MONTEIRO LOBATO: O TEMPO E AS INJUSTIÇAS, de HÉLIO BRASIL



O tempo nos rouba as energias. As injustiças nos torturam.

Em particular, já me senti afastado, ignorado, jamais injustiçado. Algum deslize, mesmo involuntário, por certo me fez sofrer a marginalização. Meu caso, porém, não está em pauta. Pretendo um papo com os visitantes e não um muro de lamentações pessoais.

O que me leva ao assunto é a tentativa (ou o esforço) – por algumas vozes - em desqualificar a obra do paulista José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948) com a acusação de racismo. Não tenho “bala na agulha” nem procuração para defesas acadêmicas ou jurídicas. Apresento-me apenas como apaixonado leitor da obra de Lobato, conjunto literário que destacaria em maiúsculas, sem distinguir a “obra infantil” e a destinada aos adultos. A paixão não é boa conselheira, pois nos leva a prejulgamentos ou julgamentos apressados, sendo talvez a fonte principal dos críticos do grande brasileiro.

De fato, integrante da burguesia da primeira metade do século XX, com o eco da escravidão ainda nos ouvidos e nos corações, Lobato (neto de um Barão do império) distinguia nos estamentos sociais a presença da “negra beiçuda” Tia Nastácia e de outras figuras até folclóricas como o “turco” e o “português dos armazéns”. E usava a dura terminologia da época. Hoje, fingimos que a cor da pele não existe. Praquê? Temos que fugir dos estereótipos discriminatórios. Assim, o mundo da forma – que receamos misturar-se ao conteúdo como nas artes do Homem – torna-se perigosamente ignorado. Não existirão mais os “baixinhos” e os “carecas”? As louras e as morenas? Os gordos e os magros?

Bem, o abominável universo da discriminação é perigoso, pantanoso e sempre trouxe acusações e queixas das partes que se sentiram afetadas. E, a meu ver, Lobato está muito acima disto. Não vou sequer relembrar que – na sua livre criação – preconizou em “O Presidente Negro” a ascensão de um negro nos Estados Unidos de épocas passadas. Não digo que foi uma antevisão da chegada de Obama, mas admita-se o toque visionário no trabalho...

Para quem leu os livros do paulista (e brasileiros alfabetizados, acima de 50 anos, certamente o fizeram) a mancha “racista” não existe. Para quem leu, por exemplo, dois de seus belos contos: “Negrinha” e “O jardineiro Timóteo” e para os que na infância e na adolescência leram as aventuras da turma do “Pica-pau Amarelo” vale lembrar um detalhe interessante que me aventuro a recordar e que seus críticos sepultaram.

Quase todos seus personagens, de Dona Benta a Rabicó (o leitão que desposou Emília) são desdobramentos de Lobato. Dois antagônicos e surpreendentemente complementares alter-egos do escritor e que encantam os jovens leitores e dão seus recados aos supostamente “adultos” são a espevitada Emília e o sábio e desajeitado Visconde de Sabugosa. Ela, uma boneca de pano, feita de retalhos e chumaços de paina. Ele criado a partir de um desprezado sabugo de milho, pernas feitas de gravetos. Ambos saíram das mãos da negra Nastácia, foram por ela plasmados, a “grande mãe negra brasileira”.
A Lobato, o preconceituoso, os aplausos por uma obra nacionalista e consagradora. Meu terno respeito e perene gratidão ao brasileiro José Bento Monteiro Lobato.



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MONTEIRO LOBATO FOI RACISTA?

TEXTO E FOTOS (TIRADAS EM TAUBATÉ) DE IVO KORYTOWSKI. Publicado na edição 104 da Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, que pode ser acessada aqui.


Nos últimos anos, na onda do politicamente correto, surgiu a acusação de que Monteiro Lobato teria sido racista. A gente tem que julgar um artista pelo contexto e espírito de sua época. Por exemplo, na peça O mercador de Veneza, Shakespeare cria um personagem, que é o protótipo da imagem do judeu usurário e desalmado vigente naquela época. Por isso vamos tachá-lo de antissemita? Charles Dickens, em Oliver Twist, cria um personagem judeu que explora crianças ensinando-as a roubar. Por que personagem tão negativo tinha que ser justo um judeu? Por que não católico ou hinduísta? Mas não é por isso que vamos tachar Dickens de antissemita e deixar de ler seus livros. 

Aqui no Brasil temos o exemplo do escritor paraense Inglês de Sousa, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, que, no início do seu conto “A Festa do Judeu”, desanca o “Povo Escolhido” com epítetos como “malvado judeu” e “[o] homem que havia pregado as bentas mãos e os pés de Nosso Senhor Jesus-Cristo numa cruz”, mas jamais ocorreu a alguém tachá-lo de antissemita, pois sabemos que ele apenas refletia a visão do judeu na sociedade da época, moldada por séculos de pregação pela Igreja da doutrina da culpa coletiva, com base em Mateus 27:25: “O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”.

Também o grande sociólogo Gilberto Freyre teve, na juventude, uma fase “racista”, e não é por isso que vamos desmerecer o conjunto de sua obra. Em artigo intitulado DA OUTRA AMÉRICA / "NA ARGENTINA" publicado na pág. 3 do Diário de Pernambuco de 31 de outubro de 1920, aos vinte anos, portanto, escreveu Freyre: “Algumas das páginas mais interessantes do livro do Sr. Lima são as dedicadas ao problema da raça na Argentina. Parece que nesse ponto a República do Prata leva decidida vantagem sobre os demais países americanos. Em futuro não remoto sua população será praticamente branca. Tão inferiores em número à caudalosa maré caucásica são os elementos de cor que o processo de clarificação da raça argentina será relativamente breve, fácil e suave.”

Acusam Lobato de, em sua caracterização da Tia Nastácia, ter sido racista. Acusam-no também de ter sido partidário da eugenia, e acusam o seu único romance, O presidente negro, de racista. Mas esquecem que em seu conto magistral intitulado “Negrinha” Lobato faz uma denúncia pungente dos maus-tratos infligidos a uma menininha de raça negra. Um racista de verdade jamais teria escrito um tal conto. 


