DOMINGO CHUVOSO DE CARNAVAL

TEXTO DE AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO DE 22 DE FEVEREIRO DE 1971, DO SEU QUARTO LIVRO DE MEMÓRIAS, ALTO-MAR MARALTO  (p. 1484 na edição da Topbooks). FOTO OBTIDA NO SITE VINA.




DOMINGO CHUVOSO DE CARNAVAL  O ruído da chuva me deprime. O ruço da serra apagou as montanhas, para além do vale e, agora, sobe pela mata e alcança o meu terraço. Revivo e reconheço a tristeza que me invadia em moço, naquelas tardes nevoentas de sanatório suíço. Naquele tempo o sanatório era uma espécie de navio, de onde eu podia desembarcar na vida. Agora...


De repente volta-me uma cena de Carnaval que jazia sepultada no esquecimento. Eu teria uns 6 ou 7 anos. Vinha com meu pai e minha mãe, a pé, pela rua da Bahia. Fazia escuro e aquele ponto alto da rua, próximo à praça da Liberdade, estava quase deserto, O Carnaval de Belo Horizonte ficava mais embaixo, no largo fronteiro ao Teatro Municipal. Eu andava na frente, com meu lança-perfume na mão. Na soleira da porta vi a menina sentada. Era moreninha, calada, muito triste. Ao passar, lancei-lhe o esguicho gelado. Ela não reagiu, continuou calada, sentadinha, os olhos tristes no chão. Voltei ao encontro de meus pais e, de novo, provoquei a menininha triste, que continuou indiferente. Com meu inútil lança-perfume, senti-me tão só como agora. Por que retorna, de repente, esta visão perdida? Que podem significar hoje, para mim, estes escombros desaparecidos? A rua é outra, diversa a cidade, mortos os pais há tantos anos, para sempre desaparecidos o menino e a menina, que num relâmpago cruzaram suas vidas. Só a tristeza e a indefinível sensação de abandono são as mesmas, finas e pungentes.

CARNAVAL POLITICAMENTE CORRETO, de NELSON MOTTA

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O GLOBO e ESTADO DE SÃO PAULO DE 4/3/2011

Com o avanço do politicamente correto, "Índio quer apito" será um dos próximos alvos, pela forma pejorativa de se referir aos nossos silvícolas, os verdadeiros donos da terra brasileira, enganados e explorados pelos brancos.
Por seu desrespeito à diversidade sexual e sua homofobia latente, Cabeleira do Zezé não deverá mais ser cantada nas ruas e em bailes, por estimular preconceitos contra homossexuais. Nem Maria Sapatão, a correspondente feminina da violência homofóbica contra o Zezé ("Corta o cabelo dele!" ). Além da ofensa ao profeta Maomé, ao compará-lo a um gay cabeludo. Por muito menos Salman Rushdie teve de passar anos escondido da fúria islâmica.
Precursor do politicamente correto, o fundamentalismo islâmico exigirá a proibição de Alá-Lá-Ô por usar com desrespeito o Nome Supremo em festas devassas e ofender o Islã. Um aiatolá dos Emirados Sáderes pode até emitir uma fatwa condenando os autores da blasfêmia à morte.
Pelo uso do termo pejorativo e racista "crioulo" não escaparão da condenação nem os ilustres afro-brasileiros Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho e Jair do Cavaquinho, criadores do clássico Quatro Crioulos, em 1965. Além da palavra maldita, a música diz que eles ocupam boquinhas públicas, em plena ditadura:
"São quatro crioulos inteligentes / rapazes muito decentes / fazendo inveja a muita gente / muito bem empregados numa secretaria ?"
O Samba do Crioulo Doido, de Sérgio Porto, é pior: por sugerir que a burrice e a ignorância seriam exclusivas dos negros e associá-las ao mundo do samba. Puro preconceito: a estupidez não escolhe cor e também abunda no rock, na política e no esporte. E cada vez mais nos meios acadêmicos racialistas e politicamente corretos.
Bom carnaval multicultural!

"ESCREVER É BRINCAR COM PALAVRAS COMO O DOMADOR BRINCA COM AS FERAS" (Gilberto Freyre)

 

Casa de Gilberto Freyre no Recife

É tão difícil escrever! Mais difícil que fazer um laço de gravata é fazer uma sentença. E para fazer um laço de gravata George Brumell, o “beau” Brumell, torturava-se horas a fio diante do espelho. […] Escrever bem não é garatujar uma folha de papel. Nós, os garatujadores, é que temos essa ideia. Daí ser a literatura o templo mais infestado de falsos profetas. Pessoas que diante de um piano não ousam tocar nem de leve na dentadura escancarada do instrumento, com medo de ofender o instinto melodioso do gato que ronrona sobre o sofá, garatujam uma folha de papel com a maior sem cerimônia deste mundo. E supõem que escrevem.

