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DOIS POEMAS INÉDITOS DE MACHADO DE ASSIS

 

Machado de Assis jovem

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21/6/1839–29/9/1908), filho de mãe branca, açoriana, e de pai “pardo forro” (portanto, longe de ser um “negro” como queria Harold Bloom), além de suas vertentes de romancista e contista mais conhecidas do público leitor atual, foi também tipógrafo e revisor (no início da precoce vida profissional), repórter político (fazendo a cobertura das sessões do Senado), poeta romântico (que, ao contrário dos colegas de estro, não morreu jovem de tuberculose), crítico teatral, censor de peças de teatro, teatrólogo (com peças “datadas”, que não são mais encenadas), funcionário público (no bom sentido, trabalhador, usou de seu poder no serviço público para proteger os escravos), tradutor (sua tradução de Os trabalhadores do mar de Victor Hugo é lida até hoje), colunista de jornal.

Em vida, publicou 29 livros: nove romances, quatro livros de poesias (AmericanasCrisálidas, Falenas e Poesias completas), cinco coletâneas de contos, seis livros de teatro, duas coletâneas de gêneros diversos (Páginas recolhidas e Relíquias de casa velha), uma tradução (Os trabalhadores do mar) e dois livros de caráter técnico (Higiene para uso dos mestre-escolas e Terras). Uma produção e tanto! Todavia, “grande parte da produção de Machado de Assis não foi, em vida do autor, reunida em livro, ficando dispersa em periódicos” (jornais e revistas), bem como “correspondências particulares, mensagens escritas em álbuns de autógrafos” etc. (Alex Sander Luiz Campos, conferência “Edições de Machado de Assis: Por Quê, Para Quê?) 

Assim, depois que o “bruxo do Cosme Velho” deixou este mundo, começou o afã por coligir e publicar seus textos ainda inéditos em livro, como mostra a seção “Publicações póstumas” do verbete “Obra de Machado de Assis” da Wikipédia em língua portuguesa para a qual o autor deste artigo deu sua contribuição. As primeiras publicações póstumas devem-se a Mário de Alencar, filho do grande romancista romântico, praticamente adotado por Machado, que organizou sua obra de teatro, crítica literária, crônicas da seção “A Semana” da Gazeta de Notícias, e obras de prosa e verso reunidas nas Outras relíquias. Em 1932, Fernando Nery publica a correspondência do grande escritor e um volume de Novas relíquias. Em 1944 a crítica literária Lúcia Miguel Pereira traz a lume a novela Casa Velha. Nos anos 1950 R. Magalhães Júnior organizou e publicou vários volumes de contos e crônicas do autor. Em 1965 o pesquisador francês Jean-Michel Massa reúne 150 textos variados nos Dispersos de Machado de Assis. (Estes são apenas alguns exemplos.) E o garimpo nunca parou, entrando século XXI adentro.

Um caso pitoresco que merece menção foi uma carta de Machado de Assis, datada de 22 de julho de 1890, contendo um soneto inédito por ocasião do aniversário de seu amigo e poeta Ernesto Cybrão, vendido em leilão em 5 de agosto de 2019 por Levy Leiloeiro. O colunista Lauro Jardim, de O Globo, em matéria intitulada “Soneto inédito de Machado de Assis é arrematado em leilão”, anunciou a venda nestes termos: “05/08/2019 • 16:01 Foi arrematado agora há pouco, num leilão no Rio de Janeiro, uma carta contendo um soneto inédito de Machado de Assis. A correspondência foi escrita para um velho amigo, o poeta português Ernesto Cybrão, que aniversariava naquele 22 de julho de 1890. E se inicia desta maneira: ‘Acabo de saber que, não sabendo/ Que havias de fazer, fizeste hoje anos;/ Mas tão calado, ó deuses soberanos/ Que eu, sem nada saber, ia morrendo’. A preciosidade foi leiloada por R$ 8,2 mil, apenas R$ 200 acima do lance inicial.”3

O leiloeiro assim descreveu o documento: “Manuscrito inédito de Machado de Assis (1839 - 1908) . Datado de 22 de Julho de 1890. Curiosamente traz 1 soneto inédito por ocasião do aniversário de seu amigo e poeta Ernesto Cybrão. Acompanha o manuscrito o envelope que foi endereçado ao poeta. O manuscrito traz belíssima ilustração de época na parte superior e assinatura de Machado de Assis no canto superior direito.”

