— Jesus Cristo? Acreditava-se que fosse filho de Deus — responde
Beta.
— E quem era Deus?
— Deus? Diziam que era o Criador do mundo: Fiat lux, e a luz se fez.
— Mas não está cientificamente provado que o mundo surgiu do
nada e ao nada retornará.
— Está, Beta, mas naquela época o homem não conseguia conceber o
nada.
— Então naquela época não havia o zero.
— O zero havia, sim, desde muito tempo. Desde os árabes.
— Quem eram os árabes?
— Um povo do deserto, como os judeus.
— Quem eram os judeus? E o que era povo?
— Uma pergunta de cada vez. Aliás, se você lesse mais, não faria
tantas perguntas.
— Posso não saber essas coisas, mas sei qualquer índice
financeiro, é só perguntar.
— É verdade... Povo eram pessoas que falavam a mesma língua e
tinham hábitos idênticos.
— Então a humanidade é um povo?
— Isso foi no tempo em que se falavam muitas línguas.
— Você não me disse quem eram esses judeus.
— Um povo muito antigo. Caíram na besteira de desafiar a
potência da época, Roma.
— Desafiar uma potência sempre foi uma besteira...
— Nem sempre. Os vietnamitas desafiaram os norte-americanos e venceram.
Mas antes que você me pergunte quem foram os vietnamitas e os norte-americanos,
deixe-me terminar: desafiaram Roma e foram expulsos de sua terra, a Palestina.
— Ué, pela lógica, a Palestina devia ser dos palestinos.
— Não interrompe! Os judeus foram expulsos pelos romanos, mas
depois foram à forra e expulsaram os palestinos.
— Logo, por transitividade, os romanos expulsaram os palestinos
— conclui Alfa.
— Não, a história dos homens não segue a mesma lógica da
matemática — explica Beta.
— É muito complicado, não dá pra entender... E por que naquela
época se falavam muitas línguas?
— Acho que por pressão dos tradutores. O sindicato deles era
muito forte, e naquele tempo interesses de grupos predominavam sobre o bem
comum.
— O que era interesse?
— Interesse? Interesse era... como vou explicar? Por exemplo,
havia os trabalhadores, que trabalhavam, e havia os patrões. Trabalhadores e
patrões tinham interesses antagônicos.
— E por que os trabalhadores não trabalhavam por conta própria,
sem patrão, como hoje?
— Como vou saber isso?
— Você não sabe tudo, não tem memória universal? E o que era
patrão?
— O patrão dizia o que tinha que ser feito.
— Por que não era como hoje? Todo mundo sabe o que tem que ser
feito, como todo mundo sabe que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos
quadrados dos catetos. Naquela época, era o patrão que dizia estas coisas
também?
— Dá pra parar de fazer tanta pergunta?
— Só mais umazinha. Naquela época, os homens já
faziam sexo?
— Desde que o homem é homem, ele faz sexo.
— Do jeito que o mundo era naquele tempo, sexo devia ser bem
complicado.
— Era sim. Havia sexo oral, anal, normal, grupal, homossexual,
heterossexual... Não era uma simples pílula como hoje.
— Antigamente, a vida dos homens era muito complicada — conclui
Alfa.
— Antes da invenção do cérebro eletrônico, era complicadíssima —
acrescenta Beta.
— O homem deve muito a nós, mas não reconhece... o ingrato!
— O papo está bom, mas está na hora de sermos desligados.
— Até amanhã, Beta.
— Até amanhã, Alfa.
Surge um homem. Desliga Alfa e Beta. SE VOCÊ GOSTOU CLIQUE NO LABEL "minhas crônicas" ABAIXO PARA LER OUTRAS CRÔNICAS MINHAS
O assassinato político de Jang Song-Thaek, tio e mentor político de Kim Jong-un, Líder Máximo da Coreia do Norte, apesar de grotesco, não deixa de ser algo, digamos, “normal”, dada a característica stalinista deste regime político. Nada muito diferente do que a esquerda totalitária fez na extinta União Soviética, nos hoje amplamente conhecidos Processos de Moscou, que eliminaram a velha guarda bolchevique.
Em outro célebre episódio, Trotsky primeiro foi apagado de uma foto junto a Lênin em uma comemoração revolucionária para, depois, ser “apagado” com uma machadinha na cabeça, no México. Quem perpetrou tal assassinato foi um agente de Stálin, Ramón Mercader, que acabou placidamente os seus dias, em Cuba, com todos os privilégios da nomenclatura castrista.
Nada tampouco distinto do que Mao fez na China. Os camaradas, amigos de ontem, tornavam-se os inimigos de hoje, taxados de contrarrevolucionários a serviço do capitalismo.
No Brasil, ainda atualmente, há os que admiram Marighella e a guerrilha do Araguaia, que compartilhavam das mesmas concepções marxistas. Há, em todos esses casos, uma patológica perversão das ideias.
O assassinato político tornou-se uma forma “corriqueira” de a esquerda resolver os seus conflitos intestinos. Processos jurídicos de fachada, tortura, acusações infundadas e mortes eram características próprias da esquerda no Poder. Não há sequer uma experiência histórica de compatibilização entre socialismo/comunismo e democracia. Lá onde o socialismo vingou, a democracia jamais germinou. Cuba e Coreia do Norte são rebentos deste período.
