ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO JORNAL OBSERVADOR DE PORTUGAL
ARTICLE ORIGINALLY PUBLISHED IN THE PORTUGUESE NEWSPAPER OBSERVADOR. FOR THE ENGLISH TEXT (IN BLUE), SEE BELOW.
Das centenas de disputas territoriais
actualmente em curso no mundo, apenas aquela que envolve Israel surge sempre, e
não por acaso, enquadrada em termos legais. Mais do que enquadrada – reduzida
a, e armadilhada em, termos legais. Em nenhum outro conflito ou disputa a
questão legal é tão central e invariável: o conflito em Caxemira, que envolve a
Índia e o Paquistão, nunca é qualificado em termos da sua legalidade: Caxemira
é “disputada”. Ponto final. Não há registos, por exemplo, de grandes
manifestações em Londres e Paris contra a ilegalidade da ocupação turca do
norte de Chipre, e o conflito curdo-iraquiano não desperta o mínimo interesse,
nem legal nem outro, na opinião pública ou publicada. Se na maior parte dos
casos as esferas do direito e da geopolítica são totalmente distintas e
autónomas, e analisadas tendo como pressuposto essa distinção e essa autonomia,
no caso de Israel elas são praticamente fundidas até à total indistinção. A
forma como enquadramos um conflito também é parte do conflito.
O actual conflito na Ucrânia permite uma
comparação oportuna. As análises ao exercício de legítima defesa da Ucrânia
nunca incluem, por parte dos “especialistas”, recomendações a Zelensky sobre
“proporcionalidade” e prelecções sobre a inocência dos civis russos. José
Milhazes, por exemplo, é capaz de ir à rádio de manhã defender que a Ucrânia
está a travar uma guerra defensiva e, portanto, todos os meios de defesa de que
se sirva são legítimos contra a agressão russa (“a Ucrânia tem direito a
defender-se com os mesmos meios que a Rússia emprega”) – e à noite estar numa
televisão a fazer a defesa de que Israel, travando uma guerra defensiva contra
uma organização terrorista que usa os seus próprios civis como escudos humanos
e hospitais como centros de comando (admitido pelo próprio), não tem
legitimidade de se defender plenamente (“Esta ofensiva de Israel irá despertar
um espírito anti-israelita nos países árabes e em algumas capitais europeias”).
Israel tem, pois, todo o direito de travar
uma única guerra, que é ao mesmo tempo uma guerra única: a guerra em que
ninguém morre, a não ser judeus; em que ninguém sofre, a não ser judeus; em que
ninguém é desalojado ou hospitalizado, a não ser judeus. Em que a parte
agredida tem como responsabilidade primeira a de proteger a parte agressora
mais do que a parte agredida que está à sua responsabilidade; em que Israel tem
mais deveres de protecção da população de Gaza do que o Hamas que a governa; em
que Israel é obrigado a preservar intactos os hospitais, as escolas e as
mesquitas que o Hamas armadilha e a partir dos quais ataca Israel. De acordo
com o enquadramento legal vigente que rege estas matérias sensíveis, a guerra
que não existe é a única guerra que Israel pode travar pela sua existência.
Israel tem todo o direito de travar uma guerra impossível – e nenhuma outra.
No caso (sempre único e isolado) de Israel,
o especialista em relações internacionais, tornado advogado instantâneo,
suspende o seu ofício de compreensão do mundo e activa o seu anseio de
transformá-lo: não há “análise” (que é a designação que actualmente a
propaganda atribui à propaganda) que não se sirva de expressões como “direito
internacional”, “proporcionalidade”, “crimes de guerra”. Obviamente que o uso
destas expressões, fortemente armadilhadas para paralisar a compreensão, se
dirige apenas a Israel e à sua acção, nunca aos seus agressores e às suas
agressões. Esta hiper-juridificação do conflito não é, no entanto, acidental.
Ela é essencial ao seu propósito, o qual visa sobretudo um duplo condicionamento:
(1) condicionar Israel à absoluta inacção – em termos práticos, à capitulação –
perante as agressões de que é vítima e (2) condicionar os “analistas” à escolha
entre duas escolas: a da cobardia e a da indecência. Ou seja, ou a equivalência
moral entre bebés degolados e degoladores de bebés (em termos musicais, “Imagine there’s no heaven”) ou a
superioridade moral dos degoladores de bebés (em termos musicais, “From the
river to the sea”).
A partir da articulação deste duplo
condicionamento, é possível construir a percepção generalizada de que tudo
aquilo que é feito a Israel é legítimo, mesmo que ilegal (como degolar bebés),
e de que tudo aquilo que Israel faz é ilegal, mesmo que legítimo (como punir a
degolação de bebés). Israel tem toda a legitimidade de se defender, obviamente
– desde que não se defenda. Porque defender-se é simultaneamente um direito e
um crime: exercer o direito é, ipso
facto, cometer o crime; a única forma de não cometer o crime é não exercer
o direito. Maravilhoso Catch-22. É o direito como criminalização do próprio
exercício do direito. É o direito como criminalização daquilo mesmo que o
direito tem como função assegurar. É o direito como impossibilidade de exercer
o direito. O nome deste direito anti-direito, esplendorosamente orwelliano, é
“direito internacional”.
Quando incide sobre Israel, o direito
internacional – raramente especificado e invariavelmente distorcido – constitui
a própria abolição do direito. Na medida em que visa a proscrição de um único
povo e a sua remoção da família dos povos, actuando assim como um instrumento
de discriminação legalizada, o “direito internacional” são as Leis de
Nuremberga das nações. Israel não é uma nação, é o Untermensch das
nações, é o dhimmi das
nações, criatura de classe inferior e proibida, agora como outrora, de se
defender: “forbidden to strike a Muslim,
carry arms, ride horses” (Benny Morris). O acto de atirar pedras aos
judeus por parte das crianças muçulmanas tem raízes muito anteriores ao
surgimento do corrente conflito. Constitui, como conta Bernard Lewis em The Jews of Islam (1984), um velho
fenómeno relatado por vários observadores: “To
all this the Jew is obliged to submit; it would be more than his life was worth
to offer to strike a Mahommedan”. A “dhimmização” de Israel, essa sim, não
acontece num vácuo.
Décadas de desumanização dos israelitas por
parte da imprensa ocidental conduziram à absoluta dormência moral relativamente
ao sofrimento de um dos lados do conflito. Desumanização que persiste, mesmo
após o pogrom de 7 de
Outubro. Quem se der ao trabalho de fazer um levantamento das primeiras páginas
do Público dedicadas ao
conflito desde o passado 8 de Outubro, verá que nem por uma vez o sofrimento
israelita é captado e transmitido. Em Israel, que não passa de uma grotesca
abstração militar, não existem humanos, apenas soldados; não existem casas,
apenas tanques; não existem mortos, apenas estatísticas. Todas as crianças
apresentadas, mortas ou aterrorizadas, são palestinianas. Não há mater dolorosa israelita neste conflito:
toda a Pietà é palestiniana.