O interessante é que, em 26/2/2021, o mesmo manuscrito foi novamente vendido em leilão, desta vez por Vera Nunes Leilões. Em e-mail enviado aos amigos em 23/7/2019, informou Alexei Bueno: “Um papeleiro encontrou no lixo, no Leblon, este lindo manuscrito do Machado, com um muito bom e espirituoso soneto para o aniversário do Ernesto Cybrão, um poeta português que era seu amigo e vizinho, já que morava na rua Cosme Velho 33, e o Machado, então com 51 anos, no 18. Já está num leilão, por oito mil reais. O que se descobre no lixo no Rio de Janeiro é impressionante, a espantosa ignorância deste povo contribuindo bastante com tal espécie de garimpo. E se não fosse o papeleiro, adeus soneto.” Eis o soneto:


Acabo de saber que, não sabendo
Que havias de fazer, fizeste hoje anos;
Mas tão calado, ó deuses soberanos,
Que eu, sem nada saber, ia morrendo.

Em tratado de idade, compreendo
Que antes cantá-la que sentir-lhe os danos;
Mas tu, mas tu, tu quoque, Cyprianus?
Tu, eterno rapaz? Acho estupendo.

Nem por isso te livras deste frio
Soneto feito de versinhos bambos,
Que dão, ao lê-los, tédio e calafrio.

São farrapos, concordo, são molambos...
Mas uma cousa nos reforça o brio:
“Ambos na flor da idade, árcades ambos.”


Soneto inédito de Machado de Assis. Fonte: Site de Levy Leiloeiro

“Iniciando a atividade literária pela poesia, Machado foi durante muito tempo considerado e louvado acima de tudo como poeta.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poeta”.) “Há diversas poesias de Machado, em geral obras de juventude, recitadas em festas e solenidades, noticiadas em jornais da época, que se encontram perdidas.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poesias perdidas”.) Uma destas poesias perdidas “recitadas em solenidades”, descoberta pelo pesquisador Felipe Rissato, saiu no Jornal da Noite lisboeta de 18-19 de dezembro de 1873 (pág. 3), em matéria sobre a despedida do ator português José Antonio do Vale no “teatro de D. Pedro” (Imperial Theatro de São Pedro de Alcântara, onde hoje se ergue o Teatro João Caetano, na atual Praça Tiradentes - Ver QUAL O TEATRO MAIS ANTIGO DO RIO DE JANEIRO?) antes de retornar a Lisboa, após bem-sucedida temporada no Rio de Janeiro. Informa a matéria (atualizada para a ortografia vigente):

Cumprimos hoje a promessa que fizemos, narrando as festas que se fizeram no benefício de despedida do ator Valle no teatro de D. Pedro, no Rio de Janeiro, que foram esplêndidas igualando as que o público daquela capital fez em honra da insigne [atriz italiana Adelaide] Ristori, e as mais pomposas de que ali há memória.

O teatro encheu-se completamente assistindo ao espetáculo a família imperial, o nosso embaixador e as pessoas mais distintas da corte.

Quando o simpático artista acabou de recitar a poesia de despedida [de Machado de Assis, como veremos adiante], correu-se o pano de fundo e avistou-se o navio que figurava no drama a Filha do Mar, todo embandeirado, grandes fogos cambiantes e chuvas de oiro.

Ao mesmo tempo, uma atriz de 7 anos desceu de um pedestal em que se lia a seguinte inscrição: Ao gênio dramático, e veio entregar ao seu colega uma coroa oferecida pelos carpinteiros do teatro e depois uma linda abotoadura da guarda roupa, uma coroa da orquestra, outra do cabeleireiro e muitos versos. A esta manifestação seguiu-se a dos artistas da companhia com uma fotografia em que se viam todos eles de casaca, formando um grupo, uma poesia de um artista brasileiro e duas de artistas portugueses.

As palavras e os bravos repetiam-se freneticamente, os versos caíam em nuvens dos camarotes. No camarim recebeu ainda muitas prendas de todos os artistas e de grande número de pessoas que admiram nele a par dos dotes do talento as qualidades pessoais.

Ao terminar o espetáculo o público invadiu o palco e foi abraçar o ator que agradecia enternecido e com as lágrimas nos olhos aquelas provas de afeto. A comoção dos que o apertavam nos braços não era menos espontânea.

O senhor Valle foi ao camarote imperial despedir-se de suas majestades que o acolheram benevolamente e na véspera da partida deu um banquete aos seus artistas e empregados e amigos mais íntimos. [...]