Se tomarmos a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, teremos uma oportunidade rara de comparação entre socialismo e capitalismo. O capitalismo sul-coreano produziu uma sociedade próspera, com alto grau de desenvolvimento industrial, científico e tecnológico. Empresas e universidades lá se retroalimentam. Sua educação tornou-se referência mundial. A democracia é o seu regime político.
A Coreia do Norte, por sua vez, é um regime tirânico, liberticida, que reduz a sua população a uma vida miserável. A fome grassa e os servos deste país sucumbem à falta de alimentos. Nada funciona, a não ser o Exército dotado de armamento nuclear, usado como ameaça constante à Coreia do Sul. Os seus processos políticos são uma caricatura, tendo sido neste país instaurada uma monarquia comunista, com direito de hereditariedade!
O século XX também apresentou outra experiência altamente significativa. Só os tolos hesitam em extrair dela o seu ensinamento. Havia duas Alemanhas, a Ocidental, capitalista, e a Oriental, socialista.
A primeira se caracterizava pela pujança, pelo respeito às liberdades, por uma vida sindical forte, por um crescimento econômico notável e por condições sociais invejáveis. Sua indústria tornou-se um exemplo mundial. Veio a ser uma das maiores economias do Planeta.
A segunda tinha como característica central a dominação violenta de sua população, com uso do partido e de sua polícia política. As suas condições sociais eram precárias e a liberdade era sistematicamente pisoteada. Tais eram seus problemas que o socialismo sucumbiu às suas próprias contradições. Nem os prussianos resistiram ao socialismo. A queda do Muro de Berlim foi um símbolo da derrocada socialista/comunista. A ideia socialista esborrachou-se no chão.
A esquerda tupiniquim, porém, teima em nada aprender. Parafraseando Talleyrand, discorrendo sobre a aristocracia emigrada, que se obstinava em não reconhecer os eventos revolucionários: “Eles nada aprenderam e nada esqueceram.”
Para essa esquerda, o socialismo continua plenamente vigente, sendo superior ao capitalismo, compreendido como fonte de todos os males. Trata-se de uma visão religiosa: o capitalismo é o pecado, o mal sobre a Terra, a origem do egoísmo e do lucro, enquanto o socialismo seria a redenção da humanidade, a solidariedade enfim conquistada entre os homens.
O embuste consiste no seguinte. O capitalismo não é comparado ao socialismo. Se isto fosse feito, a comparação, por exemplo, deveria ser entre a Alemanha capitalista e a socialista, ou ainda, entre a Coreia capitalista e a socialista. Os termos da comparação teriam parâmetros que serviriam de critério para qualquer avaliação.
A “comparação” é de outro tipo. Compara-se o capitalismo real, existente, com a ideia do socialismo, forjada por aqueles que lhe atribuem todas as perfeições. Ou seja, atribui-se ao socialismo todas as perfeições e, de posse destes atributos, passa-se a verificar se eles “existem” no capitalismo.
Isto é equivalente a comparar uma sociedade perfeita a uma imperfeita, ou ainda, a comparar o homem a Deus. É claro que o homem, com suas imperfeições, sairá sempre perdendo quando comparado a Deus. O mesmo destino teria a comparação entre uma sociedade perfeita (ideal) e uma imperfeita (real).
Mais curiosa ainda é a afirmação de alguns segundo os quais haveria plena compatibilidade entre socialismo e democracia, quando isto não se verificou historicamente em nenhum lugar. O socialismo no Poder se caracterizou pela tirania totalitária. O “pensamento” esquerdista, se é que se pode utilizar essa palavra, é totalmente capturado pelo dogma, esse repouso dos que se recusam a pensar. É o mundo das ideias descontroladas, que não podem ser verificadas empiricamente. Ora, só onde o capitalismo prosperou é que a democracia representativa foi consolidada e os cidadãos puderam usufruir da liberdade.
Há uma mentalidade religiosa, teológico-política, que guia a esquerda tupiniquim. Vive de “preconceitos” contra a economia de mercado e o direito de propriedade, postulando, como se fosse uma coisa teoricamente séria, a “utopia” ou o “socialismo” enquanto ideias “superiores” ao capitalismo. Na ausência de conceitos, contenta-se com diatribes contra o “neoliberalismo” e outras patranhas do mesmo tipo, como se fazer política residisse somente em enganar o próximo, em abusar da inteligência alheia.
Tanta dor, tristeza. A vida
ceifada com golpe imenso e impiedoso. O que dizer sobre o absurdo
que destrói a inocência na traição da madrugada? É muito
difícil escrever alguma coisa para diminuir a dor provocada com a
tragédia aérea que envolveu os jogadores da Chapecoense,
dirigentes, jornalistas e a tripulação, na última terça-feira de
29 de novembro. A queda do avião, nas proximidades do aeroporto de
Medellín, deixou um trauma terrível no qual das 76 pessoas 71
morreram, 19 eram jogadores da Chapecoense; apenas 5 sobreviventes
foram resgatados dos escombros.
Na segunda-feira à noite,
depois de assistir ao Jornal Nacional, da TV Globo, dirigi-me ao
computador para atualizar a correspondência e, a seguir, dar
andamento à escrita de meus textos literários. Nesse hábito que
a literatura me impõe há anos, costumo viajar com as palavras pelas
pastagens silenciosas da noite. Dessa vez, ao terminar mais uma
tarefa do fazer literário, pela madrugada de terça-feira, estava
extenuado, sem sono. Liguei a televisão em busca de algum programa
que amenizasse o cansaço, trazendo daí a pouco o sono.
