições, tão-só, e a roubos, e a todo estratagema, de sentidos obtusos como a noite e sentimentos tão escuros quanto o Érebo.” (Ato V, Cena I)
Shakespeare na National Portrait Gallery, Londres
O Mercador de
Veneza está classificada entre as comédias de Shakespeare, junto com A
Tempestade e Sonho de Uma Noite de Verão, mas na verdade é uma
mescla de tragédia e comédia, uma tragicomédia. O núcleo da história, o embate
entre o usurário judeu e o mercador cristão, é trágico, mas em torno desse
núcleo orbitam três histórias de amor com finais felizes, como é próprio das
comédias clássicas: de Bassânio por Pórcia, de Graciano por Nerissa e de
Lorenzo (Lourenço) por Jéssica. Além disso, a peça tem um personagem
eminentemente bufão, Lancelote Gobo; os pretendentes à mão de Pórcia, antes da
chegada de Bassânio em Belmonte, são ridículos; e os anéis de que Bassânio e
Graciano juraram jamais se desfazer dão margem a uma série de brincadeiras
maldosas.
Henry James é um escritor suigeneris,
a meio caminho entre o realismo do final do século XIX e o modernismo do início
do século XX. Nasceu em berço de ouro. Seu irmão, William James, além de
pioneiro da psicologia nos Estados Unidos, criou uma escola filosófica
quintessencialmente americana, o Pragmatismo. Henry foi um expatriado por quase
toda a vida adulta, vivendo um ano em Paris e depois o resto da vida em Londres,
onde se enturmou com a elite intelectual. Nunca se casou. Um ano antes de
morrer, naturalizou-se britânico.
Henry é o criador de um clássico
da literatura de fantasmas que qualquer aficionado do terror adora: A Volta
do Parafuso, uma das obras mais adaptadas da história da literatura: virou
balé, virou ópera, virou peça teatral na Broadway, ganhou várias versões no
cinema, virou série da Netflix.
O sucesso de A Volta do Parafuso
no cinema nos leva a uma reflexão sobre a relação entre a sétima arte e a
literatura. O cinema, em certo sentido, é a salvação da literatura. Ao extrair
da obra literária a sua essência – trama, personagens, diálogos, drama,
ambiência – permite que a literatura rompa os limites de um público mais
letrado, mais intelectualizado e chegue ao grande público. Você se emociona com
a história de Romeu e Julieta sem ter que quebrar a cabeça com cada expressão e
cada trocadilho e cada alusão e cada metáfora de um inglês quatro séculos
distante do contemporâneo. Você se emociona com o amor de Swann sem ter que
desbastar as frases intermináveis e divagantes da escrita do Proust (sobre isto
fiz um vídeo que você pode ver no YouTube). E você curte as aparições dos
fantasmas de A Volta do Parafuso sem ter que quebrar a cabeça com o
texto às vezes enrolado do James, por exemplo (e olha que esta é uma frase
curta, porque também não quero que o artigo fique longo demais):
It sufficiently stuck out that, by
tacit little tricks in which even more than myself he carried out the care for
my dignity, I had had to appeal to him to let me off straining to meet him on
the ground of his true capacity.
(Estava bem claro que, por meio
dos pequenos artifícios tácitos com que ele, mais ainda do que eu, cuidava de
preservar minha dignidade, foi-me necessário apelar a Miles para que não
continuasse a exigir de mim o esforço necessário para igualar-me a ele nos
termos de sua verdadeira capacidade.)
Eu não sou o único a achar a
prosa do James um tanto enrolada. Sam Jordinsson, em I can’t bear Henry
James, que achei na Internet, diz que “wading through his books seems to
me to be the literary equivalent of wearing a very stiff and uncomfortable
shirt simply in order to attend an endless speech given by a dull and pompous
old headmaster” (“percorrer seus livros me parece o equivalente literário a
trajar uma camisa muito engomada e desconfortável simplesmente para ouvir um
discurso interminável feito por um velho diretor de escola banal e pomposo”) Um
outro artigo, intitulado “Henry James: Worst Writer Ever?”, no blog Scarriet,
diz: “Poor Henry James. He took so long to say something, and when he
finally said it, there was nothing there.” (“Pobre Henry James. Levava
tanto tempo para dizer alguma coisa, e quando enfim dizia, não havia nada
lá.”).