Os bebés israelitas carbonizados e mutilados, as raparigas israelitas violadas
e desfiladas, os idosos israelitas mortos e humilhados nunca fazem primeira
página. Não se vêem nem se ouvem. É como se nunca tivessem morrido. É como se
nunca tivessem sequer existido. É como se fossem apenas, de novo, cinza cuspida
da chaminé de um crematório nazi e levada pelo vento: “nem
os mortos estarão em segurança”, alertou, não há muito, Walter Benjamin.
É uma segunda morte em cima da primeira. Um
novo rapto a somar ao velho. A inexistência de fotos na imprensa não é, no
essencial, moralmente diferente da nova moda que consiste em rasgar e deitar ao
lixo os cartazes com as fotos dos sequestrados em Gaza. O sofrimento judaico
não pode ser visto nem exposto em público. Sob pena de começarmos a colocar a
nós mesmos a eterna questão de Shylock: “Hath
not a Jew eyes? Hath not a Jew hands, organs, dimensions, senses, affections,
passions? Fed with the same food, hurt with the same weapons, subject to the
same diseases, healed by the same means, warmed and cooled by the same winter
and summer, as a Christian is? If you prick us, do we not bleed? If you tickle
us, do we not laugh? If you poison us, do we not die? And if you wrong us,
shall we not revenge?”
Nem uma foto dos reféns. Nem uma foto dos
bebés mortos. Nem uma foto das jovens violadas. Se compararmos esta ocultação
deliberada com as famosas fotos da guerra no Vietname, teremos uma ideia, ainda
que vaga, do ponto a que a nossa imprensa desceu. Expor o monge budista que se
auto-imola numa rua de Saigão (World Press
Photo of the Year, 1963), ou o tiro na cabeça de um suspeito vietcong por parte de um oficial
vietnamita (World Press Photo of the Year,
1968), ou a menina aterrorizada que foge, completamente nua, de um ataque
acidental de napalm (World Press Photo of
the Year, 1973), era revelar à opinião pública “the terror of war”. Onde
está a menina israelita? A menina nua, aterrorizada, sequestrada, violada,
morta? Não existe. Nunca existiu. Todas as meninas são palestinianas. Em casa,
em agonia, não há nenhuma mãe à espera da menina israelita. Porque, como as
meninas, todas as mães à espera em casa e em agonia são palestinianas. As
primeiras páginas não mentem: a menina israelita, já morta ou ainda
sequestrada, não existe. Nunca existiu.
Este conflito não é, na sua essência, sobre
território. É sobre esta menina. Não é um conflito imobiliário. Não é um
conflito geográfico. Numa coisa os anti-sionistas (isto é, os anti-semitas, de
esquerda e de direita, cada vez menos envergonhados) têm razão: este é um
conflito sobre o direito. Não sobre o direito internacional, mas sobre o
direito de existir. Sobre o direito, portanto, de que dependem todos os outros.
Sobre a existência, o direito à existência, daquela menina nua que não existe.
Os milhares (milhões?) que hoje gritam nas ruas “From the river to the sea”,
não disfarçam já que é – sempre foi e sempre será – sobre o direito de existir.
Quem viu o pogrom daquela
manhã sabe que o 7 de Outubro não é apenas mais um episódio do longo conflito.
Não é parte do conflito: é onde o conflito se parte. O 7 de Outubro não é mais
um capítulo da história do conflito – é o instante, paradoxalmente sombrio e
luminoso, crepuscular e amanhecente, em que todo o conflito se suspende, se
confessa e expõe, de uma vez por todas, o terrível segredo da sua origem e
perpetuação: se isto é um povo.
WHETHER THIS IS A PEOPLE (Portuguese text by Miguel Granja, English translation by Myrna Herzog)
Of the hundreds of territorial disputes currently taking place around the world, only the one involving Israel always appears, and not by chance, framed in legal terms. More than framed – reduced to, and trapped in, legal terms. In no other conflict or dispute is the legal question so central and invariable: the conflict in Kashmir, which involves India and Pakistan, is never qualified in terms of its legality: Kashmir is “disputed”. Full stop. There are no records, for example, of large demonstrations in London and Paris against the illegality of the Turkish occupation of northern Cyprus, and the Kurdish-Iraqi conflict does not arouse the slightest interest, whether legal or otherwise, in public or published opinion. If in most cases the spheres of law and geopolitics are totally distinct and autonomous, and analyzed based on the assumption of this distinction and autonomy, in the case of Israel they are practically merged until total indistinction. How we frame a conflict is also part of the conflict.
The current conflict in Ukraine allows for a timely comparison. Analytics of Ukraine's exercise of self-defense never include, on the part of the “experts”, recommendations to Zelensky on “proportionality” and lectures on the innocence of Russian civilians. José Milhazes, for example, is capable of going on the radio in the morning to argue that Ukraine is fighting a defensive war and, therefore, all means of defense it uses are legitimate against Russian aggression (“Ukraine has the right to defend itself with the same means that Russia employs”) – and at night be on television making the case that Israel, waging a defensive war against a terrorist organization that uses its own civilians as human shields and hospitals as centers of command (self-admitted), does not have the legitimacy to fully defend itself (“This Israeli offensive will awaken an anti-Israeli spirit in Arab countries and in some European capitals”).
Israel therefore has every right to fight a single war, which is at the same time a unique war: the war in which no one dies except Jews; in which no one suffers except Jews; in which no one is displaced or hospitalized except Jews. In which the attacked party has the primary responsibility to protect the aggressor more than the attacked party who is under their responsibility; in which Israel has more duties to protect the population of Gaza than the Hamas that governs it; in which Israel is obliged to preserve intact the hospitals, schools and mosques that Hamas traps and from which it attacks Israel. According to the current legal framework that governs these sensitive matters, the war that does not exist is the only war that Israel can fight for its existence. Israel has every right to fight an impossible war – and no other.