A poesia [cinco oitavas endeeassilábicas com rimas entre o primeiro e terceiro, e sexto e sétimo versos] que o ator Valle recitou na despedida é de um poeta conhecido nos dois hemisférios, o senhor Machado d’Assis [grifo nosso] cujas composições inspiradas são sempre bem recebidas. Ei-la:


Breve irei; pouco tarda que eu veja

Longe, longe sumir-se no espaço
Esta terra que eterna verdeja,
Esta terra de palmas e amor.
Volto ao seio da pátria um instante,
Doce mãe que a seus filhos adora.
Curta a ausência há de ser. Curta embora,
Parte d’alma aqui deixo em penhor.

Tantas flores viçosas me destes
Tanto afeto, tamanho e tão puro,
Tantas vezes a mão me estendestes;
Nesta estrada cruel de passar,
Que ora sinto morrer-me nos lábios
A palavra que vibra em meu peito;
Perdoai-me, que é justo o defeito:
Sei apenas sentir e lembrar.

Sei lembrar-me... se a mão do destino
Me trancasse o caminho das águas,
Se de novo este céu peregrino
Contemplar não pudesse uma vez,
Dentro d’alma com letras de fogo,
A memória gravada ficara
Deste povo que as artes ampara,
Justo, amável, sincero e cortês.

Inda assim vai comigo a lembrança...
Não; vai mais: é saudade que levo
É saudade que aviva a esperança
De tornar a gozar este amor.
Levo-a n’alma. No meio do Oceano,
No regaço da pátria querida,
Pintar-me-á estas noites de vida
Como aroma que lembra uma flor.

Há mais alta, mais fúlgida glória,
Viçam louros de eterna frescura,
Enchem folhas austeras da história
Muita fama bendita por Deus;
A mais doce das glórias, contudo,
É sentir-se de afetos coberto,
Ter nos peitos o prêmio mais certo,
E dizer numa lágrima: adeus!”

MARINHAS: "TUDO VALE A PENA / SE A ALMA NÃO É PEQUENA"



MAR PORTUGUEZ
Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.



MARINHA 2
Isabel Corsetti

Espuma nas pedras da praia,
nós na toalha de xadrez.
Crianças e um cesto de santos,
gaivotas e fitas.
Vento de chuva, revirando telhas.
Nadar e amar na areia.

Tesouros, segredos, perdidos medos,
fogueiras e balões
sanfonas e cantos de viola
aguardente com limão
água de cheiro, roupas de algodão
peixe na pedra, farinha e pirão.

Agora hordas na orla, antes só nossa.
Tristes quiosques e pastéis,
tratores, conchas e estrelas do mar.
Construções, calçamento e cones,
gritos e o silêncio das ondas,
picolés e pizzas.

E o arrastão das tardes?
Ambulantes, camarão e coco?
Cores, cabanas e canoas?

Foram-se jangadas e pipas.
E nós na praia, mãos dadas,
pisando em algas
e siris.

Só maresia e saudade.



ÀS MARINHAS
Maria Thereza Noronha

Onda brincando na praia
em anágua de cambraia

dizei-me o que vistes lá
nos altos verdes do mar

se o vistes do branco barco
à proa, de algas ferido

se o vistes em vítreos olhos
de encapeladas espumas

Onda dançando na areia
véspera de lua cheia

dizei-me o que vistes lá
nas escarpas de alto mar

se em sonho transido o vistes
por encanto de sereia

mas ai, que o vistes luzido
e de regresso, dizei-me.

Do livro O verso implume (Rio de Janeiro, Oficina do Livro, 2005) 



MARINHA
Lucia Aizim

No mar o coração entre vagas
No mar esperança entre vagalhões
No mar o amor emerge entre destroços
No mar dia e noite dão-se as mãos.

No mar os anjos trocam as asas
Duendes invadem os poços
e se desvanecem.

Afastado o sonho
ao alcançar a dura
superfície.

O amanhã resplandece.

Do livro Cânticos (Rio de Janeiro, Sette Letras, 2000)



MAR DO NORTE
Wanda Lins

sinto-me hoje como uma praia
do Mar do Norte
sob o chumbo algodoado
do céu invernal

gris a mais não poder

deserta

tão somente algumas gaivotas
mergulhando e bicando
a tristeza encrespada do mar


Do livro 50 tempestades



O REI DO MAR
Cecília Meireles

Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...
Tempo que navegaremos
não se pode calcular.