A Volta do Parafuso também
é uma das obras literárias que mais geraram interpretações acadêmicas e da
crítica literária, devido a sua suposta ambiguidade: segundo os entendidos, não
fica claro se os fantasmas existem mesmo ou são criações da cabeça doentia da
governanta. Uma ambiguidade comparável à do Dom Casmurro, do nosso
Machado, em que não se sabe se o adultério ocorreu mesmo ou é obra da cabeça
ciumenta do Bentinho. Eu que sou uma pessoa objetiva nunca tive dúvida de que o
autor deixa bem claro que Capitu cometeu, sim, a traição. Para mim, achar
ambiguidade no texto claríssimo do Machado é procurar chifre em cabeça de
cavalo. No caso do Henry James, minha opinião é a mesma.
Primeiro, temos que levar em
conta a época em que foi publicada a história, 1898, em plena era vitoriana,
quando as pessoas, num mundo pré-eletricidade, vivendo em ambientes mal
iluminados por velas e lamparinas, acreditavam, sim, em fantasmas. O que
aconteceu é que, logo no início do século XX, a onda avassaladora do
freudianismo, querendo interpretar tudo – até a história da Chapeuzinho
Vermelho – à luz da repressão sexual, caiu como uma luva para a protagonista da
história do James, e aí inventaram de dizer que a governanta era mentalmente
perturbada por ser sexualmente reprimida. Pra mim é botar chifre em cabeça do
cavalo.
Existem várias provas de que se
trata de uma história de fantasmas e não de delírio psiquiátrico. Em primeiro
lugar, em seus Notebooks (que são suas anotações depois reunidas em livro),
James indica que, ao escrever a obra, teria se inspirado em uma história real
contada pelo Arcebispo de Canterbury. Além disso, James escreveu outras
histórias de fantasmas que não dependiam da imaginação do narrador, por
exemplo, Owen Wingrave. Mas a prova mais clara de que é uma história de
fantasmas (e não de um delírio) é o diálogo que ocorre na narrativa de
moldura que abre o livro e que é omitida nas versões para o cinema.
Antes preciso explicar o que é
uma narrativa de moldura. É uma historinha que, à semelhança da moldura de um
quadro, enquadra a história principal do livro. O exemplo clássico são As
Mil e Uma Noites, onde a narrativa de moldura é a história do sultão que
matava uma mulher por noite até deparar com Shehazade e se encantar com suas
narrativas. A Volta do Parafuso começa com um prólogo onde um grupo de
pessoas reunidas em torno da lareira, na véspera do Natal, comenta um caso
tenebroso de uma aparição que surgiu para uma criança, an appearance, of a
dreadful kind, to a little boy sleeping in the room with his mother and waking
her up in the terror of it(uma aparição, das mais terríveis, testemunhada
por um menininho que dormia no quarto com a mãe e que a acordou apavorado). Um
dos participantes, o Douglas, diz que conhece uma história ainda pior que, em
vez de uma só criança, envolve duas. É aí que entra a expressão “turn of the
screw”, “volta do parafuso”, que dá título ao livro, e que voltará a
aparecer mais para o final. Diz Douglas que “Nobody but me, till now, has
ever heard. It's quite too horrible [...] It's beyond everything. Nothing at
all that I know touches it” (“ninguém até então ouviu essa história. É
horrível demais. [...] Supera todas as outras. Nada que eu conheço se compara a
ela”) Se fosse uma mera história de alucinação, e não de fantasmas reais, o
Douglas não faria esta onda toda.