In the (always unique and isolated) case of Israel, the specialist in international relations, turned instant lawyer, suspends his task of understanding the world and activates his desire to transform it: there is no “analysis” (which is the designation that currently propaganda attributes to propaganda) that does not use expressions such as “international law”, “proportionality”, “war crimes”. Obviously, the use of these expressions, heavily crafted to paralyze understanding, is only directed at Israel and its actions, never at its aggressors and their aggressions. This hyper-juridification of the conflict is not, however, accidental. It is essential to its purpose, which aims above all at a double conditioning: (1) to condition Israel to absolute inaction – in practical terms, to capitulation – in the face of the aggressions of which it is a victim and (2) to condition the “analysts” to the choice between two schools: that of cowardice and that of indecency. In other words, either the moral equivalence between beheaded babies and baby beheaders (in musical terms, “Imagine there’s no heaven”) or the moral superiority of baby beheaders (in musical terms, “From the river to the sea”).
From the articulation of this double conditioning, it is possible to construct the widespread perception that everything that is done to Israel is legitimate, even if illegal (such as beheading of babies), and that everything that Israel does is illegal, even if legitimate (such as punishing the beheading of babies). Israel has every right to defend itself, obviously – as long as it doesn't defend itself. Because defending oneself is simultaneously a right and a crime: exercising the right is, ipso facto, committing the crime; The only way not to commit the crime is not to exercise the right. Wonderful Catch-22. It is law as a criminalization of the exercise of law itself. It is the law as criminalization of the very thing that the law has the function of ensuring. It is the right as the impossibility of exercising the right. The name of this splendidly Orwellian anti-law is “international law”.
When it affects Israel, international law – rarely specified and invariably distorted – constitutes the abolition of law itself. Insofar as it seeks to ban a single people and remove them from the family of peoples, thus acting as an instrument of legalized discrimination, “international law” is the Nuremberg Laws of nations. Israel is not a nation, it is the Untermensch of nations, it is the dhimmi of nations, a creature of an inferior class and prohibited, now as before, from defending itself: “forbidden to strike a Muslim, carry arms, ride horses” (Benny Morris) . The act of throwing stones at Jews by Muslim children has roots long before the emergence of the current conflict. It constitutes, as Bernard Lewis says in The Jews of Islam (1984), an old phenomenon reported by several observers: “To all this the Jew is obliged to submit; it would be more than his life was worth offering to strike Mahommedan”. The “dhimmization” of Israel does not happen in a vacuum.
Decades of dehumanization of Israelis by the Western press have led to absolute moral numbness regarding the suffering on one side of the conflict. Dehumanization that persists, even after the pogrom of October 7th. Anyone who cares to survey the front pages of the Público newspaper dedicated to the conflict since October 8th will see that not once is Israeli suffering captured and transmitted. In Israel, which is nothing more than a grotesque military abstraction, there are no humans, only soldiers; there are no houses, only tanks; there are no dead people, just statistics. All the children shown, whether dead or terrified, are Palestinian. There is no Israeli Mater Dolorosa in this conflict: the entire Pietà is Palestinian. The burned and mutilated Israeli babies, the raped and paraded Israeli girls, the dead and humiliated Israeli elderly people never make the front page. They are not seen nor heard. It's as if they never died. It's as if they never even existed. It's as if they were just, once again, ash spit from the chimney of a Nazi crematorium and carried by the wind: “not even the dead will be safe”, Walter Benjamin warned not long ago.
It's a second death on top of the first. A new kidnapping to add to the old one. The lack of photos in the press is, in essence, not morally different from the new fashion that consists of tearing up and throwing away posters with photos of those kidnapped in Gaza. Jewish suffering cannot be seen or exposed in public. Under penalty of starting to ask ourselves Shylock's eternal question: “Hath not a Jew eyes? Hath not a Jew hands, organs, dimensions, senses, affections, passions? Fed with the same food, hurt with the same weapons, subject to the same diseases, healed by the same means, warmed and cooled by the same winter and summer, as a Christian is? If you prick us, do we not bleed? If you tickle us, do we not laugh? If you poison us, do we not die? And if you wrong us, shall we not revenge?”
Not even one photo of the hostages. Not even one photo of the dead babies. Not even one photo of the raped young women. If we compare this deliberate concealment with the famous photos from the war in Vietnam, we will have an idea, albeit vague, of the point to which our press has sunk. Exposing the Buddhist monk who self-immolates on a Saigon street (World Press Photo of the Year, 1963), or the shooting in the head of a Viet Cong suspect by a Vietnamese officer (World Press Photo of the Year, 1968), or the terrified girl who flees, completely naked, from an accidental napalm attack (World Press Photo of the Year, 1973), was to reveal to public opinion “the terror of war”. Where is the Israeli girl? The naked, terrified, kidnapped, raped, dead girl? She does not exist. She never existed. All the girls are Palestinian. At home, in agony, there is no mother waiting for the Israeli girl. Because, like the girls, all the mothers waiting at home in agony are Palestinian. The first pages don't lie: the Israeli girl, already dead or still kidnapped, doesn't exist. She never existed.
This conflict is not, in essence, about territory. It's about this girl. It's not a real estate conflict. It is not a geographic conflict. In one thing the anti-Zionists (that is, the anti-Semites, left and right, who are increasingly less ashamed) are right: this is a conflict over rights. Not about international law, but about the right to exist. On the right, therefore, on which all others depend. About the existence, the right to existence, of that naked girl who doesn't exist. The thousands (millions?) who today shout in the streets “From the river to the sea”, do not hide the fact that it is – always has been and always will be – about the right to exist. Anyone who saw the pogrom that morning knows that October 7th is not just another episode in the long conflict. It is not part of the conflict: it is where the conflict breaks out. The 7th of October is no longer a chapter in the history of the conflict – it is the moment, paradoxically dark and luminous, twilight and dawn, in which the entire conflict is suspended, confessed and exposed, once and for all, the terrible secret of its origin and perpetuation: whether this is a people.
Esta é a décima vez em minha jornada terrestre que venho a
Amsterdam, em média uma a cada sete anos. A primeira foi na excursão que ganhei de bar-mitzva em 1965, quando escrevi no diário de viagem: “[...]
passeei a pé pela cidade, que é toda cortada por canais. Cada dia cai um carro
num canal.” Agora pequenas amuradas de ferro evitam essas quedas. No meu livro
de memórias O RIO, O MUNDO E EU: UMA MEMÓRIA FILOSÓFICA & SENTIMENTAL,
vencedor do Prêmio Áureo Nonato em 2022, a ser ainda publicado, narro minhas
aventuras de fumador de haxixe no início de 1972 nessa “unofficial capital
of the European drug scene”, segundo meu guia da época. Voltei à simpática capital
neerlandesa (agora “careta”) em 1984, 1986, 1988, 1996, 2007, 2009, 2014 e
2023. No diário da viagem de 2009 escrevi: “Não posso conceber uma viagem à
Europa sem uma peregrinação à velha Amsterdam (cenário de minha aventura hippie
em 1972), a cidade mais alto-astral da face da terra [...]”.