Deviam os escritores de verdade formar uma liga contra nós, garatujadores impertinentes, e destinada a criar mais respeito pelo escrever. A liga deveria mostrar que escrever é mais difícil que tocar piano. Escrever é brincar com palavras como o domador brinca com as feras. E as primeiras são tão difíceis de amansar como as últimas.


Texto do então jovem Gilberto Freyre, estudante das Columbia University nos EUA, para sua coluna “Da Outra América” de 15/8/1920, no jornal Diário de Pernambuco. Embora se considerasse um “garatujador”, com apenas 20 anos de idade Freyre já escrevia feito um mestre, como atestam as várias crônicas desta coluna, inéditas em livro, mas acessíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

ROMANCE DA PEDRA DO REINO E O PRÍNCIPE DO SANGUE DO VAI-E-VOLTA, de ARIANO SUASSUNA: MINHA IMPRESSÃO


O livro, que nas primeiras cem ou duzentas páginas empolga pela originalidade, genialidade, pela fusão de elementos eruditos, ibéricos, com a cultura popular nordestina, etc., pelos muitos causos narrados, acaba cansando o leitor devido à extensão desmedida, repetitividade, constante embate ideológico esquerda versus direita (neste quesito o romance é atual), um narrador delirante "monarquista de esquerda" que se julga o legítimo pretendente ao trono brasileiro, derramamento de sangue e violência excessivos (parece que o autor tem obsessão pela palavra "sangue", que figura mais de quatrocentas vezes na obra, conforme contagem do meu Kindle). 

O leitor que persiste na esperança de um final revelador se decepciona. A história é tão rocambolesca, com tantos personagens, que fica difícil montar uma boa síntese na cabeça (ou no papel). 

Esta foi a minha impressão, que registrei nas avaliações da página do livro na Amazon. Dei nota 3. A maioria dos leitores deu nota 5, resultando em uma média de 4,8. Esta minha impressão negativa em nada reduz a grande admiração que nutro pelo Ariano Suassuna e sua atuação em prol da cultura brasileira. E adoro seu Auto da Compadecida. Se você discorda de mim deixe seu comentário.

DOIS POEMAS INÉDITOS DE MACHADO DE ASSIS

 

Machado de Assis jovem

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21/6/1839–29/9/1908), filho de mãe branca, açoriana, e de pai “pardo forro” (portanto, longe de ser um “negro” como queria Harold Bloom), além de suas vertentes de romancista e contista mais conhecidas do público leitor atual, foi também tipógrafo e revisor (no início da precoce vida profissional), repórter político (fazendo a cobertura das sessões do Senado), poeta romântico (que, ao contrário dos colegas de estro, não morreu jovem de tuberculose), crítico teatral, censor de peças de teatro, teatrólogo (com peças “datadas”, que não são mais encenadas), funcionário público (no bom sentido, trabalhador, usou de seu poder no serviço público para proteger os escravos), tradutor (sua tradução de Os trabalhadores do mar de Victor Hugo é lida até hoje), colunista de jornal.

Em vida, publicou 29 livros: nove romances, quatro livros de poesias (AmericanasCrisálidas, Falenas e Poesias completas), cinco coletâneas de contos, seis livros de teatro, duas coletâneas de gêneros diversos (Páginas recolhidas e Relíquias de casa velha), uma tradução (Os trabalhadores do mar) e dois livros de caráter técnico (Higiene para uso dos mestre-escolas e Terras). Uma produção e tanto! Todavia, “grande parte da produção de Machado de Assis não foi, em vida do autor, reunida em livro, ficando dispersa em periódicos” (jornais e revistas), bem como “correspondências particulares, mensagens escritas em álbuns de autógrafos” etc. (Alex Sander Luiz Campos, conferência “Edições de Machado de Assis: Por Quê, Para Quê?) 