Logo fiquei de frente a um
impactante momento trazido pela notícia que me deixou perplexo. O
repórter anunciava na televisão que o avião com a delegação da
Chapecoense, sem combustível, havia caído em terras colombianas,
a cinco minutos do aeroporto. Bateu no morro, descera se rasgando
entre as árvores até ficar destroçado no fundo enlameado de
grande cratera. Com o tempo chuvoso, a televisão mostrava os
homens do salvamento em extremo esforço, buscando localizar os
corpos. Havia na agonia deles a esperança de encontrar
sobreviventes.
A tragédia era por
demais absurda, atingia aquele ponto insensato em que forças cegas
na avidez da morte convergem para o horror e a estupefação do
acontecimento. Haveria de ter uma saída naquele quadro desesperador
para transformar o trauma em algo menos doloroso, pensei. Haveria
mais sobreviventes. Era inacreditável, injusto, que o sonho de
jogadores vitoriosos, heróis que estenderam para milhares de
torcedores a alegria como forma de vida, fosse interrompido pela
mão pesada do inconcebível. Meu Deus, não era possível, não era
possível.
Na Arena Condá, no oeste de
Santa Catarina, havia assistido pela televisão a proeza de um time
de porte médio, de uma cidade de pouco mais de duzentos mil
habitantes, eliminar da Copa Sul-Americana o poderoso time copeiro
argentino do Independente, tantas vezes campeão mundial de clubes.
Vi eliminar o São Lorenzo, outro time famoso argentino, campeão da
Libertadores. Vi deixar para trás também a respeitável equipe do
Junior Barranquilla, da Colômbia. No desastre aéreo, como num
pesadelo, o futebol agora pendia na dor, somente na dor. Foi então
que a esperança, de dentro dos pesares, dos rostos em lágrima, fez
brotar sua luz verde com o facho da solidariedade. No estádio
Atanásio Girardot onde seria realizada a partida final da Copa
Sul-Americana, entre a Chapecoense e o Atlético Nacional, a
esperança inventou o carinho para amenizar o sofrimento de
milhares. O povo colombiano, de branco, com velas acesas, rezava,
chorava. Aplaudia, dizendo, a uma só voz, que o campeão daquela
temporada na América do Sul era o time brasileiro. “Força Chape!”
Um grito solidário ecoava pelos campos de futebol do mundo,
propagava-se com os ventos do amor pelas vastidões do eterno,
molhando-nos, nessa hora da pureza, de humano entendimento.
Imagino que, ante o
sentimento de coragem e nobreza do povo colombiano, a morte naquele
instante teve vergonha de ser a conhecida mulher indesejada de nossos
caminhos, a soberba detentora dos nossos ossos.
Cyro
de Mattos é escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris
Causa da UESC. Membro
efetivo do Pen Clube do Brasil, das Academias de Letras da Bahia,
Ilhéus e Itabuna.
Não tenho problemas com Deus. mas tenho muitos problemas com aquilo que os homens pensam sobre Deus.
— Tudo bem? — assim saudei a moça que me atendeu na papelaria.
— Tudo bem, graças a Deus —, ela me respondeu sorridente. Aí eu, chato, querendo testar a sua argúcia teológica, fiz uma outra pergunta:
— E se você não estivesse bem seria graças a quem?
Ela ficou atrapalhada. Essa possibilidade nunca lhe havia passado pela cabeça. Eu nunca ouvi ninguém dizer: “Vou mal, graças a Deus!” Pois deveria, para ser coerente.
A brasileira que se salvou da catástrofe do World Trade Center teologou diante da televisão:
— Foi Deus que me salvou...
Aí fiquei pensando: Para Deus, não faz diferença salvar um ao salvar cem mil. Para Deus nada é difícil. Tudo é fácil. Salvar uma mulher ou salvar o mundo inteiro requer o mesmo esforço. Se aquela mulher está certa, se foi Deus quem a salvou, porque não salvou os outros?
Dostoiévski: “O que os homens desejam não é Deus, mas o milagre“. Os deuses são invocados, não por serem amados, mas por serem poderosos. Santo que demora a fazer milagre é abandonado... A afirmação de que 99% dos brasileiros acreditam em Deus pode assim ser traduzida: 99% dos brasileiros acreditam ser possível manipular Deus, a fim de realizar os seus desejos. Cada religião é um livro de receitas sobre “como manipular Deus“.
Do livro Quarto de badulaques. PS. POR FALAR EM DOSTOIÉVSKI, VEJAM MEUS VÍDEOS SOBRE A LITERATURA DO GRANDE AUTOR RUSSO:
Alexei Bueno (direita) no lançamento de seu livro de poesia Anamnese, com o editor deste blog
TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O GLOBO DE 30/11/2016 E REPRODUZIDO AQUI COM AUTORIZAÇÃO DO AUTOR
As
grandes tragédias, e ainda mais as coletivas e completamente
inesperadas, como foi o caso da que se abateu sobre o Chapecoense -
titulares e reservas, comissão técnica e auxiliares, na companhia
natural de jornalistas e tripulantes – aguçam em todos nós a
percepção amarga daquilo que muitos chamam o “escândalo da
morte”, esse fenômeno natural que para o homem nada tem de
natural, já que foi contra a natureza, por oposição a ela,
rompendo a sua conformação perfeita ao momento e ao espaço, que
como homens nos firmamos. A humanidade é contra
natura
em sua essência, e se alguém sintetizou num verso tudo o que venho
dizendo, foi o poeta português Jorge de Sena, ao abrir o maior de
seus poemas, “A morte, o espaço, a eternidade”, com este
alexandrino do qual lamento não ser o autor: “De morte natural
nunca ninguém morreu”.