Outra prova de que os fantasmas
são reais é que, quando a governanta descreve para Mrs. Grose as
características de uma aparição masculina, esta reconhece tratar-se do
ex-empregado Peter Quint, falecido. Se aquela aparição fosse puro delírio, não
corresponderia a uma pessoa real que a babá nunca conheceu. No filme de 1951,
cujo roteiro foi reescrito por Truman Capote para se adotar ao enfoque
psicológico escolhido pelo diretor, ela vê uma fotografia de Quint no sótão,
mas esta cena não existe no livro. Tem um trecho no início do Capítulo 8 do
livro que reforça o que estou dizendo: “how, if I had ‘made it up’, I came
to be able to give, of each of the persons appearing to me, a picture
disclosing, to the last detail, their special marks” (“como, caso eu
estivesse inventando, poderia ter esboçado retratos que revelavam cada detalhe
e cada característica das pessoas que me apareceram”)
Li o texto no original inglês mas
cotejei com duas traduções. A tradução de Paulo Henriques Britto para a
Companhia das Letras é mais fiel à estrutura do inglês. A de Guilherme da Silva
Braga para a editora L&PM é mais livre, na tentativa de deixar o texto mais
claro. Na Nota do Tradutor, ele aborda as dificuldades do texto: “uma obra de
sintaxe rebuscada, que por vezes beira o barroco”. Mas as duas traduções são
boas de ler. No texto deste vídeo publicado no meu blog eu dou exemplos das
duas traduções.
TEXTO ORIGINAL
To hold her perfectly in the
pinch of that, I found I had only to ask her how, if I had "made it
up," I came to be able to give, of each of the persons appearing to me, a
picture disclosing, to the last detail, their special marks—a portrait on the
exhibition of which she had instantly recognized and named them.
TRADUÇÃO DO PAULO HENRIQUES
BRITTO
Para fazê-la comprometer-se por
completo quanto a esse ponto, constatei, bastava perguntar-lhe como, se eu
havia “inventado” a história, me fora possível apresentar, para cada uma das
pessoas que me aparecera, uma imagem que revelava, até o mínimo detalhe, suas
características específicas – um retrato com base no qual, ao lhe ser exibido,
ela pôde reconhecê-las e nomeá-las no mesmo instante.
TRADUÇÃO DO GUILHERME DA SILVA
BRAGA
Para conduzi-la até este ponto,
bastou lhe perguntar como eu – caso estivesse inventando – poderia ter esboçado
retratos que revelavam cada detalhe e cada característica das pessoas que me
apareceram; que possibilitaram meu reconhecimento imediato, a ponto de a sra.
Grose os poder nomear.
Embora o título original seja, The
Turn of the Screw, A Volta do Parafuso, algumas traduções
portuguesas preferiam acrescentar um “outra”, A Outra Volta do Parafuso,
para que não fique a impressão de que se trata do verbo voltar, como em A Volta
do Boêmio. Algumas pessoas compram A Outra Volta do Parafuso achando que
é uma continuação de A Volta do Parafuso e quebrem a cara ao constatarem
que se trata do mesmo livro. Segundo o dicionário Oxford, a turn of the
screw é “an additional degree of pressure or hardship added to a
situation that is already extremely difficult to bear” (“um grau adicional
de pressão ou dificuldade acrescentado a uma situação que já é extremamente
difícil de suportar.”)
Ingressar num convento constitui
uma escolha de vida radical, que requer uma vocação fora do comum: você abre
mão de casar, procriar, ter dinheiro, ter sua casa, seu carro, sua profissão;
faz votos, de silêncio, de pobreza, de obediência, e vai em busca do mais
esquivo, mais fugidio dos seres: Deus.
Entra no mosteiro para nunca mais sair de lá. É raro, improvável a gente
deparar com alguém que foi para o mosteiro, virou monge, e aí deu o estalo, não
era bem isto que eu queria, e saiu. Até porque deixar um mosteiro imagino que
seja complicado, como sair da máfia, do tráfico, eles tentam dissuadir você de sair,
imagino. Mas Antonio Carlos Villaça sentiu o chamado da vocação, ingressou no
Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro, não se adaptou lá dentro, foi embora e nos
revelou o dia-a-dia, o ramerrão da vida monástica ao dar a lume, em 1970, seu
livro que se inscreve entre as obras-primas da literatura memorialística
brasileira, O nariz do morto, ombreando com outros grandes autores de
memórias como Gilberto Amado, Afonso Arinos de Melo Franco e Pedro Nava.