A Tia Nastácia realmente é caracterizada como uma negra beiçuda e, a certa altura de Reinações de Narizinho, Pedrinho revela que ela tinha vergonha de ser preta. “Tia Nastácia não sei se vem. Está com vergonha, coitada, por ser preta.” Mas a gente tem que entender o contexto da sociedade da época. A escravidão havia sido abolida poucas décadas antes. Os negros libertados não receberam nenhum tipo de indenização, e tampouco receberam instrução. Quando escravos não frequentavam escolas, e depois de libertos o sistema educacional levou décadas até absorvê-los. Em meados do século XX metade da população brasileira ainda era analfabeta, e entre estes analfabetos havia uma forte proporção de negros. Na época em que Lobato escreveu suas obras, embora alguns negros já tivessem se destacado na sociedade, como os engenheiros irmãos Rebouças, ainda eram exceções. Não existia uma classe média negra. 

E essa fantasia do negro querer ser branco não é tão estranha quanto se afigura. Macunaíma, o herói sem caráter, criação genial de Mário de Andrade, também nasceu preto mas, ao se banhar numa água encantada, transformou-se em “branco louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele”. E nos próprios países africanos na atualidade não são incomuns os cosméticos de branqueamento da pele. A Organização Mundial de Saúde adverte que os tratamentos para embranquecer a pele praticados na África podem causar graves doenças como a gente lê no artigo “Paying a high price for skin bleaching” publicado na Africa Renewal de abril-julho de 2019. 

Lobato, em uma de suas cartas para Godofredo Rangel (7/2/1912), publicadas em A Barca de Gleyre, refere-se com carinho à tia Anastácia, a “preta que eu trouxe de Areias”, ama de seu filho Edgard, na qual decerto se inspirou para criar a tia Nastácia: “Excelente preta, com um marido mais preto ainda, de nome Esaú”. Ainda sobre Anastácia, em entrevista a Silveira Peixoto no final dos anos 30, incluída no livro Prefácios e Entrevistas, diz Lobato: "Uma preta alta, muito boa, muito resmunguenta, hábil quituteira... Tal qual a Anastácia, ou a Tia Nastácia dos livros" E em outra de suas cartas para Godofredo Rangel (27/6/1909), escreve: “Eu gosto muito dos negros, Rangel. Parecem-me tragédias biológicas. Ser pigmentado, como é tremendo!” Em 10 de janeiro de 1917, escreve: “Consulte os negros velhos daí, porque já notei que os negros têm muito melhores olhos que os brancos. Enxergam muito mais coisas.” 

Existe o outro lado da moeda, passagens em que fala depreciativamente dos negros, mas são poucas, numa correspondência que durou quarenta anos. “A minha ideia do porão falhou, porque uma criada ocupa a repartição próxima, e como é preta põe lá um bodum pior que o barulho da sala.” (carta a Godofredo Rangel de 30/7/1910) “A Capital [...] publicou umas tantas infâmias sobre o nosso grande morto [poeta Ricardo Gonçalves], escritas em língua de negra suja” (29/10/1916) “O negrinho aluno está uma pura maravilha; conheço uns tantos desses pretos de pastinha, brancos por dentro, pretos só por fora.” (6/2/1915) Parece absurdo mas na época, assim como alguém pão-duro era chamado de “judeu” (os dicionários consignam este uso, por exemplo, o Houaiss: “pessoa usurária, avarenta”), usava-se a expressão “preto de alma branca” para um negro com características consideradas mais típicas da população branca. 

É bem verdade que, em carta de 3/2/1908, quando Lobato tinha 25 anos, existe um trecho na primeira edição fortemente racista, tanto é que foi eliminado das edições subsequentes:

Que contra-Grécia é o Rio! O mulatismo dizem que traz dessoramento do caráter. Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas — todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português da maneira mais terrível – amualatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. [...]

Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problemas terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!...

Talvez a salvação venha de São Paulo e outras zonas que intensamente se injetam de sangue europeu. Os americanos salvaram-se da mestiçagem com a barreira do preconceito racial. Temos também aqui essa barreira, mas só em certas classes e certas zonas. No Rio não existe” 

Por outro lado, Lobato sente uma afinidade pelo povo. Luta em vão contra a burocracia e a ditadura Vargas para trazer o ferro e petróleo ao país, modernizando-o. No pós-Segunda Guerra Mundial, simpatiza com o socialismo soviético, como revela ao repórter Tulman Neto do Diário de São Paulo em entrevista publicada em Prefácios e entrevistas: “O quase certo [...] é a passagem da Ordem Social Capitalista para a Ordem Socialista, mais ou menos como na Rússia.”  Em carta de 15 de julho de 1915 para Godofredo Rangel, escreve: “A burguesia não tem alma. Educação e riqueza são máscaras de desindividualização. Que delícia nadar nas ondas da plebe, como num mar!... Como Gorki nadava...” Em carta de 7/12/1916, escreve: “O caboclo parece-me hoje açúcar refinado perto do açúcar preto que são os urupês citadinos de gravata. Que pulhas!” Carta de 17/4/1917: “A nossa imbecilização é das mais curiosas: vem de cima para baixo, e decresce quando chega ao povo. Quanto mais conheço os paredros [=manda-chuvas], mais admiro o equilíbrio, a sensatez, a sanidade mental destes meus bons caboclos da roça.”

Se fosse verdadeiramente racista, Lobato não elogiaria nestes termos o mulato Lima Barreto, na época vítima de preconceito: “Conheces Lima Barreto? Li dele, na Águia, dois contos, e pelos jornais soube do triunfo do Policarpo Quaresma, cuja segunda edição já lá se foi. A ajuizar pelo que li, este sujeito me é romancista de deitar sombras em todos os seus colegas coevos e coelhos, inclusive o Neto. Facílimo na língua, engenhoso, fino, dá impressão de escrever sem torturamento – ao modo das torneiras que fluem uniformemente a sua corda-d’água.” (Carta de 1o de outubro de 1916 a Godofredo Rangel) Aliás, Monteiro Lobato, à frente da Editora Revista do Brasil, publicou uma obra de Lima Barreto, Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, um total fracasso de vendas, que Lobato atribuiu ao título, pouco convidativo.