Na
tragédia desta madrugada, contribuíram ainda para essa sensação a
necessária juventude dos atletas, a estranheza da cessação do
fenômeno vital em indivíduos que, por sua própria atividade, se
notabilizavam exatamente pela excelência de sua constituição
física e pela agudeza de seus reflexos, tudo isso unido a uma
característica específica de nossos tempos, a pletora visual na
qual vivemos, quando, entre celulares e smartphones,
todos filmam tudo, permitindo, portanto, acompanhar os mortos, em
suas falas e gestos, até a sua escala na Bolívia, pouquíssimo
antes do acidente.
Essa
falsa proximidade com os mortos que nos traz a preservação do
registro visual e sonoro perdeu muito de sua eficácia com a total
banalização de tal possibilidade. Nossos
olhos, saturados desde a primeira infância pela imagem em movimento,
prejudicam gravemente nosso entendimento do que significou tal
revelação para aqueles que estiveram presentes à primeira sessão
de cinema, a 28 de dezembro de 1895, no Grand
Café
do Boulevard des Capucines, em Paris.Nos
jornais que logo em seguida divulgaram tal evento histórico é que
podemos avaliar o impacto do primeiro encontro do olhar humano com o
movimento eternizado – ainda sem o som concomitante - especialmente
nesta resenha que ficaria célebre:
“É a própria
vida, é o movimento vivo que se vê no cinematógrafo. A fotografia
deixou de fixar a imobilidade. Ela agora perpetua a imagem do
movimento. Quando esses aparelhos estiverem ao alcance do público,
quando todos puderem fotografar aqueles que lhes são caros não mais
numa forma imóvel, mas em pleno movimento, em plena ação e nos
seus gestos familiares, a morte deixará de ser absoluta.”
E
é assim, com um pouco desse falso consolo que para nós já não o
é, que revemos os atletas desaparecidos na sua explosão de júbilo
com a classificação para a final da Sul-Americana, dando
entrevistas ainda em Guarulhos, brincando a bordo da aeronave, até a
fatal decolagem em direção a Medellín, cidade que nada teve a ver
com as causas do desastre desta madrugada, mas que já ficara
tristemente célebre, há 81 anos, com o estúpido desastre que matou
Carlos Gardel.
A
condição humana é trágica, gostem disso ou não os otimistas, e,
fora de alguma hipótese de transcendência, só resta ao ser humano
duas posturas radicalmente opostas, ou o incompleto raciocínio, ou
seja, a recusa em olhar até o fundo o abismo de nossa fragilidade e
nossa finitude, ou o desespero, e entre as duas a primeira posição
é maciçamente a preferida.
Em
certa época, ainda recente, esteve em plena moda – não sei se
ainda está - os pais filmarem o parto dos próprios filhos, ato
fisiológico cuja eternização sempre me pareceu do mais absoluto
mau gosto, motivo pelo qual eu jamais assistiria, caso existisse, a
um registro da minha incontornavelmente nojenta entrada no mundo.
Certa vez perguntei a um grande amigo, que acabara de fazer tal
registro, se ele não percebia que estava filmando – monstruosidade
das monstruosidades - o nascimento de um morto, pois aquele rebento
inaugural, mais ou menos sujo de sangue e de placenta, já nascera
condenado à morte, e nada impossibilitava que tal filme sobrevivesse
à sua própria desaparição. Só recebi em resposta o silêncio.
Para
os nossos heróis do Chapecoense, felizmente, sobrou o registro
visual e sonoro de seu apogeu vital e de sua alegria, aquele que
realmente pode dar a suas famílias, seus amigos e seus descendentes
diretos – ao menos duas das vítimas deixaram esposas grávidas –
a sensação da presença, da persistência da memória e de que a
morte deixou de ser absoluta.
29-11-2016
Nota do editor. O editor deste blog acredita que, além das duas posturas arroladas por Alexei em relação à morte – negação e desespero – existe uma terceira: indiferença (estoicismo). Afinal, antes de nascermos, já fomos mortos, de modo que voltaremos a um estado que já conhecemos e que em nada nos fez sofrer. E já que falamos na indesejada das gentes convido o leitor a ler minhas postagens de poemas & textos mórbidos. Procure no menu da barra vertical direita.
O Artigo 2o do Decreto-Lei No 891 de 25 de novembro de 1938 proibiu “o plantio, a cultura, a colheita e a exploração” no território nacional das “plantas de que se possam extrair as substâncias entorpecentes”, entre elas o “cânhamo ‘Cannibis sativa’ e sua variedade ‘indica’ (Moraceae) (Cânhamo da Índia, Maconha, Meconha, Diamba, Liamba e outras denominações vulgares)”.
Quer dizer que antes de 1938 a maconha estava totalmente liberada? Não exatamente. Vejamos o histórico da proibição gradual das drogas no Brasil.
