A REPÚBLICA DOS IMBECIS E O QUEIJO BOLA, de Alexei Bueno


Imensa parte do povo brasileiro vive no mundo do pensamento mágico. Isso não seria de maior gravidade – fenômeno universal que é – se nessa parte não se incluíssem muitos dos que exercem o poder político no país. Recentemente - esse caso é exemplar – colocaram uma adolescente no meio de vários homens, numa prisão do Pará, com as consequências inevitáveis. O que primeiro fez a governadora? Mandou demolir a prisão. Já havia uma imensa carência de prisões naquele Estado, mas essa demolição não é um gesto político, é um ato propiciatório, uma coisa de animismo-fetichismo, como na velha história do corno que destrói o sofá onde foi traído.

Após esse dolorosíssimo episódio na Escola Estadual Tasso da Silveira – tão suave poeta – no Rio de Janeiro, não vi ninguém falar da única reação racional nesse caso: clamar por um maior acesso de todas as classes ao tratamento psiquiátrico, a única ação que talvez pudesse ter evitado a tragédia. O que se viu – e depois dizem que os portugueses são burros – foram decrépitos cleptocratas de Brasília tentarem refazer o caríssimo “referendo” do desarmamento, pouco mais de cinco anos após ele ter sido feito. O resultado desse referendo foi o último momento de dignidade do povo brasileiro contra a força da maior canalha política nacional e os mais desvairados dos meios de comunicação. Como este povo, incrivelmente ignorante e manipulável, conseguiu essa proeza? É que mexeram com um dos mais arraigados atavismos da espécie humana, a defesa contra as forças hostis. São dezenas de milhares de anos de luta contra feras e grupos inimigos que persevera em nosso mais profundo inconsciente. O famoso desarmamento faz parte daquelas medidas que só podem ter alguma efetividade num caso de adoção universal – como, por exemplo, a vacina contra a extinta varíola – o que é escancaradamente impossível com tudo que se refere ao comportamento humano. Curioso é que nenhum político pede um referendo sobre a famigerada progressão de pena, sobre o regime aberto, ou sobre os vários indultos, de Páscoa, de Natal, de Dia das Mães, onde são libertados homicidas contumazes para que eles visitem o Coelho da Páscoa, o Papai Noel ou a mãezinha deles, que comumente já morreu ou nunca se soube quem era, com os resultados evidentes...

O mais revoltante é que os propugnadores dessa palhaçada omitem que um terço do território nacional é coberto pela selva. É como se este país - quarto território contínuo do mundo – fosse Rio e São Paulo. É como se uma porção – do maior valor geopolítico – do povo brasileiro não vivesse entre cobras, jacarés e onças, e não dependesse da caça para a sua complementação alimentar. Mas o pior não é isso. Proibir-se as armas representará a mesma coisa que proibir a maconha ou a cocaína, ou seja, ninguém no Brasil fuma maconha ou cheira pó, já que eles são proibidos! Quantas vidas foram salvas neste país, e isso não entra nas estatísticas dos palermas da sublime ONG Viva Rio, quando um homem, ao ver a sua casa ser forçada, dá um ou dois tiros, espantando os meliantes? Alguém já olhou com atenção as fotos da destruição de armas na primeira campanha? Majoritariamente lá estão centenas de espingarda tico-tico, armas de espoleta ou até de pederneira, armas de matar calango ou caçar passarinho, de periculosidade zero, destruídas por um rolo compressor! Sem falar das armas de imenso valor histórico, pares de revólveres de duelo do século XVIII – no valor de milhares de dólares – entregues por uma bagatela, por viúvas idiotas de colecionadores, a ONGs inescrupulosas, ou, como aconteceu no Acre, Wincheters 44, da Revolução Acreana de 1902, salvas no último momento de uma destruição estúpida.