O primeiro livro que Lobato publicou, baseado em série de reportagens para O Estado de São Paulo, intitulado O Saci-Pererê: resultado de um inquérito (1918), é sobre a lenda do saci, que depois deu origem a um de seus livros da série infanto-juvenil. Um escritor racista estrearia em livro com uma lenda da cultura negra?

Por todos esses motivos eu acho um exagero a gente querer tachar o Lobato de racista por ter criado a tia Nastácia da maneira como criou. A própria caracterização dela é ambígua. No livro Histórias de Tia Nastácia ela é a figura principal e, bem no início, observa Pedrinho que “Tia Nastácia é o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando, de um para outro, ela deve saber. Estou com o plano de espremer Tia Nastácia para tirar o leite do folclore que há nela.” E pouco depois Pedrinho diz: “As negras velhas são sempre muito sabidas.” Isso é ser racista? É bem verdade que a certa altura do livro (na história “O Macaco, a Onça e o Veado”), quando Nastácia observa que “A sina dos carneiros é a panela”, Emília reage com estas palavras: “Bem se vê que é preta e beiçuda.” Mas Emília é uma boneca insensível, desbocada, que não respeita ninguém. No início de Viagem ao Céu, quando Emília diz que “negra velha não tem direito de repousar”, Pedrinho chama sua atenção: “Malvada! Quem neste sítio tem mais direito de descansar do que ela, que é justamente quem trabalha mais? Então negra velha não é gente?”. E o narrador, Lobato, usa com frequência a designação “a boa negra”. Com seus dotes culinários conquista não só os humanos, mas também São Jorge, o Minotauro e o anjinho da Viagem ao Céu: “Quando eu havia de pensar que até os santos e os anjos haviam de comer os meus bolos fritos?“ 

Como bem lembra o escritor Helio Brasil, em "O Tempo e as Injustiças" (que você pode ler aqui), a espevitada Emília como o sábio e desajeitado Visconde de Sabugosa “saíram das mãos da negra Nastácia, foram por ela plasmados, a ‘grande mãe negra brasileira’.”

Quanto ao fato de Monteiro Lobato ter sido partidário da eugenia, quero lembrar que originalmente se tratou de um movimento que se acreditava científico, assim como o marxismo, a frenologia e a psicanálise também se acreditavam científicos (hoje sabemos que não são). Seu objetivo básico era a melhoria da raça humana em geral, no sentido de eliminar a transmissão de doenças sabidamente hereditárias, embora como corolário combatesse a mestiçagem e defendesse o branqueamento da população. Em prefácio ao livro Bioperspectivas do ativista pró-eugenia Renato Kehl, assim Lobato a define: “aplicação da ciência para melhorar o mau animal humano". O próprio Kehl assim a define no Boletim de Eugenia no 4 de abril de 1929: “A eugenia tem por fim cooperar para o aumento progressivo dos homens física, psíquica e moralmente sadios; para a diminuição paulatina do contingente dos fracos, doentes e degenerados, – concorrendo, desse modo, para a constituição de uma sociedade mais sã, mais moralizada, em suma, uma humanidade equilibrada, composta de indivíduos fortes e belos, elementos de paz e de trabalho.” É verdade que a ideia degenerou no delírio da raça pura do Hitler, mas não é incomum boas ideias degenerarem em ideias péssimas, por exemplo, a ideia do amor universal de Jesus Cristo degenerou na caça às bruxas e guerras de religião, e a ideia da sociedade sem classes de Marx degenerou na barbárie stalinista. Muita gente boa foi partidária da eugenia, não só Monteiro Lobato, por exemplo Miguel Couto e Roquette-Pinto. O próprio João Ribeiro, intelectual acima de qualquer suspeita, simpatiza com as Lições de Eugenia de Renato Kehl (Boletim de Eugenia, 6-7, junho-julho de 1929, p. 6). Por outro lado, Lobato não foi um ativista histérico, um fanático da eugenia, apenas um simpatizante. Não escreveu artigos para defender explicitamente a eugenia. Não colaborou com o Boletim de Eugenia, porta-voz do movimento que circulou de 1929 a 1932, sequer é mencionado lá. Em sua correspondência com Godofredo Rangel que se desenrolou por um período de quarenta anos e onde ele abria seu coração, a palavra “eugenia” não ocorre nenhuma vez. Já “progresso(s)” ocorre dez vezes.

Quanto a O presidente negro, é uma obra futurista à maneira das obras de H. G. Wells que Lobato pretendia lançar nos Estados Unidos para ganhar muito dinheiro, plano esse que saiu pela culatra. Podemos dizer que foi o grande equívoco literário de Lobato – afinal, ninguém é perfeito. Assim descreve o autor sua trama em carta a Rangel:

Uma ideia-mãe! Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos. Já comecei e caminha depressa. Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente preto! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio dos raios N, inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes deem pela coisa. (carta de 8 de julho de 1926)

Um romance racista, sim, escrito para uma sociedade então notoriamente racista, imaginando o que aconteceria se a população negra dos Estados Unidos superasse numericamente a população branca. É como se tentássemos imaginar hoje como seria Israel se a população árabe ultrapassasse a judaica. Um exercício de futurologia. Desiludido por não encontrar editor em terras de Tio Sam, Lobato desabafa para Rangel: “Meu romance não encontra editor. Falhou a Tupy Company. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa esse povo, coletivamente, cometer a sangue-frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.” Segundo Edgard Cavalheiro, biógrafo de Lobato, o fracasso deveu-se ao fato de o romance tocar em tema tabu,  “falar de corda em casa de enforcado” (Monteiro Lobato, vida e obra, p. 341).

O presidente negro constitui hoje a principal peça de acusação na tentativa de incriminar Lobato como tendo sido racista. Até certo ponto Lobato foi racista, sim. Muita gente boa na época foi racista. Euclides da Cunha foi. A expressão “raça superior” figura quatro vezes em Os Sertões, por exemplo: “A mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos estigmas da inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso.” (Cap. II, O VAQUEIRO). A intelectualidade era racista como hoje é socialista, e olhem quantas barbáries se cometeram em nome do socialismo! 