Vimos as Plêiades. Vemos
agora a Estrela Polar.
Muitas velas. Muitos remos.
Curta vida. Longo mar.

Por água brava ou serena
deixamos nosso cantar,
vendo a voz como é pequena
sobre o comprimento do ar.
Se alguém ouvir, temos pena:
só cantamos para o mar...

Nem tormenta, nem tormento
nos poderia parar.
(Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...)
Andamos entre água e vento
procurando o Rei do Mar.


Do livro Flor de poemas



MAR
Paulo da Mata-Machado Júnior

Mar de poesia, mar de mármore, mar de Minas,
mar de amplas possibilidades telúricas
mar que tem um ar assim, de quem já viu tudo
e é sempre cúmplice. Forja, bigorna e martelo.

Plasma líquido, verde vaga, voga incontido
abismo, vórtice por si mesmo escalavrado.
Mar medicinal, mar curativo mar remédio,
onda, tempestuosa língua
lambida áspera que golpeia a pedra
e com sal pensa os ferimentos decorrentes.

Mar de amar, maré, amarração
mar muro, maravilha, mel, marmelo
entre azuis, ouropel, verde-amarelo
seda, âmbar, mate, limonada;
e agora também em sabor caramelo.


Do livro Ossos do ofício



BEIRA-MAR
Prosa poética de Ivo Korytowski

Deitado na praia deserta sob a lua cheia, duas visões se me apresentavam: à esquerda, visão da cidade, horrendo amontoado de blocos cavernosos formando intrincados labirintos. À direita, a bonita visão das águas verde-azuladas, cruel sorvedouro de seres humanos (os salva-vidas que o digam!).

Dor de cotovelo. Puta
deprê. Meu amor brigou comigo, me deixou na solidão — a canção do tempo da Jovem Guarda reverbera na minha cabeça. Tempo que cabeça se chamava cuca. Cuca fundida. Tempo que eu era feliz e não sabia.

É doce morrer no mar. Fascínio imemorial pelo mar. Suas profundezas, habitavam-nas entidades: Iemanjá, rainha do mar, Netuno, deus dos mares... O advento da exploração submarina expulsou-os de sua morada, como a exploração espacial despejou São Jorge e o Dragão da lua (a os marcianos de Marte!) Será que ainda resistem em algum plano espiritual (ou outra dimensão física) inacessível aos assédios da técnica?

Àquela mesma hora da madrugada, quantas mulheres, na frieza do leito, curtem saudades do marido velho marinheiro que partiu na escuna pro arrastão em alto mar...

Em tempos idos, quantas lágrimas portuguesas com certeza derramadas, à beira-mar, pelo bem-amado que se partiu por mares nunca dantes navegados — que navegar é preciso.

Sol nascente. Pescadores chegam à praia. As redes repletas de peixes pululantes: chernes, enchovas, sardinhas, uma arraia — saltam, bailam, rodopiam qual trapezista no circo, ou bailarina no teatro. Macabro contorcionismo: vã tentativa de escapar à morte!

É doce viver no mar. Por um instante (qual Pessoa invejoso de um mendigo da rua só por não ser ele, Pessoa), queria ser um desses homens rudes, curtidos de sol e cachaça, que partem, inda madrugada, barra afora, atirar a rede e encher o barco dos frutos do mar. Doce mar de águas tão salgadas.




MARINHA & AUTORRETRATO

Frederico Gomes

Vejo um velho barco atracado
em um antigo ancoradouro;
nesta tarde em amarelo-ouro
de verão – tudo está parado,

imóvel como numa foto:
grafia do que foi um movimento.
Eu sou nesta cena sem vento,
barco frágil num cais ignoto.




CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POESIA DA VIDA


RELOGINHO, RELOGINHO
Carlos Drummond de Andrade

Reloginho, reloginho
embora apenas suplente,
bate bate direitinho,
bate bem rapidamente
a hora de meu bem chegar.
Mas se é hora de partir,
atrasa o mais que puderes
e não deixes nunca ir
a mais doce das mulheres.

Reloginho, compreendido?
Sempre teu, agradecido.

Do livro Poesia errante


DEZOITO ANOS SEM DRUMMOND

Edmílson Caminha
Texto escrito em 2005

Faz 18 anos que se foi Drummond, em 17 de agosto de 1987, exatamente doze dias depois que morrera a filha amada, Maria Julieta. A propósito da data, vem-me à memória não o poeta, o cronista, mas o brasileiro Carlos, o cidadão comum, igual a tantos outros homens e mulheres do seu tempo. Servidor público, foi Drummond, de 1934 a 1945, chefe de gabinete do Ministro da Educação, seu amigo e conterrâneo Gustavo Capanema. Não nos esqueçamos de que o Presidente da República se chamava Getúlio Vargas, que mantinha o governo sob rédea curta e administrava o Brasil com mão de ferro.

