HOMENAGEM A ALEXEI BUENO (1963-2026)

 


             Fora de ti, poesia,
                        Nunca vali um nada.
                        Que a tua mão sagrada
                        Me acene mais um dia.
                        Alexei Bueno, "Ex voto" 
    
             Meus livros amados,
             Como trepadeiras
             Sobem apinhados,
             Paredes inteiras.
             Alexei Bueno"Ode amatória" 

      

Alexei Bueno no lançamento do livro de poesias Face de Outono de Maria Thereza Noronha no Lamas em outubro de 2025, cuja contracapa ele escreveu.

            Alexei Bueno (e Daniel Brilhante de Brito) foram as pessoas mais geniais que tive o privilégio de conhecer pessoalmente em minha jornada terrestre. Tão genial que, aos dezessete anos, idade em que os jovens de minha geração “paz e amor, bicho” fumavam maconha e sonhavam em viajar a Amsterdam, dedicou-se a uma tradução do complexo e difícil poema “The Raven”, de Edgar Allan Poe (que você pode ler clicando aqui), fiel na métrica e esquema rímico ao original inglês, superando assim traduções anteriores de vacas sagradas da literatura em português como Machado de Assis e Fernando Pessoa.


Numa meia-noite cava, quando, exausto, eu meditava

Nuns estranhos, velhos livros de doutrinas ancestrais

E já quase adormecia, percebi que alguém batia

Num soar que mal se ouvia, leve e lento, em meus portais.

Disse a mim: “É um visitante que ora bate em meus portais —

            É só isto, e nada mais”.


Até ontem Alexei era o maior poeta vivo brasileiro (agora vai para o panteão dos gigantes da poesia brasileira de todos os tempos)  que, à semelhança de um Goethe ou Victor Hugo, dominava magistralmente variadas formas da produção poética, do soneto à poesia em prosa, da redondilha maior (“Esta roupa mal cortada / Curta aqui, ali comprida”) ao verso longo à Walt Whitman e, mais ainda, o poema longo como “A Chave Quebrada”. Alexei seguia as convenções e tradições eruditas da grande poesia, não foi um poeta de apelo popular. Sua obra é vasta. A Poesia completa e reunida, de 2023, estende-se por 1053 páginas. E depois disso publicou mais quatro livros de poesia (veja sua obra completa na Wikipédia).

Alexei escreveu uma única peça de teatro sobre um episódio da história brasileira que já tinha sido abordado por Bernardo Guimarães em Histórias e tradições da província de Minas Gerais: o mistério do sumiço da cabeça de Tiradentes do poste onde estava exposta à execração pública. Chama-se O poste e num país que vive o eterno presente e esquece sua história, tenho minhas dúvidas de se será um dia encenada.

Se em 35 anos de vida Mozart compôs uma obra mais vasta que a de Beethoven, que viveu muito mais anos, Alexei, em seus 63 anos escreveu uma obra de uma vastidão e variedade digna de um escritor que tenha vivido cento e vinte anos!

Alexei foi uma dessas pessoas que se tivessem nascido na época renascentista teria alcançado uma cultura universal, abrangendo todos os domínios do conhecimento. Mas neste admirável mundo novo onde as descobertas se multiplicam, atualmente só à inteligência artificial é concedido este dom. Mas Alexei não obstante era uma enciclopédia ambulante que você podia consultar sobre um sem-número de assuntos, e dominava profundamente áreas tão diversas como o cinema clássico soviético, o tango, o patrimônio histórico carioca, a poesia francesa do século XIX, a poesia de Camões, etc. etc. etc.

Digno de menção sua maneira de trajar. Alexei era incapaz de trajar um tênis ou uma camiseta. Sempre se apresentava, fosse para uma degustação de charutos, uma reunião festiva com amigos, um lançamento de livro, trajado como as pessoas se trajavam no tempo em que você tinha que usar passeio completo para entrar no Teatro Municipal: sapato de couro (tênis, nem pensar), calça social (a única concessão ao casual era uma eventual jeans), camisa social (nada de camiseta)... sempre impecavelmente vestido (até para visitar o Lazareto de São Cristóvão como na foto abaixo).

É isso que me vem à cabeça quando penso no amigo e intelectual que partiu para The undiscovere'd country, from whose bourn / No traveller returns (Hamlet), como já partiram tantos grandes amigos: Márcio Steinbruch, Helio Brasil... Encerro com esta frase do Joaquim Emídio em seu O MIRANTE: “A sua vasta cultura fazia dele uma figura ímpar na vida cultural brasileira embora vivesse muito à margem da elite literária do país.”