Querer boicotar Lobato devido ao seu racismo é injustiça cometida contra um homem tão patriota que, na luta para modernizar o país e implantar as indústrias do petróleo e do ferro, tirando assim o Jeca Tatu da miséria, entrou em choque com a ditadura Vargas e foi parar na prisão. Francamente, Monteiro Lobato tem tantas qualidades e tão poucos defeitos, mas nós, brasileiros, sofremos de “complexo de vira-lata” e, agraciados com um escritor de literatura infanto-juvenil da sua magnitude – escritor este que, se tivesse escrito em inglês, francês ou alemão hoje seria internacionalmente conhecido, seu Sítio do Picapau Amarelo transformado em desenhos animados e musicais – em vez de o valorizarmos e de nos orgulharmos dele, procuramos seus defeitos.

Cresci lendo as obras de Monteiro Lobato e confesso que, na inocência da infância e adolescência, jamais detectei sinais de racismo, embora agora adulto eu consiga perceber que ao menos a espevitada e politicamente incorreta personagem Emília tem lá seus arroubos racistas. Lobato é um autor de uma imaginação estonteante, e acredito que, se adotado no nosso ensino, o nível cultural de nossa juventude daria um salto de qualidade. Lobato aborda a mitologia, o folclore, a literatura clássica, a geografia, a astronomia, a gramática, a aritmética, história do mundo, história das invenções, exploração do petróleo, o diabo a quatro. Creio também que, se tivesse escrito numa língua universal, como o inglês ou francês, suas obras virariam desenhos animados de sucesso internacional e o Sítio do Picapau Amarelo tornar-se-ia parque temático. Claro que tudo isto são meras especulações. Caso discorde do meu ponto de vista (ao contrário dos esquerdistas, não sou dono da verdade) deixe seu comentário.

E, last but not least, para dar uma ideia da criatividade de Lobato, transcrevo um diálogo da Emília e Dona Aranha, costureira, em Reinações de Narizinho:


– Mas quem é que fabrica esta fazenda, Dona Aranha? [...]
– Este tecido é feito pela fada Miragem – respondeu a costureira.
– E com que a senhora o corta?
– Com a tesoura da imaginação.
– E com que agulha o cose?
– Com a agulha da fantasia.
– E com que linha?
– Com a linha do sonho.

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REVISITANDO A OBRA DE HERBERTO SALES, de CARLOS HEITOR CONY

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA FOLHA DE SÃO PAULO DE 28 DE OUTUBRO DE 2005


Publicado em 1944, quando Herberto Sales tinha 27 anos, "Cascalho" é o imenso romance que logo se colocou ao lado das grandes obras do nosso ciclo nordestino, iniciado com José Américo de Almeida e prolongado por Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado e Rachel de Queiroz.


Morando em Andaraí, na região da Chapada Diamantina, Herberto correspondia-se com Marques Rebelo, mas nunca comunicou-lhe que estava escrevendo um romance. Com mais de 650 páginas, enviou o livro a um concurso coordenado pela "Revista do Brasil", da qual Aurélio Buarque de Holanda era secretário. Na obsessão de catar regionalismos, Aurélio examinou o original e surpreendeu-se com a qualidade do texto. Sendo vizinho de Marques Rebelo, com ele comentou a obra que estava lendo. Ficou admirado ao saber que o autor de "Marafa" correspondia-se com o autor.

Herberto decidira encerrar a carreira literária que sequer começara. Juntara gravetos no quintal da casa de sua família, rasgara em quatro partes as 650 páginas da cópia que lhe restara. Queimara tudo. Aurélio sabia que o original enviado ao concurso seria jogado fora e decidiu ficar com ele, a fim de catar os vocábulos regionais que mais tarde enriqueceriam seu dicionário.

Quando Herberto escreveu a Rebelo, comunicando-lhe que queimara a cópia única do livro, foi surpreendido com a revelação de que o original continuava com Aurélio. Não foi difícil encontrar uma brecha no mercado editorial da época.

A consagração seria imediata. O ciclo do romance regional ganhava novo espaço em nossa geografia literária. O cenário não era mais a Várzea do Paraíba, os engenhos e as bagaceiras de José Lins do Rego e José Américo de Almeida. Tampouco era o litoral baiano, águas encantadas por sereias, o chão coberto pelos frutos cor de ouro do cacau, os territórios mágicos -mar e terra- que ganhariam o mundo na obra de Jorge Amado.

Nem era a seca que afugentava homens e animais pelas caatingas, o flagelo que daria a Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz o ponto de partida para suas carreiras. Em "Cascalho", a fortuna e a maldição estão no ventre da terra. A lenda dos diamantes, fartos e encontrados até nas moelas das galinhas, na prodigalidade dos aluviões ribeirinhos, atraíam homens e mulheres, velhos e crianças. Véspera da fortuna imprevista, a miséria permanente acampava no decadente burgo excluído da civilização, povoado de fantasmas sacrificados na dura moenda dos diamantes e carbonados. A releitura do primeiro livro de Herberto Sales dá a sensação de um anúncio de Guimarães Rosa com seu universo vocabular e sua técnica inovadora.

Em "Além dos Marimbus", o livro seguinte, o cenário é o mesmo, mesma a região já exaurida pelas bateias dos faiscadores. A causa da miséria não é mais o diamante. É a madeira que, nos anos 20 e 30, já atraía a cobiça que devastava florestas e matas. Inovando o gênero com a técnica e a linguagem de seu primeiro livro, Herberto surpreende o leitor de hoje com a visão pioneira da ecologia que, naquele tempo, não entrara ainda no vocabulário e na preocupação do homem contemporâneo.

Até então, a abordagem crítica via nele mais um regionalista, do porte dos grandes nomes da safra nordestina que emergira na década de 30. O livro seguinte, "Dados Biográficos do Finado Marcelino", é um romance urbano numa Bahia que iniciava seu período de metrópole nordestina.

Poderia ter sido este o primeiro romance de Herberto, pois trata dos anos de formação em que o jovem provinciano chega à cidade grande. Ele mergulha na sociedade do incipiente capitalismo nacional, criando uma galeria de tipos que, mais tarde, se tornariam comuns na novelística brasileira.