Se essa infelicíssima alma, Wellington Menezes de Oliveira, procurasse outras opções para realizar um massacre, elas não faltariam. Um homem hábil, armado com uma katana, poderia ter feito mais vítimas, pela rapidez do raio de ação e pelo silêncio da própria, já que, provavelmente, os estampidos dos revólveres devem ter chamado muito mais a atenção do que os gritos das crianças e adolescentes, tão comuns numa escola. Para ser mais sintético, ele poderia ter feito uma bomba. Dizem que a Internet está cheia de receitas de bombas. Nunca as li, mas imaginei esta, há muitos anos, pensando em parte dos políticos brasileiros nos meus momentos de ócio criativo:

Compra-se uma lata de queijo bola, aquele comumente fabricado em Palmira, Minas Gerais. Nela se faz um orifício do tamanho de um dedo. Em seguida, deita-se a lata numa panela com água fervendo, até todo o queijo derreter e escorrer pelo orifício. Uma vez seca e limpa a lata, começa-se a recheá-la com pólvora – coisa que se encontra em qualquer lugar – misturada a pregos retorcidos, mais ou menos 2/3 de pólvora para 1/3 de pregos retorcidos. Quando o conteúdo estiver perfeitamente compacto, pilado com muita força, fura-se uma rolha pelo meio, e nela se introduz um barbante grosso. Após cravá-la com pressão máxima no orifício, leva-se ao lugar esperado, e, imediatamente antes da ação, rega-se o barbante a rolha com álcool de cozinha. Em seguida, é só acender e deixar o artefato – caso se queira sobreviver – no local desejado, ou segurá-lo nas mãos, caso o objetivo seja ir para o além junto com os outros. Esta receita, perfeitamente brasileira, mas que não sei se funciona, foi inventada por um cidadão grado e prestante, com 47 anos, que nunca em sua vida urinou fora da bacia.

Clamo e exijo, portanto, como cidadão brasileiro, um referendo pela proibição do queijo bola!

WAVES OF DESTRUCTION, by Chris Lloyd

A tragédia no Japão revela o lado cruel, destruidor da Mãe Natureza e entristece as pessoas com um mínimo de sentimento. "Castigo de Deus por causa do progresso tecnológico do Japão", ouvi alguém comentar numa fila de supermercado, como se Deus (caso exista) preferisse que vivêssemos como certas tribos africanas sem tecnologia nenhuma - pra que então nos dotou de inteligência? Sinal do fim dos tempos devem dizer outros, como se catástrofes jamais tivessem ocorrido antes. E a suposta queda do meteoro que exterminou os dinossauros? E a explosão de Krakatoa? Chris Lloyd, autor de um livro maravilhoso chamado What on Earth Happened? que traduzi dois anos atrás para o português e que um dia a editora Intrínseca deverá lançar no nosso mercado, escreveu um artigo esclarecedor sobre catástrofes naturais. Não tenho tempo de traduzir, fica em inglês mesmo. Se alguma alma caridosa quiser traduzir e me enviar prometo revisar com carinho e postar...  

Waves of destruction




I HAD TO WAIT at least a day or two before dispatching this Wallbook Weekly –to see a little how the appalling events in the Far East begin to play out.

I am overwhelmed with sorrow for the poor people of Japan, struck by the sudden, tragic and massive Miyagiken-Oki earthquake and the subsequent superwave of destruction that has literally - like a wall of concrete – swept away so many villages and towns in its wake….


US President Obama said yesterday that such events remind us how fragile we are as a species. Although that’s right, it shouldn’t take disasters like the unfolding trauma in Japan toremind us of our vulnerability. Every hill and mountain top, every cliff edge – all the land we live on ultimately only exists because of the countless catastrophes stimulated by plate tectonics that causes the earth to buckle, split and rotate endlessly around the globe over eons of time.

The What on Earth? Wallbook image I have chosen for this week is taken from panel two – in the sea stream. It represents that giant tsunami (we always called them tidal waves when I was young, anyone know when the fashion switched to the Japanese terminology and why, I wonder?) that in part contributed to the demise of that other once all-powerful race of land creatures – the dinosaurs.

A giant six-mile wide meteorite travelling at 17,000 miles per hour is thought to have been the cause. Just imagine what gargantuan tidal waves (sorry tsunamis) must have occurred after its impact in the ocean, somewhere near the Gulf of Mexico. Recent tsunamis, be they Indonesian or Japanese, would have been the merest ripples by comparison. 