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Visita ao Lazareto de São Cristóvão em 2009. Alexei Bueno foi diretor do INEPAC de 1999 a 2002 e conhecia profundamente o patrimônio cultural e arquitetônico carioca.

POST SCRIPTUM

No último dia 30 de maio, embarcando para Lisboa para dar uma palestra sobre Camões, Alexei escreveu a um amigo em comum: "Estou no Galeão, indo para a Lisboa, para a IX Reunião Internacional de Camonistas. Definitivamente, é a minha última viagem longa, estou de saco cheio das tecnologias deste mundo de merda em que nos despejaram. Não se vê a cara de ninguém, nem para olhar o passaporte! Só geringonças, onde as pessoas trabalharão?!"

   Tenho uma casa, comprei um túmulo,

   Felicidade, chegaste ao cúmulo.

   Aos nove lustros estou completo;
              Um teto é meu, o outro do esqueleto.
              Alexei Bueno, "Conquistas"

Seu velório e enterro foi no histórico Cemitério dos Ingleses, no túmulo da família onde repousam seu avô materno  General João Tarcísio Buenoherói condecorado da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial, na Itália, sobre quem Alexei escreveu um livro  e sua avó Anna Luiza de Mattos Bueno. Um amigo em comum escreveu-me: "Fizemos ontem no Cemitério dos Ingleses uma bela homenagem ao Alexei. Tinha mais de 100 pessoas. O Nireu [Cavalcanti] colocou um livro no caixão. Houve muitos discursos e leitura de poemas. Acredito que o Alexei gostaria da homenagem." Segue uma foto de uma visita ao túmulo em 2011, estando presente o próprio Alexei:

Sobre o Cemitério dos Ingleses (e outros cemitérios cariocas) veja a postagem HISTÓRIA DOS CEMITÉRIOS DO RIO DE JANEIRO neste blog
                                                    
                     Resta-me ser um fantasma,
                     Acolhe-me, pois, qual sombra,
                     Cidade que amo e me assombra,
                     Num tempo que o tempo plasma.
                     Alexei Bueno, "Apelo"

         Se eu plantar um loureiro no meu túmulo 
         Meus pósteros, por certo, arrancar-lhe-ão 
         As folhas para as porem no feijão.
         Para um vate, isto, irmãos, é mesmo o cúmulo!
        Alexei Bueno, "Um senão"

Os poemas ou trechos de poemas aqui citados são de As desaparições, um livro (nas palavras de Alexei) "sobra a morte, a cidade, sobre a decadência que a cerca e nos cerca, sobre o visível e o que não se vê, e sobre a visceral ânsia humana da eternidade". 

E finalmente recomendo a edição do poesia.net em homenagem ao querido Alexei.

2 comentários:

Geraldo Reis Poeta disse...

Pois é... E eu não o conheci pessoalmente. Não troquei uma impressão sobre um determinado assunto, nada, nada. Gostaria, sim, de tê-lo conhecido e a primeira notícia que tive desse gigante foi um comentário de alguém que pareceu-me ter uma "certa inveja" do que ele estava produzindo. Deve ter sido no princípio da década de 90. É de concluir-se, pois, que ele era muito jovem naquele tempo e já mostrava a sua inquietação. Mais do que isso, inquietava. Para mim, que o li principalmente na internet, ele era um dos expoentes da época. Com muita bagagem intelectual, era um que veio para fica. Estou me solidarizando com a família, com os amigos e com a poesia afinal, gênero do qual era um legítimo representante... estou me solidarizando na dor desse passamento quando, muito novo ainda, ele nos deixa. A literatura brasileira está de luto e ele, com certeza, é um que "cumpriu sua missão" de traduzir, criar e emocionar pessoas. Tudo para que o ser humano seja mais humano e cada vez mais sensível. Belíssimo o seu trabalho, Ivo. Merecida homenagem. Tenho certeza de que ela agradecido, tão agradecido como nós, que - através de suas palavras - cuidamos de reverenciar o inesquecível intelectual, escritor e poeta ALEXEI BUENO, orgulho de todos nós e de nosso tempo. BH 27 de junho de 2026. (Geraldo Reis: O Ser Sensível)

rogério marques disse...

Maravilhoso, Ivo. Uma homenagem digna do Alexei, que ao mesmo tempo permite a todos entender sua genialidade. Parabéns!