Surge, então, na vida e na carreira de Herberto Sales, a figura magra e saborosa de José Cândido de Carvalho. Na virada dos anos 40 e 50, deram dimensão nova à formidável geração nascida nos anos 30. Dataria deste período o aparecimento do contista. Um de seus livros, "O Lobisomem e Outros Contos Folclóricos", foi a homenagem de Herberto a seu companheiro José Cândido de Carvalho, que estourara no cenário nacional com o antológico "O Coronel e o Lobisomem".

A despeito de sua obra, vasta e consagrada, traduzida em inglês, japonês, francês, polonês, italiano, tcheco e chinês, tendo o seu romance de estréia adaptado para o cinema e para a história em quadrinhos, Herberto isolou-se da vida literária.

Retirou-se para São Pedro da Aldeia, no litoral fluminense, onde reencontraria nas mangueiras que plantou e nas flores que semeou uma espécie de retorno ao seu Andaraí natal. Escreveria ainda uma série de confissões e memórias a que daria o estranho nome de "Subsidiário". Temos aí o homem Herberto Sales diante de si mesmo, atravessando a escura noite da alma. Suas anotações revelam o desencanto do escritor penetrado pela inexorabilidade do fim.

Olhando em volta, da altura humana e intelectual a que atingira, lamentando seus mortos, evocando seus fantasmas, o memorialista adota uma visão amarga, mas de vigorosa dignidade perante o mundo que viu e a vida que viveu.

PEDRO NAVA E OS MEANDROS DA MEMÓRIA


O TEXTO ABAIXO É O MESMO DO VÍDEO ACIMA

Não sei até que ponto você está familiarizado com a vida e obra do escritor Pedro Nava. Não é dos escritores mais badalados, nem daqueles que “caem” no ENEM, mas é (uso o tempo presente porque os escritores se eternizam com suas obras) um escritor extraordinário que, na época em que publicou seus livros (anos 1970 e início dos anos 1980), fez grande sucesso de crítica e público, inclusive chegando às listas de best-sellers, devido à originalidade de sua obra, diferente de tudo que já se escrevera antes no Brasil. 



Naquela época, embora eu fosse leitor contumaz, o Nava passou despercebido para mim. Só travei conhecimento com ele ao ler no jornal a notícia de seu suicídio, por motivos então misteriosos, com um tiro na cabeça, em maio de 1984, próximo a uma das árvores da calçada da Rua da Glória, onde morava. As informações no obituário sobre sua obra despertaram minha curiosidade, e a partir de então me tornei leitor de seus livros de memórias. Originalmente publicados pela José Olympio, com capas bem coloridas usando colagens do autor, depois seus direitos passaram para a Nova Fronteira, com capas mais clean mostrando o famoso relógio da Glória. O problema era que a Nova Fronteira “esqueceu” de publicar o volume 3, Chão de Ferro, e com isso a edição original pela José Olympio tornou-se rara, eu não achava nos sebos de jeito nenhum. Na época não tinha a Estante Virtual onde você acha tudo. Acabei tendo que implorar numa biblioteca que me xerocassem a obra. Pois é, leitor inveterado como eu faz qualquer sacrifício para ler seus autores favoritos. Hoje os direitos de publicação da obra de Nava, depois de passarem pela Ateliê Editorial, estão com a Companhia das Letras.




Outra coisa: com a morte de Nava, brotaram rumores de que ele estaria sofrendo chantagem de um garoto de programa. No final do vídeo falarei sobre isso.

A obra de Nava é monumental em vários aspectos. Primeiro, no escopo temporal, no intervalo de tempo abrangido. Começa contando a história de seus antepassados, o mais antigo, o tataravô por parte do pai, oriundo da Itália, que “teria aportado no Brasil no fim do séc. XVIII ou princípios do XIX. A crônica da família de Nava, tanto por parte do pai como da mãe, desenrola-se século XIX adentro, até o nascimento do escritor em 1903. Os anos da infância, adolescência e início da vida adulta, na Faculdade de Medicina , são contados em primeira pessoa, como é normal em livros de memórias. Mas no primeiro capítulo do Volume V, Galo das trevas, Nava dá um salto temporal e traz a narrativa para o tempo presente, em que ele, com 75 anos de idade (1978), à semelhança de Xavier De Maistre em sua “Viagem à Volta do Meu Quarto”, resolve fazer uma volta pelo seu apartamento, com todas as reminiscências associadas aos seus objetos. Depois desse “jorro de emoções”, Nava retorna ao passado, à época em que iniciou sua carreira médica, mas agora projetando-se em um primo fictício, o Egon, cuja vida (que no fundo é a vida do próprio Nava) conta em terceira pessoa.

A obra de Nava também é monumental na riqueza temática, vocabular & estilística. Em seus livros de memórias Nava tem por característica mesclar fatos pessoais, perfis de terceiros, descrições de locais, acontecimentos históricos, narrações de episódios, reflexões, desabafos etc. numa espécie de fluxo de memória proustiano e num estilo que pode ir do factual à prosa poética. Não é uma leitura fácil como um Paulo Coelho, o que não significa que seja homogeneamente difícil, difícil do primeiro ao último parágrafo, como é, por exemplo, um Grande Sertão e Veredas do Guimarães Rosa que já começa “ilegível”. Não, a obra de Nava tem altos e baixos em termos de dificuldade. Tem desde divagações de uma poeticidade exacerbada (tipo: “O caminho por Bernardo Monteiro era repousante como banho de imersão nas sombras verdes aquários de seus fícus gigantescos. Tal impressão líquida é tão grande que se estranhava quando ave esvoaçava entre galhos raios de sol – entre molezas de algas. Não vê? se esperava é peixes deslizando...” Galo, 346) até causos e anedotas e historinhas que a gente lê com extremo prazer e deleite.

São interessantíssimas também as descrições do Nava da passagem do cometa Halley quando criança, os estragos provocados pela gripe espanhola em 1918, o bombardeio de São Paulo na Revolução Constitucionalista. E com suas descrições da vida escolar, cheias de detalhes sobre os colegas, as matérias, os professores, as provas, a cola, a indisciplina, os castigos, Nava nos proporciona um inventário precioso do sistema educacional brasileiro na segunda década do século XX, comparável apenas, guardadas as devidas proporções, ao clássico O Ateneu de Raul Pompéia.

