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| Machado de Assis jovem |
Machado
de Assis (Rio
de Janeiro, 21/6/1839–29/9/1908), filho de mãe branca, açoriana,
e de pai “pardo forro” (portanto, longe de ser um “negro”
como queria Harold Bloom), além de suas vertentes de romancista e
contista mais conhecidas do público leitor atual, foi também
tipógrafo e revisor (no início da precoce vida profissional),
repórter político (fazendo a cobertura das sessões do Senado),
poeta romântico (que, ao contrário dos colegas de estro, não
morreu jovem de tuberculose), crítico teatral, censor de peças de
teatro, teatrólogo (com peças “datadas”, que não são mais
encenadas), funcionário público (no bom sentido, trabalhador, usou
de seu poder no serviço público para proteger os escravos),
tradutor (sua tradução de Os trabalhadores
do mar de Victor Hugo é lida até
hoje), colunista de jornal.
Em
vida, publicou 29 livros: nove romances, quatro livros de poesias
(Americanas, Crisálidas,
Falenas
e Poesias
completas),
cinco coletâneas de contos, seis livros de teatro, duas coletâneas
de gêneros diversos (Páginas
recolhidas
e Relíquias
de casa velha),
uma tradução (Os
trabalhadores do mar)
e dois livros de caráter técnico (Higiene
para uso dos mestre-escolas
e Terras).
Uma produção e tanto! Todavia, “grande parte da produção de
Machado de Assis não foi, em vida do autor, reunida em livro,
ficando dispersa em periódicos” (jornais e revistas), bem como
“correspondências particulares, mensagens escritas em álbuns de
autógrafos” etc. (Alex Sander Luiz Campos, conferência “Edições de Machado de Assis: Por Quê, Para Quê?”)
Assim, depois que o “bruxo do Cosme Velho” deixou este mundo,
começou o afã por coligir e publicar seus textos ainda inéditos em
livro, como mostra a seção “Publicações póstumas” do verbete
“Obra de Machado de Assis” da Wikipédia em língua portuguesa
para a qual o autor deste artigo deu sua contribuição. As primeiras publicações póstumas devem-se a Mário de Alencar,
filho do grande romancista romântico, praticamente adotado por
Machado, que organizou sua obra de teatro, crítica literária,
crônicas da seção “A Semana” da Gazeta
de Notícias, e obras de
prosa e verso reunidas nas Outras relíquias.
Em 1932, Fernando Nery publica a correspondência
do grande escritor e um volume de Novas
relíquias. Em 1944 a crítica literária
Lúcia Miguel Pereira traz a lume a novela Casa
Velha. Nos anos 1950 R. Magalhães Júnior
organizou e publicou vários volumes de contos e crônicas do autor.
Em 1965 o pesquisador francês Jean-Michel Massa reúne 150 textos
variados nos Dispersos de Machado de Assis.
(Estes são apenas alguns exemplos.) E o garimpo nunca parou,
entrando século XXI adentro.
Um caso
pitoresco que merece menção foi uma carta de Machado de Assis,
datada de 22 de julho de 1890, contendo um soneto inédito por
ocasião do aniversário de seu amigo e poeta Ernesto Cybrão,
vendido em leilão em 5 de agosto de 2019 por Levy Leiloeiro. O
colunista Lauro Jardim, de O Globo,
em matéria intitulada “Soneto inédito de Machado de Assis é
arrematado em leilão”, anunciou a venda nestes termos: “05/08/2019
• 16:01 Foi arrematado agora há pouco, num leilão no Rio de
Janeiro, uma carta contendo um soneto inédito de Machado de Assis. A
correspondência foi escrita para um velho amigo, o poeta português
Ernesto Cybrão, que aniversariava naquele 22 de julho de 1890. E se
inicia desta maneira: ‘Acabo de saber que, não sabendo/ Que havias
de fazer, fizeste hoje anos;/ Mas tão calado, ó deuses soberanos/
Que eu, sem nada saber, ia morrendo’. A preciosidade foi leiloada
por R$ 8,2 mil, apenas R$ 200 acima do lance inicial.”
O
leiloeiro assim descreveu o documento: “Manuscrito inédito de
Machado de Assis (1839 - 1908) . Datado de 22 de Julho de 1890.
Curiosamente traz 1 soneto inédito por ocasião do aniversário de
seu amigo e poeta Ernesto Cybrão. Acompanha o manuscrito o envelope
que foi endereçado ao poeta. O manuscrito traz belíssima ilustração
de época na parte superior e assinatura de Machado de Assis no canto
superior direito.”
O
interessante é que, em 26/2/2021, o mesmo manuscrito foi novamente
vendido em leilão, desta vez por Vera Nunes Leilões. Em e-mail enviado aos amigos em 23/7/2019, informou Alexei Bueno: “Um
papeleiro encontrou no lixo, no Leblon, este lindo manuscrito do
Machado, com um muito bom e espirituoso soneto para o aniversário do
Ernesto Cybrão, um poeta português que era seu amigo e vizinho, já
que morava na rua Cosme Velho 33, e o Machado, então com 51 anos, no
18. Já está num leilão, por oito mil reais. O que se descobre no
lixo no Rio de Janeiro é impressionante, a espantosa ignorância
deste povo contribuindo bastante com tal espécie de garimpo. E se
não fosse o papeleiro, adeus soneto.” Eis o soneto:
Acabo de saber que, não sabendo
Que havias de fazer, fizeste hoje anos;
Mas tão calado, ó deuses soberanos,
Que eu, sem nada saber, ia morrendo.