Como vemos, Drummond esteve, por onze anos, muito perto do poder e a poucos passos dos poderosos, e disso não se aproveitou para usufruir privilégios nem para fazer fortuna: viveu honrada e parcimoniosamente, com os ganhos de funcionário público e de escritor que colaborava na imprensa. Deixou para a viúva, Dona Dolores, a pensão devida e um bom mas nada luxuoso apartamento, na Rua Conselheiro Lafaiete, entre Copacabana e Ipanema, em que hoje mora o neto Pedro Augusto e onde já estive muitas vezes.

Se há quem hoje diga, em meio ao escândalo de mensalões, que participou de falcatruas apenas para receber dívidas, Drummond poderia ter prevaricado sob a desculpa de que, para os mortais, é duro resistir quando se está tão perto do tesouro... Não o fez, pelos princípios morais e pelos valores éticos que lhe nortearam a existência. Já dissera Machado de Assis: "A ocasião não faz o ladrão: faz o furto. O ladrão já nasce feito."

Assim, tanto quanto uma admirável obra, Carlos Drummond de Andrade nos deixou uma lição e um exemplo: uma lição de vida e um exemplo de dignidade, com que honrou o Brasil e fez melhor o tempo que lhe foi dado viver.

Escritor e jornalista, Edmílson Caminha é o autor de Drummond: a lição do poeta (Brasília, Thesaurus, 2002).




VIOLA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Cyro de Mattos

Dos humanos desacordes
compuseste a tua viola
afinada atrás do tempo.
De tudo um pouco ensinas
na arte de ver a vida
além de tudo vinagre.
Esta pedra no meio
do caminho estrepa.
No que segue claro
me sinto menino, maior,
montanha, tamanho de José,
no que não se desvenda
oh, razão, mistério
ninguém acha escape.
E vozes mais das vezes
uma esperança perdida,
a morte do leiteiro,
um quadro na parede,
são alçapões do amor.
Ó da rosa radiante,
a que chamamos solitude,
palavra no ar, tuas mãos,
espantos, tantos espantos.

Do livro Os Enganos cativantes


Grafite de Drummond na entrada do Túnel Velho, Copacabana

PORQUE MEU BEM FAZ ANINHOS
Carlos Drummond de Andrade


Porque meu bem faz aninhos
um raio de sol dourado
entrelaçou mil carinhos
pelo céu, de lado a lado.

Um ramo de beijos ternos
balançava sobre os ninhos
entre miosótis eternos
porque meu bem faz aninhos.

Porque meu bem faz aninhos
o rei, o valete, a sota
mais a fada e os anõezinhos
dançaram samba e gavota.

A nuvem mais cor-de-rosa
enfeitiçou-se de gatinhos
de bigode à Rui Barbosa
porque meu bem faz aninhos.

Porque meu bem faz aninhos
eu ganhei um chocolate
que tinha sete gostinhos
todos do melhor quilate.

Hoje eu brinco, pulo, canto,
assim como os passarinhos,
e mais eu canto me encanto
porque meu bem faz aninhos.

Do livro Poesia errante (1988)


E AGORA, POESIA? (trecho de matéria da revista Veja de 26 de agosto de 1987)

Em apenas doze dias, o poeta Carlos Drummond de Andrade esteve duas vezes no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Na primeira, o poeta mineiro, de 84 anos, enterrou a pessoa que mais amava, a filha Maria Julieta, de 57, vítima de um câncer generalizado. Cabeça baixa, olhos secos e atônitos, Drummond (...) disse: “Não tenho mais futuro, acabou tudo para mim.”

Doze dias depois, o poeta morto [às 20h45 de 17 de agosto de 1987] percorreu a alameda, conduzido no caixão pelos seus três netos e amigos.

A PALAVRA, NO MEIO DO CAMINHO (trecho de um dos raros depoimentos do poeta, concedido em janeiro de 1984 a Edmílson Caminha e publicado no suplemento literário do Diário do Nordeste).

Edmílson: Seus versos já viraram letra de música, enredo de escola de samba e tema de campanha eleitoral. Partindo-se do debate em torno do que é nacional e do que é popular na cultura brasileira, você se considera um poeta popular?