Outro aspecto em que a obra de Nava é monumental é no tamanho. São seis volumes completos e um sétimo volume que, com sua morte, ficou inacabado, perfazendo 2651 páginas, mais do que Os Miseráveis, que é um romance de peso. É monumental ainda pela erudição: no decorrer da obra ostenta conhecimentos de artes plásticas, literatura, arquitetura, medicina, história, francês etc. Além disso tudo, Nava é conhecedor profundo do Rio de Janeiro e, à maneira de um João do Rio, em alguns trechos de sua obra, conduz o leitor pela alma encantadora de suas ruas. Diz ele: “Flanar nas ruas do Rio é prazer refinado. Exige amor e conhecimento. Não apenas o conhecimento local e o das conexões urbanas. É preciso um gênero de erudição.” (Galo)


Para quem nunca leu o Pedro Nava eu recomendaria começar pelo volume II, Balão Cativo, que narra a infância e adolescência do autor no Rio e Minas Gerais, depois passar para o III, Chão de Ferro, época em que ele cursou o internato do Pedro II no Rio e passava as férias em Minas, e só depois, tendo se tornado fã do Nava (espero), retroceder para o volume I, a história dos antepassados, e avançar para os volumes seguintes.

A relação entre o Nava e o escritor francês Proust é muito bem explicitada em crônica do Antônio Carlos Villaça cujo link está na descrição deste vídeo. Villaça conta que em Belo Horizonte em 1925 Nava foi um dos primeiros, de sua patota de estudantes e intelectuais, a lerem a obra de Proust, pouco depois da morte do romancista em 1922. Diz Villaça na crônica: “O seu memorialismo é ostensivamente proustiano. Proustiano pelo estilo, pelo ritmo interior, pela identificação total entre ele e o autor de A procura do tempo perdido. Proust marcou Pedro Nava para sempre.” O que não significa que quem goste de Proust vá necessariamente gostar do Nava, e vice-versa. Eu por exemplo adoro Nava mas, aos 68 anos, ainda não amadureci para conseguir apreciar a prosa divagante do Proust. 

Existem escritores que florescem na juventude (alguns para viverem vidas breves, como os poetas românticos brasileiros, Castro Alves, Álvares de Azevedo, etc.), enquanto outros escritores só despontam, ficam famosos, na maturidade – caso do lusitano Saramago e do nosso Pedro Nava, que começou a escrever seu primeiro livro de memórias em 1968, com 64 anos. Mas quando estudante de medicina em Belo Horizonte na década de 1920, Nava conviveu com a turma dos intelectuais modernistas (foi amigo de Drummond, por exemplo) e colaborou com revistas literárias, onde publicou poemas de elevada qualidade, a ponto de terem sido incluídos na antologia de poetas brasileiros bissextos organizada por Manuel Bandeira. Nava poderia perfeitamente ter seguido uma carreira nas letras ou artes plásticas, mas acabou se dedicando, durante quarenta anos, à profissão médica, tornando-se um destacado reumatologista. Mesmo assim, não parou totalmente de escrever, publicando artigos médicos e até um livro sobre a história da medicina no Brasil. E quando se aposentou e todos acharam que iria fazer o que fazem muitos aposentados – jogar dominó na pracinha, essas coisas  – surpreendeu a todos dando à luz, volume após volume, suas extraordinárias memórias. Segundo Josué Montello, Pedro Nava “era um grande romancista, talvez o maior de sua geração, mas disso só se deu conta, já perto dos 70 anos, quando se lembrou de escrever suas Memórias.” (JB, 22/5/84, p. 11) Segundo Drummond, “Não há notícia de outro escritor que haja esperado 50 anos de vida consciente para se lançar, nem tampouco de alguém que conquistasse logo a unanimidade das admirações.” (JB, 15/8/84)


Outro mistério de Nava é sua memória prodigiosa. Aos setenta anos descreve em mínimos detalhes, aposentos, parentes, professores, amigos, logradouros, um matadouro, que ele viu cinquenta, sessenta anos antes, como se tivesse visto no dia anterior. Pelos objetos que foi acumulando ao longo da vida – cartas, manuscritos, desenhos, lembranças escolares, papéis variados, retratos, vestuários etc. – que hoje fazem parte do acervo do Arquivo-Museu da Literatura Brasileira da Casa de Rui Barbosa (seu arquivo contém 6.110 documentos), tem-se a impressão de que Nava se preparou a vida inteira para um dia escrever suas memórias. Além desses objetos evocadores das lembranças, Nava, exímio desenhista, fez croquis, plantas, desenhos, caricaturas etc. que serviram de suporte visual ao seu trabalho literário.

Finalmente a questão do suicídio. O colunista José Carlos Oliveira assim descreveu a morte do escritor em crônica no JB de 25 de maio de 1984: “Aos oitenta anos, numa noite de sábado igual às outras, encostado numa árvore, Pedro Nava escreveu com silêncio e solidão, dentro do estampido de um tiro de revólver, o ponto final de sua trajetória aqui neste mundo das realidades concretas.” Correu a fofoca de que ele estaria sofrendo chantagem de um “garoto de programa”, mas os jornalistas aos quais chegou essa informação resolveram abafá-la, em respeito ao grande escritor e talvez para poupar a viúva desse constrangimento. Somente anos depois, em seu livro Minhas histórias dos outros, Zuenir Ventura reabre esse dossiê e revela o pacto de silêncio da imprensa em 1984 envolvendo a morte de Nava. Apesar desse episódio lamentável, em nenhum ponto de suas memórias Nava deixa transparecer qualquer inclinação homossexual. Ao contrário, suas paixões, algumas delas não correspondidas, sempre são por mulheres. No Galo das Trevas lemos sobre Egon (que é o Nava): “Ele que era um tarimbado na vida grossa dos estudantes de Belo Horizonte, que desde moço fora audacioso e chegador em matéria amorosa...”. Entre as várias paixões está a “amada bela Amabel”, filha de um senador, a quem Egon sequer tem coragem de se declarar. E Nava não tem o menor pudor em descrever suas idas, com os amigos, primeiro bem novinho à zona do meretrício no Rio de Janeiro e mais tarde, como estudante e médico recém-formado, aos puteiros do Desterro (que na verdade é Juiz de Fora) e Belo Horizonte. Em Galo das Trevas dedica páginas e páginas descrevendo bordéis nos mínimos detalhes, seus frequentadores, as putas, taras de que até Deus duvida... um homossexual não entraria nesses detalhes sobre a putaria. No máximo Nava foi bissexual, algo que muita gente é mas ninguém fica sabendo, porque o bissexual normalmente, podendo optar entre as duas vias, escolhe aquela socialmente mais aceita, e só eventualmente, num surto de luxúria, é que vai experimentar o outro lado, geralmente com um travesti.