Entre este ponto alto de sua
produção literária e sua derradeira obra, O livro dos fragmentos,
publicado postumamente pela Civilização Brasileira graças ao empenho do
crítico literário André Seffrin (já que, no final da vida, Villaça, abandonado num asilo de velhos no Caju, sofria de depressão e perdera toda
iniciativa), medeiam 35 anos. Digamos que é seu testamento intelectual. É como se dissesse: vejam, vocês, quem fui, grande ensaísta, pensador católico de renome, conferencista pelos quatro cantos do país...
fui a tudo que é palestra, li livros e mais livros, em francês, em português, fui aos enterros das pessoas
eminentes, ouvi os discursos dos grandes oradores, privei das mesas mais
refinadas, entrevistei o grande Maritain. Dediquei a vida à reflexão, à leitura, contemplação, convivência, à busca de um sentido para a vida... Em suma, nas suas próprias palavras:
“Sou um giróvago. Um itinerante. Um peregrino. Sempre enroute. Sempre à procura de novos caminhos, no vasto
mundo.”
É como se dissesse estas coisas. Ele que, na reta final da jornada da vida, sofreu dois rudes golpes. Viu o dinheiro do prêmio Machado de Assis ganho em 2003, única quantia polpuda que chegou a obter na sua vida materialmente tão franciscana, bloqueado por uma ação trabalhista movida por um enfermeiro, e viu-se despejado de seu “mirante” na sede do Pen Clube –no nono andar de um prédio da Praia do Flamengo, onde passava o dia na biblioteca recebendo pessoas (tinha sempre alguém o visitando) – e “degredado” para os confins do asilo lá no Caju, onde quase ninguém mais o visitou. E onde ele definhou.
O livro dos
fragmentosé exatamente o que
promete o título (não há propaganda enganosa): sucessão de fragmentos de reminiscências, quase um
fluxo de consciência joyceano jorrando de sua prodigiosa memória. Reminiscências, na maior parte, da cena intelectual, já que Villaça teve este
condão de conviver com a intelectualidade, e os intelectuais gostavam de
interagir com ele. Pelo livro vão desfilando escritores, políticos, diplomatas,
religiosos, uma procissão. Villaça conheceu todo mundo. Seu aniversário, em
restaurantes, atraía uma “multidão”.
Vemos passar pelas páginas (entre muitos,
muitos outros): Jaime Ovalle, “boêmio de Deus” (Villaça prima pelas
caracterizações sintéticas, precisas), Abade Tomás Keller, “o abade
desequilibrado”, André Seffrin, “tão sério, tão estudioso. Tão elite e tão
povo, ao mesmo tempo”, Waldir Ribeiro do Val, “que buscou sempre a poesia e a encontrou”, Augusto Frederico Schmidt, “íntimo de ministros, de
magnatas, de presidente. E desejoso de ser apenas um mendigo”, José Lins do
Rego, que “tinha paixão pelo Flamengo”, Cyro dos Anjos, “o melhor anfitrião do
mundo”, Marco Lucchesi, “um humanista, um erudito, um sábio renascentista”, o “talentoso”Edmílson Caminha, etc. etc. etc.
Villaça é um exímio cultor do estilo modernista da frase curta, sem
esparramação, como bem observa Seffrin no texto das orelhas (“linguagem solta,
leve, à vontade, quase telegráfica”). Escreve com lirismo, com sentimento, com
coração, num (segundo Edgard Leite) “estilo muito particular de frases curtas que era muito bonito de se ler, muito difícil de ser imitado, porque tinha uma métrica, uma melodia, um movimento muito próprio”. A certa altura, atinge o paradoxo: “O erótico é profundamente místico. Nada mais religioso do que um prostíbulo. O prostíbulo me lembra um convento.” Encerro esta apreciação de O
livro dos fragmentos com um belo
trecho onde Villaça descreve o mar (porque eu também gosto de sentir a presença
marinha, o contato da água salgada):
Mar desconhecido, mar sempre
desconhecido.