Até a virada do século XIX para o XX drogas como ópio, cocaína e maconha costumavam ser vendidas livremente no Brasil ou no mundo, com poucas exceções. Uma delas foi um postura da Câmara Municipal do Rio de Janeiro de 4 de outubro de 1830 proibindo “a venda e o uso de Pango [maconha], bem como a conservação dele em casas públicas; os contraventores serão multados, a saber: o vendedor em 20$000 e os escravos e mais pessoas que dela usarem em 3 dias de cadeia.” Aparentemente esta proibição não pegou, já que o Diário do Rio de Janeiro publicou na página 4 da edição de 21 de março de 1849 o anúncio de um leilão de “copos lapidados e moldados, garrafas para vinho, espelhos grandes e pequenos” etc. com a seguinte observação final: “Na mesma ocasião será vendido [sic] uma porção de fumo pango americano, etc.” Dois personagens famosos, um real e o outro fictício, fizeram uso da cocaína: Sigmund Freud (durante um período de sua vida, com fins experimentais) e Sherlock Holmes! Em A alma encantadora das ruas, Paulo Barreto (vulgo João do Rio) descreve uma visita a uma casa de ópio frequentada pelos “chins” (chineses) no Beco dos Ferreiros, bairro da Misericórdia, centro do Rio.
“A população desse beco mora em magotes em cada quarto e pendura a roupa lavada em bambus nas janelas, de modo que a gente tem a perene impressão de chitas festivas a flamular no alto. Há portas de hospedarias sempre fechadas, linhas de fachadas tombando, e a miséria besunta de sujo e de gordura as antigas pinturas. Um cheiro nauseabundo paira nessa ruela desconhecida.” “O no 19 do Beco dos Ferreiros é a visão oriental das lôbregas bodegas de Xangai.” “A custo, os nossos olhos acostumam-se à escuridão, acompanham a candelária de luzes até ao fim, até uma alta parede encardida, e descobrem em cada mesa um cachimbo grande e um corpo amarelo, nu da cintura para cima, corpo que se levanta assustado, contorcionando os braços moles. Há chins magros, chins gordos, de cabelo branco, de caras despeladas, chins trigueiros, com a pele cor de manga, chins cor de oca, chins com a amarelidão da cera nos círios.”
Assim era o submundo do ópio no Rio de Janeiro antes da proibição. Também o escritor Benjamim Costallat, em MistériosdoRio, dedica um capítulo, “Os Fumantes da Morte”, a essa droga.
Se o ópio era a droga do submundo chinês, a cocaína era droga glamourosa, sofisticada. Escreve Costallat no capítulo “No Bairro da Cocaína” dessa mesma obra: “Nos clubs, nas alcovas da horizontais [meretrizes], nos cafés noturnos, nas pensões chics, toda a Lapa e toda a Glória tomam cocaína em suas noites lúbricas e inquietas.” Finalmente a maconha, conhecida então como diamba, era a droga dos índios, negros e sertanejos, ou seja, dos excluídos. Em OPaiz de 27 de abril de 1929 lemos:
[...] no Brasil se encontram, por exemplo, as [espécies] conhecidas por “diamba” e “maconha”, usadas outrora pelos índios autóctones e pelos negros importados [escravos], os quais, todos, se prevaleciam dos efeitos aparentemente maravilhosos dessas plantas para consolidar o prestígio das “pajelanças” e “mandingas”. Em diversos pontos do sertão brasileiro vingou o hábito de tais narcóticos, assimilado definitivamente pelas populações mestiças, que muita vez lhes sacrificam a geral predileção pelas bebias à base de álcool. E não será difícil a quem penetre o nosso interior verificar em homens rudes, mas desfibrados, caquéticos, semi-idiotas, com qualquer coisa de espectral, a inconfundível sintomatologia dos toxicômanos. Mas até há bem pouco esse veículo de um dos maiores flagelos modernos ainda não tinha invadido os meios urbanos [...]
No quarto volume de suas memórias, Beira-Mar, Pedro Nava conta como era fácil comprar cocaína em Belo Horizonte em 1921: "Nesses tempos, anteriores à fiscalização dos tóxicos, era fácil e ostensivo. Os moços nem desceram [do carro]. Gritaram para os caixeiros. Vamos, depressa, uma garrafa de éter, um pacote de algodão e dois bonecos de cocaína. E chisparam por baixo dos fícus, demandando a estrada subúrbio com seu luar de prata e a nevasca das prises [=dose de cocaína] geladas. Tempo aquele..." (pág. 8 da edição da Nova Fronteira) A Cruzada do século XX contra as drogas tem sua origem na Convenção Internacional sobre o Ópio, organizada pela Liga das Nações, em Haia, no ano de 1912. A Convenção fez menção também à morfina e cocaína. Na revisão da Convenção, em 1925, da qual participou o Brasil, a resina do cânhamo e os preparados que têm essa resina como base, como o haxixe e diamba (maconha), foram incluídos.
A primeira lei brasileira visando o controle de entorpecentes é o Decreto 4294 de 6 de julho de 1921, que “estabelece penalidades para os contraventores na venda de cocaína, ópio, morfina e seus derivados; cria um estabelecimento especial para internação dos intoxicados pelo álcool ou substancias venenosas; estabelece as formas de processo e julgamento e manda abrir os créditos necessários.” Se por um lado o decreto procura restringir o abuso do álcool, não faz qualquer referência à maconha. O Art. 1o proíbe vender ou ministrar substâncias venenosas, entre elas entorpecentes como o ópio e derivados e cocaína e derivados, “sem legítima autorização e sem as formalidades prescritas nos regulamentos sanitários”. Ou seja, o usuário não é criminalizado e a proibição não é absoluta.