Drummond: Não, eu não me considero um poeta popular, não tenho essa pretensão. Claro que eu gostaria de ser, mas o conceito de poeta popular é muito ligado aos meios de comunicação de massa. Eu não tenho acesso a eles, a televisão jamais me contrataria para fazer um programa semanal. (...) 0 escritor de papel perde longe para os compositores e para os poetas chamados populares. Acho até que o poeta popular de cordel tem mais divulgação do que o poeta brasileiro dito de elite.


Drummond e a Cow Parade (2011)

VISITA A DRUMMOND (do livro de Antonio Carlos Villaça, Os saltimbancos de Porciúncula).

Drummond não gostava de receber ninguém na sua casa. Muitas vezes, conversei com ele, no gabinete do MEC, uma espécie de furna com armários de aço, a isolá-lo do resto da sala.

Fui uma única vez ao seu apartamento, já no fim, dia 18 de setembro de 1985. E por motivos especiais. Maria Julieta, a filha única, fora eleita para o Pen Clube. E morava num minúsculo apartamento, na rua Barão da Torre. Seria impossível receber lá a diretoria do Pen Clube, para a comunicação oficial.

Drummond, solícito, resolveu que a reunião seria em sua casa, um sétimo andar na rua Conselheiro Lafaiete. (...)

Pois nos recebeu au grand complet, em grande estilo, um senhor coquetel, vários garçons, uísque, vinho, salgadinhos variados e até doces. Foi uma festa. O poeta caprichou. Amava tanto aquela filha, que morou longos anos em Buenos Aires.

O poeta estava feliz. Elegantíssimo, de camisa azul, paletó claro. Ia e vinha. como um perfeito anfitrião. Não propriamente à vontade, cerimonioso (como era seu feitio). Mas tão amável. (...)

Mais de meia-noite, Drummond acompanhou os visitantes até a calçada.

TRECHO SOBRE DRUMMOND na década de 1930 do 4o volume das memórias de Pedro Nava, Beira-mar

Era muito magro, mas extremamente desempenado, tinha o gauche que tornar-se-ia folclórico, um ar de orgulhosa modéstia (não sei se posso colocar juntas as duas palavras, entretanto não acho outras), aparência, à primeira vista, tímida, escondendo o homem dono de uma das maiores bravuras físicas e morais que já tenho visto juntas na mesma pessoa. Engana-se quem o julgar pela magreza e pelo franzino. Na realidade esse ser delgado é todo feito de tiras de aço, de couro, de juntas de ferro que servem o homem forte que ele é.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Poema de Manuel Bandeira em homenagem aos 60 anos de Drummond

Louvo o Padre, louvo o Filho,
O Espírito Santo louvo.
Isto feito, louvo aquele
Que ora chega aos sessent'anos
E no meio de seus pares
Prima pela qualidade:
O poeta lúcido e límpido
Que é Carlos Drummond de Andrade.

Prima em Alguma Poesia,
Prima no Brejo das Almas.
Prima na Rosa do Povo,
No Sentimento do Mundo.
(Lírico ou participante,
Sempre é poeta de verdade
Esse homem lépido e limpo
Que é Carlos Drummond de Andrade.)

Como é fazendeiro do ar,
O obscuro enigma dos astros
Intui, capta em claro enigma.
Claro, alto e raro. De resto
Ponteia em viola de bolso
Inteiramente à vontade
O poeta diverso e múltiplo
Que é Carlos Drummond de Andrade.

Louvo o Padre, o Filho, o Espírito.
Santo, e após outra Trindade
Louvo: o homem, o poeta, o amigo
Que é Carlos Drummond de Andrade.


VINTE ANOS SEM MARIA JULIETA E DRUMMOND
Texto de 2007 de Edmílson Caminha

Os vinte anos da morte de Maria Julieta — em 5 de agosto [de 1987] — e de Carlos Drummond de Andrade, apenas doze dias depois, são marcados pelo nascimento de um herdeiro e pela edição de um livro. A criança é Miguel, filho de Josiane e de Pedro Augusto, que vem ao mundo com a honra de ser neto de Maria Julieta e de Manuel Graña Etcheverry (grande intelectual argentino) e bisneto de Dolores e do poeta Carlos. O livro é Querida Favita, com mais de cem cartas (inéditas!) do itabirano famoso para a sobrinha Flávia — ou Favita, como carinhosamente a chamava. A edição, bem cuidada e elegante, é da Universidade Federal de Uberlândia, e já tem dois lançamentos confirmados: em Belo Horizonte, no dia 18, e em Brasília, no dia 23.