É sempre novo, o mar. O mar é
estranho. O mar é desafiador. Abyssus abyssum invocat. O abismo atrai o
abismo. Mar abissal. Mar sempre novo. mar que me assusta. E ali está ele, o
mar. Pertinho de mim. O mar poderoso, o mar violento, o mar insaciável. O mar
que se move sempre. Vai e vem, enigmático.
Vi o Mediterrâneo. Vi o Atlântico.
Vi o Pacífico. Vi o mar. E agora o revejo, o mar, o mar desconhecido, o mar da
Praia de Leste, sempre novo. [...]
Vejo o mar. Em silêncio. Da minha
varanda, da minha poltrona, vejo o mar tão perto. Ele me fala, noite e dia. À
noite, ouço a voz do mar, o ruído surdo e envolvente do mar, o rugido do mar. O
mar nos fala. O mar nos chama. [...] (pp. 117-118)
Charles Dickens em óleo sobre tela de Daniel Maclise de 1839
Por contar a vida e as peripécias de um personagem jovem, David Copperfield é uma obra que agrada em cheio aos jovens. Então por que só vim a ler agora aos 69 anos? Foi uma falha na minha programação de leituras. Talvez faltou alguém lá na frente, um parente ou amigo, que dissesse “você tem que ler o David Copperfield”. Mas o mesmo não vai acontecer com você, porque estou dizendo: Você tem que ler o David Copperfield.
Aliás, David Copperfield agrada em cheio também aos românticos, devido aos vários amores impossíveis & possíveis, frustrados & bem-sucedidos, vividos pelo protagonista, se bem que Dickens não se enquadre entre os autores da escola romântica. Agrada aos leitores preocupados com os problemas sociais, porque Dickens fazia questão de aproveitar sua imensa popularidade e vasto público para denunciar as mazelas da sociedade vitoriana. O que chamamos hoje um artista engajado. E por dissecar a alma humana e criar toda uma gama de personagens, desde os absolutamente bons até os mais repelentes vilões, preenchendo também todo o espectro intermediário, David Copperfield agrada ao leitor interessado na realidade psicológica. Em suma, David Copperfield tem tudo para agradar, neste início do século XXI, a todos os tipos de leitores, assim como, na época em que foi escrito, este e outros romances de Dickens agradavam a todos os níveis da sociedade vitoriana. Dickens era uma espécie de pop star da época.
O vilão Uriah Heep, que também virou nome de banda de rock
Foi o primeiro romance de Dickens narrado em primeira pessoa e, dentre todos seus livros, era o seu favorito, como revelou no prefácio de sua edição de 1867. Além disso, as iniciais de David Copperfield, DC, são as iniciais invertidas de Charles Dickens (CD, coincidência essa que na verdade não teria sido proposital e teria surpreendido o próprio autor). Por estes e outros fatos os leitores da época acharam que David Copperfield fosse uma autobiografia disfarçada, um romance autobiográfico. Ora, se Dickens colocou muito de sua experiência de vida neste livro, existem também muitas divergências entre as vidas de Dickens e David. O livro é um romance em parte inspirado na vida do autor, mas também com muitos personagens e situações criados por sua imaginação. É a biografia, sim, do personagem fictício David Copperfield, não da pessoa real Charles Dickens.
Querem ver? Enquanto Dickens nasce em Portsmouth, na costa sul da Inglaterra, David nasce em Blundestone, na costa leste do país. David é filho único, já que seu irmão morre pouco depois de nascer. Já Dickens foi o segundo de oito filhos. Quando David nasce, seu pai já havia morrido. Já Dickens conheceu bem o pai. Tão bem que seu personagem Micawber é inspirado nele: tanto o pai de Dickens como Micawber vão parar na prisão por causa de dívidas.
