"ESCREVER É BRINCAR COM PALAVRAS COMO O DOMADOR BRINCA COM AS FERAS" (Gilberto Freyre)

 

Casa de Gilberto Freyre no Recife

É tão difícil escrever! Mais difícil que fazer um laço de gravata é fazer uma sentença. E para fazer um laço de gravata George Brumell, o “beau” Brumell, torturava-se horas a fio diante do espelho. […] Escrever bem não é garatujar uma folha de papel. Nós, os garatujadores, é que temos essa ideia. Daí ser a literatura o templo mais infestado de falsos profetas. Pessoas que diante de um piano não ousam tocar nem de leve na dentadura escancarada do instrumento, com medo de ofender o instinto melodioso do gato que ronrona sobre o sofá, garatujam uma folha de papel com a maior sem cerimônia deste mundo. E supõem que escrevem.

Deviam os escritores de verdade formar uma liga contra nós, garatujadores impertinentes, e destinada a criar mais respeito pelo escrever. A liga deveria mostrar que escrever é mais difícil que tocar piano. Escrever é brincar com palavras como o domador brinca com as feras. E as primeiras são tão difíceis de amansar como as últimas.


Gilberto Freyre

Texto do então jovem Gilberto Freyre, estudante das Columbia University nos EUA, para sua coluna “Da Outra América” de 15/8/1920, no jornal Diário de Pernambuco. Embora se considerasse um “garatujador”, com apenas 20 anos de idade Freyre já escrevia feito um mestre, como atestam as várias crônicas desta coluna, inéditas em livro, mas acessíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

3 comentários:

Anônimo disse...

Tem razão Gilberto Freire. Mas os escritores, antes de domar as palavras, acabam sendo devorados pelo mostro devorador que habita o coração de todas elas. Por reptícias, elas parecem seres inofensivas… depois entram no se subconsciente, mastigam suas ideias e se apropriam de suas vísceras. Talvez venha daí a expressão “poeta visceral. Por que não? (Geraldo Reis: O Ser Sensível ) www.poetageraldoreis.blogspot.com

Anônimo disse...

Difícil é identificar os "verdadeiros escritores", porque mesmo os garatujadores costumam ter um ou outro momento de iluminação (e nesses momentos, brilham como os grandes - estes, sim, brilham quase constantemente - talvez piscando, como as estrelas). José Américo Miranda.

Anônimo disse...

Ivo querido, no primeiro semestre de 2025 reli "Sobrados e mucambos" na minha edição da José Olimpio, de 1961. Comecei a folheá-lo e acabei relendo-o, como é fatal quando se trata de um mestre. Desconhecia este pequeno grande texto do jovem Gilberto Freire. Ao lê-lo, identifiquei-me imediatamente com ele, pois diversas vezes senti-me um garatujador. Tão jovem e já bagunçava com as nossas certezas. Viva o blog "Sopa no mel"!