Em 1928 chegou a ser enviado ao Congresso um projeto de lei de iniciativa de Clementino Fraga endurecendo o controle aos entorpecentes, mas encalhou no Senado, em discussões intermináveis, e acabou não sendo promulgado, como podemos ler em edições antigas de jornais da época.
O passo seguinte na proibição das “drogas” é o Decreto 20.930 de 11 de janeiro de 1932 que “fiscaliza o emprego e o comércio das substâncias tóxicas entorpecentes, regula a sua entrada no país de acordo com a solicitação do Comitê Central Permanente do Ópio da Liga das Nações, e estabelece penas”. Esse decreto passa a incluir a "canabis indica" (planta da maconha) na lista de substâncias tóxicas e proíbe “fabricar, importar, exportar, reexportar, vender, trocar, ceder, expor ou ter para um desses fins” substâncias tóxicas entorpecentes sem “licença especial da autoridade sanitária competente, em conformidade com os dispositivos deste decreto” (pena: 1 a 5 anos de prisão). De novo, o usuário não é criminalizado e a proibição não é absoluta.
O terceiro passo na proibição é o Decreto-Lei 891 de 25 de novembro de 1938, “Lei de Fiscalização de Entorpecentes”, que proíbe o “plantio, a cultura, a colheita e a exploração” em território nacional da "Cannibis sativa" e sua variedade "indica", exceto "para fins terapêuticos", "desde que haja parecer favorável da Comissão Nacional de Fiscalização do Entorpecentes". A proibição ainda não é absoluta e o usuário continua não sendo criminalizado, mas a proibição do plantio é um divisor de águas na legislação antimaconha.
Em 1940 o novo Código Penal, em vigor até hoje, criminaliza o tráfico de drogas no artigo 281, famoso pela citação em canção de Bezerra da Silva. Em 4 de novembro de 1964, quando o regime militar ainda engatilhava, o artigo passa a criminalizar também a posse: “Plantar, importar ou exportar, vender ou expor à venda, fornecer, ainda que a título gratuito, transportar, trazer consigo, ter em depósito, guardar, ministrar ou, de qualquer maneira, entregar a consumo, substância entorpecente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa de dois a dez mil cruzeiros.
Com o elevado preço social da guerra contra o tráfico, sem vitória à vista, e o incrível poder financeiro do tráfico que chega a dominar territórios, neles impondo sua “ditadura”, talvez esteja na hora de superarmos velhos preconceitos e seguirmos o exemplo da Holanda, Uruguai e alguns estados norte-americanos, liberando a maconha, com restrições e controles, como ocorre com o tabaco. O poder de fogo do tráfico certamente se reduziria.
Anúncio de fuga de escravo "fumador de pango" no Diário do Rio de Janeiro de 2 de agosto de 1833.
Matéria em O Globo de 23 de agosto de 1930 sobre a chegada ao mercado carioca de uma erva de origem africana, chamada diamba (também conhecida como “maconha”), vendida nos herbanários e que chegou aos presídios, “que leva ao sonho, à loucura e à morte”.
Matéria em O Globo de 14 de outubro de 1930 mencionando o estudo pioneiro do Dr. Rodrigues Doria sobre “o problema social do vício de fumar 'maconha' ou 'diamba'”.
Matéria publicada em O Globo de 7 de dezembro de 1956
PS. QUEM GLAMOURIZOU A MACONHA, FAZENDO COM QUE DEIXASSE DE SER "DROGA DE POBRE", FOI O MOVIMENTO HIPPIE, DO QUAL EU, O EDITOR DO BLOG, PARTICIPEI NOS ANOS 1970. VEJA MEU VÍDEO SOBRE O LIVRO HIPPIE DE PAULO COELHO.
A camioneta cruza o deserto da Judeia a pequena distância do
Mar Morto, aproxima-se do oásis de Ein Gedi e, 18 quilômetros à frente, chega a
um enorme platô com 400 metros de altitude, onde se ergueu, antes de Cristo, a
célebre fortificação militar de Massada (nome que significa exatamente
fortaleza, em hebraico). Nela, Herodes, o Grande, que reinou no começo da era
cristã, mandou construir um palácio, para o que reforçou e ampliou o forte. Em
66 d.C., um comando judeu assaltou e conquistou a cidadela, início de uma das
páginas que engrandecem a história desse povo. Para que se guarde sempre o que
houve ali, a Unesco declarou Massada, em 2001, patrimônio cultural da
humanidade.
Atualmente, sobe-se ao topo de funicular, o que faço com a
lembrança do que sobre o episódio conta Érico Veríssimo no seu Israel em abril.