Assim, depois que o “bruxo do Cosme Velho” deixou este mundo, começou o afã por coligir e publicar seus textos ainda inéditos em livro, como mostra a seção “Publicações póstumas” do verbete “Obra de Machado de Assis” da Wikipédia em língua portuguesa para a qual o autor deste artigo deu sua contribuição. As primeiras publicações póstumas devem-se a Mário de Alencar, filho do grande romancista romântico, praticamente adotado por Machado, que organizou sua obra de teatro, crítica literária, crônicas da seção “A Semana” da Gazeta de Notícias, e obras de prosa e verso reunidas nas Outras relíquias. Em 1932, Fernando Nery publica a correspondência do grande escritor e um volume de Novas relíquias. Em 1944 a crítica literária Lúcia Miguel Pereira traz a lume a novela Casa Velha. Nos anos 1950 R. Magalhães Júnior organizou e publicou vários volumes de contos e crônicas do autor. Em 1965 o pesquisador francês Jean-Michel Massa reúne 150 textos variados nos Dispersos de Machado de Assis. (Estes são apenas alguns exemplos.) E o garimpo nunca parou, entrando século XXI adentro.

Um caso pitoresco que merece menção foi uma carta de Machado de Assis, datada de 22 de julho de 1890, contendo um soneto inédito por ocasião do aniversário de seu amigo e poeta Ernesto Cybrão, vendido em leilão em 5 de agosto de 2019 por Levy Leiloeiro. O colunista Lauro Jardim, de O Globo, em matéria intitulada “Soneto inédito de Machado de Assis é arrematado em leilão”, anunciou a venda nestes termos: “05/08/2019 • 16:01 Foi arrematado agora há pouco, num leilão no Rio de Janeiro, uma carta contendo um soneto inédito de Machado de Assis. A correspondência foi escrita para um velho amigo, o poeta português Ernesto Cybrão, que aniversariava naquele 22 de julho de 1890. E se inicia desta maneira: ‘Acabo de saber que, não sabendo/ Que havias de fazer, fizeste hoje anos;/ Mas tão calado, ó deuses soberanos/ Que eu, sem nada saber, ia morrendo’. A preciosidade foi leiloada por R$ 8,2 mil, apenas R$ 200 acima do lance inicial.”3

O leiloeiro assim descreveu o documento: “Manuscrito inédito de Machado de Assis (1839 - 1908) . Datado de 22 de Julho de 1890. Curiosamente traz 1 soneto inédito por ocasião do aniversário de seu amigo e poeta Ernesto Cybrão. Acompanha o manuscrito o envelope que foi endereçado ao poeta. O manuscrito traz belíssima ilustração de época na parte superior e assinatura de Machado de Assis no canto superior direito.”

O interessante é que, em 26/2/2021, o mesmo manuscrito foi novamente vendido em leilão, desta vez por Vera Nunes Leilões. Em e-mail enviado aos amigos em 23/7/2019, informou Alexei Bueno: “Um papeleiro encontrou no lixo, no Leblon, este lindo manuscrito do Machado, com um muito bom e espirituoso soneto para o aniversário do Ernesto Cybrão, um poeta português que era seu amigo e vizinho, já que morava na rua Cosme Velho 33, e o Machado, então com 51 anos, no 18. Já está num leilão, por oito mil reais. O que se descobre no lixo no Rio de Janeiro é impressionante, a espantosa ignorância deste povo contribuindo bastante com tal espécie de garimpo. E se não fosse o papeleiro, adeus soneto.” Eis o soneto:


Acabo de saber que, não sabendo
Que havias de fazer, fizeste hoje anos;
Mas tão calado, ó deuses soberanos,
Que eu, sem nada saber, ia morrendo.

Em tratado de idade, compreendo
Que antes cantá-la que sentir-lhe os danos;
Mas tu, mas tu, tu quoque, Cyprianus?
Tu, eterno rapaz? Acho estupendo.

Nem por isso te livras deste frio
Soneto feito de versinhos bambos,
Que dão, ao lê-los, tédio e calafrio.

São farrapos, concordo, são molambos...
Mas uma cousa nos reforça o brio:
“Ambos na flor da idade, árcades ambos.”