Those land-hugging dinosaurs not vaporised by the impact would have been drowned by a tsunami. Those living on the other side of the world would have been less fortunate. They would most likely have suffered a longer trauma before inevitable death as dust in the upper atmosphere blocked out the sun, perhaps for as long as a year – the ultimate power-cut.  


Humanity was almost made victim of a different natural disaster, long before the first civilisations emerged. When the Toba super-volcano in Sumatra erupted c. 70,000 years ago it was the most powerful natural disaster to have stuck in 25 million years. On the other side of the world populations of our human species, Homo sapiens, are thought to have dwindled to a few as 2,000 as a result – the tiniest of genetic bottlenecks through which the 7 billion of us alive now are all beneficiaries.

What changes, I wonder, did such a dramatic cull of humanity have on our culture? Is this the moment from when prowess amongst men for singing, dancing, talking and tool-making became the determinant factor in the fierce competition for favour amongst the few remaining females? Was the ancient culture of the European veneration for femininity, captured by the cult of the mother goddess and celebrated until as recently as Minoan Crete in 1700 BC – a cultural echo of that supervolcano in Indonesia many thousands of years before? Ironically, the fertility goddess-worshipping Minoans was another civilisation washed away by a giant tsunami following the eruption of another vast volcano - Mount Thera (present day Santorini).

The Japanese will pick themselves up, I have no doubt. They did so following the traumas of World War II – as did Germany – becoming one of the most efficient, economically productive nations on Earth, driven by the part competitive, part collaborative human spirit of striving to rebuild and renew.

Even-so for a world leader to have to remind us how fragile we are as a species - past, present or future – sounds to me like another failure of education. Big history constantly tells us how vulnerable we are – how totally shaped our form and culture is by the natural world.

The human story exists within a thin slither of gas on the surface of a blue planet cracked like an egg shell underneath which crusts of earth are constantly being moved, jostled and broken by a massive ball of boiling hot magma powered by geo-thermal, nuclear fission. That’s our true context 24 hours a day, every day of the year - not just something to muse about when disasters strike. What’s more it’s a positive thought since living with such a context in mind makes me want to make the most of every minute, everyday.

To see an archive of Wallbook Weekly postings or to take part in the What on Earth? Wallbook 60-question online quiz please visit www.whatonearthbooks.com

PASSEIO SOCRÁTICO (trecho), de Frei Betto


Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados, explico: "Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas." Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

HOMENAGEM A MOACYR SCLIAR, de EDMÍLSON CAMINHA


O DERRADEIRO GALOPE DO CENTAURO

Edmílson Caminha

Em Moacyr Scliar, tão notável quanto o escritor ilustre era o ser humano digno, a pessoa ética, o cidadão exemplar que mereceu, ao longo da vida que lhe foi dada viver, o afeto dos amigos e o reconhecimento dos leitores. Entrevistei-o no ano de 1987, em Porto Alegre, quando me recebeu na Secretaria da Saúde, onde trabalhava como médico sanitarista. Publicada primeiramente no Diário do Nordeste, de Fortaleza, a conversa também se acha no meu livrinho Palavra de escritor (Brasília : Thesaurus, 1995). Em carta que gentilmente me enviou, o entrevistado faz elogios ao texto, e diz que providenciou cópias para entregá-las aos jornalistas e estudantes que o procuram.

À pergunta sobre como a condição de judeu se revelava em sua obra, Scliar respondeu, com a inteligência e o saber que todos admirávamos:

— Os povos da antiguidade legaram ao mundo grandes monumentos, como as pirâmides, os templos, importantes obras de arte; o povo judeu nada deixou a não ser um livro, mas um livro que condicionou o destino de milhões de criaturas neste nosso mundo. Essa veneração pela palavra escrita, pelo livro de maneira geral, na minha família era muito acentuada: embora pobres, nunca nos faltou, a mim e aos meus irmãos, dinheiro para comprar livros. Desde cedo fomos induzidos ao hábito de escrever, tanto mais que a minha mãe era professora primária, do próprio colégio onde eu estudava, e me estimulou muito a escrever. Além disso, no contato com os imigrantes ouvi muitas e muitas histórias interessantes.