PEDRO NAVA, crônica de ANTÔNIO CARLOS VILLAÇA

TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA PÁG. 9 DO PRIMEIRO CADERNO DO JORNAL DO BRASIL DE 26 DE ABRIL DE 1993

Pedro Nava estaria fazendo, breve, 90 anos. Inesquecível Pedro Nava. Um dos maiores memorialistas do Brasil, ao lado de Helena Morley, Afonso Arinos, Gilberto Amado ou Thiers Martins Moreira com o seu O menino e o palacete.

Nava estreou tarde, quase no limiar da velhice lépida. Dividiu a vida entre o consultório, a cátedra, o hospital, a policlínica. E a leitura. Porque foi sempre um grande leitor literário. Em Belo Horizonte, por volta de 1925, foi ele o primeiro do grupo modernista a ler a obra de Marcel Proust, que chegava às montanhas de Minas, pouco depois da morte do romancista.

Esse encontro com Proust foi decisivo. Os dois autores que mais o impressionaram foram Euclides da Cunha e Proust. Pois Pedro Nava pertence decididamente e declaradamente à categoria dos escritores ricos, frondosos, farfalhantes. A sobriedade de Machado não era o seu caminho, ao contrário de Graciliano e Drummond, seu companheiro de juventude.

Nava morou a maior parte da vida aqui no Rio. Morou nesta cidade definitivamente desde 10 de março de 1933. Ele próprio nos confessa com aquela sua precisão deliciosa e perfeita que residiu 20 anos em Minas, dois no Oeste Paulista, numa aventura da mocidade, e o resto no Rio. Morou em Visconde de Figueiredo, Aristides Lobo, Haddock Lobo, São Cristóvão, Copacabana, Urca, Ipanema, Laranjeiras, Glória.

Viveu na Glória, no mesmo apartamento [no prédio da foto abaixo], desde o dia 28 de junho de 1943. E na Glória, em plena rua, morreu.

É impressionante o número de escritores nascidos em Juiz de Fora, como Pedro Nava, Murilo Mendes e Silva Melo, Rubem Fonseca e Raquel Jardim, Cleonice Rainho e Gilberto de Alencar, Fernando Gabeira e Belmiro Braga. E mais Rute Bueno, Cosette de Alencar, Rangel Coelho, Henrique José Hargreaves, o filósofo tomista, discípulo de Maritain, de Kierkegaard, Wilson de Lima Bastos e Regina Hargreaves, autora de O diário do sol, que tanto entusiasmo provocou em Sobral Pinto.

O memorialismo brasileiro tinha duas vertentes nítidas. A de Nabuco e de Afonso Arinos, claramente romântica, que se inspira em Chateaubriand, com as Memórias de além-túmulo. E a de Graça Aranha e de Gilberto Amado, o impressionismo dionisíaco. Pedro Nava não pertence a nenhuma dessas vertentes.

O seu memorialismo é ostensivamente proustiano. Proustiano pelo estilo, pelo ritmo interior, pela identificação total entre ele e o autor de A procura do tempo perdido. Proust marcou Pedro Nava para sempre.

Prédio na Glória onde residiu Pedro Nava

Sobretudo, um retratista. Descreve o físico das pessoas e passa agilmente para o retrato psicológico, em que é mestre. E sabe descrever as cidades. No Galo das trevas, seu quinto volume, há um passeio maravilhoso pelas ruas da Glória, verdadeira obra-prima. O quarto volume é um retrato de Belo Horizonte (onde estudou a sua medicina). Concretude saborosa. Vemos a rua da Bahia do tempo de Pedro Nava mocinho.

A verdade é que Nava rapaz era excelente desenhista. E se tornou mestre na arte de retratar, quando se fez memorialista, na curva dos 70 anos. A sua obra não tem igual. Vai da genealogia minuciosa do Baú de ossos, primeiro volume das Memórias, à incrível liberdade criadora do Galo das trevas, quando Nava, maduro, solta-se inteiramente à vontade, sem nenhuma cerimônia, com uma franqueza desabusada de espeleólogo audaz.

Pois não tem medo de nada. Nenhuma palavra assusta. Nenhuma realidade o inibe. Capta o movimento da vida. Desce fundo na mina humana. Como um perscrutador insaciável. Que analista meticuloso. Que inventariante preciso. Tudo nele é abissal e trágico.

Vejo em Nava pessimismo e cepticismo. Um pessimismo filosófico, à maneira de La Rochefoucauld, certa melancolia diante do humano, como em La Bruyère, com toda a sua paixão dos caracteres. Um fundo jansenista.

Há em Pedro Nava o cepticismo filosófico, o experimentalismo científico e a volúpia da palavra, o senso da exatidão. E, sempre, um espírito boêmio, que o leva a confessar (numa página soberba) que “flanar nas ruas do Rio era prazer refinado” [ver ARTE DE FLANAR PELO RIO].

A consciência da corrupção da natureza humana, que o acompanha, não o tornou seco. O memorialista surgiu quando ninguém o esperava, como uma espécie de torrente impetuosa. Ou de incêndio. Ou de vulcão. Os seus seis volumes de Memórias foram uma explosão de autenticidade perturbadora.