Soneto inédito de Machado de Assis. Fonte: Site de Levy Leiloeiro

“Iniciando a atividade literária pela poesia, Machado foi durante muito tempo considerado e louvado acima de tudo como poeta.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poeta”.) “Há diversas poesias de Machado, em geral obras de juventude, recitadas em festas e solenidades, noticiadas em jornais da época, que se encontram perdidas.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poesias perdidas”.) Uma destas poesias perdidas “recitadas em solenidades”, descoberta pelo pesquisador Felipe Rissato, saiu no Jornal da Noite lisboeta de 18-19 de dezembro de 1873 (pág. 3), em matéria sobre a despedida do ator português José Antonio do Vale no “teatro de D. Pedro” (Imperial Theatro de São Pedro de Alcântara, onde hoje se ergue o Teatro João Caetano, na atual Praça Tiradentes - Ver QUAL O TEATRO MAIS ANTIGO DO RIO DE JANEIRO?) antes de retornar a Lisboa, após bem-sucedida temporada no Rio de Janeiro. Informa a matéria (atualizada para a ortografia vigente):

Cumprimos hoje a promessa que fizemos, narrando as festas que se fizeram no benefício de despedida do ator Valle no teatro de D. Pedro, no Rio de Janeiro, que foram esplêndidas igualando as que o público daquela capital fez em honra da insigne [atriz italiana Adelaide] Ristori, e as mais pomposas de que ali há memória.

O teatro encheu-se completamente assistindo ao espetáculo a família imperial, o nosso embaixador e as pessoas mais distintas da corte.

Quando o simpático artista acabou de recitar a poesia de despedida [de Machado de Assis, como veremos adiante], correu-se o pano de fundo e avistou-se o navio que figurava no drama a Filha do Mar, todo embandeirado, grandes fogos cambiantes e chuvas de oiro.

Ao mesmo tempo, uma atriz de 7 anos desceu de um pedestal em que se lia a seguinte inscrição: Ao gênio dramático, e veio entregar ao seu colega uma coroa oferecida pelos carpinteiros do teatro e depois uma linda abotoadura da guarda roupa, uma coroa da orquestra, outra do cabeleireiro e muitos versos. A esta manifestação seguiu-se a dos artistas da companhia com uma fotografia em que se viam todos eles de casaca, formando um grupo, uma poesia de um artista brasileiro e duas de artistas portugueses.

As palavras e os bravos repetiam-se freneticamente, os versos caíam em nuvens dos camarotes. No camarim recebeu ainda muitas prendas de todos os artistas e de grande número de pessoas que admiram nele a par dos dotes do talento as qualidades pessoais.

Ao terminar o espetáculo o público invadiu o palco e foi abraçar o ator que agradecia enternecido e com as lágrimas nos olhos aquelas provas de afeto. A comoção dos que o apertavam nos braços não era menos espontânea.

O senhor Valle foi ao camarote imperial despedir-se de suas majestades que o acolheram benevolamente e na véspera da partida deu um banquete aos seus artistas e empregados e amigos mais íntimos. [...]

A poesia [cinco oitavas endeeassilábicas com rimas entre o primeiro e terceiro, e sexto e sétimo versos] que o ator Valle recitou na despedida é de um poeta conhecido nos dois hemisférios, o senhor Machado d’Assis [grifo nosso] cujas composições inspiradas são sempre bem recebidas. Ei-la:


Breve irei; pouco tarda que eu veja

Longe, longe sumir-se no espaço
Esta terra que eterna verdeja,
Esta terra de palmas e amor.
Volto ao seio da pátria um instante,
Doce mãe que a seus filhos adora.
Curta a ausência há de ser. Curta embora,
Parte d’alma aqui deixo em penhor.

Tantas flores viçosas me destes
Tanto afeto, tamanho e tão puro,
Tantas vezes a mão me estendestes;
Nesta estrada cruel de passar,
Que ora sinto morrer-me nos lábios
A palavra que vibra em meu peito;
Perdoai-me, que é justo o defeito:
Sei apenas sentir e lembrar.

Sei lembrar-me... se a mão do destino
Me trancasse o caminho das águas,
Se de novo este céu peregrino
Contemplar não pudesse uma vez,
Dentro d’alma com letras de fogo,
A memória gravada ficara
Deste povo que as artes ampara,
Justo, amável, sincero e cortês.

Inda assim vai comigo a lembrança...
Não; vai mais: é saudade que levo
É saudade que aviva a esperança
De tornar a gozar este amor.
Levo-a n’alma. No meio do Oceano,
No regaço da pátria querida,
Pintar-me-á estas noites de vida
Como aroma que lembra uma flor.

Há mais alta, mais fúlgida glória,
Viçam louros de eterna frescura,
Enchem folhas austeras da história
Muita fama bendita por Deus;
A mais doce das glórias, contudo,
É sentir-se de afetos coberto,
Ter nos peitos o prêmio mais certo,
E dizer numa lágrima: adeus!”