A então Câmara Municipal, atual Palácio Real, no Dam em quadro de Gerrit Berckheyde de 1672. À sua direita a Nieuwe Kerk, Igreja Nova, que também continua lá.
Domingo, 24/9/2023: PARTIDA
O europeu tem a
vantagem de poder visitar a “Europa” sem esse cansativo deslocamento de Sampa
(ou Rio) até lá. No dia da viagem você já acorda tenso. A tensão em casa chega
a um nível tal que você parte para o aeroporto com uma antecedência estúpida
(fomos de Uber) e – tendo passado pela segurança e migração – fica uma
eternidade aguardando a chamada do seu voo. Pelo menos comigo é assim.
No
terminal 3 do Aeroporto de Guarulhos, embarcamos no voo KL792 com partida às 21:45 e
tempo de voo de umas onze horas e vinte minutos. Ocupamos os assentos 55F e G
quase no fundo da aeronave, lá são mais baratos. Os aviões são cada vez mais apertados e lotados. Numa foto de 2007 eram
quatro assentos centrais e dois de cada lado, totalizando oito por fila. Agora
são três de cada lado, dez por fila.
No voo de ida, o
alto padrão da KLM, que conheço desde os anos 1980, estava irreconhecível:
aeromoças jovens, quase estagiárias, serviço estandardizado, comida sem graça,
como em qualquer outra companhia aérea europeia. Já na volta foi diferente:
aeromoças veteranas e o famoso serviço de bordo holandês com comidinhas,
bebidinhas quase o voo inteiro, como nos velhos tempos.
Segunda-feira. 25/9: CHEGADA
Choque de fuso
horário, cansaço de uma noite mal dormida. Você faz o reconhecimento da cidade.
Em Amsterdam, tudo no mesmo lugar. No centro histórico, nenhum prédio foi demolido, nenhum espigão foi erguido. Tudo igual. Você dorme à força de
sonífero para no dia seguinte, aí sim, começar a sua visita, a sua experiência
de transporte radical para uma nova realidade diferente do seu dia a dia no
qual você já se viciou: morte e renascença, metafisicamente. (Isso para quem
faz da viagem uma experiência radical, como eu; agora se você fica do outro
lado do Atlântico obsessivamente conferindo o Whatsapp, checando o e-mail, falando no telefone, lendo as notícias de nossa porca política, etc., aí seu corpo está do lado de
lá mas sua cabeça continua do lado de cá...)
Desembarcando no
aeroporto de Schiphol, compramos nossas passagens de trem até a Centraal
Station de Amsterdam. Lá chegando, adquiri um cartão de sete dias (7 dagen,
€41) + um de um dia (Dagkaart, € 9, não existe cartão de oito dias) para, com
esse investimento de cem euros, cinquenta por cabeça) usufruir livremente do
transporte público metropolitano, o que proporciona uma mobilidade tremenda.
Pegamos o metrô até a estação Waterlooplein e caminhamos até o nosso hotel, o
IBIS AMSTERDAM CENTRE STOPERA na Valkenburgerstraat 68, que por uma semana
tornou-se nosso endereço temporário. Como no filme, conseguimos A room with
a view.
Aviso aos
navegantes: hotéis no centro histórico de Amsterdam são caros, bem mais que em
outras metrópoles europeias. Nossas oito diárias custaram 1574,73 euros – 197
euros cada. Não há terrenos disponíveis para construir hotéis novos, e a
população crescente de turistas tem que contar sempre com os mesmos, ou pegar
um hotel numa “periferia”(tipo ibis Amsterdam City West) ou cidade vizinha, o que
tira toda a graça e praticidade de uma visita à encantadora Amsterdam.
Vista da janela do hotel, à semelhança do filme A room with a view.
Terça-feira, 26/9: AMSTERDAM, PRIMEIRO DIA
O pessoal
endinheirado contrata guias turísticos para conduzi-los pelas atrações da
cidade. Eu sou meu próprio guia: antes desta viagem a Amsterdam, li o Guia
Visual da Folha de São Paulo (que é uma tradução do DK Eyewitness Travel Guide
britânico) e consultei sites na Internet para montar um roteiro dia a dia, como
se tivéssemos pegado uma excursão, incluindo algumas tardes livres para dar
margem ao improviso também. Nosso passeio no primeiro dia, todo a pé,
levou-nos aos seguintes locais:
Segundo o Guia Visual (pp. 120-1), “esse museu, cujo nome
homenageia os últimos moradores da edificação, oferece ao visitante um
vislumbre de como era a vida dos ricos comerciantes instalados à beira do
Grachtengordel (Anel de Canais).” A casa pertenceu ao casal Abraham Willet,
colecionador de arte e pintor amador, e Louisa Holthuysen. Ao morrer, em 1895,
a viúva, sem filhos, legou sua opulenta residência, com a coleção de móveis
antigos, prata, cerâmica, esculturas, pinturas e fotos, à cidade de Amsterdã,
sob a condição de virar um museu com o nome do casal.
REMBRANDTPLEIN
(Praça Rembrandt)
As estátuas em tamanho natural dos integrantes do quadro “A
Ronda Noturna” que vimos em 2014 já não estão mais lá, pois a
prefeitura da cidade recusou-se a comprá-las ao preço de um milhão e meio de
euros exigido pelos escultores.
Segundo a revista inglesa Time Out, o mais bonito
cinema do mundo, combinando vários estilos: Escola de Amsterdam, art nouveau e
art déco. Durante a ocupação, os alemães mudaram o nome do cinema para Tivoli,
que passou a exibir apenas filmes alemães. O proprietário, Abraham Tuschinski,
foi assassinado pelos nacional-socialistas
(mais conhecidos como “nazistas”) nas câmaras de gás de Auschwitz.
KATTEN
KABINET (Herengracht, 497, na chamada Curva do Ouro, terça a domingo,
12-17hrs, ingressos devem ser comprados previamente no site
do museu)
O Katten Kabinet (ou
Kattenkabinet, literalmente, “gabinete dos gatos”) é um museu criado por Bob Meijer em 1990 em memória do gato laranja John
Pierpont Morgan (1966-1983), nome de um famoso banqueiro americano, que se
tornou (o gato, não o banqueiro!) um fiel companheiro no seu tempo de
estudante. A cada aniversário do bichano seu dono o presenteava com uma obra de
arte de temática felina, o que deu início à coleção. Após a morte do bichinho,
Bob, em visita ao Metropolitan Museum of Art de Nova York, deparou com uma
exposição temporária de obras do acervo do museu sobre gatos. Daí a
ideia de criar um museu em Amsterdam com uma exposição permanente semelhante.