Em tratado de idade, compreendo
Que antes cantá-la que sentir-lhe os danos;
Mas tu, mas tu, tu quoque, Cyprianus?
Tu, eterno rapaz? Acho estupendo.
Nem por isso te livras deste frio
Soneto feito de versinhos bambos,
Que dão, ao lê-los, tédio e calafrio.
São farrapos, concordo, são molambos...
Mas uma cousa nos reforça o brio:
“Ambos na flor da idade, árcades ambos.”
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| Soneto inédito de Machado de Assis. Fonte: Site de Levy Leiloeiro |
“Iniciando a atividade literária pela poesia, Machado foi durante muito tempo considerado e louvado acima de tudo como poeta.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poeta”.) “Há diversas poesias de Machado, em geral obras de juventude, recitadas em festas e solenidades, noticiadas em jornais da época, que se encontram perdidas.” (Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete “Poesias perdidas”.) Uma destas poesias perdidas “recitadas em solenidades”, descoberta pelo pesquisador Felipe Rissato, saiu no Jornal da Noite lisboeta de 18-19 de dezembro de 1873 (pág. 3), em matéria sobre a despedida do ator português José Antonio do Vale no “teatro de D. Pedro” (Imperial Theatro de São Pedro de Alcântara, onde hoje se ergue o Teatro João Caetano, na atual Praça Tiradentes - Ver QUAL O TEATRO MAIS ANTIGO DO RIO DE JANEIRO?) antes de retornar a Lisboa, após bem-sucedida temporada no Rio de Janeiro. Informa a matéria (atualizada para a ortografia vigente):
“Cumprimos
hoje a promessa que fizemos, narrando as festas que se fizeram no
benefício de despedida do ator Valle no teatro de D. Pedro, no Rio
de Janeiro, que foram esplêndidas igualando as que o público
daquela capital fez em honra da insigne [atriz italiana Adelaide]
Ristori, e as mais pomposas de que ali há memória.
O teatro
encheu-se completamente assistindo ao espetáculo a família
imperial, o nosso embaixador e as pessoas mais distintas da corte.
Quando o
simpático artista acabou de recitar a poesia de despedida [de
Machado de Assis, como veremos adiante], correu-se o pano de fundo e
avistou-se o navio que figurava no drama a Filha
do Mar, todo embandeirado, grandes fogos cambiantes e chuvas de oiro.
Ao mesmo
tempo, uma atriz de 7 anos desceu de um pedestal em que se lia a
seguinte inscrição: Ao gênio dramático,
e veio entregar ao seu colega uma coroa oferecida pelos carpinteiros
do teatro e depois uma linda abotoadura da guarda roupa, uma coroa da
orquestra, outra do cabeleireiro e muitos versos. A esta manifestação
seguiu-se a dos artistas da companhia com uma fotografia em que se
viam todos eles de casaca, formando um grupo, uma poesia de um
artista brasileiro e duas de artistas portugueses.
As
palavras e os bravos repetiam-se freneticamente, os versos caíam em
nuvens dos camarotes. No camarim recebeu ainda muitas prendas de
todos os artistas e de grande número de pessoas que admiram nele a
par dos dotes do talento as qualidades pessoais.
Ao
terminar o espetáculo o público invadiu o palco e foi abraçar o
ator que agradecia enternecido e com as lágrimas nos olhos aquelas
provas de afeto. A comoção dos que o apertavam nos braços não era
menos espontânea.
O senhor
Valle foi ao camarote imperial despedir-se de suas majestades que o
acolheram benevolamente e na véspera da partida deu um banquete aos
seus artistas e empregados e amigos mais íntimos. [...]
A poesia
[cinco oitavas endeeassilábicas com rimas entre o primeiro e terceiro,
e sexto e sétimo versos] que o ator Valle recitou na despedida é de
um poeta conhecido nos dois hemisférios, o senhor Machado
d’Assis [grifo nosso] cujas composições
inspiradas são sempre bem recebidas. Ei-la:
Breve irei; pouco tarda que eu vejaLonge, longe sumir-se no espaço
Esta terra que eterna verdeja,
Esta terra de palmas e amor.
Volto ao seio da pátria um instante,
Doce mãe que a seus filhos adora.
Curta a ausência há de ser. Curta embora,
Parte d’alma aqui deixo em penhor.
Tantas flores viçosas me destes
Tanto afeto, tamanho e tão puro,
Tantas vezes a mão me estendestes;
Nesta estrada cruel de passar,
Que ora sinto morrer-me nos lábios
A palavra que vibra em meu peito;
Perdoai-me, que é justo o defeito:
Sei apenas sentir e lembrar.
Sei lembrar-me... se a mão do destino
Me trancasse o caminho das águas,
Se de novo este céu peregrino
Contemplar não pudesse uma vez,
Dentro d’alma com letras de fogo,
A memória gravada ficara
Deste povo que as artes ampara,
Justo, amável, sincero e cortês.
Inda assim vai comigo a lembrança...
Não; vai mais: é saudade que levo
É saudade que aviva a esperança
De tornar a gozar este amor.
Levo-a n’alma. No meio do Oceano,
No regaço da pátria querida,
Pintar-me-á estas noites de vida
Como aroma que lembra uma flor.
Há mais alta, mais fúlgida glória,
Viçam louros de eterna frescura,
Enchem folhas austeras da história
Muita fama bendita por Deus;
A mais doce das glórias, contudo,
É sentir-se de afetos coberto,
Ter nos peitos o prêmio mais certo,
E dizer numa lágrima: adeus!”