Uma delas foi, certamente, a que lhe contou o pai José, imigrante russo chegado ao Brasil na década de 1920. Ouvi-a narrada por Moacyr no ano passado, quando juntos participamos da Feira do Livro de Guarulhos:

— A viagem de navio, longa e desconfortável, foi um pesadelo. Ao desembarcar com a família, a aparência daquele menino de oito anos devia ser péssima, pela pobreza dos trajes, pela fome estampada no rosto e pelo medo que lhe dava o país estranho em que punha os olhos pela primeira vez. Sensibilizado pela expressão de sofrimento, um homem se aproxima e lhe entrega... uma banana. Era o que podia oferecer, antes que o pequeno desfalecesse e fosse de encontro às pedras do cais. Ocorre que a generosidade trouxera um problema para a criança: que diabo de fruta era aquela? Como comê-la? Se fosse maçã, uva, pera, cultivadas nos campos da Rússia... Mas aquela coisa amarela, meio curva, que jamais vira nem desenhada em livros? José olhou, examinou e, afinal, decidiu: começou a descascá-la, jogou fora o que lhe pareceu um caroço meio mole... e comeu a casca!

Muitos anos depois, Scliar ouviria do pai a conclusão que lhe soava como a moral da história:

— Sabe que comer casca de banana não é assim tão ruim como a gente pensa? Até que dá pra engolir, principalmente quando se está com fome...

Essa, a experiência de vida e a sabedoria humana que o escritor converteu em ficção da melhor qualidade, a exemplo do romance O centauro no jardim. Em 27 de fevereiro, aos 73 anos, Moacyr Scliar, com a discrição e a elegância que lhe eram próprias, cavalgou pela derradeira vez o centauro, mito que tanto o fascinava, pois, metade homem e metade cavalo, é a um só tempo realidade e fantasia, as duas grandes matérias de que se faz a literatura. Partiu a galope rumo à eternidade, onde campeará para sempre nas coxilhas celestes, um suave e luminoso pampa que não tem começo nem fim...    

VAI PASSAR..., de Léa Madureira


Colorido de batuque no meio da Avenida. Brilho de alvorada quando se faz noite, centelha a percorrer os corpos. Ao grito de guerra na concentração, o espocar de fogos.

Momento de arrepio. Incendeia-se a harmonia ao apito do mestre. Entusiasmo que transcende o encantamento e evolui em cadência ardente, coração do ritmo quase a explodir. Fruição constante vibrante crescente.

Molejos e rodopios, levitar dos passos. Farfalhar de saias, dourados turbantes, rodas de cetim. São elas, baianas, deslizando o transe em suas sandálias.

Ao movimento das alas, vai passando a escola. Coeso esforço, lúdico empenho que, tão mágico, acontece. Intenso pulsar contagia o asfalto, amplia-se, espraia-se. Do estribilho, o retorno, voz do povo, redenção.

Consagram-se aplausos à coreografia, ao samba de enredo que desce o morro sonhando o canto do inda possível. Com mestre-sala, porta-bandeira, a homenagem, honra e louvor às raízes. Credo e paixão. Sublimidade.

Exaure-se a volúpia ao suor de gestos e requebros. O ser uníssono que se agiganta, asas conquista e se evade. Entre os astros, chão e telhado de almas lavadas. Rastro de divindade.

E a vida, alegoria do tempo, irrompe o eterno, traduz-se em essência.


Transforma-se em Arte.

CABARÉ, de Eneida de Moraes



Está palavra apareceu em minha vida, depois que ela (minha mãe) morreu. Ao começo apenas uma palavra, mas quem agora iria explicar-me o que é cabaré? Um lugar público onde se dança, canta e bebe, como dizem os dicionários? A sede de leitura crescendo (...).