Na década de 1980 conseguiu comprar um casarão de 1667 na área do anel de
canais, onde instalou o “gabinete dos gatos”. Além de quadros e cartazes de
propaganda ostentando esses encantadores felinos, gatos em carne e osso
circulam pelas dependências do museu.
gatos em carne e osso circulam pelas dependências do museu
Poes op stoel, Gato na cadeira, óleo sobre tela de Sal Meijer (1877-1965).
Assim como a carne que você come na Argentina não tem
similar em nenhum outro canto do mundo (outra raça de gado, outros cortes), a
batata frita com uma maionese muito especial servida em cones de papelão em três
tamanhos (pequeno, médio, grande) que você saboreia na Holanda é uma iguaria
inimitável. A Vlaams Friteshuis VleminckX é uma “lojinha” com um balcão na
frente, sem mesas, sem nenhum
conforto, que vende uma das melhores batatas fritas (friet), se não a melhor, de Amsterdam, que você come de pé na
frente da loja ou leva para comer num banco da Koningsplein (praça do rei, plein é praça) próxima, onde de quebra
você encontra um quiosque de arenques.
a batata frita com uma maionese muito especial servida em cones de papelão em três tamanhos (pequeno, médio, grande) que você saboreia na Holanda é uma iguaria inimitável
BEGIJNHOF
(entrada pela Gedempte Begijnensloot, veja no Google Maps)
Um hofje era uma
comunidade formada por várias casas em torno de um jardim que abrigava pessoas
necessitadas. Hoje em dia nessas casas moram pessoas “normais”. O Begijnhof é o
maior e mais antigo desses hofjes ainda
existentes e, como o nome indica, foi originalmente uma beguinaria (comunidade
de beguinas). Recanto tranquilo, casas em torno de um jardim com árvores e
gramados, além de uma igreja e capela, aberto à visitação, mas pede-se silêncio
aos visitantes, para não incomodar os moradores. Na parede lateral de uma das
casas vemos uma série de pedras de fachada em baixo relevo com temas bíblicos,
retiradas de casas em outros locais e restauradas. Numa dessas pedras a
legenda "De Gloyende Oven", "O Forno Ardente", cena bíblica
dos três meninos que se recusaram a adorar a estátua dourada erguida pelo rei
Nabucodonosor. Condenados a morrer numa fornalha, foram salvos por um anjo
(Daniel 3 vs 1-30).
Um hofje era uma comunidade formada por várias casas em torno de um jardim que abrigava pessoas necessitadas
Numa dessas pedras a legenda "De Gloyende Oven", "O Forno Ardente", cena bíblica dos três meninos que se recusaram a adorar a estátua dourada erguida pelo rei Nabucodonosor. Condenados a morrer numa fornalha, foram salvos por um anjo.
Dali descemos até o Dam,
com seu icônico monumento nacional em memória aos mortos na Segunda Guerra
Mundial – em cujos degraus hippies acampavam na virada no final dos anos 60 e
início dos 70 até enfim serem desalojados para que aquilo não virasse uma Praça
da Sé – e penetramos no “anel de canais” (Grachtengordel),
conjunto de quatro canais concêntricos formando quase um semicírculo: Singel,
Herengracht, Keizersgracht e Prinzengracht), aberto no século
XVII para a expansão da cidade e reconhecido em 2010 pela UNESCO como
Patrimônio da Humanidade.
descemos até o Dam, com seu icônico monumento nacional em memória aos mortos na Segunda Guerra Mundial
e penetramos no “anel de canais”
Anel de canais, conjunto de quatro canais concêntricos formando quase um semicírculo: Singel, Herengracht, Keizersgracht e Prinzengracht. Foto de Cor Harteloh. Fonte: site do Museu dos Canais.
Entramos em dois hofjes,
que são casas em torno de um jardim central que no passado abrigavam pessoas
necessitadas. É preciso abrir um portão de madeira com uma placa indicando o
horário, e você (que mora num país onde nem sempre vale o escrito) fica
inseguro, indagando: será que tá aberto mesmo? No Zon’s Hofje (Prinsengracht
159-171), menorzinho, um pouco mal conservado, corredor de acesso cheirando a
mofo, deparamos com encantadores gatos pretos. Já o Van Brienenhofje (Prinsengracht
89-133), também conhecido como De Star, nome de uma cervejaria antes lá existente, é um achado: encantador jardim, vasos de flores nas escadinhas em
frente das casas e sacadas das janelas, tudo muito primoroso. Um senhor de
certa idade morador da periferia de Amsterdam com quem conversamos contou que
era a primeira vez que entrava naquele hofje,
pois antes não sabia de sua existência. Gentilmente traduziu para nós as
informações em holandês da placa na entrada do hofje. No Cafe Winkel 43 (esquina da Prinsengracht com Westerstraat) comemos a melhor
torta de maçã da cidade, cuja massa de consistência abiscoitada tem gosto de
amêndoas. Fotografamos a Huis met de Hoofden (Keizersgracht, 123,
±altura do Dam), casa com cabeças na fachada, que abriga a Embassy of the Free
Mind.
Já o Van Brienenhofje, também conhecido como De Star, nome de uma cervejaria antes lá existente, é um achado
vasos de flores nas escadinhas em frente das casas e sacadas das janelas
Huis met de Hoofden (Keizersgracht, 123, ±altura do Dam), casa com cabeças na fachada, que abriga a Embassy of the Free Mind
Museu de arte tem que ser o primeiro passeio do dia, curtido
de cabeça fresca. São muitos os museus de arte dignos de visita em Amsterdam,
mas não se deve ver mais de um por dia: beleza em doses cavalares acaba
embotando a sensibilidade (assim como o doce de leite em excesso enjoa).
Atração obrigatória em Amsterdam é o museu que reúne uma parte substancial da
obra do gênio mentalmente perturbado que, sem jamais ter cursado uma academia,
meteu-se a ser pintor, autodidata, de quadros que destoavam dos padrões
estéticos e decorativos da época e que ninguém queria comprar. Matou-se com um
tiro no peito porque achou que seu destino era ser um fracassado e acabou
virando cult, considerado o precursor da arte moderna.
Quando inventarem a máquina do tempo, o valor arrecadado agora com o leilão de
uma única obra sua, devidamente transportado para o passado, fará dele um
milionário.
O Museu Van Gogh não tem bilheteria: você precisa adquirir
os ingressos pelo site, marcando data e hora. Não foi a primeira vez que
visitei, mas sempre vale a pena repetir a visita.