Que se homenageie Drummond, mas que não nos esqueçamos da grande escritora que foi Maria Julieta. Aí estão, para provar, Um buquê de alcachofras e Pombos & gatos. E, principalmente, A busca, admirável romance escrito por uma jovem de 17 anos, que impressiona pela força dos sentimentos e pela boa realização literária. É hora, já, de organizar em livro as centenas de crônicas escritas por Maria Julieta para O Globo, textos que a incluem, sem favor, entre os melhores nomes do gênero na literatura brasileira.

Certo dia, ao lhe dizer que algumas das suas crônicas, de tão primorosas, poderiam ser assinadas pelo pai, revelou-me ela um segredo: às vezes, por estar acamada, Drummond escrevia a crônica para O Globo; em troca, chegou a filha a mandar, para o Jornal do Brasil, crônicas suas como se fossem do pai. “E nunca ninguém reclamou, nem de um lado nem do outro...”, disse, ao confessar a jogada de cúmplices.

Desaparecidos há vinte anos, Maria Julieta e Carlos Drummond de Andrade continuam vivos, pela grandeza da obra com que fizeram o mundo melhor e a vida mais bela.


DRUMMOND PERMANENTE
Poema de Cyro de Mattos

Em meu ouvido um pássaro
Canta de tudo os instantes
Neste diálogo com o mundo
Como oferendas do amor.
Quantas vezes não mundo
Tão solidário enternece.
Por entre gestos de espanto
Nesta rosa dos eventos
Não sei o que mais comove,
Canto ao homem do povo,
Aquele quadro no deserto,
Sinais e expressões do tempo
Faminto de situações patéticas.
Apenas eu sei que tropeço
Nesta pedra no meio de tudo.
Ó de Itabira, se bem procuro,
Afinal termino encontrando
Não a explicação (relativa)
Da vida mas a beleza,
Sem explicação, da vida.



MÃOS DADAS
Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.




O POEMA MAIS GENIAL DE DRUMMOND

No meio da jornada da vida, entre a primeira fase modernista de uma poesia vigorosa, incisiva, antilírica (prosaica por vezes), em suma, de ruptura com o passado, E agora José, No meio do caminho tinha uma pedra, e a fase madura de intenso lirismo, “sentimentalismo ginasiano, lirismo kitsch” acusa/exagera o polêmico Diogo Mainardi, Porque meu bem faz aninhos, Quero ser namorado a vida inteira, época em que conquistou um grande público como cronista de jornal, em meio a essas duas fases, dizíamos, Drummond publica um livro surpreendente, de grande elaboração formal, uma poesia "erudita", no nível dos grandes clássicos do vernáculo: Claro Enigma (1951). Ali figura o poema mais genial de Drummond, o melhor poema brasileiro de todos os tempos segundo alguns escritores e críticos: “A máquina do mundo”.

A MÁQUINA DO MUNDO

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.


JARDIM

Negro jardim onde violas soam
e o mal da vida em ecos se dispersa:
à toa uma canção envolve os ramos,
como a estátua indecisa se reflete

no lago há longos anos habitado
por peixes, não, matéria putrescível,
mas por pálidas contas de colares
que alguém vai desatando, olhos vazados

e mãos oferecidas e mecânicas,
de um vegetal segredo enfeitiçadas,
enquanto outras visões se delineiam

e logo se enovelam: mascarada,
que sei de sua essência (ou não a tem),
jardim apenas, pétalas, presságio.


"as janelas olham"

CIDADEZINHA QUALQUER

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.


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POEMAS SOBRE GATOS





O GATO
Aníbal Beça

O gato aparece à noite
com seu esquivo silêncio
de passos bem calculados
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na concha de suas patas

O gato passeia a noite
com seu manto de togado
como se fosse um juiz
de presas resignadas
a sua sentença de sombras
seu apetite de gula

O gato varre essa noite
facho de suas vassouras
vermelhas de olhos ariscos
e alcança nessa limpeza
o movimento mais presto
o guincho mais desouvido

Mais que perfeito no bote
(tal qual Mistoffelees de Eliot)
do pulo que nunca ensina
tombam baratas besouros
peixes de aquário catitas
ao paladar sibarita

Nada à noite falta ao gato
nem a presteza no salto
nem a elegância completa
do seu traje de veludo
para o baile dos telhados
roçando as fêmeas no cio

O gato é ato em seu salto
e a noite luz do seu palco:
ribalta luciferina
lunária ária da lua
na réstia de seus dois gozos
é félix feliz felino

Guardei a sétima estrofe
para o canto do mistério
das sete vidas do gato
e seu tapete aziago
nas noites de sexta-feira
há provas do seu estrago.