Foi em 1931 que consegui, afinal, ir a um cabaré. Ia, enfim, aprender, por mim mesma, aquilo que ela não tivera tempo para me explicar. Agora não mais a palavra, mas o acontecimento.

Era uma noite belíssima, dessas noites cariocas de terra, céu e mar iluminados. Um grupo de amigos a meu pedido levou-me ao Assírio [antigo cabaré de prostitutas de luxo na Cinelândia com decoração inspirada/copiada do Salão Assírio do Municipal]. Como esquecer aquele salão de decoração lúbrica, uma orquestra atacando dolentes tangos argentinos, e mulheres tristes, estranhas, entre bicho e gente, todas ou quase todas com vestidos de rendas pretas?

Mas então isso é que é cabaré? Cabaré não é uma casa alegre, movimentada, riso em todas as bocas, champanha estourando rolhas, taças sendo bebidas em desvairada alegria? As famílias sempre temeram o cabaré, por que? Eram perguntas a um e a outro. Sim, tu é que és uma boba, cabaré é isso mesmo, as mulheres são tristes porque levam uma vida triste. Impossível, impossível.

Pares deslizavam como se fossem mortos ou bonecos movidos por uma lenta manivela; a música não atingia nem sequer a ponta dos dedos de qualquer dançarino. Nunca pude suportar tangos argentinos: é sempre a história de infidelidades, em todos eles há mulheres desleais, traindo homens, homens sofrendo, mas jurando vinganças. Muitos anos depois, entrevistei Ataualpa Iupanqui, folclorista argentino. Perguntei-lhe se, como eu, julgava o tango de sua pátria o hino nacional do corno. Sua resposta:

No chica; la burguesia argentina está tan y tan podrida que no tiene cálcio para hacer cuernos.

Mas aqueles vestidos de rendas pretas? Nunca os vira em tão grande profusão, tão feios, tão tristes, entristecendo ainda mais as mulheres pálidas, mas muito pintadas, máscaras sobrepostas porém soltas, visivelmente atuando uma sobre a outra. Grandes olheiras – Teda Bara em moda – boquinhas de batom fazendo corações em grandes bocas pintadas só no meio – em moda também Clara Bow.

Vocês me enganaram, isso não é um cabaré. Onde aquelas mulheres lindas e fatais, luxuosamente vestidas, cobertas de jóias, rodeadas de homens apaixonados, levando-os a loucura, aquelas figuras tão banalmente célebres.

Saímos para a rua, fomos bebericar num bar, esse sim, muito alegre. Jamais poderia acreditar no que afirmavam os amigos. Pois sim que aquilo era cabaré. Não tinha tango argentino? Não viste as prostitutas? Não estavam bebendo cerveja? Pois tudo isso é cabaré. Como pode haver cabaré com cerveja e mulheres tristes? Que diria disso a senhora Margueriti Gauthier?

Vida correndo (...). Outra noite chegou, em S. Paulo. Confidenciei a amigos minha decepção com o cabaré carioca e a vontade de conhecer um paulista (...) – Não, não, isso não é um cabaré. Foi isto mesmo, igualzinho que me mostraram no Rio. Lábios tristes, boca fingindo outra boca, a verdadeira debochando da falsa. Só a fala dos amigos afirmando o cabaré ou espantados com a minha ignorância, alegravam o ambiente.

Súbito, estourou uma briga. Aumentou: cadeiras partiram em várias direções, garrafas de cerveja transformaram-se em petardos e caíam no chão; palavrões enormes acompanhavam ritmadamente a luta. Querias agitação, não querias? Achavas que cabaré não pode ser coisa morta e agora aí está: sangue, cabeças partidas, gritos histéricos de mulheres em fuga, garrafas, cadeiras quebradas.

Não precisaria mais insistir. Minha curiosidade por cabaré terminou. Até hoje, para mim, cabaré é um lugar muito triste com mulheres idem, todas vestidas de rendas pretas, bebendo cerveja, e tangos argentinos falando de infidelidades e desgraçados amores.

                 Impossível a cerveja em cenas de cabaré. 