Talvez o maior museu do mundo dedicado a um único artista –
embora algumas obras de outros artistas da época também estejam expostas para comparação – e, paradoxo dos paradoxos, artista que durante sua vida
esteve longe do sucesso financeiro de outros artistas como, digamos, Rembrandt. Além da exposição de obras, o museu expõe sua biografia. História de sofrimento, de
persistência, de um fracasso em vida transmutado em sucesso estrondoso
pós-morte.
Impressionante a imensidão de obras que Van Gogh produziu – 900 quadros e
1200 desenhos, dos quais 200 e 500, respectivamente, compõem o acervo do museu
– num espaço inferior a dez anos: mil oitocentos e oitenta e pouco a 1890,
quando se suicidou. Sempre ouvimos dizer que Van Gogh não conseguia vender seus
quadros. De fato, a arte acadêmica exibida nos salões da época era mais
exuberante, decorativa, com motivos orientais, exóticos, ou de interiores
suntuosos... Os primeiros quadros de Van Gogh, como Os Comedores de Batatas, são
lúgubres, quase monocromáticos. Em Paris, o artista aprende a pintar quadros
impressionistas como os que pintores de rua vendem até hoje em Montmartre. Em
Arles, Saint-Rémy e Auvers-sur-Oise, desenvolve o estilo turbulento de cores
fortes, contrastantes, nem sempre correspondendo à realidade, traços ondulados e contornos fluidos, estilo que o
celebrizou.
Os primeiros quadros de Van Gogh, como Os Comedores de Batatas, são lúgubres, quase monocromáticos
desenvolve o estilo turbulento de cores fortes, contrastantes, nem sempre correspondendo à realidade, traços ondulados e contornos fluidos, estilo que o celebrizou
* * *
Na saída do museu, a caminho do Vondelpark próximo, fiz esta
observação: Em Amsterdam tudo é bonito. Você olha
para o chão, como é o chão? Bonito.
Olha para o lado, como é o lado? Bonito.
As casas são bonitas. As pontes, as árvores, o céu, em Amsterdam tudo é bonito.
Aí alguém dirá: tá, você estava no centro histórico, lá tudo é
bonito, mas e a periferia? Viajamos no bonde histórico (ver “Domingo”) de
Amsterdam à cidade vizinha de Amstelveen, o correspondente a ir do Rio à
vizinha Nova Iguaçu ou de Sampa à vizinha Guarulhos e... tudo também bonito. E
os rios não eram poluídos.
Aproveitamos a proximidade do Voldelpark, uma espécie de
Central Park ou Hyde Park amsterdamês, e o outono ameno (em Londres nesta época
alguns anos atrás pegamos um frio de rachar), para fazer um piquenique nesse
parque com as saladas que compramos no supermercado Albert Heijn, onipresente
em Amsterdam. A natureza sorria exuberante, até as nuvens do céu colaboravam
para compor um panorama digno de um pintor impressionista. Só que hoje em dia
os pintores cederam lugar aos fotógrafos. Num banco do parque uma placa em
memória de Sven Pinck, ex-membro atuante da Associação de Amigos do Vondelpark,
falecido em 2022, aos 51 anos: Wees lief en koester elkaar. Vier het leven!
- Sejam gentis e valorizem uns aos outros. Celebrem a vida! Enfiamo-nos parque
adentro até que resolvemos dar meia-volta e retornar ao ponto de partida. Só
que havíamos perdido o senso de direção e, quando achamos que enfim tínhamos
atingido a entrada, em verdade havíamos chegado à outra extremidade, o fundo do
parque! Parque enorme, vejam no Google Maps!
Em seu apogeu os Países Baixos contavam com mais de 10 mil
moinhos de vento, que ajudavam a combater a escassez de água. Atualmente
persistem cerca de mil. Amsterdam ainda preserva nove
antigos moinhos, o mais acessível sendo o De Gooyer, na Funenkade 7, a leste do
centro. Pegamos a linha de bonde 7 no Leidseplein e saltamos sete estações
depois em Hoogte Kadijk. O moinho abriga uma cervejaria onde se podem saborear
deliciosas cervejas artesanais, em compridas mesas coletivas ao ar livre, como num
Biergarten alemão.
Amsterdam ainda preserva nove antigos moinhos, o mais acessível sendo o De Gooyer
como num Biergarten alemão
RIJSTAFFEL NO RESTAURANTE KANTJIL & DE TIJGER (Spuitstraat
291-293 - atrás do Begijnhof)
À noite fomos num restaurante com boa cotação no Google Maps
comer o rijsttafel (literalmente, “mesa de arroz”),
lauta refeição originária da Indonésia colonial (as Índias Orientais
Holandesas) composta de vários pratos com temperos variados, servidos ao mesmo
tempo, cada um numa cumbuca ou pratinho separado, lotando a mesa, tendo por
acompanhamento arroz enrolado em folha de bananeira. Você gasta o que gastaria
em uma churrascaria rodízio cara.
Enquanto o prédio
tradicional do Museu de Amsterdam vem sendo reformado, parte do acervo está
sendo exibido numa ala da extinta “filial” amsterdamesa do Museu Hermitage
russo, à beira do Rio Amstel, perto de Waterlooplein. O museu, além de conduzir
o visitante pela história da cidade, ostenta um bom acervo de pinturas, como
retratos de grupo (de guardas cívicas, por exemplo) e panoramas da cidade. Esta
cresceu espetacularmente durante o
século XVII, de 30 mil habitantes em 1570 a 200 mil em 1700, tornando-se o
centro do comércio mundial, com o comércio colonial assumindo um papel
crescente. A invasão da cidade por tropas napoleônicas levou à coroação de Luís
Bonaparte, irmão de Napoleão, como rei da Holanda em 1806, e Amsterdam deixou
de ser uma cidade-Estado independente. Com a derrota napoleônica, Amsterdam
continuou a capital do agora Reino dos Países Baixos (Koninkrijk der
Nederlanden). No século XX a cidade sofreu a brutal ocupação nazista, e no
pós-guerra protagonizou um fenômeno novo: a contracultura jovem. A ocupação, o
primo de meu pai, Ludwig Hoffman, viu. A onda da contracultura eu vi!
ostenta um bom acervo de pinturas, como retratos de grupo (de guardas cívicas, por exemplo)
...e panoramas da cidade:Gerrit Berckheyde, A Curva no Herengracht vista da ponte de Vijzelstraat. Observe que na época ainda não havia árvores plantadas à beira do canal. Embaixo o mesmo local visto atualmente.