SONETO DO GATO MORTO
Vinicius de Moraes

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.




OS GATOS DA TINTURARIA
Cecília Meireles

Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram policromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranquilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria.




ENIGMÁTICOS
Maria Thereza Noronha

Mil vezes sim à casa e velhos hábitos
observando gatos em seus códigos,
que atravessar a praça onde montículos
de medo trazem sombra aos olhos trágicos.

Cem vezes não à fonte com meus cântaros,
inda que rodeada de preâmbulos,
mas entreter-me com gatos e seu lânguido
espreguiçar, em tarde de desânimo.

Mil vezes sim à casa e velhos séquitos
olhando gatos – posto, às vezes vândalos –
rodopiem em sopro e pêlos sôfregos,
que percorrer cidades e seus ângulos

onde outros – esquálidos, telúricos
gatos – riscam em saltos acrobáticos
e sobre a humanidade sonambúlica
pousam olhos de luz, enigmáticos.




A GATA CHRISTIE
Frederico Gomes

a Cristina Costa César, também "gata"
        a Oscar F. Neto e seus gatos

Ela me apareceu na janela 
num salto-assalto repentino, 
como sói acontecer a um felino. 
Quem é ele, indagava-se. E eu: 
                                   - Quem é ela?

Mas que bichana mais misteriosa, 
pensei comigo, enquanto a fitava. 
Também ela, por certo, me achava, 
no mínimo, a coisa mais sem prosa

(ante minha mudez) que já vira. 
E vira para lá, para cá, 
seja no parapeito ou sofá, 
e dorme, e sonha... às vezes delira.

Se seu olhar brilha como cascatas, 
ela é cheia de suspense, mistério;
mas nem sempre leva a vida a sério, 
e rola no chão com flos, baratas;

 que artimanha, que estratagema! 
Com seu caminhar arredondado, 
bem depois do brincar saciado, 
adormece, enrolada em si mesma.

Como boêmia, tem vida noturna: 
se há luar, sem um só pingo de chuva, 
enfeita-se toda, até com luva, 
e volta ao raiar do dia, taciturna,

Que há na noite que tanto a fascina? 
Gato de Botas e Gato Preto, 
gato honesto e gato suspeito? 
E o Cão Feroz, que tanto abomina?

Na rua, parece, há muita aventura: 
corre riscos, vive por um triz, 
mas seu santo é Francisco de Assis, 
pois volta imune da noite escura.

Mas como será o mundo dos gatos? 
Mas o mundo dos gatos é vário: 
Míster Mistofelino e Macário*, 
ambos exercem estelionatos,

seja com mágicas ou com crimes. 
Songamonga e Mambojambo, dois 
felinos arruaceiros... depois 
ainda há outros: mais... ou menos... 
                                                    [sublimes.

E o gato de Schrödinger, o abstrato 
Gato Quântico? Estar-se-á vivo 
ou morto, ninguém sabe... (Esquivo 
à morte em sete "caixas" de gato?)

Contudo, Christie é uma gata à parte,
fazendo dos subterfúgios sua Arte: 
 Ela logo aparece, se triste. 
 Se alegre, desaparece a Christie.

*Mister Mistofelino, Macário, Songamonga e Mambojambo são os nomes dos gatos que, entre outros, encontramos no Livro do Velho Gambá sobre gatos travessos, de T.S. Eliot, em tradução de Ivan Junqueira. Veja mais sobre o poeta Frederico Gomes clicando aqui.




GATO PENSA?
Ferreira Gullar

Dizem que gato não pensa 
mas é difícil de crer. 
Já que ele também não fala 
como é que se vai saber? 

A verdade é que o Gatinho 
quando mija na almofada 
vai depressa se esconder: 
sabe que fez coisa errada. 

E se a comida está quente, 
ele, antes de comer, 
muito calculadamente 
toca com a pata pra ver. 

Só quando a temperatura 
da comida está normal 
vem ele e come afinal. 

E você pode explicar 
como é que ele sabia 
que ela ia esfriar?







Fotos do editor do blog. A foto superior mostra um quadro de Gerson Machado.