Nava passou de bissexto a contumaz. Era já conhecido e admirado como poeta bissexto, sobretudo pelo grande poema O Defunto [sobre o qual fiz um vídeo que você pode ver aqui], que, junto com A cachorra, de Pedro Dantas, é uma obra-prima de nossa poesia bissexta. Manuel Bandeira o incluiu na sua Antologia famosa dos poetas brasileiros bissextos, isto é, não-contumazes. Nava navegante.

Placa no prédio da Glória onde morou Pedro Nava

VEJA TAMBÉM MEU VÍDEO "PEDRO NAVA E OS MEANDROS DA MEMÓRIA":

DIFERENÇA ENTRE DEÍSTA, TEÍSTA, ATEÍSTA, AGNÓSTICO E GNÓSTICO



Em relação à questão da existência de Deus, existem cinco posições possíveis. O deísta acredita que se chega a Deus pela razão, pelo argumento lógico (as clássicas "provas da existência de Deus"). O teísta acredita no Criador com base na fé. O ateísta ou ateu nega sua existência, preferindo acreditar nos mecanismos naturais (Big Bang, seleção natural). O agnóstico reconhece nossa limitação cognitiva para decifrar o enigma e fica "em cima do muro", não nega nem afirma a existência do Criador, muito pelo contrário. E o gnóstico acredita que só se chega a Deus por uma experiência pessoal, mística. 

Sou um agnóstico, mas simpatizo com o deísmo e gnosticismo, jamais com o ateísmo. Para mais postagens sobre este tema clique no label "Deus" abaixo. E vejam meu vídeo sobre a Bíblia Sagrada (Antigo Testamento):


SE O CINEMA É A SÉTIMA ARTE, QUAIS AS OUTRAS SEIS?



No verbete "Art" da versão francesa da Wikipédia (maravilhosa Internet, a maior biblioteca do mundo dentro de nossas modestas casas!) encontrei a resposta a esta pergunta. Ei-la (devidamente traduzida para o português):

“A sétima arte é uma expressão proposta em 1919 por Ricciotto Canudo para designar a arte cinematográfica.

Ricciotto Canudo foi um intelectual italiano, morando na França, amigo de Apollinaire e um dos primeiros críticos de cinema. Escreveu um livro em 1911 que intitulou La naissance du sixième art (O nascimento da sexta arte), onde considerou que o cinema realizava a síntese das “artes do espaço” (arquitetura, pintura e escultura) com as “artes do tempo” (música e dança). O cinema surgiu portanto como uma síntese de todas as cinco artes precedentes, do tempo e do espaço. O cinema é um instrumento de um novo renascimento.

Depois de ler Hegel acrescentou a poesia como a arte fundadora e escreveu Le manifeste des 7 arts (O manifesto das 7 artes), que consagrou a expressão “sétima arte” para o cinema. Em 1922, fundou a Gazette des sept arts (Gazeta das sete artes), uma das primeiras revistas de cinema.”

AFINAL, O QUE EXISTE NA CAIXA DE PANDORA? (E QUEM FOI PANDORA?)



Mais de uma vez, deparei em chats da Internet com o nick Pandora.

E vez ou outra, alguém joga na conversa uma alusão à caixa de Pandora. Mas afinal, quem foi Pandora, e o que guardava na caixa? Esta pergunta nos remete à história de Prometeu.

Literalmente, Prometeu significa previdente. Um dos Titãs, Prometeu foi incumbido por Júpiter de criar o ser humano do barro e água. Mas consternado com as deploráveis condições de vida dos homens, Prometeu subiu ao céu com Minerva, de onde trouxe para nós o fogo. Júpiter, irritado com a audácia do titã, mandou Vulcano forjar uma mulher dotada de todas as perfeições — daí o nome Pandora, do grego pan (todos) + dõron (presente), devido aos inúmeros dons e presentes recebidos dos diferentes deuses.

Júpiter deu a Pandora uma caixa fechada para que entregasse a Prometeu. Este, desconfiado, recusou-se a receber e abrir a caixa. Mas o irmão de Prometeu, Epimeteu, não resistiu aos encantos de Pandora: abriu a caixa fatídica e deixou escapar todos os males, que desde então assolam o mundo. Mas no fundo da caixa permaneceu a esperança.

Quanto a Prometeu, por ordem de Júpiter, acabou conduzido ao Monte Cáucaso e amarrado a um rochedo, onde uma águia lhe devora o fígado — para sempre.

SE OS PAÍSES RICOS FORMAM O PRIMEIRO MUNDO E OS PAÍSES POBRES, O TERCEIRO MUNDO, ONDE FICA O SEGUNDO MUNDO?

O Muro de Berlim, símbolo execrável da desumanidade do socialismo, fotografado por mim em 1985


A expressão Tiers Monde (Terceiro Mundo) foi criada pelo economista e demógrafo francês Alfred Sauvy num artigo publicado em L'Observateur de 14 de agosto de 1952. Traçando um paralelo com o Terceiro Estado do tempo da Revolução Francesa, referiu-se aos países que não pertenciam ao bloco ocidental nem ao bloco comunista. O artigo (“Trois mondes, une planète” — “Três Mundos, um planeta”) começa com este parágrafo:

Falamos facilmente de dois mundos presentes, de sua guerra possível, de sua coexistência, etc., esquecendo com frequência que existe um terceiro, o mais importante e, em suma, o primeiro cronologicamente. É o conjunto dos denominados [...] países subdesenvolvidos.

Sobre a origem da expressão, o próprio Alfred Sauvy escreveu posteriormente esta nota:

Em 1951, numa revista brasileira, falei de três mundos, sem empregar porém a expressão “Terceiro Mundo”. Criei e empreguei pela primeira vez esta expressão por escrito na revista francesa “l'Observateur” de 14 de agosto de 1952. O artigo terminava assim: “Pois enfim este terceiro mundo ignorado, explorado, desprezado como o terceiro estado quer ser, ele também, alguma coisa.” Reescrevi assim a famosa frase de Sieyes sobre o Terceiro Estado durante a Revolução Francesa. Eu não acrescentei (mas disse, às vezes, de brincadeira) que se poderia equiparar o mundo capitalista à nobreza e o mundo comunista ao clero.

O Segundo Mundo, portanto, eram os países comunistas no tempo da Guerra Fria: URSS, China e Leste Europeu.