PASSEIO A PÉ PELO JORDAAN E ILHAS
OCIDENTAIS
Após o banho de história, passeio “guiado” pelo bairro do
Jordaan e Ilhas Ocidentais. Guiado não por um guia em carne e osso, mas por
nosso Guia Visual da Folha de São Paulo (pág. 158). Uma oportunidade de
conhecer um lado menos turístico, mais bucólico e menos apinhado de Amsterdam,
algo que só se pode fazer em cidades seguras, civilizadas. Em Salvador, metade
do Centro você não pode percorrer por problemas de segurança. Uma vergonha para
os baianos e para o Brasil!
O Jordaan é um bairro gostosinho a oeste do anel de canais.
As Ilhas Ocidentais (Westelijke Eilanden) são um conjunto de três ilhotas
residenciais quase grudadas umas nas outras, interligadas por pontes. Vejam as
fotos.
Em cima: Pedra de fachada em baixo relevo com o tema bíblico da Arca de Noé.
O Jordaan é um bairro gostosinho a oeste do anel de canais
As Ilhas Ocidentais são um conjunto de três ilhotas residenciais
Antigo depósito Vrede (Paz), hoje residencial
* * *
No final da jornada um chocolate com rum mais panqueca tipo
holandesa de amêndoas, maçã e creme de chantilly no Pancakes Amsterdam,
anexo à casa Anne Frank.
Nos meus tempos de porra-louquice em Amsterdam em 1972 de
noite me perdia pelos meandros do Paradiso, um então "clube de drogas" numa
antiga igreja, com vários ambientes, dois andares, que funciona até hoje. Só
que agora virou uma fundação (Stichting)
que organiza concertos badalados, com ingressos caros, em diferentes locais
(entre eles a sede original na Weteringschans). Senti vontade de entrar lá uma
segunda vez, de modo que, antes da viagem, escrevi um e-mail suplicando:
I'm from Brazil. In 1972 when I was 21 years old I spent
some time in Amsterdam and went almost every night to Paradiso. It wasn't as
expensive as today. Afterwards I've travelled many times to Amsterdam but never
entered Paradiso again. I have no interest in the shows from today, musically,
besides classical music and Brazilian popular music, I'm still living in the
70's (Pink Floyd, Emerson Lake and Palmer, Jethro Tull etc.)! But if you could
allow my entrance for only ten minutes inside Paradiso before the beginning of
the shows (for example, early in the morning) only to see it quickly once again
and take some photos I would be very grateful!
Ao que me responderam:
We can never guarantee this, but when it’s possible, we
always let people in for a short peep.
The best time is early morning, after 9:00 and before
noon. Just ring the bell on the left side of the building and see if we have
time.
De modo que resolvi tentar a sorte e, quando me apresentei,
uma mulher superatenciosa deixou que eu entrasse e matasse as saudades.
Nos meus tempos de porra-louquice em Amsterdam em 1972 de noite me perdia pelos meandros do Paradiso
O Rijksmuseum é um desses museus monumentais que você
encontra nas metrópoles europeias que abrigaram grandes cortes e dos quais no Brasil só o MASP consegue dar uma
pálida ideia. No pavimento 3, arte moderna. No pavimento 2 a Era de Ouro
(Gouden Eeuw), 1600 a 1700, com obras de mestres da arte neerlandesa como
Rembrandt e Vermeer. Alguns quadros icônicos, como a leiteira de Vermeer,
atraem multidões, todo mundo quer fotografar (como você vê na foto abaixo), algo desnecessário, já que dá
para fazer download das pinturas no site do museu. Convém uma dose de
paciência, você não vai empurrar as pessoas nem se enfiar na frente delas. No
pavimento 1, séculos XVIII e XIX. No subsolo, arte medieval e renascentista.
Impressionante a biblioteca de história da arte. À semelhança do Louvre, não dá
para ver tudo no mesmo dia, a não ser que você veja correndo. Optamos pela Era
de Ouro. No último dia da estadia voltamos ao museu para ver o resto.
O Rijksmuseum é um desses museus monumentais que você encontra nas metrópoles europeias que abrigaram grandes cortes
Alguns quadros icônicos, como a leiteira de Vermeer, atraem multidões, todo mundo quer fotografar
Impressionante a biblioteca de história da arte
PASSEIO DE BARCO PELOS CANAIS
Um passeio obrigatório para quem visita Amsterdam e que
sempre repetimos: o passeio de barco pelos canais de Amsterdam, com explicações
em inglês e alemão, partindo do Damrak.
* * *
E terminamos o dia repetindo a torta de maçã no Cafe Winkel 43 e curtindo o anoitecer
pelos canais amsterdameses.
Mais uma casa da Era de Ouro (1620) de beira de canal aberta
à visitação, suntuosamente mobiliada e decorada, com um agradável jardim. Ao
contrário das outras casas visitáveis, aqui você pode se sentar nas poltronas e
cadeiras, e na velha cozinha uma senhora simpática, que mais parece voluntária
do que funcionária, serve um café com biscoitos e, se você puxar conversa, o
papo (em inglês) vai longe. Para nós turistas Amsterdam é a cidade perfeita,
mas ela reclamou do excesso de bicicletas e outras “mazelas” locais...
* * *
Hoje é sábado, Amsterdam está fervendo de gente! Lotada!
Sentados à margem de um canal com outras pessoas
(tipo uma “amurada da Urca”), fizemos a degustação das bitterballen, uns croquetes de carne, só que redondinhos, em forma
de almôndegas. Compramos na Heertje
Friet (Herengracht 169), perto da Casa Bartolotti, um fast food de
batatas fritas caseiras (huisgemaakte friet), croquetes, bitterballen e outras especialidades locais met liefde gemaakt (preparadas com amor). Vejam o vídeo.
PASSEIO
A PÉ PELOS CANAIS HISTÓRICOS
Em seguida, passeio a pé pelos canais históricos, seguindo
um roteiro do nosso Guia Visual da Folha de São Paulo (pág. 160). A caminhada
começa na Schreierstoren, “uma antiga torre da muralha medieval que cercava a
cidade”, envereda pelo Lastage,
bairro sossegado, por onde eu nunca havia passado antes, adjacente ao popular
“Red Light District” (a zona de prostituição e shows eróticos), com seus barquinhos, reflexos das casas nas águas, pontes, árvores,, flores, um homem levando para passear seu cão, mas como depois
o roteiro se tornasse por demais intricado e eu a toda hora me perdesse,
abortei-o nas proximidades de nosso hotel. Mas valeu. Vejam as fotos.