Micawber
Enquanto o pai cumpria sua pena, Dickens, então com doze anos, foi mandado para trabalhar numa fábrica, colando rótulos em frascos de graxa de sapatos. O trabalho infantil na Inglaterra da época era comum, como era comum ter escravos aqui no Brasil. Também David Copperfield, depois que fica órfão, é mandado pelo padrasto malvado para trabalhar numa fábrica de vinhos. Quando o pai de Dickens recebeu uma herança e se livrou da prisão, o filho foi mandado para uma escola cujo diretor cruel gostava de espancar os meninos. Também David sofre nas mãos do Sr. Creakle, da Salem House, a escola onde começa seus estudos. Pelo menos na sua segunda escola, do Dr. Strong, David obtém uma boa educação, chance esta que Dickens não teve em sua vida. Dickens trabalhou como auxiliar num escritório de advocacia e, insatisfeito com o direito, aprendeu taquigrafia para poder obter um emprego transcrevendo os debates do Parlamento para um jornal. David Copperfield seguiu exatamente o mesmo caminho.
Aos dezessete anos, Dickens se apaixona por Maria Beadnell, filha de um banqueiro, que a envia ao estrangeiro para afastá-la do pretendente. Também Copperfield apaixona-se perdidamente pela filha de seu patrão, só que no livro o desfecho desse amor é bem diferente da vida real do autor. Talvez, ao casar David com Dora, Dickens estivesse especulando sobre como teria sido sua vida se tivesse desposado Maria. Tanto Dickens quanto Copperfield passam uma temporada na Suíça, e ambos acabam bem-sucedidos na carreira literária. Ou seja, muita coisa no livro coincide com a vida de Dickens, mas muita coisa também é inventada.
Maria Beadnell
David Copperfield é um microcosmo da sociedade humana, onde você vê um pouco de tudo: temos um mini-O Ateneu nos capítulos que descrevem a vida escolar do personagem. Temos uma cabeleireira anã que parece saída de um circo. Temos a menina pobre que se deixa seduzir pelo moço rico. Temos o tio desesperado que se torna andarilho e percorre meia Europa em busca da sobrinha que se perdeu neste vasto mundo. Temos fraude financeira. Temos uma tempestade memorável que sela o destino de dois personagens importantes. Temos o menino ainda inocente enfrentando as maldades do mundo quando foge de Londres e percorre a pé o trajeto até Dover em busca de sua única parente viva, a tia Betsey, amalucada mas gente fina. Temos uma mulher de má fama, espécie de Maria Madalena, mas de bom coração (Martha). Temos uma paixão aparentemente impossível mas que, por um golpe do destino, acaba se viabilizando (mas não dá certo) e temos outra paixão bem mais viável & lógica mas que o protagonista, devido à imaturidade, quase joga na lata do lixo. Temos a emigração de alguns personagens para a então e ainda hoje remota Austrália, na época colônia britânica. Temos até uma cena onde David, ao visitar uma prisão dirigida pelo antigo diretor de sua escola, observa que os presidiários se alimentam bem melhor do que a maioria da comunidade honesta e trabalhadora, observação esta bem afinada com uma percepção contemporânea de que a lei protege o bandido em detrimento das pessoas de bem.
Podemos dizer que esta e outras obras do Dickens são o que mais se aproxima de uma novela de TV do século XX. O livro foi lançado originalmente em 19 fascículos mensais de 32 páginas, normalmente três capítulos por fascículo, mas às vezes mais, de maio de 1849 a novembro de 1850. Imagine a angústia das pessoas tendo que aguardar meses e meses para saber o destino dos personagens e o desfecho da história. Como nas novelas, temos núcleos ricos e pobres, personagens fixos que sempre acabam reaparecendo, às vezes via coincidências meio forçadas etc. Como nas novelas, temos os mocinhos e os vilões. Assim como o musical veio da ópera e o cinema veio do teatro, a novela de rádio e TV do século XX veio do folhetim do século XIX. Afinal, numa época em que não havia rádio, TV ou cinema, a literatura fazia o papel do rádio, TV e cinema. E hoje a literatura dá suporte ao rádio, TV ou cinema. Afinal, um roteiro de uma novela ou série ou filme também é uma obra literária. O escritor de novela também é um grande escritor, e historiadores do século XXII, querendo reconstituir como era a vida no século XX, com certeza recorrerão às séries e novelas.