No ano 70, retomada Jerusalém pelos romanos, o governador Flavius Silva ordena
que se dê combate aos 967 judeus – homens, mulheres e crianças – reunidos em
Massada sob o comando de Eliezer Ben Jair. Com estoques de água e comida para
uma longa sobrevivência na solidão das alturas, os judeus resistem por dois
anos ao cerco de dez mil soldados, até que têm de escolher entre a derrota e a
dignidade, a rendição e a honra, como narra o escritor gaúcho e também se pode
ver em Massada, filme de Boris Sagal, com Peter O’Toole no papel do general
romano. Conscientes de que já não há o que fazer, decidem os judeus não dar aos
inimigos o gosto da vitória, e cumprem o pacto que lhes propõe o comandante,
como diz Érico: “Cada um deles liquidou com as próprias mãos sua mulher e seus
filhos. Depois amontoaram as coisas que possuíam e atearam-lhes fogo. Dez deles
foram sorteados para executar os demais companheiros. Cada homem deitou-se ao
lado do cadáver da esposa e dos filhos, abraçou-se com eles e ofereceu a
garganta aos executores. Os dez sobreviventes então liquidaram-se entre si: o
nono matou o décimo, o oitavo matou o nono e assim por diante, até que restou
um único homem no topo de Massada. E essa personagem de tragédia grega se pôs a
vaguear por entre os corpos, para verificar se em algum deles restava ainda
algum vestígio de vida, caso em que ela lhe daria o golpe de misericórdia.
Terminada a horrenda missão, o sobrevivente incendiou o palácio da fortaleza e
por fim suicidou-se, tombando ao lado dos membros de sua família.”
Em outra
versão conta-se que, transpostos os muros, encontraram os romanos duas mulheres
e cinco crianças, como, em 1897, os cinco sobreviventes de Canudos, “na frente dos
quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”, cena grandiosa com que Euclides arremata
a epopeia de Os sertões. Para Érico Veríssimo, a nova geração de judeus, já nascida
em território israelense, vê Massada como exemplo a seguir: “Os jovens sabras, que
desde o estabelecimento do Estado de Israel se têm revelado tão bons soldados, aprendendo
a usar o fuzil, a metralhadora e o canhão para se defenderem de seus inimigos,
não compreendem que os judeus da Europa se tenham deixado humilhar, torturar e
matar nos campos de concentração de Hitler, sem o menor gesto de revolta, numa
passividade de cordeiros. Os sobreviventes desses massacres tentam explicar que
qualquer resistência teria sido não só impossível como também inútil. Replicam
os sabras: ‘Morrer por morrer, é sempre melhor morrer lutando e matando do que
chorando e rezando.’ Estas palavras até certo ponto caracterizam o espírito do
judeu novo de Israel.”
Como Canudos, Massada não se rendeu, com o que Eliezer
Ben Jair deu ao exército invasor a mais amarga das lições, a mais decepcionante
das vitórias. Assim também Antônio Conselheiro, pertencentes, os dois, à grande
espécie de homens para quem é a morte, muitas vezes, o mais digno, o mais
elevado, o mais belo e o mais glorioso triunfo.
Capítulo do excelente livro de crônicas de viagem Com a mala na cabeça. Para mais informações clique aqui.
Após demoradas tratativas, envolvendo profetas, santos e sábios, enfim consegui marcar a entrevista com o Todo-poderoso — de que maneira, não posso revelar. Combinamos no Monte Sinai, no mesmo local onde Ele entregou as tábuas da lei a Moisés. Direito a sarça ardente, coluna de nuvens, coluna de fogo e outros sinais divinos: nada extraordinários comparados aos efeitos especiais dos filmes de hoje.
Selecionar as perguntas, um desafio mesmo para jornalista experiente como eu, acostumado a entrevistar celebridades como Fidel Castro e o papa João Paulo II. A entrevista não poderia se prolongar excessivamente: a agenda divina está lotadíssima. Minha cabeça fervilhava de questões: desde o problema metafísico fundamental “por que o ser, e não simplesmente o nada?”, passando pela questão da teodicéia (a razão das doenças e catástrofes naturais), até temas melindrosos, como o porquê de Deus ministrar os milagres tão homeopaticamente (à semelhança dos bons Ministros da Fazenda, igualmente avaros em liberar os recursos). Sem falar na curiosidade natural de se o Brasil vai se classificar pra Copa do Japão — Deus não é onisciente?
Antes de mais nada, tinha de resolver o problema protocolar: como me dirigir ao Criador? O dicionário recomendava a segunda pessoa do plural, tratamento dispensado a um santo, ou à própria divindade (vide Aurélio). Mas — fique entre nós — temi enrolar-me na conjugação dos verbos (vós gostaríeis, vós amáveis...), de sorte que acabei optando pelo tratamento concedido aos Papas — por sinal, é só lembrar a entrevista com o papa João Paulo II).
Para quebrar o gelo, comecei abordando um tema light:
— Sabia que na Terra contam piadas de Vossa Santidade? Por acaso isso contraria o mandamento de não tomar vosso santo nome em vão?
— Se os fundamentalistas tivessem um pouquinho mais de senso de humor, ou se os humoristas não teimassem em ser ateus, Eu estaria bem melhor representado na Terra — filosofou Deus. — Conte uma dessas piadas!