flores
ponte
um homem levando para passear seu cão
reflexos das casas nas águas
* * *
O restante do dia foi dedicado à gastronomia e à arte
de flanar: voltamos ao Heertje Friet, desta feita para comer batatas
fritas, bitterballen e croquete
(foto), flanamos pelos canais ao entardecer, saboreamos a melhor panqueca da
cidade, em The Pancake Bakery (Prinsengracht, 191) e, com o cair da
noite, curtimos os canais à luz de “lampiões” – são lâmpadas elétricas mas
simulam velhos lampiões, luz tênue, em países onde não impera a lei e a ordem
dariam margem a assaltos seriais.
curtimos os canais à luz de “lampiões” – são lâmpadas elétricas mas simulam velhos lampiões
batatas fritas, bitterballen e croquete
Domingo, 1/10: AMSTERDAM, SEXTO DIA
PASSEIO
NO BONDE HISTÓRICO
Existe uma associação que preserva bondes antigos pondo-os
para funcionar aos domingos, numa antiga linha desativada até Amstelveen, e na
linha de bonde normal pelo centro de Amsterdam. Os bondes são operados por
motorneiros e cobradores voluntários usando os uniformes de antigamente, e você
paga a tarifa dentro do bonde, como era no passado. A linha para Amstelveen,
que pegamos, parte de meia em meia hora, entre 11 e 17 horas, da
Haarlemmermeerstation. Para chegar lá pegue a linha 2 do bonde convencional,
salte na estação Amstelveenseweg e pegue a rua com este nome em direção à praça
com as árvores. O passeio de ida e volta custa €7,50 – o passageiro pode saltar
em qualquer estação intermediária ou no ponto final, dar um “rolê”, e depois
pegar um próximo bonde, de modelo diferente.
uma antiga linha desativada até Amstelveen
e na linha de bonde normal pelo centro de Amsterdam
O percurso atravessa uma aprazível
área de bosque (Het Amsterdamse Bos), casas à beira de
um riacho de águas cristalinas, tudo bem cuidado como em cidades de
brinquedo. Devido a uma obra, o bonde não está chegando ao centro de
Amstelveen, parando num bairro residencial, onde vimos um antigo moinho
restaurado funcionando como restaurante, um parque, flores nos postes e
casarões de filme de Hollywood sem grades nas janelas nem muros altos impedindo
a visão por quem passa pela rua.
casas à beira de um riacho de águas cristalinas, tudo bem cuidado como em cidades de brinquedo
onde vimos um antigo moinho restaurado funcionando como restaurante
casarões de filme de Hollywood sem grades nas janelas nem muros altos impedindo a visão por quem passa pela rua
* * *
Descansamos no hotel e saímos mais tarde do que de costume
para pegar um horário diferente e ver a Amsterdam noturna. Caminhada à luz dos "lampiões", pelos canais (na penumbra sem medo de assalto), da Waterlooplein até o Peppino, restaurante italiano com excelentes pratos de massa, que pode ser acompanhada de um cálice de vinho (não precisa comprar a garrafa inteira), e você tem a opção de se sentar numa mesa ao ar livre – embora corra o risco de ter que aturar algum fumante numa mesa próxima – e ficar acompanhando a muvuca naquela esquina movimentada perto do badalado Leidseplein. Pegamos o bonde até perto do Dam e voltamos ao hotel
atravessando o burburinho noturno do bairro da luz vermelha.
Segunda-feira, 2/10: AMSTERDAM, SÉTIMO DIA
Voltamos ao Rijksmuseum para rever a Eregalerij (Galeria de
Honra) que reúne os pontos altos do museu (Vermeer, Rembrandt e cia.), no
Pavimento 2, e ver o Pavimento 1 (sécs. XVIII e XIX) e subsolo (arte medieval e
renascentista) que haviam faltado. Em seguida, repetimos a visita de 2014
ao Museum van Loon, em
mansão do século XVII na Keizergracht, com a coleção particular reunida pela
família, além da rica decoração e mobília. Depois compramos chocolates e uma
camiseta do Bulldog para o Marcinho e degustamos comidinhas (batatas fritas,
arenques) e encerramos o sétimo e último dia de nossa gloriosa estadia em
Amsterdam no mesmo restaurante italiano do dia anterior. Como dizia a vovó:
“Acabou-se o que era doce, quem comeu regalou-se”.
Voltamos ao Rijksmuseum
Pavimento 1 (sécs. XVIII e XIX): Vista da Floresta, óleo sobre tela de 1848 de de Barend Cornelis Koekkoek. De todos os paisagistas neerlandeses Koekkoek talvez seja o mais romântico.
subsolo (arte medieval e renascentista: A cozinha bem suprida, óleo sobre painel de 1566 de Joachim Bueckelaer
* * *
UMA REFLEXÃO POLÍTICO-SOCIOLÓGICA
A nova sociedade não se constrói a ferro e fogo. Constrói-se
por uma espécie de consenso, de contrato social, em que a totalidade (ou quase)
dos cidadãos decide que quer viver em uma sociedade funcional. Você não tem uma
minoria açambarcando os recursos que deveriam ser coletivos. A sociedade
funciona em cada detalhe: a condução sai em horários regulares e com intervalos
curtos, não fica esperando lotar para arrecadar mais dinheiro. Quase todos
preferem a bicicleta e assim o trânsito não dá nó. A fila do supermercado
avança qual linha de montagem. É o pacto social pela funcionalidade, e todos saem
ganhando. Moradores instalam bancos na frente das casas para que o transeunte
possa descansar uns momentos. A prostituição é um comércio como outro qualquer,
não é praticada às escondidas. Os rios e canais são limpos, ninguém lança
esgoto clandestino ou lixo neles. As vitrines ficam expostas à noite sem grades
de ferro. As casas não se escondem atrás de altos muros. Não se veem cães ou
gatos abandonados pela via pública. Não foi preciso fuzilar ninguém no paredón nem decapitar na guilhotina nem
expropriar os bens de capitalistas “gananciosos” para atingir esse avanço
social. Não é ideologia nem doutrina, não é de esquerda nem direita, foi o que
observei com meus olhos e cérebro. Quem quiser pode ir lá conferir.
Terça-feira, 3/10: VOLTA
Na volta, vale a canção do Lennon: The dream is over.
Mas a vida é longa, e voltarei a Amsterdam uma décima primeira vez, nem que
seja como fantasma para assombrar os canais.
Um detalhe: no controle de bagagem do aeroporto o scanner
separou minha mala para inspeção visual, e os seguranças (sempre gentis) foram
diretos (em meio a tanta roupa e tralha) à inocente latinha de polvilho Granado
suspeitando que se tratasse de outro tipo de pó!
Ficaram para a próxima viagem: Poezenboot (o barco dos
gatinhos; reserva via depoezenboot@gmail.com), Museu dos Canais, Coleção Six e Palácio Real (que admite visitantes quando não está sendo usado em cerimônia oficial).