(Do livro Banho de cheiro de 1962. Eneida foi criadora do baile do Pierrot e primeira madrinha da Banda de Ipanema. Agradeço ao seu sobrinho Carlos Pereira pelo envio do texto)

NOITE DE SÃO JOÃO, de Geny Vilas-Novas

Conto extraído do livro Feitiço do boêmio: Contos inspirados na vida e na obra de Noel Rosa, Editora Bom Texto


Resvalou entre os tumulos enquanto o esquife de Noel baixava à sepultura. Boca borrada de batom. Lágrimas fazendo escorrer o creiom no canto dos olhos. Máscara de colombina transtornada. Cambaleante, Ceci entra no táxi. Desorientada pela dor, peito afogado em recordações. Todas muito amargas! Lembra a morte da mãe, a perversidade da madrasta, a omissão do pai. Atormentada, compra uma passagem. Da janela do ônibus, vê Nova Friburgo cada vez mais distante até sumir de vista. Muri vai ficando para trás, afastando-se, afastando-se, afastando-se ... As colinas, os campos floridos aplacam os demônios e acalmam o rodamoinho em que está mergulhada.
Luzes, silhuetas dos prédios, Cidade Maravilhosa!

A acomodação na casa de parentes, o trabalho como caixa de uma loja, o dinheiro regrado, regrado. Seus dezessete anos sepultados sem alardes. A primeira vez que vai com amigas a uma casa noturna. Veste um tailleur azul inadequado. Inadequados também os gestos e as palavras. Volta ali algumas vezes, antes de ser contratada.

Troca o tailleur azul por um soirée esvoaçante. O carmim dos batons realça a forma de coração dos lábios delicados. Lápis preto de ponta bem afinada contorna os olhos e marca no rosto uma pinta preta. A grande flor nos cabelos pende para um lado. Os goles de bebida sorvidos devagar subvertem a timidez e deixam os modos cada vez mais requintados.
— Inteligente aprendiz! — comentam as mais antigas na casa.

Ceci sonha arrancar, um dia, o irmão mais novo das garras da madrasta. Não gosta de pensar nisso enquanto trabalha. Os clientes exigem alegria, nenhuma nuvem sombria deve turvar-lhe o semblante.

O salão da casa noturna está enfeitado de bandeirinhas. Alusão a uma fogueira incandescente no centro da pista de dança. Fogos de artifícios clareiam o céu da noite de ventos cortantes. Ceci ajeita o chapéu de palha assim que entra um rapaz magrinho, cigarro no canto da boca. Este será o homem que mudara o rumo da minha vida? Nunca se tem certeza. Soube mais tarde que o coração do jovem também bateu descompassado. Apresentou-se como Noel. Perguntas rotineiras e desconcertadas dos enamorados. Aos poucos a saliva foi afinando e umedecendo os lábios ressecados. A pulsação do sangue nas veias acalmando. E o apaziguamento das mãos geladas deu lugar ao embate enquanto dançavam. Corpos em chamas se tocando, experimentando-se e se conhecendo. Saíram da festa saciados pelas libações e foram acabar de matar a sede em um aposento na Lapa.

Ceci saiu da casa dos parentes, foi morar em um quartinho que dividia com Noel nas horas de folga. A moça chegava aflita do trabalho, revirando gavetas em busca da melhor camisola. Refrescava-se em banho momo e perfumava as carnes alvas. Mergulhava entre os lençóis e ouvia os passos apressados do amado no corredor. A maçaneta girava, o mundo ficava estático e silencioso. Os pingos da chuva paravam no ar antes de alcançarem o solo. As lágrimas ficavam no meio das faces. Cessavam os gritos das crianças, o barulho dos bondes. Não mais ladravam os cães. o amante se despia com sofreguidão, a volúpia não cedia lugar aos pudores. As bocas davam conta das bocas e as mãos do resto. Tremiam! No corpo de Noel, Ceci reconhecia macios e duros. A barba do rapaz avermelhava a pele sensível dos seios da moça.
Gozo, exaustão, sono profundo.

·········

Do nada, em madrugada chuvosa, na porta da casa noturna surgem os olhos matreiros de Mário Lago. O brilho desse olhar desperta novos devaneios no coração de Ceci: casa, criados, filhos. Marido gentil abrindo a porta do carro.

Mário a apresenta aos artistas de teatro. Moça tão linda! Precisa entender das artes. Vão a vernissages de pintores famosos. Jantam em restaurantes caros: lagostas, vinhos finos, sobremesas sofisticadas, cafezinhos, licores.
Envenenado pelo ciúme, Noel não se conforma. Gritos, impropérios, desvarios sacodem as paredes do quarto e voam pela janela assustando as pessoas na calçada. Cada vez mais, Ceci entrega-se ao álcool como se ele fosse um remédio capaz de curar as muitas feridas.

Na última noite em que Noel a visita, não há briga. Ela? Estirada na cama, entorpecida. Noel, silencioso, passa a noite sentado.

No outro dia, quando Ceci acorda, Noel já não está.

Sobre a mesa do quarto, a letra de mais um samba.

A LÓGICA DOS RAIOS, de Nelson Motta


Incrível, fantástico ou extraordinário? Apenas coisas da vida: no ano passado, 131 brasileiros morreram fulminados por raios em diversas regiões do país. É mais gente do que as vitimas de desastres aéreos no período, que têm muito mais chances de acontecer, por dependerem de fatores humanos e mecânicos, além dos meteorológicos. Os raios, não: desabam dos céus aleatoriamente para fulminar um ser humano inocente, de qualquer sexo, idade ou classe social, que estava no lugar errado, na hora errada.

Pelo número de mortos no Brasil, imagina-se quanta gente do mundo inteiro voltou ao pó por uma descarga de milhões de volts disparada dos céus. A vida é mesmo assim, está sempre por um fio, absolutamente fora de qualquer controle humano. E pode acabar num raio, ou num infarto, a qualquer momento. Até para o mais poderoso dos mortais.

Desde Zeus e Iansã [foto], os raios são a simbologia ancestral do poder da divindade e representam a força do acaso, da fatalidade e do destino. Eles fulminam a onipotência humana e revelam a nossa fragilidade e desimportância. Além dos acidentes, das tragédias, das doenças terminais e aleatórias, das balas perdidas e das dores crônicas que, como raios, fulminam a existência de alguém, não existem dinheiro ou poder no mundo que resistam a um simples cálculo renal, um apêndice supurado ou a um dente com o nervo exposto. 

É duro admitir, mas não há justiça na natureza, nem no cosmos, nem nos deuses. É melhor aceitar que o conceito de justiça é uma invenção humana, com suas imprecisões e precariedades, para possibilitar uma vida civilizada em comunidade.

Dizem que os raios não caem duas vezes no mesmo lugar, mas há controvérsias: pelo menos metaforicamente, a história vem desmentindo esta crença. Senão Sarney não teria sido tantas vezes presidente do Senado. Brizola não teria governado o Rio de Janeiro duas vezes. Rosinha não teria sucedido a Garotinho.

Poucos ainda usam a velha expressão de origem portuguesa "vá para o raio que o parta". Mas, se for usar, diante das estatísticas brasileiras, cuidado com os seus desejos, porque eles podem se realizar. (Publicado originalmente em O Globo de 26/11/10. Foto da escultura de Iansã tirada no Parque da Catacumba, Rio de Janeiro)

A ONDA, de Susan Casey

TRADUÇÃO DE IVO KORYTOWSKI



TRECHO DA INTRODUÇÃO DO LIVRO:

A história está repleta de testemunhos sobre ondas gigantes, monstros na faixa dos trinta metros ou mais, porém até recentemente os cientistas os descartavam. Eis o problema: de acordo com a física básica das ondas oceânicas, as condições que podem produzir uma onda de trinta metros são tão raras que praticamente nunca acontecem. Qualquer alegação de que alguém tenha visto uma, portanto, não passaria de papo furado de pescador ou mentira pura e simples.

Mesmo assim, era difícil desprezar o relato do herói polar Ernest Shackleton, que estava longe de ser o tipo de pessoa com inclinação para exageros histéricos. Em sua travessia da Antártida à ilha da Geórgia do Sul, em abril de 1816, Shackleton observou movimentos estranhos no céu noturno. “Em seguida, percebi que o que eu vira não havia sido uma brecha nas nuvens, mas a crista branca de uma enorme onda”, escreveu. “Durante meus 26 anos de experiência no oceano em todos os seus estados de ânimo, eu nunca vira uma onda tão gigante. Uma sublevação poderosa do oceano, algo bem diferente das grandes ondas de crista branca que tinham sido nossos incansáveis inimigos por muitos dias.” Quando a onda atingiu seu navio, Shackleton e sua tripulação foram “lançados à frente como uma rolha” e a embarcação ficou alagada. O navio só não soçobrou por pura sorte e porque a tripulação conseguiu rapidamente retirar a água com baldes. “Francamente, torcemos para que nunca mais nos deparássemos com uma onda daquelas.”

Os homens no cargueiro München, de 850 pés, teriam concordado se algum deles tivesse sobrevivido ao encontro com uma onda semelhante em 12 de dezembro de 1978. O München, que todos acreditavam ser impossível de afundar, era o que havia de mais moderno em termos de embarcação, a nau capitânia da marinha mercante alemã. Às 3h25, fragmentos de um pedido de socorro em código Morse com origem 720 quilômetros ao norte de Açores indicavam graves danos causados por uma onda. Mas mesmo depois que 110 navios e 13 aeronaves foram mobilizados — a mais completa operação de busca na história da navegação —, o navio e seus 27 tripulantes nunca mais foram vistos. Restara apenas uma pista assustadora: as equipes encontraram um dos barcos salva-vidas do München, que normalmente ficavam vinte metros acima da linha-d’água, boiando vazio. Os encaixes de metal retorcidos mostravam que o bote tinha sido arrancado. “Algo extraordinário” havia destruído o navio, concluiu o relatório oficial.

O desaparecimento do München aponta para o principal problema em se provar a existência de uma onda gigante: se você depara com esse tipo de pesadelo, é provável que ele seja o último de sua vida. A força das ondas é inegável. Uma onda de meio metro consegue derrubar um muro erguido para suportar ventos de duzentos quilômetros por hora, por exemplo, e alertas costeiros são emitidos até para ondas de um metro e meio de altura, que costumam matar quem for pego desprevenido no lugar errado. O número de pessoas que testemunharam de perto uma onda de trinta metros e conseguiram voltar para casa para descrever a experiência é ínfimo.


"O filme Tubarão deixou você com medo do mar? Este livro cheio de adrenalina desvenda a mais terrível força da natureza. Uma viagem ao mesmo tempo assustadora e inspiradora." People

DINHEIRO NÃO TRAZ A FELICIDADE



Se o dinheiro não traz a felicidade, deixa-me ser infeliz com 1 milhão de dólares em Paris”, costumava dizer um amigo de adolescência pra lá de galhofeiro (que na vida adulta se tornou um respeitado documentarista). O fato (cientificamente comprovado) é que o dinheiro pode aumentar o bem-estar, logo, a felicidade, mas até certo patamar: pra quem tem 1 milhão de dólares, mais 10 mil não fazem a menor diferença, mas para mim fazem, e muita!

Carl Barks, o “Homem dos Patos” criador do Tio Patinhas (e autor da pintura acima que tirei da capa do Volume 7 de As Obras Completas de Carl Barks - foi nessa revista que peguei também a citação a seguir) disse em entrevista concedida em 1983: "Sinto que um homem rico, não importa o quão rico seja, não é mais feliz ou satisfeito que um homem pobre. Então, sua riqueza de nada lhe serve. O rico não tira da vida nada que o pobre não tire. O pobre pode aproveitar os simples pequenos prazeres e se empolgar com eles tanto quanta o rico pode ir à ópera e morrer de tédio, ou ir às corridas de cavalo, perder alguns milhares de dólares e ficar furioso por isso durante toda a tarde. O dinheiro não compra nada que valha a pena, só coisas materiais".