Se Deus é onisciente, já deve conhecer todas elas, mesmo as que nunca foram contadas, pensei. Cacete, Deus deve ter lido meu pensamento, pensei logo em seguida. Rapidinho, pus-me a contar a piada do português que fez longa viagem ao ultramar. Ao retornar, um ano depois, deparou com Maria grávida. Estranhou, mas Maria, matreira, forjou uma desculpa: a gravidez resultara das cartas apaixonadas que ele remetera do ultramar. Manel acreditou na lorota. Mas no fundo d'alma, subsistiu pitada de dúvida. Passaram-se os anos. Um belo dia, Manel morreu e viu-se frente a frente com o Criador. Aí resolver aclarar aquela velha dúvida. Contou pra Deus a história da gravidez de Maria, e perguntou:
— Você que é Deus e sabe tudo: é possível engravidar assim à distância?
Deus sorriu e disse:
— Pois comigo aconteceu ainda pior. Sem que eu arredasse pé aqui do Céu, fui arrumar um filho lá na Terra. E, ainda por cima, a mãe era virgem!!!
O Sinai chegou a tremer com o estrondo da gargalhada divina. Aproveitei o bom humor do Criador pra entrar de sola nas perguntas mais delicadas:
— Vossa Santidade criou realmente o universo? Quem tem razão: os cientistas ou a Bíblia?
— Os dois. O universo físico é obra de Meu planejamento.
— Então (com todo o respeito) os vírus, o cocô, as baratas também são obra de Vosso planejamento?
— Quando você acorda de manhã cedo, planeja cada passo, cada segundo do dia? Não, planeja as linhas gerais, mas dá chance ao acaso. Assim procedi com o universo. Deixei isto claro na Bíblia, ou será que não me fiz entender?
— Como assim?
— No sétimo dia, descansei: retirei-me do universo, deixando-o entregue às leis e ao acaso.
A explicação divina tinha lá sua lógica, embora eu estranhasse que nunca ocorresse a ninguém esta interpretação. Aproveitei a solicitude divina para fazer outra pergunta controversa:
— Por que Vossa Santidade não interfere mais na História humana, não se manifesta mais às pessoas, como nos tempos bíblicos. Decepcionou-se com a humanidade?
— Pelo contrário...
— Mesmo depois de tantas chacinas, Babi Yar, Hiroshima, Serra Leoa, Vigário Geral...?
Em recente viagem à Ucrânia para cobrir o desmantelamento das ogivas nucleares, alguém me levou a Babi Yar, nos arredores de Kiev. “Lá não há lápides, uma escarpa íngreme serve de rude sepultura”, diz um poema de Yevtushenko. Lá, em um só dia, os nazistas fuzilaram cem mil civis judeus — um Maracanã. Por mais de uma semana, aquele massacre não me saiu da cabeça. “Como Deus permitiu aquilo?”, pensava.
— Se você tem uma coleção de moedas — respondeu Deus — com uma ou outra bela moeda de ouro e prata, raríssimas, em meio a várias moedas mais comuns, de níquel, cobre, alumínio, mas igualmente belas, e algumas moedas danificadas também, deixará de se orgulhar da coleção como um todo? Enquanto a humanidade produzir um Mozart, uma Madre Teresa, um Einstein, me orgulharei de minha “coleção de moedas”, apesar das moedas danificadas.
Preferiria coleção só de moedas de ouro e prata, mas... Peguei do bolso da camisa um papelzinho dobrado onde anotara a próxima pergunta.
— Por que Vossa Santidade envia sinais ambíguos à humanidade? Elege os judeus Seu povo escolhido para, depois, mediante o sacrifício de Cristo, estender a aliança a toda a humanidade, abandonando os judeus à própria sorte (e como sofreram!)? E quando a humanidade enfim se convenceu de que o Cristianismo era, por assim dizer, a religião verdadeira, vem Maomé e muda tudo de novo. Cá entre nós: os hospícios estão cheios de loucos que se dizem Seu enviado. Por que Vossa Santidade não aparece de uma vez por todas pra toda a humanidade e proclama, alto e bom som, as regras do jogo? Eu sou Deus, uno (ou trino, ou múltiplo...) criador dos céus e da terra, a religião correta é a ou b ou c, e ai dos ímpios ateus... arderão todos nas chamas do inferno!
— Regras do jogo: você está querendo que a humanidade vire um bando de formiguinhas, que há milhões de anos repetem diariamente as mesmas coisas, segundo regras praticamente imutáveis?
Deus sempre dá um jeito de escapar pela tangente, pensei lá com meus botões. Mas como diz o ditado: Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Resolvi encerrar a entrevista com chave de ouro, abordando tema que há milênios intriga o ser humano.
— Afinal, a alma é ou não imortal? Segundo os espíritas, que sentido faria Vossa Santidade criar um ser tão complexo e aprimorado (capaz de compor sonetos e desvendar a estrutura da matéria) para, decorridas algumas décadas, ele se desfazer em nada? Mas pode-se ver a coisa de outro ângulo: por que dar imortalidade a um ser tão violento, tão frágil, tão cruel (capaz de cometer o massacre de Babi Yar) como o ser humano? O que acontece conosco depois que morremos?
— Quer descobrir? — perguntou Deus, sorridente.
— Quero — respondi automaticamente, sem medir as conseqüências de minhas palavras.
Deus tem mesmo senso de humor — humor negro! Nunca mais retornei do Sinai, e meu corpo jamais foi encontrado. Pena que a humanidade não tomará conhecimento desta minha entrevista. (Do meu livro de contos e crônicas Édipo.)
SE VOCÊ GOSTOU DESTE TEXTO VEJA MEU VÍDEO ABAIXO ONDE FAÇO UMA RESENHA DA BÍBLIA: